Transnacionais, os novos “coronéis” do campo

QUESTÃO AGRÁRIA Se quem mandava antes eram os latifundiários, hoje são as grandes corporações que estão por trás da concentração de terra.

Patrícia Benvenuti
da Redação

UMA EMBOSCADA executada por “agentes” de uma empresa privada de segurança, no dia 16 de abril, deixou sete camponeses feridos na Fazenda Espírito Santo, no município de Xinguara, no sul do Pará. Munidos de armas de grosso calibre, os seguranças particulares da Agropecuária Santa Bárbara atiraram contra integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que, desde fevereiro, permanecem acampados na área.
Por pouco, o incidente não repete o massacre de Eldorado dos Carajás, que, por coincidência, também ocorreu no sul do Pará, e quase no mesmo dia, 17 de abril de 1996.
Na chamada curva do “S”, 19 sem-terra foram mortos e centenas ficaram feridos depois de uma ação da Polícia Militar para conter os manifestantes que, depois de dias de marcha, protestavam na rodovia PA-150.
As recentes tentativas de assassinato em Xinguara demonstram que, de 13 anos para cá, pouco mudou na situação de violência no campo brasileiro. De acordo com o último relatório Conflitos no Campo Brasil, elaborado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) e divulgado no dia 28 de abril, os enfrentamentos continuam uma constante para milhões de camponeses, indígenas, remanescentes de quilombo e outras populações.
Os dados da CPT apontam uma redução, em 2008, no número de conflitos em relação ao ano anterior, passando de 1.538 para 1.170. Entretanto, o número de pessoas assassinadas permaneceu o mesmo, 28, indicando que, apesar de reduzidos, os embates se tornaram mais violentos: enquanto em 2007 a média era de uma morte para 54 conflitos, em 2008, tal proporção subiu para um assassinato a cada 42 confrontos.
Amazônia, o grande foco
Apesar de todas as regiões brasileiras apresentarem índices elevados de concentração da terra e, consequentemente, de violência no campo, é na Amazônia que a situação tem se tornado mais preocupante. De acordo com o relatório da CPT, em 2008, 47% dos conflitos ocorreram no território amazônico, mais da metade deles atingindo, diretamente, comunidades tradicionais.
A área também foi responsável por 72% dos assassinatos – somente no Pará, ocorreram 13 das 28 mortes em todo o Brasil.
O avanço da violência na Amazônia, na avaliação do advogado e membro da CPT José Batista Afonso, está ligada ao aparecimento de novos atores na estrutura fundiária brasileira: as empresas transnacionais e os megaconglomerados econômicos. Se antes o latifúndio era representado pela figura do “coronel”, o dono de todas as terras da região, agora esse papel fica com grandes grupos econômicos, que vêm adquirindo terras para a expansão de seu capital.
O foco na Amazônia, explica Afonso, está explicado justamente pela possibilidade de exploração das riquezas que a região possui, especialmente com a alta crescente nos preços de produtos como a soja, a carne e os recursos minerais no mercado internacional. “Sem dúvida nenhuma, a intensificação da frente da pecuária, a expansão das monoculturas, principalmente da soja, e a frente da mineração têm provocado uma corrida violenta em direção às riquezas da Amazônia”, avalia.
Um exemplo disso é o grupo Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas, que, sozinho, comprou cerca de 500 mil hectares no sul do Pará em apenas dois anos. Tal caso serve, ainda, para ilustrar a aquisição irregular de terras públicas na região. Tramita na Vara Agrária de Redenção um processo pedindo o cancelamento da compra da Fazenda Espírito Santo. As terras, que pertencem ao Estado do Pará, teriam sido repassadas irregularmente por membros da família Mutran, que, na época, detinham o título de aforamento da propriedade.
Somente no Pará, mais de 6 mil títulos de terras registrados nos cartórios do Estado contêm irregularidades, de acordo com um estudo recente do Instituto de Terras do Pará (Iterpa), em conjunto com outras entidades. Juntos, os papéis representam mais de 110 milhões de hectares, em áreas possivelmente griladas.
Comunidades na mira
O avanço da violência na Amazônia contribui também para o aumento da agressão contra as populações tradicionais. Segundo o relatório da CPT, em 2007, essas comunidades representavam 41% dos envolvidos em conflitos no Brasil; em 2008, essa proporção passou para 53%, reduzindo de 44% para 36,3% a participação de movimentos de sem-terra, que, até então, eram os principais protagonistas do lado dos excluídos.
No caso específico da região amazônica, as comunidades tradicionais representam, hoje, 65,4% dos atores implicados nesses embates, evidenciando a cobiça do capital por novas áreas. “Populações como os ribeirinhos, indígenas e remanescentes de quilombo estão vendo suas terras sendo invadidas e destruídas e sofrerem os efeitos da contaminação em função da expansão desses grandes investimentos, que acabam desterritorializando esses povos que residem ali há muito tempo”, explica Batista Afonso.
A violência no campo também vem vitimando pessoas que se mudam para a Amazônia, motivadas pelas promessas de empregos que viriam com a construção de grandes obras. Nesse aspecto, Afonso também critica o governo federal, que, por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), tem contribuído para a migração de famílias pobres, especialmente vindas do Nordeste.
“Na região, por exemplo, do sul e sudeste do Pará, a migração se dá em função dos projetos de mineração que estão sendo abertos pela Companhia Vale e por projetos de construção de hidrelétricas, que estão dentro do PAC e que obedecem ao interesse desses grandes grupos econômicos. Ao chegar, essas famílias, não tendo alternativa, ingressam principalmente em dois movimentos, o de ocupação urbana e o de ocupação rural”, pontua.

Fonte: Jornal Brasil de Fato – http://www.brasildefato.com.br/

Comentários

‘Informalidade reflete descompasso entre a realidade e o marco legal’

JU - Quais as principais conclusões da obra?
Buainain - Algumas conclusões apenas confirmam e reafirmam teses conhecidas e que ainda não foram devidamente absorvidas pela sociedade e pela política pública, como, por exemplo, a de que o Brasil continua a conviver com uma população rural expressiva, de mais de 30 milhões de pessoas, cifra superior à população total de muitos países europeus e da América Latina.

A segunda é a reconfirmação da importância da ocupação agrícola. Ao contrário da tradição do desenvolvimento capitalista nos países desenvolvidos, onde a participação da agricultura na ocupação é baixa e não supera os 5%, as ocupações agrícolas absorviam em torno de 17% da população ocupada brasileira em 2000, conforme dados do Censo Demográfico de 2000. Isto equivale a quase 12 milhões de pessoas.

Uma terceira constatação refere-se à evolução da população ocupada na agricultura, que parecia estar em queda livre na última década em razão da modernização tecnológica do agronegócio. No entanto, quando se toma um período mais longo se percebe que a população ocupada na agricultura ficou praticamente estável entre 1996 e 2006, em 16 milhões de pessoas -é bom esclarecer que as fontes de informações são diferentes e por isto os números contabilizados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio [PNAD] parecem às vezes contraditórios com os do Censo Demográfico.

Outra conclusão interessante, que o Claudio Dedecca já tinha chamado a atenção em entrevista recente ao Jornal da Unicamp, é a importância e o crescimento do trabalho não-remunerado, que cresceu de 3 milhões para 4,1 milhões de pessoas neste mesmo período.

Deixando os números de lado, o livro confirma a enorme heterogeneidade das relações de trabalho na agricultura. Aí convivem relações arcaicas, já superadas há décadas nos países desenvolvidos, com relações próprias da sociedade contemporânea, inclusive algumas que vêm sendo questionadas, como a flexibilização de conquistas trabalhistas do passado e re-precarização do emprego.

Portanto, quando se olha a fotografia do emprego e trabalho na agricultura brasileira, a grande marca é a heterogeneidade, que por sua vez reflete várias "heterogeneidades": a produtiva, regional, social, organizacional e institucional. Sob qualquer dimensão que se olha a foto, a heterogeneidade aparece em destaque.

JU - Então seria possível voltar à idéia de um Brasil moderno e outro arcaico e quem sabe associá-lo às regiões?
Buainain - Ainda que as diferenças regionais sejam marcantes, as conclusões do livro não sustentam a tese dos dois Brasis. Não há dois, há apenas um, que continua estruturalmente heterogêneo, e no qual as relações arcaicas estão profundamente articuladas com processos econômicos e produtivos que são comumente identificados como modernos, competitivos e eficientes.

Nós não precisamos comparar São Paulo com um estado do Nordeste ou do Norte para constatar a heterogeneidade, a convivência do que estamos chamando de arcaico e contemporâneo. Em uma mesma empresa aqui em São Paulo podemos encontrar o trabalhador assalariado permanente, com carteira assinada e os direitos trabalhistas respeitados; o trabalhador assalariado temporário, com carteira assinada; o trabalhador temporário informal, contratado por intermédio do conhecido gato, que não goza de nenhuma proteção e trabalha em condições muito precárias, para dizer o mínimo. Nesta mesma empresa, vamos encontrar trabalhadores ganhando salário mínimo com empregados percebendo mais de 20 salários mínimos, e o analfabeto trabalhando ao lado do escolarizado, em geral sob supervisão de um agrônomo que pode até ter pós-graduação.

No vizinho desta empresa, que provavelmente utiliza tecnologia de ponta, podemos encontrar um agricultor familiar que aplica técnicas bem menos avançadas, e que luta com dificuldades para sobreviver em um mercado cada vez mais exigente e competitivo. As comparações poderiam prosseguir: pensem no agronegócio de Ribeirão Preto, Piracicaba e Campinas e no Vale do Ribeira; ou ainda a situação conflagrada do Pontal de Paranapanema, onde nem os direitos de propriedade - por onde começa o capitalismo - estão assegurados e alocados com transparência.

JU - Qual a importância do trabalho na agricultura no caso brasileiro?
Buainain - Além da importância quantitativa, que já mencionei acima, é importante destacar alguns aspectos qualitativos. Nós não temos consciência de que no Brasil o processo de urbanização foi extremamente rápido. Em pouco mais de 50 anos, a ocupação agrícola caiu de 70% para 15%. O resultado é conhecido: inchaço das cidades, que cresceram de forma desorganizada, com déficits crônicos e estruturais de infraestrutura básica e que hoje são responsáveis pelo quase caos urbano que caracteriza a maioria das metrópoles e grandes cidades brasileiras.

Em 2006, o trabalho na agricultura absorvia um contingente estimado de quase 13 milhões de pessoas e a população econômica ativa ocupada na agricultura era de aproximadamente 17 milhões. Uma boa maneira de avaliar a importância de algo é examinar as perdas e ganhos que adviriam de adotar alguma alternativa. Aplicando tal critério ao trabalho agrícola, vemos que ele é muito mais importante do que os números - já impressionantes por si só - podem sugerir.

Uma boa parte desta população simplesmente não encontraria qualquer possibilidade de inserção produtiva sustentável nas cidades, nem grandes nem pequenas. Os trabalhos não-qualificados, que antes absorviam a população rural, hoje exigem um nível de qualificação e educação formal que já exclui as pessoas que estão hoje trabalhando na agricultura. Portanto, eu considero estratégico preservar, melhorar as condições e ampliar as oportunidades de trabalho na agricultura.

JU - Qual é a situação desses trabalhadores?
Buainain - Dos cerca de 13 milhões de trabalhadores com remuneração, quase 4 milhões trabalham para consumo próprio e um contingente de 500 mil trabalha sem remuneração, em unidades familiares. A primeira constatação geral é que, embora o número absoluto de pobres vivendo nas cidades tenha superado o dos que vivem no meio rural, a proporção de pobres rurais é ainda superior. Isto significa que as condições de vida dos trabalhadores rurais, pelo menos em termos de renda e acesso às necessidades básicas, são inferiores à dos trabalhadores ocupados em atividades industriais e no setor de serviços.

Para se ter uma idéia, dentre os trabalhadores na agricultura remunerados, em 2006, 40% tinham rendimento inferior ao salário mínimo, e o pior é que a evolução no período 1996-2006 - caracterizado tanto pela elevação do salário mínimo e do rendimento do trabalho em geral como pela distribuição de renda - não revela melhora substantiva.

Em segundo lugar, há um forte e crescente contraste nas condições de trabalho dos empregados permanentes e dos temporários, tanto em termos de remuneração como de proteção social ampla. Em terceiro, o nível de qualificação do trabalhador rural é baixo. Para se ter uma idéia, apenas em torno de 6% dos empregados na agricultura tinham 8 anos ou mais de estudo. Isto dificulta a eventual reinserção em outras atividades produtivas, que exigem nível de educação e de qualificação mais elevados.

É difícil apresentar a situação geral, já que um dos aspectos centrais do livro foi evidenciar a existência de diferentes perfis ocupacionais da mão-de-obra rural, que refletem estruturas produtivas diferenciadas entre os estados e regiões, disparidades no grau de desenvolvimento assim como fatores culturais e históricos. É de fato um mosaico bem complexo de situações sociais e econômicas que inclui desde o trabalho não-remunerado no interior da agricultura familiar, o trabalhador precário sem qualquer proteção até o assalariado permanente, sindicalizado e protegido pela legislação trabalhista vigente.

JU - Voltando ao êxodo rural. Quais foram os reflexos desse movimento a) no campo e b) nas cidades?
Buainain - Foram muitos. Eu já comentei acima que o crescimento desordenado das cidades está associado à migração massiva, violenta e acelerada que ocorreu na segunda metade do século XX. Não há dúvidas de que a desaceleração do crescimento econômico a partir do final da década de 80, a crise financeira do Estado e reformas estruturais com estagnação econômica nos anos 90 contribuíram para agravar alguns dos sintomas. Mas a causa de fundo foi a migração acelerada, que mesmo antes da crise tinha reflexos negativos nas cidades. Os migrantes até conseguiam emprego, mas a oferta de infraestrutura de saneamento, habitação, escola, saúde etc. era insuficiente para atender uma população que não parava de crescer.

O principal reflexo no campo é o esvaziamento do meio rural, que mantém a maioria dos municípios brasileiros em situação de baixo dinamismo econômico, que por sua vez reforça a falta de perspectiva da população rural e alimenta a migração. A estrutura agrária que caracteriza a maioria do país, com elevada concentração da propriedade da terra, é em parte responsável por esta deformação na ocupação do território, mas a migração acentuou o esvaziamento a ponto de inviabilizar milhares de municípios, com administrações mantidas por transferências fiscais da União e população dependente de aposentadoria e programas sociais como o Bolsa Família.

JU - Qual é a situação dos trabalhadores rurais no que diz respeito ao direitos trabalhistas, incluída aí a previdência social?
Buainain - A situação não é nada boa. Em 2006, apenas 9% dos ocupados agrícolas eram empregados com carteira assinada; pouco mais de 3 milhões eram empregados sem carteira. Quando se consideram os ocupados com contribuição para a previdência social, o percentual era de apenas 22,7%. Ou seja, dos 16,3 milhões de ocupados, pouco mais de 3 milhões tinham contribuição para a previdência.

Como, felizmente, a proteção é universal e as pessoas estão vivendo mais, este quadro projeta um agravamento da situação da previdência rural, que hoje já causa bastante polêmica.

A situação trabalhista é um nó que precisa ser desatado. Nós sabemos que a legislação trabalhista tem origem urbana e reflete principalmente as condições de trabalho dominantes nas atividades urbano-industriais. Sabemos também que a produção agropecuária tem especificidades, em particular a sazonalidade, que precisam ser melhor contempladas e equacionadas na legislação.

Em muitas situações, a informalidade reflete as dificuldades criadas pelo descompasso entre marco legal e a realidade do campo; mas em muitas outras situações reflete as condições desfavoráveis do trabalhador rural para adquirir e fazer valer direitos de cidadania, a ausência ou insuficiência do Estado e o atraso de empregadores que ainda não incorporam que as obrigações sociais das empresas vão mais além de gerar um emprego de má qualidade e pagar um salário.

JU - Qual o papel do agronegócio nesse contexto?
Buainain - O agronegócio é uma designação genérica, que ajuda a promover a importância efetiva das atividades que têm como base a produção agropecuária mas que também confunde a compreender a diversidade estrutural da agricultura brasileira. Mesmo quando se considera a mesma atividade, temos configurações muito distintas.

Por exemplo, o agronegócio do açúcar e álcool em São Paulo, que talvez já devesse ser chamado de produtor de bioenergia, é muito distinto do setor sucroalcooleiro do Nordeste; idem para a pecuária praticada nas regiões Sul, Sudeste e em Mato Grosso do Sul em relação àquela do Nordesde, Norte e algumas áreas de fronteira.

O dinamismo do agronegócio tem sido responsável tanto pela expulsão de mão-de-obra como pela geração de empregos e retenção de gente no campo. Quando se considera a série histórica de evolução da ocupação, é bem clara a associação entre o crescimento do agronegócio e do emprego.

Na maior parte da década passada, a agricultura atravessou uma crise e o nível de ocupação caiu. Quando o setor recuperou o dinamismo e voltou a crescer a partir de 1998/99, a ocupação voltou a subir. E cresceu de forma quase contínua até 2006. Isto mostra que, pelo menos em parte, a migração ocorre por falta de opção de trabalho no meio rural.

Um ponto importante é que a diversidade produtiva, que explica em parte a heterogeneidade das relações sociais no campo, também explica em parte o que poderíamos chamar de resistência do emprego na agricultura. O que observamos é que as reduções do nível de emprego em alguns segmentos são compensadas pela criação de novos postos de trabalho em outras atividades. A mecanização da colheita da cana, absolutamente necessária para eliminar o corte manual, reduz o emprego, e a expansão da produção de flores ou de frutas, cria novos empregos. Tem uma mudança de perfil, que aponta para um nível mais elevado de qualificação e escolarização, e é preciso preparar a população rural para isto.

JU - E da agricultura familiar?
Buainain - O foco do livro não é, como eu disse no início, a agricultura familiar, mas é inegável a sua importância para a geração de ocupação e retenção das famílias no meio rural. Uma constatação importante é que as ocupações remuneradas na agricultura não deram conta de absorver o pessoal ocupado, e que o trabalho não-remunerado cresceu de 3 milhões para 4,1 milhões entre 1996-2006. Esse contingente fica retido em estabelecimentos familiares, subocupado em atividades de baixíssima produtividade, trabalhando cada vez menos horas por falta de opções e sem remuneração direta. É uma das causas da pobreza rural.

Estas mesmas pessoas estão inseridas precariamente em atividades fora da agricultura familiar, sem proteção e ou direitos. Aproveito a pergunta para fazer propaganda do livro Agricultura Familiar e Inovação Tecnológica, publicado no início de 2008 pela Editora da Unicamp na Coleção Agricultura, Instituições e Desenvolvimento Sustentável. Neste livro, de nossa autoria em parceria com colegas da Unicamp e de várias outras universidades, discutimos este assunto com base nos dados do censo de 96.

De lá para cá muita coisa mudou, mas considero que as teses do livro são inteiramente válidas. Mas de qualquer maneira teremos que esperar a publicação do novo Censo Agropecuário para avaliar melhor as transformações e o papel da agricultura familiar no período mais recente.

JU - Qual o papel dos sindicatos e das instituições em geral no funcionamento do mercado de trabalho na agricultura?
Buainain - O quadro institucional mudou nestas últimas décadas, com a democratização e em particular com a Constituição de 1988. Sindicatos rurais e a Contag, que nos anos 50 e 60 tiveram um papel importante na aprovação do Estatuto do Trabalhador Rural, por exemplo, e até no Estatuto da Terra, já no regime militar, voltaram a se fortalecer; paralelamente, surgiram outros sindicatos e movimentos sociais, também muito atuantes.

O Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos [Dieese] -, que pode ser considerado um think tank dos sindicatos, ganhou musculatura e, com sua assessoria, conflitos trabalhistas incorporam negociações embasadas em estudos, avaliações mais objetivas e assim por diante.

Também é notável o desenvolvimento do Ministério Público do Trabalho e da Justiça do Trabalho. A atuação destas duas instituições impôs e vem impondo mudanças significativas nas relações de trabalho. O primeiro supervisionando o cumprimento das leis e o segundo julgando conflitos e punindo as ilegalidades. Hoje uma empresa constituída, mesmo protestando que a lei é inadequada, pensa duas vezes antes de contratar de forma irregular, pois sabe que a punição pode ser severa.

De outro lado, evoluiu muito o poder de negociação dos sindicatos rurais, que certamente enfrentam muito mais dificuldades do que os urbanos. O trabalhador rural está mais disperso, uma grande proporção tem ocupação temporária e trabalha em vários locais segundo a época do ano. Tudo isto dificulta o trabalho de organização e sindicalização, mas mesmo assim é muito claro que os sindicatos têm tido um papel relevante. Isto é evidente na celebração de acordos coletivos de trabalho em vários setores e vários estados.

JU - Em sua opinião, o governo tem agido satisfatoriamente na formulação de política públicas que atenuem o problema? O que pode ser feito, nesse âmbito, para o país deixar de conviver com essas práticas e distorções que remontam ao século XIX?
Buainain - Prefiro falar do Estado e não do governo. O livro documenta e analisa situações e transformações estruturais que transcendem um governo específico. Em minha opinião, as mudanças positivas em curso estão mais associadas à institucionalidade criada após a redemocratização, da qual a Constituição de 88 é um marco, do que a ações dos governos que passaram e do atual. A minha visão destes processos valoriza os inquestionáveis progressos na situação social e nas relações de trabalho no campo.

Se o foco é o governo, sempre é fácil encontrar deficiências: eu apontaria falhas em relação à capacitação profissional do trabalhador rural e na educação no meio rural. Também falta liderança ou participação efetiva do setor público na reavaliação da legislação trabalhista. Neste campo, as divergências entre trabalhadores e empregadores são grandes e os conflitos, intensos. Esta pode muito bem ser uma daquelas situações onde os dois lados têm suas razões legítimas, e que a falta de uma boa intermediação favorece o impasse e a reprodução dos conflitos.

Em relação à superação de situações arcaicas, o livro propõe a adoção da Agenda do Trabalho Decente como referência estratégica para orientar as ações do setor público e da sociedade. Esta Agenda não pode ser tratada como Convenção formal entre o Brasil e a OIT mas, para ser efetiva, deve se transformar em um Pacto abraçado por toda a sociedade que precisa definir as situações inaceitáveis e assumir uma postura de intransigência radical em relação a elas. E os governos devem agir para assegurar o respeito ao acordado.

Também é necessário apoiar algumas transformações difíceis, mas necessárias. O corte manual da cana é emblemático. O governo deveria facilitar a mecanização, a requalificação e realocação da mão-de-obra excedente, seja como assalariados em outros setores seja como beneficiários de assentamentos e de demais políticas públicas. São apenas exemplos dos muitos desafios a serem enfrentados e de alguns caminhos. Tudo isto é tratado em profundidade e com muita objetividade no livro.

Quem é
Antônio Márcio Buainain é graduado em Direito e Economia, doutor em Economia, professor do Instituto de Economia (IE) da Unicamp e pesquisador do Núcleo de Economia Agrícola e do Meio Ambiente (NEA) do IE e pesquisador associado do Grupo de Estudos sobre Organização da Pesquisa e da Inovação (Geopi), do Instituto de Geociências da Unicamp (IG). Dedica-se a estudos de desenvolvimento rural. É autor e co-autor de 14 livros sobre o assunto. Destacam-se dois títulos publicados em 2007 e 2008 pela Editora da Unicamp: Luta pela Terra, Reforma Agrária e Gestão de Conflitos no Brasil e Agricultura Familiar e Inovação Tecnológica no Brasil: características, desafios e obstáculos.

Serviço
O livro Emprego e Trabalho na Agricultura Brasileira foi publicado pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura, organismo internacional vinculado à OEA, no âmbito da Série Desenvolvimento Rural Sustentável (DSR), do Fórum DSR. A obra é resultado de um seminário de dois dias realizado na sede da Contag em dezembro de 2007, que reuniu pesquisadores, técnicos do setor público, líderes sindicais e representantes de organismos internacionais e da sociedade civil. Teve como promotores, além do Instituto de Economia da Unicamp, Contag, Dieese, OIT, Nead e Banco do Brasil. O exemplar pode ser solicitado diretamente ao IICA - SHIS Qi 3, Lote "A", Bloco "F", - Centro Empresarial Terracota - Lago Sul, Brasília, CEP: 71.605-450, www.iica.org.br. Em breve será disponibilizado na página do Fórum DRS (http://www.iicaforumdrs.org.br).

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.anicamp.br/

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A marcha da morte do general Sherman (parte IV)

Uma das maiores máculas da Guerra de Secessão norte-americana (1861-65) foi a campanha de devastação realizada pelo general William Tecumseh Sherman contra os estados rebelados do Sul. Arrasando preferencialmente os campos, as fazendas, as fábricas, as ferrovias, as cidades dos confederados, encurtou a guerra mas encheu os americanos de pavor: “A mais monstruosamente bárbara das marchas dos bárbaros”.

Um general moderno

Para Lidddel Hart, os famosos líderes das divisões blindadas alemãs da Segunda Guerra Mundial, como os generais Guderian e Rommel, se abeberaram nos ensinamentos de Sherman, estrategista que privilegiou o movimento e não a cautela, o avanço constante, ininterrupto, e não a ocupação do terreno.

Antecipou a todos porque ampliou o leque dos inimigos colocando a população civil como alvo e não somente as formações militares do inimigo, travando contra ela um escancarado vandalismo com fins de atingir o moral da tropa adversária. O efeito psicológico disso era tão eficaz quanto uma barragem de artilharia ou uma carga de cavalaria.

Assediou as famílias para desmoralizar o pai ou o filho que lutavam distantes, bem longe de casa. Abertamente valeu-se do terror para quebrar o espírito de resistência e o orgulho dos confederados. Sempre que possível evitou o enfrentamento direto para poupar seus homens, escolhendo uma saída que evitasse mais baixas sem com isso atrapalhar o destino e a rapidez da marcha.

Quanto aos seus temidos forrageadores, os brummers, eles os viu como um poder de pressão sobre os inimigos e não hesitou em usá-los. Para a gente do Sul ele foi "o primeiro general terrorista", "um açougueiro", um general dos mudsills ( expressão pejorativa que significava "os debaixo").

Como sempre ocorre em torno de personagens como Sherman, um historiador de Ohio, do mesmo estado do general, Mark Grimsley (in The Hard Hand of War, 1997) procurou atenuar a violência da campanha contra o Sul, assegurando que ele travou uma "guerra dura" mas não uma "guerra total" contra os confederados, e que em momento algum se desviou dos alvos militares, assediando a população civil apenas como parte da guerra psicológica movida contra os rebeldes. Ele não era um monstro mas um estrategista metódico que procurou quebrar a espinha da resistência dos inimigos da União.

Nas Memórias dele, aparecidas somente em 1875, dez anos depois da derrota do Sul, não demonstrou nenhum arrependimento com o estrago que promoveu com sua bem sucedida investida. Para ele ela abreviou a tragédia.

Nunca foi, todavia, um entusiasta da guerra em si, tanto assim que registrou:

"Eu confesso sem nenhuma vergonha que eu estou doente e cansado de lutar – a glória é um brilho de luar: mesmo o sucesso o mais brilhante é obtido sobre uma massa de corpos, acompanhado da angústia e lamentação das famílias distantes, apelando para mim atrás dos seus filhos, maridos e pais…somente aqueles que nunca ouviram um tiro, nunca escutaram os gritos e gemidos dos feridos e dos mutilados…é que gritam alto querendo mais sangue, mais vingança, mais desolação." (citado por Liddel Hart).

Bibliografia

Glatthaar, Joseph T . -The March to the Sea and Beyond: Sherman’s Troops in the Savannah and Carolinas Campaigns. Louisiana State University Press, 1995.

Grimsley, Mark – The Hard Hand of Ward: Union Military Policy toward Southern Civilians, 1861-65. Cambridge University Press, 1997.

Marszaleck, John F. – Sherman´s march to the sea. Texas. Texas University Press, 2005.

Liddel, Hart B.H. – As grandes guerras da história.São Paulo: IBRASA, 1967.

Liddel Hart, B.H - Sherman: Soldier, Realist, American. Westview Press, 1993.

McPherson, James M., Battle Cry of Freedom: The Civil War Era. Oxford University Press, 2003.

Osborn, Thomas. The Fiery Trail - A Union Officer’s Account of Sherman’s Last Campaigns. Knoxville. Tennesse: The University of Tennessee Press. 1986.

Royster, Charles, The Destructive War: William Tecumseh Sherman, Stonewall Jackson, and the Americans. Nova York: Alfred A. Knopf, 1991

Sherman. William T. - Memoirs of General W.T. Sherman, . Reimprensa pela Library of America, 1990.

Fonte: Terra Educação / Voltaire Schilling – http://educaterra.terra.com.br/voltaire/

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A marcha da morte do general Sherman (parte III)

Uma das maiores máculas da Guerra de Secessão norte-americana (1861-65) foi a campanha de devastação realizada pelo general William Tecumseh Sherman contra os estados rebelados do Sul. Arrasando preferencialmente os campos, as fazendas, as fábricas, as ferrovias, as cidades dos confederados, encurtou a guerra mas encheu os americanos de pavor: "A mais monstruosamente bárbara das marchas dos bárbaros".

Em direção a Savannah

No dia 14 de novembro de 1864, duas colunas da cavalaria nortista partiram das proximidades de Atlanta, ainda em chamas, em direção ao mar. Uma delas, a da ala esquerda, era comandada pelo general Henry Slocum, a outra,a da direita, pelo general Oliver Howard, cada um com 12 mil soldados, com a tarefa de arrasar tudo o que vissem pela frente. A ordem dele talvez espelhasse inconscientemente o nome de batismo que lhe deram, Tecumseh, "a pantera do céu" (era um shawnee de Ohio, tido como profeta nativo que movera uma guerra bárbara contra os brancos em 1812), como também foi "democrática" pois a tropa incinerou tanto as pequenas e médias propriedades da gente miúda como as famosas herdades de estilo neoclássico dos grandes proprietários de escravos do Sul (como se deu ficcionalmente com a fazenda "Tara" no famoso filme "E o vento levou" de 1939).

Sherman determinou que seus homens conseguissem a forragem pelo caminho para não perderem tempo com as bagagens e a lentidão das carroças de mantimento. Para tanto, lançaram mão dos bummers, apelidados "os vadios de Sherman", que atacavam os sítios e as fazendas em reduzidos bandos como se fossem uma alcatéia de lobos famintos, levando tudo o que podiam e tocando fogo no que restava.

Segundo um deles : "Destruíamos tudo o que não pudéssemos comer, roubamos os negros, queimávamos o algodão e as máquinas desfiadoras deles, derramávamos os grãos, queimávamos e entortávamos os trilhos das estradas de ferro (o famoso "pescoço de Sherman"), era um inferno".

Até alcançarem a periferia de Savannah, 460 km distante e 35 dias depois, nas vésperas do natal de 1864, fazendo uma média de 19 a 24 km/ por dia, tudo foi devastado pelos ianques. A guarnição do porto, uns 10 mil confederados, decidiu abandonar a cidade sem dar combate. O pavor de cair nas mãos do general nortista chegara até eles. Acatavam assim ao aviso que as vanguardas dele gostavam de dar: "somos os homens de Bill Sherman, é bom vocês irem embora".

Com isso consagrou um dos seus propósitos: "Meu intento então era chicotear os rebeldes, rebaixar o orgulho deles, perseguí-los até o mais fundo dos seus recessos, e fazer eles terem medo e terror de nós" (in "Memórias do general Sherman")

Num telegrama a Lincoln, Sherman escreveu que a tomada de Savannah era um "Christmas gift, um “presente de Natal" ao presidente, informando-lhe a captura da cidade, de 150 canhões pesados e mais 25 mil fardos de algodão.

