Movimentos gravitacionais de massa, tragédias de verão

Chuvas torrenciais em áreas de ocupação indevida, associadas a outros processos de desequilíbrio ambiental, levam a acidentes que podem ser evitados na maior parte dos casos, mas ainda produzem mortes e prejuízos materiais

Jefferson Picanço


Roosewelt Pinheiros/ABR

Excesso de chuva em área de ocupação de risco soterrou pousada e residências na enseada do Bananal, Ilha Grande em Angra dos Reis, na passagem do ano de 2009 para 2010

O roteiro é conhecido. De repente, toneladas de solo, rochas e troncos de árvores, acompanhados do som que lembra um trovão, deslizam do morro. Pelo caminho, arrasam construções,soterrando e matando pessoas e animais. A repetição dessas catástrofes no Brasil, durante o verão, parece sempre uma tragédia anunciada. As autoridades, pegas de surpresa, atiram a responsabilidade sobre os próprios fenômenos naturais, como se a chuva fosse algo anormal ou as rochas do morro estivessem todas carregadas de uma estranha má intenção. Os cidadãos, enlutados e estupefatos, perguntam se essas tragédias poderiam ter sido evitadas e com isso pode ser feito.
Os movimentos de terra e solo que todos os anos provocam desastres nas cidades brasileiras fazem parte de um tipo de fenômenos naturais denominados movimentos gravitacionais de massa. Esses movimentos caracterizam-se pela dissipação de significativa quantidade de energia e pelo deslocamento de grandes massas de materiais terrestres, como rochas, solo, e por vezes troncos de árvores, sob a ação da gravidade.Os movimentos gravitacionais de massa têm geometrias, volumes e velocidades muito distintas entre si. Alguns tipos, como as quedas de blocos ou avalanches, são extremamente rápidos. Outros, como os rastejos, apresentam movimentos da ordem de centímetros por ano.
Numa paisagem serrana qualquer do sul-sudeste do Brasil, enxergamos a princípio somente árvores, pedras e solo. Mas, longe de ser estática, essa paisagem está sofrendo a ação de forças tectônicas, que criam o relevo, e está sob a ação de diferentes agentes geológicos, como a água, o vento e os organismos vivos, que a modelam. A paisagem é o resultado desse somatório de processos no tempo.
A formação de solos é mais intensa em climas tropicais quando as elevadas temperaturas e as precipitações atmosféricas fazem com que as rochas sejam mais facilmente decompostas e desagregadas, num processo denominado intemperismo. O principal produto do intemperismo é a formação de uma espessa capa de material desagregado e poroso, que contém desde finas partículas até blocos parcialmente decompostos de rocha. Essa capa é denominada regolito, ou manto de intemperismo. O regolito é composto por saprolito, a rocha total ou parcialmente decomposta, e pelo solum, que é o solo propriamente dito.

Roosewelt Pinheiros/ABR

Estrada do Contorno, em Angra dos Reis, foi completamente bloqueada por várias quedas de barreiras e rolamento de rochas em 31/12/2009 e 01/01/2010

Em encostas íngremes, as águas escoam mais rapidamente, sem contato com as rochas por tempo suficiente para intemperizá-las, transformando-as em regolito. O pouco regolito formado em vertentes íngremes, quando atinge determinadas espessuras críticas para sua estabilidade, desloca-se vertente abaixo por erosão ou na forma de movimentos de massa. Por isso, o solo em áreas íngremes é menos espesso e pouco evoluído, ou mesmo inexistente.
A porção superior dessa vertente será então um maciço de pedra com algumas árvores isoladas, nos trechos onde o solo consegue se formar. Os morros tipo Pão de Açúcar, que modelam espetacularmente a paisagem do Rio de Janeiro e de outras regiões de serra, representam o estágio de maturidade de paisagens tropicais com vertentes íngremes sustentadas por rochas cristalinas, como gnaisses ou granitos.
O regolito, nessas áreas de alta declividade, terá sido sucessivamente deslocado por movimentos de massa e pelos rios para a base das vertentes, na forma de uma mistura caótica de blocos de rocha e solo. Esses depósitos não consolidados são denominados tálus. Como se trata de um material ainda inconsistente, o tálus é instável e pode facilmente ser instabilizado, provocando outros movimentos de massa. Em muitas áreas urbanas, são comuns os acidentes com movimentação gravitacional de massa em depósitos de tálus instabilizados pela ação humana.
As partículas de solo e blocos de rocha, numa encosta natural, sofrem a ação de dois conjuntos distintos de forças: as solicitantes e as resistentes. As forças solicitantes induzem o movimento das partículas encosta abaixo, paralelo à encosta, enquanto as forças resistentes se opõem a esse movimento. As principais forças resistentes ao movimento são a coesão interna entre as partículas e a resistência friccional entre os blocos de rocha e o solo.

Roosewelt Pinheiros/ABR

Área de risco em Angra dos Reis teve 3 mil moradias condenadas após deslizamentos em janeiro passado

A gravidade é uma das principais forças solicitantes. Num bloco de rocha qualquer numa vertente, a gravidade pode ser dividida em dois componentes: o perpendicular da gravidade atua em ângulo reto com a vertente e tende a manter o bloco de rocha onde está. Já o componente tangencial atua paralelamente à vertente e tende a movimentar o bloco de rocha para baixo. A inclinação da vertente também é importante, pois vertentes mais inclinadas apresentam maior componente tangencial da gravidade que as de menor inclinação.
A estabilidade de uma dada vertente é, portanto, o resultado da interação entre as forças solicitantes e as forças resistentes. Quando as forças resistentes excedem as solicitantes, a vertente é considerada muito estável. Porém, sob a ação de determinados processos, a perda de coesão é tão forte que as resistentes tornam-se menores que as solicitantes. Nesse caso, a vertente pode ser instabilizada a qualquer momento.
Uma das causas mais importantes que levam à perda de coesão e consequente ruptura de um material de encosta é a presença de água. E é fácil entender a razão disso. Quem já construiu um castelo de areia na praia sabe que, quando seca, a areia é instável e difícil de moldar. Quando umedecida, no entanto, a força de atração capilar entre os grãos e os poros cheios de água torna a areia passível de ser moldada. Se, no entanto, for acrescentado excesso de água, a areia fica saturada e perde a coesão. Torna-se fluida.
A água também pode estar presente em fendas e trincas do solo. Por vezes, a superfície de contato do regolito com a rocha íntegra funciona como um armazenador da água que não consegue se infiltrar. Essa superfície saturada cria um verdadeiro colchão de água na encosta, que perde sua coesão e desliza como um veículo em aquaplanagem quando seu condutor perde o controle.
Outros fatores importantes a serem levados em conta na estabilidade de vertentes são a forma das encostas, a natureza da cobertura vegetal e as características dos diferentes tipos de solos e de rochas. Dependendo das condições gerais de estabilidades de uma encosta, movimentos de massa podem ser iniciados por abalos sísmicos naturais ou induzidos por ações humanas.

Diversidade de Processos
Os processos de movimentos gravitacionais de massa mais rápidos e catastróficos são as quedas, escorregamentos e deslizamentos e os fluxos de terra e lama, com velocidades em metros/dia ou mesmo em quilômetros por hora. Os fenômenos mais espetaculares e potencialmente perigosos são as quedas de materiais, caracterizadas por episódios de queda livre de maciços de rocha ou de fragmentos de rocha e de solo. As quedas ocorrem em áreas com grande inclinação, como escarpas.
Escorregamentos são rupturas que deslocam massas coerentes de rocha, de solo ou ambos. Apresentam dois tipos principais: os escorregamentos cuja superfície de separação é plana, ou planares, e os com superfície de separação curva, ou escorregamentos rotacionais. Em função da rotação sofrida, o topo do material escorregado apresenta, frequentemente, uma inclinação contrária à vertente. Já os deslizamentos são rupturas de rocha e/ou solo, em que o material deslizado não tem coerência interna, formando agregados caóticos.
Os movimentos gravitacionais de fluxo reúnem misturas densas de sedimentos, água e ar, sob a ação da gravidade. Podem também ser chamados de corridas de detritos, de terra, ou lama, dependendo do tipo de material envolvido. As corridas, dependendo da proporção água/sedimento, podem ter a consistência de cimento fresco, ou de uma sopa espessa. Com frequência são misturas tão densas que podem transportar enormes blocos de rocha. Os fluxos também têm velocidades de deslocamentos que variam de metros/ano a quilômetros por hora. Muitas vezes ocorre associado a escorregamentos e deslizamentos, e pode ser mobilizado ao longo de canais.
O rastejo é um movimento gravitacional de massa muito lento, da ordem de centímetros por ano. As velocidades de escoamento são mais rápidas em superfície e decrescentes com a profundidade. O rastejo movimenta solo e rocha, e esse deslocamento pode ser constante, sazonal ou intermitente. O reconhecimento de encostas sob ação de rastejo se dá pela observação de algumas feições características, como árvores tortas no sentido da vertente, tombamento de muros, trincas no solo. É comum o truncamento e o dobramento de camadas de rocha no sentido da vertente. Os processos de rastejo formam na base das vertentes depósitos de materiais incoerentes e pobremente selecionados, os colúvios. A ocorrência de rastejo numa vertente é uma clara indicação de sua instabilidade, com maior probabilidade de ocorrer outros tipos de movimentos de massa. A identificação do rastejo é importante na prevenção de movimentos de massa mais rápidos e potencialmente mais perigosos.

 

Marcelo Ximenez/Folha Imagem

Lixo acumulado nos fundos de favela em São Paulo por falta de serviços básicos fragiliza a estabilidade do solo com riscos geológicos

Nas cidades litorâneas brasileiras o processo de urbanização desde o fim do século 19 levou a uma ocupação intensiva, muitas vezes descontrolada, das áreas de encosta. Nas grandes cidades, os loteamentos populares começaram a surgir na década de 40, tendo progressivamente se espalhado para a periferia. Na década de 70 essas áreas se adensaram e começou- se a ocupar porções ainda remanescentes, situadas em encostas, que passam também a ser loteadas e comercializadas a preços convidativos, atraindo justamente parcelas de população de menor poder aquisitivo. As favelas que se instalam ao longo de todo esse período, por exemplo, estão quase sempre situadas em áreas de risco. A precariedade das construções e a ausência de preocupação com acidentes tornam essas áreas extremamente suscetíveis a movimentações de massa.
Os impactos dessa urbanização se refletem inicialmente na retirada de vegetação, com alteração do ambiente natural. As ocupações com lotes de tamanho reduzido, por exemplo, diminuem em muito a área vegetada da encosta, tornando-a ainda mais suscetível à erosão e a movimentos de massa. A execução de cortes no terreno, tanto para construção quanto para regularização do traçado das vias, gera taludes artificiais frequentemente instáveis. Os cortes levam à exposição de solos naturalmente instáveis, como os tálus e colúvios, originalmente situados em camadas mais profundas, e mais suscetíveis a um ou mais processos de instabilização mencionados.
Aterros em encostas urbanizadas são importantes desencadeadores de movimentações de massa. É frequente nessas áreas a deposição de lixo e/ou entulho nas encostas, materiais em geral muito porosos e que originam sobrecargas capazes de induzir movimentos de massa catastróficos.
A urbanização também promove a alteração do regime natural de escoamento e infiltração de águas pluviais, originando quase sempre fluxos e lançamentos concentrados de água. A introdução de novas fontes de águas superficiais e sub-superficiais associadas a redes de água e de esgotos com vazamentos e a fossas negras e sépticas produzem outros impactos importantes na dinâmica das encostas, aumentando a carga no solo e diminuindo as pressões neutras, favorecendo as movimentações de massa.

Instrumentos de Prevenção
Frente às situações catastróficas que ocorrem nessas áreas, a engenharia geotécnica e a geologia de engenharia desenvolveram muitas respostas técnicas para equacionar esses problemas nas cidades brasileiras. Entre esses instrumentos estão a cartografia geotécnica, cartas de risco e planos de defesa civil.
As cartas geotécnicas são mapas que compartimentam o meio físico de uma região, de acordo com as características do solo. O mapeamento oferece um perfil geral de métodos a adotar na ocupação de uma área de encosta, para que se garantam condições de segurança geotécnica e de adequação ambiental. Esses mapeamentos procuram avaliar e retratar as características do meio físico, ou seja, os diferentes tipos de solo e rocha.Também e principalmente buscam prever seus possíveis comportamentos frente às diferentes formas de cobertura vegetal, uso do solo e processos induzidos pelo homem.
Em 1966 foi fundado, no Rio de Janeiro, o Instituto de Geotécnica (atual GeoRio), que cuida das áreas de encosta no estado. O primeiro mapeamento geotécnico foi a Carta Geotécnica de Santos e São Vicente (1979), realizado pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Hoje, a cartografia geotécnica é um instrumento muito usado nas principais cidades do país.
Com a carta geotécnica é possível executar o zoneamento de risco. O risco geológico é definido como uma situação de perigo, perda ou dano, ao homem ou suas propriedades, em razão da existência de processos geológicos induzidos ou não. Assim, por exemplo, um escorregamento de grandes proporções que ocorra numa área desabitada apresenta um risco menor que o mesmo fenômeno, em dimensões mais reduzidas, mas que tenha maior probabilidade de causar danos materiais ou em vidas.

O mapa de riscos fornece informações sobre intensidade e probabilidade temporal e espacial dos eventos perigosos. Representa uma avaliação dos riscos presentes, incluindo o histórico dos efeitos dos desastres e a estimativa de sua provável evolução, frente às mudanças registradas nas comunidades que afetam, como o crescimento populacional e incremento do patrimônio. A partir do zoneamento de risco, são desenvolvidos os planos de defesa civil, um conjunto de medidas e ações capazes de minimizar os efeitos dos acidentes, envolvendo medidas de organização da comunidade e definição de infraestrutura específica para atender situações emergenciais.
Além das situações emergenciais é preciso que técnicos e comunidades estejam em alerta para que se possa conhecer, ainda que de maneira aproximada, o momento e os locais prováveis de deflagração dos movimentos de massa catastróficos. Também é necessário controlar novas ocupações em áreas expostas a riscos, assegurando-se que novas construções sejam resistentes aos fenômenos. E, finalmente, ter programas para reformar as ocupações existentes, aumentando a cultura sobre riscos e criando ou reforçando as estruturas das moradias frente aos fenômenos que ocorrem em encostas.
Dificuldades
Mas, são muitas as dificuldades para implementar planos dessa natureza. A pressão por moradias nas cidades faz com que as populações mais pobres busquem construir em áreas de risco.
O corpo técnico de prefeituras e governos estaduais sabe muito bem que, sempre que uma área de risco é desocupada e seus habitantes transferidos para regiões mais seguras, elas são reocupadas por outras pessoas, desprovidas de abrigo. A pressão, frequentemente, é tão grande que, por conveniências políticas, o próprio poder público permite essas iniciativas de alto risco.
A legislação brasileira que se refere à ocupação de encostas é definida por leis ambientais que disciplinam o uso do solo urbano. As encostas estão incluídas nas leis ambientais, muitas vezes em áreas sob proteção ambiental, com variadas restrições à ocupação, ou simplesmente como áreas de ocupação proibida. A experiência mostra que a proibição pura e simples, sem mecanismos compensatórios, faz com que os próprios donos de terreno ou políticos populistas facilitem as invasões e ocupações de áreas ambientalmente sensíveis. Em contraposição, a ausência de fiscalização proporcional à criação dessas áreas de proteção ambiental faz com que essas reservas sejam simplesmente ocupadas, à margem de qualquer lei, tanto por moradores de alta quanto de baixa renda.

Outra das dificuldades mais comuns é tornar efetivos os resultados do mapeamento geotécnico e da carta de riscos. Muitas vezes estes documentos ficam engavetados, esperando por recursos financeiros e por políticas adequadas. As administrações com frequência não compreendem que o mapeamento geotécnico não é uma obra acabada, mas deve ser continuamente refeito e aperfeiçoado, o que pressupõe a existência de equipes técnicas estáveis cuidando desse problema. Infelizmente, quase sempre é necessária uma temporada de chuvas mais intensas, acompanhadas de catástrofes previsíveis, para que mapas e projetos sejam desengavetados.
Não existem soluções fáceis nem simples para os problemas de ocupação de encostas em áreas urbanas. Essas iniciativas envolvem problemas que tiveram origem em situações sociais e econômicas do passado recente, e que só se agravaram com o adensamento da ocupação em áreas de risco. A falta de informação da população assim como a carência de políticas públicas efetivas são comprometedores agravantes desse problema.
As áreas de morro podem ser ocupadas. Ressalvando as áreas de risco, existem muitas soluções técnicas já propostas que buscam soluções para o problema. É necessário, mais que nunca, que mais e mais equipes multidisciplinares, envolvendo geólogos, geógrafos, engenheiros, arquitetos, urbanistas, advogados e muitos outros profissionais possam trazer abordagens inovadoras para uma ocupação segura e ambientalmente responsável de áreas de encosta.
É necessário ainda que se desenvolva um novo entendimento, uma nova cultura que entenda que as chuvas acima da média e as encostas instáveis não têm culpa de nada. Cabe a nós entender os sinais que a Natureza nos dá e resolver os problemas da melhor forma possível. Isso se faz com ciência e informação. Dezembro, janeiro e fevereiro devem ser meses de chuva, não de tragédias anunciadas.

Terra em transe

1. Desenho esquemático de um escorregamento, com a indicação dos elementos que o constituem Fonte:ABNT
2. Corrida de lama, com a indicação dos elementos que o constituem Fonte: Skinner & Porter (2003)

Jefferson Picanço geólogo formado pela UFPR(1989), tem mestrado (1994) e doutorado(2000) pela Universidade de São Paulo(USP). Trabalha com mapeamento geológico aplicado à exploração mineral e com geologia aplicada à engenharia. Atualmente também desenvolve pesquisas sobre a história das ciências geológicas no Brasil colonial.

Fonte: Scientific American Brasil – http://www2.uol.com.br/sciam/

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Um avanço ainda tímido

Dermeval Saviani

Lula seguiu a política tucana e inovou pouco no 2º mandato

Foram grandes os embates travados entre a comunidade educacional e o governo FHC, cuja política não contemplava as principais aspirações dos educadores. Nesse contexto, durante as eleições presidenciais de 2002, o movimento dos educadores tendia a encontrar no PT um canal político natural de desaguadouro de suas reivindicações. A expectativa era a de que a chegada desse partido ao poder federal abriria uma nova era para a educação no País.
Entretanto, a posse de Lula e os primeiros movimentos de seu governo foram deixando clara a frustração daquela expectativa. Em suas linhas gerais e no que se refere às questões de fundo, a orientação política do governo anterior foi mantida. Não se constatou ruptura também na política educacional. No entanto, novas medidas foram tomadas e implicaram modificações em relação ao que fora estabelecido no governo FHC.
As primeiras iniciativas incidiram sobre a educação superior. Trata-se da criação, em 2004, do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) e do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), seguidos da criação, em 2005, do Programa Universidade para todos (ProUni).
Para gerir o Sinaes, que avalia instituições, cursos e desempenho dos estudantes do nível superior, foi instituída, no âmbito do MEC, a Comissão Nacional de Avaliação da Educação Superior. O Enade, por sua vez, substituiu o “Provão”, instituído no governo FHC.
O ProUni configurou-se como um programa de concessão de bolsas de estudo para que alunos não portadores de diploma de nível superior pudessem cursar instituições de ensino particulares. A lei que o instituiu previu três modalidades de bolsa: integral, concedida a candidatos com renda familiar mensal per capita limitada a um salário mínimo e meio, parcial de 50% e parcial de 25% – ambas destinadas a candidatos com renda familiar per capita de até três salários mínimos. Para se candidatar ao ProUni é necessário preencher um dos seguintes requisitos: ter cursado o ensino médio completo em escola pública ou em instituição privada como bolsista integral, ser portador de deficiência, ser professor da rede pública de ensino (independentemente da renda). As instituições particulares que participam do programa se comprometem a oferecer vagas em consonância com os requisitos estabelecidos no texto da lei. Como contrapartida ficam isentas do Imposto de Renda das Pessoas Jurídicas, da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, da Contribuição Social para Financiamento da Seguridade Social e da Contribuição para o Programa de Integração Social.
Foram essas as medidas tomadas pelo governo Lula no que se refere ao ensino superior. Em termos gerais, as modificações­ propostas não chegaram a alterar o espírito que presidiu a política educacional do governo FHC. A substituição do Provão pelo Enade incidiu, fundamentalmente, sobre aspectos operacionais. A criação do ProUni, embora constitua uma inovação, não se opõe à orientação anterior. Ao contrário, a reforça, pois uma das diretrizes básicas do governo FHC era ampliar a participação das instituições privadas na oferta de vagas, para reduzir o déficit de estudantes de nível superior no Brasil.
Mas é importante destacar que, especialmente ao longo do segundo mandato, a iniciativa de criar novas universidades federais e institutos federais de educação tecnológica, além da ampliação das vagas das instituições já existentes, marcou uma diferença importante em relação à era FHC, quando nada foi feito a esse respeito.
Financiamento da educação básica
Já ao apagar das luzes do primeiro mandato de Lula ocorreu, em dezembro de 2006, a substituição do Fundef, que financiava apenas o ensino fundamental, pelo Fundeb, fundo que abrange toda a educação básica.
A estrutura do Fundeb mantém as linhas do Fundef. Mas promoveu um importante avanço, representado pela ampliação do âmbito de incidência e pelo aumento dos recursos financeiros que compõem o fundo.
Pelo primeiro aspecto, o novo fundo passa a abranger, além do ensino fundamental, também a educação infantil (creches e pré-escolas), o ensino médio e a educação de jovens e adultos (EJA), incluindo os meios urbano e rural e as modalidades da educação especial, indígena e quilombola, assim como a educação profissional integrada ao ensino médio.
Pelo segundo aspecto, além de elevar de 15% para 20% a contribuição dos estados e municípios, um indicador da disposição de ampliar o compromisso da União com o financiamento da educação básica foi o dispositivo legal vedando à instância federal a utilização do salário-educação para suprir a sua parte na composição do fundo, diferentemente do que fazia o governo FHC.
O Fundeb é um fundo de natureza contábil que não chega a resolver o problema do financiamento da educação. Seu montante, se efetivamente aplicado, melhorará sensivelmente o financiamento da educação comparativamente à situação anterior. Mas não terá força para alterar o status quo vigente. Ou seja, a ampliação dos recursos permitirá atender um número maior de alunos, porém em condições não muito menos precárias do que as atuais, isto é, com professores em regime de hora-aula, com classes numerosas e sendo obrigados a ministrar grande número de aulas semanais para compensar os baixos salários, ainda em vigor nos estados e municípios.
Um simples exemplo ilustra a limitação apontada. Calculado pela nova metodologia do IBGE, o PIB brasileiro em 2006 foi de 2 trilhões e 322 bilhões de reais. Isso significa que, levando-se em conta a informação do próprio MEC de que o Brasil gasta com educação em torno de 4,3% do PIB, o orçamento da educação para 2007 deveria ser da ordem de 99 bilhões e 846 milhões de reais. Assim, mesmo descontando os gastos com ensino superior, que não chegam a 1% do PIB (23 bilhões de reais), o montante a ser destinado à educação básica seria de 76 bilhões e 800 milhões de reais, muito superior, portanto, ao valor de 43 bilhões e 100 milhões previstos para o Fundeb em 2007.
Educação e trabalho
Outro aspecto que foi objeto de modificação operada pelo governo Lula é o referente à educação profissional. Contrapondo-se ao decreto do governo FHC, que buscou separar o ensino técnico do ensino médio regular, foi elaborado um novo decreto cuja marca distintiva é a articulação, entendida de forma ampla e abrangendo os distintos aspectos envolvidos na questão da educação profissional. Assim, prevê-se a articulação de esforços das áreas da educação, trabalho e emprego, e ciência e tecnologia, e se introduz o conceito de “itinerário formativo”, definido como o conjunto das etapas da organização da educação profissional em uma determinada área. Determina-se, ainda, a articulação preferencial com os cursos de jovens e adultos e a integração entre a educação profissional de nível médio com o ensino médio. Por fim, além dessa integração horizontal, estipula-se, também, a articulação vertical entre a formação profissional técnica de nível médio e os cursos de educação tecnológica de graduação.
Vê-se que essa nova concepção de educação profissional representa claro avanço, pois retoma a tendência da formação integrada, revertendo o retrocesso representado pelo governo tucano. Portanto, ainda que limitado ao plano das ideias, esse avanço não deixa de ser positivo, pois possibilita a reorganização do ensino técnico segundo uma concepção pedagógica mais coerente com as necessidades atuais.
Um passo à frente
O segundo mandato de Lula, iniciado em 2007, marca uma diferença mais nítida em relação ao governo FHC, representada pelo envolvimento do MEC no enfrentamento dos problemas da educação básica, o que foi traduzido na criação do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), lançado em abril de 2007.
Embora constituído por uma gama grande de ações de certo modo justapostas entre si, o PDE dispõe-se a atacar o problema da qualidade da educação básica fundamentalmente por meio de três programas: “Índice de Desenvolvimento da Educação Básica” (Ideb), Provinha Brasil e Piso do Magistério, complementados pelo Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica.
Do ponto de vista financeiro, os recursos básicos com que conta o PDE são aqueles constitutivos do Fundeb, aos quais o MEC se propôs a adicionar, em 2007, 1 bilhão de reais, visando atender prioritariamente os mil municípios com os mais baixos níveis de qualidade aferidos pelo Ideb.
Mas o Fundeb não representou efetivo aumento dos recursos financeiros, uma vez que o número de estudantes atendidos passou de 30 milhões para 47 milhões, portanto, um aumento de 56,6%, enquanto o montante do fundo passou de 35,2 bilhões para 48 bilhões de reais, o que significa um acréscimo de apenas 36,3%. Portanto, proporcionalmente, o valor do investimento por aluno diminuiu.
Legalismo e improvisação
Numa breve apreciação crítica podemos dizer que o legado educacional positivo do governo Lula foi prejudicado por certo legalismo aliado à certa improvisação, o que pode ser ilustrado pela questão do ensino fundamental obrigatório. Elevado legalmente para nove anos, o nível fundamental incorporou o último ano da educação infantil, reivindicação antiga dos prefeitos para contar com parte dos recursos do Fundef que não contemplava a educação infantil. No entanto, essa justificativa logo perdeu sentido com a aprovação do Fundeb, que estendeu os recursos do fundo para toda a educação básica. E agora o governo patrocina a aprovação de uma nova medida legal que torna obrigatório o ensino dos 4 aos 17 anos, o que torna mais uma vez inócuo o ensino fundamental de nove anos.
O legado a ser deixado pelo governo Lula no campo da educação será completado com os resultados da Conferência Nacional de Educação (Conae), prevista para ocorrer de 28 de março a 1º de abril deste ano.
O grande desafio
Fica, pois, como desafio imposto ao último ano do governo Lula e ao próximo presidente a ser eleito em 2010: a instituição de um sistema nacional de educação que, sob a coordenação da União, articule a participação em regime de colaboração dos estados e municípios, assegurando uma educação pública com um mesmo e elevado nível de qualidade. Para isso será necessário, em consonância com o discurso hoje consensual que atribui à educação formal a posição de fator econômico estratégico, tomá-la como o eixo do próprio projeto de desenvolvimento, articulando o Plano Nacional de Educação com o projeto econômico nacional. Isso implicará transportar para a educação todos os recursos disponíveis, pois ela se tornará a via pela qual serão atacados todos os problemas do País.
Trata-se de mudar o próprio modelo de desenvolvimento econômico que, desde o início do século XX, vem tendo como eixo o automóvel (fordismo e toyotismo) deslocando-o para a educação. Essa mudança permitirá um crescimento com maior distribuição de renda e estimulador da igualdade social. Além de não apresentar efeitos colaterais negativos, já traz consigo o antídoto aos efeitos negativos na montagem dos currículos formativos dos vários níveis de ensino. Essa é a verdadeira solução e, portanto, o grande desafio a ser enfrentado.

Fonte: Carta na Escola – http://www.cartanaescola.com.br/

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África “condenada à incineração” e ao subdesenvolvimento crónico

Martinho Júnior

Os Estados Unidos acabam de demonstrar em Copenhaga e na Cimeira sobre o clima, a sua disposição em alargar as políticas típicas do “capitalismo de desastre” da esfera económica para outros campos de acção, inclusive em relação ao clima, ao ambiente e à biodiversidade.

O ponto de vista do arcebispo Desmond Tutu, uma das personalidades africanas mais atentas em relação às decisões que se estão a tomar sobre as medidas que influenciarão nos fenómenos climáticos e ambientais, é de que com a decisão dos Estados Unidos «África será condenada à incineração e à ausência de desenvolvimento».

Barack Hussein Obama, filho dum africano, não se coibiu de ser o porta-voz das pressões corporativas e das poderosas multinacionais, ferindo a expectativa dos mais avisados, ferindo os interesses dos pobres e sobretudo do desamparado continente africano.

Prevendo um aquecimento de 2º em média para o planeta, isso significará que África terá temperaturas acima dessa média, dada a natureza dos seus desertos e das suas reservas aquíferas.

O deserto do Sahara expandir-se-á para sul, tornando muito difícil a situação em todo o Sahel.

Os desertos a leste, como o Ogaden, que envolve a Somália e a Etiópia, tenderão a expandir-se para oeste e para sul, aumentando a pressão ambiental sobre as populações da Etiópia, da Eritreia, de Djibouti, da Somália e do Quénia.

No sul do continente, os desertos do Kalahári e do Namibe tenderão a expandir-se para sul, na direcção da África do Sul, para norte, na direcção de Angola e Zâmbia, e para leste, na direcção do Zimbabwe.

É prematuro fazer uma avaliação do comportamento das enormes reservas aquíferas de Angola e de bacias hidrográficas como as do Zambeze, do Okawango e as bacias de rios independentes angolanos que, nascendo na região central das grandes nascentes (bem no centro físico-geográfico do país), desaguam a oeste no Atlântico, particularmente o rio Cunene, mas o risco é a sua degradação.

O aumento da extensão das áreas desérticas em África redundante dum aquecimento de 3º (em África, para um aquecimento médio global de 2º, é de prever que as temperaturas sejam excessivas a essa média) poderá mesmo, aliada a outros factores, influenciar alterações na bacia do Congo, cuja cobertura vegetal tenderá a diminuir, ou seja, pondo em causa a vitalidade do segundo maior pulmão da Terra, que se tornará raquítico ao mesmo tempo que a bacia do Amazonas.

A diversidade biológica ficará ainda mais em causa, com o desaparecimento de várias espécies e a disseminação daquelas que estarão mais adaptadas ao aquecimento e à secura do ambiente.

A disponibilidade de fundos dos países ricos, tendo como base o que “foi decidido” em Copenhaga e a observação sobre a “experiência” das potências, será alvo de manipulação: para que os pobres tenham acesso a esses fundos, terão de cumprir com o diktat dos poderosos e, sem políticas alternativas, os países do continente africano assistirão ao espectáculo das suas elites se tornarem ainda mais venais e dóceis instrumentos da neocolonização, ao mesmo tempo que se incrementarão as explorações das matérias primas e as inevitáveis situações de tensão, de conflito e de guerra…

A tendência para o aumento do fosso das desigualdades sociais será reforçada, tornando ainda mais insuportável o ambiente humano, com a probabilidade do incremento das injustiças sociais de toda a ordem.

As ingerências externas crescerão, inclusive sob os pontos de vista operativo e militar, com implicação na gestão dos estados, nos seus relacionamentos, nas políticas de conveniência, com toda a cosmética que se vai conhecendo e que implicitamente se irão pôr em prática.

África confluirá assim para o inferno em que se tornou a vasta região do Médio Oriente, do Iraque ao Paquistão, e o elo de ligação poderá ser o Iémen e a Somália.

Há uma certa expectativa sobre como reagirão as organizações sociais e ambientais africanas em relação à “Primeira Conferência Mundial dos Povos sobre os câmbios climáticos e os direitos da Mãe Terra”, mas sobretudo quais os estados africanos que vão assumir a coragem de se fazer nela representar.

De facto, ao se fazerem representar, esse é desde logo um sinal de “agravo” em relação ao diktat dos poderosos, e a ambiguidade da China, conforme o que ficou demonstrado em Copenhaga, não vai amparar os resolutos.

É provável que na Bolívia estejam representados alguns estados do Sahel africano, a África do Sul.

Angola está de certeza muito mais interessada em “mostrar-se ao mundo” na Expo/Shangai 2010, do que participar na Conferência de Cochabamba…

Para Shangai, já há quase um ano que está nomeada comissária a antiga ministra do petróleo Albina Assis, mas em relação a Cochabamba impera o silêncio quase absoluto.

Fonte: Informação Alternativa – http://infoalternativa.org

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Jornada de trabalho de doméstica chega a 54 horas semanais

Apesar da jornada excessiva, o estudo indica que as condições de trabalho melhoraram, em cinco das sete regiões monitoradas.

SEBRAE

A jornada de trabalho das empregadas domésticas com carteira assinada no país atingiu até 54 horas semanais em 2009, segundo pesquisa do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
Apesar da jornada excessiva, o estudo indica que as condições de trabalho melhoraram. Em cinco das sete regiões monitoradas, a maioria das que atuam como mensalistas é registrada. Segundo o Dieese, as jornadas mais extensas são cumpridas pelas domésticas do Nordeste. Em Recife, as mensalistas com carteira assinada trabalham em média 54 horas por semana. Na região, as que não são negras e não têm registro formal trabalham em média 59 horas por semana. Negras não formalizadas trabalham 57.
As menores cargas horárias foram registradas em São Paulo e em Porto Alegre, onde as empregadas domésticas cumprem em média 41 horas semanais.
Patrícia Costa, economista do Dieese, afirma que trabalhadoras que dormem no local de trabalho costumam ter jornada de trabalho mais extensa, mas que mesmo as demais cumprem longas jornadas. "Existe informalidade na relação com a família. Como é uma atividade que se exerce dentro de casa, é difícil estabelecer o limite.'’
Costa destaca que cada vez menos trabalhadoras aceitam dormir no emprego. Entre as regiões pesquisadas, o Distrito Federal teve o maior percentual de domésticas dormindo no emprego, com 25% .
Segundo o Dieese, o serviço doméstico é a atividade que oferece a pior remuneração no país. A trabalhadora doméstica recebe, em média, em toda as regiões monitoradas, metade do valor pago às funcionárias do setor de serviços.

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Cabral, Votorantim e a expansão da monocultura do eucalipto no Médio Vale do Paraíba Fluminense

Thiago Lucas

“Uma árvore sozinha não faz uma floresta” – Provérbio Chinês

A região do Médio Vale do Paraíba Fluminense é considerada uma das mais dinâmicas do estado do Rio de Janeiro, pois possui um importante pólo metal-mecânico, uma ótima logística de transportes e está entre as metrópoles (São Paulo e Rio de Janeiro) mais importantes do país. Entretanto, esta região apesar de ter um forte caráter urbano-industrial, possui ainda uma agropecuária bastante significativa numa escala estadual, especialmente, no que se refere à pecuária leiteira.

É notória a força do latifúndio no ordenamento territorial dessa região. Vários estudos socioambientais descreveram os danos ambientais causados pela monocultura do café. Hoje essa dinâmica de destruição dos resquícios de mata atlântica na região, a concentração da terra e a subordinação dos pequenos agricultores é realizada pela pecuária leiteira e agora também pela monocultura do eucalipto.

Uma das principais políticas de desenvolvimento econômico e “social” que o atual governo estadual (de Sérgio Cabral) tem apontado como fundamental para ser realizada, é a implementação do projeto da silvicultura comercial de larga escala no território fluminense, os Secretários Julio Bueno (Desenvolvimento) e Christino Áureo (Agricultura) tiveram e ainda tem um papel central na realização de tal empreitada, pois além de defenderem o projeto da silvicultura, ambos têm defendido a importância das empresas de celulose e papel para o desenvolvimento do nosso estado, utilizando o argumento, que esses novos empreendimentos possibilitarão que o estado possa concorrer neste mercado com os estados vizinhos dando uma “nova” dinâmica ao “decadente” espaço agrário fluminense.

Apesar da forte mobilização de diversos movimentos sociais aglutinados na Rede Alerta contra o Deserto Verde que tem conseguido expressivas vitórias no conflito com a Aracruz Celulose no Espírito Santo, as empresas de papel e celulose juntamente com o governo do estado conseguiram aprovar o projeto de lei que foi enviado pelo governador em “regime de urgência” para a Assembléia. Em relação à lei anterior – Lei n.º 4.063/2003 – a atual lei n.º 5067/2007 traz alterações e facilidades para a silvicultura comercial, como o ônus total para o estado na realização do zoneamento ecológico-econômico, ausência de EIA-RIMA nas áreas com plantio de eucalipto em até 400 hectares nas regiões hidrográficas do Baixo Paraíba (IX) e Itabapoana (X) e a diminuição no percentual (de 30% para 20%) da área a ser plantada com espécies nativas.

De acordo com o site da Aracruz, “o cultivo de florestas plantadas esbarrava na falta de regras claras para disciplinar a atividade, na morosidade dos licenciamentos e na falta de um incentivo para deslanchar”. Como essas barreiras foram derrubadas pela lei vigente, a Votorantim que já atuava no Médio Vale do Paraíba Fluminense e a Aracruz Celulose que desde 2005 já estava instalada no município de Itaperuna, terão o caminho aberto para expandir o plantio de eucalipto.

Outro importante mecanismo que será utilizado para expandir a silvicultura comercial no estado é fomento florestal. Com isso, tanto os secretários Julio Bueno e Christino Áureo, juntamente com engenheiros agrônomos da Aracruz Celulose e da Votorantim Celulose e Papel, além de representantes da Firjan e da EMATER têm percorrido diferentes municípios do estado, participando de eventos como a Exposição Agropecuária do Sul Fluminense 2008, realizada em Barra do Piraí na Região do Médio Vale do Paraíba, e a IX Merco Noroeste 2007, ocorrida em Itaperuna no Noroeste Fluminense, buscando divulgar o crescimento do mercado da silvicultura comercial para os produtores rurais dessas regiões e os incentivos públicos e privados para esse mercado. Tal incentivo pode ser entendido como medida política por parte do estado a favor da expansão da silvicultura comercial de larga escala.

Segundo os geógrafos Paulo Alentejano e Carlos Walter Porto-Gonçalves, o fomento florestal é um projeto no qual são firmados contratos de fornecimento entre o produtor e a empresa, esse contrato, representa na verdade uma forma de monopolização, pois o agricultor tem apenas uma opção de comprador, além disso, nos contratos de fomento florestal a empresa fornece as mudas, o adubo, o formicida e a assistência técnica para desenvolver as plantações, sendo com isso, uma espécie de assalariamento disfarçado.

É importante destacarmos que o projeto da silvicultura no estado do Rio de Janeiro representa não só uma aliança entre o governo estadual e as multinacionais deste setor, pois este projeto está atrelado à expansão de novos projetos siderúrgicos no estado, tais como: a construção da Companhia Siderúrgica do Atlântico em Santa Cruz - RJ com previsão de começar a realizar suas atividades em 2010 e a nova siderúrgica da Votorantim em Resende que já esta em funcionamento.

Além disso, tanto o governo estadual como o federal, sinalizam com fortes investimentos (e parceiras público-privadas) na melhoria da logística e do escoamento da produção industrial, representados entre outros pela melhoria e a construção de novos portos (por exemplo, Porto do Açu) no estado e a criação de novos acessos rodoviários, como, por exemplo, a ponte (sobre o rio Paraíba do Sul) do acesso oeste em Resende, ligando a Siderúrgica da Votorantim a rodovia Presidente Dutra e futuro arco rodoviário ligando o porto de Sepetiba ao Comperj em Itaboraí.

Thiago Lucas Alves da Silva – Licenciado em Geografia pela FFP/UERJ, Pós-Graduado em Políticas Territoriais no Estado do Rio de Janeiro e Mestrando pelo CPDA/UFRRJ

Referência bibliográfica

ALENTEJANO e PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. Cabral e o Deserto Verde. Rio de Janeiro: mimeo, 2007.

Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Lei n.º 4.063/2003. Rio de Janeiro: 2003.
______________. Lei n.º 5.067/2007. Rio de Janeiro: 2007.

FOEGER, Tarcisio J. e PEDLOWSKI, Marcos A. Transgredindo escalas e estabelecendo parcerias inusitadas na luta pela justiça a ambiental: o caso da mobilização contra a monocultura de eucalipto no Rio de Janeiro. In: ACSELRAD, Henri (org.). Conflito social e meio ambiente no Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2004.

RIBEIRO, M. A. C. (Org.); MARAFON, G. J. (Org.). Revisitando o Território Fluminense. Rio de Janeiro: Edições NEGEF, 2003.

Fonte: Geógrafos sem Fronteiras – http://gsf.org.br/

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Celebração do Dia da Mulher completa 100 anos

Especialistas da UnB traçam um panorama das conquistas e desafios das mulheres do século XXI

Thais Antonio

Em 1910, foi instituído o Dia da Mulher, 8 de março. Cem anos depois, ainda há muito pelo que lutar, segundo especialistas ouvidas pela UnB Agência. “No imaginário social de hoje, as mulheres persistem inexistentes na memória histórica, em termos de poder, criação, ação. Apenas com a história social das mulheres, desenvolvida pelas feministas, é que se percebe o imenso abismo onde foram jogadas as mulheres, para melhor desaparecerem", afirma a professora Tânia Navarro Swain, do Departamento de História da UnB.
"Encontramos artistas, poetas, escritoras, pintoras, musicistas, rainhas, suseranas, guerreiras, que foram simplesmente apagadas da história e da memória social”, lembra. A professora Tânia Montoro, da Faculdade de Comunicação, complementa: “Conhecemos muito pouco as nossas cientistas mulheres. A ciência também foi feita de descobertas femininas”.

Para comemorar os 100 anos do Dia Internacional da Mulher, o Decanato de Extensão (DEX) da UnB e os departamentos de Saúde Coletiva e de Enfermagem promovem palestra da professora Daphne Rattner, que fará um panorama histórico das lutas e conquistas das mulheres no último século. A iniciativa tem o apoio da Rede pela Humanização do Parto e do Nascimento (ReHuna) e do grupo Ciranda de Mulheres. Na ocasião, também será exibido o vídeo Prazer no Parto (veja lateral).

Daphne explica a importância de trazer o debate sobre as questões de gênero para o ambiente acadêmico: “Em primeiro lugar, as mulheres são maioria na universidade. É importante conhecer a história de lutas e conquistas femininas para perceber que há muito o que comemorar", diz. "Considero que se vive numa época privilegiada para ser mulher. Ainda há diferenças, mas há muitas conquistas que não podem passar em branco”.

DITADURA DO CORPO - Para a pesquisadora Tânia Fontenele, um dos desafios a serem enfrentados é a cobrança social em relação à estética das mulheres. Ela explica que essa preocupação está além do corpo e da saúde. “Lamento isso porque num país tão diverso como o nosso, o padrão de beleza é pesar 45 kg, ter o cabelo loiro e liso, olhos azuis. É um padrão cruel e limitante”, reclama.

Tânia Montoro acredita que os meios de comunicação ainda são muito machistas. “Ao invés da ditadura do patricarcado, vivemos a ditadura do corpo. Num país de multiculturalismos racial e genético, o padrão de beleza deixa de fora negras, indígenas, imigrantes e qualquer outra mulher que não tiver esse padrão”, explica. Ela diz que as indústrias farmacêutica, de cosméticos e cultural promovem um excessivo consumo da beleza, criando mulheres com problemas como bulimia, anorexia e depressão profunda. E aponta a ausência da mulher madura, com mais de 50 anos, nos meios de comunicação. “É como se a função social da mulher acabasse com o fim da fase reprodutora”, diz.
VIOLÊNCIA - Ana Liési Thurler, doutora em Sociologia pela UnB, acredita que as relações de gênero ainda determinam a condição da mulher na sociedade atual. “A violência não é um detalhe na história da mulher, é um marcador nas relações de gênero”. Helenice Gama Dias de Lima, psicóloga do 1º Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, conta que a violência contra a mulher é real e sempre existiu. A diferença é a punição ao agressor. “Hoje, a violência é crime. A minha experiência tem me mostrado que as mulheres estão mais encorajadas a denunciar. Antes o agressor não sentia a ressonância do ato dele”, explica.