A campanha da Carolina do Sul

Sherman e seu estado-maior cruzam o rio Board ( Carolina do Sul, 1865, gravura de W.Waud)

Feito isso, abastecido por mar pelas cargas nortistas, Sherman após um mês de descanso voltou-se para o norte para assediar as Carolinas (do sul e do norte). A marcha recomeçou a 1º de fevereiro de 1865 para, segundo ele, "saciar o desejo de vingança contra a Carolina do Sul", estado "covarde e traidor" que para os seus soldados "era o buraco do inferno da secessão".(*)

Columbia, a sua capital, era seu objetivo (Liddel Hart exalta o fato de que o general ianque, naquela marcha épica, nunca deixou transparecer qual seria o seu verdadeiro alvo, provocando grande confusão nas fileiras confederadas que tentavam criar obstáculos à ofensiva dele).

Com a travessia do rio Salkahatchie começava o martírio da Carolina do Sul, que suportou o avanço de mais de 60 mil homens de Sherman e, pior, dos seus bummers, que acompanhavam as colunas assaltando as propriedades como se fossem nuvens de gafanhotos predadores (até os dias de hoje, transcorridos mais de 140 anos da invasão da Carolina do Sul, ainda se encontram as cicatrizes deixadas pela passagem dos ianques).

Ainda que no inverno, com parte do terreno formado por pântanos submetidos a aguaceiros intensos, precisando transpor nove rios, nada os deteve. Façanha que arrancou admiração do seu adversário pois o general Johnston, que lhe dava combate, afirmou que somente as legiões de César conseguiam aquele tipo de feito.

Deu-se então a vez de Columbia arder. Evacuada no dia 17 de fevereiro de 1865 pelo general confederado Hampton que não resistiu, uma multidão de escravos negros, prisioneiros libertos, misturados às tropas ianques que chegavam, encharcados com uísque, tomou conta das ruas. Prendendo fogo em fardos de algodão deixados ao acaso, depois de pilharem o que havia, terminaram por jogar tochas acesas nas casas e nos prédios públicos. Tudo de madeira, tudo ardeu.

O espetáculo chocou um oficial nortista Thomas Osborn, um artilheiro que testemunhou o holocausto da capital sulista. Um local que chegara a abrigar 20 ou 30 mil habitantes reduziu-se às cinzas em questão de horas.

Os prisioneiros capturados estavam em estado deplorável. A maioria dos milicianos que se renderam aos ianques era formada por gente idosa, "de cabelos brancos", assegurou ele, ou de rapazolas imberbes e maltrapilhos que mal tinham força para carregar um mosquete (ver Thomas Osborn - The Fiery Trail, p. 128). Era enfim um retrato vivo da agonia dos confederados.

Sherman chegou a comentar os acontecimentos que se passavam dizendo "todo exército está queimando tomado pela insaciável vingança contra a Carolina do Sul. Eu a todo momento tremo pelo seu destino, mas sinto que ela merece tudo o que lhe foi reservado"(James M.McPherson – The Battle cry of Freedom, p. 826)

(*) O começo da guerra civil dera-se quando os confederados atacaram de surpresa o Forte Sumter, situado na Carolina do Sul, em 12 de abril de 1861, em protesto contra a posse de Abraão Lincoln na presidência dos Estados Unidos.

A etapa final da marcha

"Guerra é inferno!" Sherman em meio ao fogo

Quando Sherman retomou o roteiro da devastação, rumando para Fayetteville, na Carolina do Norte, ocupada em 11 de março de 1865, deixou para trás 66 dias de inferno.

A Carolina do Norte, ao contrário da sua gêmea, recebeu tratamento melhor. Uma ordem do general Slocum determinava que os praças e oficiais não considerassem a população civil local como inimiga, visto que aquele estado foi o último a aderir à secessão e que antes da guerra abrigava um forte partido pró-união, determinando portanto que não promovessem a destruição desnecessária das propriedades nem maus tratos contra os seus habitantes.

Ainda assim não salvou Fayetteville de ser submetida da pilhagem, sendo que quadra por quadra da cidade foi entregue à sanha da soldadesca ianque. Como registrou uma senhora sobrevivente, "eles mataram as galinhas, os gansos, os perus, as vacas, os bezerros e qualquer outra coisa viva, inclusive nosso cão de estimação" (citado por Tony L. Crumbley - General Sherman’s March Across North Carolina). Foi uma espécie de fecho final da barbárie cometida contra os confederados. A retaguarda de Lee finalmente estava exposta. Premido por Grant ao norte e por Sherman ao sul a Confederação por fim capitulou depois de quatro anos de luta.

No dia 26 de abril, em Durham, na Carolina do Norte, o general confederado Johnston rendeu-se ao general Sherman, encerrando-se assim a campanha das Carolinas, simultaneamente ao fim da guerra da secessão, que já havia sido acertada pela da Paz de Appomatox entre o general Robert Lee e o general Ulyssses Grant, assinada na Casa da Corte daquela cidade da Virginia, no dia 9 de abril daquele mesmo ano.

A marcha, que se estendeu por mais de mil quilômetros, superara todos os obstáculos a que cavalaria sulista do general John Wheeler e os milicianos locais se lhe antepuseram.

É difícil calcular os prejuízos causados pelo vandalismo propositado dos ianques, pelo incêndio das cidades pelas quais as colunas de Sherman passaram , pelos inúmeros deslocamentos da população civil forçada à fuga em massa, pela dizimação do gado e outros animais domésticos, pelo estrago das colheitas, somados ao implacável tratamento dado aos prisioneiros quando eram capturados em número pequeno.

Casos de fuzilamentos sumários e mesmo de degolas e mutilações eram comuns, além dos estupros e assassinatos, sem deixar-se de mencionar as terras desoladas e moradias e celeiros queimados que ficaram para trás nos seus deslocamentos em direção a Savannah e depois às Carolinas.

Fonte: Terra Educação / Voltaire Schilling – http://educaterra.terra.com.br/voltaire/

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A marcha da morte do general Sherman (parte II)

Uma das maiores máculas da Guerra de Secessão norte-americana (1861-65) foi a campanha de devastação realizada pelo general William Tecumseh Sherman contra os estados rebelados do Sul. Arrasando preferencialmente os campos, as fazendas, as fábricas, as ferrovias, as cidades dos confederados, encurtou a guerra mas encheu os americanos de pavor: "A mais monstruosamente bárbara das marchas dos bárbaros".

A campanha de Atlanta

Como George Meade mostrou-se inepto em perseguir Robert Lee depois de Gettysburg, os olhos de Lincoln voltaram-se para Ulysses Grant, que apresentara notável ousadia estratégica na submissão do estado do Mississipi. O presidente então o chamou para o comando supremo dos exércitos da União. Com isso o braço-direito de Grant no oeste, o major-general William T. Sherman, assumiu o Exercito do Tennesse, e, em seguida, o Supremo Comando do Oeste com 98 mil homens e 250 canhões.

Terminado o longo inverno de 1863-64, em 4 de maio de 1864 ele ordenou que os clarins de ataque voltassem a soar. Tinha inicio a famosa campanha de Atlanta, operação militar que partindo de Chatanooga, no Tennesse, evitando grandes batalhas, tinha por meta atacar o celeiro do Sul e faze-lo sangrar como nunca. Então, como disseram, "o Diabo resolveu descer na Geórgia".

Quatro meses depois, em 1º de setembro, a capital do estado foi conquistada e transformada num acampamento em armas. O primeiro passo para uma ampla manobra vinda do Oeste de cercar o exército confederado de Robert Lee, cuja maior parte estava concentrado no estado da Virginia, atacando-o a partir da retaguarda, fora dado.

Sherman, todavia, queria fazer de Atlanta um exemplo dos extremos a que ele recorreria para submeter a Confederação. Decidiu queimar a cidade depois que os civis fossem dela removidos. Em 14 de novembro de 1864, um enorme clarão de fogo se espalhou então pelo horizonte anunciando que a América do Norte tinha também o seu Átila.

O destino de Napoleão

Sherman deixando Atlanta incendiada para trás na sua marcha para o mar (14 de novembro de 1864)

Ainda que horrorizado com o destino imposto à capital da Geórgia, Jefferson Davis, o presidente dos Estados Confederados. tentou levantar o ânimo da população. Comparou a situação do Sul com a da Rússia invadida por Napoleão em 1812. A triste retirada do exército imperial francês estava pois para se repetir. Sherman, como Napoleão, seria batido. A cavalaria confederada unida ao povo inteiro, enfatizou ele, atuaria como os cossacos fizeram contra as retaguardas francesas naquela ocasião, fustigando os invasores até que eles se retirassem totalmente derrotados.

O general ianque, garantiu Davis, teria o mesmo destino do Corso, escapando apenas com sua guarda pessoal. Iria ser empurrando para bem longe, para as barrancas do rio Ohio. Isso traria ao partido nortista pró-paz um impulso que nenhum editorial conseguiria.

Consta que quando o general Grant leu esse discurso comentou: "E quem fornecerá a neve para essa retirada de Moscou?" (James M. McPherson –Battle cry of Freedom, pag. 808). Não só neve faltava ao Sul, mas também não havia entre eles um general ardiloso como Kutuzov, nem a milícia dos caipiras da Geórgia ou das Carolinas era composta por cossacos.

As razões da marcha do mar

Do mesmo modo que a cidade de Chatanooga, no Mississipi, servira como trampolim para Sherman marchar para Atlanta, esta agora iria se prestar como a base do impulso para um novo salto. Desta feita em direção ao mar, tendo como objetivo a tomada de Savannah, porto atlântico e antiga sede colonial do estado.

Escrevendo a Grant ele expôs que a manobra cortaria a Confederação em duas partes e poria em risco a retaguarda do general Robert Lee, exposta ao reide da cavalaria ianque. "Mostraríamos ao mundo", seguiu ele, "que podemos marchar com um exército bem equipado diretamente para dentro do território de Jefferson Davis, numa demonstração para o mundo, externo e doméstico,que nós temos um poder que ele não tem como resistir"… "eu posso fazer a marcha e fazer a Geórgia gemer!"

Os ganhos maiores seriam os psicológicos. Nada perturba mais um soldado na frente de guerra do que vir a saber que o seu lar, sua mulher, seus filhos e seus bens estão expostos à sanha do inimigo lá longe na sua terra distante. Isso o faz inseguro e se sentindo culpado por não estar na soleira da cabana, protegendo a prole, espantando os danados com seu rifle.

O efeito é terrível. Acelera a deserção justificada e desmoraliza o comando geral por ser impotente em por um fim naquilo. A intenção dele expressa em correspondência dizia: "O simples fato de que o lar deles ter sido visitado pelo inimigo", registrou ele, "fará com que os soldados de Lee ou de Johnston fiquem muito ansiosos para voltar para casa."

Uns tempos depois, em fevereiro de 1865, o general Lee constatava a contragosto a "epidemia de deserções” que se abateu sobre as fileiras dos confederados, atacados pela “depressão e o desamparo", resultante da marcha de Sherman. "Centenas fugiam a cada noite" para alcançarem suas casas a fim de defenderem o que restava delas.

Font : Terra Educação / Voltaire Schilling – http://educaterra.terra.com.br/voltaire/

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Assine o “Fora Sarney”

O Senado Federal tem sido palco de maracutaias, atos secretos, apadrinhamento político e todo tipo de desvios do dinheiro público.

No centro da crise está o presidente da Casa, José Sarney, envolvido em inúmeros casos de corrupção, sem condições morais de continuar à frente da instituição.

Defendemos a instalação da CPI para a apuração das denúncias do Senado, o imediato afastamento de Sarney da Presidência e a punição dos responsáveis.

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A marcha da morte do general Sherman

Uma das maiores máculas da Guerra de Secessão norte-americana (1861-65) foi a campanha de devastação realizada pelo general William Tecumseh Sherman contra os estados rebelados do Sul. Arrasando preferencialmente os campos, as fazendas, as fábricas, as ferrovias, as cidades dos confederados, encurtou a guerra mas encheu os americanos de pavor: "A mais monstruosamente bárbara das marchas dos bárbaros".

Garantindo a reeleição

A marcha para o mar de Sherman (gravura de Alexander H.Ritchie, 1868)

Sherman com sua estratégia, somando rapidez à impiedade, para o historiador militar B.H.Liddel Hart, colocou-se como o "primeiro general moderno", um dos fundadores da guerra total.

"Atlanta é nossa, e honestamente vencida". Foram umas poucas palavras telegrafadas pelo general Sherman à Casa Branca, em setembro 1864, vindas diretamente do coração da Geórgia recém ocupada, quem garantiram a reeleição do presidente Abraão Lincoln. A campanha relâmpago que ele realizou sobre o território dos rebeldes estava estreitamente vinculada aos desejos do chefe nortista de continuar a guerra até o fim, até a rendição completa dos sulistas que se insurgiram contra a União em 1861.

Lincoln temia acima de tudo perder a eleição e assim, por meio da ascensão de um sucessor rival, abrir caminho para algum tipo de paz negociada ou um armistício que culminaria com a efetiva separação do país em duas partes.E isso se devia, entre outras coisas, ao cansaço geral da nação americana com o andamento da guerra, apesar da vitória dos nortistas na batalha de Gettysburg (na Pensilvânia) e na de Vicksburg (no Mississipi), ambas obtidas em 3 e 4 de julho de 1863, respectivamente.

Se isso ocorresse, todos os sofrimentos passados nas trincheiras e nas manobras forçadas, todo aquele sangue derramado pelos 300 mil mortos nortistas durante três anos seguidos teria sido em vão. A União estaria desfeita para sempre e os Estados Unidos rachado em dois. Poucas vezes na história da América um general salvou um presidente como Sherman, mais do que Ulisses Grant, fez com Lincoln.

Com a noticia da ocupação de Atlanta, situada nas profundezas do solo inimigo, os ianques sentiram finalmente que a guerra poderia vir a ser ganha, que era uma questão de alguns meses há mais, e votaram em massa no "velho Abe" (Lincoln recebeu 2.218,388 votos em 8 de novembro de 1864, ou 55% do total).

A franqueza de Sherman

General W.T.Sherman ( 1820-1891)

O general William T. Sherman, nascido em Lancaster, Ohio em 1820, filho da elite local, graduado em West Point, era um homem duro e muito franco. Os seus cabelos avermelhados davam a cor do seu temperamento. Sintonizava com Abraão Lincoln em mover batalhas sem tréguas contra os confederados acompanhada de uma paz conciliadora quando eles por fim capitulassem. Ainda jovem estivera na Califórnia como oficial a serviço do governador, chegando até a entrar no ramo bancário quando foi vizinho de Ulysses Grant, mas depois a guerra civil o arrastou para o meio da voragem. Em carta ao Secretário da Guerra ele voluntariamente se comissionou para lutar por três anos, tal ódio devotou aos separatistas e ao povo do Sul em geral.

Quando o prefeito de Atlanta ocupada implorou para que não expulsasse a população da cidade, a qual desejava por fogo, respondeu-lhe que as coisas eram assim mesmo: "guerra era crueldade e nada poderia refinar isso", e não esperasse mercê enquanto os rebeldes não fossem batidos. Todos, pobres ou ricos, os homens e as mulheres do sul teriam que sentir o "braço duro da guerra".

Não só isso, tinham que se submeter àqueles horrores todos para nunca mais sequer pensar no futuro vir a pegar em armas ou apoiar um levante sequer. Senão fosse assim, argumentou ele em carta ao prefeito Calhoun (datada de 12 de setembro de 1864), os Estados Unidos poderiam ter o triste destino do México (naquele momento, dividido internamente, encontrava-se ocupado por tropas franceses em apoio ao imperador Maximiliano, um monarca estrangeiro). Esse seu arrazoado fico resumido ao famoso dito a ele atribuído: War is Hell! "Guerra é um inferno!"

A impiedade dele visava longe. Agia como uma brasa comprimida sobre uma ferida para que ela, cicatrizada, jamais voltasse a abrir.

Não era um crente na igualdade racial, nem parecia ter simpatias pelos negros. Sua luta era pela União e não necessariamente pela Abolição. Mesmo assim era recebido no Sul pelos escravos como "um novo Moisés ou Aarão", que viera libertá-los do triste cativeiro. Considerava-se um patriota unionista e não um antiescravista.

Antecedentes da Marcha de Sherman

O roteiro de Sherman: Atlanta, Savannah,Columbia,Fayeteville,Goldsoboro, Bennet Plane

Dera-se depois de dois anos de guerra civil um fenômeno curioso e raro. O Norte conseguira duas vitórias memoráveis no ano de 1863, invertendo a maré dos desastres iniciais. No fronte Leste, o general George Meade havia detido e batido o general Robert Lee na batalha de Gettysburg (1 a 3 de julho de 1863) que tentava a invasão da Pensilvânia, para dali assaltar Washington, enquanto que no fronte Oeste, o general Ulysses Grant, tomava de assalto a fortaleza de Vicksburg no Mississipi (que capitulou no dia 4 de julho, um dia depois de Gettysburg), ferindo as comunicações do Sul.

Todavia, a gente do Norte estava manifestando graves sintomas de exaustão. O mais radical deles, verdadeiramente alarmante, deu-se com a rebelião da população de Nova York, particularmente a de origem irlandesa, que em grande parte se amotinou contra o serviço militar e contra o que eles denominaram de "a guerra dos negros".

O chamado Civil War Draft Riots que eclodiu no dia 13 de julho de 1863, apenas dez dias depois da vitória de Gettysburg, foi esmagado por regimentos tirados diretamente da frente de batalha.

Desde então a idéia de fazer algum tipo de acordo com os confederados começou a tomar corpo. Parecia que as duas vitórias de nada tinham servido. Embaraço que fez com que Lincoln começasse a pressionar seus generais para dar-lhe uma outra boa notícia, acelerando a capitulação dos rebeldes.

Fonte: Terra Educação / Voltaire Schilling – http://educaterra.terra.com.br/voltaire/

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Ele matou Plutão

Mas entre o dia da conversa e o da publicação o status de Brown mudou radicalmente: ele passou de descobridor a exterminador de planetas.

Salvador Nogueira

Quando agendamos esta entrevista com Mike Brown, acreditávamos estar prestes a conversar com o homem que expandia as fronteiras do sistema solar da mesma maneira que os navegadores fizeram com a Terra há 500 anos – uma espécie de Cristóvão Colombo do espaço. Mas entre o dia da conversa e o da publicação o status de Brown mudou radicalmente: ele passou de descobridor a exterminador de planetas.

Aos fatos: Brown apresentou à comunidade científica o 2003 UB313 (inicialmente apelidado de Xena e batizado como Eris às vésperas do fechamento desta edição), corpo celeste maior que Plutão. Diante da descoberta, a União Astronômica Internacional (IAU) teve de decidir: seria Xena o décimo planeta, ou Plutão é que deveria deixar de ser o nono? Em agosto, a IAU decidiu: Plutão não é mais um planeta. Com isso, Brown perdeu a chance de se alinhar com alguns dos astrônomos mais famosos da história e se tornar oficialmente um “descobridor de planeta”. Ao contrário do que possa parecer, ele não ficou muito sentido. De seu escritório na Califórnia, revelou que o Xena nem era a sua descoberta favorita. Há outras mais interessantes, que podem nos ajudar a entender a ainda misteriosa arquitetura do sistema solar.

O sistema solar tinha 11 planetas no começo do século. Então, em 1927, especialistas fixaram que eram 8 planetas. Depois, em 1930, Plutão foi descoberto e passamos a ter 9 planetas. Será que essa nova mudança de contagem é realmente um problema para a astronomia, como alguns pesquisadores estão dizendo?

Acho que não é, não. Não concordo com as pessoas que dizem, “oh, não podemos desistir de Plutão, porque as pessoas amam Plutão, elas o chamaram de planeta por muito tempo”. Veja o caso de Ceres. Nós chamamos Ceres de planeta por 50 anos. E as pessoas superaram isso. Então, sabe, hoje as crianças não se preocupam se Ceres é ou não um planeta. Não é um grande problema [descoberto em 1801, Ceres já foi chamado de planeta, asteróide e planeta anão. Sua classificação exata é, até hoje, motivo de discórdia entre cientistas].

O astrônomo Brian Marsden, da Universidade Harvard, costuma dizer que a razão pela qual as pessoas, sobretudo os americanos, se apegaram tanto a Plutão como planeta é que ele foi o único descoberto por um pesquisador americano. O que você acha disso?

Eu acho que essa é uma idéia que não tem mais validade. Não creio que a maioria das pessoas hoje ligue para quem descobriu Plutão. Ele poderia ter sido descoberto em Madagascar, e as coisas seriam iguais. A maioria das pessoas não tem a menor idéia de quem descobriu Plutão.

Você desenvolveu alguma técnica de observação nova que lhe permitiu encontrar tantos objetos no espaço?

Nada. Basicamente, não há nada de novo na localização de corpos celestes desde que Clyde Tombaugh descobriu Plutão em 1930. É exatamente do mesmo jeito. A única diferença, e a única razão pela qual eu estou encontrando esses objetos e outras pessoas não, é que nós começamos há 7 anos uma pesquisa do céu inteiro. E finalmente chegamos a uma região que tem um monte de objetos.

Então a sua descoberta foi resultado de apontar o telescópio para o lugar certo no céu?

Sim, foi uma questão de olhar para o lugar correto. Mas, como não sabíamos onde o lugar certo era, foi basicamente uma questão de olhar o céu inteiro.

Entre os corpos descobertos por você, qual é o mais interessante?

Ah, essa é uma pergunta legal de responder. Um dos objetos mais interessantes é o 2003 EL61 [apelidado provisoriamente por Brown e seus colegas de “Santa”, de “Santa Claus”, o Papai Noel americano, pelo fato de ter sido encontrado perto do Natal]. Ele é quase tão grande quanto Plutão, mas é oval – tem a forma de uma bola de futebol americano, ou de rúgbi. Ele gira em torno do próprio eixo em 4 horas, tem duas luas, que são dois pedaços de gelo. É um objeto bizarro, completamente diferente de tudo que chegamos a imaginar que pudesse existir.

E o que ainda estamos por descobrir? E se acharmos objetos com o tamanho de Marte, ou da Terra, como você mesmo previu que acontecerá, devemos chamá-los de planetas?

Essa é uma pergunta para a qual eu não tenho resposta. Se eu aceito que só temos 8 planetas, e todo o resto no cinturão de asteróides ou no cinturão de Kuiper eu chamo de “uma população”, então você poderia achar uma coisa do tamanho da Terra no cinturão de Kuiper e ainda assim dizer, “não, sinto muito, mas isto não é um planeta – é parte de uma população”. E, para a maioria das pessoas, essa situação pareceria absurda – como pode algo maior que a Terra não ser um planeta? –, mas ainda assim seria cientificamente consistente. Talvez nunca tenhamos de lidar com isso, talvez não achemos nada assim lá fora. Talvez encontremos em 5 anos. Eu não sei.

Por que é tão difícil descobrir objetos mesmo eles tendo o mesmo tamanho que Marte ou a Terra?

Porque eles são pouco brilhantes. Se você colocasse Marte num lugar 400 vezes mais distante do Sol que a Terra, que seria um bom lugar para achar um objeto desses, ele seria absurdamente mais discreto que o Xena. Não é impossível de ver, mas é impossível fazer um rastreio do céu inteiro para procurar algo assim.

Você está empolgado com a New Horizons, missão da Nasa que vai a Plutão?

Eu na verdade estou mais empolgado agora do que estava antes. E isso é porque agora temos o Xena e o 2005 FY9 [apelidado de Coelho da Páscoa por ter sido encontrado perto desse feriado], e esses dois objetos são muito parecidos com Plutão. Plutão costumava ser aquele objeto estranho, não havia nada mais igual a ele no sistema solar, então a New Horizons iria nos ensinar muito sobre Plutão, mas nada sobre todo o resto. Agora, com a descoberta de corpos semelhantes a Plutão, temos a chance de aprender muito sobre uma classe inteira de objetos.

Considerando suas recentes descobertas, Plutão continua sendo o melhor alvo para uma missão espacial?

Sem dúvida. Plutão é o objeto desse tipo do cinturão de Kuiper mais próximo, e você sempre escolhe ir para o mais próximo – chega-se mais depressa, a missão tem mais energia solar ao chegar lá, a iluminação é melhor para obter imagens. Então, sim, Plutão está muito mais perto que esses outros objetos e é obviamente a primeira escolha.

O que suas pesquisas ensinaram sobre o cinturão de Kuiper e a nuvem de Oort?

Do cinturão de Kuiper nós sabemos muito mais sobre objetos individuais que lá estão. Mas creio que a parte mais interessante da descoberta está em Oort, onde encontramos o Sedna [objeto descoberto em 2003, com órbita extremamente alongada, e que se afasta mais do Sol que qualquer outro corpo conhecido no sistema solar]. Detectar o primeiro objeto da nuvem de Oort nos conta muito sobre a história mais antiga do sistema solar. É claro que tendo só um objeto dessa região nós não conseguiremos aprender tanto quanto gostaríamos, e por isso estamos procurando mais objetos a 300, 400 UAs de distância [cada UA equivale à distância entre a Terra e o Sol]. Acho que Sedna é tão interessante por ser o primeiro representante da misteriosa nuvem de Oort. E isso é importante – vamos colecionar mais deles no futuro.

Há novas descobertas no horizonte?

A única resposta que posso dar, você me perguntando isso hoje, amanhã ou em uma semana, é “não”.

A despeito de elas existirem ou não?

Exatamente. É assim que as coisas funcionam. Foi algo que eu aprendi com o presidente George W. Bush, sabe? Mesmo que você saiba de alguma coisa, pode ir à televisão e dizer outra completamente diferente, e tudo bem [risos].

Mike Brown

• É astrônomo do California Institute of Technology, o Caltech.

• Os corpos celestes que ele descobriu fizeram astrônomos redesenhar o sistema solar e tirar de Plutão o status de planeta.

• Cresceu ao redor de um centro da Nasa no Alabama, onde seu pai trabalhava desenvolvendo foguetes para missões na Lua.

• Seu esporte favorito é o futebol. Por falta de habilidade, joga como goleiro.

• Seu passatempo favorito? Descobrir o que seus homônimos fazem da vida.

Assalto no Sistema Solar

Descobridor de diversos “planetas anões” nos últimos anos, Mike Brown não está imune a controvérsias. A maior delas aconteceu em 2005, pouco antes do anúncio da localização do então apelidado “décimo planeta”. O corpo celeste envolvido, porém, era outro: o 2003 EL61. Brown e sua equipe começaram a monitorar esse objeto em maio de 2005 – e passaram os dois meses seguintes estudando-o em segredo. Até que, em julho, os pesquisadores foram surpreendidos por um grupo de espanhóis que anunciou a mesma “descoberta”. O problema é que, ao que tudo indica, os espanhóis encontraram o objeto não no céu, mas no banco de dados de Brown, onde teriam conseguido entrar por causa de uma falha no sistema.

“Sabemos que eles estiveram na nossa base de dados e em seguida anunciaram a descoberta”, conta Brown. O imbróglio obrigou o astrônomo americano a vir a público para anunciar que conhecia o 2003 EL61 havia dois meses e acabou precipitando o anúncio da descoberta do Xena – Brown temia ser passado para trás pelos espanhóis também em sua descoberta mais importante. Desnecessário dizer que o conflito entre os astrônomos europeus e a equipe do Caltech causou enorme barulho na comunidade científica. “Eles alegam que, primeiro, o descobriram e, no dia seguinte, viram que ele estava em nossa base de dados – embora eu ache isso meio conveniente demais”, diz Brown. “A verdade é que nunca saberemos o que aconteceu. Mas creio que o consenso hoje é o de que eles ‘roubaram’.”

Não é a primeira vez que planetas (ou “quase planetas”, como é o caso aqui) são objeto de disputa de paternidade entre astrônomos. O episódio mais famoso é do século 19, na descoberta de Netuno, primeiro planeta a ser previsto primeiro por métodos matemáticos. O britânico John Couch Adams calculou sua existência pouco antes do francês Urbain LeVerrier, mas não conseguiu convencer outros astrônomos a usar seus telescópios para encontrá-lo. Já LeVerrier persuadiu o Observatório de Berlim a fazer uma busca, o que o deixou mais credenciado para se dizer o descobridor do oitavo (e, ao menos por ora, último) planeta do sistema solar.

Fonte: Revista Super Abril – http://super.abril.uol.com.br

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A crise não passou sua fatura de barbárie

VENÂNCIO DE OLIVEIRA

Revisão de expectativas?

Nas últimas semanas havia uma reversão de expectativas. O fantasma da crise parecia estar sendo derrotado. Como? As forças do mercado rejubiladas estariam ajustando as suas falhas temporárias e necessárias? Alguns lançam o jargão econômico que se reinventa para poder fazer o de sempre: encantar e nada explicar. Os indicadores deveriam ser analisados com mais cuidado e menos otimismo. É o desespero do poder que não consegue entender a ineficiência dos mecanismos de mercado. Todavia, é difícil aceitar que um amplo setor da "esquerda" brasileira foi cooptado para este projeto de poder.

Antes da saída dos indicadores do último trimestre os analistas e petistas – antes opostos, hoje amigos – mantinham o discurso dos fundamentos sólidos brasileiros para salvar o mundo das mercadorias. A realidade tem dificuldade de se encaixar nesta tentativa de manipulação das expectativas. As variáveis foram analisadas com muita pressa.

Vejamos alguns destes dados. O preço do petróleo voltou a subir, entre a casa dos 60 e 70 dólares (). Os fundos emergentes voltaram a ter "preferência pelo risco" e se moveram para os países emergentes. A exportação chinesa caiu. As relações entre Brasil e China reforçaram-se. A burguesia brasileira começou a pressionar o PSDB a aceitar a entrada da Venezuela no Mercosul. O presidente Chávez vem ao Brasil pedir empréstimos, com um discurso um pouco exagerado, louvando os ímpetos empresariais brasileiros.

Estes dados entrecortados poderiam sugerir outra coisa do que a racionalidade do sistema que se ajusta. Para jogar um pouco de água fria nos otimistas basta ver que se mantêm em alta as notícias de quebras e caos na economia estadunidense. O gigante histórico, General Motors, quebrou e teve de ser ajudado pela mão (hoje) louvável do Estado.

O movimento dos fundos emergentes não deveria ser analisado com louvor. A voracidade de ganhar dinheiro rápido e fácil é mais sinal de decrepitude do modelo econômico do que de progresso. O fato de que este capital parasitário esteja valorizando moedas dos países emergentes é sinal de desespero do capital, estão fugindo do dólar, e das economias dos países hegemônicos. Os chamados emergentes atraíram US$ 21 bilhões de investidores. Já os mercados de países centrais (Japão, Europa e EUA) perderam US$ 14,1 bilhões ().

Isso é um sinal mais negativo que positivo. O déficit dos Estados Unidos promete ser maior com os projetos salvacionistas de Obama. O dólar terá dificuldades crescentes para continuar sendo a moeda de referência. Um processo de mudança de referência não seria indolor; com a quebra do dólar, muitos países e capitais que lhe usam como padrão sofrerão desvalorizações com conseqüências cumulativas para a economia global. A crise do dólar é uma crise das moedas como sistema de referência de valor sustentável, é o capital fictício cobrando seu quinhão.

Brasil e seu papel geopolítico no xadrez da crise

Neste sentido cabe analisar o papel que joga o Brasil na mundialização do capital. É importante relembrar o processo recente de desvalorização do real. O fato de que o real esteja valorizado não significa que seja uma moeda sustentável mundialmente. O capital tem memória de passarinho, ninguém mais se lembra que, antes do craque de outubro de 2008, o mundo especulou com o real - isso causou a débâcle da Aracruz, salva pelo governo Lula.

O real em sua natureza é uma moeda-prostituta. Serve para dar e receber as migalhas dos homens. Quais são os efeitos que estruturam esta natureza? Os juros mais altos do mundo. Dezesseis anos de governos disciplinados às regras do mundo civilizado do dinheiro. Isso cria uma estabilidade aparente para nossa moeda. Coroada com os pontos que os especuladores nos deram ano passado, o Investment Grade. O real é o paraíso.

Nos tempos gloriosos dos nossos intelectuais da "esquerda", dos quais alguns se mantêm na trincheira de resistência, isso já era percebido. O real valoriza, os investidores chegam, ganham dinheiro e saem, desvalorizando nossa moeda. É uma aposta. Alguém ganha, outro perde. Sempre o povo acaba perdendo, porque paga as apostas dos jogadores. A situação do filho que joga todo o dinheiro e a mãe acaba sempre o salvando.

Outro elemento para entender a participação do Brasil na ganga financeira mundial é o seu papel hegemônico regional e as características do processo produtivo interno. Como analisado por Ruy Mauro Marini (), o Brasil tem características de economia sub-imperialista. Esta natureza conquistada pela industrialização dos anos de ouro do capitalismo brasileiro foi rearticulada, não se perdeu, mudou sua forma. Mas mantém o essencial.

A economia brasileira explora nações menores, como Paraguai, Venezuela e outros. Isso cria um efeito amortecedor para a burguesia brasileira que é vassala da economia mundial, tendo de transferir uma parte de seu excedente com pagamentos de juros e rendas ao exterior. Como faz isso? O empresariado brasileiro em aliança com o Estado domina fronteiras agrícolas e recursos naturais de países latino-americanos ou mesmo africanos (), o que permite custos menores, com um excedente maior para a burguesia brasileira.

As exportações brasileiras têm um duplo destino, os países centrais e os periféricos. O Brasil exporta capitais, carros e aviões para a restrita burguesia e classe média de países da extrema periferia da economia mundial. Com a pulverização destes mercados, ou seja, a ampliação do horizonte comercial feita pela diplomacia brasileira, permite-se incrementar a carteira comercial brasileira. Por último, o Brasil exporta suas commodities, carros, aviões e parte dos seus lucros para os países centrais. Assim, o Brasil é fortemente dependente da exportação, bem como da saúde econômica de países periféricos e centrais.

O capital internacional também é dependente da economia brasileira, pois tem lucros a receber dos seus investimentos especulativos e de suas montadoras de carros. É importante agregar neste sentido a participação do capital internacional na Petrobrás, Vale do Rio Doce e Embraer. Dessa forma, é fácil entender a pressão que sofre o tucanato. O mercado venezuelano é estratégico, dada a possibilidade de exportar capitais e mercadorias, e dominar fronteiras petrolíferas. Outro exemplo é a disputa pelo gás boliviano pela Petrobras, ou ainda o domínio da fronteira agrícola paraguaia por brasileiros.

A partir destes elementos é difícil perceber o fim da crise, e mais fácil entender as apostas dos fundos. O Brasil tem potencial econômico e regional, isto cria ilusões nos apostadores internacionais. Porém, de fôlego curto, pois o Brasil é dependente da acumulação de capital dos países centrais. Os programas salvacionistas de Obama podem criar outro ciclo curto de acumulação, mas baseado em elementos frágeis, a dívida externa e interna estadunidense. A bolha pode ser maior e seu estouro pode ter conseqüências mais drásticas para a economia mundial.

Mercado interno e ilusões de capitalismo autóctone

A economia brasileira tem seu mercado interno para amortecer os efeitos da crise. O Brasil tem um desenvolvimento desigual e combinado de seus setores econômicos, ilhas de excelência como a produção de aviões e setores tecnologicamente atrasados. Tal fato permite uma classe média que trabalha no centro destas empresas, uma aristocracia operária, gerentes e tecnocratas, criando uma demanda que poderia incentivar um ciclo interno de acumulação. Este mercado é esquecido até o momento da crise. Quando as empresas têm problemas com a demanda externa, voltam-se para dentro, com incentivos ao consumo interno, o que explicaria a política de corte de impostos para consumo de carros. Trata-se de um efeito de relaxamento da crise, mas não de superação, pois dificilmente o brasileiro vai consumir os aviões e as sojas que são o setor dinâmico da economia nacional.

Dentro da tentativa da superação da crise, cabe analisar algumas políticas colaterais. A economia brasileira é estruturalmente dependente da superexploração do trabalho, necessária para contrabalancear o compromisso de enviar excedentes para o exterior. Uma burguesia ávida por lucros precisa superexplorar sua classe trabalhadora para assim manter seu consumo de classe dominante européia e estadunidense. Desta forma, é impossível fazer um estado de bem-estar social brasileiro.

E todos os intentos que buscaram respeitar a democracia liberal foram julgados pelas mãos de ferro da burguesia. Temos um mercado de trabalho estreito. Quando tivemos o ápice de regulação, a burguesia usava do mercado informal para poder manter o ritmo de acumulação selvagem. Os governos neoliberais desmontaram a precária política social que tivemos. O governo Lula não se atreveu a tocar nestas mudanças.

O crescimento econômico recente não foi captado pelo mercado de trabalho brasileiro. As taxas de desemprego de 5% a 6% seriam insuportáveis para a burguesia brasileira. Que fizeram? Um pequeno choque de desemprego. Exemplo disso: a demissão em massa na Embraer. Se a crise piorar, o desemprego (aberto) pode chegar aos patamares de 13% do início do governo Lula. Em um recente relatório seu, a OIT demonstra que, dentro dos pacotes anti-crise no mundo, o brasileiro é que menos tem proteção social, no qual a ajuda para desempregados é a mais precária (). O salário mínimo de cerca de 200 dólares é uma vergonha. Honduras, que é uma economia bem menor que a brasileira, tem o salário mínimo de 250 dólares. Essa é a política trabalhista progressista do governo Lula? Qualquer política trabalhista que questione a superexploração de fato é uma medida revolucionária.

Assim, a crise é jogada nas costas do trabalhador. O fato de que é possível superar a crise a partir de termos capitalistas não dá perspectiva de que teremos um mundo mais justo, pois é impossível humanizar o capital. O fato de que a extrema-direita ganha cadeiras no parlamento Europeu pode ser indício de que as soluções para superar a crise vão demandar mais barbárie. Talvez, a classe trabalhadora européia perca todos os resquícios do estado de bem-estar social que foi conquistado por uma classe mais combativa.

Novo ciclo de acumulação não superará a crise estrutural

O fator China ainda é uma incógnita. É uma economia maior do que a brasileira, mas alguns elementos são muitos semelhantes: a superexploração de trabalho nacional e a dependência da acumulação de capital internacional. A queda da exportação chinesa é um fator que pode acumular mais conseqüências negativas mundiais. Talvez, coubesse uma análise da classe média interna chinesa, uma população maior que a brasileira, e que poderia ser um efeito amortecedor com mais alcance. Isso responderia à tentativa da burguesia brasileira de buscar outro amo, o estreitamento comercial entre a burguesia brasileira e a burocracia chinesa. Outro ciclo de crescimento não anula as contradições próprias do capitalismo. Um consumismo chinês-brasileiro e um plano de guerra estadunidense de longo alcance podem gerar uma crise de sobreprodução energética sem precedentes, capaz de ameaçar a própria civilização humana.

A crise do dólar ainda não foi sentida em toda a sua extensão. Uma mudança de padrão será bem dolorosa e, neste sentido, estariam equivocados tanto os emergentes que querem uma transição pacífica para outro padrão (obscuro) de referência como os conservacionistas que pensam que as coisas estão boas do jeito que está. Outro problema é que o petróleo volta ao crescimento anterior. Sobre o petróleo, são importantes duas considerações: a baixa anterior significou um estouro de uma bolha, dos apostadores que especulavam com seu crescimento; por outro lado, sua caída não restabeleceu preços estáveis. O crescimento dos preços de petróleo é sustentado e está relacionado com a crise de alimentos, agora só lembrada em alguns documentos da FAO. Este novo ciclo de crescimento de preços pode significar outra bolha para ser estourada, que significaria mais tremores na abalada economia mundial.

Como muito bem analisado pelos marxistas Chesnais () e Reinaldo Carcanholo (), esta crise é filha mal criada da crise de 1970. Neste tempo houve uma reconfiguração do capital e a liberalização financeira, comercial e de trabalho criou outros jogadores. Isso trouxe mais instabilidade à contraditória economia capitalista. A crise não acabou, é impossível sublimar seus conseqüentes problemas humanos.

Os projetos alternativos não se evidenciaram. Não quer dizer que não exista formulação consistente. Mas padecemos da crise de um ciclo na esquerda brasileira e mundial. Enquanto os socialistas não conseguiram superar a hegemonia da caducada fórmula reformista, um projeto consistente de superação do capitalismo não terá seu reflexo na práxis política da classe trabalhadora.

Não é uma questão de substituição simples da direção antiga. Mas de uma construção de novos discursos, relações e linhas da esquerda e da classe trabalhadora organizada. O discurso da velha esquerda mantém uma correspondência ideológica com a realidade fetichista do capital. A idéia de um Brasil desenvolvido promete sonhos de estado de bem-estar social.

A ilusão tem seu tempo determinado. A esquerda socialista que se mantém na luta não conseguiu uma influência que se contraponha ao popular projeto de uma social-democracia tupiniquim. Os projetos alternativos latino-americanos, venezuelanos e bolivianos estão sendo testados. A crise não traz um alento para os socialistas, ela pode passar sua fatura de barbárie.

Notas:

1) http://www.oil-price.net/index.php?lang=pt

2) CANZIAN Fernando. Apetite por risco volta ao mercado global, Folha de S. Paulo, 26/06/2009.

3) MARINI, Rui Mauro. La acumulación capitalista mundial y el subimperialismo, Cuadernos. Políticos, México, n.12, abril-junio 1977. Alegre, UFRGS, 2007. http://www.marini-escritos.unam.mx.

4) Diante disso não é nada fraterna e progressista a política externa brasileira com os países latino-americanos e africanos. O projeto do etanol de criar desertos verdes fora do Brasil é um ataque à soberania alimentar de nações como Haiti, El Salvador e outras que estão dentro do horizonte comercial do governo Lula.

5) Para OIT, ação do Brasil deixa trabalhadores sem proteção, Folha de S. Paulo, 26/03/09.

6) CHESNAIS, François. Recesión mundial: el momento, las interpretaciones y lo que se juega en la crisis, in:http://www.herramienta.com.ar/.

7)CARCANHOLO, Reinaldo. Situación mundial: aspectos teóricas de la crisis capitalista, in: http://www.herramienta.com.ar/.

Venâncio de Oliveira é economista e trabalha no CEICOM (Centro de Investigación sobre Inversión y Comercio) – http://www.ceicom.org/

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

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A formalização da "identidade brasileira"

Historiadores investigaram, sob múltiplas perspectivas, o processo que levou a América portuguesa a se transformar em um novo Estado e em uma nação com identidade própria.

Agência FAPESP

Durante quatro anos, 23 historiadores de dez instituições de pesquisa, além de grande número de bolsistas e colaboradores estrangeiros, dedicaram-se a investigar, sob múltiplas perspectivas, o processo que levou a América portuguesa a se transformar em um novo Estado e em uma nação com identidade própria.
A tarefa não é simples, tendo em vista a complexidade do contexto de crise de superação do antigo regime português na América, segundo o historiador István Jancsó, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP), que coordena o Projeto Temático "Fundação do Estado e da nação brasileiros (1780-1850)", apoiado pela FAPESP.
De acordo com Jancsó, os estudos colocaram em cheque uma série de mitos, como o de que a nação brasileira teria surgido, em um passe de mágica, a partir da ruptura com Portugal e da formalização de um novo Estado, legitimado por uma suposta identidade "brasileira" que teria existido entre os colonos nos séculos que antecederam a emancipação política.
A hipótese central da investigação, desenvolvida pelos pesquisadores com foco em inúmeros recortes historiográficos, é que "a idéia correntemente aceita de o Estado ser o demiurgo da nação não dá conta da complexidade do fenômeno que pretende sintetizar", disse.
Para ele, o estudo do período mostra que o Estado brasileiro emerge em meio à coexistência, no interior do que fora antes a América portuguesa, "de múltiplos projetos políticos, cada qual sintetizando trajetórias coletivas que balizavam alternativas dessemelhantes de futuro".
Os estudos, iniciados em 2004, tiveram base em pesquisas, análises e debates realizados pelo grupo de historiadores pelo menos desde 1994. Esses estudos tiveram uma primeira sistematização no artigo Peças de um mosaico (apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira), publicado por Jancsó e João Paulo Garrido Pimenta, em 2000.
O processo ganhou densidade a partir de um seminário internacional realizado em São Paulo em setembro de 2001, que gerou o livro Brasil: a formação do Estado e da nação (1780-1850), de Jancsó, publicado em 2003.

O Projeto Temático coordenado pelo professor gerou 22 livros, seminários, diversas teses e dissertações, além da revista Almanack Braziliense, que aglutina a contribuição à historiografia brasileira que é feita continuamente por estudiosos envolvidos com os estudos do tema.
Durante o desenvolvimento das pesquisas, os historiadores envolvidos no projeto propuseram uma plataforma analítica original: investigar o período com foco nas conexões entre os conceitos de "identidade" e "crise". Leia a seguir trechos da entrevista concedida por Jancsó à Agência FAPESP:
Agência FAPESP - O Projeto Temático que o senhor coordena engloba uma ampla gama de estudos sobre a fundação do Brasil enquanto Estado e nação. Há um eixo central que perpassa toda essa produção acadêmica?
István Jancsó - Quando começamos a discutir essas questões, nos chamou a atenção a extrema atualidade do período histórico que abordamos. Dois eixos específicos, embora ninguém falasse disso na época, eram de uma atualidade até mesmo angustiante: a importância da questão da identidade nacional e a absoluta centralidade do conceito de crise. Esses foram dois grandes vetores dos estudos. Eu diria que a macroquestão é: como se dá, em um período fundamental da formação da nação brasileira, a reorganização da tessitura do todo e das partes.

Agência FAPESP - Por que o conceito de crise é considerado tão central?
Jancsó - Estamos tratando da crise do Antigo Regime como processo geral e, no interior dele, da crise do antigo sistema colonial, que representa uma de suas dimensões constitutivas. É uma crise una e múltipla ao mesmo tempo. Não partimos  uma idéia paradigmática daquela crise. A estratégia de investigação histórica partiu da hipótese de que se poderia chegar a isso por meio do estudo de suas múltiplas manifestações. Um dos aspectos que tornam o conceito de crise fecundo, nesse estudo, é o aspecto da indeterminação que está presente em qualquer crise. Os historiadores sabem que estão lidando com processos vividos por pessoas que não sabiam o que iria acontecer. Então, aquela gente que vivia na América portuguesa entre 1810 e 1820 sabia que a monarquia portuguesa, o Estado dentro do qual eles viviam, já não funcionava tão bem quanto antes. Por isso o conceito de crise é um poderoso instrumento de análise.

Agência FAPESP - Quando se pode dizer que um sistema está em crise?
Jancsó - É simples: quando aquilo que funcionava deixa de funcionar, quando as soluções tradicionais perdem eficácia. Hoje as pessoas leem menos jornal do que há dez anos. Isso significa que podemos pensar em algo como uma crise de um certo tipo de comunicação. Vale dizer que vivemos um processo de reformulação dos padrões de acesso à informação, ou que algumas soluções tradicionais estão sendo postas em questão. E ainda não sabemos qual vai ser o novo sistema, porque isso ainda está sendo elaborado.

Agência FAPESP - Por isso o período histórico em questão é tão atual? Estamos em um momento de crise e indefinição?
Jancsó - Sim e não se trata apenas de uma crise da comunicação. A crise perpassa as relações familiares, as relações políticas, as tecnologias de produção e assim por diante. É algo sistêmico, mas cada um só enxerga o seu particular e esquece que tudo isso é parte de um sistema no qual cada fenômeno particular é parte do movimento da totalidade.

Agência FAPESP - As reações às crises seguem algum padrão específico que permita compará-las em diferentes contextos e períodos?
Jancsó - Em toda situação de crise existem três reações básicas que são bastante generalizadas. A primeira delas é a resposta reacionária: "isso está atrapalhando minha vida e quero que volte a ser como antes". Uma segunda reação é a perspectiva revolucionária: "as coisas não estão funcionando porque os sistemas estão caducos, temos que eliminar tudo o que existia antes e refazer tudo do começo". A terceira é uma posição intermediária que se caracteriza pela tentativa de ajustar o movimento a algum equilíbrio, por mais precário que seja. Porque os homens - mesmo os que fazem uma revolução - pensam sempre em função da criação de alguma ordem na vida social.

Agência FAPESP - Naquele contexto de crise, como se comportavam os habitantes da América portuguesa em relação à identidade nacional?
Jancsó - Quando nos perguntamos como a América portuguesa virou Brasil, no fundo estamos perguntando como aquela gente que dizia "sou português da América" de repente passa a dizer "sou brasileiro"? E como aquele que diz "sou português da América, de São Paulo - portanto, sou paulista, uma maneira de ser português" passa a dizer "sou brasileiro de São Paulo, portanto sou um paulista"? Em 1810 tudo isso se passava ao mesmo tempo. Estava tudo em aberto, o que é uma característica da crise. Naquele contexto de indeterminações, havia uma multiplicidade de projetos políticos. Cada um se referia a alguma realidade que, no contexto da crise do Antigo Regime, trazia em si potencialidades de tipo nacional.

Agência FAPESP - Mas até o fim desse período crítico não se podia falar em nacionalidade brasileira?
Jancsó - Vejamos, por exemplo, o que ocorreu na época da revolução liberal em Portugal, em 1820, quando os portugueses resolveram superar o absolutismo. Chamaram os deputados luso-americanos para participar da regeneração da nação portuguesa. Logo ficou claro que os interesses eram demasiadamente diferentes para permitir que se chegasse a um acordo e alguns dos brasileiros fugiram para a Inglaterra para não assinar a Constituição, que consideravam contrária aos interesses do Brasil. Fizeram um manifesto à nação - à nação portuguesa, porque eles eram portugueses da América tratando da Constituição da nação portuguesa. Então, dizer que existia uma nação brasileira é muito complicado.

Agência FAPESP - A independência teve então sentidos diversos para os diferentes atores?
Jancsó - É curioso que muitos portugueses ainda hoje juram que a independência foi coisa de gente reacionária que não queria o liberalismo em avanço. Para eles, os que trabalharam pela ruptura eram algo como a "direita" absolutista. A independência brasileira foi um ato entendido por muitos portugueses como contrarrevolução: um ato contra os que queriam o fim do absolutismo.

Agência FAPESP - Dentro do Brasil o processo de formação da nação também era encarado de formas diferentes nas várias regiões, adquirindo sentidos diferentes?
Jancsó - A professora Wilma Peres Costa [da Universidade Federal de São Paulo, uma das principais pesquisadoras do Projeto Temático coordenado por Jancsó] está trabalhando com a questão da fiscalidade e da circulação de recursos públicos durante o período de formação do Estado. Os estudos estão mostrando que o sistema vigente durante a era colonial entrou em colapso com a vinda da Família Real (1808), porque antes cada capitania estava ligada ao erário régio em Lisboa e a partir dali criou-se um erário régio no Rio de Janeiro. Como dizer aos pernambucanos que, em vez de mandar os recursos para Lisboa, deviam mandar para o Rio de Janeiro? Ora, ninguém questionou o envio de dinheiro brasileiro para reconstruir Lisboa na metade do século 18. Mas os habitantes do Recife não se conformavam em ter que pagar para transformar o Rio de Janeiro em uma cidade melhor do que a deles.

Agência FAPESP - Qual foi a consequência de descartar a ideia de que o surgimento da nação brasileira foi resultado da criação do Estado?
Jancsó - O conjunto das análises implodiu a matriz de uma certa historiografia nacional ao recusar que a nação surgiu de repente como um pedaço inteiriço que se descola de uma metrópole.Essa idéia foi substituída por outra, com o processo tomando a feição de um caleidoscópio cujos movimentos passam a configurar um novo mosaico. Pensando assim, temos a possibilidade de romper as fronteiras do universo luso-americano e pensar a construção das nações ibero americanas no plano dos dois impérios - Espanha e América espanhola e Portugal e América portuguesa. Confrontamos assim outro mito da historiografia, que afiram que o processo aqui foi o oposto do que ocorreu na América espanhola.

Agência FAPESP - O processo de ruptura teve semelhanças?
Jancsó - Há uma sincronia surpreendente do movimento das partes deste mosaico. Os bolivarianos observavam o que acontecia em Pernambuco, enquanto os portugueses acompanhavam o que ocorria na Venezuela e assim por diante. Pela circulação de pessoas e narrativas, havia uma sincronia. O movimento do todo se dava na passagem dos restos de um capitalismo de eixo mercantil para aquilo que é engendrado pelo capitalismo industrial. Faz parte disso também a passagem de um colonialismo de recorte antigo para o que depois viria a ser chamado imperialismo. Os impérios coloniais na crise do Antigo Regime se esfacelaram sincronicamente. Algumas questões, como o destino do tráfico de escravos, perpassam todos esses processos.

Agência FAPESP - E quanto à noção de que a ruptura da América espanhola foi mais violenta?
Jancsó - Criaram-se mitos como o do caráter pacífico da transição no Brasil, mas as pessoas esquecem que correu muito sangue por conta da dificuldade em superar as estruturas antigas. Na década de 1830, na Cabanagem, um percentual muito relevante da população da Amazônia foi chacinada - alguns chegam a falar em 30%. Isso é guerra civil. A Balaiada, no Maranhão, também foi uma guerra civil. A Farroupilha matou menos gente, mas foi duradoura. O que salta à vista: são todos movimentos de periferia. Não se trata de contestação no centro. Esses movimentos revelam a importância da tensão interna dos sistemas estatal e nacional resultantes da independência.

Agência FAPESP - O fato de o Brasil ter mantido o território íntegro, ao contrário do que ocorreu na América espanhola, é ainda algo difícil de explicar?
Jancsó - Permanece sendo uma boa pergunta. Mas as duas monarquias traziam, desde suas origens, algumas diferenças de fundo. Havia diferenças entre seus modelos de ordenamento interno, transferido para a montagem dos respectivos sistemas coloniais. A América espanhola, desde a origem, foi constituída por unidades administrativas à semelhança de reinos europeus - os vice-reinos da Nova Espanha, da Nova Granada, e assim por diante, cada um com seu centro de gravidade articulando os interiores. Em torno desses centros de poder, durante 250 anos, os homens iam e voltavam para buscar privilégios, pagar impostos, conseguir cargos, honrarias e títulos. De lá se mandava coisa para a Espanha. Isso consolidava determinados ritos, solidariedades e características próprias. Quando o sistema imperial entra em colapso, essa gente busca preservar a ordem que conhecia: a ordem local com seu centro e suas hierarquias.

Agência FAPESP - E no Brasil?
Jancsó - No Brasil isso não aconteceu porque a monarquia portuguesa que colonizou o país era uma monarquia precocemente unificada - existia correspondência entre Estado e nação portuguesa anterior à expansão colonial. Na Espanha não era assim - o rei da Espanha era rei de Aragão, de Castela e assim por diante. Era uma monarquia compósita que serviu de modelo para um império colonial de diversidade. No caso de Portugal, tudo convergia para Lisboa. Esse fundamento nacional do antigo regime serviu de modelo para o Brasil.

Agência FAPESP - Que impacto o Projeto Temático terá na produção historiográfica no Brasil?
Jancsó - Estamos felizes com a recepção do nosso esforço. Essa idéia de processo nos levou a fazer a revista Almanack Braziliense - um fórum permanente de interlocução. Planejamos ainda produzir três livros: um focado na variável "Estado", outro na variável "identidade", e um produto originalmente não previsto no temático: uma linha de investigação sobre a dimensão política do escravismo. O interesse por essa relação entre escravismo e Estado e poder, isto é, o escravismo como política de estado, nasceu dentro do projeto temático. Fizemos o seminário e esse livro está pronto para ser editado. Continuaremos publicando. A produção de conhecimento histórico é bastante diferente do que se dá em outras áreas, especialmente em exatas, nas quais um avanço pode obsoletizar soluções prévias. No nosso caso, o avanço não se dá por saltos, mas por simultânea sedimentação e enriquecimento d do conhecimento do passado. Vale dizer: ele é permanente. O nosso objetivo é a construção novos patamares de formulação de questões pertinentes. E eliminar fantasmas.

Fonte: Leituras da História – http://leiturasdahistoria.uol.com.br/

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Socorro a bancos em 1 ano supera ajuda a países pobres em 50, diz ONU

A indústria financeira internacional recebeu no último ano quase dez vezes mais dinheiro público em ajuda do que todos os países pobres em meio século, segundo aponta um relatório divulgado nesta quarta-feira pela Campanha da ONU pelas Metas do Milênio.
Segundo a organização, que promove o cumprimento das metas das Nações Unidas para o combate à pobreza no mundo, os países em desenvolvimento receberam em 49 anos o equivalente a US$ 2 trilhões em doações de países ricos.

Apenas no último ano, os bancos e outras instituições financeiras ameaçadas pela crise global receberam US$ 18 trilhões em ajuda pública.
A divulgação do relatório coincide com o início de uma conferência entre países ricos e pobres na sede da ONU, em Nova York, para discutir o impacto da pior crise econômica mundial desde os anos 1930.
O encontro, que acontece até o dia 26, tem como principal objetivo "identificar as respostas de emergência para mitigar o impacto da crise em longo prazo", segundo a convocação das Nações Unidas.
Um dos principais desafios da reunião será conseguir um compromisso que permita unir países industrializados e em desenvolvimento para definir uma nova estrutura financeira mundial, prestando atenção especial às populações mais vulneráveis.

Vontade política
O relatório da Campanha pelas Metas do Milênio argumenta que a destinação de dinheiro ao desenvolvimento dos países mais pobres não é uma questão de falta de recursos, mas sim de vontade política.
"Sempre digo que se você fizer uma promessa e não cumprir, é quase um pecado, mas se fizer uma promessa a pessoas pobres e não cumprir, então é praticamente um crime", disse à BBC o diretor da Campanha pelas Metas do Milênio, Salil Shetty.
"O que é ainda mais paradoxal é que esses compromissos (firmados pelos países ricos para ajudar os pobres) são voluntários. Ninguém os obriga a firmá-los, mas logo eles são renegados", lamentou.
"O que pedimos de verdade é que nas próximas reuniões, na ONU nesta semana, e na cúpula do G-8 (em julho), os países ricos apresentem uma agenda clara para cumprir com as promessas que fizeram", disse Shetty.
O relatório da organização observa ainda que a crise mundial piorará a situação dos países mais pobres. Na última semana, a FAO (Organização para a Agricultura e Alimentação) afirmou que a crise deixará 1 bilhão de pessoas em todo o mundo passando fome.
Para Shetty, é importante que os países pobres também participem de qualquer discussão sobre a crise financeira global.
"Hoje eles não têm nenhuma voz nas principais instituições financeiras. Enquanto não participarem da tomada de decisões, as coisas nunca vão mudar", afirmou.

Fonte: BBC Brasil – http://noticias.uol.com.br/bbc/

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Livro radiografa situação do emprego e do trabalho na agricultura brasileira

Obra de professores do IE está dividida em cinco grandes eixos temáticos.

ÁLVARO KASSAB

A heterogeneidade do meio rural no país é analisada no livro Emprego e Trabalho na Agricultura Brasileira, de Antônio Márcio Buainain e Cláudio Dedecca, professores do Instituto de Economia da Unicamp (IE).
Organizada em cinco eixos temáticos, a obra publicada pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) não fica circunscrita ao factual, buscando as raízes históricas e estruturais que se espraiaram em um cenário complexo, além de sugerir ações que resultem em mudanças - neste caso, traduzida na formulação de políticas públicas.

Não são poucos os desafios, a julgar pela análise feita por Buainain nesta e nas próximas duas páginas. O professor do IE revela, por exemplo, que no universo de 30 milhões de pessoas que vivem no campo, população superior à da maioria dos países da América Latina, nada menos do que 4,1 milhões exercem atividades não-remuneradas. E, dentre os 13 milhões de trabalhadores na agricultura remunerados, 40% tinham em 2006 rendimento inferior ao salário mínimo.

O perfil desse contingente também está longe de ser alentador: a baixa qualificação torna os trabalhadores presas frágeis da precarização de suas atividades e da flexibilização das leis, jogando por terra conquistas consolidadas, apesar da atuação sistemática de sindicatos e entidades classistas. Buanain mostra os números: em 2006, apenas 9% dos ocupados agrícolas eram empregados com carteira assinada. No campo da previdência social, a realidade não é menos dramática: a contribuição alcança apenas 22,7% dos trabalhadores.

Nesse quadro de retrocesso e estagnação, Buainain considera estratégico melhorar as condições e ampliar as oportunidades de trabalho na agricultura. Os motivos, observa o docente, são muitos - e óbvios. Além da absorção da mão-de-obra e do peso econômico da produção agropecuária - responsável por cerca de 35% do PIB -, as ações atenuariam os efeitos nocivos e já conhecidos do êxodo rural. "Uma boa parte desta população simplesmente não encontraria qualquer possibilidade de inserção produtiva sustentável nas cidades, nem grandes nem pequenas" observa o docente, reforçando que os trabalhos não-qualificados, que antes absorviam a população rural, hoje exigem um nível de qualificação e de educação formal que exclui as pessoas que trabalham no campo.

Na entrevista, Buainain contesta também a tese de que são dois os Brasis. "Não há dois, há apenas um, que continua estruturalmente heterogêneo. As relações arcaicas estão profundamente articuladas com processos econômicos e produtivos que são comumente identificados como modernos, competitivos e eficientes".

Jornal da Unicamp - Qual a motivação do livro?
Antônio Márcio Buainain - Desde meados da década de 90, os estudos sobre a questão social no meio rural têm focado, prioritariamente, na reforma agrária, na agricultura familiar e nas chamadas ocupações rurais não-agrícolas. O tema do emprego e ocupação na agropecuária propriamente dita foi um pouco esquecido, o que parecia justificado pela redução do emprego agrícola, seja em relação ao total seja em números absolutos.

Desenvolveu-se no Brasil a ideia de que somos um país urbano, com economia baseada na indústria e nos serviços. Mas quando examinamos os números, constatamos que esta ideia não corresponde inteiramente à realidade: de um lado, o chamado agronegócio, que inclui o conjunto de atividades dos três setores - produção primária, transformação industrial e serviços - que tem como base a produção agropecuária, representa algo em torno de 35% do PIB, que contabiliza toda a riqueza gerada no país; e de outro lado, vemos que o emprego e as ocupações na agricultura são ainda muito importantes na absorção de mão-de-obra.

Como eu e o Cláudio Dedecca identificamos esta lacuna, propusemos um seminário sobre o trabalho e emprego na agricultura brasileira, cujo resultado foi transformado no livro publicado pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura [IICA].

JU - De dentro desta temática, qual foi o eixo central?
Buainain - Na verdade são vários eixos. Fomos bastante ambiciosos e tentamos cobrir as múltiplas dimensões do tema, com a dupla perspectiva de compreender a situação atual em sua dimensão histórica e estrutural e de projetar as grandes tendências em curso como base para a formulação de políticas públicas. Ou seja, não nos interessou o dado conjuntural que reflete variações associadas a um momento particular, de crise ou euforia. Por isto, orientamos alguns trabalhos para desenhar, com bastante detalhe, a situação atual do emprego e do trabalho na agricultura, e outros para analisar as transformações estruturais ocorridas nas últimas décadas e seus principais determinantes.