“A violência contra as mulheres só diminui na medida da conscientização e da resistência dos movimentos das mulheres, das feministas, daquelas que não aceitam a dominação da metade da população pela outra metade, pela simples representação social de inferioridade que é marca da definição das mulheres enquanto tais”, explica Tânia Navarro. “O século XXI tem um caminho enorme a ser percorrido para que as mulheres deixem de ser cidadãs de segunda classe ou vistas apenas como carne a ser consumida, com parâmetros bem definidos de beleza e disponibilidade”.

Fonte: Universidade de Brasília – http://www.unb.br/

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A louca corrida dos EUA pela hegemonia ameaça o planeta

Antes do 11 de setembro os neoconservadores norte-americanos foram explícitos quanto afirmaram que as guerras de agressão que pretendiam desencadear no Oriente Médio exigiam "um novo Pearl Harbour". Para seu próprio bem e para o bem de todo o mundo, é preciso que os norte-americanos prestem atenção ao número cada vez maior de especialistas que estão dizendo que o relato do governo sobre o 11 de Setembro não condiz com as suas próprias investigações. O 11 de Setembro desencadeou o plano neoconservador para a hegemonia mundial dos EUA. O artigo é de Paul Craig Roberts, ex-secretário assistente do tesouro no governo Reagan.

Paul Craig Roberts (*)

O Washington Times é um jornal que encara com bons olhos as guerras de agressão de Bush/Cheney/Obama/ neoconservadores no Médio Oriente e defende que se obrigue os terroristas a pagar pelo 11/Setembro. Por isso, fiquei admirado ao saber que, em 24 de fevereiro, a notícia mais apreciada no sítio web do jornal durante os últimos três dias era a reportagem "Explosive News" , do "Inside the Beltway", sobre as 31 conferências de imprensa em cidades dos EUA e no estrangeiro realizadas a 19 de Fevereiro pelos Arquitetos e Engenheiros para a Verdade do 11/Setembro, uma organização de profissionais que já tem 1 000 membros.
E ainda fiquei mais admirado por a reportagem do jornal tratar a conferência de imprensa muito a sério.
Como é que três arranha-céus do World Trade Center se desintegram subitamente em poeira fina? Como é que sólidas vigas de aço em três arranha-céus cedem subitamente em consequência de incêndios de curta duração, isolados e de baixa temperatura? "Mil arquitetos e engenheiros querem saber, e apelam ao Congresso que promova uma nova investigação sobre a destruição das Torres Gêmeas e do Edifício 7", noticia o Washington Times.
O jornal noticia que os arquitetos e engenheiros chegaram à conclusão de que a Federal Emergency Management Agency (FEMA) e o National Institute of Standards and Technology (NIST) forneceram "relatos insuficientes, contraditórios e fraudulentos das circunstâncias da destruição das torres" e "exigem uma investigação de um grande júri aos funcionários do NIST".
O jornal relata que Richard Gage, o porta-voz dos arquitetos e engenheiros disse: "Deverão ser notificados funcionários do governo de que a ‘Conivência com a Traição’, Código 18 (Sec. 2382) dos EUA é um grave crime federal, que exige a ação dos que possuem indícios de traição. As implicações são enormes e podem ter um impacto profundo no próximo julgamento de Khalid Sheik Mohammed".
Agora há uma outra organização, os Bombeiros pela Verdade do 11/Setembro. Na principal conferência de imprensa em São Francisco, Eric Lawyer, o líder desta organização, anunciou o apoio dos bombeiros às exigências dos arquitetos e engenheiros. Denunciou que não houve qualquer investigação forense aos incêndios que supostamente destruíram os três edifícios e que esta omissão constitui um crime.
Não foram seguidos os procedimentos obrigatórios e, em vez de ser preservada e investigada, a cena do crime foi destruída. Também denunciou que há mais de cem testemunhas de primeira-mão que ouviram e sentiram explosões e há provas de explosões através da rádio, de gravações de som e de vídeos.
Também na conferência de imprensa, o físico Steven Jones apresentou provas da existência de nano-termite em resíduos dos edifícios do WTC encontrada por um painel internacional de cientistas, chefiado pelo Professor Niels Harrit, da Universidade de Copenhaga. A nano-termite é um explosivo/pirotécnico de alta tecnologia capaz de derreter instantaneamente vigas mestras de aço.
Antes de gritarmos "teoria da conspiração", temos que ter presente que os arquitetos, engenheiros, bombeiros e cientistas não apresentam qualquer teoria. Apresentam provas que contestam a teoria oficial. Estas provas não vão desaparecer.
Se o fato de exprimir dúvidas ou reservas quanto à versão oficial do Relatório da Comissão do 11/Setembro torna uma pessoa num idiota da teoria da conspiração, então também temos que incluir o co-presidente da Comissão do 11/Setembro e o conselheiro legal da Comissão, que escreveram livros em que declaram abertamente que foram enganados por funcionários do governo quando dirigiam a investigação, ou, melhor, quando presidiam à investigação dirigida pelo director executivo Philip Zelikow, membro da equipa de transição do Presidente George W. Bush e do Foreign Intelligence Advisory Board e um co-autor com a secretária de Estado de Bush, Condi "Mushroom Cloud" Rice.
Há-de haver sempre americanos que acreditam em tudo o que o governo lhes diz apesar de saberem que o governo lhes tem mentido muitas vezes. Apesar das dispendiosas guerras que ameaçam a Segurança Social e os Cuidados de Saúde, guerras essas baseadas em inexistentes armas de destruição maciça iraquianas, em inexistentes ligações de Saddam Hussein à al Qaida, em inexistente participação afegã nos ataques de 11/Setembro, e em inexistentes armas nucleares iranianas, que estão a ser invocadas como razão para a próxima guerra americana de agressão no Médio Oriente, mais de metade da população dos EUA continua a acreditar na história fantástica que o governo lhes contou sobre o 11/Setembro, uma conspiração muçulmana que ludibriou todo o mundo ocidental.
Mais ainda, esses americanos não se preocupam com a quantidade de vezes que o governo altera a sua versão. Por exemplo, os americanos ouviram falar pela primeira vez de Osama bin Laden porque o regime Bush lhe atribuiu os ataques do 11/Setembro. Ano após ano foram apresentados vídeos ao público crédulo americano com declarações de bin Laden. Os especialistas consideraram que esses vídeos eram falsificações, mas os americanos mantiveram-se crédulos. Depois, subitamente no ano passado, surgiu um novo "cérebro" do 11/Setembro que ocupou o lugar de Bin Laden, o preso Khalid Sheik Mohammed, o detido que foi mergulhado em água 183 vezes até confessar ter sido o cérebro dos ataques do 11/Setembro.
Na Idade Média, as confissões arrancadas sob tortura constituíam prova, mas o sistema legal dos EUA sempre recusou a auto-incriminação desde a sua fundação. Mas com o regime Bush e os juízes federais Republicanos, que nos juraram defender a Constituição dos EUA, a auto-incriminação de Sheik Mohammed consiste hoje na única prova que o governo americano tem de que foram terroristas muçulmanos que provocaram o 11/Setembro.
Se uma pessoa analisar as acções atribuídas a Khalid Sheik Mohammed, estas são simplesmente incríveis. Sheik Mohammed é um super-herói mais brilhante, com mais capacidades do que V no filme de ficção, "V de Vingança" (V for Vendetta). Sheik Mohammed ludibriou todas as 16 agências de informações americanas e as de todos os aliados ou fantoches dos EUA, incluindo o Mossad de Israel. Não há nenhum serviço de informações na terra nem mesmo todos eles juntos que cheguem aos calcanhares de Sheik Mohammed.
Sheik Mohammed ludibriou o Conselho de Segurança Nacional dos EUA, Dick Cheney, o Pentágono, o Departamento de Estado, o NORAD, a Força Aérea americana, e o Controlo de Tráfego Aéreo.
Fez com que a Segurança dos Aeroportos falhasse quatro vezes na mesma manhã. Provocou a falha das modernas defesas aéreas do Pentágono, o que permitiu que se jogasse no Pentágono um avião comercial pirateado, que andou fora da rota durante toda a manhã enquanto a Força Aérea americana, pela primeira vez na história, foi incapaz de o interceptar,
Sheik Mohammed conseguiu realizar estas façanhas com pilotos não qualificados.
Sheik Mohammed, apesar de ser um prisioneiro mergulhado em água, conseguiu impedir que o FBI divulgasse os muitos vídeos confiscados que, segundo a versão oficial, mostrariam o avião pirateado a bater no Pentágono.
Até que ponto temos que ser ingênuos para acreditar que qualquer ser humano, qual personagem de ficção de Hollywood, tem este poder e capacidades?
Se Sheik Mohammed tem estas capacidades super humanas, como é que os incompetentes americanos o apanharam? Este tipo é um bode expiatório torturado até à confissão, a fim de que os americanos ingênuos continuem a acreditar na teoria da conspiração governamental.
O que está havendo é que o governo americano tem que pôr fim ao mistério do 11/Setembro. O governo tem que levar a julgamento e condenar um réu para poder encerrar o caso antes que ele rebente. Qualquer pessoa que foi mergulhada em água 183 vezes confessa o que quer que seja.
O governo americano tem respondido às provas, que têm sido apresentadas contra a sua extraordinária teoria da conspiração do 11/Setembro, redefinindo a guerra contra o terrorismo de inimigos externos para inimigos internos. Janet Napolitano, secretária da Segurança Nacional, disse em 21 de Fevereiro que atualmente os extremistas americanos são motivo de preocupação tão grande como os terroristas internacionais. Os extremistas, claro, são pessoas que interferem na agenda do governo, como os 1 000 Arquitectos e Engenheiros pela Verdade do 11/Setembro. Este grupo era de 100, agora já são 1 000. E se vierem a ser 10 000?
Cass Sunstein, um funcionário do regime Obama, tem uma solução para os céticos do 11/Setembro: infiltrar-se dentro deles e levá-los a fazerem declarações e ações que possam ser usadas para os desacreditar ou para os prender. Mas livrar-se deles a todo o custo.
Por quê utilizar estas medidas extremas contra supostos idiotas se eles apenas provocam divertimento e risadas? Estará o governo preocupado que eles farejem alguma coisa?
Em vez disso, por que é que o governo americano não confronta pura e simplesmente as provas que são apresentadas e as contesta?
Se os arquitetos, engenheiros, bombeiros e cientistas são uns idiotas chapados, seria fácil analisar as suas provas e refutá-las. Porque é que é necessário infiltrar-se neles com agentes secretos e armar-lhes ratoeiras?
Muitos norte-americanos responderiam que o "seu" governo nunca sequer pensaria em matar seus próprios cidadãos, roubando aviões e destruindo edifícios só para promover a agenda do governo. Mas em 3 de Fevereiro, Dennis Blair, diretor do National Intelligence, disse à Comissão de Informações da Câmara que o governo dos EUA pode assassinar os seus próprios cidadãos quando eles estão além-mar. Não é necessário nenhuma detenção, nenhum julgamento, nenhuma condenação por um crime capital. Apenas um assassínio impune.
Obviamente, se o governo dos EUA pode assassinar os seus cidadãos no estrangeiro, também pode assassiná-los internamente, e é o que tem feito. Por exemplo, foram assassinados 100 davidianos Branch [1] em Waco, Texas, por ordem da administração Clinton, sem qualquer razão legítima. O governo decidiu apenas usar do seu poder sabendo que o podia fazer, e foi o que fez.
Os americanos que pensam que o "seu governo" é uma espécie de operação moralmente pura, deviam familiarizar-se com a Operação Northwoods. A Operação Northwoods foi uma conspiração organizada pelos chefes de estado-maior conjuntos para que a CIA efetuasse atos de terrorismo em cidades americanas e fabricasse provas culpando Castro a fim de os EUA poderem conquistar o apoio interno e internacional para a mudança de regime em Cuba. O plano secreto foi vetado pelo presidente John F. Kennedy e foi revelado pelo John F. Kennedy Assassination Records Review Board. Está disponível online no National Security Archive. Há inúmeros relatos disponíveis online, incluindo na Wikipedia. O livro de James Bamford, Body of Secrets , também fala resumidamente na conspiração.
"A Operação Northwoods, que teve a aprovação por escrito do presidente [Gen. Lemnitzer] e de todos os membros dos chefes de estado-maior, propunha que fossem alvejadas pessoas inocentes nas ruas americanas; que fossem afundados no alto mar barcos que transportassem refugiados fugidos de Cuba; que fosse desencadeada uma onda de terrorismo violento em Washington, DC, Miami, e noutros lugares. Seriam acusadas pessoas por explosões que não tinham feito, seriam sequestrados aviões. Através de provas fabricadas, tudo isso seria atribuído a Castro, dando a Lemnitzer e à sua pandilha a justificação e o apoio público e internacional de que precisavam para desencadear a sua guerra".
Antes do 11 de Setembro os neoconservadores americanos foram explícitos quanto afirmaram que as guerras de agressão que pretendiam desencadear no Médio Oriente exigiam "um novo Pearl Harbour".
Para seu próprio bem e para o bem de todo o mundo, é preciso que os norte-americanos prestem atenção ao número cada vez maior de especialistas que estão dizendo que o relato do governo sobre o 11 de Setembro não condiz com as suas próprias investigações. O 11 de Setembro desencadeou o plano neoconservador para a hegemonia mundial dos EUA. Enquanto escrevo, o governo dos EUA está a negociar o acordo de governos estrangeiros que rodeiam a Rússia para aceitar bases americanas de intercepção de mísseis. Os EUA pretendem cercar a Rússia com bases americanas de mísseis desde a Polônia, passando pela Europa Central e Kosovo, até à Geórgia, Azerbaijão e Ásia central [ver http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=17709 ]. O enviado especial americano Richard Holbrooke declarou a 20 de Fevereiro que a Al Qaeda está infiltrando-se em regiões da antiga União Soviética na Ásia central, como o Tajiquistão, o Quirguistão, o Uzbequistão, o Turquemenistão e o Cazaquistão. Hollbrooke está pedindo bases norte-americanas nestas repúblicas ex-soviéticas com a desculpa da "guerra contra o terrorismo" sempre em expansão.
Os EUA já cercaram o Irã com bases militares. O governo norte-americano pretende neutralizar a China assumindo o controlo do Oriente Médio e isolando a China do petróleo.
Este plano parte do princípio que a Rússia e a China, países com armas nucleares, ficarão intimidados com as defesas anti-mísseis americanas e cederão à hegemonia dos EUA e que a China ficará sem petróleo para as suas indústrias e forças militares.
O governo dos EUA está enganado. Os líderes militares e políticos russos responderam a esta ameaça óbvia declarando que a OTAN é uma ameaça direta para a segurança da Rússia e anunciando uma mudança na doutrina russa da guerra quanto ao lançamento preventivo de armas nucleares. Os chineses estão demasiado confiantes para serem intimidados por uma "superpotência" americana enfraquecida.
Os retardados mentais de Washington estão jogando a cartada da guerra nuclear. O impulso louco para a hegemonia americana ameaça a vida sobre a terra. O povo norte-americano, ao aceitar as mentiras e enganos do "seu" governo, estão facilitando este resultado.
(*) Ex-secretário assistente do Tesouro na administração Reagan, co-autor de The Tyranny of Good Intentions. Foi editor associado da página editorial do Wall Street Journal e editor colaborador na National Review.
26 de Fevereiro de 2010
[1] Davidianos Branch – seita religiosa destrutiva com origem na igreja adventista; em 1993 agentes federais dos EUA cercaram as suas instalações em Waco (Texas), tendo daí resultado a morte de dezenas dos seus membros quando o complexo ardeu completamente (N.T.).
O original encontra-se em http://globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=17821 . Tradução de Margarida Ferreira.

Fonte: Agência Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

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ESCÁRNIO PARA O SALÁRIO MÍNIMO

Robert Kurz

Uma sentença judicial e as suas consequências

É a velha cantiga no eterno tratamento da contradição entre o trabalho assalariado e o capital: até mesmo pagar apenas o valor da força de trabalho já é pintado como a decadência do Ocidente. Os correios alemães tinham negociado com o sindicato Verdi, como é sabido, salários mínimos entre 8 e 9,80 euros por hora. Tendo tal regulamentação sido declarada de aplicação obrigatória para o sector postal por portaria de extensão do então ministro do trabalho, Scholz, os operadores postais privados insurgiram-se contra essa “ditadura”. A "almejada concorrência" seria prejudicada a favor de um monopolista. Assim se provou, finalmente, que uma possível concorrência entre as empresas privadas na área das infra-estruturas somente é possível com base em salários de fome. Agora, o Tribunal Administrativo Federal invalidou o regulamento. Teria havido um erro processual por não envolver os concorrentes aos correios. O truque está em que eles haviam fundado a associação patronal dos concorrente aos Novos Serviços Postais e de Entrega (NBZ). Cujo presidente, Florian Gerster, ironicamente o ex-chefe do serviço de emprego, ganhou fama como promotor dos salários baixos na Alemanha.

Já antes empresas privadas de entrega, como TNT ou PIN (uma subsidiária do Grupo Holtzbrinck), ignoraram olimpicamente aquelas regras. Agora obtiveram uma absolvição de primeira classe. Pois o que é uma ordem legal contra a "lei natural" da concorrência? A sentença encaixa na situação política global desde o início do governo de coligação preto-amarelo. Para encobrir a situação do mercado de trabalho sob condições de crise, terá de se forçar mais uma vez a desvalorização da força de trabalho, já levada a efeito por todos os governos anteriores. Servem de tropa de choque particularmente as empresas privatizadas na área das infra-estruturas. A ferrovia tem mostrado como é, com empresas subcontratadas, cujos salários de 3 euros por hora para os trabalhadores do Leste Europeu na construção ferroviária foram descritos como "imorais" até por quadros da CDU. Agora estão abertas as portas para a generalização gradual de tais condições, uma vez que o acordo de coligação preto-amarelo dificulta novas propostas legislativas de salário mínimo.

Aliás, é bem conhecido que os serviços privados de entrega num aspecto preferiam concorrer menos, ou seja, no investimento em novas redes postais. No privado não tem de haver nenhuma infra-estrutura com cobertura generalizada. Neste ponto, os correios alemães são novamente "exemplares", uma vez que alargaram sem escrúpulos as áreas de entrega de cada carteiro. Menos pessoal para áreas maiores, este é o primeiro mandamento da generalização da economia empresarial. O ideal capitalista de uma combinação de pressão no serviço e baixo salário estende a mais um sector empresarial a sua realização. Que importa se o correio já só vem raramente, ou apenas quando calha, e se já não há estações de correio, mas apenas duvidosas lojecas subcontratadas? O que interessa é que a “concorrência” está salva; graças a Deus e ao Tribunal Administrativo Federal.

Original HOHN FÜR DEN MINDESTLOHN in www.exit-online.org. Publicado na edição impressa e online do semanário Freitag, 04.02.2010

Fonte: O Beco – http://o-beco.planetaclix.pt

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Os segredos do cavalo-marinho

Esses peixes têm um sistema reprodutivo atípico: a incubação dos filhotes é feita nos machos. Em sua coluna de março, Jerry Borges explica como isso acontece e mostra como os cavalos-marinhos podem inspirar pesquisas sobre a reprodução humana.

Jerry Carvalho Borges

Os segredos do cavalo-marinho

Cavalo-marinho da espécie ‘Hippocampus histrix’. Esses animais pertencem a um dos poucos grupos de peixes que se reproduzem por viviparidade, sistema incomum entre os peixes (foto: Nick Hobgood).

Além da sua beleza, os cavalos-marinhos chamam a atenção por seu sistema reprodutivo peculiar, que se caracteriza pela incubação dos embriões em desenvolvimento dentro do corpo do macho. Descobertas recentes esclareceram alguns dos ’segredos‘ associados a essa forma única de reprodução e nos deram pistas importantes sobre alguns aspectos da biologia do desenvolvimento, inclusive de nossa espécie.

Os cavalos-marinhos e seus parentes, os peixes-pipa, pertencem à família dos singnatídeos, um grupo taxonômico que se reproduz por viviparidade. Essa forma de desenvolvimento é encontrada em todos os grupos de vertebrados, com exceção das aves, mas é pouco comum entre os peixes.

A viviparidade é definida como o nascimento de filhotes bem desenvolvidos e ativos e está associada com a fecundação interna e o desenvolvimento embrionário e fetal no interior do corpo de um dos pais.

Os organismos em que ocorre esse tipo de incubação têm custos energéticos elevados e riscos maiores de predação. Embora os organismos vivíparos apresentem tamanhos reduzidos de ninhada se comparados com espécies que se reproduzem por meio de ovos (ovíparas), a viviparidade permite uma maior sobrevivência da prole, pois minimiza a influência ambiental durante o desenvolvimento embrionário.

A viviparidade é encontrada em apenas 2-3% das cerca de 30 mil espécies de peixes conhecidas

A viviparidade é encontrada em 54 famílias de peixes, mas ocorre em apenas 2-3% das cerca de 30 mil espécies conhecidas. Como essas espécies não possuem útero, o desenvolvimento da prole ocorre na cavidade ovariana ou folicular.

A nutrição embrionária pode ocorrer através do vitelo, de outros ovos ou mesmo de outros embriões. Em algumas espécies os recursos alimentares e os gases respiratórios são fornecidos aos embriões através de estruturas epidérmicas, de projeções intestinais, de pseudoplacentas foliculares ou de estruturas similares a placentas, mas que possuem vitelo.

Casos raros

Sempre que se fala em viviparidade, pensamos logo na incubação da prole no corpo das fêmeas. Há, contudo, alguns casos extremamente raros em que o desenvolvimento embrionário pode se processar no corpo de machos.

Alguns exemplos desse tipo incomum de incubação ocorrem em duas espécies de pequenos e ameaçados anfíbios habitantes do sudoeste da América do Sul e conhecidos como sapos de Darwin (gênero Rhinoderma). Esses animais apresentam fertilização externa e seus embriões se desenvolvem por cerca de 20 dias no meio ambiente até se transformarem em girinos e serem capturados e mantidos em expansões bucais dos machos, conhecidas como sacos vocais, até sua metamorfose.

Peixe-pipa
 
Peixe-pipa da espécie ‘Corythoichthys haematopterus’. Assim como os cavalos-marinhos, esses animais pertencem à família dos singnatídeos, uma das 54 famílias de peixes vivíparos (foto: Steve Childs).
 

Os peixes singnatídeos são outro exemplo da incubação de embriões vivíparos em machos. Esse grupo compreende 232 espécies conhecidas que exibem uma ampla variedade e complexidade reprodutiva. Entre os singnatídeos, existem espécies que apresentam reprodução externa e outras nas quais as fêmeas incubam seus filhotes. Contudo, é a incubação por machos que faz esse grupo de peixes especial para os estudiosos da reprodução.

Em algumas espécies de singnatídeos, os machos mantêm os embriões em desenvolvimento em uma bolsa de incubação especializada existente na superfície de seus abdomes ou caudas. Esses locais apresentam modificações morfológicas e fisiológicas semelhantes às encontradas nas fêmeas vivíparas.

As estruturas reprodutivas mais complexas são encontradas nas 33 espécies de cavalos-marinhos que também apresentam as alterações fisiológicas reprodutivas mais marcantes. Nessas espécies, as fêmeas transferem seus gametas (ovócitos) ricos em reservas nutritivas (vitelo) para a bolsa de incubação dos machos, onde ocorre a fertilização pelos gametas masculinos.

Os cavalos-marinhos machos apresentam uma produção muito reduzida de gametas

Nos machos dessas espécies há uma produção muito reduzida de gametas – apenas cerca de 150 células por testículo, o menor valor conhecido entre os peixes. A reduzida competição espermática nessas espécies talvez esteja associada com esse processo, que talvez seja uma adaptação para evitar a fecundação dos ovócitos por mais de um espermatozoide.

Após a fertilização, os zigotos se implantam rapidamente e ocorrem diferenciações e adaptações fisiológicas e morfológicas nos tecidos masculinos associadas com o desenvolvimento embrionário. Há um aumento da vascularização nos locais de implantação embrionária. Também é observada a ocorrência de alterações relacionadas com a osmorregulação, a aeração, a nutrição e a proteção imune dos embriões em desenvolvimento.

Cavalo-marinho grávido
 
Cavalo-marinho grávido no Aquário de Nova York. O período de gestação dos signatídeos pode ir de 9 a 69 dias, dependendo da temperatura ambiental (foto: Jaro Nemcok).
 

Apesar de os embriões receberem um suprimento rico de energia de suas mães através do vitelo, acredita-se que os pais também contribuam com nutrientes durante a incubação. Além disso, pesquisas genéticas indicam que as lectinas C – um grupo de proteínas com atividade antibacteriana – são secretadas pelos machos para a proteção dos embriões antes que esses desenvolvam as suas próprias defesas imunes.

A gestação e depois

O período de gestação dos signatídeos possui uma enorme variação, podendo alcançar de 9 a 69 dias, dependendo da temperatura ambiental. Após a gestação, a pseudoplacenta dos machos é eliminada juntamente com os as formas jovens, que passam então a depender somente de si para o desenvolvimento futuro. Não há, portanto, entre os signatídeos qualquer forma de cuidado paternal (ou maternal) da prole.

A regulação hormonal da reprodução dos signatídeos depende da prolactina, um hormônio da hipófise que está relacionado com a osmorregulação, com o desenvolvimento, com as respostas imunes e com a reprodução nos vertebrados. Nos signatídeos, o bloqueio da síntese de prolactina causa abortos e a eliminação dos tecidos associados com a reprodução.

Bolsa de incubação do cavalo-marinho

O esquema indica a localização e a estrutura interna da bolsa de incubação de um cavalo-marinho macho antes e durante o desenvolvimento embrionário (adapatado de Stolting e Wilson, 2007).

A testosterona e outros hormônios esteroides masculinos regulam o início da incubação nos signatídeos. Os esteroides femininos, como o estradiol e a progesterona, por sua vez, também controlam o desenvolvimento embrionário nessas espécies de peixes. Contudo, são necessárias pesquisas para verificar como se comportam os níveis desses hormônios durante a incubação masculina.

Os peixes do grupo dos cavalos-marinhos são modelos interessantes para pesquisas sobre reprodução

Diversas espécies de signatídeos podem ser cultivadas em laboratório com certa facilidade. Por terem tempos de geração curtos (3-12 meses), elevada fecundidade (de 50 a 2 mil filhotes por ninhada) e um genoma haploide pequeno (de 500 milhões a um bilhão de bases nitrogenadas), os cavalos-marinhos e outras espécies de seu grupo podem ser considerados modelos interessantes para pesquisas futuras que poderão esclarecer como ocorre a reprodução do ponto de vista morfológico, fisiológico e genético.

O estudo desses animais pode gerar dados essenciais para a compreensão desse processo em nossa própria espécie. Além disso, esses simpáticos peixes oferecem uma oportunidade para que possamos investigar o processo de seleção sexual e compreender melhor o papel masculino na reprodução.
Jerry Carvalho Borges
Departamento de Medicina Veterinária
Universidade Federal de Lavras

Sugestões para leitura
Dzyuba,B., Van Look,K.J., Cliffe,A., Koldewey,H.J., and Holt,W.V. (2006). Effect of parental age and associated size on fecundity, growth and survival in the yellow seahorse Hippocampus kuda. J. Exp. Biol. 209, 3055-3061.
Jones,A.G., Moore,G.I., Kvarnemo,C., Walker,D., and Avise,J.C. (2003). Sympatric speciation as a consequence of male pregnancy in seahorses. Proc. Natl. Acad. Sci. U. S. A 100, 6598-6603.
Ripley,J.L. and Foran,C.M. (2006). Differential parental nutrient allocation in two congeneric pipefish species (Syngnathidae: Syngnathus spp.). J. Exp. Biol. 209, 1112-1121.
Rothchild,I. (2003). The yolkless egg and the evolution of eutherian viviparity. Biol. Reprod. 68, 337-357.
Soares,M.J., Konno,T., and Alam,S.M. (2007). The prolactin family: effectors of pregnancy-dependent adaptations. Trends Endocrinol. Metab 18, 114-121.
Stolting,K.N. and Wilson,A.B. (2007). Male pregnancy in seahorses and pipefish: beyond the mammalian model. Bioessays 29, 884-896.
Van Look,K.J., Dzyuba,B., Cliffe,A., Koldewey,H.J., and Holt,W.V. (2007). Dimorphic sperm and the unlikely route to fertilisation in the yellow seahorse. J. Exp. Biol. 210, 432-437.

Fonte: Instituto Ciência Hoje – http://cienciahoje.uol.com.br

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Ascensão e queda do Império dos Automóveis

Os recentes aumentos no preço do petróleo colocam em xeque todo um modelo de urbanismo desenvolvido nos Estados Unidos no qual o automóvel se tornou um meio de transporte indispensável

Eduardo Araia

Damian Dovarganes/AP

No início do ano passado, o barril de petróleo custava US$ 70. Este ano, o preço já andou acima dos US$ 147 e, embora tenha caído em meados de agosto para cerca de US$ 113, seu comportamento futuro Nvirou uma grande incógnita. O óleo mais caro traz uma série de conseqüências, algumas delas facilmente perceptíveis: aumentos nos preços dos combustíveis, dos alimentos (a partir dos acréscimos nos custos de fertilizantes), dos transportes… Outras, porém, ficam mais claras apenas com o passar do tempo, e seu efeito em geral é bem mais duradouro. Uma delas se relaciona a toda uma forma de ocupação urbana criada nos Estados Unidos e exportada para países da Ásia e da América Latina, Brasil incluído.

Na primeira metade do século 20, a área de Los Angeles passou por uma transformação vigorosa, graças sobretudo a dois fatores: um grande aumento na produção automobilística - escoada a preços acessíveis para a classe média - e os baixíssimos custos do petróleo na época. Isso permitiu que os moradores da região (sujeita a terremotos, é bom lembrar) optassem por moradias baixas e amplas, em vez de se adensar em prédios residenciais, como ocorria em cidades como Nova York ou Chicago. Assim, a metrópole se esparramou por uma sucessão de municípios, cujas fronteiras se diluíam numa paisagem tomada por subúrbios. Para ligá-los, uma impressionante rede de estradas (as freeways) começou a ser construída nos anos 1940. O fim do sistema de bondes local fez do automóvel o meio de transporte por excelência da região - uma autêntica "Autopia", como definiu o crítico de arquitetura britânico Reyner Banham em 1971.

Com isso, percorrer distâncias enormes diariamente passou a ser rotina na região metropolitana de Los Angeles - sem, a princípio, incomodar os motoristas. Afinal, qual seria o problema de rodar 100 quilômetros para trabalhar, se a estrada é impecável e a gasolina custa quase nada? O único incômodo parecia ser o número cada vez maior de carros nas estradas, combatido por novas freeways. Preocupação com as emissões de poluentes? Em princípio, nenhuma.

Em nenhum outro lugar dos EUA a Autopia ficou tão evidente, mas o modelo foi adaptado a partir dos anos 1950 para outras regiões com grandes espaços disponíveis. Assim, multiplicaramse país afora os subúrbios/condomínios de classe média/alta e os shopping centers à beira de estradas. Em meio a tudo isso, o automóvel reinava, supremo. "Há um sonho americano de mobilidade, liberdade e riqueza, e o carro é parte disso tudo", disse o professor Michael Dear, especialista em urbanismo da Universidade do Sul da Califórnia, ao jornal inglês The Observer.

Shutterstock

Aliado à crise de crédito que abalou o mercado imobiliário norte-americano, o aumento no preço dos combustíveis tornou desinteressante morar em condomínios distantes do trabalho, do estudo e do lazer. Um cenário comum nos últimos meses no país é o das casas de subúrbio cujas hipotecas foram executadas.

O MODELO É CLARAMENTE insustentável, e a disparada nos preços do petróleo deixou nítido seu calcanhar-deaquiles. Com a gasolina e o diesel nas alturas, os americanos passaram a refletir melhor sobre a destinação de seus gastos. Um dos primeiros efeitos foi a redução do uso do automóvel. Em março, segundo a Federal Highway Administration, os americanos reduziram em 4,3% o número de milhas percorridas no mesmo período de 2007 - a maior queda mensal desde que a instituição começou a fazer seus registros, em 1942. Por outro lado, houve um sensível incremento do transporte coletivo. Em Riverside, na região metropolitana de Los Angeles, o movimento dos ônibus aumentou 12% de um ano para cá (40% no que se refere a veículos que percorrem rotas relacionadas ao trabalho dos usuários); o sistema de caronas ganhou 40% a mais de passageiros e o trem metropolitano, 8%. O número de usuários do sistema ferroviário do sul da Flórida subiu 28%, e na Filadélfia, 11%.

PRIMAZIA DO AUTOMÓVEL

O modelo de urbanização que privilegia os automóveis surgiu nos anos 1950 com o subúrbio de Levittown, em Long Island (no estado de Nova York). A partir daí, as cidades americanas ganharam subúrbios cujas residências estavam a quilômetros dos locais de trabalho e estudo, das lojas e dos pontos de entretenimento. Nessas condições, quem não tem carro à sua disposição fica muito isolado. O esquema fez os centros históricos de cidades mais antigas se degradarem, com perda de funções econômicas e ocupação basicamente feita por grupos de poder aquisitivo menor (que, dessa maneira, economizam em transporte).

OPÇÕES MAIS ECONÔMICAS

A crise do petróleo tem batido forte nas montadoras americanas, cujas vendas estavam baseadas nos beberrões utilitários esportivos e picapes. Além da GM, a Ford também vive momentos delicados: só no segundo trimestre de 2008, acumulou perdas de US$ 8,7 bilhões. Para se adequarem aos novos tempos, as fábricas passaram a apostar em veículos menores e/ou mais econômicos. Seguindo a trilha aberta pelos híbridos Toyota Prius (19 quilômetros com um litro de gasolina) e Honda Insight (20 km/l), a GM pretende lançar em 2010 o Chevy Volt (63 km/l). No mesmo ano, a Ford deverá ressuscitar o Escort, cuja versão híbrida deverá fazer 42,5 km/l.

CONDOMÍNIOS URBANOS

O modelo norte-americano de condomínio trazido para o Brasil (exemplificado em Alphaville, perto de São Paulo) já tem concorrência aqui - dirigida, por ora, apenas à classe alta. São os condomínios mixed use ("uso misto"), que juntam na mesma área prédios residenciais, comerciais e um shopping center, permitindo morar, trabalhar, divertir-se e fazer compras em segurança. Na esteira de cidades como Nova York (Time Warner Center) e Kuala Lumpur (Petronas Towers e Kuala Lumpur City Center), São Paulo já tem dois: o Parque Cidade Jardim, interligado ao shopping Cidade Jardim, e o Parque Villa-Lobos, interligado ao Shopping Villa-Lobos.

Enquanto isso, as vendas de automóveis chegaram ao seu nível mais baixo desde 1993. Na última semana de junho, as montadoras americanas informaram uma queda de 18% no comércio de veículos. À frente desse desastre estão, naturalmente, os grandes utilitários esportivos e as picapes, contumazes consumidores de combustível. Só a General Motors já interrompeu a montagem desses veículos em quatro de suas fábricas.

Enquanto carros mais econômicos não chegam ao mercado, os americanos tentam adaptar- se aos novos tempos. Como muitos locais não têm um sistema de transporte coletivo confiável, o jeito é passar mais tempo em casa. Hábitos arraigados, como desprezar caronas e ir com freqüência a shopping centers, estão sendo revistos.

Construídos com base no conceito do transporte individual fácil e distantes do trabalho, das escolas, das lojas e de opções de entretenimento, os subúrbios viraram verdadeiras armadilhas nos tempos do combustível caro. Em artigo publicado na revista Atlantic Monthly no início do ano, o especialista em urbanismo Christopher Leinberger escreveu, que, no futuro, eles se tornarão favelas dominadas pelo crime, enquanto os centros das cidades serão revitalizados. (Segundo uma recente pesquisa com corretores imobiliários, atualmente mais de 75% dos candidatos a comprar uma residência demonstram interesse em viver em áreas urbanas.) Em alguns lugares, isso parece estar mesmo a caminho: enquanto dezenas de milhares de casas estão sendo deixadas por moradores vitimados pela crise imobiliária, muitas regiões já mostram aumento nos índices de criminalidade e de violência associada a gangues. Por outro lado, a oportunidade comercial de atender às necessidades desses habitantes e o barateamento do preço dos imóveis podem atrair empreendedores para os subúrbios, o que lhes daria progressivamente características de pequenas cidades.

O PETRÓLEO CARO não afetou apenas os automóveis. Com a elevação de custos, as empresas aéreas americanas reduziram freqüências e desistiram de determinadas rotas. Quem mais perde com isso são as cidadezinhas da parte central do país, cuja economia encolhe ainda mais à medida que os agricultores não conseguem abastecer os veículos para cuidar de suas lavouras. Os altos preços dos fertilizantes levaram alguns fazendeiros mais abastados a reabilitar os cavalos para desempenhar determinadas tarefas antes a cargo de máquinas agrícolas.

O panorama parece desolador para muitos, mas há quem o veja de forma positiva. Alguns ecologistas observam que as economias locais tendem a explorar mais as possibilidades de produção da vizinhança, em vez de mandar buscar artigos a milhares de quilômetros dali. "A distância agora é uma inimiga", assinalou ao The Observer o ex-repórter e ambientalista Bill McKibben, autor do clássico O fim da natureza (publicado em 1990 no Brasil pela Nova Fronteira).

Mas, enquanto é refreado nos EUA, o processo parece estar bem vivo em outros países. Em visita recente à China, McKibben viu lá diversas reproduções orientais dessas mazelas urbanísticas americanas. "Uma questãochave para a Terra é se os chineses ainda terão tempo para construir, em vez disso, uma versão da Europa - o aquecimento global provavelmente vai depender da resposta a essa pergunta", avalia o ambientalista.

Fonte: Revista Planeta – http://www.terra.com.br/revistaplaneta/

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Maior coleção de arte otomana da Alemanha é reaberta em Dresden

Preciosidades da Câmara Turca

Preciosidades da Câmara Turca

Carlos Albuquerque

Após décadas de restauração, a Camara Turca, a principal e mais completa coleção de arte otomana da Alemanha, ganha espaço de exposição permanente no Residenzschloss, palácio em Dresden.

Graças ao gosto pela moda, à paixão pelas coleções e ao esforço em representar o poder absolutista, os soberanos aficionados da Saxônia conseguiram montar, entre os séculos 16 e 19, uma espécie de câmara de preciosidades da arte oriental – a Câmara Turca (Türckische Cammer).

Em 1942 foi a última vez que o acervo de aproximadamente 600 objetos que revelam a fascinação do Oriente foram expostos em conjunto. A coleção, denominada Câmara Turca desde 1614, ocupava um espaço próprio dentro da ala de armaduras. Faltava-lhe, no entanto, uma representação museal atraente.

Após uma interrupção de quase 70 anos, a mais completa e mais importante coleção de arte otomana da Alemanha ganha, a partir deste domingo (07/03), um espaço de exposição permanente no Residenzschloss, palácio de Dresden que abriga vários museus e coleções de renome internacional.

A cerimônia de abertura será realizada neste sábado na presença dos ministros das Relações Exteriores da Alemanha, Guido Westerwelle, e da Turquia, Ahmet Davutoglu. O comparecimento do ministro turco demonstra que a importância da coleção é reconhecida não só na Alemanha.

Armas decoradas com pedras precisosas fazem parte da coleção

Armas decoradas com pedras precisosas fazem parte da coleção

Azul noturno e seda avermelhada

Em um espaço de 750 metros quadrados, estão expostos objetos como vestimentas, armas ornamentadas com pedras preciosas, peças decorativas para montaria, tecidos valiosos e tendas otomanas.

Segundo os acervos estatais de arte de Dresden (SKD), órgão que administra as coleções do Residenzschloss, os objetos não são "anônimos". A história da maior parte das peças foi pesquisada e agora pode ser transmitida ao público. Por trás do novo espaço de exposição estão décadas de trabalho de restauração e pesquisa, informou o SKD.

Contrastando com o azul noturno e a seda avermelhada das paredes e vitrines, os objetos estão expostos em um jogo de luz e penumbra. A apresentação foi concebida pelo curador Holger Schuckelt e executada por Peter Kulka, um dos mais renomados arquitetos alemães.

Soberano trouxe tenda otomana para Dresden

Soberano trouxe tenda otomana para Dresden

Augusto, o Forte

Os soberanos da Saxônia conseguiram manter a coleção durante séculos. Os seus soldados também estiveram ao seu lado nos conflitos sangrentos com o Império Otomano, como no cerco dos turcos a Viena. Dessa forma, os espólios de guerra chegaram à Saxônia.

Mas, para espanto geral, logo se desenvolveu uma fascinação pelo Oriente. Dessa forma, os mandatários saxões passaram a receber valiosos presentes diplomáticos de sultões e soberanos tártaros.

Além disso, propagou-se também a chamada "Moda Turca", à qual aderiram muitos soberanos, inclusive Augusto, o Forte (1670 - 1733). Ele realizou várias festas com utensílios otomanos, adquiridos diretamente em Istambul ou reproduzidos em oficinas europeias.

O maior e mais espetacular objeto da exposição é uma tenda otomana do século 17, com 20 metros de comprimento, 8 metros de largura e 6 metros de altura. Com aplicações em seda e couro folheado a ouro, a tenda foi trazida para Dresden por Augusto, o Forte, em 1729.

Jogo de luz e penumbra destaca estátuas equestres

Jogo de luz e penumbra destaca estátuas equestres

"Corredor cultural"

"A Câmara Turca é um novo destaque nas coleções históricas da Saxônia. Mundialmente, não há nada que se compare", afirmou a secretária de Cultura do estado alemão, na apresentação oficial da coleção, na última segunda-feira. Segundo a secretária, a Câmara representa o espírito aberto da Saxônia.

O diretor-geral dos acervos estatais de arte de Dresden, Martin Roth, denominou a Câmara Turca um "corredor cultural" através do qual muitos alemães de ascendência estrangeira, desde Berlim até o Vale do Ruhr, poderão achar o caminho de Dresden.

Revisão: Simone Lopes

Fonte: Dw-World – http://www.dw-world.de

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Lutero, Erasmo e a reconciliação dos cristãos

Voltaire Schilling

Religião e Dinheiro misturados, em qualquer lugar ou época, sempre inspiraram suspeita ou provocaram confusão. E não sem motivo, pois a Religião associa-se às coisas do espirito, à fé e à pureza, enquanto que o sonante é emparelhado ao mundo da materialidade, da avareza e da corrupção. Jesus Cristo, como é sabido, desconfiava da presença das moedas nos campos da fé. Ainda quando ele aconselhou a um jovem abastado a desfazer-se dos bens em favor dos pobres, mesmo assim acreditava ser mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico alcançar o Reino de Deus (Mateus, 19). Para ele, quem tinha muito dinheiro era irrecuperável.