Para dar conta destes objetivos, o livro está organizado em cinco eixos temáticos. Inicialmente, apresenta as grandes tendências do mercado de trabalho em geral, no Brasil e no mundo; em seguida analisa, em seis capítulos, a estrutura, evolução e tendências do mercado de trabalho na agricultura; o terceiro eixo trata das relações de trabalho em uma perspectiva regional; o quarto dos conflitos e da regulação do mercado de trabalho agrícola e encerra com a apresentação da Agenda do Trabalho Decente proposta pela Organização Internacional do Trabalho para orientar as ações da sociedade voltadas para a superação de condições de trabalho que já deveriam ter sido eliminadas há muito, em particular em sociedades que já alcançaram níveis elevados de desenvolvimento das forças produtivas.

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/

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Michael Jackson: legado para pensar o cibercorpo e o sujeito/múltiplo

Claudio Xavier

Um dos maiores cantores e ídolos de todos os tempos, autor do disco mais vendido de toda a história – “thriller”, de 1982, com 50 milhões de cópias em todo o mundo – Michael Joseph Jackson, deixou para a humanidade um legado incomensurável com a sua obra. Desde os cinco anos de idade ele cantou, dançou, criou um estilo próprio de ser artista, viveu no mundo dos famosos e imortais e criou o seu próprio mundo: neverland – a terra do nunca. Como artista, Michael influenciou gerações de fãs e seguidores. Despertou curiosidades e rumores sobre sua vida pessoal e sobre as mutações do seu corpo. Hoje, talvez o seu legado seja mais em relação ao que não se sabe quanto ao Michael Jackson sujeito, e menos em relação ao artista e sua obra.

Ainda cedo, na década de 1970, o cantor deixou o grupo de irmãos artistas – the jackson’s five – do qual fazia parte, seguindo para uma carreira solo. Desde então, iniciou um processo de mutação do seu corpo (consequentemente de si, enquanto sujeito), a partir de sucessivas cirurgias plásticas que lhe tiraram o nariz e o rosto redondos – enquanto elementos identitários, de raça e noção de sujeito que tinha – passando a adquirir uma nova face, um novo corpo que foi se ajustando à sua nova vida de artista e mito. De sujeito dissociado de uma história que deixara para trás com a saída do the jackson’s five, Michael foi se tornando um sujeito solitário. A partir da superação de sua realidade social, e da realidade do seu corpo, instituiu uma forma de viver só – esquizóide.

Michael passou a ser conhecido como o grande astro da musica pop: por sua habilidade em cantar e dançar simultânea e sensualmente; por seus shows de superproduções e discos bem vendidos; por sua vida famosa, excêntrica, porém reclusa; e por sua aparência física cada vez mais surpreendentemente diferente – para alem dos traços físicos que lhe eram característicos e identitários, perdeu também a sua cor. Uma carreira solo, uma vida solitária e um corpo em constante mutação. Assim foi, desde sempre, a especulação sobre Michael Jackson.

Paralelo a notoriedade advinda de uma performance enquanto artista criativo, ousado, inovador e critico, na mesma medida ganhou fama a sua vida de extravagâncias, suscitando questões sobre a sua afetividade e sexualidade, por exemplo. O rancho neverland, onde vivia o artista, se tornou conhecido por possuir um parque de diversões e um zoológico. Ali, o artista recebia seus ilustres convidados: muitas crianças – ou, para o artista, “meus amigos”. Ali, também, o artista alimentava seu “sonho”: o de permanecer eternamente jovem (e solitário?).

Michael Jackson se esquivou de câmeras, aparições públicas, revelações sobre si. Mas não conseguiu se esquivar de comentários, os mais escandalosos, sobre a sua vida pessoal. Os tablóides ingleses The Times e The Sun levaram anos dedicando espaços sobre a vida pregressa do artista. Uma vida cheia de contradições – sobre sua saúde, sobre sua cor, dependência química, desequilíbrio afetivo e financeiro.

Na década de 1980 cogitou-se que ele estaria com lupus (doença autoimune). Em 1993, foi dito que estava com vitiligo (despigmentação natural da pele). Ainda na década de 1990 teve a sua turnê encurtada, por causa do uso excessivo de analgésicos. Foi acusado de molestar menores, de construir um mundo infantil e infantilizado com a pretensa idéia de viver, neste e com este mundo, seus (des)amores. Em 2008, aparece de cadeira de rodas. Agora em 2009, há pouco mais de um mês, cogitou-se que o artista estaria com câncer de pele, fazendo uso excessivo de analgésicos e supostamente sem condições de enfrentar uma turnê que incluiria dezenas de apresentações no exterior.

De prodígio à problemático, Michael nunca deixou de ser um “menino” aos olhos dos grandes meios de comunicação de massa. E numa perspectiva que avalia a construção de Michael como um artista – talvez o maior de todos os tempos – é possível dizer que ela, a mídia que o criou, é a mesma que neste momento procura ascender a chama humana da criatura, em relação ao seu criador – a chama humana da criatura que viveu e morreu recluso – esquizóide.

Poucos foram os momentos em que o astro falou sobre si, revelando-se como humano e/ou mortal. Mas foram o suficiente para gerar curiosidade e incômodo sobre suas escolhas entre a terra dos mortais e neverland – a terra do nunca e de outros paraísos artificiais.

Entre um Michael Jackson construído com e através dos agenciamentos sóciotécnicos e um outro, com prazo de validade, nenhum compêndio dará conta desse abismo. Dessa angustia sobre o sujeito que ele foi – se ele quis ser; se foi. O abismo e a angustia são tão incomensuráveis como o legado do Michael Jackson – mais sujeito, menos astro pop.

Neste momento, em todos os ambientes da Internet, as páginas de busca registram uma ocorrência: problemas no acesso, devido ao número de procura. Milhões de pessoas procuram ávidas por informações sobre o astro, sobre as suas musicas, shows, discos, videoclips, fotos; sobre a sua vida e sobre a sua morte. No fundo, talvez estejam procurando mais do que isto, mais do que o que se sabe sobre ele, Michael Jackson.

Mas o que se pode saber sobre Michael Jackson agora?

No fundo, ele sempre foi virtual. E talvez isto seja uma situação de aprendizagem para os internautas/incautos, dispostos a viver realidades cada vez mais virtuais. Internautas que transferem as leis ou a ausência de leis da realidade virtual para a realidade real (já que o oposto não tem sido verificado). Internautas que, em processos de busca por identificações sucessivas nos múltiplos ambientes virtuais da Internet, se perdem, não geograficamente, mas do corpo que têm, em busca de outro(s) corpo(s) – possíveis apenas numa perspectiva imaginária e ideal de existência, portanto irrealizável.

Assim como houve a construção do artista Michael e do sujeito esquizóide Michael, por si e pela mídia, é possível perceber a construção de “identidades razas” em sujeitos, com e através do uso da Internet e ambientes virtuais – criação de virtualidades razas.

Se os ambientes virtuais, para o bem ou para o mal, são potencializadores de identificações para o sujeito/usuário, é importante que se pense e saiba distinguir entre identificações possíveis e reais, das que são meros avatares momentâneos. É importante que se pense sobre tais identificações sem a negação ou o descarte do corpo (matéria e objeto) tal como ele é. A internet possibilita aos sujeitos encontrar, identificar, si mesmos possíveis – antes de tudo, reais. Sujeitos/múltiplos, que vivem a/na diferença. Que exercitam-na, enquanto condição de existência do humano.

Estas são pistas para descortinar sobre o legado do astro pop e sua virtualidade enquanto sujeito. Michael Jackson, um astro que chegou a cantar o fim da solidão, com um dos seus últimos hits de sucesso “you are not alone” – na década de 1990. Um astro que é “surpreendido” por um ponto final em sua carreira e sua vida, aos 50 anos de idade, e após sucessivas mutações em um corpo que pretendia ser outro – imortal, como se pretende o corpo de internautas/incautos.

Claudio Xavier é doutor em Tecnologias da Comunicação.
Pesquisador sobre imagem, corpo, tecnologia e conhecimento na REDPECT-Rede Cooperativa de Pesquisa e Intervenção sobre (in)formação, Currículo e Trabalho da Universidade Federal da Bahia.

Fonte: NovaE – http://www.novae.inf.br

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E se… o mundo fosse governado pelas mulheres?

O mundo seria mais doce, na opinião das próprias mulheres. Elas estariam dispostas a dividir o poder com os homens, que as dominaram por milênios.

Eliza Muto
Stefan Gan

Visão feminina

O mundo seria mais doce, na opinião das próprias mulheres. Elas estariam dispostas a dividir o poder com os homens, que as dominaram por milênios. Nessa nova sociedade prevaleceriam governantes do sexo feminino, porém mulheres e homens teriam os mesmos direitos e também as mesmas oportunidades.

Marta Suplicy, ex-prefeita de São Paulo, não acredita que os homens fossem prejudicados nesse universo cor-de-rosa. “As mulheres podem ascender ao poder, mas não dominar o mundo”, diz. Opinião parecida tem a socióloga Heleieth Saffioti, um dos maiores nomes do feminismo brasileiro: “Se fosse assim, estaríamos só trocando o sinal do sexismo”.

Ambos os sexos poderiam desenvolver suas potencialidades – no trabalho, na vida familiar ou na vida social. Enquanto a mulher trabalhasse para garantir o sustento da família, o homem cuidaria do lar e dos filhos. Ou o contrário. “O importante é que haja uma divisão das tarefas e que ambos tenham os mesmos direitos”, afirma a uruguaia Lucy Garrido, coordenadora da Articulación Feminista Marcosur, iniciativa que congrega mulheres de vários países sul-americanos.

Os homens só teriam a ganhar com essa novíssima ordem mundial. Eles pagam caro para dominar a cena. Só para dar dois exemplos: não podem broxar e têm de garantir o leite das crianças. No mundo feminino, eles poderiam relaxar e dar mais vazão à sensibilidade. “Eles poderiam expressar melhor suas emoções e se cuidar mais, ou seja, ter características mais ‘femininas’”, diz a psicóloga Ana Carolina de Oliveira Costa, da USP.

A sensibilidade feminina também poderia dar um fim permanente às guerras. Na opinião de Lucy, “as mulheres poderiam tentar solucionar conflitos por meio do diálogo e da negociação”.

Visão masculina

Os homens temem um mundo governado por mulheres. Na opinião deles, elas mostrarão suas garras e virarão o jogo, deixando o sexo masculino em posição de inferioridade. Para o psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg, a era feminina chegará em breve. “Estamos à beira de uma revolução feminista. O modo de vida masculino está falido”, diz. Segundo ele, é natural que haja uma inversão de papéis. Os homens perderiam os melhores postos na economia, na política e – o pesadelo supremo do machão – ficariam encarregados das tarefas domésticas, como limpar a casa e cuidar dos filhos.

Assim, na visão masculina, é provável que o relacionamento entre os sexos fique ainda mais complicado. Para o cientista político mexicano Adrian Gurza Lavalle, da PUC de São Paulo, os homens ainda estão acostumados com a idéia de serem a fonte de sustento da família e vão relutar em aceitar a nova realidade. “A compreensão da família ainda não mudou. E vai mudar muito vagarosamente”, diz ele. “No México, por exemplo, a taxa de divórcio é brutal na fronteira com os EUA, pois lá a mão-de-obra favorece as mulheres, e os homens ficam de lado. Isso causa um conflito familiar.”

Em uma coisa os homens concordam com a visão feminina desse mundo imaginário: a vida seria mais pacífica caso elas governassem. Evaldo Alves, professor de economia internacional da Fundação Getúlio Vargas, põe fé na habilidade diplomática das garotas. “As mulheres entendem melhor as relações humanas e costumam valorizar mais a negociação e o diálogo”, afirma. “Não é por acaso que elas já ocupam, hoje em dia, cargos políticos tão importantes”. Como exemplo, o professor cita Angela Merkel (primeira-ministra alemã) e Michelle Bachelet (presidente do Chile).

Os repórteres Eliza Muto e Stefan Gan são casados e dividem as tarefas domésticas.

Fonte: Revista Superinteressante – http://super.abril.com.br/super2/home/

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Peru: os indígenas contra o Estado e petrolíferas

YVON LE BOT
JEAN-PATRICK RAZON

Enfrentamentos entre indígenas amazônicos e as forças armadas deixaram dezenas de mortos e vários feridos na sexta-feira, 5 de junho, no norte do Peru. Os nativos, que bloqueavam a rodovia Transamazônica, mantiveram vários policiais como reféns. As forças repressoras dispararam contra os manifestantes, utilizando helicópteros segundo algumas fontes.

Esses enfrentamentos são resultado de um conflito entre indígenas da selva e o governo de Alan Garcia, por conta da exploração das riquezas petroleiras. Imensas reservas foram descobertas nos últimos anos na região. Um milagre, segundo o presidente Garcia, que multiplica as iniciativas favoráveis à sua exploração por empresas estrangeiras, incluindo a Perenco, um grupo franco-britânico. Isso tem conseqüências trágicas para as comunidades de caçadores-coletores que extraem seus recursos da floresta e dos lençóis d’água.

Os indígenas agrupados na Associação Interétnica para o Desenvolvimento da Selva Peruana se mobilizaram contra a destruição e a contaminação de seu espaço vital e, depois de várias semanas, a tensão não termina. Eles já receberam apoio de numerosos setores da população de todo o território nacional. Antes dos acontecimentos dos últimos dias, uma mobilização geral havia sido programada para a quinta-feira, 11 de junho.

O governo manifestou sua vontade de passar por cima a todo custo, de abrir caminho às companhias, ignorando os direitos reconhecidos às comunidades desde os anos 70 (por parte do governo militar progressista de Juan Velasco Alvarado), protegidos pelas convenções da ONU.

O que acontece no Peru é uma ilustração dramática de um problema que se tornou crucial em toda a América Latina: a exploração do subsolo e a devastação do meio ambiente em detrimento aos povos autóctones e à biodiversidade. No Brasil, Chile, Colômbia, Guatemala, os grupos indígenas se opõem às empresas de exploração de recursos petroleiros, minerais ou florestais. No Equador, as comunidades amazônicas abriram um processo histórico contra a empresa transnacional Texaco, que provocou um verdadeiro desastre ecológico em uma vasta região. Nunca se havia visto as comunidades amazônicas tentarem mover processo contra uma grande multinacional e menos ainda que os tribunais se mostrassem sensíveis aos seus argumentos (uma decisão final se espera proximamente).

Vários governos latino-americanos tomaram dimensão do problema e se esforçam para avançar para soluções negociadas. Esse é o caso da Bolívia, onde o presidente indígena Evo Morales nacionalizou as reservas de hidrocarbonetos e renegociou com as empresas estrangeiras as condições de exploração, a fim de assegurar uma redistribuição mais equitativa dos benefícios, notoriamente por meio de programas de desenvolvimento, educação e saúde para as populações necessitadas. O presidente equatoriano, Rafael Correa, propôs, no entanto, congelar a exploração de uma região inteira da Amazônia por razões ecológicas e em troca de contrapartidas financeiras da parte da comunidade internacional. No Brasil, uma decisão recente da mais alta corte de justiça veio a confirmar uma ordem do presidente Lula, que reconhece um imenso território dos grupos indígenas no norte da Amazônia, freando, assim, a penetração de caçadores de ouro ou traficantes de madeira (no total, 13% da superfície brasileira está constituída como território indígena).

Os movimentos indígenas que se desenvolveram na América Latina nas últimas décadas conquistaram avanços importantes em nome dos seus países e incluíram o reconhecimento dos direitos territoriais. Mesmo assim, o subsolo permanece como propriedade da nação e, na maioria das vezes, sua exploração é confiada a companhias nacionais ou multinacionais que pilham e saqueiam sem consideração aos ocupantes e nem ao meio ambiente.

Yvon Le Bot é diretor de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica e autor de "La Grande Revolte Indienne, edições Roberto Laffont, 2009.

Patrick Razon é diretor da Survival International (França), movimento mundial de apoio aos povos indígenas (http://www.survivalfrance.org/).

Publicado originalmente em La Jornada, México, 7-6-09 http://www.jornada.unam.mx/

Traduzido por Gabriel Brito, jornalista.

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

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Procura-se um ar mais limpo

Carro a álcool emite 92% menos compostos poluentes não controlados

Yuri Vasconcelos

Os HPAs no ar de São Paulo podem provocar o aparecimento de cânceres

Principal vilã da qualidade do ar nas grandes metrópoles, a frota de veículos automotores lança na atmosfera milhões de toneladas de poluentes todos os dias. Entre os principais e mais conhecidos estão o monóxido de carbono (CO), o dióxido de enxofre (SO2), os óxidos de nitrogênio (NOx), os hidrocarbonetos e os materiais particulados, como poeira e fumaça. Esses poluentes são regulamentados e têm limites precisos de emissão pelos motores desde a fabricação, segundo o Programa de Controle de Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve), lançado pelo governo federal em 1986. Mas o escapamento dos veículos libera outros poluentes, entre eles os chamados hidrocarbonetos policíclicos aromáticos ou, simplesmente, HPAs, que não são controlados de forma sistêmica nem abrangidos pela legislação ambiental. Um recente estudo realizado na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade de São Paulo (USP) mostrou que esses gases estão presentes em altas quantidades na atmosfera. A boa nova é que o carro a álcool é capaz de reduzir o problema em 92% se comparado ao movido a gasolina.
“Essas substâncias têm poder cancerígeno e precisam igualmente ser controladas”, afirma o engenheiro químico e sanitarista João Vicente de Assunção, professor e chefe do Departamento de Saúde Ambiental da FSP, que coordenou o projeto para quantificar a concentração de HPAs e outros poluentes tóxicos não regulamentados na cidade de São Paulo. Os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos são um vasto grupo de compostos orgânicos que têm como característica a presença de dois ou mais anéis aromáticos na composição química das moléculas. Tais anéis são formados por seis átomos de carbono e seis de hidrogênio, sendo o principal representante dessa classe o benzeno. Entre as dezenas de HPAs existentes, dezesseis são mais importantes porque provocam danos à saúde, como o naftaleno, o fluoreno, o fenantreno e, o pior deles, o benzoapireno, de maior toxicidade.
Além de serem emitidos por automóveis, os HPAs são liberados na incineração de lixo, na fumaça de cigarros e na queima de lenha e de carvão. “O problema desses compostos, assim como de outros que também foram objeto de nossos estudos, como as dioxinas e os furanos, é que eles são muito tóxicos e em geral são lipossolúveis. Isso significa que vários deles se acumulam na gordura do corpo. Após complexa metabolização no organismo e com o passar dos anos, podem causar câncer, sendo que os HPAs estão relacionados a câncer de pulmão e de bexiga”, explica Assunção.

Os estudos feitos pelo pesquisador e seu grupo foram divididos em três vertentes. Na primeira, o objetivo foi analisar a concentração de HPAs no ar de São Paulo. Na segunda, buscou-se quantificar a liberação desses compostos por veículos movidos a gasolina e álcool, e na terceira o objeto de estudo foram as emissões dos motores a diesel. Para checar a qualidade do ar de São Paulo, foram instaladas estações de coleta em três pontos da cidade: na própria Faculdade de Saúde Pública, localizada no bairro de Cerqueira César, na região central, na Marginal do Tietê (no bairro da Lapa, na zona Oeste) e nas proximidades do aeroporto de Congonhas, na zonal Sul da capital. As amostras de ar foram coletadas em filtros de microfibra de quartzo e em espuma de poliuretano, de onde foram posteriormente extraídos e analisados com o uso de dois instrumentos de laboratório, um espectrômetro de massas e um cromatógrafo gasoso. “A pesquisa revelou que a concentração de benzoapireno em São Paulo é, em média, de 1,09 nanograma por metro cúbico de ar. É uma concentração elevada em relação a cidades europeias e norte-americanas. Corresponde, por exemplo, a quatro vezes o nível de referência no Reino Unido, que é de 0,25 nanograma por metro cúbico, mas o ideal é que esteja presente na menor concentração possível, pois mesmo a baixas concentrações ainda é um risco para a saúde”, destaca Assunção.

A investigação sobre as emissões de HPAs por veículos foi coordenada pelo tecnólogo mecânico Rui de Abrantes, que fez seu doutorado na Faculdade de Saúde Pública da USP e hoje trabalha na Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) de São Paulo. Foram usados nos testes, conduzidos no Laboratório de Testes de Veículos da Cetesb, dois tipos de automóvel, um com motor flex ou bicombustível, abastecido apenas com álcool, e outro a gasolina. “Para que os veículos fossem representativos da frota paulistana, optamos por carros com motorização de 1.6 cilindrada, equipados com injeção eletrônica e catalisador”, conta Abrantes. O automóvel a gasolina, fabricado em 1998, tinha rodado 67 mil quilômetros, enquanto o flex, de 2004, marcava no hodômetro 56 mil quilômetros.

No total, foram realizados 15 diferentes ensaios nos veículos, sendo 9 no carro a gasolina e 6 no bicombustível, com variação de alguns parâmetros, como tipo de gasolina (comum, premium ou adulterada), tipo de óleo para o motor (mineral ou sintético), qualidade do álcool (normal ou adulterado) e presença ou não de aditivos detergentes – ofertados em postos de gasolina – nos combustíveis. Os gases foram coletados diretamente do escapamento dos carros, que simularam em laboratório as condições de circulação em meio urbano. “Depois que as análises foram processadas, descobrimos que, na média, os veículos movidos a álcool emitem 92% menos HPAs do que os carros a gasolina”, diz Abrantes.

Óleo sintético - Os resultados também demonstraram que o emprego de aditivos em carros a gasolina levou ao aumento da emissão de naftaleno e fenantreno, ao passo que nos automóveis testados com gasolina adulterada, com acréscimo de solvente de borracha, houve redução desses dois compostos. “O combustível adulterado utiliza solventes de borracha que acabam diluindo a gasolina. Se, por um lado, ele emite menos HPAs, por outro pode estar liberando outros poluentes tóxicos não quantificados”, explica Abrantes. O uso de óleo sintético no lugar do mineral, nos veículos a gasolina, por sua vez, contribuiu de maneira significante para a redução da emissão de naftaleno e fluoreno. Com relação aos veículos a etanol, os mesmos tipos de óleo foram testados, mas não revelaram diferenças estatísticas significantes na emissão de HPAs. Os resultados da pesquisa foram publicados na edição de janeiro da revista Atmospheric Environment.

Abrantes, da Cetesb, diz que a legis lação não impõe um controle direto sobre HPAs emitidos por veículos automotores porque os testes necessários para detecção desses poluentes são caros e iriam, em última instância, onerar o preço dos automóveis. “Como os HPAs são um subgrupo dos hidrocarbonetos e também estão presentes no material particulado, que são poluentes regulamentados, podemos dizer que há um controle, ainda que indireto, sobre eles.”

A terceira frente do estudo – quantificação da emissão de HPAs por motores a diesel – foi realizada em bancada, no laboratório de um fabricante desses equipamentos considerando os vários compostos de HPAs. Em média, os motores emitiram 0,689 micrograma de toxicidade equivalente de benzoapireno por quilômetro rodado. Por ser considerado o mais tóxico dos HPAs, o benzoapireno é usado como referência para medir a toxicidade desses compostos, com um fator 1, enquanto os demais têm valores inferiores.

Nos carros a gasolina esse índice é de 0,832 e nos movidos a etanol, de 0,016, no entanto não é possível comparar diretamente com a emissão dos motores a diesel, porque os procedimentos de ensaio são diferentes, além de os motores a diesel testados serem novos, portanto com menor emissão de HPAs, e os veículos a gasolina e a álcool são da frota em uso.

Cloro e bromo - Além da investigação sobre a emissão de HPAs, Assunção e seus colaboradores também se debruçaram sobre outros dois conjuntos de compostos tóxicos liberados pelos veículos, mas esquecidos pela legislação ambiental: as dioxinas e os furanos. Ambos são compostos orgânicos caracterizados pela presença de átomos de cloro ou bromo em sua composição. “Não chegamos a uma conclusão definitiva sobre o teor de emissão de dioxinas e furanos clorados nos veículos a diesel, tudo indica que é tão ou mais importante que a emissão de carros a gasolina e álcool”, destaca.

Os resultados das pesquisas, que contaram com financiamento da FAPESP, foram apresentados em 2008 na 28ª Conferência Internacional sobre Poluentes Orgânicos Persistentes (POPs) (Dioxin2008), na Inglaterra, e na 16ª Conferência Internacional em Modelagem, Monitoramento e Gerenciamento da Poluição do Ar (Air Pollution 2008), na Grécia, e no encontro da Associação Interamericana de Engenharia Sanitária e Ambiental, no Chile, em 2007. “Estados Unidos, Japão e Europa possuem programas de controle e têm obtido sucesso na redução desses três grupos de substâncias [HPAs, dioxinas e furanos]. Esperamos que nossos trabalhos influenciem políticas públicas que levem à prevenção e controle desses poluentes, tão nocivos à saúde humana”, ressalta Assunção.

Artigo científico

Abrantes, R.; Assunção, J.V.; Pesquero, C.R.; Bruns, R.E.; Nobrega, R.P. Emission of polycyclic aromatic hydrocarbons from gasohol and ethanol vehicles. Atmospheric Environment.
v. 43, p. 648-654, jan. 2009.

Os projetos

1. Caracterização de dioxinas, furanos e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos em emissões veiculares e em atmosfera urbana
2. Estudo da presença de dioxinas e furanos no material particulado emitido por motores diesel

Modalidade

1 e 2. Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa

Coordenador

João Vicente de Assunção – USP

Investimento

1. R$ 213.044,00 e US$ 74.892,00 (FAPESP)
2. R$ 13.557,71 (FAPESP)

Fonte: Revista da FAPESP – http://www.revistapesquisa.f pesp.br/

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Domènech fala sobre experiência de Sin Permiso

Em entrevista ao jornal El Tiempo, de Bogotá, Antoni Domènech conta a história da revista criada por intelectuais e ativistas de esquerda de três continentes. O título da publicação e do projeto que a anima é inspirado em uma citação de Marx: quem não tem meios próprios de vida tem de pedir permissão a outros para viver, e por isso não é livre. Liberdade é não ter que pedir permissão a outro para sobreviver, uma idéia que vem dos atenienses. Marx serve-se dela para ilustrar o que eram a democracia revolucionária francesa e o socialismo industrial moderno: programas de universalização da liberdade republicana.

Myriam Bautista

“A disciplina sem generosidade é uma ilusão farisaica, e a generosidade sem disciplina, uma ilusão filistina”.
Antoni Domènech
Entrevista a Myriam Bautista, para o jornal El Tiempo, de Bogotá
Um grupo de intelectuais criou uma revista digital e impressa, com um conselho editorial formado por líderes da esquerda, dos anos setenta, de três continentes.
A imagem poderia ser de um conto de Julio Cortázar: um grupo de homens e mulheres de duas gerações, com muito em comum mas, talvez o mais importante, politicamente derrotados, reunem-se para criar uma revista, com três núcleos de redação, em Barcelona, Buenos Aires e México, e cada um com os pés em distintas cidades, tantas como amigos de velhas lutas, dispersados pelo mundo.
Essas pessoas, quase todas acadêmicas, chegaram a seus orientandos, que os convenceram de que a revista em papel, com tiragem de quatro mil númeos, tão volumosa como um livro, era importante, mas muito mais importante era construir um site na internet para alcançar de imediato um público mais amplo. Houve consenso. Velhos, mais jovens e jovens, sem cobrar um só peso, puseram mãos à obra. Passaram três anos e SinPermisoé já uma referência de leitura obrigatória, a cada oito dias, para 21 mil pessoas dos cinco continentes, inscritas gratuitamente em sua edição eletrônica, na qual se publicam 15 artigos. Cada dia uns 25 mil leitores acessam a página. A Colômbia ocupa a nona posição em acessos.
Maria Julia Bertomeu e Carlos Abel Suárez em Buenos Aires, Adolfo Gilly no México e Daniel Raventós em Barcelona são alguns dos membros do Conselho Editorial. Na redação, entre muitos, destaca-se a colaboração da militante histórica e mítica do Partido Comunista italiano. Rossana Rossanda, desde Milão, com seus 85 anos e recém casada, escreve permanentemente sobre a atualidade de seu país e do mundo.
O editor geral, Antoni Domènech, desde muito jovem militou na resistência clandestina antifranquista nas filas do Partido Comunista e estudou filosofia e direito na Universidade de Barcelona. Desde 1994 é catedrátido de Filosofia na Faculdade de Ciências Econômicas dessa Universidade.
Domènech esteve em Bogotá, como expositor principal num seminário sobre o filósofo político norte-americano John Rawls e para apresentar a revista, no claustro de Santo Agostinho, a conhecedores e profanos que não deixaram de acompanhar sua sisuda e emotiva exposição.
Myriam Bautista - Na Apresentação da SinPermiso, onde aparece seu nome, termina com uma citação de Marx. Por que escolheu-a?
Antoni Domènech – Porque nessa citação se declara que, em todas as épocas, quem não tem meios próprios de vida tem de pedir permissão a outros para viver, e por isso não é livre. Liberdade não é ter que pedir permissão a outro para sobreviver: é uma idéia velha que vem do antigo Mediterrâneo, dos atenienses. É muito notável que na Crítica do Programa de Gotha, onde está essa citação, Marx tenha se servido explicitamente dessa velha idéia para ilustrar o que eram a democracia revolucionária (a da I República Francesa de 1793) e o socialismo industrial modernos: programas políticos de universalização da liberdade republicana. Que ninguém tenha necessidade de ter de pedir permissão a outro para sobreviver, que ninguém seja escravo de outro (de Aristóteles, Marx tomou a idéia de que o trabalho assalariado era “escravidão em tempo parcial”), essa é a idéia.
E converter essa citação de Marx no título da revista implica ainda outra coisa: equivale a uma declaração de princípios radicalmente laicos: nós não somos marxistas sectários, religiosos. Sectário é quem acredita em mito fundador, segundo o qual a origem de sua tradição moral ou política começa do zero, sem antecedentes, como novidade absolutamente radical. Assim são todas as religiões, sem exceção. Mas a democracia republicana e o socialismo modernos se encontram numa larga tradição milenar de luta pela liberdade republicana e por sua universalização, uma tradição ou um conjunto de tradições de combate político que fincam suas mais velhas raízes conhecidas nas lutas populares das velhas sociedades agrárias do mediterrâneo antigo, e também, ainda mais profundamente, num anseio humano universalmente reconhecível.
MB - SinPermiso não recebe anúncios publicitários, não recebe subvenções. Como funciona?
AD – Nisso estamos voluntariamente inscritos na tradição publicista do movimento operário internacional: antes da II Guerra Mundial, nenhum periódico socialista (no amplo sentido do termo, que abarca desde o trabalhismo britânico e as socialdemocracias continentais européias até o anarcossindicalismo, passando pelos distintos comunismos) admitia publicidade comercial, nem recebia subvenções públicas ou privadas. Fazer boa propaganda política, fundada em análises intelectualmente honradas e destinada a persuadir por uma mudança radical com bons argumentos pública e racionalmente debatíveis é incompatível com a dependência de publicidade mercenária - “mercenário” tem a mesma raiz etimológica que “mercado” e “meretriz” -; é incompatível com ter que pedir permissão a empresas privadas ou a governos para existir. SinPermiso se faz de gratis et amore, com a disciplina e com a generosidade dos velhos combatentes socialistas: de nossos maiores anarcossindicalistas aprendemos que a disciplina sem generosidade é uma ilusão farisaica; e de nossos maiores marxistas, que a generosidade sem disciplina é uma ilusão filistina.
MB - Além de autores socialistas, que outros autores publicam em SinPermiso?
AD - Às vezes publicamos liberais de esquerda inteligentes. Os prêmios Nobel Krugman e Stiglitz, por exemplo. Os enfants terribles do establishmentsão interessantes, também porque conhecem por dentro as entranhas do sistema. Michael Hudson, por exemplo, que sempre traduzimos e publicamos com gosto em função da soberba qualidade analítica de seus textos, e que é algo mais que um liberal de esquerda (um republicano quase socialista), esteve 30 anos trabalhando em Wall Street antes de romper com o sistema.
MB - Quando da apresentação de SinPermiso aqui [em Bogotá] disse-se que a Revista vem publicando desde pelo menos 2006 artigos premonitórios da atual crise econômica e financeira mundial. Como foi isso?
AD - É verdade. E aí há que se dizer que os economistas que anteciparam o que estava por vir não são acadêmicos do stablishment, nem sequer liberais de esquerda críticos do sistema (como os mencionados Krugman e Stiglitz), mas pessoas que, ou tinham rompido radicalmente com o que se passou nos anos 90 – como o também mencionado Michael Hudson – ou economistas de formação marxista analiticamente sólida, como meu amigo berlinense Michael Krätke (membro do Conselho Editorial de SinPermiso), atualmente na Universidade de Lancaster, no Reino Unido que, além de ser de ser um dos editores da nova edição crítica internacional das obras completas de Marx e Engels, é um reconhecido especialista em mercados financeiros. Ou o historiador da Universidade da Califórnia Los Angeles, Robert Brenner, também membro do Conselho Editorial de SinPermiso. Também temos publicado peças analiticamente interessanes e premonitórias do economista filipino Walden Bello, um “prêmio Nobel Alternativo”.
MB - Como SinPermiso vê a situação atual?
AD - O momento atual é muito grave e complicado. Os três componentes da chamada “globalização” posta em marcha desde meados dos anos 70 (primeiro, remundialização do capitalismo; segundo, neoliberalismo entendido como saque privatizador do patrimônio público, inclusive do patrimônio natural e, terceiro, financeirização da economia) fracassaram, revelando ilusórias todas as aparências de prosperidade grotescamente celebradas nas últimas décadas por intelectuais e periodistas do sistema. Porém, a isso há que se somar, ao menos, a crise energética – o esgotamento dos combustíveis fósseis que têm estado na base da economia mundial nos últimos cem anos -, assim como a crise ecológica derivada da destruição de vínculos ecossistêmicos globais, cuja manifestação mais visível é a catastrófica mudança climática em curso. As três crises – econômica, energética e ecológica – já estavam no horizonte nos anos 70: esta Guerra dos Trinta Anos em que as forças da reação triunfaram, do obscurantismo e da irresponsabilidade sobre as forças democráticas e populares em escala planetária também significou perder 30 anos na resolução de problemas gravíssimos e urgentes que estavam claramente apresentados já nos anos 70. E o que temos agora são, por um lado, forças muito apequenadas, as da esquerda, que sofreu uma derrota espantosa logo após 68 e, por outro, umas elites que, postas diante da evidência do fracasso clamoroso de todas as suas políticas nas últimas três décadas, estão desnorteadas, desconcertadas diante da magnitude de alguns problemas que, vítimas de suas próprias mentiras e ideologemas, nem sequer parecem capazes de compreender, para não falar em enfrentar.
MB - Conte-nos de seu último livro.
AD - É uma pesquisa acadêmica – demorei 10 anos para completar a investigação que me permitiu escrevê-lo – sobre O Eclipse da Fraternidade. Dos três valores emblemáticos da democracia republicana moderna – liberdade, igualdade, fraternidade -, o da fraternidade não só é hoje o mais enigmático, mas é o menos estudado. O que me propus foi a estudar seu significado, como metáfora e como programa político, para a ala plebéia da Revolução Francesa, assimo como seu problemático legado para o socialismo industrial operário dos séculos XIX e XX. Daí o subtítulo: “Uma revisão republicana da tradição socialista” que, como observou um dia um dos críticos mais inteligentes de minha obra, também poderia ter sido, ao contrário, “Uma revisão socialista da tradição republicana”.