Cristo e Lutero

Lutero na Dieta de Worms, enfrenta o imperador Carlos V(1521)

O Galileu redobrou sua posição em manter a fé longe do mundo argentário quando, num célebre episódio, expulsou os comerciantes que mercadejavam nas cercanias do Templo em Jerusalém e, em seguida, em resposta a uns fariseus e herodianos que lhe inquiram sobre a legitimidade dos imposto exigido pelos romanos, ao mostrar-lhes um denário com a face do imperador, conclamou-os, afastando-o de si, que o devolvessem: “a César o que é de César, e o que é de Deus, a Deus” (Mateus,22).
Martim Lutero, quinze séculos depois, de certo modo, seguiu-lhe nos ensinamentos. O rude monge alemão que se tornara doutor em teologia, mais de mil e quinhentos anos depois desses episódios relatados no Novo Testamento, não vira mal nenhum em rejeitar veementemente a comercialização de indulgências que estava sendo praticada por quase toda a Alemanha com a autorização papal. Quando o padre Tetzel, um representante do arcebispo Albert de Brandeburgo e do Banco Fugger, aproximou-se das propriedades de Frederico o sábio, o príncipe-eleitor da Saxônia e suserano do doutor, visando o escuso e nefando negócio de perdoar os pecados em troca de dinheiro, Lutero foi a luta. Sentiu-se no papel de Cristo empunhando um cajado contra os vendilhões do Templo, no caso Tetzel e a quem representava.
Ao afixar no dia 31 de outubro de 1517, nas portas da igreja do Castelo de Wittemberg, em Augsburg, suas “95 teses” atacando a Igreja Romana, o monge alemão provocou o maior cisma na história da Cristandade Ocidental. O argumento central de Lutero, de raiz paulina, era simplíssimo. Ninguém estava autorizado na Terra, nem padre nem papa, a salvar fosse quem fosse. A salvação era um atributo exclusivo de Deus. Nem mesmo as boas ações adiantavam. Sequer gordas esmolas ou confissões arrependidas. Como poderia o Onipotente, policiando um universo infinito, levar em conta os gestos de caridade ou sincera constrição de um ou outro dos crentes? Logo, traficar perdão em nome de Deus era, no mínimo, obsceno.

Erasmo sugere a reconciliação

Desiderius Erasmus em 1523

O Papado, porém, reagiu a Lutero como faria um chefe de corporação ofendido em seus privilégios. Em 1520, Leão X, um descendente dos Medici (um glutão, de quem Voltaire disse “ter Deus no estômago…e o dinheiro extorquido das indulgências nos seus cofres e nos da sua irmã”), expediu uma bula excomungando-o. Foi o início do desastre para a unidade cristã. Ao ter a Cúria permitido, ao longo dos séculos, que a Igreja-estado mantivesse ligações incestuosas com o Dinheiro, fez por contribuir para que parte considerável da sua imensa construção medieval, estocada por Lutero, ruísse para nunca mais se compor.
Erasmo de Rotterdam, o grande humanista que se antecipara a Lutero em suas críticas ao Papado (*), ainda tentou uma apaziguação entre as partes cada vez mais hostis apostando numa reforma do clero pela brandura, aconselhando Roma a que não levantasse o báculo em guerra contra Lutero. Aquela altura porém, por detrás do monge doutor vibrava indignada uma Alemanha quase que inteira em pé de guerra, furiosa contra o Pontífice de Roma. Nos decênios seguintes à insubmissão de Lutero, protestantes e católicos ensangüentaram a Europa com suas guerras a pretexto da fé.
Todavia, mais recentemente, aproveitando-se do clima geral de concórdia existente na Cristandade por ocasião da passagem do Jubileu de Cristo, Católicos e Luteranos, após cinco séculos de turras e troca de desaforos, decidiram reconciliar-se assinando na mesma Augsburg, o epicentro da vulcânica reforma de 1517, a Declaração Conjunta Sobre a Doutrina da Justificação, harmonizando suas concepções sobre a Salvação, uma das causas teológicas de toda a discórdia anterior. É uma homenagem tardia a Erasmo. Porque não o ouviram então?

(*) “O povo corre para as igrejas como a um teatro para divertir-se. Então é preciso levantar-se dinheiro para o grande tributo do órgão, por manter multidão de meninos…Neste meio tempo nada de bom é ensinado.”
Erasmo – “..ad veram Theologiam”, 1519

Fonte: Terra Educação / Voltaire Schilling – http://educaterra.terra.com.br/voltaire/

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Brasil supera Canadá e se torna o terceiro maior exportador agrícola

País já havia deixado Austrália e China para trás, e agora só tem pela frente os Estados Unidos e a União Europeia

Raquel Landim

O Brasil ultrapassou o Canadá e se tornou o terceiro maior exportador de produtos agrícolas do mundo. Na última década, o País já havia deixado para trás Austrália e China. Hoje, apenas Estados Unidos e União Europeia vendem mais alimentos no planeta que os agricultores e pecuaristas brasileiros.
Dados da Organização Mundial de Comércio (OMC), divulgados este ano, apontam que o Brasil exportou US$ 61,4 bilhões em produtos agropecuários em 2008, comparado com US$ 54 bilhões do Canadá. Em 2007, os canadenses mantinham estreita vantagem, com vendas de US$ 48,7 bilhões, ante US$ 48,3 bilhões do Brasil.
O ritmo de crescimento da produção brasileira de alimentos já deixava claro que a virada estava prestes a ocorrer. Entre 2000 e 2008, as exportações agrícolas do Brasil cresceram 18,6%, em média, por ano, acima dos 6,3% do Canadá, 6% da Austrália, 8,4% dos Estados Unidos e 11,4% da União Europeia. Em 2000, o País ocupava o sexto lugar no ranking dos exportadores agrícolas.
Uma série de fatores garantiu o avanço da agricultura brasileira nos últimos anos: recursos naturais (solo, água e luz) abundantes, diversidade de produtos, um câmbio relativamente favorável até 2006 (depois a valorização do real prejudicou a rentabilidade), o aumento da demanda dos países asiáticos e o crescimento da produtividade das lavouras.
"Houve uma mudança nas vantagens comparativas em favor do Brasil, que teve um custo de produção baixo para vários produtos nesse período graças aos seus recursos naturais e ao câmbio", disse o analista sênior da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Garry Smith.
Para o sócio-diretor da MB Agro, Alexandre Mendonça de Barros, "o Brasil é hoje a única grande agricultura tropical do planeta". Ele ressalta que o aproveitamento da terra é melhor na zona tropical. Em algumas regiões do Brasil, é possível plantar milho depois de colher soja, o que significa duas safras no mesmo ano.
Apesar disso, 80% da produção de grãos ainda estão em áreas temperadas. Canadá, EUA e UE detêm a tecnologia, mas não conseguem ampliar sua agricultura, porque quase não têm áreas novas disponíveis e enfrentam muita dificuldade para convencer as pessoas a permanecer no campo.
Graças às pesquisas da Embrapa, o aumento da produtividade teve um papel fundamental no crescimento da produção agrícola brasileira. Entre 1990 e 2009, a área plantada de grãos no País subiu 1,7% ao ano, mas a produção cresceu 4,7%. "Tivemos uma forte expansão da produtividade e um aumento da área plantada entre 2000 e 2005", disse o diretor do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), André Nassar.
Segundo o sócio-diretor da Agroconsult, André Pessoa, a expansão da safra de soja e o aumento da produção de carnes foram os principais responsáveis pelo avanço recente do Brasil na exportação agrícola. No complexo soja (grão, farelo e óleo), as exportações mais do que quadruplicaram, saindo de US$ 4,2 bilhões em 2000 para US$ 17,2 bilhões em 2009. As vendas de carne bovina subiram de US$ 813 milhões para US$ 4,2 bilhões no período, e as de carne de frango, de US$ 735 milhões para US$ 5,8 bilhões.
"Saímos de uma posição insignificante para nos tornarmos maior exportador do mundo de carne bovina e de frango", disse o presidente da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frango, Francisco Turra, que era ministro da Agricultura em 1998, quando o Brasil conseguiu a certificação da Organização Internacional de Sanidade Animal (OIE) e pôde começar a exportar.
Nos produtos tradicionais, como café, suco de laranja e açúcar, o País manteve a liderança. A participação brasileira no mercado de café oscilou entre 29% e 33% nos últimos 10 anos, apesar do avanço do Vietnã. "O Brasil é líder na exportação mundial de café desde 1860", diz o diretor executivo do Conselho dos Exportadores de Café (Cecafé), Guilherme Braga.
No suco de laranja, o País é responsável por 80% das exportações mundiais ? a maior fatia de um produto agrícola brasileiro. Dificilmente ganhará mais espaço, mas a concorrência também não está crescendo. É um setor muito consolidado, com apenas quatro empresas. "O suco é um exemplo do que vai ocorrer com a agricultura em outras áreas."
O Brasil já ocupa o primeiro lugar no ranking de exportação em vários produtos agrícolas ? açúcar, carne bovina, carne de frango, café, suco de laranja, tabaco e álcool. Também é vice-líder em soja e milho e está na quarta posição na carne suína.
O País, no entanto, ainda está distante de ser o maior exportador de alimentos do mundo. Os EUA e a UE exportaram mais que o dobro do Brasil. Em 2008, os americanos venderam quase US$ 140 bilhões em produtos agrícolas, e os europeus embarcaram US$ 128 bilhões.
"Para superar esses países, temos de fazer um gigantesca lição de casa", disse o ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues. "O Brasil precisa de uma estratégia agrícola que englobe várias áreas do governo."
Os especialistas não arriscam prever quando ou se o Brasil vai alcançar a liderança, mas dizem que o potencial ainda é significativo, principalmente para carnes, milho e álcool. O País ainda não vende carne a alguns países por restrições sanitárias. No etanol, a exportação deve aumentar muito quando o mercado se consolidar.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br

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O violão camaleônico de Almeida Prado

MARIA ALICE DA CRUZ

O compositor Almeida Prado: “Eu costumo dar liberdade para os pesquisadores de minhas obras” (Fotos: Antoninho Perri) Manuscritos de Kha­mailéon (Camaleão), primeira obra para violão de José Antonio Rezende de Almeida Prado, compositor brasileiro e professor aposentado da Unicamp, foram recuperados e revisados pelo violonista e pesquisador Fabio Scarduelli. O resultado da revisão possibilita a primeira execução da obra, que foi escrita em 1970, quando o compositor realizava seus estudos com Olivier Messiaen (1908-1992), em Paris. A peça é de grande complexidade, segundo Scarduelli, e exige que o solista esteja muito bem preparado para executá-la.

O pesquisador tira Khamailéon de um esquecimento de quase 39 anos. O próximo passo, depois da análise interpretativa realizada durante o doutorado no Instituto de Artes (IA) da Unicamp, orientado por Carlos Fiorini, é organizar o concerto de estreia.

Classificada por Scarduelli como uma obra de vanguarda, Khamailéon recebeu este nome pelo fato de o violão imitar os sons lançados pela orquestra, assim como um camaleão imita as cores na natureza. “A orquestra é o meio ambiente, e o violão, o camaleão, que repete tudo o que ela faz”, explica o musicista.

O violonista Fabio Scarduelli, autor da tese: “Trata-se de uma obra germinal” (Fotos: Antoninho Perri) Almeida Prado começa a compor obras de vanguarda quando rompe com Camargo Guarnieri (1907-1993), uma de suas principais influências no início da carreira. Neste momento, explora mais a música serial, inspirado em vários acontecimentos na Europa de 1970. Mais tarde, numa síntese de suas influências, entra na fase pós-moderna, que envolve movimentos diversificados de sua trajetória.

Há poucas obras no Brasil para violão e grande orquestra. Num levantamento de obras concertantes para violão presente na tese de doutorado de Scarduelli foram encontradas apenas 15 composições brasileiras. Dentre elas há obras de Radamés Gnatalli (1906-1988), Villa-Lobos (1887-1959), Ernst Mahle, todas marcadas pelo nacionalismo.

Dentro da grande produção de Almeida Prado, Khamailéon é um laboratório. “Foi uma obra germinal. Ao fazer análises, constato que ela influenciou muitas obras subsequentes. Muitos elementos que encontrei em Khamailéon se desenvolvem em obras posteriores do mesmo autor”, revela Scarduelli.

O compositor Almeida Prado: “Eu costumo dar liberdade para os pesquisadores de minhas obras” (Fotos: Antoninho Perri) “Khamailéon faz parte da fase “universal” (1965-1983) de Almeida Prado, marcada por uma linguagem que tende ao atonalismo, à liberdade formal, dentre outras características que nortearam o autor após seu rompimento com a estética guarnieriana”, explica Scarduelli. Ele ainda observa que a concepção deste estilo foi estabelecida em seus estudos com Gilberto Mendes, Olivier Messiaen e em sua vivência com as mais novas correntes da música europeia entre as décadas de 1960 e 1970 em Paris. Foi diante destas constatações, a partir de uma pesquisa detalhada, que o pesquisador concluiu que Khamailéon é a única obra concertante para violão de autor brasileiro escrita até o final da década de 1970 que não apresenta traços nacionalistas. Sendo assim, conclui o autor da tese, é a primeira obra de vanguarda no gênero.

A peça foi composta para o violonista espanhol Alberto Ponce, que lecionava, na época, no Conservatório de Paris (França). Porém, foi perdida em uma editora alemã e só foi resgatada há poucos anos pelo violonista brasileiro Fábio Shiro, que não se aventurou em revisá-la. “O violão só é chamado assim no Brasil – em outros países usa-se ‘guitarra’ – e como o título era Fantasia para Violão e Orquestra, ela se perdeu entre as obras de viola, em uma confusão causada pelo nome”, explica Scarduelli.

O compositor Almeida Prado: “Eu costumo dar liberdade para os pesquisadores de minhas obras” (Fotos: Antoninho Perri) A revisão foi essencialmente importante, pois, de acordo com Scarduelli, o manuscrito encontra-se numa espécie de rascunho e contém um número grande de pequenas inconsistências relacionadas, especialmente, à parte rítmica. “É uma obra inédita e complexa, além de ser a primeira peça do compositor para violão, exigindo assim que fossem feitas adequações para sua execução”, explica o pesquisador.

Além do trabalho de adequação da partitura, Scarduelli faz sugestões de interpretação para Khamailéon. Várias questões interpretativas são abordadas na tese, como diálogo entre os instrumentos, timbre, articulação e dinâmica.

De acordo com o autor, Almeida Prado ficou feliz em tornar viva a sonoridade de Khamailéon. A obra deverá causar impacto pela sonoridade e, principalmente, na história do violão brasileiro. “São poucos os novos concertos de autores brasileiros que permitem ao violonista solar com grande orquestra”, enfatiza o musicista.

O compositor Almeida Prado: “Eu costumo dar liberdade para os pesquisadores de minhas obras” (Fotos: Antoninho Perri) O resgate de manuscritos tornou-se mais numeroso pela criação de cursos de pós-graduação em música, nos quais os alunos buscam novas experiências e aprofundamento. “Há uma grande tendência neste sentido”. As ferramentas tecnológicas também, segundo Scarduelli, têm sido importantes nesse resgate. Mas agora fica a expectativa de ouvir a execução da obra. “Isso está sendo viabilizado”, conclui.

Compositor elogia pesquisa

A obra de Almeida Prado é tema de projetos de mestrado e doutorado no curso de música da Unicamp. O próprio Scarduelli dedicou sua dissertação de mestrado “Obra para violão solo de Almeida Prado”, realizada em 2007, aos aspectos interpretativos da obra do compositor, que não hesita em tecer elogios ao pesquisador: “Ele realizou um excelente e brilhante trabalho a partir de minha obra”. O que para ele, além de contribuir para a produção acadêmica, não deixa de ser uma homenagem.

Almeida alegra-se ao falar de mais uma dissertação sobre sua obra em andamento no Instituto de Artes da Unicamp, onde trabalhou por muitos anos. “Há mais uma pesquisa dedicada a uma obra de piano minha que deverá ser defendida este ano”, revela.

Ver uma obra complexa como Khamailéon, tanto tempo esquecida na Alemanha, depois da rejeição de Ponce, é motivo de prazer e felicidade, na opinião de Prado. “Dediquei a obra a Ponce, que não quis tocar. Há muitas obras dedicadas que o instrumentista não toca. Não faço mais isso. Tocou bem, entrego a obra”, declara Prado.

Na opinião do compositor, Scarduelli realiza um trabalho importante para a música brasileira e principalmente para violonistas, pois além de ele mesmo poder tocar, também coloca a partitura à disposição de outros solistas. “Eu costumo dar liberdade para os pesquisadores de minhas obras, porque é o momento deles, é o doutoramento deles. Não pude acompanhar o projeto, mas estou na expectativa de ouvir a obra ainda este ano”, declara o compositor.

Na Unicamp, a revisão de partituras é tratada como música e não se restringe aos musicólogos, segundo Almeida Prado. A pesquisa permite aos musicistas resgatar manuscritos e torná-los executáveis, como fez Scarduelli.

Pianista, Prado tem sua musicografia constituída principalmente por concertos para piano, violino e violoncelo. O autor lembra também que compôs várias canções para canto. Khamailéon é uma das poucas peças dedicadas ao solo de violão. “Meu repertório para violão é pequeno. Minha especialidade é o piano, mas o Brasil tem autores maravilhosos como Villa-Lobos, Francis Hime, que mescla erudita com popular”, diz.

Manuscritos
Os manuscritos ainda fazem parte do dia-a-dia de Almeida Prado. Aos 68 anos, mesmo com tantos recursos eletrônicos, ele confessa gostar de escrever suas músicas à mão. “Anda não me rendi às novas formas de compor. Tem professores excelentes hoje em dia que utilizam bem esses recursos tecnológicos. Eu não quero mudar”, declara. Mesmo tendo se aposentado das atividades acadêmicas em 2000, na Unicamp, continua compondo e recebendo prêmios. O último deles foi concedido pela Academia Paulista de Críticos de Arte (APCA), em janeiro deste ano, na categoria música erudita, como “melhor obra experimental”.

Em 2007, estreou no Carnegie Hall a sua peça “Hiléia, Um Mural da Amazônia”, uma cantata para baixo e orquestra, inspirada em poema homônimo de Ives Gandra Martins, com a “Orquestra Bachiana Filarmônica” de São Paulo, regida pelo maestro brasileiro João Carlos Martins. Atualmente ministra alguns cursos de análise musical e cursos sobre sua obra, em São Paulo, além de apresentar um programa de música contemporânea na rádio Cultura FM chamado Kaleidoscópio.

Acervo
Entre as várias pesquisas da Unicamp dedicadas à obra de Almeida Prado, está o trabalho de iniciação científica de Cristiano Mello, realizado em 2002, que culminou na catalogação do acervo do compositor localizado no Centro de Documentação de Música Contemporânea Brasil/Unicamp (CDMC). O acervo se constitui de partituras originais, cópias, edições, gravações, fotos, programas de concerto, cartas e artigos de jornais e revistas. Foram catalogadas 587 partituras, além de teses e dissertações defendidas. Durante o projeto, Mello preparou algumas partituras do artista para difusão na mídia digital.

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/

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O que fazem os impérios?

Michael Parenti

Cartoon de Latuff. Quando em 1995 escrevi o livro Against Empire alguns dos meus compatriotas estado-unidenses, tal como seria de esperar, consideraram que era um erro chamar os Estados Unidos de império. Acreditava-se generalizadamente que os governantes dos EUA não buscavam o império; intervenham lá foram só como auto-defesa ou para operações de resgate humanitário ou para derrubar a tirania, combater o terrorismo e difundir a democracia.
Mas por alturas do ano 2000 toda a gente começou a falar dos Estados Unidos como um império e a escrever livros com títulos como Sorrows of Empire, Follies of Empire, Twilight of Empire, ou Empire of Illusions – todos referindo-se aos Estados Unidos quando falam de império.
Mesmo conservadores começaram a utilizar a palavra. Admirável. Podia-se ouvir sabichões da extrema-direita a anunciaram na televisão estado-unidense: "Somos um império, com todas as responsabilidades e oportunidades do império e é melhor acostumar-nos a isso", e "Somos o país mais forte do mundo e temos todo o direito a actuar como tal" – como se ter o poder desse aos líderes dos EUA um direito inerente a exercitá-lo sobre outros como quisessem.
"O que está a acontecer?", perguntei-me na altura. Como é que tantas pessoas sentem-se livres para conversarem acerca de império querendo dizer que os Estados Unidos são um império? A ortodoxia ideológica sempre foi que, ao contrário de outros países, os EUA não se entregavam à colonização e à conquista.
A resposta, percebi, é que a palavra havia sido despida do seu pleno significado. "Império" parecia agora significar apenas domínio e controle. O império – para a maior parte destes críticos de fresca data – preocupa-se quase exclusivamente com poder e prestígio. O que está habitualmente a faltar deste discurso público é o processo do império e o seu conteúdo político-militar. Por outras palavras, enquanto ouvimos um bocado acerca do império, ouvimos muito pouco acerca do imperialismo.
Mas isto é estranho, pois imperialismo e o que os impérios exercem. Imperialismo é o que o império faz. E por imperialismo não quero dizer o processo de estender poder e domínio sem considerar interesses materiais e financeiros. Na verdade "imperialismo" tem sido utilizado por alguns autores do mesmo modo oco com que utilizam a palavra "império", simplesmente para assinalar domínio e controle dando pouco atenção às realidades político-económicas.
Mas eu defino imperialismo como se segue: o processo pelo qual os interesses dos investidores dominantes num país fazem valer o seu poder económico e militar sobre outro país ou região a fim de expropriar a sua terra, trabalho, recursos naturais, capital e mercados de modo a enriquecer os interesses investidores. Numa palavra, impérios não buscam apenas "poder pelo objectivo do poder". Há interesses materiais reais e enormes em causa, fortunas a serem feitas muitas vezes repetidamente.
Assim, durante séculos os interesses dominantes da Europa Ocidental e depois da América do Norte e do Japão avançaram com os seus financeiros – e quando necessário os seus exércitos – para exigir direitos sobre a maior parte do planeta Terra, incluindo o trabalho de povos indígenas, seus mercados, seus rendimentos (através da tributação colonial ou controle da dívida ou outros meios) e os tesouros abundantes das suas terras: o seu ouro, prata, diamantes, cobre, rum, melaço, cânhamo, linho, ébano, madeira, açúcar, tabaco, marfim, ferro, estanho, níquel, carvão, algodão, milho e, mais recentemente: urânio, manganês, titânio, bauxita, petróleo e – digamos isto outro vez – petróleo. (ver em Hardly uma listagem completa)
Os império são enormemente lucrativos para os interesses económicos dominantes do país imperial mas enormemente custosos para o povo do país colonizado. Além de sofrerem a pilhagem das suas terras e recursos naturais, os povos destes países alvo são frequentemente morto em grande quantidade pelos intrusos.
Isto é outra coisa que os impérios fazem a qual muito frequentemente não é mencionada na literatura histórica e política de países como os Estados Unidos, Grã-Bretanha e França. Os impérios empobrecem populações inteiras e matam grandes quantidades de pessoas inocentes. Quando escrevo isto, o presidente Obama e o estado de segurança nacional para o qual ele trabalha estão a travar duas guerras e meia (Iraque, Afeganistão e norte do Paquistão) e a acenar ameaças militares contra o Iémen, o Irão e, num dia tranquilo, a Coreia do Norte. Ao invés de enviar ajuda médica e de resgate ao Haiti, o Nosso Bombardeiro envia-lhe os Fuzileiros Navais, os mesmos fuzileiros navais envolvidos em anos de assassínios em massa no Haiti décadas atrás e que apoiaram massacres mais recentes de forças por procuração.
O objectivo de toda esta matança é impedir países alternativos, independentes e auto-definidos de emergirem. De modo que o império utiliza o seu poder de estado para acumular riqueza privada para a sua classe de investidores. E utiliza a sua riqueza pública para sustentar o seu poder de estado e impedir outros países de se auto-desenvolverem.
Mas cedo ou mais tarde este esquema começa a enfraquecer sob o peso das suas próprias contradições. À medida que o império se torna mais ameaçados e mais assassino em relação a outros, ele se torna mais doentio e empobrecido dentro de si próprio.
Desde tempos antigos até os dias de hoje, os impérios sempre estiveram envolvidos na acumulação sangrenta de riqueza. Se não pensa que isto é verdadeiro em relação aos Estados Unidos então pare de chamá-lo "Império". E quando escrever um livro acerca de como ele dispõe as suas armas por todo o planeta, intitule-o "Tirano global" ("Global Bully") ou o "Mandão intrometido ("Bossy Busybody"), mas esteja certo de que não nos está a contar muito acerca de imperialismo.

[*] Obras de Michael Parenti e seu sítio web: www.michaelparenti.org .
O original encontra-se em http://www.countercurrents.org/parenti140210.htm

Fonte: Resitir – http://resistir.info/

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O novo cigarro

Para combater a queda nas vendas, a indústria do tabaco tenta desenvolver um fumo que faça menos mal à saúde - e apela para engenharia genética e tecnologias radicais, como a máquina de fumar e o cigarro eletrônico. Será que dá para confiar?

Bruno Garattoni

Fumar, todo mundo sabe, faz mal. E como: segundo a Organização Mundial da Saúde, o cigarro mata até 50% dos tabagistas. Por isso, cada vez menos gente fuma – no Brasil, a porcentagem caiu de 34% para 16% da população. Na maioria dos lugares públicos, não é permitido fumar. Nos EUA, a repressão é ainda mais forte: você não pode fumar num quarto de hotel nem dentro do carro, e até na rua está ficando mais difícil (é obrigatório manter uma distância de pelo menos 5 metros de qualquer porta). Em suma: no século 21, o fumo é execrado pela sociedade. Mas e se existisse um cigarro que não fedesse, não soltasse fumaça nem fosse perigoso para a saúde – ou que, pelo menos, não fizesse tão mal? Como 1 bilhão de pessoas no mundo ainda fumam, isso poderia salvar ou prolongar até 500 milhões de vidas (e isso sem contar as pessoas que sofrem os malefícios do fumo passivo). Será possível? Pouca gente sabe, mas já existem vários projetos científicos em busca de um “cigarro 2.0”. Mas como eles funcionam? O que a gigantesca indústria do tabaco, que fatura quase US$ 100 bilhões por ano só nos EUA, está fazendo para tentar sobreviver ao século 21? O que vai acontecer com o cigarro? E com os fumantes? Continue lendo a matéria e vamos descobrir.

Não é de hoje que a indústria do tabaco tenta desenvolver um cigarro menos prejudicial à saúde – ou pelo menos procura nos convencer disso. Os esforços começaram na década de 1950, com o lançamento dos primeiros cigarros com filtro, e a segunda onda veio nos anos 70, com os chamados “baixos teores”, ou seja, cigarros que contêm menos nicotina e alcatrão. Não adiantou nada: mesmo com filtro, o tabaco continua matando, e diversos estudos mostraram que os cigarros “light” fazem tanto mal, ou até mais, que os tradicionais. Mesmo que cada cigarro, em si, seja menos tóxico, o fumante acaba tragando mais, ou consumindo mais cigarros, para obter a mesma quantidade de nicotina (que é a substância viciante presente no tabaco).

A indústria do tabaco sabe disso há muito tempo – os primeiros relatos científicos dizendo que fumar faz mal foram publicados há quase 200 anos –, mas sempre preferiu mentir. Nos anos 60, chegou a veicular propagandas dizendo que determinada marca de cigarros era “a mais consumida pelos médicos”. Grotesco, não? E totalmente mentiroso. Como conseguia enganar as pessoas e manter estável o consumo de cigarros, a indústria do tabaco nunca precisou se mexer. Mas agora, finalmente, o cenário parece estar começando a mudar.

E por um motivo muito simples. Só no ano passado, as vendas da Philip Morris, que lidera o mercado de cigarros, caíram 24% nos EUA. Uma queda violenta, capaz de apavorar qualquer empresa. E relatórios produzidos por dois bancos multinacionais, a que a SUPER teve acesso, reforçam esse panorama. As gigantes do tabaco vêm tendo sérios problemas no mercado financeiro, onde suas ações estão “micando”. Ou seja: a rejeição generalizada ao cigarro, que você vê no seu dia-a-dia, começou a doer de verdade no bolso dos barões do fumo.

Até os médicos, que sempre se opuseram ao desenvolvimento de cigarros menos perigosos (pois, na opinião deles, isso poderia acabar atraindo novos fumantes ou desestimular as pessoas a largarem o vício), começam a aceitar a idéia. “Nós apoiamos os esforços para tornar o tabaco menos prejudicial à saúde”, afirma Tom Glynn, diretor da Sociedade Americana do Câncer. Se não é possível acabar com o fumo, faz todo o sentido tentar, pelo menos, salvar a vida de quem fuma. E há exemplos indicando que essa política de “redução de danos” pode funcionar : os países que começaram a distribuir seringas e agulhas descartáveis aos viciados em drogas viram cair o número de pessoas infectadas pelo vírus da aids.

Vários fatores estão contribuindo para reacender de vez a busca por um cigarro menos letal. O primeiro veio dos tribunais. Por incrível que pareça, a indústria do tabaco acaba de conseguir, em abril, uma enorme vitória na Justiça dos EUA. Ganhou um processo em que era acusada de enganar os fumantes sobre os verdadeiros riscos dos cigarros light e, com isso, se livrou de pagar uma multa de US$ 800 bilhões. Bilhões.

É uma soma inacreditável, quase tudo o que o Brasil inteiro produziu no ano passado, e seria um golpe quase mortal nas fabricantes de cigarros. Fora economizar toda essa grana, a vitória tem outro efeito. Interrompe a série de derrotas sofridas pela indústria do tabaco (a maior delas, nos anos 90, custou nada menos do que US$ 246 bilhões em indenizações), e gera um precedente jurídico que estimula o desenvolvimento de cigarros menos perigosos – pois as empresas, sem medo de processos, ficarão mais à vontade para usar seus avanços tecnológicos como argumento de marketing.

Um último motivo reforça todo esse interesse pelos cigarros menos tóxicos. Nos anos 90, a indústria chegou a desenvolver e testar, de forma clandestina, um tabaco que continha o dobro de nicotina. Só que, hoje, fazer isso seria ilegal – pois a quantidade de nicotina que cada cigarro pode ter é definida por lei (no máximo 1 miligrama). Então, resta aos cientistas empregados pela indústria do fumo fazer pesquisas sobre redução do câncer. E uma delas está dando o que falar.

Em abril, uma fabricante de cigarros publicou um estudo, feito com cientistas das Universidades do Kentucky e da Carolina do Norte, anunciando a criação de um tabaco geneticamente modificado que contém até 90% menos nitrosaminas – a mais perigosa, e cancerígena, classe de substâncias químicas presente no tabaco. Se for verdade, é um avanço notável: até então, o máximo que os cientistas haviam conseguido era reduzir em 20% as nitrosaminas. Mas a coisa não é tão simples. Por enquanto o novo supertabaco, que não tem data para chegar ao mercado, só foi testado in natura, ou seja, como plantinha. E a realidade é diferente.

Como veio ao mundo, a folha de tabaco tem cerca de 300 substâncias químicas – entre elas a nicotina e mais 16 compostos cancerígenos. Só que as empresas de cigarro colocam mais 600 aditivos: tem de tudo, de conservantes a aromatizantes (inclusive um que, veja só, é feito a partir de secreções genitais de castor), passando por coisas como hidróxido de amônia – que supostamente ajuda a liberar a nicotina contida no tabaco. E se a gente tirasse esses aditivos? Ficariam só a nicotina e os 16 cancerígenos naturalmente presentes no tabaco.

Nos EUA, existem várias empresas que vendem justamente isso: um fumo supostamente 100% orgânico, sem aditivos. Só que, na prática, ele é quase tão perigoso quanto o cigarro tradicional. E, segundo acreditam alguns cientistas, por um motivo inusitado. O fogo.

Fumo em transe

Quando o fumante acende um cigarro, detona um verdadeiro caos molecular. A 1 000 oC , que é a temperatura aproximada da brasa do cigarro, as 300 substâncias do tabaco se decompõem e se recombinam de forma descontrolada – e maligna. Resultado? Nada menos do que 4 700 compostos químicos, dos quais 60 são comprovadamente cancerígenos. Ou seja: mesmo se for possível, um dia, manipular tudo que existe dentro da planta de tabaco e eliminar o que dá câncer, não é possível controlar o que acontece quando ela pega fogo.

Não há estudos definitivos a respeito, mas alguns cientistas acreditam que tudo acontece devido à quebra de moléculas causada pela alta temperatura. Quando o cigarro queima, alguns átomos de oxigênio se soltam e se ligam a outras moléculas – tanto as naturais da planta de tabaco como também as dos aditivos colocados durante a fabricação do cigarro. E é isso que, supostamente, provoca a multiplicação de toxinas. Reduzindo a temperatura, seria possível inibir a formação das substâncias cancerígenas. Pelo menos, a idéia é essa.

As pesquisas começaram com o Eclipse, que foi criado pela multinacional Brown & Williamson nos anos 90. Era um cigarro de aspecto e funcionamento normais: você acendia (com isqueiro ou cigarro), punha na boca e tragava. A diferença é que, em vez de brasa, o Eclipse tinha um pedacinho de carvão quimicamente tratado, que só atingia 300 OC. O suficiente para fazer fumaça, mas apenas um terço da temperatura de combustão de um cigarro comum. Em teoria, isso reduz a atividade molecular durante a queima do tabaco – e diminui a quantidade de substâncias cancerígenas. O Eclipse chegou a ser lançado no mercado americano, mas foi um megafracasso e virou motivo de piada entre os fumantes, que odiaram o sabor do produto. Ainda bem. Pois, alguns anos mais tarde, um estudo mostrou que o carvão liberava suas próprias substâncias cancerígenas, ou seja, o novo produto não era nada seguro.

Entra em cena uma proposta ainda mais radical – a maquininha de fumar. O fumante introduz o cigarro num aparelho portátil, que se chama HeatBar, e dá a primeira tragada. Aí, o computador de bordo aciona uma resistência elétrica (como a de um chuveiro), que esquenta o tabaco a aproximadamente 300 graus, e a fumaça é liberada. Na prática, trata-se de um cigarro de “baixa temperatura”, como o Eclipse. Mas com uma grande novidade. O cigarro não fica aceso o tempo todo – depois que o fumante dá a tragada, a maquininha desliga automaticamente a resistência elétrica, e o cigarro pára de queimar. Com isso, pára de emitir fumaça. A conseqüência, segundo os inventores do HeatBar, é uma grande redução, de até 90%, no fumo passivo.

Na prática, essa tecnologia é uma tentativa de driblar as proibições de fumar em locais públicos. O aparelho já está à venda na Europa, mas por enquanto não fez muito sucesso. Talvez porque ele seja, pura e simplesmente, ridículo. A maquininha é grande, tem mais ou menos o tamanho de um charuto. E o HeatBar não pode ser considerado seguro: como o sistema inclui tabaco, o fumante continua ingerindo boa parte das substâncias cancerígenas presentes num cigarro normal.

O fim do tabaco?

“Queimar tabaco nunca será seguro. Mas é possível criar outras maneiras de fornecer a nicotina para o fumante”, diz o cientista Thomas Eissenberg, que faz pesquisas sobre tabaco na Universidade da Virgínia e testou praticamente todos os cigarros de alta tecnologia já desenvolvidos. Segundo Eissenberg, a resposta é criar um cigarro sem fumo. Parece bizarro, mas já existe: é o cigarro eletrônico, que já está à venda em 7 países. Dentro dele, fica um líquido que contém nicotina pura. Essa solução é aquecida por um circuito elétrico e vira vapor – que é tragado pelo fumante. E, como esse vapor só contém água e nicotina, o cigarro eletrônico poderia reduzir bastante o risco de câncer (pois a nicotina, teoricamente, não tem esse efeito). O problema é que cada cigarro eletrônico tem 20 vezes mais nicotina do que o comum. E isso, além de aumentar a possibilidade de o usuário se viciar, pode ser perigoso para a saúde. “A nicotina é tóxica. E, conforme a dose, pode ocasionar parada cardíaca”, explica a médica Tânia Cavalcante, do Instituto Nacional do Câncer.

Segundo seus inventores, o cigarro eletrônico tem um dispositivo que limita a quantidade de tragadas que o fumante pode dar, eliminando o risco de envenenamento. Na China, a novidade está pegando: já foram vendidos mais de 300 mil cigarros eletrônicos (da marca Ruyan). Um bom patamar, considerando que o produto é caro – um kit com o aparelho e 5 ampolas de nicotina custa US$ 200.

Mesmo com todo o oba-oba em torno dos cigarros high tech, a verdade é que eles ainda representam uma parcela insignificante da indústria do fumo. O que as empresas realmente querem, claro, é continuar ganhando com os cigarros tradicionais – cujo custo de produção é muito menor. A multinacional Philip Morris, por exemplo, investe apenas US$ 100 milhões por ano em pesquisas de alta tecnologia. É uma quantia irrisória, menos do que a empresa gasta para patrocinar a equipe Ferrari, na Fórmula 1. Para continuar vendendo cigarros sem investir muito, a estratégia é apostar nos países subdesenvolvidos, onde as pessoas têm menos acesso à informação (e, portanto, tendem a fumar mais).

E, nos países ricos, criar variações sutis para os produtos que já existem. Isso porque, como nesses mercados a propaganda de tabaco é fortemente limitada, fica muito difícil construir do zero uma nova marca. Nos EUA, a última novidade chega a ser bizarra: um cigarro desenvolvido especialmente para o público feminino, que tem detalhes de verde e rosa pintados no filtro e usa o slogan “leve e sedutor”. Hã? Por mais que a tecnologia evolua, o vício em nicotina nunca será leve, nem sedutor. Mesmo que, um dia, os cigarros sejam mais seguros, eles jamais serão totalmente confiáveis. “Pular do 3O andar de um prédio é menos perigoso que pular do 10O? Não”, explica Tom Glynn, da Sociedade Americana do Câncer. Verdade.

O cigarro do futuro pode até ser diferente; mas o futuro do fumante, não. A melhor maneira de evitar problemas de saúde é, e sempre vai ser, a mais prosaica de todas. Parar de fumar.

• A maioria dos fumantes é do sexo masculino e tem de 18 a 24 anos

• O cigarro mata até 50% dos fumantes

• A China é o país onde mais se fuma: 57,4% dos homens

• Apenas 15 países colocam mensagens de advertência nos maços de cigarro

• A cada 10% de aumento no preço do cigarro as vendas caem até 8%

• Entre pessoas internadas por problemas psiquiátricos 59% fumam

Maquininha de fumar

Um computador controla a queima do cigarro - para que ele fique aceso pelo menor tempo possível

1. ACENDIMENTO

O fumante introduz um cigarro no aparelho, e o computador de bordo é ligado automaticamente.

2. TRAGADA

O fumante traga. O computador percebe isso, e aciona o circuito de aquecimento – que queima um pedacinho do cigarro.

3. FUMAÇA

O cigarro produz fumaça, que é aspirada pelo fumante. Em frações de segundo, o circuito de aquecimento é desligado. O calor não se propaga pelo cigarro, que apaga. Com isso, a produção de fumaça é reduzida em até 90% – atenuando o problema do fumo passivo.

BATERIA

Dura centenas de tragadas. Mas, como é embutida, o fumante não pode levar uma sobressalente.

COMPUTADOR

Controla o processo. Tem um visor que indica quantas tragadas restam no cigarro.

CIGARRO

A máquina requer cigarros especiais, que são feitos com um tipo diferente de papel.

Cigarro eletrônico?

Dispensa o tabaco, que é o grande causador de câncer nos cigarros tradicionais, e libera nicotina pura

1. ACENDIMENTO

O fumante aperta o botão liga-desliga. A resistência elétrica é ativada e vai esquentando a chamada câmara de vaporização.

2. TRAGADA

O fumante traga. Quando isso acontece, o chip controlador dá uma ordem à resistência – que aumenta de temperatura.

3. FUMAÇA

Com o calor intenso, a solução química ferve. Ela vira um vapor rico em nicotina – que sai pela ponta do cigarro e é aspirado pelo fumante.

BATERIA

Pode ser destacada e recarregada numa tomada comum. O fumante pode ter baterias sobressalentes.

CÂMARA DE VAPORIZAÇÃO

Contém uma resistência elétrica (que faz ferver a solução química), e um microchip, que controla o processo.

CARTUCHO

É onde fica a solução química. Contém nicotina equivalente à de 20 cigarros tradicionais.

Para saber mais

Search for a Safe Cigarette (DVD)

Documentário que pode ser encomendado, por US$ 20, no site www.amazon.com.

Fonte: Revista Superinteressante – http://super.abril.com.br/super2/home/

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Ultraconservadorismo online

Em um jogo de vídeo game pela internet, “patriotas” devem reverter um golpe de Estado executado por Obama depois de uma derrota eleitoral nas eleições legislativas deste ano

David Brooks

O presidente Barack Obama dá um golpe de Estado, dissolve a Constituição e o país para estabelecer a União da América do Norte com a ajuda do presidente mexicano, Felipe Calderón, e do primeiro ministro canadense, Stephen Harper.

Tudo começa quando Obama decide manter conversas clandestinas durante 2010 com Calderón e Harper. Diante de uma massiva derrota eleitoral dos democratas nas eleições legislativas deste ano, em parte devido às suspeitas sobre tais conversas secretas, Obama decide atuar antes que a nova maioria conservadora assuma nas duas casas do Congresso.

Ele anuncia que o novo Congresso não se reunirá, dissolve o país, instaura a União da América do Norte e proíbe as armas de fogo, em acordo com um novo tratado global da Organização das Nações Unidas.

Emprega as tropas de defesa civil emergencialmente, enquanto figuras públicas conservadoras (sobretudo as da televisão e do rádio) começam a desaparecer ou ser assassinados em campos de concentração do governo. Obama se declara o “lendário imã perdido”. Segundo o jogo: “O golpe marxista começou! Era óbvio que os empregados e czares de Obama eram seguidores de Marx”.

Nesse Estado policialesco, tudo depende de patriotas rebeldes que terão que buscar a forma de resgatar o país. Milhões se revoltam e assim começa a segunda Revolução. Dentre os inimigos, estão líderes democratas no Congresso e altos funcionários, além de nacionalistas negros, como os Tigres Negros, que são algo como a guarda pessoal de Obama.

Criadores libertários

Tudo isso é um jogo de vídeo online criado por libertários conservadores do Brooklyn há uns dois meses. O jogador tem a responsabilidade de se somar à revolução para combater as forças antipatrióticas que roubaram o país. O jogo se chama “2011: Obama’s Coup Fails” – 2011: Fracassa o golpe de Obama.

Mas não se trata apenas de um jogo. O que o torna mais sério é sua conexão com aquele que é o movimento de base ultraconservadora cada vez mais poderoso e diverso no país, e que já provoca preocupação nas cúpulas, e até mesmo impacto político nacional. Ainda que os criadores do jogo afirmem que tudo não passa de entretenimento cheio da ação, com um tom satírico, eles advertem que se os acontecimentos atuais persistirem, o golpe de Obama 2011 poderia, de fato, se converter em um capítulo escuro da história estadunidense.

Os programadores afirmaram em entrevistas – na revista Wired e Mother Jones – “que detestamos igualmente os republicanos e os democratas”, e que farão outro jogo em que o objetivo será emboscar George W. Bush (ainda não cumpriram com essa promessa).

Ou seja, justamente o que pensa uma ampla corrente deste movimento, o mesmo que conseguiu o triunfo na eleição legislativa especial para a cadeira vaga do senador Edward Kennedy, quando um desconhecido conservador triunfou sobre a poderosa máquina do Partido Democrata, causando temor por parte do governo Obama e a liderança do Congresso. Também são os que conseguiram realizar manifestações nacionais de dezenas de milhares em Washington, e também têm sido a cara popular dos esforços para derrotar e debilitar a agenda política de Obama em diversas cidades do país.

Movimento crescente

Embora inicialmente taxados como extremistas loucos por portarem mantas e dizerem consignas que acusam Obama de ser socialista, muçulmano clandestino, hitleriano, estrangeiro africano, inimigo da liberdade etc, o fato é que os números e sua influência, assim como sua organização descentralizada, continuam crescendo, com apoio de pessoas mais moderadas que também acreditam que Washington e Wall Street seqüestraram o país, e que o governo não só não representa seus interesses, como é inimigo da liberdade e dos valores estadunidenses.

São identificados como o movimento “Tea Party”, mas não é um partido, pois a palavra party também significa “festa”ou “reunião social”, e é uma referência a uma ação de desobediência civil ocorrida no início da revolução de independência e realizada pelos colonos contra a imposição de impostos sobre o chá por parte da Inglaterra.

Os colonos atacaram navios de carga britânicos no porto de Boston, jogando baús de chá na água. Foi parte da rebelião que levantou a palavra de ordem “sem representação, nenhum imposto”, ou seja, se recusavam a pagar impostos para um governo em que os cidadãos não tinham representação política. É a mesma consigna que se aplica agora.