Fonte: Agência Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

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Maior mercado consumidor de cocaína da América do Sul está no Brasil, diz relatório da ONU

Claudia Andrade
Em Brasília

O consumo de cocaína também está crescendo em vários países da América do Sul, incluindo o Brasil. É o que aponta relatório da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre drogas divulgado nesta quarta-feira (24). Em números absolutos, o mercado brasileiro é o que mais consome a droga no continente, com cerca de 890 mil usuários, o equivalente a 0,7% da população entre 12 e 65 anos, segundo dados dos anos 2006/2007. Em 2001, os usuários de cocaína representavam 0,4% da população.

Se o consumo aumenta, crescem também as apreensões da droga. Nos países do Cone Sul (Brasil, Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai), as apreensões passaram de 10 toneladas no ano 2000 para 38 toneladas em 2007. "Isso reflete o aumento crescente da importância desses países para o tráfico de cocaína, tanto para satisfazer a demanda interna quanto para reexportar a cocaína para mercados como Europa, África e região do Pacífico", constata a ONU, em seu relatório.

Em 2007, a América do Sul contribuiu com 45% do total mundial de apreensões da droga, o equivalente a 323 toneladas. Mais de 60% desse número veio da Colômbia. No Brasil, foram apreendidas 17 toneladas de cocaína, o que coloca o país em 10º no ranking mundial. No ano anterior, o Brasil ocupava a 12ª posição, com pouco mais de 14 toneladas apreendidas.

De acordo com a Polícia Federal, a apreensão de cocaína no país aumentou entre 2007 e 2008, passando de 18,5 toneladas para 20 toneladas. "Contudo, esse não é o nosso principal objetivo. Temos tentado fazer a desarticulação das organizações criminosas que atuam neste comércio", disse Roberto Troncon Filho, diretor de combate ao crime organizado da PF.

O relatório da ONU destaca, no entanto, uma queda na produção de cocaína no mundo todo. Em 2004, a produção superou as 1.000 toneladas, número que caiu para 845 toneladas no último levantamento. A redução de 28% na produção da droga na Colômbia contribuiu para a diminuição global, de acordo com o relatório.

Crack: apreensão quase quadruplica

No caso do crack, as apreensões no Brasil cresceram quase quatro vezes de 2006 para 2007, passando de 145,3 toneladas para 578 toneladas. No período histórico do levantamento, que começa em 2002, o ano em que a apreensão da droga foi menor no país foi 2004, com 101 toneladas apreendidas. Em toda América do Sul, as apreensões passaram de 479,3 toneladas em 2006 para 706,8 toneladas no ano seguinte.

Maconha

O consumo de maconha no Brasil está aumentando. Segundo o documento da ONU, a taxa anual de consumo no país passou de 1% em 2001 para 2,6% em 2005. "De acordo com as autoridades brasileiras, esse número parece continuar subindo nos anos subsequentes", afirma o relatório.

Segundo as Nações Unidas, a maconha continua sendo a droga mais cultivada e consumida em todo o mundo. E o alerta do relatório é para os danos que a droga traz à saúde. "O índice médio de THC (o componente prejudicial da droga) observado na maconha na América do Norte quase dobrou na última década. Essa mudança traz grandes implicações à saúde, evidenciada por um aumento significante no número de pessoas em busca de tratamento."
Heroína e drogas injetáveis
O relatório da ONU aponta que o Brasil tem o maior número de usuários de opiáceos (ópio, heroína, morfina) entre os países da América do Sul. São cerca de 635 mil usuários, ou 0,5% da população entre 12 e 65 anos. A maioria usa analgésicos e só uma pequena parte usa heroína (menos de 0,05%). "Os dados mostram uma tendência de estabilização no uso de opiáceos nas Américas, mas tendências de crescimento no México, na Venezuela e na Argentina", diz o documento.

DADOS DO BRASIL SOBRE USUÁRIOS DE DROGAS JOVENS NA AMÉRICA DO SUL

Cocaína
1º lugar

Anfetaminas
2º, atrás da Colômbia

Maconha
5º lugar, atrás de Chile, Uruguai, Colômbia e Argentina

No caso das drogas injetáveis, o Brasil está entre os países com a maior população de usuários. Ao lado de China, Estados Unidos e Rússia, soma 45% do total estimado de usuários no mundo.
O relatório alerta para o perigo de infecção pelo vírus da Aids. Estima-se que entre 0,8 milhão e 6,6 milhões de usuários de drogas injetáveis no mundo inteiro estejam infectados pelo vírus HIV, principalmente no Leste Europeu, Leste e Sudoeste da Ásia e América Latina.
"Faz-se necessário realizar investimentos na saúde pública para enfrentar esse problema", afirma o relatório, observando que os dados sobre uso de drogas injetáveis "são de baixa confiabilidade, considerando o estigma existente em relação a esse tipo de usuário".
O relatório da ONU é feito com base em dados fornecidos pelos governos por meio de questionários enviados ao escritório sobre drogas e crime no ano passado. Os dados são complementados pelas Nações Unidas.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

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Cocaína movimenta US$ 50 bilhões no mundo, aponta relatório da ONU

Folha Online

Uma das drogas mais rentáveis do mundo, a cocaína, movimenta cerca de US$ 50 bilhões por ano segundo relatório divulgado nesta quarta-feira pelo UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime), ligado à ONU (Organização das Nações Unidas).

A análise do diretor executivo do UNODC, Antonio Costa, é que enquanto os índices de pureza e o número de apreensões –nos principais países consumidores– estão diminuindo, os preços estão aumentando, e os padrões de consumo estão em evolução. "Isso pode ajudar a explicar o terrível aumento nos índices de violência em países como o México. Na América Central, os carteis estão disputando um mercado em retração", disse Costa.

O documento foi lançado em Washington (EUA) e tem 314 páginas. Ele foi elaborado devido ao Dia Internacional contra o Tráfico e o Abuso de Drogas, lembrado na próxima sexta-feira (26).

O documento aponta que a produção de cocaína em 2008 foi de 845 toneladas, a menor dos últimos cinco anos.

O fator determinante para a queda foi o declínio de produção na Colômbia, país que produz a metade da cocaína no mundo. Houve redução de 18% no cultivo e uma redução de 28% na produção da droga, em comparação com 2007. A contrapartida é que mercados emergentes da droga, tais como Peru e Bolívia, apresentaram elevação.

Segundo o diretor executivo, a queda na apreensão do produto na África Central deve ter como reflexo a diminuição do fluxo de cocaína após cinco anos de intenso crescimento. Entretanto, ele afirmou que o binômio violência e instabilidade política relacionada às drogas, como é o caso de Guiné-Bissau, só poderá ser erradicado com o auxílio da Europa. "Enquanto houver demanda por drogas, os países mais vulneráveis continuarão sendo alvos dos traficantes. Se a Europa realmente quiser ajudar a África, deve diminuir seu apetite por cocaína", disse Costa.

Apreensões

Outra droga que apresentou queda na produção foi o ópio no Afeganistão, país responsável por 93% da produção mundial de droga. No país da Ásia Central o cultivo apresentou retração de 19% em 2008.

Segundo o documento, apenas 41% de cada 100 kg de cocaína produzida no mundo é apreendido. O país onde mais se apreende a droga é na Colômbia, responsável pela produção de 50% da escalada mundial.

Apesar de pequena se comparado com tudo que é produzido, a apreensão de cocaína é muito superior aos opiáceos (ópio, morfina e heroína) interceptados. Apenas 19% de opiáceos do mundo são apreendidos, em sua maior parte nos países como Irã e Paquistão.

Em 2007, o Irã apreendeu 85% do ópio produzido no mundo e 28% de toda a heroína. O Paquistão está na segunda posição em termos de apreensões de heroína e morfina, segundo o relatório.

O UNODC cita ainda o Afeganistão. O debate sobre o tema será levado em forma de mensagem para uma reunião ministerial do G8 sobre o Afeganistão em Trieste, no dia 27 de junho. "Quanto mais ópio for apreendido no Afeganistão e em seus vizinhos, menos heroína haverá nas ruas da Europa. E vice-versa: quanto menos heroína for consumida no Ocidente, mais estáveis estarão os países da Ásia Ocidental", disse Costa.

Maconha

O documento aponta que a maconha continua sendo a droga mais cultivada e consumida no mundo. Segundo o texto, o índice médio do THC (princípio ativo) quase dobrou na última década em drogas apreendidas na América do Norte.

A potencialização do componente danoso da maconha traz grandes implicações à saúde, evidenciada pelo aumento significativo no número de pessoas em busca de tratamento.

Países da América do Norte, Oceania e Europa Ocidental são os maiores consumidores de maconha do mundo. A América do Norte e Europa Ocidental também lideram quando o assunto é consumo de cocaína.

Sintéticas

Os dados mostram uma evolução na produção e no consumo de drogas sintéticas em países em desenvolvimento. Por outro lado o consumo de anfetaminas, metanfetaminas e ecstasy se estabilizou em países desenvolvidos.

O relatório da UNODC mostra que houve uma mudança na produção. O que antes era artesanal agora assumiu grande escala de produção em laboratórios do sudeste Asiático, região onde está sendo produzida quantidades massivas de comprimidos de metanfetaminas, crystal meth (conhecida como ice) e outras substâncias como a quetamina.

Países da União Européia são os principais fornecedores de ecstasy e o Canadá se transformou no principal eixo de tráfico de meth e ecstasy.

Um terço de toda a apreensão de anfetaminas no mundo foram feitas na Arábia Saudita, mais do que o montante da China e Estados Unidos juntos.

Investimentos e injetáveis

O relatório se mostra contrário à legalização de drogas ilícitas e ressalta que a melhora no enfrentamento do problema exige maior atenção à prevenção e ao tratamento de usuários, por meio de investimentos sociais

A constatação é de que o cultivo ilícito e a venda de drogas se mostram mais fortes em regiões sem presença do Estado ou nas quais a ordem pública é frágil.

O documento aponta ainda que o Brasil está entre os quatro países que tem maior número de usuários de drogas injetáveis. Por consequência dessa prática, o Brasil figura entre os nove países com maiores índices de contaminação do vírus HIV no mundo.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

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Crise mundial: as garantias de direitos sociais e o capitalismo

Nos últimos meses, grandes custos sociais arcados pelos trabalhadores, alvos de demissões em massa e da flexibilização dos direitos trabalhistas, são justificados para sanar a perda de lucro e do poder concorrencial de empresas. É justo a sociedade pagar a conta para salvar o sistema?

Jorge Luiz Souto Maior

Muito se tem dito sobre a crise econômica e suas possíveis repercussões na realidade social brasileira. À esta altura, uma abordagem crítica mais contundente é necessária por causa da constatação de que muitos se valem da crise como mero argumento para continuar jogando o jogo da vantagem a qualquer custo, desvinculando-se de qualquer projeto de sociedade mais democrática.

Para iniciar essa análise, devemos lembrar que a crise é nossa velha conhecida. Ela esteve presente em quase todos os momentos de nossa história. Em termos de relações de trabalho, o argumento da “crise econômica”, como forma de justificar uma reiterada reivindicação de redução das garantias jurídicas de natureza social (direitos trabalhistas e previdenciários), acompanha o debate trabalhista desde sempre. Se alguém disser que “agora, no entanto, é pra valer”, deve assumir que antes era tudo uma grande mentira… E, se assim for dito, que força moral se terá para fazer acreditar no argumento da crise atual?

Não se pode olvidar também que, mesmo quando o Brasil vivenciou, de 1964 a 1973, o que se convencionou chamar de “milagre brasileiro”, o crescimento econômico foi obtido às custas do empobrecimento da maioria da população, já que uma de suas características era a concentração de renda. Em 1970, os 50% mais pobres da população ficavam com apenas 13,1% da renda total e os mais ricos (1% da população) embolsavam 17,8%” [1].

No começo da presente crise pouco se falou na relevância da diminuição do valor do trabalho. A partir de outubro de 2008, iniciou-se um movimento organizado para requerer uma flexibilização das leis trabalhistas do país como forma de combater a crise financeira. Empresas começaram a anunciar dispensas coletivas de trabalhadores, criando um clima de pânico para, em seguida, pressionar sindicatos a cederem quanto às suas reivindicações e buscar junto ao governo a concessão de benefícios fiscais.

Entre janeiro de 2008 e janeiro de 2009, as vendas do varejo nacional acumularam alta de 8,7%.

Essa corrida que passa por cima dos direitos trabalhistas é totalmente injustificável por, pelo menos, três motivos.

Primeiro, porque o custo do trabalho não está na origem da crise econômica como atestam as últimas análises. Nada autoriza a dizer que a sua redução seja fator determinante para que a crise seja suplantada.

Segundo, porque já se pode verificar o quanto se apresentou precipitada e oportunista tal atitude. Em fevereiro de 2009, um aumento do nível de emprego formal foi registrado sobretudo nos setores de serviços, construção civil, agricultura e administração pública [2]. A própria Companhia Vale do Rio Doce iniciou esse movimento irresponsável, quando anunciou dispensas coletivas de trabalhadores. No entanto, no quarto trimestre de 2008 obteve um lucro líquido de R$10,449 bilhões, que representa um aumento de 136,8% em relação ao mesmo período do ano anterior, quando o lucro líquido foi de R$ 4,411 bilhões. A Bovespa, em março, acusou alta de 11% [3]. Em maio, já apresenta alta acumulada de 36,87% desde o início de 2009 [4]. A venda de automóveis, em razão da redução do IPI, sofreu um aumento de 11% [5]. As vendas do comércio varejista subiram 1,4% em janeiro com relação a dezembro do ano passado, segundo noticiou o IBGE. Entre janeiro de 2008 e janeiro de 2009, as vendas do varejo nacional acumularam alta de 8,7%. A Embraer dispensou 4,2 mil empregados. Ela é investigada pelo Ministério do Trabalho acusada de ter fornecido bônus de R$50 milhões a 12 diretores e de ter efetuado a contratação de 200 empregados terceirizados. Os fatos são negados pela empresa. O incontestável é que ela encerrou o primeiro trimestre de 2009 com lucro líquido de R$ 38,3 milhões e receita líquida de R$ 2,667 bilhões [6].

A forma oportunista como algumas empresas se posicionam diante da crise atual, desconsiderando o interesse de toda a comunidade, deve ser questionada

Em terceiro lugar, mesmo que a crise fosse o que se apresentava, é grave a ausência de uma compreensão histórica revelada pelo desprezo aos direitos trabalhistas. Ora, os argumentos de dificuldade econômica das empresas foram uma constante no período de formação da Revolução Industrial e se reproduziram por mais de cem anos até que, em 1914, sem qualquer possibilidade concreta de elaboração de um novo arranjo social, o mundo capitalista entrou em colapso.

À época, eram feitas alegações de que as empresas seriam obrigadas a fechar se fossem obrigadas a dar aumento de salário ou estabelecer melhores condições aos trabalhadores e de que seria melhor um trabalho qualquer a nenhum. Dizia-se ainda que seria preciso primeiro propiciar o sucesso econômico das empresas de forma sólida para somente depois pensar em uma possível e progressiva distribuição da riqueza produzida e que a livre iniciativa não poderia ser obstada pela interferência do Estado. Acreditava-se também que era mais saudável para as crianças de cinco a dez anos se dedicarem à disciplina do trabalho durante oito ou mais horas por dia do que ficarem nas ruas desocupadas.

Ao final da Primeira Guerra Mundial, em 1919, com a criação da Organização Internacional do Trabalho (OIT), reconheceu-se que “havendo condições de trabalho que impliquem para um grande número de pessoas a injustiça, a miséria e privações, gera um tal descontentamento que a paz e harmonia universal são postas em perigo…” [7]. A organização ainda enfatiza que “uma paz universal e durável só pode ser fundada sobre a base da justiça social”.

A forma oportunista como algumas empresas se posicionam diante da crise atual, desconsiderando o interesse de toda a comunidade, acuando sindicatos a fim de auferir a redução de direitos trabalhistas e pressionando o Estado para recebimento de incentivos fiscais, deve ser questionada, porque abala consideravelmente a crença na formação de uma sociedade capitalista desenvolvida a partir de um pacto de solidariedade.

Ora, muitas empresas “modernas” falam de sua responsabilidade social, do seu dever de cuidar do meio ambiente, de ajudar pobres e necessitados, mas quando se veem diante de uma possível redução de seus lucros, não têm o menor escrúpulo de defender abertamente o seu direito de conduzir trabalhadores ao desemprego sem lhes apresentar uma justifica plausível.

Num contexto internacional, cumpre denunciar a postura de algumas multinacionais que pregam aos países “periféricos” um código de conduta, baseado na precarização das condições de trabalho para favorecer a manutenção dos ganhos que direcionam para o financiamento dos custos sociais em seus países de origem. Esse mecanismo é fator decisivo para eliminar qualquer espírito de solidariedade proletária em nível internacional.

O debate deve extrapolar o conflito entre trabalhadores e empresa e atingir o espectro mais amplo do arranjo socioeconômico.

É hora de tirar as máscaras, de se apresentarem os fatos como eles são, pois, do contrário, continuaremos sendo ludibriados por debates propositalmente pautados fora da discussão necessária, que nos leva à seguinte questão: O capitalismo tem jeito? Se a crise é do modelo capitalista não se pode deixá-lo fora da discussão.

O capitalismo se baseia na concorrência. Se o primeiro é desregrado, consequentemente, o segundo não encontra limites. A obtenção de lucro impulsiona a ação na busca de um lucro sempre maior. Os investimentos especulativos, por trazerem lucros fáceis, são naturalmente insaciáveis.

Em um mundo marcado pelo avanço tecnológico, as repercussões especulativas e os lucros pela produção se concretizam muito rapidamente. Não há tempo para reflexão e, até mesmo, para elaborar projetos a longo prazo. Assim, os riscos são potencializados e a sociedade tende ao colapso sobretudo pela perda de valores éticos e morais, afinal, não é só de sucesso econômico que se move a humanidade. É conveniente registrar que só a satisfação espiritual não basta, pois sem justiça social não há sociedade democrática.

Estas são reflexões necessárias para o presente momento. Não é mais possível apenas tentar salvar os ganhos dos trabalhadores diante das investidas de alguns segmentos empresariais. O debate deve extrapolar o conflito entre trabalhadores e empresa e atingir o espectro mais amplo do arranjo socioeconômico. Neste prisma, se os preceitos do Direito Social são entendidos como empecilhos ao desenvolvimento econômico por gerarem um custo que obsta a necessária inserção na concorrência internacional, a questão não se resolve simplesmente acatando a redução das garantias sociais.

Diante de uma constatação dessa ordem, então, será preciso reconhecer a inutilidade do Direito Social para a concretização da tarefa a que se propôs realizar, isto é, a de humanizar o capitalismo e de permitir que se produza justiça social dentro desse modelo de sociedade. Em seguida, será necessário assumir a inevitabilidade do caráter autodestrutivo do capitalismo, inviável como projeto de sociedade, uma vez que a desregulação pura e simples do mercado já deu mostras de ser incapaz de desenvolver a sociedade em bases sustentáveis. A prova disso é a própria crise econômica, realidade já vivenciada em outros países.

Duas são as alternativas que se apresentam para o momento e que devem ser tomadas com urgência:

a) ou fazer valer de forma eficaz, irredutível e inderrogável os direitos sociais, preservando a dignidade humana e, ao mesmo tempo, mantendo a esperança da efetivação de um capitalismo socialmente responsável. Isso exige uma série de medidas:

- Os trabalhadores não devem pagar a conta em tempos de crise;

- Uma “ética nos negócios” deve ser implantada, baseada no respeito à dignidade da pessoa humana, na democratização da empresa (permitindo co-gestão por parte dos trabalhadores, além de participação popular e institucional) e em uma distribuição real de lucros e na formulação de projetos a longo prazo;

- Não aceitação da terceirização de trabalhadores, que transforma pessoas em coisas de comércio;

- Não transformar homens em Pessoas Jurídicas para se servir de seus serviços pessoais de forma não-eventual;

- Não se valer de cooperativas, de contratos de estágio e de outras formas de trabalho com o objetivo de fraudar a aplicação da legislação trabalhista;

- Não impulsionar um sistema cruel de rotatividade da mão-de-obra;

- Não assediar moralmente os trabalhadores sobretudo mediante a ameaça do desemprego;

- Não utilizar mecanismos de subcontratação, transferindo para empresas descapitalizadas parte de sua produção, pois isso abala a efetividade dos direitos dos trabalhadores;

- Não institucionalizar um sistema de banco de horas com o único propósito de prorrogar a obrigação quanto ao efetivo pago às horas extras com o adicional constitucionalmente previsto;

- Não deixar de cumprir obrigações legalmente previstas, com a intenção de forjar acordos perante a Justiça do Trabalho com quitação de todos os direitos. Neste item, cabe mencionar o registro da CTPS (Carteira de Trabalho e Previdência Social) do trabalhador, a dinâmica de horas extras e o seu pagamento, a preocupação com o desenvolvimento sustentável etc

- Nesta primeira alternativa, que considera a viabilidade do capitalismo, a solução dos problemas da crise não se resume à cômoda aceitação da intervenção do Estado na lógica de mercado. É preciso que o sentido ético se insira na ordem produtiva. Por exemplo, não servem as iniciativas de incentivo à produção ou à construção civil, se os produtos e obras se realizarem por intermédio de mecanismos de supressão dos direitos dos trabalhadores. Além de isso significar um desrespeito à ordem jurídica, representa também uma forma de agressão ao ser humano, quebrando toda possibilidade de pacto social. Para implementação desse projeto, já inscrito na Constituição brasileira, exercem papel decisivo a parcela consciente do empresariado nacional, além do Estado e do mercado consumidor por meio de uma atitude à base de sanções e prêmios.

b) ou iniciar a elaboração de um projeto de outro modelo de sociedade a partir dos postulados socialistas de divisão igualitária dos bens de produção e da riqueza auferida. Afinal, se dentro da lógica capitalista não for viável concretizar os preceitos supra, relativos aos direitos humanos inderrogáveis e previstos em declarações, tratados internacionais e em nossa própria Constituição, por que continuar seguindo esse modelo que reduz as garantias sociais, aprofundando as desigualdades e o retrocesso no nível da condição humana?

[1] Rubens Vaz da Costa, apud, José Jobson de A. Arruda & Nelson Piletti, Toda a História: história geral e história do Brasil, Ed. Ática, 2002, p. 436.

[2] Cf. http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u536582.shtml.

[3] Cf. reportagem da Folha de São Paulo, p. B-3, de 24/03/09.

[4] http://eptv.globo.com/economia/economia_interna.aspx?257170

[5] Cf. noticia a rádio CBN: http://cbn.globoradio.globo.com/editorias/economia/2009/03/13/COM-ALTA-DE-11-VENDA-DE-VEICULOS-PUXA-EXPANSAO-DO-COMERCIO-EM-JANEIRO.htm.

[6] http://ultimosegundo.ig.com.br/economia/2009/04/30/embraer+encerra+
trimestre+com+lucro+liquido+menor+de+r+383+mi+5856931.html

[7] Preâmbulo da Constituição da OIT

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/ /

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O que realmente aconteceu nas eleições do Irã?

As eleições iranianas uniram a esquerda e a direita no ocidente, desatando duras críticas e ataques que vão desde os “indignados” políticos aos “indignantes” meios de comunicação. Até a blogosfera se uniu a esta batalha de maneira quase homogênea, pondo-se ao lado da oposição iraniana, o que é bastante pouco comum no ciberespaço. Muitas das acusações de fraude eleitoral são simplesmente isto: acusações sem fundamento. Ninguém foi capaz de proporcionar nem uma só prova sólida de uma fraude em grande escala. A análise é de Esam Al-Amin.