Contra qualquer governo

Todos os dias, há novas associações que se identificam como parte do movimento Tea Party, deixando os democratas cada vez mais assustados, mas inquietando também os republicanos, já que a ira contra os governantes de Washington é geral, não importando necessariamente o partido.

De fato, agora, os dirigentes republicanos estão tentando incorporar essas bases, em vez de se impor sobre elas. Na verdade, algumas pesquisas recentes indicam que, se existisse um Partido do Chá, sua popularidade seria maior do que a que goza o Partido Republicano, afirma o jornalista Ben McGrath em uma excelente reportagem sobre as dimensões e correntes do movimento para a revista The New Yorker.

Depois da derrota dos democratas em Massachusetts, bastião dos Kennedys, é evidente como a presidência de Obama e outros analistas progressistas subestimaram a força do movimento, assim como a extensão do ressentimento que o nutre. Ao focarem nos exageros, tirando sarro das brigas internas do Tea Party, ignoraram sua gradual consolidação, agrega McGrath.

Este movimento tomou emprestadas muitas das táticas dos movimentos progressistas das últimas décadas. Alguns o qualificam como o primeiro movimento populista de direita destes tempos. De repente, se inseriu na dinâmica da política nacional. Ou seja, não mais apenas um jogo. (veja-o em: www.usofearth.com/2011-obamas-coup-fails.php).

Tradução: Dafne Melo

Para entender: O conservadorismo libertário ou libertarismo conservador é um termo que descreve certas ideologias políticas que procuram fundir as ideias libertárias e conservadoras no que diz respeito à necessidade de haver um “governo pequeno” (ou a ausência de governo) e um estilo de vida tradicional mas que respeite a liberdade individual.

Fonte: Jornal Brasil de Fato – http://www.brasildefato.com.br/

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A União Europeia define sua nova estratégia de segurança interna

Jean-Pierre Stroobants

Sede da União Europeia, que adotou um documento estabelecendo a nova Estratégia de Segurança Interna

Sede da União Europeia, que adotou um documento estabelecendo a nova Estratégia de Segurança Interna

O Conselho dos Ministros Europeus do Interior, reunido em Bruxelas na quinta-feira (25), adotou um documento estabelecendo a nova Estratégia de Segurança Interna (ISS, sigla em inglês) da União Europeia. Muito geral, devendo ser complementado por medidas práticas e pela criação de um fundo financeiro, esse catálogo enumera os perigos: terrorismo, crimes cibernéticos, tráfico de drogas, de armas e de seres humanos. Todos estão evoluindo muito rápido e “ameaçam os valores e a prosperidade de nossas sociedades abertas”.

A Europa, ressaltam as conclusões, deve se coordenar mais e aplicar novas ferramentas para conter essas novas formas de criminalidade. Ao definir “um novo modelo” que será dirigido às causas da insegurança “e não somente aos seus efeitos”, explicará a política de segurança aos cidadãos e respeitará os direitos fundamentais e as liberdades.

Com base nessa informação, a Anistia Internacional escreveu à presidência espanhola da União para lhe sugerir que incluísse nessa discussão a questão não resolvida do possível envolvimento dos 27 Estados-membros nas operações secretas da CIA (serviço secreto americano) na Europa, em nome da luta antiterrorista. A ONG pede que sejam reabertos os inquéritos sobre a suposta participação de diversos países nessas práticas, denunciadas pelo Parlamento Europeu em 2007 e 2009. Elas consistiram em sequestros, prisões secretas e, em alguns casos, transferências de detentos para países fora da UE, onde às vezes eram submetidos a tortura, entregando informações que em seguida eram transmitidas a serviços europeus.

Renegociar o “Swift”
A Lituânia, a Polônia e a Romênia teriam abrigado lugares secretos de detenção, como mostraram alguns inquéritos conduzidos nesses Estados. A Itália nega qualquer participação oficial, mas membros de seus serviços secretos teriam sido envolvidos. A Alemanha e o Reino Unidos teriam utilizado conscientemente informações obtidas de forma ilegal.

“A Europa não pode se contentar com palavras sobre valores e princípios. Ela deve colocar os direitos humanos sobre o mesmo plano que a segurança e a cooperação no domínio do serviço de inteligência”, observa Nicolas Beger, diretor do escritório europeu da Anistia Internacional. Em janeiro, um novo relatório do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas – que será debatido em março, apesar das objeções de alguns países fora da UE – mencionou o envolvimento de pelo menos cinco países europeus em práticas ilegais após os atentados de 11 de setembro de 2001. “Com algumas raras exceções, pouco foi feito para investigar as alegações de cumplicidade”, observava o relatório da ONU.

A Anistia exige a realização de uma reunião para avaliar o estado das investigações. Na quinta-feira, os ministros evitaram o assunto. Algumas capitais ressaltam que a prioridade é a retomada do diálogo com Washington sobre a possibilidade de negociar um novo acordo sobre as trocas de dados bancários. Os Estados Unidos ainda não se posicionaram após a anulação do chamado acordo “Swift”, rejeitado há duas semanas pelo Parlamento Europeu.

Tradução: Lana Lim

Fonte: Jornal Le Monde – http://diplo.uol.com.br/

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Construtivismo, ABP e formação de professores

Ana Maria Klein e Verônica Guridi

Nas últimas décadas temos experimentado um relativo consenso na área educacional em relação ao construtivismo e às formas pelas quais os sujeitos aprendem. Na literatura educacional vários autores sintetizam alguns pontos convergentes nos novos discursos educacionais sobre o construtivismo:

•  Os estudantes chegam à compreensão pela seleção ativa e construção de seu próprio conhecimento e não pela recepção e acumulação do mesmo.

•  O sujeito traz uma bagagem de pressupostos, motivações, intenções e conhecimentos prévios a qualquer situação de ensino-aprendizagem.

•  O processo de construção do conhecimento acontece através da atividade individual e social.

•  A natureza das atividades influenciará a qualidade do conhecimento adquirido.

Essa mesma literatura destaca alguns pressupostos para a aprendizagem que se pauta pelo construtivismo: (1) conteúdo (o que aprendemos) e natureza da aprendizagem (como aprendemos) são inseparáveis. (2) Os conflitos cognitivos e a perplexidade diante do novo/desconhecido são estímulos para a aprendizagem. Daí decorre que o propósito do aprendiz é central para determinar o que ele aprenderá. (3) O conhecimento se desenvolve por meio da negociação social e da valorização da compreensão individual.

Os princípios construtivistas conjugam-se à prática da ABP (Aprendizagem Baseada em Problemas) que tem como ponto de partida o uso de problemas para aquisição do conhecimento. O aluno aprende a partir destes, algumas vezes formulados pelos próprios alunos, outras pelos docentes. Cabe aqui esclarecer que a ideia de problema presente nessa abordagem metodológica refere-se a um enunciado que apresenta um obstáculo aos sujeitos e que pode ter mais de uma solução possível ou não ter solução. De qualquer forma trata-se de problemas contextualizados na realidade, o que favorece a motivação e o estímulo para que se compreenda e se olhe criticamente para o mundo com vistas à sua transformação.

O uso de problemas como ponto de partida para a aprendizagem capacita os alunos a irem além de respostas previamente estabelecidas e a buscarem respostas às perguntas que os inquietam uma vez que os problemas não têm respostas prontas ou únicas. O conhecimento prévio do sujeito sobre o tema contribui tanto para a formulação de suas dúvidas quanto para a busca de respostas. Quando esses processos se realizam em grupo, ou seja, quando os problemas são propostos e desenvolvidos com vistas a um trabalho coletivo, as possibilidades de troca de conhecimento entre os sujeitos aumentam significativamente. A aprendizagem, no entanto, não fica restrita ao conhecimento prévio dos alunos, eles devem buscar respostas utilizando-se de procedimentos investigativos e do conhecimento disponível nas mais diferentes fontes. Assim, a ABP é um meio não só para a aprendizagem de conceitos, mas também proporciona o desenvolvimento de competências direcionadas à tomada de decisões, ao aprender a aprender, à pesquisa, à utilização da informação, à autonomia e à criatividade. Competências relacionadas ao convívio em grupo como cooperação e tolerância também são desenvolvidas através desse tipo de aprendizagem. Podemos destacar dois pontos relevantes nesse processo de construção do conhecimento através da ABP: o aluno aprende fazendo, assumindo um papel ativo na sua aprendizagem; e desenvolve competências metacognitivas relacionadas à tomada de consciência sobre as atividades que realiza e das suas responsabilidades diante do processo de aprendizagem.

Além de considerar aspectos intrínsecos à aprendizagem dos sujeitos, o trabalho com a ABP pode favorecer o desenvolvimento de habilidades demandadas pelo novo contexto mundial, pois os estudantes aprendem pela (e na) complexidade da realidade, sendo instigados à identificação, análise e avaliação de problemas e concepção de soluções. O trabalho com ABP através de projetos em grupo possibilita o desenvolvimento de capacidades relacionadas ao trabalho em equipe, à reflexão e à tomada de decisão.

Defender e pretender uma educação que se paute pelos princípios construtivistas e que seja sensível às demandas sociais contemporâneas nos obriga à reflexão sobre a formação docente. Que professor desejamos para o século XXI?

O professor que atua pautado pelos princípios construtivistas e adota a metodologia do ABP diferencia-se muito do papel tradicionalmente atribuído aos docentes. Ele deixa de ser a fonte transmissora de conhecimento e assume o papel de facilitador, tendo por função central a orientação dos alunos no desenvolvimento dos passos da ABP, além de estimular e encorajar os discentes para que problematizem as questões, justifiquem suas interpretações e reflitam sobre diferentes e novas formas de analisar uma mesma situação. Para tanto, não basta o domínio de conteúdos específicos; o perfil desse profissional pressupõe o conhecimento de processos de construção do conhecimento e competências para guiar o trabalho em grupo, cuidando para não dar as respostas prontas aos alunos, mas sim, estimulando-os a questionar e buscar por si próprios algumas explicações possíveis ao problema proposto.

No entanto, nos últimos cinquenta anos, as práticas dos professores se alteraram pouco. Os professores tendem a ensinar da mesma forma como aprenderam nas escolas e na universidade. Assim, nos parece de suma importância que o ensino superior adote novas metodologias em suas disciplinas coerentes com a forma que desejamos fomentar nas práticas pedagógicas dos futuros professores. Portanto, não basta formar o docente pela resolução de problemas, mas também para o uso da resolução de problemas, ou seja, para que ele promova a aprendizagem por meio dessa metodologia. Vivenciar a ABP como aluno em cursos de licenciatura ou de pedagogia certamente contribui para esse processo e poderá servir como uma referência para o futuro profissional, mas seu uso na formação docente pode ir além dessa vivência.

Destacaremos três usos distintos da ABP com essa finalidade, mencionando as instituições que as desenvolvem. Convém ressaltar que as instituições citadas são meramente ilustrativas e não traduzem a amplitude do uso da ABP no ensino superior.

Uma breve pesquisa sobre a utilização da ABP em cursos de formação docente nos mostrou que várias experiências têm sido desenvolvidas nas universidades. No Brasil, a Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo proporciona aos alunos de licenciatura em ciências da natureza o contato com essa metodologia através de duas disciplinas oferecidas no currículo básico, comum a todos os cursos da unidade. A Universidade Federal do Vale do São Francisco adota a ABP em seu curso de licenciatura em ciências da natureza como eixo estrutural através de uma organização curricular problematizadora e interdisciplinar. A Sultan Idris Education University, na Malásia, também utiliza a ABP com o objetivo não apenas da aprendizagem dos discentes, mas também incentivando que estes adotem a ABP nas suas práticas pedagógicas. A Universidade do Aveiro, em Portugal, adotou a metodologia de projetos através da ABP em seus cursos de licenciatura. Essas experiências nos mostram o quão diverso pode ser o uso dessa metodologia na graduação, presente pontualmente em disciplinas, utilizada de forma ampla e abrangente na estruturação curricular, sendo referência para a prática docente de futuros profissionais.

Um passo a mais na formação docente está sendo dado por universidades que empregam a ABP no desenvolvimento de projetos que deverão ser implementados na prática docente. Ou seja, os alunos utilizam essa metodologia em experiências concretas de ensino. Na Universidade de Indiana e na Universidade de Elon, ambas norte-americanas, encontramos o relato de experiências na formação docente que aliam a ABP ao desenvolvimento de estágios. Com isso, os futuros professores desempenham o papel docente segundo concepções educacionais que rompem com aquelas que geralmente predominam nas escolas.

Outra relação possível entre a ABP e a formação dos professores concretiza-se em cursos de extensão universitária que se propõem a capacitar docentes para o uso dessa metodologia. Uma das estratégias utilizadas na formação continuada é oferecer aos professores da educação básica cursos de extensão sobre ABP, a fim de que esta metodologia passe a fazer parte do contexto educativo das escolas. Por exemplo, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo ofereceu um curso de formação continuada aos professores de geografia da educação básica. Algumas universidades europeias, como Miguel Hernandez e Alcalá na Espanha, propõem-se a capacitar professores do ensino superior para o uso dessa metodologia.

A utilização da ABP na formação de professores pode aproximar os futuros profissionais de pressupostos construtivistas, sensibilizando-os para a importância de processos educativos que se pautem pelo respeito ao interesse e conhecimento prévio dos discentes, que favoreçam um ambiente de cooperação, compreensão e tolerância entre os alunos e que se desenvolvam a partir da ação do aluno, compreendido como sujeito de seu próprio processo de aprendizagem. Acreditamos que uma proposta formativa dessa natureza guia-se por princípios desejáveis ao perfil do futuro profissional, tais como a atitude reflexiva, a capacidade de articulação entre teoria e prática, o desenvolvimento de ações educativas sensíveis aos desafios locais e globais e à consideração e promoção da aprendizagem autônoma que confere destaque ao papel do aluno. Com isso, as finalidades da educação podem ser compreendidas de forma mais ampla e o papel docente no contexto social pode ser redimensionado, enfatizando sua responsabilidade na formação crítica e no despertar da consciência dos educandos em relação à sua participação transformadora na sociedade.

Ana Maria Klein e Verônica Guridi são professoras da Escola de Artes, Ciências e Humanidades, da Universidade de São Paulo. Contatos: anaklein@usp.br e veguridi@usp.br.

Fonte: Com Ciência – http://www.comciencia.br

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Fed investiga atuação dos bancos de Wall Street no agravamento da crise na Grécia

Nelson D. Schwartz e Sewell Chan*

Brendan McDermid/Reuters

Operadores financeiros trabalham no estande do Goldman Sachs, na bolsa de Nova York. O banco está sendo investigado pelo Federal Reserve (Fed) por suposta atuação na crise financeira da Grécia

Os problemas da Grécia se aprofundaram em ambos os lados do Atlântico nesta quinta-feira (25), à medida que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) revelou que está investigando o Goldman Sachs e outros bancos que ajudaram a Grécia a mascarar suas dívidas, e os investidores ficam cada vez mais desconfiados em emprestar qualquer dinheiro adicional a Atenas, enquanto esta flerta com a possibilidade de um calote.

O papel de Wall Street na crise da dívida gerou críticas e pedidos de investigação por parte de líderes europeus, mas o inquérito por parte do Fed representa a primeira vez que reguladores americanos examinarão os negócios altamente lucrativos, apesar de pouco conhecidos, de fornecer instrumentos financeiros sob medida para países sem dinheiro na Europa.

Apesar dos problemas econômicos da Grécia estarem sacudindo os mercados mundiais há semanas, seus problemas cresceram como bolas de neve nos últimos dias, à medida que os trabalhadores realizam piquetes em protesto contra os cortes orçamentários e o governo luta para levantar dinheiro para cobrir o maior déficit orçamentário da Europa. No ano passado, o déficit da Grécia equivalia a 12,7% de seu produto interno bruto.

Na quinta-feira, a agência de classificação de crédito Moody’s se juntou à Standard & Poor’s no alerta de que poderia rebaixar os títulos do governo grego, uma ação que aumentaria o ágio que Atenas teria que pagar para tomar empréstimo. Isso ocorre em um momento precário para a Grécia, que precisa levantar 25 bilhões de euros ao longo dos próximos dois meses para evitar um calote da dívida soberana, que as autoridades temem que poderia abalar as finanças de outras economias fracas da Europa.

As autoridades gregas também cancelaram uma viagem planejada aos Estados Unidos e à Ásia, que visava atrair novos investidores para seus títulos, devido à falta de demanda, segundo um banqueiro de investimento que foi informado sobre a estratégia de levantamento de fundos do governo.

A União Europeia disse que apenas ajudará a Grécia caso ela apresente um plano para reduzir seu déficit até 16 de março, aumentando ainda mais a pressão.

“Mesmo se reduzissem o déficit a zero, com taxas de juros a 6,5% e uma taxa de crescimento zero, na melhor das hipóteses, a relação da dívida da Grécia permaneceria em um trajeto explosivo”, disse Miranda Xafa, uma diretora do conselho executivo do Fundo Monetário Internacional.

“Mas não acho que eles conseguirão levantar fundos no mercado agora”, ela disse.

A Grécia sofre há anos com grandes déficits, mas até agora os grandes bancos sempre pareciam estar lá para resgatá-la. Já em 2000 e 2001, o Goldman ajudou discretamente Atenas a tomar bilhões em empréstimos para mascarar suas finanças ruins, criando derivativos que basicamente transformaram empréstimos em transações cambiais, que a Grécia não precisou informar sob as regras europeias.

O presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, disse ao Congresso americano na quinta-feira que o Fed está “analisando várias questões envolvendo o Goldman Sachs e outras empresas nos arranjos de derivativos com a Grécia”.

Bernanke disse que a Comissão de Valores Mobiliários (SEC) também está preocupada com a forma como os derivativos –instrumentos financeiros que em grande parte não são regulados e não são negociados em bolsas públicas– contribuíram para os problemas da Grécia. “Obviamente, o uso desses instrumentos de uma forma que intencionalmente desestabiliza uma empresa ou país é contraproducente”, ele disse.

A SEC disse em uma declaração que não pode “confirmar ou negar a existência de uma investigação”, mas acrescentou estar cooperando com reguladores americanos e internacionais no exame de “abusos e efeitos desastabilizadores potenciais relacionados ao uso de swaps de crédito e outras práticas e produtos financeiros opacos”.

O Goldman se recusou a comentar, citando sua política de não discutir assuntos legais ou regulatórios. Mas em uma apresentação de 21 de fevereiro, o Goldman disse: “O governo grego declarou (e nós concordamos) que essas transações eram consistentes com os princípios do Eurostat que regiam seu uso e aplicação na época”. O Eurostat é o órgão estatístico da União Europeia.

O Goldman não é o único banco que forneceu derivativos voltados a reduzir déficits. No final dos anos 90, o JPMorgan Chase ajudou a Itália a reduzir seu déficit com um swap cambial em uma taxa de câmbio favorável. Em troca, a Itália se comprometeu a realizar futuros pagamentos que não seriam registrados como obrigações.

Uma porta-voz do JPMorgan disse que todos os negócios foram informados pela Itália ao Eurostat.

O senador Christopher Dodd, democrata de Connecticut e presidente do Comitê Bancário do Senado, também voltou sua atenção aos swaps de crédito, que permitem aos bancos e fundos hedge apostar no calote de uma empresa ou país.

Os críticos dizem que os swaps contribuíram para os problemas da Grécia e aumentaram as chances de um colapso financeiro.

“Nós temos uma situação em que grandes instituições financeiras estão amplificando uma crise pública para ganhos privados”, disse Dodd.

O inquérito do Fed teve início há três semanas, segundo um funcionário envolvido na investigação e que não estava autorizado a fazer comentários públicos. Os investigadores do Fed estão se concentrando em se o Goldman e outros bancos cumpriram as instruções do Fed, emitidas em 2007, sobre como realizar a gestão de risco de veículos financeiros complexos. A investigação ainda está nos estágios iniciais, ele acrescentou, à medida que as autoridades analisam a documentação detalhando como os derivativos foram criados, que procedimentos de cumprimento regulatório foram seguidos e que análises internas foram realizadas. O Fed também está averiguando se Wall Street fez arranjos financeiros adicionais com a Grécia que não foram revelados.

Aris Messinis/ AFP

Greve geral na Grécia gera confrontos entre manifestantes e policiais e paralisa aeroportos

 

A crescente preocupação com essas transações deixaram os investidores com mais dúvida do que nunca a respeito da capacidade do governo de levantar rapidamente as dezenas de bilhões de euros em novos financiamentos que precisa para evitar o calote. A Grécia enfrenta um teste crítico na próxima semana, quando tentará levantar cerca de 3 bilhões de euros por meio da emissão de títulos de 10 anos.

Mas com as ameaças de rebaixamento de sua dívida soberana, os investidores dizem que a Grécia precisaria pagar uma taxa enorme de 7% de juros apenas para interessar as pessoas pela compra. Isso representa quase 1 ponto percentual a mais do que a taxa que os investidores receberam na venda anterior de títulos gregos, em janeiro, e 3 pontos percentuais a mais do que o custo de tomada de empréstimo pela Grécia antes da atual crise.

Uma porta-voz do Ministério das Finanças da Grécia não respondeu ao pedido de comentário.

O aumento do ceticismo dos investidores levou a Grécia a adotar uma nova estratégia de financiamento. Em vez de vender os títulos da dívida por meio de leilões públicos, onde o risco de uma oferta fracassada poderia enervar ainda mais os mercados, ela procurou diretamente os investidores institucionais, os sondando em reuniões individuais, a maioria em Londres.

Banqueiros e analistas em Atenas dizem que há um debate dentro do Ministério das Finanças sobre se o governo deve procurar o mercado agora, ou aguardar até que um novo cardápio de mudanças –como mais impostos e maiores cortes salariais no setor público– seja anunciado, na esperança de que essas medidas resultem em custos financeiros menores.

Mas uma visão mais pessimista já está tomando conta, segundo alguns banqueiros, à medida que os investidores temem que a Grécia simplesmente não conseguirá cobrir os 20 bilhões de euros de dívida que vencerão em abril e maio, e os 53 bilhões de euros para todo o ano. Parece improvável que essa quantidade poderá ser levantada junto aos investidores –muitos dos quais são fundos de pensão conservadores e seguradoras que já estão sofrendo perdas com os 8 bilhões de euros em títulos gregos emitidos em janeiro, que foram atingidos pela recente baixa do mercado.