Esam Al-Amin

Desde a realização das eleições presidenciais de 12 de junho, proliferaram “experts” em Irã como bactérias numa placa de Petri. Assim, fica uma pergunta a todos esses especialistas instantâneos: “Que país elegeu mais presidentes que qualquer outro no mundo desde 1980? Mais ainda, que nação é a única que celebrou dez eleições presidenciais em trinta anos desde a sua revolução?
A resposta a ambas as perguntas é, claro, Irã. Desde 1980 o país elegeu seis presidentes, enquanto os EUA ocupam o segundo lugar, com cinco, e a França em terceiro, com três. Ademais, os EUA, nos dez anos de revolução iraniana, realizou três eleições, o Irã realizou 10.
As eleições iranianas uniram a esquerda e a direita no ocidente, desatando duras críticas e ataques que vão desde os “indignados” políticos aos “indignantes” meios de comunicação. Até a blogosfera se uniu a esta batalha de maneira quase homogênea, pondo-se ao lado da oposição iraniana, o que é bastante pouco comum no ciberespaço.
Muitas das acusações de fraude eleitoral são simplesmente isto: acusações sem fundamento. Ninguém foi capaz de proporcionar nem uma só prova sólida de uma fraude em grande escala, que tivesse obtido onze milhões de votos para um candidato sobre seu oponente.
Dessa maneira, analisemos as provas disponíveis até agora.
Foram feitas mais de trinta pesquisas eleitorais no Irã desde que o presidente Mahmoud Ahmadinejad e seu principal opositor, o ex-primeiro ministro Hossein Mousavi, anunciaram suas candidaturas no começo de março de 2009. As pesquisas variavam amplamente entre ambos os rivais, mas havia algo em que seus resultados coincidiam, era que Ahmadinejad seguiria no seu cargo. Contudo, algumas das organizações que patrocinaram essas pesquisas, como a Iraniana Labour News Agency e a Tabnak admitem abertamente terem sido aliadas de Mousavi, da oposição ou do assim chamado movimento reformista. Seus números foram claramente inclinados em favor de Mousavi, da oposição e lhe deram uma vantagem irrealista de 30% em algumas pesquisas. Sem essas pesquisas enviesadas, a vantagem de Ahmadinejad sobre Mousavi se ampliaria em até 21 pontos percentuais.
Por outro lado, só houve uma pesquisa elaborada por um agência de imprensa ocidental. Foi a comissionada conjuntamente pela BBC e pela ABC News, e realizada por uma entidade independente chamada Centro para a Opinião Pública (CPO, em sua sigla em inglês) da New America Foundation. O CPO tem reputação de levar a cabo pesquisas de opinião rigorosas, não apenas no Irã, mas em todo o mundo muçulmano, desde 2005. A pesquisa, realizada algumas poucas semanas antes das eleições, apontavam uma participação de 89%. E mais: mostrava que Ahmadinejad tinha uma vantagem nacional numa razão de dois para um, sobre Mousavi.
Por acaso esses dados não se assemelham com os resultados finais? Quais são as possibilidades de uma fraude eleitoral de grande escala?
De acordo com os resultados oficiais, houve 46,2 milhões de votantes registrados no Irã. A participação foi massiva, como anteviu o CPO. Quase 39,2 milhões de iranianos participaram do pleito, com um total de participação de 85%, dos quais 24,5 milhões de votos foram para Ahmadinejad, contra 13,2 milhões dados a Mousavi, ou 62,6% contra 33,8% do total de votos, respectivamente. De fato, esse resultado era praticamente idêntico ao as eleições de 2005, quando Ahmadinejad recebeu o total de 61,7% dos votos e o presidente Hashemi Rafsanjani, 35,9%, naquelas eleições. O resto dos votos foi parar noutras candidaturas minoritárias, como as de Mehdi Karroubi e Mohsen Rezaee.
Pouco depois dos resultados serem anunciados, os partidários de Mousavi e os especialistas políticos ocidentais gritaram “trapaça” e acusaram o governo de fraude eleitoral. A acusação se baseou em quatro pontos.
Primeiro: ainda que a votação tenha se extendido durante muitas horas dada a alta participação, alegou-se que os resultados apareceram muito rápido para terem sido obtidos logo após o encarramento da votação, quando havia mais de 39 milhões de papéis para contar.
Em segundo lugar, esses críticos insinuaram que os observadores atuaram partidariamente, ou que, em alguns casos, a oposição não contou com seus próprios observadores presentes durante a recontagem. Em terceiro lugar, assinaralam que era absurdo pensar que Mousavi, que descende da região do Azerbaijão, no noroeste do Irã, fosse derrotado facilmente em sua própria cidade natal. Quarto, o campo de Mousavi denunciou que alguns colégios eleitorais encerraram a votação antes do tempo e as pessoas tiveram de voltar as suas casas sem terem exercido seu direito ao voto.
No dia seguinte, Mousavi e outros candidatos derrotados apresentaram 646 queixas ao Conselho de Guardiães, a entidade encarregada de supervisionar a integridade das eleições. O Conselho prometeu levar a cabo uma investigação exaustiva de todas as queixas. Na manhã seguinte, uma cópia de uma carta de um funcionário do ministério do interior enviada ao Guia Supremo Ali Khamenei começou a circular por todo o mundo (os políticos ocidentais e os meios de comunicação gostam de chamar Khamenei de “Líder Supremo”, mas não existe nenhum título como esse no Irã).
A carta afirmava que Mousavi havia vencido o pleito e que Ahmadinejad tinha ficado na realidade em terceiro lugar. Também assegurava que as eleições tinham sido arranjadas em favor de Ahmadinejad por ordens de Khamenei. Com toda segurança pode afirmar-se que essa carta é uma falsificação, pois nenhum funcionário desse nível se dirigiria ao aiatolá Khamenei. Robert Fisk, no Independent, chegou a mesma conclusão, levantando graves dúvidas de que Ahmadinejad pudesse ter ficado em terceiro – obtendo menos de 6 milhões de votos numa eleição tão importante como essa – como se afirma na carta falsa.
Houve um total de 45.713 urnas eleitorais nas cidades, povos e aldeias de todo o Irã. Com 39,2 milhões de votos, houve portanto menos de 860 votos por urna. À diferença de outros países, onde os eleitores podem dar seu voto a várias candidaturas e por diferentes questões numa mesma jornada eleitoral, os eleitores iranianos têm uma opção em que votar: seu candidato presidencial. Por que haveria de se levar mais de uma hora ou duas contar 860 papeletes por colégio eleitoral? Depois da recontagem, os resultados foram enviados eletronicamente ao Ministério do Interior em Teerã.
Desde 1980 o Irã sofreu uma guerra brutal de oito anos com o Iraque, um embargo e um boicote punitivos e uma campanha de assassinatos de dúzias de seus juízes, um presidente eleito e um primeiro ministro, nas mãos do grupo Mujahideen Khlaq Organization (MKO é uma organização nacional violenta, com sede na França, que visa a derrotar o governo pela força) (1). Apesar de todos os desafios, a República Islãmica do Irã nunca fracassou numa consulta eleitoral em três décadas. Levou a cabo mais de trinta eleições nacionais. E, mais, estabeleceu uma tradição eleitoral ordenada, muito similar às circunscrições eleitorais nos EUA (election precincts) ou no Reino Unido (borough). As eleições no Irã são organizadas e vigiadas e os papeletes contados por professores e profissionais, inclusive funcionários e aposentados (de modo muito similar aos EUA).
Não existe uma tradição de fraude eleitoral no Irã. Pense-se o que se quiser sobre o sistema da República Islãmica, mas seus juízes impugnaram ministros e lhes dificultaram o acesso (borked) (2) a vários presidentes, inclusive ao próprio Ahmadinejad. O que não são é funcionários burocratas que só carimbam. De fato, o antigo presidente Mohammad Khatami, considerado um dos principais reformisas no Irã, foi eleito presidente pelo povo quando o Ministério do Interior era dirigido por ultraconservadores. Venceu as eleições com mais de 70% dos votos não apenas uma vez, mas duas.
Quando se fala de eleições, o verdadeiro problema no Irã não é a fraude, mas o acesso dos candidatos aos votos (um problema que não é exclusivo do país, senão perguntem a Ralph Nader, ou a qualquer outro terceiro partido nos EUA). É altamente improvável que tenha havido uma ampla conspiração que implique dezenas de milhares de professores, profissionais liberais e funcionários em algo que, de algum modo, siga sendo totalmente oculto e sonegado aos olhos da opinião pública.
Ademais, enquanto Ahmadinejad pertence a um partido político ativo que já venceu várias eleições desde 2003, Mousavi é um candiato independente que apareceu na cena política apenas há três meses, depois de um intervalo de 20 anos. Durante a campanha se viu claramente que Ahmadinejad tinha capacidade de chegar a toda a nação: fez mais de sessenta viagens por todo o Irã em menos de doze semanas, enquanto seu oponente só fez campanha nas cidades maiores, e carecia de um aparato eleitoral sofisticado.
É verdade que Mousavi tem ascendência azeri. Porém, a presquisa do CPO acima mencionada e publicada antes das eleições observa que “seus resultados indicam que só 16% dos iranianos de etnia azeri votarão em Mousavi. Em troca, 31% dos azeris afirmaram que votariam por Ahmadinejad”. Ao final, segundo os resultados oficiais, a eleição naquela região foi muito mais concorrida do que no cômputo nacional. De fato, Mousavi ganhou por uma estreita margem na província ocidental azerbaidjana, mas perdeu a região para Ahmadinejad por uma diferença de uns 45 a 52% (ou de 1,5 a 1,8 milhões de votos).
Contudo, o duplo tratamento das agências de notícias ocidentais é assombroso. Richard Nixon derrotou esmagadoramente George McGovern no estado nativo deste, de Dakota do Sul, nas eleições de 1972. Se Al Gore tivesse ganhado em seu estado natal, do Tennessee, em 2000, ninguém teria se importado com a recontagem de votos na Flórida, nem teria havido a nomeação de Bush por uma Corte Suprema. Se o candidato a vice John Edwards tivesse ganhado nos estados em que nasceu e foi criado (Carolina do Norte e Carolina do Sul), o presidente John Kerry agora estaria no cargo em seu segundo mandato. Porém, por alguma razão as salas de redação dos meios ocidentais no Oriente Médio escolhem seus candidatos não por seus méritos, mas em função da “tribo” a que pertencem.
É fato que candidatos menores, como Karroubi, obtiveram menos votos do que o esperado, inclusive em suas regiões de origem, como denunciam os críticos, sem sair do lugar comum. Muitos eleitores chegam à conclusão de que não querem desperdiçar seus votos quando o quadro se define na disputa entre dois candidatos. Karroubi recebeu muito menos votos nesta eleição do que em 2005, inclusive em sua cidade natal. Do mesmo modo que Ross Perot perdeu em seu estado natal, o Texas, para Bob Dole, nativo do Kansas, em 1996, enquanto que, em 2004 Ralph Nader recebeu 20% dos votos que teve quatro anos antes.
Alguns observadores anotaram que quando os resultados oficiais foram anunciados, a margem de votos entre os candidatos se mantinha durante a recontagem. Isso não é, mais uma vez, mistério algum. Os especialistas assinalam que, geralmente, quando 3 ou 5% dos votos de uma dada região foram contados há 95% de segurança de que esse resultado será definitivo. E, quanto ao fechamento dos colégios eleitorais e das pessoas tendo de voltarem as suas casas, vale a pena mencionar que o tempo de votação foi extendido quatro vezes para permitir o quanto fosse possível que mais pessoas votassem. Porém, se dentre os que não votaram tivessem votado em Mousavi (algo virtualmente impossível), isso suporia uns 6,93 milhões de votos adicionais, muito menos do que os 11 milhões de votos de diferença entre os dois principais candidatos.
Ahmadinejad não é certamente uma figura simpática. É um ideólogo, é provocador e às vezes se comporta imprudentemente. Mas caracterizar a luta no Irã como uma batalha entre forças democráticas e um “ditador” é exibir uma ignorância total das dinâmicas internas do Irã, ou distorcê-las deliberadamente. Não há qualquer dúvida de que existe um setor significativo da sociedade iraniana concentrado ao redor das áreas metropolitanas e composto sobretudo de gente jovem, que anseia apaixonadamente por liberdades civis. Estão compreensivelmente irritados porque seu candidato ficou muito atrás do esperado. Porém, seria um enorme erro interpretar esse desacordo nacional com um “levante” contra a República Islãmica, ou um toque de atenção para que a política externa se acomode ao ocidente às expensas do programa nuclear iraniano, ou de seus interesses vitais.
Nações respeitam outras nações quando respeitam sua soberania. Se uma nação qualquer, por exemplo, quiser ditar suas políticas econômicas, sociais ou exterior aos EUA, os estadunidenses se indignariam. Quando a França do presidente Chirac se opôs à aventura norte-americana no Iraque em 2003, alguns congressistas estadunidenses rebatizaram suas batatas fritas (french fries) em de “freedom fries” (liberdades fritas). E fizeram os franceses ficarem sabendo que não eram bem-vindos nos EUA.
Os Estados Unidos têm uma longa história de interferências nos assuntos internos do Irã, especialmente quando derrubaram o governo democraticamente eleito do primeiro ministro Mohammad Mossadegh em 1953. Esse ato, que muitos estadunidenses desconhecem, está muito presente na consciência dos iranianos, desde a sua infância. É a principal causa de boa parte de sua constante animosidade com os EUA. Foi preciso que se passassem 56 anos para que um presidente estadunidense reconhecesse esse ato ilegal: foi quando Obama o fez no começo do mês, no Cairo.
Por isso, seria um erro colossal interferir novamente nos assuntos internos do Irã mais uma vez. O presidente Obama está atuando sabiamente, deixando que os iranianos resolvam por si mesmos essa questão. Ater-se aos interesses políticos dos republicanos ou dos democratas pró-Israel seria extremamente perigoso e traria graves repercussões. Uma conduta irresponsável como essa, de parte do grosso dos políticos dominantes e dos meios de comunicação parece novamente uma tentativa flagrante de demonizar o Irã e seu atual governo, para justificar dessa maneira qualquer ataque militar futuro de Israel, caso o Irã não dê o braço a torcer nas suas ambições nucleares.
As declarações do presidente Obama no Cairo estão sendo acertadamente lembradas. A esse respeito disse ao Irã: “Reconheço que será difícil superar décadas de desconfiança mútua, mas procederemos com coragem, retidão e determinação. Há muitas questões a debater entre nossos dois países, e desejamos dar um passo à frente, sem condições pré-estabelecidas, com base no respeito mútuo”.
Porém, o primeiro signo de respeito de mútuo é permitir aos iranianos que eles resolvam suas diferenças sem qualquer interferência, encoberta ou não.

Esam Al-Amin é colaborador de Counterpunch.
Tradução: Katarina Peixoto

(1) Essa organização, a Mujahideen Khlaq Organization (Organização de Combatentes de Povo do Irã) armada foi fundada em 1965 e segue os escritos de Dr. Alí Shariati,uma mistura reivindicada de islamismo e marxismo. Perseguida pelo regime dos aiatolás, mudou-se para Paris e, em 1987, também para o Iraque, recibendo apoio econômico de Saddam Hussein até a queda do regime baaista. [Wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/People%27s_Mujahedin_of_Iran]
(2) Este verbo “to bork” tem sua primeira aparição atribuída ao Atlanta Journal Constitution, de 20 de agosto de 1987, segundo William Safire, do NYT. Safire define “to bork” como “o modo como os democratas atacaram com ferocidade ao candidato de Ronald Reagan, o juiz do Tribunal de Apelação Robert H. Bork, no ano anterior”, de quem se elogiava sua aptidão técnica, mas se receava por ser políticamente tendencioso. Em março de 2002 o Oxford English Dictionary incluiu ol verbo “to bork” para definir a quem “se evita de ser nomeado para un cargo público ativamente perseguido”.

Fonte: Agência Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

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Apoteose da pequena política

LÉO LINCE

O presidente Lula, tudo indica, fez escola. Com a imagem do Senado Federal em petição de miséria, chegou a vez do seu presidente, José Sarney, declamar em discurso solene o velho refrão: "não sabia de nada". O que lhe imputam, ele não nega, aconteceu de fato. Mas nada fora dos conformes, da prática habitual entre os seus pares; ou, quando ilegal, executado à sua inteira revelia. Impoluto, ele que preside a Casa pela terceira vez e nomeou o indigitado Agaciel, se julga injustiçado. Prometeu investigar tudo, "doa a quem doer", e declarou sem corar: "eu não sei o que é ato secreto".

Uma frase chave foi destacada pelos jornais no pronunciamento em pauta: "a crise não é minha, é do Senado". Na sequência, sem deixar claro se dava ao plural o uso majestático, enfatizou: "nós não temos nada a ver com isso". Inútil buscar nelas mesmas o sentido de tais frases. Que diabo disso é aquilo só saberemos no desdobrar dos acontecimentos. Pode ser um mero freio de arrumação, um aviso aos navegantes, um cala-boca geral. Pode ser também uma volta a mais na espiral da crise que, para muito além do Senado, envolve o conjunto das instituições e valores republicanos. Ou até mesmo uma nova teoria sobre a impessoalidade da corrupção sistêmica, aquela que por si move e sobre a qual ninguém é responsável.

Neste momento, as luzes da ribalta estão focadas em Sarney, uma figura cada vez mais emblemática. Depois da morte de ACM, ele se tornou a mais luzida expressão do peso das oligarquias regionais na política brasileira. Quando jovem, na chamada "banda de música" da UDN, ostentava fumos progressistas: desbancou o oligarca de sua região para ocupar, com os mesmos métodos, o seu posto. Na ditadura, foi prócer da ARENA e "evoluiu" de opinião quando a transição para a democracia se afigurava inevitável. Na época, por conta de tal deslocamento, ele foi definido por Fernando Lira, então um autêntico do MDB, como sendo a expressão mais lídima da "vanguarda do atraso". Embora não pareça, era um elogio. Por golpes do acaso, a morte de Tancredo, se fez o primeiro presidente da chamada "Nova República". Sempre bem composto com os governos que lhe sucederam, ostenta no momento atual a condição de conselheiro e lulista de carteirinha.

Apesar de imortal, por ser titular da Academia Brasileira de Letras, como pessoa política Sarney deve ao governo Lula a longevidade de sua condição de oligarca regional. Aliás, dos males provocados contra o Brasil pelo lulismo, a revitalização das oligarquias regionais está entre os mais danosos. Prometia alvoradas – outro modelo econômico, ética na política, nova gramática do poder - e se realizou como continuidade do ocaso. Desmobilizou o ímpeto mudancista dos movimentos sociais e agora, na condição de "atraso da vanguarda", chafurda no pântano comum da mais desqualificada política de negócios.

Daí a fieira interminável de escândalos, cidadania desencantada, crise da representação política, apodrecimento das instituições. Um momento particularmente perigoso. Lula e Sarney são peças chaves do quebra-cabeças, onde a junção da "vanguarda do atraso" com o "atraso da vanguarda" resulta no que aí está: a apoteose da pequena política.

Léo Lince é sociólogo.

Fonte: Correio da Cidadania – http://www.correiocidadania.com.br/

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Habermas, 80 anos

Em 18 de junho, comemora-se o 80º aniversário daquele que é considerado o maior filósofo alemão vivo, Jürgen Habermas. Representante da "segunda geração" da Escola de Frankfurt (grupo que reuniu teóricos como Walter Benjamin, Max Horkheimer, Theodor Adorno e Herbert Marcuse), Habermas é autor de livros que propõem articulações inovadoras no campo das teorias do direito, da moral e da educação. S egundo o sociólogo Jessé de Souza, o pensamento habermasiano permite a nós brasileiros "perceber nossa própria sociedade de um modo mais crítico e menos auto-indulgente e superficial".

Leia a seguir dois artigos presentes na edição de junho da CULT. O primeiro, de Luiz Bernardo Leite Araújo, comenta a presença de Habermas no debate contemporâneo.O último, de Jessé de Souza, apresenta a aplicabilidade do pensamento habermasiano no Brasil. Confira também depoimento da professora de Sociologia da UnB, Bárbara Freitag em homenagem aos 80 anos de Habermas.

Um pensador da razão pública

Considerado o filósofo vivo mais importante da Alemanha, Jürgen Habermas completa 80 anos. Saiba mais sobre seu período de formação, sobre sua "revolução linguística" na Teoria Crítica (base da "Escola de Frankfurt"), e sua presença no debate contemporâneo.

Luiz Bernardo Leite Araujo

Jürgen Habermas (Düsseldorf, 18 de Junho 1929) é um dos mais importantes e influentes pensadores da atualidade, tendo se notabilizado pela destreza em transitar por diversas áreas do conhecimento sem perder a visão de conjunto própria do saber filosófico. Trata-se de um teórico interdisciplinar, cujos trabalhos transcendem as rígidas fronteiras entre as disciplinas acadêmicas, e de um escritor prolífico, com mais de quarenta obras publicadas ao longo dos últimos cinquenta anos, além de um intelectual público que discute as principais controvérsias políticas, morais, científicas e culturais de nosso tempo, contribuindo inclusive com intervenções em revistas e jornais de prestígio, como a Der Spiegel e o Die Zeit de sua Alemanha natal.

Ele mesmo considera a ‘esfera pública’, entendida como espaço do trato comunicativo e racional entre as pessoas, o tema que o persegue a vida toda. Sua existência foi marcada, na infância, pela experiência traumática de intervenções cirúrgicas numa fissura labiopalatal; na adolescência, pelo nazismo e a Segunda Guerra Mundial - apesar da "sorte de ter nascido mais tarde", já que, aos dezesseis anos, testemunhou a derrocada do regime nazista sem ter participado das atrocidades reveladas após 1945 nos processos contra criminosos de guerra -, e no decorrer de sua vida adulta pelas inquietações ligadas aos destinos da sociedade alemã do pós-guerra, tanto na abertura cultural para o Ocidente quanto na reeducação política sob impulso democrático. Habermas é um filósofo rigoroso e suas análises meticulosas requerem do leitor não apenas paciência conceitual, mas também vasto conhecimento da história das ideias.

Reprodução

Mark Horkheimer (esq.), Theodor Adorno (dir.), Habermas (fundo à direita), em Heidelberg, 1965

Formação

Habermas fez seus estudos universitários em Zurich, Göttingen e Bonn. Do ponto de vista acadêmico, formou-se no contexto provinciano da filosofia alemã da época, sob a forma de um neokantismo declinante, da fenomenologia e também da antropologia filosófica, defendendo em 1954 uma tese de doutorado sobre Schelling. Dois anos depois, com apenas 27 anos, tornou-se assistente de Theodor W. Adorno na Universidade de Frankfurt, onde trabalhou até o final da década. Neste período, demonstrou vários interesses, seja por pesquisas empíricas sobre comunicação de massa e sociologia política, seja por estudos acerca do marxismo, da Escola de Frankfurt e dos clássicos das ciências sociais. Os dois primeiros livros de Habermas - Mudança estrutural da esfera pública (1962) e Teoria e prática (1963) - cristalizam o que considera uma tentativa de prosseguir o marxismo hegeliano e weberiano dos anos 1920 com outros meios, tentativa que lhe rendeu abertura para horizontes de experiência diferentes e decididamente mais largos, ou seja, livres do provincianismo e do idealismo. O primeiro livro é resultado de uma tese de livre-docência em Sociologia defendida na Universidade de Marburgo.

De 1961 a 1964, Habermas trabalhou como professor de Filosofia em Heidelberg, regressando então a Frankfurt para ocupar a cadeira de Filosofia e Sociologia pertencente a Max Horkheimer. Naqueles anos 1960, as intervenções acadêmicas e políticas se multiplicaram. Ao lado de uma efetiva participação no nascente e acalorado movimento estudantil, Habermas reencontrou seu caminho filosófico pelas vias da hermenêutica, do pragmatismo e da filosofia da linguagem, o que demonstra sua dívida com a obra de Hans-Georg Gadamer e as sugestões de seu amigo Karl-Otto Apel. Por outro lado, Habermas engajou-se na querela sobre o positivismo e concentrou boa parte de seus esforços teóricos em questões de ordem epistemológica, visando fornecer bases metodológicas mais sólidas para uma teoria crítica da sociedade. As obras de referência do período são as conhecidas Técnica e ciência como ‘ideologia’ eConhecimento e interesse, ambas de 1968, bem como a menos comentada, mas não menos importante, Sobre a lógica das ciências sociais, de 1970. A distância de cerca de 15 anos permitirá a Habermas afirmar que desde o princípio seus interesses teóricos estiveram fundamentalmente determinados pelos problemas filosóficos e socioteóricos emergentes do movimento de pensamento que vai de Kant a Marx, contribuindo sobretudo para o projeto de renovação da teoria da sociedade fundada na tradição do marxismo ocidental.

"Giro linguístico"

Na década de 1970, que representou uma etapa de elaboração e sistematização de seu contributo teórico, culminando com a publicação de sua obra mais reputada - a volumosa Teoria do agir comunicativo (1981) -, Habermas trabalhou como diretor do Instituto Max Planck, em Starnberg, perto de Munique. Nessa obra fica patente o ‘giro linguístico’ produzido pelo autor na teoria crítica da sociedade, fruto da capacidade em adicionar e integrar novas perspectivas ao seu projeto teórico originário. Com efeito, os escritos dos anos 70, posteriormente reunidos em Estudos preliminares e complementos à teoria do agir comunicativo (1984), correspondem à montagem da teoria habermasiana da comunicação, da qual obras como A crise de legitimação no capitalismo tardio (1973) e Para a reconstrução do materialismo histórico (1976) fazem uso concreto de certos elementos.

A intuição central de que na comunicação linguística está implícita a busca pelo entendimento recíproco, ideia que conduziu Habermas aos princípios filosóficos que destacam a constituição intersubjetiva do espírito humano, é tratada à luz das teorias: (a) do agir comunicativo, tecendo um conceito constitutivo de ação social orientada à intercompreensão; (b) daracionalidade, elaborando uma noção mais englobante de razão com a consequente superação da perspectiva monológica da filosofia do sujeito; (c) da sociedade, desenvolvendo um conceito de sociedade que integra a teoria dos sistemas com a teoria da ação, de modo a distinguir e a conjugar as esferas do sistema e do mundo da vida; (d) da modernidade, propondo uma releitura da dialética da racionalização, pela qual se possa discernir seus fenômenos patológicos a fim de contribuir para um redirecionamento, ao invés do mero abandono, do projeto da modernidade. E tudo isto com base na tese fundamental segundo a qual nós nos encontramos preliminarmente no elemento da linguagem, que existe, antes e acima de tudo, para a comunicação entre as pessoas sobre algo no mundo, e em cujo processo cada um pode tomar posição pelo ’sim’ ou pelo ‘não’ perante as pretensões de validade de um outro.

Para Habermas, a educação deve ser compreendida no sentido mais abrangente possível, abrigando formação social, cultural e científica

Escritor prolífico

Excluídos alguns cursos em universidades fora da Alemanha, Habermas manteve-se cerca de uma década afastado do meio acadêmico, integralmente dedicado às pesquisas, e retomando, a partir de inícios dos anos 1980, o magistério na Universidade de Frankfurt, de onde retirou-se em 1993, embora siga atuando como professor visitante em universidades americanas, tais como a Northwestern, em Chicago, e a New School, em Nova York. Tendo atingido a sua maturidade intelectual, Habermas passou a ampliar consideravelmente os campos de aplicação da teoria do agir comunicativo, quer na fundação da chamada Ética do Discurso -Consciência moral e agir comunicativo (1983) e Comentários à ética do discurso (1991) -, na explicitação das premissas filosóficas da modernidade (O discurso filosófico da modernidade: 1985), na compreensão do novo papel desempenhado pelo saber filosófico no contexto da guinada linguística - Pensamento pós-metafísico (1988) -, na elaboração da teoria discursiva do direito e da democracia - Direito e democracia (1992) - e do conteúdo universalista dos princípios republicanos - A inclusão do outro(1996) -, quer ainda nas intervenções sobre temáticas atuais, quase sempre reunidas sob a forma de escritos políticos sucessivos, que somam a impressionante marca de 11 volumes até o ano de 2008.

Habermas também tratou da relação entre teoria e prática a partir da questão ontológica do naturalismo e da questão epistemológica do realismo, ambas fundamentais no âmbito da filosofia teórica ( Verdade e justificação: 1999), reatando com problemas deixados em segundo plano nas décadas de 1980 e 90, nas quais claramente predominaram os temas de filosofia prática. Recentemente envolveu-se na área da bioética, particularmente na discussão desencadeada pelas técnicas genéticas - O futuro da natureza humana (2001) -, e, para surpresa de muitos, interessa-se progressivamente pela questão da religião, seja em virtude do desafio cognitivo representado pela persistência desse fenômeno num ambiente secularizado - Fé e saber (2002) -, seja pelo significado e o papel da religião na esfera política pública - Entre naturalismo e religião (2005).

O mote habermasiano de que as questões práticas são passíveis de argumentação racional constitui - em minha opinião - o principal atrativo de seu pensamento. Numa época marcada por tendências favoráveis ao relativismo e ao perspectivismo, com a resultante celebração acrítica de tudo que é (ou parece) diferente, é notável o empenho do pensador alemão em esgaravatar, como ele diz, um pouco aqui, um pouco acolá, à procura dos vestígios de uma razão que reconduza, sem apagar as distâncias, que una, sem reduzir o que é distinto ao mesmo denominador, que entre estranhos torne reconhecível o que é comum, mas deixe ao outro a sua alteridade. Esse traço de uma razão comunicativa cética, porém não derrotista, é encontrado nas diversas facetas do pensamento de Habermas, notadamente nas contribuições nos campos da moral, do direito e da política. Um ponto que ilustra sobremaneira tal perspectiva é a ideia discursiva segundo a qual o reconhecimento dos indivíduos como pessoas responsáveis consiste em tomá-las seriamente como agentes que podem e devem ter voz na validação de normas e leis às quais eles próprios estão sujeitos. Daí o princípio do discurso inerente ao uso da linguagem, cuja formulação é a seguinte: "São válidas as normas de ação às quais todos os possíveis atingidos poderiam dar o seu assentimento, na qualidade de participantes de discursos racionais".

A introdução do princípio discursivo permite a Habermas defender a relação interna entre autonomia privada e autonomia pública, proporcionando uma justificação do Estado democrático de direito na qual os direitos humanos e a soberania popular desempenham papéis distintos, irredutíveis, porém complementares. E sua formulação torna evidente que a pedra de toque de toda justificação normativa reside num acordo fundado em razões publicamente acessíveis, de tal modo que os princípios políticos respeitosos da diversidade das opiniões filosóficas, morais e religiosas entre as pessoas devem ser sustentados mediante o critério da aceitabilidade racional. Habermas adota, pois, uma concepção procedimental de ‘justiça’, segundo a qual a validade das normas é estabelecida num procedimento argumentativo representativo da racionalidade prática dos próprios concernidos, e um modelo deliberativo de ‘democracia’, que se refere à ideia de que a normatização legítima procede da deliberação pública dos cidadãos. É como pensador da razão pública, original e fecundo, que Habermas ocupa posição de destaque na alvorada do século.

Ambivalência moral e política do mundo moderno    

No Brasil, onde o debate acadêmico ainda imagina um país dominado pelo "jeitinho", a teoria habermasiana pode ser ricamente aproveitada

Jessé de Souza

Um grande pensador como Habermas pode ser compreendido de muitas maneiras e sua obra permite várias possibilidades de introdução. Escolho meu caminho elegendo a questão da "esfera pública" e, consequentemente, a questão da ambiguidade e positividade moral do Ocidente, como a questão mais relevante e mais atual deste pensador contemporâneo tão importante e influente.

Apesar da enorme divergência com relação ao quadro de referência teórico, existe um ponto em comum, na visão de todos os grandes clássicos das ciências sociais, acerca da peculiaridade da moderna sociedade capitalista: Estado racional burocratizado e mercado competitivo capitalista são percebidos como as instituições estruturantes do novo sistema social nascente. Para Karl Marx e Max Weber, por exemplo, as patologias do mundo moderno e capitalista têm a ver com os efeitos dessas instituições combinadas tanto na perversão da formação da vontade política quanto na fragmentação da consciência e da autonomia individual em todas as dimensões da vida.

As primeiras gerações da Escola de Frankfurt, à qual Habermas pertence como rebento tardio, haviam, precisamente, conseguido juntar a força combinada desses clássicos para mostrar a ubiquidade e a nova opacidade da dominação capitalista tardia: homens e mulheres escravizados por uma lógica mesquinha e impessoal ao mesmo tempo em que se imaginavam livres e senhores do próprio destino.

"Terceira" instituição

Habermas não iria negar a validade desse diagnóstico. Mas ele iria dedicar toda sua vida para matizá-lo e torná-lo mais complexo. Habermas é o pensador de uma "terceira" instituição típica do moderno mundo capitalista, além de mercado e Estado, que ele chama de "esfera pública". Essa me parece sua grande novidade como pensador crítico. Sem negar a lógica heterônoma que habita Estado e mercado, Habermas defende que a modernidade é "ambígua", ou melhor, "ambivalente", na medida em que possibilitou, também, processos de aprendizados coletivos, ancorados institucionalmente no que ele chama de esfera pública.

Desse modo, a comparação entre sociedades modernas concretas pode e deve se dar, não apenas se aferindo a eficácia diferencial do mercado e do Estado em cada uma delas, mas, também, a partir da maneira mais ou menos consequente na qual uma esfera pública plural e democrática logrou se institucionalizar.

O conceito de esfera pública já é o tema principal da tese de livre docência de Habermas de 1962, no início de sua carreira, denominada "Mudança estrutural da esfera pública". Neste livro, Habermas percebe a formação histórica de uma instituição singular, especificamente "moderna". "Moderna" não apenas porque começa a se delinear historicamente na segunda metade do século 18, mas porque pressupõe "estímulos" modernos como o aumento da troca de mercadorias implicando também a troca de informações e ideias ou a institucionalização da liberdade de confissão engendrando, pela primeira vez, a possibilidade de construção de uma esfera "privada", apartada do público e de sua vigilância.

Afinal, é precisamente uma recém estabelecida esfera privada fundada na autocrítica e na prática reflexiva da vida individual e de suas escolhas - possibilitada por novos meios como, dentre outros, o romance psicológico moderno - que irá possibilitar a transposição da lógica de uma nova racionalidade privada também para os assuntos públicos da coletividade.

É a partir daí que o poder político passa a necessitar, para sua legitimação, de "justificar-se" perante um público de pessoas cultas. Habermas percebe aqui o nascimento de algo qualitativamente novo, ainda que no livro de 1962 a entrada da grande imprensa e da indústria cultural, que se impõem a partir do final do século 19, seja percebida, muito ao gosto dos "velhos frankfurtianos", como uma história unilateral de decadência e de empobrecimento do espírito público.

Ainda assim, ninguém havia percebido antes dele, com tanta clareza, o ganho histórico tanto social quanto político, propiciado pela reflexão e pela possibilidade de autocrítica seja na dimensão privada seja na dimensão pública. Mais ainda, esse potencial crítico é percebido por Habermas como "inscrito na própria ordem social" sendo, portanto, passível de verificação empírica.

Com o então cardeal Ratzinger, na Academia Católica da Baviera, Munique, 2004

Em outros livros seminais como o Técnica e ciência como ideologia, (1969), e na sua obra magna A teoria do agir comunicativo (1981), Habermas retoma sua senda original armado da ambição científica de tentar demonstrar a existência empírica de uma racionalidade "comunicativa" que não se confundiria com a racionalidade instrumental e sistêmica de Estado e mercado.

O contexto histórico que lhe confere plausibilidade é a expansão inaudita, depois da Segunda Guerra Mundial, da social-democracia europeia e suas conquistas como boa educação ao alcance de todos. Em vez de apenas cego consumismo e domínio absoluto de necessidades materiais, temos, nessa época, a discussão pública de vários temas como expansão dos direitos sociais, libertação feminina e, finalmente, mudanças importantes na forma de perceber a autoridade e o poder político.

Para Habermas, esses "avanços" refletem precisamente possibilidades importantes de "aprendizado moral e político" da modernidade capitalista, sem que isso implique desconhecer os efeitos "colonizadores" da lógica do poder e do dinheiro. Captar essa "ambiguidade tensa" entre dominação opaca e imperceptível, por um lado, e novas possibilidades de aprendizado coletivo, por outro lado, foi o grande desiderato da vida desse pensador.

O conceito de "ação comunicativa" é central nessa empreitada. Ele serve para mostrar, na dimensão da ação social concreta, que o comportamento efetivo dos indivíduos pressupõe uma relação interna com valores morais e políticos que foi, historicamente, tornada possível, pela expansão do horizonte reflexivo possibilitado pela capacidade, historicamente recente, de se autocriticar como indivíduo e como sociedade.

Habermas no Brasil: "jeitinho" e "mal misterioso"

No Brasil, onde um velho debate acadêmico ainda imagina o país dominado pelo "jeitinho" ou por "relações pessoais pré-modernas" - como se aqui um "mal de origem" misterioso tivesse impedido que mercado e Estado (apenas no Brasil, dentre todos os países do globo) deixasse de desenvolver as virtualidades de uma sociedade moderna e impessoal - a teoria habermasiana pode ser ricamente aproveitada.

Habermas é o pensador de uma "terceira" intituição do mundo capitalista, além de mercado e Estado, a "esfera pública"

Num registro "habermasiano", os problemas sociais brasileiros parecem decorrentes de uma "colonização" quase absoluta dos interesses do mercado e do dinheiro sobre todas as outras esferas sociais. Como aqui não se desenvolveu uma esfera pública crítica - a não ser episodicamente - não se desenvolveu também consensos morais e políticos capazes de se opor ao simples uso indiscriminado de tudo e de todos com o fito de lucro.

A permanência e a naturalização da abissal desigualdade social brasileira em todas as dimensões advêm, portanto, não de um "jeitinho" corrupto que é sempre do Estado (demonizado) e nunca do mercado (divinizado) - como na visão de nosso liberalismo dominante que é conservador e pseudocrítico - mas da falta de capacidade de autocrítica que perpassa toda a sociedade.

Pensadores críticos, como Habermas, não devem ser usados apenas como meio de "distinção erudita", como mero "adorno da inteligência", como um fim em si, como é tão comum entre nós. Eles são uma "arma prática" para se perceber nossa própria sociedade de outro modo, mais crítico e menos autoindulgente e superficial como nos acostumamos a nos perceber.

Fonte: Revista Cult – http://revistacult.uol.com.br

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Entre Berlim e o Vaticano

As evidências são cada vez maiores de que Alemanha da Sra. Merkel está tentando reproduzir a estratégia da Prússia, a sua antepassada do século XIX. Com uma novidade: uma sintonia ideológica e religiosa cada vez mais fina entre Berlim e o Vaticano.

José Luís Fiori

“Por Deus e contra a Turquia”, lema da democracia-cristã alemã, na campanha para o Parlamento Europeu.

Pode parecer estranho, mas a crise econômica mundial não teve um papel importante na vitória das forças conservadoras, nas eleições para o Parlamento Europeu, do dia 7 de junho de 2009. Seu resultado final consolidou tendências que já vinham de antes da crise, e apontavam já faz tempo, para o fortalecimento da direita, em toda a Europa, incluindo a Grã Bretanha e a Espanha, onde os conservadores ganharam as eleições européias, mas permanecem na oposição, nos seus países. Por outro lado, o comentado crescimento da “extrema-direita” só se deu em alguns poucos países pequenos e inexpressivos, do ponto de vista eleitoral, dentro da UE.
Da mesma forma, a derrota dos social-democratas e o declínio da esquerda, já vinha de antes, e não reverteu nestas últimas eleições por uma razão muito simples: os social-democratas são parte essencial da própria crise. Relembrando uma história conhecida: a social-democracia européia abandonou a “utopia” socialista, depois da II Guerra Mundial, e só se converteu às teses e políticas keynesianas, no final da década de 50. Mas em seguida, a partir dos anos 70, aderiu às novas teses e políticas neoliberais hegemônicas até o início do século XXI. E até hoje, na burocracia de Bruxelas, e dentro do Banco Central Europeu, são os social-democratas e os socialistas que em geral defendem com mais entusiasmo a ortodoxia macroeconômica e liberal. Neste momento, por exemplo, o ministro das Finanças alemão, o social-democrata Peer Steinbruech, é considerado por todos como a autoridade financeira mais ortodoxa e radical, nos governos das grandes potências capitalistas. Além disto, os social-democratas e socialistas europeus não participaram da origem do projeto de integração européia, e nunca conseguiram formular uma visão consensual do projeto de unificação. Portanto, nestas últimas eleições parlamentares, os social-democratas e socialistas europeus não podiam ser vistos como uma alternativa frente à crise do modelo neoliberal, porque eles são de fato uma parte essencial da própria crise, e além disto não dispõem de nenhuma proposta específica para os impasses atuais da União Européia.
Deve se ter em conta, entretanto, que se este resultado eleitoral era previsível, ela também não anuncia nenhuma grande novidade pelo lado conservador. Em primeiro lugar, porque ela não altera a correlação das forças fundamentais que já existia dentro do Parlamento Europeu. E, em segundo lugar, porque a multiplicação dos votos e das organizações conservadoras aumentou em vez de diminuir as divisões que já existiam dentro da direita, e dentro dos 27 países que compõem a UE. Quase todos se opõem à entrada da Turquia na UE, querem acabar com a dependência energética da Rússia, e defendem a repressão dos imigrantes islâmicos.
Mas ao mesmo tempo, a maior parte da “extrema-direita” é contra a própria unificação européia, e mesmo os conservadores ingleses são quase todos “eurocéticos”. Além disto, não existe neste momento, um acordo sobre a política econômica para enfrentar a crise e se mantém as principais divergências estratégias entre os atuais governantes conservadores. Ou seja, as forças de direita que ganharam as últimas eleições parecem uma Torre de Babel mais confusa como do que a Babel dos social-democratas, e de toda a esquerda continental.
Mas apesar de toda esta confusão, a Europa vai seguindo lentamente uma trilha que não aparece aos olhos do cidadão comum. O projeto de unificação européia foi concebido originalmente, no início dos anos 50, em grande medida, para incluir e desmilitarizar a Alemanha, e para conter a União Soviética, sob a batuta franco-americana. Mas depois de 1991, este projeto virou de ponta cabeça, com a reunificação da Alemanha e o fim da URSS. A partir daí, a Alemanha se aproximou da nova Rússia, e estendeu sua influência a toda a Europa Central, alargando sua liderança econômica dentro da UE. Por isto, quando a primeira-ministra Ângela Merkel foi eleita, em 2005, pôde montar um governo de “união nacional” com os social-democratas, fortalecendo o governo e o estado alemão, para seu trabalho contínuo e silencioso em favor da aprovação da nova Constituição européia, o Tratado de Lisboa, e pelo controle político de todos os novos estados que se associaram à UE.
Mais recentemente, a Alemanha assumiu a liderança das posições ortodoxas, dentro da Europa, transformando-se numa referência mundial, na luta contra o intervencionismo estatal e contra qualquer tipo de ativismo do Banco Central Europeu. Decidiu absorver a sua própria crise, aceitando uma forte recessão, e transferindo para os grandes países importadores, a responsabilidade pela reativação da economia mundial. Além disto, vem utilizando o FMI, para socorrer as economias da Europa Central, dependentes da sua própria economia. Por onde se olhe, as evidências são cada vez maiores de que Alemanha da Sra. Merkel está tentando reproduzir a estratégia da Prússia, a sua antepassada do século XIX. Em particular, a maneira em que a Prússia conseguiu expandir o seu poder, integrando na sua órbita de influência, um por um, todos os 36 estados e 4 cidades livres da Confederação Germânica criada pelo Congresso de Viena de 1815, começando com a criação de uma União Aduaneira - o Zollverein, em 1834 - e culminando com a formação do Estado Alemão, em 1871.
Este novo projeto alemão do século XXI, entretanto, traz uma grande novidade ideológica, com relação ao seu “modelo original” do século XIX. No mesmo ano em que foi eleita a democrata-cristão, Ângela Merkel, o cardeal alemão conservador, Joseph Ratzinger foi eleito Papa, e desde então, apesar de suas “trapalhadas” internacionais, tem tido um papel decisivo na luta ideológica, dentro da UE. Defendendo a necessidade da Europa voltar às suas raízes cristãs, para recuperar sua identidade, sua força e sua liderança mundial. Daí sua crítica ao Islã e à entrada da Turquia na UE, e sua defesa da cristianização do projeto europeu, numa sintonia ideológica e religiosa cada vez mais fina entre Berlim e o Vaticano.

José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Fonte: Agência Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

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Coletivo a hidrogênio

Ônibus montado no Brasil faz parte de experimentos mundiais para redução da poluição do ar.

Marcos de Oliveira

Ônibus vai trafegar 250 km por dia e emitir apenas água em forma de vapor

Um ônibus movido a hidrogênio passará a rodar provavelmente ainda neste mês de junho numa linha convencional urbana entre os bairros do Jabaquara, na zona Sul de São Paulo, e São Mateus, na zona Leste, passando pelos municípios de São Bernardo do Campo, Diadema, Santo André e Mauá, dentro da Região Metropolitana de São Paulo. O feito é inédito no Brasil e traz muitas novidades. Veículos movidos por essa tecnologia são silenciosos e não emitem poluentes. Eles lançam no ambiente apenas vapor-d’água e trazem benefícios à saúde porque não contribuem para o surgimento de doenças respiratórias, além de umidificar o ar das grandes cidades.
Ao lado dos biocombustíveis e dos veículos elétricos, o hidrogênio é visto por especialistas como uma real alternativa para os derivados de petróleo que emitem poluentes e tendem a escassear no futuro porque as reservas de óleo e gás natural são finitas, tanto pelo esgotamento de anos de exploração como pelo aumento do consumo mundial. Assim, a experiência brasileira se enquadra dentro de uma série de experimentos que são realizados pelo mundo com carros e ônibus a hidrogênio no lugar da gasolina e do diesel com o objetivo de diminuir os gases nocivos às pessoas e ao planeta.
O ônibus foi montado no Brasil com financiamento do Global Environment Facility (GEF), ou Fundo Global para o Meio Ambiente, uma agência ligada ao Banco Mundial, que financia iniciativas de desenvolvimento sustentável em vários países. “Fizemos parcerias no Brasil e no exterior para montar o ônibus e transferir tecnologia para o país porque no início o projeto era para comprar os ônibus prontos na Europa. O argumento foi que o Brasil é o maior produtor de ônibus do mundo [em 2008 foram produzidos 44.111, sendo 27.948 exportados, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea)] e temos uma longa tradição na indústria de carrocerias de ônibus”, diz Carlos Zündt, gerente de planejamento da Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU), ligada à Secretaria dos Transportes Urbanos do Estado de São Paulo, instituição que ficou responsável pelo desenvolvimento e gerenciamento do projeto e vai colocar o ônibus a hidrogênio no corredor metropolitano exclusivo de 33 quilômetros (km). O objetivo aqui é incorporar, integrar e desenvolver tecnologia de uso do hidrogênio como combustível e preparar as empresas para esse futuro mercado.

Em outros projetos semelhantes realizados no mundo prevaleceu a compra de ônibus prontos, principalmente da Mercedes-Benz, que possui um modelo da série Citaro que funciona a hidrogênio e já roda em várias cidades europeias, principalmente em Berlim, na Alemanha, que possui 18 veículos. Na Europa, desde 2004, o projeto Clean Urban Transport for Europe (Cute), ou Transporte Urbano Limpo para a Europa, financiado pela União Europeia, permitiu que 38 ônibus Citaro movidos a hidrogênio circulassem por nove cidades como Londres, Madri, Barcelona, Amsterdã, Hamburgo, Stuttgart, Luxemburgo, Porto e Estocolmo. Eles já rodaram 135 mil horas e a experiência se mostrou ambientalmente sustentável. Outros três projetos foram realizados em Reykjavik, na Islândia, Pequim, na China, e em Perth, na Austrália. Ao todo foram utilizados 47 ônibus. O projeto tem 31 parceiros entre órgãos dos governos, indústrias e universidades. Todos, inclusive o brasileiro, são projetos de demonstração e teste da tecnologia em condições reais e nenhum deles teve objetivos comerciais simplesmente. No caso brasileiro, a EMTU terá, como compromisso previsto no investimento, que testar o ônibus e apresentar os resultados e a experiência ao GEF, que poderá distribuir relatórios com a experiência para outros países.

No Brasil, o projeto foi iniciado em 2004 e reuniu um consórcio internacional de empresas construtoras e fornecedoras. O ônibus possui nove cilindros de hidrogênio e aparelho de ar-condicionado no teto e todos os outros equipamentos ficam na parte de trás do veículo. No Citaro o design é diferente. Todos os equipamentos estão instalados no teto, o que o faz necessitar de uma suspensão eletrônica especial e muito cara. Mas ele é igualmente dependente da célula a combustível. É ela que transforma o hidrogênio em eletricidade e faz mover o ônibus por meio de dois motores elétricos. A célula é formada por um conjunto de placas de eletrodos, normalmente de grafite, que, em forma de sanduíche, agrupa também, entre as placas, uma membrana polimérica chamada de Membrana de Troca de Prótons (PEM, na sigla em inglês). Ao passar por ela, as moléculas de hidrogênio (H2) são quebradas e os elétrons são liberados, gerando eletricidade. Para realizar esse processo eletroquímico, o hidrogênio também se une ao oxigênio captado do ar formando vapor-d’ água no final. Essa tecnologia – componente-chave de todo o sistema – foi adquirida da Ballard, uma empresa canadense que começou a desenvolver células a combustível em 1983 e entre 1992 e 1994 apresentou os primeiros protótipos.

Em 2007 a Daimler – holding que possui a Mercedes-Benz – e a Ford se tornaram sócias majoritárias em uma subsidiária da Ballard, a Automotive Fuel Cell Cooperation (AFCC) ou Coo peração para Célula a Combustível Automotiva. Fora os sistemas de transporte de hidrogênio e controle eletrônico, as duas células visualmente são duas caixas metálicas com 81centímetros (cm) de comprimento, por 25 cm de profundidade e 30 cm de largura cada uma. “São duas células independentes que trabalham interligadas entre si, iguais à que equipa o carro Classe A a hidrogênio da Mercedes-Benz, que também está em demonstração na Europa desde 2003, e o Ford Focus apresentado em 2006 nos Estados Unidos, Canadá e Europa. Cada célula da Ballard gera 68 quilowatts (kW) de potência máxima, ou 91 horses power (hp). Para efeito de comparação, uma casa com dois quartos e um casal de classe média com dois filhos precisa de uma potência de 5 kw.

O Brasil já possui, pelo menos, três empresas, Electrocell, Unitech, (ver Pesquisa FAPESP edições 93 e 103) e NovoCell – todas paulistas e com financiamento do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe) da FAPESP –, que estão desenvolvendo células a combustível e peças para esse equipamento em projetos pontuais para geradores de energia elétrica estacionários, principalmente para empresas, e não automotivos.
Os sistemas auxiliares da célula do ônibus, como a injeção e a circulação do hidrogênio e do ar atmosférico, na pressão e umidade requeridas pelo equipamento principal e parte da eletrônica de controle, foram desenvolvidos pela empresa alemã Nucellsys, que também possui a Ford e a Daimler como sócias. O gerenciamento de todos os sistemas, inclusive os testes de durabilidade são feitos pela Instituto de Pesquisa Força Elétrica Internacional (EPRI, na sigla em inglês), com sede na Califórnia, nos Estados Unidos, que traz a experiência em gerenciar projetos desse tipo.

Cooperação nacional - No lado bra sileiro do consórcio, a carroceria é da Marcopolo, um dos maiores fabricantes de carrocerias do mundo com três fábricas no Brasil e 11 no exterior, em países como China, Índia, Rússia, Portugal, Argentina, México e Egito. O modelo a hidrogênio é da série Gran Viale, usada em ônibus urbanos, com 12,5 metros de comprimento, e pode acomodar 63 passageiros sentados e 20 em pé. A adaptação do ônibus ao sistema de célula a combustível e demais equipamentos do sistema a hidrogênio foi realizada por outra empresa brasileira, a Tuttotrasporti, uma empresa de brasileiros de origem italiana sediada em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. Ela é especializada na produção e modificação de chassis (estrutura metálica que suporta o veículo com os eixos das rodas inclusos) para veí culos especiais, como ônibus a gás ou híbridos, com baterias e a diesel, com segundo piso, ou dois eixos na frente, ou ainda veículos com direção invertida próprios para exportação pa ra países como Inglaterra ou Japão. “A Tuttotrasporti foi a maior beneficiada brasileira porque foram seus engenheiros e técnicos que adquiriram conhecimento na adaptação, montagem e integração dos sistemas, inclusive a CPU [unidade central de processamento], que compreende processadores que gerenciam a energia elétrica do ônibus assim como a pressão do hidrogênio e outros sistemas ”, diz Zündt. “O software foi moldado por nós para controlar todos os pontos. Cada subsistema, como as células, tem o seu processador que indica, por exemplo, a sua temperatura [ela funciona entre 60 e 80°C], e eles estão conectados a um computador maior que tem acesso a todos os protocolos de funcionamento e permite gerenciar todo o ônibus”, diz o engenheiro Sidney de Oliveira Sobrinho, da Tuttotrasporti.

Energia constante - O ônibus a hidrogênio brasileiro também é um veí culo híbrido porque pode acumular energia em baterias especiais. São três baterias de níquel-sódio, de alto desempenho, fornecidas pela empresa suíça, MSDea, que são capazes de guardar grande quantidade de energia. Tanto elas como as células repassam energia elétrica para os dois motores elétricos refrigerados a água da marca Siemens fabricados na Alemanha. “A célula envia energia de forma constante. Quando o ônibus está parado, a energia não utilizada no momento vai para as baterias. O acionamento dos freios também gera energia armazenável. Com elas é possível rodar mais 50 km, além dos 300 km com hidrogênio. No corredor onde ele vai operar, os ônibus a diesel rodam 250 km por dia”, diz Zündt. Até a Mercedes-benz apresentar neste ano um modelo híbrido do Citaro Fuel Cell (célula a combustível), o brasileiro era o único a possuir o diferencial de ser um ônibus híbrido. Ele ficou pronto em julho de 2008 em Caxias do Sul e a partir daí começou uma série de testes depois de quase três anos de projeto e construção. Até o mês de maio, quando chegou a São Paulo, ele já havia rodado 2.200 km. Um percurso que não incluiu a viagem de Caxias do Sul à capital paulista porque no caminho não havia como reabastecê-lo com hidrogênio.

O conhecimento adquirido pelas empresas brasileiras será útil para os três novos veículos de série previstos que deverão ser construídos no Brasil, além do primeiro considerado um protótipo. Eles deverão rodar no mesmo corredor de ônibus, mas já devem apresentar modificações por conta da experiência adquirida. “As lições desse primeiro protótipo serão adotadas nos próximos ônibus e aí eles poderão ser produzidos em série pela Tuttotrasporti”, diz Zündt.

“O compartimento de motorização onde estão instalados os equipamentos como a célula, os motores elétricos, radiadores e outros aparelhos deverá ter uma redução de 50% no tamanho.” Os próximos, ainda sem data para serem entregues, terão 15 metros de comprimento e três eixos e alguns outros componentes e equipamentos nacionalizados. “O eixo, que é húngaro, poderá ser feito aqui, assim como há possibilidade de os motores elétricos e outros dispositivos como radiadores e conversores de tensão serem fabricados no Brasil”, diz Sobrinho. “Serão realizados estudos para reduzir custos, nacionalizando o que for possível, e utilizar o conhecimento para outros projetos.”

O preço total do ônibus não é revelado pelas partes. Sabe-se apenas que é mais caro que aqueles a diesel. O que é divulgado é o investimento total do Projeto Ônibus Brasileiro a Hidrogênio no valor de R$ 38,5 milhões, contando com os outros possíveis três veículos, bem como a unidade de produção e abastecimento de hidrogênio que está em construção na sede da EMTU. O GEF, por meio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), que presta apoio técnico e administrativo ao projeto, financiou R$ 22,3 milhões. O Ministério de Minas e Energia, com recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), custeou mais R$ 8,3 milhões, enquanto a EMTU investiu R$ 3,09 milhões e as empresas mais R$ 4,75 milhões.

Veja a imagem ampliada

Posto na garagem - Entre as empresas nacionais investidoras no projeto estão a Petrobras e a Eletropaulo. As duas estão envolvidas na unidade de produção do hidrogênio. Esse gás não existe de forma isolada na natureza, embora esteja presente na água, no etanol, no gás natural e na gasolina, podendo daí ser extraído por meio da quebra das moléculas dessas substâncias que assim o liberam. O abastecimento do ônibus será feito na garagem da EMTU em São Bernardo do Campo, onde ficam os ônibus que operam no corredor. Uma estação de produção vai ser construída na garagem e será operada pela BR distribuidora da Petrobras. O sistema utilizado será a eletrólise da água, em que uma corrente elétrica separa as moléculas de hidrogênio e oxigênio. Essa unidade de produção e abastecimento é oriunda da empresa canadense Hydrogenics, especializada na produção de hidrogênio por eletrólise. A Eletropaulo vai construir uma rede especial para o funcionamento da estação de forma menos custosa possível, com o fornecimento preferencial de energia para fabricação de hidrogênio feito fora dos horários de pico. Como a estação está sendo construída, nos primeiros meses de testes do veículo o hidrogênio virá por caminhão de uma refinaria da Petrobras no município de Cubatão.

Um fator preocupante quando se fala em hidrogênio ou de qualquer gás é a segurança. “As paredes do cilindro são de aço inox e muito espessas, o hidrogênio é uma molécula muito pequena que pode vazar em escala molecular se não for bem vedado com material e técnica adequados”, diz Zündt. Além disso, existem sistemas de sensores e válvulas que rapidamente fecham os nove cilindros em caso de impacto do ônibus. Os tanques de hidrogênio, que são de origem norte-americana, carregam cada um 5 quilos (kg) desse gás. No total são 45 kg submetidos a uma pressão de 300 bar, a mesma de um mergulho a 300 metros de profundidade no fundo do mar. Na célula a pressão é reduzido para 2 bar por um sistema de válvulas. Mas no início do processo da produção na estação ele é estocado a 700 bar. Na estação também é possível estocar o oxigênio liberado da reação. Ele é bem puro e pode ser usado para fins medicinais, se os custos forem favoráveis. Em relação ao preço do quilo do hidrogênio, ele é mais caro que o diesel. O quilo no mercado (que usa o produto para fins industriais e alimentícios nas gorduras hidrogenadas e o extrai do gás natural por meio de equipamentos chamados de reformadores) não é competitivo em relação ao diesel, mesmo na produção própria via eletrólise porque o gasto de energia e seus custos são grandes.

Para Zündt, a tecnologia para uso no transporte ainda é cara em relação às tradicionais se não for considerado o custo ambiental e de saúde. O sistema utilizado no projeto brasileiro é um ciclo fechado onde se inicia e termina com água, que sai em forma de vapor para a atmosfera. Outro aspecto a considerar é que os sistemas de célula a combustível possuem um nível de eficiência energética muito melhor que os demais. “Em cada quilo se aproveita até 90% do potencial de energia, enquanto um litro de diesel rende em média 25% de eficiência energética”, diz Zündt. Os gastos do ônibus certamente serão mais bem percebidos ao longo de alguns meses de funcionamento no corredor metropolitano onde o veículo vai trafegar. Mas, mesmo antes de entrar em operação, o ônibus brasileiro a hidrogênio já desperta a atenção de futuros compradores. “Um grupo europeu da área de transportes nos fez uma consulta sobre a tecnologia e o custo do ônibus com o intuito de vender para países asiáticos”, disse Zündt sem revelar maiores dados porque são confidenciais.

“O ônibus a hidrogênio no Brasil é parte de um programa mundial que tem o objetivo de não emitir carbono (CO2) com os veículos e o mérito de ser um projeto de demonstração”, diz o professor Ennio Peres, coordenador do Centro Nacional de Referência em Energia do Hidrogênio (Ceneh), instalado no Laboratório de Hidrogênio (LH2) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “É muito importante tornar a tecnologia do hidrogênio conhecida mostrando suas vantagens e que seu uso não é perigoso.”

Substituição total

Hidrelétricas podem ser produtoras de hidrogênio

O abastecimento é considerado um obstáculo para o mercado automotivo de hidrogênio. Postos para reabastecimento em maior quantidade só existem no estado da California, nos Estados Unidos, no Japão e na Islândia, com o hidrogênio obtido da água, por eletrólise, ou gás natural. No Brasil, uma boa oportunidade está nas usinas hidrelétricas. Além da energia barata produzida durante a madrugada, quando cai o consumo, é possível utilizar a chamada energia vertida turbinável, que é a eletricidade a ser aproveitada pela água vazada no vertedouro em situações de enchimento excessivo dos reservatórios ou em horários quando não há demanda. A água é desperdiçada porque a energia elétrica não pode ser estocada. O jeito é transformá-la em hidrogênio.

Os professores Ennio Peres, do Laboratório de Hidrogênio, e Carla Cavaliero, da Faculdade de Engenharia Mecânica, ambos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), junto com o pesquisador paraguaio Gustavo Riveros-Godoy, da Universidade Nacional de Assunção, fizeram um estudo de produção e distribuição de hidrogênio para ônibus urbanos na cidade de Foz de Iguaçu, no Paraná, onde fica a sede brasileira da Usina Hidrelétrica de Itaipu. Eles apresentaram um trabalho no 4° Workshop Internacional sobre Hidrogênio e Células a Combustível realizado em outubro em 2008 na Unicamp, que demonstra a viabilidade operacional de trocar os ônibus a diesel por veículos a hidrogênio nas quatro empresas de Foz, uma cidade com 309 mil habitantes.

Sem considerar o custo dos ônibus, eles utilizaram dados do modelo a hidrogênio da Mercedes-Benz, o Citaro Fuel Cell. O melhor modelo de produção do gás seria a forma centralizada na própria Itaipu, onde os ônibus iriam abastecer uma vez por dia. O custo do hidrogênio por quilo (kg) seria de US$ 2,86 e a média de consumo de 0,205 kg por quilômetro rodado. Em termos financeiros, o diesel ainda ganha, mas o hidrogênio tem vantagens ambientais cada vez mais levadas em conta.

Fonte: Revista da FAPESP – http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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A defesa dos direitos humanos é hoje eixo da luta de classes

VIOLÊNCIA Marcelo Freixo diz que agenda política dos movimentos deve incluir a segurança pública.

VIOLÊNCIA Marcelo Freixo diz que agenda política dos movimentos deve incluir a segurança públicaLeandro Uchoas
do Rio de Janeiro (RJ)

FLUMINENSE DE Niterói, o professor de história Marcelo Freixo (Psol-RJ) tem mais de duas décadas de ativismo na área de direitos humanos. Como deputado estadual em primeiro mandato, tem atuado fortemente no combate ao crime organizado e à corrupção. Apenas em 2008, presidiu a CPI das Milícias e suas denúncias levaram à cassação de três deputados. Neste ano, comanda a Comissão dos Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) com uma preocupação. Desde dezembro, quando terminou a CPI, as milícias crescem e sofisticam-se a olhos vistos, com a leniência do setor público.
Brasil de Fato – Você tem uma longa trajetória em direitos humanos. E o seu mandato, de certa forma, ganhou esse perfil.
Marcelo Freixo –
É. A gente brigou para ter um mandato porque seria um instrumento útil na luta por direitos humanos.
Como isso se dá num momento em que a conjuntura é tão negativa?
Nunca houve uma conjuntura muito favorável, porque, numa sociedade com a marca tão profunda da desigualdade, promove-se o medo. Em qualquer sociedade que tem no horizonte o medo, surge a intolerância, que é o combustível da violação aos direitos humanos.
E a composição dentro da Alerj é mais negativa do que em outros tempos.
Também não é casual. É a desqualificação proposital da política. Hoje, os guetos eleitorais, as milícias e os esquemas estruturais de corrupção vão formando o parlamento. São interesses criminosos por dentro do Estado. Um processo de privatização do interesse público.
Como surgem as milícias?
No Rio de Janeiro, hoje, as milícias representam a maior ameaça concreta. E já começou a se espalhar pelo Brasil. Veja os ingredientes que levam à milícia. Curral eleitoral, clientelismo político, despolitização da política, falta de controle sobre a polícia, péssima remuneração dos policiais. Não são ingredientes cariocas, são nacionais. Recentemente, a Polícia Federal prendeu 26 pessoas em Olinda [PE]. O chefe era um vereador. Crime de milícia.
No interior do Estado já existem milícias?
Começa a aparecer, mas ainda muito embrionário. Isso vai se estender, porque o poder público não prioriza o enfrentamento. Isso interessa. Eu tenho dito que o grande ano para se enfrentar as milícias é 2009. Em 2010, o interesse eleitoral vai falar mais alto e as milícias serão úteis.
O que caracteriza a milícia?
Fomos muito cuidadosos com essa questão conceitual. Se você diz que tudo é milícia, então, nada é. Grupo de extermínio não é. As milícias têm um histórico de oito anos. São formadas por agentes públicos da área de segurança: policiais militares e civis, bombeiros ou agentes penitenciários. Sua mão-de-obra é formada inclusive com ex-traficantes, ex-garotos do movimento [tráfico] e pessoas da sociedade. Mas as lideranças são sempre da área de segurança e falam em nome da ordem. Os grupos de extermínio são contratados por quem tem um poder econômico para solicitar determinado serviço. As milícias têm um largo leque de negócios. Dominam a distribuição de gás, fazem a grilagem de terra, trabalham com a especulação imobiliária e cobram taxas de segurança. O transporte alternativo é um grande negócio. Agora começam a trabalhar com pirataria também. É muito lucrativo. Só em uma milícia, em Jacarepaguá, eles movimentavam, só com as vans, R$ 170 mil por dia. Essa riqueza, evidentemente, financia a corrupção por dentro do poder público. De um tempo pra cá, a novidade é que eles pararam de apoiar políticos. Passaram a se candidatar.
Você tem uma dimensão da abrangência disso?
Até dezembro, eles dominavam aproximadamente 171 áreas no Rio. Não são favelas, são áreas. Campo Grande, por exemplo, não é uma comunidade, é o maior bairro da Zona Oeste. Não dá pra saber quantas pessoas estão envolvidas.
Mas você tem dito que isso aumentou.
Isso vem aumentando desde dezembro, porque não há ação. Quantas operações foram feitas em Campo Grande contra a milícia? Nenhuma. Por que as milícias vão aumentar? Dá lucro, ninguém atrapalha, dá voto. Cresce. Não tem mistério.
Você também costuma dizer que não existe mal menor entre milícia e tráfico. Mas a primeira é mais perigosa, não é?
Acho ruim qualquer tipo de comparação nesse sentido, pois esse foi o discurso que legitimou a milícia até um ano e meio atrás. O então prefeito do Rio de Janeiro [César Maia, DEM] veio a público dizer que a milícia é um mal menor. E com candidatos a vereadores do DEM envolvidos com milícia. Ele chegou a definir milícia como “auto- defesa comunitária”. Por que mal menor? Porque são policiais? É a lógica da criminalização da pobreza. Esse discurso foi muito importante para o crescimento político e econômico das milícias. Então, também acho ruim a gente fazer o contrário agora. Mas estou dizendo que a milícia é a maior ameaça ao Estado Democrático de Direito. Não estou dizendo que você pode ser tolerante com o tráfico. Crime é crime, Estado é Estado. Mas milícia tem projeto de poder. Essa é a grande diferença. É um embrião das máfias tão conhecidas na Europa.
Vocês apontaram 58 propostas concretas de ações possíveis. O que existe de avanço?
A gente propôs a criação da Câmara de Repressão ao Crime Organizado, que pudesse envolver, permanentemente, Ministério Público, Judiciário e Executivo, via Polícia Civil. O novo chefe da Polícia Civil [Allan Turnowski] assumiu [no dia 22 de abril] comprometendo- se. O Ministério Público criou um setor para trabalhar especificamente com o crime organizado. E tem vitórias que são pedagógicas. Hoje é muito difícil você encontrar alguém que defenda a milícia publicamente. Essa vitória na opinião pública nós tivemos.
Você tem tido uma inserção razoável na mídia. Como acha que ela se comportou nessa discussão?
Ela foi muito irresponsável. Só mudou quando um grupo de jornalistas foi barbaramente torturado por uma milícia, na favela do Batan. A partir dali, a mídia passou a agir de outra forma. Enquanto as vítimas eram pobres e negras, a milícia podia ser um bom negócio. Quando passou a ser um grupo de jornalistas, acabou. Foi o que me fez aprovar a CPI aqui. Senão não teria aprovado.
Você fez referências à política de segurança do governo estadual. Isso alimenta esse sistema?
O Estado tem o monopólio da força. Isso não se discute. Não direi nunca que é preciso desarmar o Estado. Mas daí a ele se transformar num Estado bélico é um erro muito profundo, porque quando você faz uma opção calcada na guerra, é necessário escolher quem é seu inimigo e eliminá-lo. Tem que haver um vencedor. Há quanto tempo o Rio de Janeiro opera nessa lógica? Qual a eficácia? Esse debate da segurança pública do Rio precisa estar nos meios sindicais, nos movimentos: é o grande debate da luta de classes hoje. Os trabalhadores não perderam somente o emprego. Perderam o direito à dignidade, de estar vivo. Assim, a lógica da relação capital-trabalho sofisticou-se e ganhou um nível alto de perversidade. Os movimentos precisam acompanhar esse debate para entender que o eixo da luta de classes é a defesa dos direitos humanos. Senão, a gente perde a capacidade de mobilizar os oprimidos. Morrem mais crianças por armas de fogo aqui do que no conflito de Gaza. O dobro. De 2000 a 2006, foram 1859 jovens mortos no Rio de Janeiro. No conflito Israel- Palestina foram 729. E lá é uma guerra discutida na ONU. Aqui, o genocídio contra a juventude pobre e negra não entra nem na pauta dos sindicatos.
Nesse sentido, quando os governos anunciam projetos em favela – o PAC por exemplo – está se combatendo o real problema?
Isso tem problemas de forma e de conteúdo. Que bom que o Estado quer gastar dinheiro em favelas. Agora, o mínimo que se espera é que o Estado saiba ouvir os moradores. Eu conversei muito no Complexo do Alemão. Nunca ouvi ninguém dizer que a prioridade ali era um teleférico. De onde o Estado tirou isso?
Você citou o discurso da ordem. Isso está muito claro no nome da política municipal, o “choque de ordem”. O que você pensa a esse respeito?
O discurso da ordem, historicamente no Brasil, acompanha o movimento conservador. Sempre. Se você pegar o discurso de Dom João, chegando ao Brasil, é excludente. Durante as ditaduras no Brasil republicano, sempre a justificativa para o domínio é a da ordem. No texto do AI-5 está lá, o tempo inteiro, a palavra ordem. Esse discurso determina, pedagogicamente, quem é o desordeiro, quem atrapalha a vida urbana, quem precisa ser retirado. E aí há uma inversão. Essa pessoa deixa de ter um problema e passa a ser o problema. O discurso do “choque de ordem” provoca esse efeito na opinião pública. Então, a luta política hoje é pedagógica.
Você paga um preço caro por algumas opções que fez como parlamentar?
Eu já tinha recebido algumas ameaças de morte na época da Justiça Global [ONG na qual era pesquisador]. Mas no Parlamento, se briga por dentro, com mais recursos. Cassamos dois deputados envolvidos em esquema de fraude. Com a CPI, a gente mexeu num vespeiro. Sabia das conseqüências. Fiz o que achei que era minha obrigação fazer e é evidente que a minha vida privada mudou muito…
Continua sendo ameaçado como durante a CPI?
Não vai melhorar e quando isso esfriar é o momento mais perigoso. Eles não fazem nada no auge. Fazem depois. Eu não posso circular em vários lugares. Ando sempre com escolta.

Fonte: Jornal Brasil de Fato – http://www.brasildefato.com.br/

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No palco, soluções para a vida rea

Difundido por todo o mundo, o trabalho do dramaturgo faz com que as pessoas se apropriem da arte

Difundido por todo o mundo, o
trabalho do dramaturgo faz com
que as pessoas se apropriem da arteNestor Cozetti
do Rio de Janeiro (RJ)

Confira a seguir trechos da última entrevista concedida por Augusto Boal ao Brasil de Fato. O material foi publicado em novembro de 2005, na edição nº 141.

Brasil de Fato – Como nasceu o Teatro do Oprimido?
Augusto Boal –
Em 1970, quando eu trabalhei uma forma chamada Teatro Jornal, eram doze técnicas para ajudar as pessoas a transformarem notícias de jornal em cena teatral. Foi aí a semente do Teatro do Oprimido. O que aconteceu é que a gente não podia mais fazer teatro, tinha censura, invasão da polícia, prisões e tudo. Aí a gente falou: em vez de dar o produto acabado, vamos dar os meios de produção, a platéia produz o seu teatro.
Por que você e o Teatro do Oprimido são excluídos da grande mídia?
Eu acho que todos aqueles artistas que fazem alguma coisa que é extremamente útil para a população e tudo, mas que não tem um gancho, como por exemplo um ator de televisão conhecido, ou algum outro evento que individualize as pessoas, esses são excluídos. Não é o Teatro do Oprimido, nem eu. É qualquer artista que não fizer assim. É excluído mesmo. Em geral, a mídia se interessa pela individualidade, só. E o que nós estamos tentando é fazer com que o Teatro do Oprimido seja usado em todo o tecido social.
Não é ver, por exemplo, onde estão os talentos da favela da Maré. Nós não queremos transformá-los em atores de televisão, não é isso. Agora estamos lançando um projeto novo, que é a Estética do Oprimido. Nosso objetivo não é descobrir qual é o melhor poeta de Jacarepaguá, ou qual é o melhor pintor de tal lugar.
Então, o que vocês querem não é o produto final, mas o processo de elaboração?
Sim, o processo estético é mais importante que o produto artístico. Agora, para quê a gente quer isso, não é um capricho, não é? É que a gente vive na Terceira Guerra Mundial, clara, e estamos perdendo. E essa guerra mundial que estamos perdendo é a guerra da informação. Liga a televisão, hoje, e você vai ver somente filmes estadunidenses, e só de violência. Você nota se o filme é estadunidense ou não, de inspiração em Hollywood ou não, se em cada cinco minutos tem um soco, um tiro ou uma explosão. Aí isso é estadunidense. O filme europeu raramente tem isso.
E o Teatro do Oprimido, também por não fazer isso não sai na mídia?
Não sai. Porque a gente quer é o contrário, quer que as pessoas, em vez de ficar assimilando, produzam, produzam. Então elas vão questionar, inclusive, as informações recebidas. Se você é obrigado a escrever um poema, depois você se anima, porque os poetas se animam. Entre as domésticas, tem uma que não pára de escrever. Atola a gente de poemas.
Essa é a Estética do Oprimido?
É isso, é fazer com que as pessoas se apropriem da arte. Não sejam massacradas pela informação.
E como é o seu trabalho com os movimentos sociais?
Com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o trabalho é muito bom, mas seria melhor se a gente tivesse meios para isso. Há alguns anos, eles começaram a vir ao Rio de Janeiro, do Brasil inteiro. Trabalharam com a gente durante algum tempo e passamos para eles o que podemos. Depois eles voltaram para seus Estados, Rio Grande do Sul, Pará, Pernambuco etc., e lá eles começaram a desenvolver o Teatro do Oprimido.

Fonte: Jornal Brasil de Fato – http://www.brasildefato.com.br/

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Augusto Boal, lembrança

Urariano Mota

Os necrológios envergonhados dos jornais se abriram no dia 3 com o registro “Morreu na madrugada deste sábado, aos 78 anos, o diretor de teatro, dramaturgo e ensaísta Augusto Boal”, para depois, num acréscimo, dizerem coisas como “em 1971, foi preso pelo regime militar, pelas ligações com o Partido Comunista do Brasil.

Três meses depois, ao ser solto, foi para os EUA e, em seguida, para Argentina e Portugal”. E as folhas mais mostram quanto mais escondem, pois fica patente o constrangimento do registro do falecimento de um homem como tu, ao mesmo tempo que mencionam, de longe, a razão do teu viver.
Para os mais jovens, que leem um necrológio de tal natureza, os teus três meses de prisão podem até parecer que foram algo como uma repressão passageira, leve, pelo crime de uma ideologia clandestina. Historinha dos mais velhos. Isso porque, nesses registros, o pano de fundo do Brasil da ditadura, o teatrinho dos tiros trocados entre terroristas e patriotas, a tortura, os assassinatos, a infâmia do Brasil de quando foste preso, “já passou, não é?, a dorzinha foi embora”. É a isso que chamam edição, a nova edição: omitir em primeiro lugar, para depois torcer, distorcer, insinuar coisas que são veneno.
Quem te mandou ser ligado a partido ilegal? Se saímos dos jornais e vamos para as grandes redes na web, dos provedores, recebemos a tua penúltima notícia como “Na década de 70, por estar exilado do país pela ditadura militar, difundiu seu método pela Europa. O seu trabalho pelo Teatro do Oprimido rendeu uma indicação ao Prêmio Nobel da Paz em 2008”, e a tua foto, sem a substância do que eras, apenas o rosto de um coroa meio maluco, cabeleira grisalha, assanhado, camisa fiorida – dói na retina.
A tua mais recente notícia se insere no menu de “famosidades”. Estás em um menu onde Amy Winehouse desmaia no Caribe, Ivete vai homenagear a mãe em tributo ao Rei, o cunhado de Britney sai do hospital. A máquina da mediocridade, do falso, do business, contra a qual tanto lutaste, tenta nivelar a tua pessoa a divertimento.
Isso quando apareces, porque em outros portais nem te deram o desprezo de a gripes e porcos te misturarem. Para te dizer adeus, como a lembrar a composição que Chico Buarque te dedicou em “Meu Caro Amigo”, nada melhor que um trecho da carta do MST endereçada a ti, que a web livre divulgou por esses dias: “Generoso, expôs sempre, por meio dos relatos de suas histórias, seu método de aprendizado: aprender com os obstáculos, criar na dificuldade, sem jamais parar a luta”.
Leio a frase e me ponho a pensar, a ruminar, em como teria sido bom se tivesses cruzado o caminho de um adolescente magro e faminto do subúrbio de Água Fria, zona norte do Recife. Sem pai, sem mãe, de patrimônio só o desejo, um dia aquele menino em 1965 quis ser ator. Sim, que mais queria, o que só queria?
Ser ator de teatro, por que não? Então ele se dirigiu e procurou estímulo com um endinheirado empresário, que se dedicava ao teatro nas horas vagas. – Seu Costa, assim, sabe?… será que o senhor, que conhece tanta gente, será que não podia me indicar para trabalhar no teatro?
Seu Costa em 1965 divertia- se no Teatro de Amadores de Pernambuco, lugar de classe média muito sensível naquele tempo. O novo burguês então olhou o rapazinho de cima a baixo, mediu o jovenzinho que de gente era só olhos:
– Você?! Você entrar para o teatro?! É o mesmo que entrar em mato sem cachorro. E o adolescente de 14 anos desistiu do teatro, de amadores e profissionais para sempre. Penso agora em como teria sido bom que ele, em 1965, soubesse que no teu teatro havia uma saída.
Ao ler a carta do MST há pouco, sinto que não poderia dizer “Nós, trabalhadoras e trabalhadores rurais sem-terra de todo o Brasil, como parte dos seres humanos oprimidos pelo sistema que você e nós tanto combatemos, lhes rendemos homenagem e reforçamos o compromisso de seguir combatendo em todas as trincheiras”. Eu não lavro o campo, nada sei plantar, não crio galinha, nem mesmo tenho a coragem da luta pela terra desse movimento. Mas bem posso lembrar outros oprimidos.
Lembro um artista no bar Marola, em Olinda, que pedia dinheiro como pagamento para escrever nomes de clientes em grãos de arroz. Como são eloquentes os artistas! Como sabem simbolizar com a precisão da fiecha que atinge o olho da mosca.
Para comer, esse artista no Marola escrevia minúsculo em grãozinho de arroz. Era um jovem, pálido, e é interessante como o vejo vestido em túnica grega a desenhar a mediocridade de toda a gente em grãos miudinhos.
Melhor que a sua arte era o orgulho da sua arte. Enquanto percorria as mesas ele era insultado. Dele zombavam os miseráveis com dinheiro na carteira:
– Se eu fosse viver disso…
– Planta arroz, dá mais futuro…
Enquanto ouvia isso, ele e seu orgulho, albatroz ferido, cantava baixinho: “Ponta de areia, ponto final, da Bahia a Minas, estrada natural. Que ligava Minas ao porto, ao mar, caminho de ferro…” andar, andar.
Por isso escrevo ao fim. Em lugar da visão do teu corpo a queimar, o corpo, só o corpo, aquilo e aquele que não mais é Boal, em lugar de qualquer visão mórbida, melhor lembrarte ressurgido, a continuar tua vida no corpo e alma desses artistas que se erguem e no meio da humilhação continuam, apesar de tudo, a andar, andar.

Urariano Mota, jornalista e escritor pernambucano, é autor de Os Corações Futuristas, romance cuja narração refiete a ditadura de Emílio Garrastazu Médici (1969-1975).

Fonte: Jornal Brasil de Fato – http://www.brasildefato.com.br/

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As peças invisíveis do univeso

Cientistas dizem ter detectado a famigerada matéria escura, que responderia por mais de 80% da massa do universo. Mas nem todo mundo concorda com eles.

Salvador Nogueira

No fim do mês de agosto, a Nasa reuniu cientistas e jornalistas para um anúncio importantíssimo: pela primeira vez, um grupo de pesquisadores obtinha evidências diretas de uma coisa que ninguém sabe direito o que é, de que é feita ou se existe mesmo. Acredite se quiser, mas, a despeito desses senões, todo mundo ficou interessado –afinal, esta questão é uma das mais cruciais a respeito do Universo. Estamos falando da enigmática matéria escura.

Mas que diabos é matéria escura? Boa pergunta. Se alguém hoje soubesse, ela provavelmente nem teria esse nome. O “escura” vem do fato de que, tudo bem, ela deve existir, mas nunca terá como ser vista. Ao que parece, ela praticamente não interage com a matéria que a gente conhece – a que está no seu corpo, nos planetas, nas estrelas. Você mesmo pode estar rodeado de matéria escura neste momento, mas nem percebe. A única maneira pela qual essa estranha substância parece manifestar sua existência é pela gravidade que exerce sobre as coi sas. E é uma senhora manifestação.

Ei, espera aí. Se você está rodeado por matéria escura e ela pode atrair você gravitacionalmente, por que você não é chutado pelos cantos por ela como um cachorro pulguento? Ocorre que a gravidade é uma força peculiarmente fraca – a despeito da impressão que seus tombos ocasionais possam dar. Para derrubar você no chão, por exemplo, é preciso um planeta inteiro atrai-lo. Não seriam, portanto, umas míseras partículas de matéria escura ao seu redor que fariam alguma diferença – mesmo porque elas estariam por todos os lados, até dentro de você, e o efeito atrativo seria cancelado. Agora, quando falamos de coisas realmente grandes, maiores que planetas e que estrelas, a matéria escura demonstra todo o seu poder gravitacional. A coisa só funciona de galáxias para cima, mas tem um efeito contundente.

A maioria das grandes galáxias tem um formato espiral, como a nossa boa e velha Via Láctea. Em geral, elas são compostas de centenas de bilhões de estrelas, misturadas a um monte de gás, que giram em torno de um buraco negro gigante.

Pelo que a física sabe, essas estrelas deveriam se mover igual aos planetas do sistema solar. Assim: a gravidade do Sol faz com que Mercúrio, o planeta mais próximo dele, gire com uma velocidade 60% maior que a da Terra. O nosso planeta é mais rápido que Marte, que é mais que Júpiter, e por aí vai, até Plutão e Eris, que rastejam pelo espaço. É como o velho astrônomo alemão Johannes Kepler calculou, lá no século 17: quanto mais longe, mais lento.

Mas as galáxias não obedecem a essa regra. Observações feitas desde os anos 70 mostraram que as estrelas do meio para fora do disco espiral giram com a mesma velocidade, e que se dane a distância que estiverem do buraco negro.

Não é pouca coisa. Se isso acontece, ou as leis da física que a ciência concluiu estão erradas ou… tem mais alguma coisa lá. Algo com ravidade suficiente para acelerar essas estrelas mais distantes com tanta força quanto se elas estivessem perto do centro. Algo com massa, pois é a massa dos corpos quem era ravidade. Mas ninguém enxergava nada.

Um dragão na garagem

Embora exista alguma coisa em todas as galáxias que produza esse efeito gravitacional anômalo, há uma grande distância entre dizer que se trata de matéria “que não estamos vendo” e matéria “que não podemos ver”. Muita gente supôs que essa massa que faltava fosse simplesmente composta de estrelas e objetos que são pouco (ou nada) brilhantes –daí não os estarmos vendo–, mas ainda assim pertencem à mesma categoria de matéria que nos compõe, feita de prótons, nêutrons e elétrons, além de outras partículas mais pedestres.

Claro, a idéia dessa matéria REALMENTE escura, 100% indectável, era perigosa demais para os cientistas engolirem de cara. Lembrava aquela velha parábola de Carl Sagan. O astrônomo americana dizia: “Qualquer um pode vir e falar que um dragão mora em sua garagem. Basta explicar que, embora ele esteja lá, não tem como ser detectado pela visão, pelo tato, pelo calor que o fogo dele era, ou seja, por nenhum meio conhecido”.

A própria ciência já havia tido um encontro desagradável com um conceito assim. Foi quando o rosso dos pesquisadores pressupunha que o Universo era permeado pelo “éter”, uma substância que serviria como meio para a propagação de ondas eletromagnéticas, como a luz. Embora todos os experimentos para detectá-lo no século 19 tenham fracassado, a idéia resistiu mais ou menos intacta até Albert Einstein chegar, em 1905, e provar por A mais B que esse negócio de éter não fazia o menor sentido.

Enfim, todo cuidado é pouco quando os cientistas precisam postular a existência de algo que não estão vendo. Então, muitos optaram pela solução mais simples: imaginar que aquela massa na verdade era feita de anãs marrons (estrelas abortadas, que não chegam a brilhar), buracos negros (que têm uma ravidade tão intensa que capturam até a luz, impedindo sua observação) e outras criaturas exóticas (mas ainda assim feitas de prótons, nêutrons e elétrons) do zoológico cósmico.

Ocorre que ficou mais difícil defender essa hipótese quando surgiram os primeiros cálculos de quanta matéria escura deveria existir por aí. Hoje, estima-se que 8 ou 9 em cada 10 quilos de matéria são feitos dessa coisa. Nenhuma teoria convincente de formação de objetos estelares parece bater com esse número abissal. Todos sabiam que era impossível haver tantos buracos negros, anãs marrons e afins no espaço. Sinuca de bico para os astrônomos.

“É desconfortável para um cientista ter de invocar algo invisível e indetectável para responder por quase 90% da matéria do Universo”, afirma Maxim Markevitch, um dos astrofísicos da Nasa que dizem ter finalmente obtido a primeira detecção direta da substância.

Douglas Clowe e seus colegas apontaram telescópios para uma região turbulenta do espaço, o aglomerado de Bala, um bolo de galáxias a 3,5 bilhões de anos-luz (um ano-luz equivale a 9,4 trilhões de quilômetros). Esse é um lugar onde uma quantidade monstruosa de gás e poeira se chocou. A pancada foi tão violenta que separou a matéria escura da normal. E permitiu que “enxergassem” adanada pela primeira vez (leia o quadro acima). Aí Douglas Clowe não teve dúvidas: “Nossos resultados são prova direta de que a matéria escura existe”.

Mas nem todo mundo na comunidade científica concorda com ele.

Teorias alternativas

Quando asprimeirasevidênciasg avitacionais da matéria escura começaram a pulular, muita gente pensou que o problema não estivesse em nossas teorias sobre a composição do Universo, mas, sim, em nossas teorias do comportamento da gravidade. Um dos caras que pensaram isso foi John Moffat, da Unive sidade de Wate loo, em Ontário, Canadá. Ele desenvolveu uma teoria chamadaMOG, que é basicamente uma versão modificada da teoria gravitacional.

Segundo esse modelo, a gravidade só funciona do jeito que a gente conhece até uma certa escala. Para algo com as dimensões do sistema solar, por exemplo, continuaria tudo igual. Mas, quando monstros como galáxias e aglomerados entrassem na jogada, as coisas mudaiam: agravidade mostrariaqueficamais forte conforme a distância aumenta, e não o contrário, como Kepler, Isaac Newtone Albert Einstein sempre acreditaram.

Audacioso, mas que servia para explicaro funcionamento do Universo dispensando a estranhíssima matéria escura, servia. Tanto que, após o anúncio espalhafatoso da Nasa, Moffat se pôs a redigir um estudo de 8 páginas, demonstrando que sua teoria poderia explicar com igual facilidade os efeitos observados.

“Ninguém deve tirar conclusões prematuras sobre a existência da matéria escura sem analisar as teorias alternativas”, afirmou o canadense.

A verdade é que os resultados da Nasa deixam mais perguntas do que respondem. Com ou sem eles, ainda não sabemos o que compõe a matéria escura. Experimentos atuais, como os que acontecem nas profundezas de uma mina em Minnesota, nos EUA, e no Laboratório Nacional Gran Sasso, na Itália, estão tentando detectar essas partículas vindas do espaço exterior. Mas até agora nada.

Talvez essa resposta não tenha mesmo como vir do espaço. Em vez disso, é possível que os aceleradores de partículas, que espatifam átomos a velocidades estonteantes, dêem as primeiras pistas.

No ano que vem, o Cern (principal laboratório de física da Europa) colocará para funcionar na Suíça o Grande Colisorde Hádrons (LHC). Será o maior acelerador já construído. E as pancadas lá dentro vão gerar energias quase tão violentas quanto as do big-bang, a explosão que deu origem ao Universo. Esse poder, em tese, seria suficiente para criar partículas diferentes de tudo o que a gente conhece. E algumas delas podem virar candidatas ao cargo de matéria escura.

Bom, esse mistério pode até estar com os dias contados. Mas, até hoje, o que os físicos viram século após século é que a natureza sempre parece ter um ás na manga –que ela apresenta quando a gente menos espera. Façam suas apostas.

Energia escura para acompanhar, por favor

Como se não bastasse os cientistas não saberem do que é feito o grosso da matéria que compõe o Universo, nos últimos anos também descobriram que toda essa matéria não dá nem um quarto de tudo o que existe no Cosmos. Aconteceu em meados dos anos 90, quando cientistas descobriram que a expansão do Universo não estava freando, como previam as teorias clássicas. Ela estava acelerando, como se houvesse uma força contrária à gravidade, que repelisse os objetos em vez de atraí-los, agindo nas maiores escalas do Cosmos. A essa misteriosa forma energética os cientistas deram o nome de, adivinhe só, energia escura. E, quando eles começaram a fazer as contas para descobrir quanta energia escura existia, descobriram algo surpreendente: a massa dela é 3 vezes maior que a de todo o resto. Quer dizer: a energia escura responde por mais de 70% do Universo – a matéria escura fica com uns 25% e a comum, com meros 5%. Mais: nosso destino está nas mãos dessa energia fantasma. Se ela continuar se comportando do jeito atual, o Universo irá se expandir para sempre, cada vez mais rápido. Se ela “virar a casaca ”e ajudar a gravidade a reunir toda a massa do Cosmos, podemos terminar num “big-crunch”. Seria uma grande implosão, tipo um big-bang ao contrário. E pode ser ainda que ela não faça nem uma coisa nem outra. Só que ninguém sabe o que vai ser.

Matéria escura às claras

Choque no espaço libertou a matéria fantasma, aí conseguiram detectar a imensa gravidade que ela gera sozinha

1. Estas bolas são aglomerados de galáxias. Num passado distante, as duas entraram em rota de colisão. Apesar de ambas conterem bilhões de estrelas, a maior parte da matéria aí é feita de nuvens de gás e poeira.

2. Na hora da pancada, os átomos do gás e da poeira se chocam. A atração eletromagnética entre eles cria uma barreira que age tipo a resistência do ar. Isso freia as partículas de matéria comum (em vermelho).

3. Mas não breca a matéria escura (em azul). Como ela só interage com a matéria comum pela atração gravitacional, nem sente a resistência da força eletromagnética. E fica livre para voar pelo espaço.

4. Esta imagem mostra a gravidade de cada pedaço da colisão. O azul representa uma força gravitacional maior. E justamente onde não tem matéria normal! Conclusão: essa força só pode vir da matéria escura.

Para saber mais

In Search of Dark Matter - Ken Freeman,Geoff Macnamara,Springer,EUA,2006

O Mundo Assombrado pelos Demônios - Carl Sagan,Companhia da Letras,1997

http://chandra.harvard.edu/photo/2006/1e0657/animations.html - Site com animações da colisão galática que revelou a matéria escura.

Fonte: Revista Super Abril – http://super.abril.uol.com.br

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Dilemas da esquerda

A vida do Partido Die Linke (A Esquerda) tem sido marcada pelas tensões entre seu ideal socialista, que permanece no horizonte, e a necessidade de defender políticas imediatas dentro da moldura do capitalismo triunfante na Alemanha, na Europa e quase no mundo todo – com exceção de Cuba. O novo partido, que tem dois anos de existência e 54 cadeiras no Parlamento Nacional, está colocado “entre duas eleições”: a do passado recente, em junho, para o Parlamento  Europeu, e a vindoura, em setembro, para aquele. A análise é de Flávio Aguiar.

Flávio Aguiar

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No fim de semana que passou (20/21 de junho) realizou-se a convenção nacional do Partido Die Linke (A Esquerda), em Berlim, com mais de 500 delegados presentes. A convenção foi marcada por chamados à unidade e por dissensões e diferenças agudas, mas sem que possam levar a rupturas notáveis, pelo menos no momento.
O novo partido, que tem dois anos de existência e 54 cadeiras no Parlamento Nacional, está colocado “entre duas eleições”: a do passado recente, em junho, para o Parlamento Europeu, e a vindoura, em setembro, para aquele.
Nas eleições para o parlamento da União Européia, Die Linke teve um desempenho que ficou aquém do esperado. Contavam os líderes do partido com uma votação de 10% na Alemanha, mas ele teve pouco mais de 7%.
Para as próximas eleições, o maior trunfo no horizonte do partido é a difícil situação do Partido Social-Democrata (SPD), que, embora tendo uma votação bem maior na eleição de junho, sofreu uma queda de tal monta que o resultado passou por uma grande derrota.
A vida recente do SPD foi marcada por uma série de dissensões internas, depois da indicação de Kurt Beck como líder do partido, de seu curto mandato e de sua renúncia, motivada pela crise interna. Beck representava a ala esquerda do SPD, e sua indicação provocou uma série de comentários e acusações de “populismo” na imprensa e em outros meios do seu próprio partido, entre outras razões pela sua disposição de estudar a possibilidade de alianças eventuais com a Linke.
Sem Beck, à direção do SPD retornou às mãos de políticos mais conservadores, que defendem e integram a coalizão com o partido de direita, a União Democrata-Cristã de Ângela Merkel. Entretanto tais políticos, como Frank-Walter Steinmeier (o novo líder oficial), e Franz Müntefering, carecem de maior carisma. Isso, em parte, pode ajudar a entender o relativo fracasso do SPD na eleição para o Parlamento Europeu, junto com o clima de dissensão interna e o currículo do próprio partido, que, a partir do fim dos regimes comunistas deu uma guinada pronunciada para a direita e para a defesa de políticas neo-liberais que ele mesmo implementou na Alemanha, enfraquecendo a capacidade de barganha dos sindicatos (tradicional base de sustentação do SPD) e piorando as condições de trabalho dos próprios trabalhadores.
A Linke nasceu há dois anos atrás com a fusão de quatro blocos políticos: 1) dissidentes do SPD e de sua linha de defesa o ideário descendente do Consenso de Washington; 2) políticos ligados a frações do sindicalismo que deixaram de ter o SPD como referência; 3) remanescentes de correntes socialistas da Alemanha Oriental, inclusive do antigo Partido Comunista da RDA; 4) um conglomerado de tendências e movimentos socialistas, pequenos na maioria, e que representam tradicionalmente a esquerda mais radical. Os dois líderes máximos da Linke representam a dissidência social-democrata (Oskar Lafontaine) e os antigos socialistas (Lothar Bisky).
Outro político de grande expressão no partido, também procedente da antiga RDA, é Gregor Gysi. Gysi, advogado de formação, no passado defendeu dissidentes do lado oriental; mas também fizeram-lhe uma série de acusações de ter sido informante da Stasi, a polícia política do antigo regime.
O surgimento da Linke provocou uma maré de críticas na imprensa e em outros meios políticos mais conservadores levantando o argumento de “uma volta ao passado”, devido a ter o partido, ao contrário do SPD, acolhido o nome “socialismo” em seus programas e declarações. Além disso, a Linke marcou uma posição histórica por ser o único partido que defendeu, desde sempre, a retirada das tropas alemãs que fazem parte da presença da OTAN no Afeganistão. Ainda recentemente Gregor Gysi, perguntado sobre o tema por uma cadeia de TV alemão, respondeu que é posição do partido a idéia de que combater o terrorismo com uma ocupação militar só pode produzir mais terrorismo.
A vida da Linke tem sido marcada pelas tensões entre seu ideal socialista, que permanece no horizonte, e a necessidade de defender políticas imediatas dentro da moldura do capitalismo triunfante na Alemanha, na Europa e quase no mundo todo – com exceção de Cuba. A ala liderada por Lafontaine (e também por muitos políticos da ex-RDA) contempla, inclusive, a possibilidade de fazer alianças eventuais com o SPD – como acontece hoje, por exemplo, em Berlim, freqüentemente mencionada como a cidade da “aliança vermelha-vermelha (rot-rot)”, numa menção à esquerda do SPD, liderada pelo prefeito Klaus Wowereit, e aos “Linkes” que o apóiam.
Além da questão da aliança ou não com social-democratas (que em geral rejeitam a Linke, sobretudo na ex-Alemanha Ocidental (RFA), que desagrada sobretudo os grupos mais à esquerda, outros pontos de dissensão aparecem quando se trata de assumir uma crítica mais global e total do capitalismo como expressão principal do partido, ou uma série de propostas políticas mais ligadas ao contexto imediato, coisa que o partido tem feito preferencialmente, como adotar um salário mínimo (que não existe na Alemanha e é uma bandeira sindical significativa), melhorar o seguro desemprego e diminuir a idade exigida para a aposentadoria, que hoje é de 67 anos, e ainda ter uma política mais includente em relação aos imigrantes.
Refletindo essas tensões e a necessidade do partido ter propostas claras para a eleição de setembro, é que Gregor Gisy declarou, em meio a uma esfuziante ovação (que, esperemos, signifique realmente um passo adiante), que o partido precisava “se preocupar mais em atingir os eleitores, e se ocupar menos de nós mesmos”.

Fonte: Agência Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

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