* Landon Thomas contribuiu com a reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Fonte: The New York Times – http://www.nytimes.com

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O patriarca da fé

Há 4 mil anos, um homem fundou as bases das três grandes religiões monoteístas do mundo: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Ao aderir a um único Deus, Abraão tornou-se o pai simbólico de 3,5 bilhões de fiéis

Tiago Cordeiro

Das 6,8 bilhões de pessoas que habitam o planeta, cerca de 2 bilhões são cristãos. Aproximadamente 1,5 bilhão são muçulmanos e 15 milhões seguem os preceitos do judaísmo. Juntas, as denominações compõem a metade da população mundial. São também o pano de fundo de conflitos sangrentos há vários séculos. Para citar apenas dois: as cruzadas e os atentados de 11 de setembro de 2001. De certa forma, são brigas de família. As três grandes religiões monoteístas têm o mesmo pai. Um homem que vagou pelo Oriente Médio e pelo norte do Egito há 4 mil anos. Que optou por seguir um só Deus e cujos dois primeiros filhos fundaram dois povos: os hebreus e os árabes. Seu nome é Abraão. Sua descendência moldou o Ocidente e foi determinante para forjar o mundo tal qual o conhecemos.
O primeiro relato sobre ele está no Gênesis, que inicia a Torá judaica e a Bíblia cristã. Intérpretes do texto consideram que o patriarca era um pastor seminômade que viveu entre 2100 e 1800 a.C. Tribos costumavam circular entre as principais cidades da Mesopotâmia para vender o couro, o leite e a carne de seus rebanhos.
Não há provas da existência de Abraão. Várias gerações de arqueólogos reviraram, sem sucesso, as terras do Egito ao Irã. "A arqueologia não encontrou sinais dele nem de qualquer pessoa relacionada ao patriarca", afirma o americano Ron Hendel, professor de Estudos Judaicos da Universidade da Califórnia. A esta altura, isso pouco importa.
"A verdade desse relato não está em sua historicidade, mas no impacto sobre o judaísmo, o cristianismo e o islamismo", diz Karl-Josef Kuschel, professor de Teologia da Universidade de Tübingen, na Alemanha.
O Gênesis é uma edição das narrativas orais do povo hebreu, compiladas entre os séculos 7 a.C. e 5 a.C. "Os patriarcas representam os heróis do povo. Provavelmente são uma junção de diversas pessoas reais, reunidas em uma única personalidade a fim de criar um relato das origens dos hebreus", afirma o arqueólogo Israel Finkelstein, professor da Universidade de Tel Aviv. Apesar dos 1 500 anos que separam a autoria do texto dos tempos de Abraão, vários detalhes sobre o cotidiano da época são exatos - como o hábito de usar escravas para gerar descendentes, em caso de infertilidade da esposa. Outros trechos das escrituras denunciam o momento em que foram redigidas - por exemplo, o uso de camelos como meio de transporte (eles só seriam domesticados perto de 1100 a.C.).
Abraão ocupa 14 capítulos do texto. Quando sua história começa, ele já tem idade avançada. "A maioria dos personagens importantes da Bíblia é apresentada como criança. Jacó e Esaú brigam no ventre da mãe. Moisés é encontrado em um cesto no rio Nilo. Davi luta contra Golias. O patriarca tem 75 anos antes que qualquer coisa aconteça com ele", diz o escritor Bruce Feiler no livro Abraão - Uma Jornada ao Coração de Três Religiões. No primeiro capítulo do Genêsis a seu respeito, ele se chama Abrão, filho de Terá, casado com sua meia-irmã Sarai, dez anos mais nova. "Ele é a personificação do vazio: não tem infância nem descendentes", afirma Feiler. Um detalhe o diferencia: o pastor é a décima geração depois de Noé e a vigésima após Adão e Eva.
Pouco antes de morrer, Terá deixa a cidade natal de Abrão, que a escritura chama de Ur dos Caldeus, e se muda com a família para os arredores de Harã (veja o mapa nas págs. 32 e 33). Depois que Terá morre, com 205 anos (isso mesmo, os personagens da narrativa são extraordinariamente longevos), Deus determina novo rumo para a vida do pastor. O patriarca, que agora é responsável pelos negócios da família, ouve a voz de Javé, que promete: "Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei. Eu farei de ti um grande povo, eu te abençoarei, engrandecerei teu nome. Sê tu uma bênção". E Abrão se muda para Canaã com a esposa e o sobrinho, Ló.
Ismael e Isaac
Um período de seca faz o grupo seguir para o norte do Egito. Ali, com medo de ser morto para que Sarai seja forçada a se casar novamente, ele pede que a esposa se passe por sua irmã solteira. Ela acaba incorporada ao harém do faraó, mas Javé lança pragas sobre o Egito como punição. O monarca descobre a origem do problema, devolve a mulher ao pastor e expulsa a família do país.
Abrão segue uma vida seminômade, marcada pelo comércio, pela eterna busca por melhores terras e pelo conflito militar contra os reis que sequestram Ló (leia mais sobre ele na pág. 35). Enquanto isso, Javé repete suas promessas. Para selar um pacto com este único Deus, o pastor chega a sacrificar uma cabra, um bezerro e um carneiro. Mas o filho desejado não vem.
Cansada de esperar, Sarai diz a Abrão que tenha seu herdeiro com Agar, uma escrava egípcia do clã. Ele obedece e a mulher dá à luz Ismael. Quando o pastor completa 99 anos, Deus volta a se comunicar. Ordena que o casal mude os nomes para Abraão e Sara e orienta o patriarca a fazer a circuncisão em si e em todo o clã - incluindo Ismael, que já tem 13 anos.
Tempos depois, três anjos aparecem para o casal. Mesmo sem saber quem são, Abraão os recebe com hospitalidade. Quando se identificam, voltam a lhe prometer um filho. Escondida, Sara ouve a conversa e ri de descrença. Mas eis que, enfim, engravida e tem Isaac. Para garantir a herança ao garoto, ela convence o marido a expulsar Agar e Ismael.
Abraão agora tem descendentes, mas Javé decide que ele precisa passar por um último teste de fé. De acordo com o Gênesis, diz ao patriarca: "Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaac, a quem amas, e vai à terra de Moriá; e o oferece ali em holocausto sobre uma das montanhas". Mais uma vez obediente, ele forma uma comitiva com Isaac e dois empregados e caminha por três dias. Ao chegar perto do monte indicado por Deus, afasta-se com o filho. O rapaz, então, pergunta ao pai onde está o animal a ser sacrificado. A resposta é enigmática: "Javé proverá". Numa pedra no alto do morro, ele o amarra e coloca sobre uma pilha de lenha. Quando empunha o cutelo contra Issac, um anjo aparece e o contém. "Abraão! Não estendas a tua mão sobre o moço e não lhe faças nada; agora sei que temes a Deus e não negaste o teu filho".
Com esse gesto de fé absoluta, o patriarca conquista em definitivo o status para fundar as novas nações. Nas décadas seguintes, ele começa a preparar o futuro de sua descendência. Negocia o casamento de Isaac com a prima Rebeca e acompanha o crescimento de seus netos, Esaú e Jacó. Sara morre com 127 anos, e o viúvo ainda tem tempo de se casar de novo. Ele se une a Quetura, com quem tem outros seis filhos: Zinrã, Jocsã, Medã, Midiã, Isbaque e Suá. Nenhum deles tem direito ao espólio do pai. Ao morrer, Abraão tem 175 anos e é um líder tribal respeitado. O pastor é enterrado ao lado de Sara pelos filhos Isaac (que já tem 76 anos) e Ismael (de 89).
Duas nações
Segundo as escrituras, a fé e a obediência inabaláveis fizeram Abraão especial. "Para judeus, cristãos e muçulmanos, a fé é definida como a confiança incondicional em Deus. Nesse sentido, para as três religiões, Abraão é o modelo e a própria definição da fé. Essa característica faz dele o patriarca das três religiões que se originam de dois grandes povos", afirma Karl-Josef Kuschel. Segundo a tradição, Isaac deu início aos hebreus, e entre seus descendentes diretos estão o profeta Moisés, os reis Davi e Salomão e… Jesus Cristo (veja a árvore genealógica na pág. 31). No Evangelho de Lucas, Maria, a mãe de Jesus, canta ao Senhor que "falou a nossos pais, a Abraão e a seus descendentes para sempre". Diz Kuschel: "Nos relatos dos Evangelhos, Jesus se posiciona como legítimo descendente da tradição de Abraão. Seus primeiros seguidores, em especial São Paulo, o chamam de pai. Depois, no século 4, ele é finalmente incorporado à teologia cristã por Santo Agostinho."
Já a origem dos árabes está ligada a Ismael. No século 7, um de seus descendentes diretos é chamado pelo anjo Gabriel (ou Jibril) para ouvir a recitação da mensagem de Alá. Durante 23 anos, o mercador Muhammad ibn Abdallah, ou Maomé, recebe e transmite para seus seguidores o Alcorão, que seria compilado nos anos seguintes à sua morte, em 632. Nas 114 suratas (capítulos) da versão final da obra, Abraão, ou Ibrahim, é mencionado 25 vezes. "O Alcorão acrescenta informações sobre ele, difundidas pela tradição oral judaica, e reinterpreta alguns aspectos de sua vida, em especial o papel de Ismael", diz John Vol, especialista em islamismo da Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos.
Para entender as histórias do texto sagrado muçulmano, é preciso retomar o contexto em que surgiram os hebreus. Depois que o Gênesis foi compilado, vários outros relatos orais surgiram para preencher as lacunas da vida de Abraão, em especial sua infância. Todos descrevem o patriarca como um monoteísta convicto, que luta contra a tradição politeísta de seu pai, Terá. Um desses relatos conta que a família tinha uma loja com várias estátuas de diferentes deuses. Certa vez, Abraão usa um machado para quebrar todas, exceto a maior. Chocado, o pai pergunta por que ele fez isso. O rapaz diz que os próprios deuses se destruíram lutando entre si, e que o vencedor foi o único que permaneceu intacto. Quando Terá afirma que as estátuas não seriam capazes de se mover, ele contra-argumenta: "Se esses deuses não são vivos, não faz sentido adorá-los".
Outra narrativa, registrada por volta do século 2 a.C. no Livro dos Jubileus, complementa a história. Inconformado com a rebeldia do filho, Terá o denuncia ao rei local. Abraão é condenado a morrer na fogueira, mas acaba salvo por Javé. Por três dias, fica no fogo sem se queimar: a praça da cidade é tomada por uma enorme poça de água que brota do chão e neutraliza a fogueira. Também são comuns as descrições sobre a vida do patriarca no céu. De acordo com os relatos reunidos no século 1 no livro Apocalipse de Abraão, ele ganha o direito de conhecer o Jardim do Éden.
Ibrahim
O Alcorão faz referência a algumas histórias sobre a infância de Ibrahim, com ênfase na sua crítica à idolatria e à fabricação de ídolos. Mas, principalmente, dá novo valor à trajetória de Ismael, ou Isma’il. O texto, que em nenhum momento menciona Agar ou Sara, cita o episódio do sacrifício sem se referir ao lugar ou ao nome do filho. Numa passagem, o patriarca diz: "Ó filho meu, sonhei que te oferecia em sacrifício". Quando Ibrahim demonstra que vai se submeter à ordem divina, outro filho lhe é prometido, Isaac. Por isso, a maioria dos muçulmanos acredita que Ismael foi o menino quase oferecido. "A palavra ‘Islã’ significa ‘rendição incondicional’, e não existe exemplo maior de submissão à vontade de Alá que o do filho que se deixa sacrificar", afirma Karl-Josef Kuschel.
Intérpretes judaicos discordam. "O texto bíblico claramente menciona Isaac", diz o rabino Samy Pinto, doutor em Letras Orientais pela Universidade de São Paulo. Trata-se de diferença importante, construída principalmente sobre relatos não-canônicos. Essas duas tradições deixaram marcas muito concretas e ainda são fonte de conflito. Para os muçulmanos, a imolação ocorreu em Meca - e é relembrada todos os anos, na Eid ul-Adha, a Cerimônia do Sacrifício. Entre os judeus, o episódio é lido na celebração do ano-novo. Para eles, o momento em que Abraão passa no teste final de Javé aconteceu em uma pedra localizada no monte Moriá, onde hoje está Jerusalém. Sobre ela, por volta de 1000 a.C., o rei Davi ergueu um altar e Salomão construiu um grande templo em 960 a.C. O edifício foi destruído em 586 a.C., reerguido e mais uma vez derrubado durante a revolta judaica contra os romanos, no ano 70 d.C. Os restos da construção formam o Muro das Lamentações, e a pedra do sacrifício fica no Domo da Rocha - por onde Jesus teria passado quando atacou os comerciantes do templo e onde Maomé estaria quando foi elevado aos céus. Outro local em que as sutilezas das narrativas se tornam explosivas é a Tumba dos Patriarcas, em Hebron. Lá, diz o costume, estão enterrados Abraão, Sara, Isaac e seu filho Jacó.
As diferenças na interpretação do legado do patriarca criam uma névoa que cobre o fato mais básico a respeito de sua vida: na essência, ambas as tradições, a judaico-cristã e a muçulmana, têm a mesma origem. "O povo escolhido começa em Ismael ou em Isaac? Essa é a grande luta do mundo ocidental", diz o rabino Samy Pinto. Os 3,5 bilhões de filhos de Ismael e de Isaac ainda hoje disputam o melhor espaço nesta enorme casa monoteísta, erguida há 4 mil anos por Abraão.
Vida na estrada
1. Sanliurfa
O Gênesis diz que o patriarca nasceu em Ur dos Caldeus. Por muito tempo, acreditou-se que era a cidade de Ur, que hoje fica no Iraque. Atualmente, considera-se que o texto faz referência a Sanliurfa.
A cidade do sul da Turquia tem 500 mil moradores e é um centro de peregrinação de fiéis em busca de locais considerados sagrados, como uma caverna onde Abraão teria nascido.
2. Harã
É o local onde Javé teria falado a Abraão pela primeira vez. Escavações no local indicam que Terá, o nome de seu pai, seria, na verdade, um clã poderoso na região.
Hoje é um vilarejo de 500 pessoas na Turquia. De acordo com a tradição, uma casa localizada em uma colina nos arredores teria abrigado a família do patriarca.
3. Sechen
Uma das mais antigas cidades do Oriente Médio. Ali, Abraão ergueu um altar para Javé.
Atual Nablus, na Cisjordânia, tem 130 mil habitantes e está sob o controle da Autoridade Nacional Palestina. Ali fica a suposta tumba de José, bisneto de Abraão.
4. Hebron
Abraão passou longas temporadas nessa região. Foi ali que ele e Sara foram enterrados.
A cidade da Cisjordânia é marcada pela tensão permanente entre israelenses e palestinos. Um grupo de cerca de 500 judeus vive ao lado de 160 mil árabes.
5. Tanis
O local mais provável onde Abraão teria vivido no Egito, até ser expulso pelo faraó.
Centro administrativo em 1200 a.C., hoje é um conjunto de ruínas que forma um dos sítios arqueológicos mais importantes do país.
6. Beersheba
Local onde nasceu Isaac e onde ele teria sido circuncidado. Aqui, também, Javé teria ordenado ao pastor que sacrificasse o filho.
A cidade mais importante do deserto de Negev, ao sul de Israel, concentra imigrantes etíopes e russos.
7. Jerusalém
Para os judeus, foi sobre o monte Moriá que Abraão teria oferecido Isaac em sacrifício.
Tanto o monte quanto a rocha do sacrifício estão dentro da mesquita de Omar, em Jesusalém, Israel.
8. Meca
De acordo com a tradição islâmica, Abraão teria viajado até Meca para deixar ali Agar e Ismael. Lá também teria oferecido o filho em sacrifício.
A cidade na Arábia Saudita é local de peregrinação. Ismael e o pai teriam levantado as fundações da Caaba, a construção para onde os muçulmanos se dirigem quando rezam.
Super-homem
Relatos concedem sabedoria infinita ao patriarca
• Intérpretes do Livro dos Jubileus dizem que Abraão dominava a astronomia e a ensinou aos fenícios, que passaram a usá-la para controlar o mar Mediterrâneo.
• De acordo com a tradição oral repetida por várias gerações, o patriarca também teria transmitido aos egípcios seus profundos conhecimentos de matemática.
• Outra área que ele dominaria seria a filosofia. Abraão teria repassado conceitos avançados aos egípcios, que por sua vez os teriam encaminhado aos filósofos gregos.
Um sobrinho problemático
Ló deu trabalho a Abraão
Terá tinha três filhos: Nahor, Haran e Abraão. Depois que Haran morreu, seu filho, Ló, passou a acompanhar o tio caçula. Quando a família voltava do Egito, os dois se desentenderam e o sobrinho ficou com as melhores terras. Até que uma federação de reinos vinda da Mesopotâmia, liderada pelo rei Chedorlaomer, ocupou a região. Doze anos depois, os moradores do local se rebelaram. O movimento foi contido e Ló, feito refém. Abraão reuniu seus homens e o resgatou. Mas o sobrinho ainda se envolveria em mais confusão. Ele se instalou em Sodoma, onde foi visitado por três anjos. Os habitantes da cidade tentaram invadir a casa e foram contidos pelos seres celestiais. Ló fugiu com a família enquanto Javé lançava uma chuva de fogo e enxofre sobre Sodoma e a vizinha Gomorra. O grupo havia sido orientado pelos anjos a não olhar para trás. Mas a mulher de Ló desobedeceu e foi transformada em estátua de sal.
Saiba mais
LIVROS
Abraão - Uma Jornada ao Coração de Três Religiões, Bruce Feiler, Sextante, 2003
Com linguagem acessível, o autor descreve a vida do patriarca e os locais por onde ele teria passado.
Abraão - A Invenção da Fé, Guy Lafon, Educs, 1998
O texto analisa os pontos em comum das três grandes religiões monoteístas.
Abraham: Sign of Hope for Jews, Christians, and Muslims, Karl-Josef Kuschel, Continuum, 1995
Traz pontos comuns entre judaísmo, cristianismo e islamismo e fala de Abraão como "sinal de esperança".

Fonte: Aventuras na História – http://historia.abril.com.br/

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Haiti: um credor, não um devedor

Naomi Klein

“Nossa dívida com o Haiti provém principalmente de quatro fontes: a escravidão, a ocupação norte-americana, a ditadura e a mudança climática. Esses reclamos não são fantasiosos nem puramente retóricos. Descansam sobre múltiplas violações de normas e acordos legais”.

Se dermos crédito aos ministros das Finanças do G-7, o Haiti está para conseguir algo que merecia há muito tempo: o “perdão” total de sua dívida externa. Em Porto Príncipe, o economista haitiano Camille Chalmers acompanhou estes acontecimentos com um otimismo cauteloso. O cancelamento da dívida é um bom começo, disse à rede Al Jazeera em sua versão inglesa, mas “é tempo de ir além. Temos que falar sobre reparações e indenizações pelas devastadoras consequências da dívida”. Em sua declaração, a ideia de que o Haiti é um país devedor, deve ser abandonada. O Haiti, argumenta, é um país credor – e somos nós, do Ocidente, que estamos atrasados no pagamento de nossas obrigações.

Nossa dívida com o Haiti provém principalmente de quatro fontes: a escravidão, a ocupação norte-americana, a ditadura e a mudança climática. Esses reclamos não são fantasiosos nem puramente retóricos. Descansam sobre múltiplas violações de normas e acordos legais. Aqui, mesmo que brevemente, oferecemos alguns aspectos do caso haitiano.

A dívida da escravidão. Quando os haitianos ganharam a sua independência da França, em 1804, tiveram todo o direito de reclamar reparações aos poderes que se haviam aproveitado durante 300 anos do trabalho roubado. A França, de todo modo, estava convencida de que haviam sido os haitianos que haviam roubado a propriedade dos donos de escravos negando-se a trabalhar gratuitamente. Por isso, em 1825, com uma frota de barcos de guerra atracados na costa haitiana ameaçando voltar a escravizar a ex-colônia, o rei Carlos X veio fazer a coleta: 90 milhões de francos em ouro – dez vezes a renda anual do Haiti naquele momento. Sem capacidade para impedir, e sem possibilidades para pagar, a jovem nação foi amarrada a uma dívida que levaria 122 ano para ser paga.

Em 2003, o presidente haitiano Jean-Bertrand Aristide, enfrentando um intenso embargo econômico, anunciou que o Haiti levaria o governo francês aos tribunais pelo roubo perpetrado tempos atrás. “Nosso argumento”, me disse o ex-advogado de Aristide, Ira Kurzban, “foi que o contrato era um acordo sem validade porque foi baseado na ameaça de re-escravização em tempos em que a comunidade internacional considerava a escravidão um mal”. O governo francês esteve preocupado o bastante para enviar um mediador a Porto Príncipe para que mantivesse o caso fora dos Tribunais. Finalmente, sem embargo, seu problema foi eliminado: enquanto eram levados a cabo os preparativos do processo, Aristide foi deposto. O processo desapareceu, mas para muitos haitianos os reclamos de reparação ainda continuam.

A dívida da ditadura. De 1957 a 1986, o Haiti foi governado pelo regime desafiadoramente cleptocrático de Duvalier. Ao contrário da dívida francesa, o caso contra Duvalier foi exposto em vários tribunais que rastrearam os fundos haitianos até uma elaborada rede de contas bancárias na Suíça e faustuosas propriedades. Em 1988, Kurzban ganhou um importante processo contra Jean-Claude “Baby Doc” Duvalier quando uma Corte de Distrito em Miami determinou que o deposto governante havia “malversado mais de 504 milhões de dólares de fundos públicos”.

Os haitianos, evidentemente, ainda continuam esperando a restituição desse dinheiro – mas este foi apenas o começo de suas perdas. Durante mais de dez anos os credores do país insistiram em que os haitianos deviam pagar as astronômicas dívidas contraídas por Duvalier, estimadas em 844 milhões de dólares, grande parte das quais pertenciam a instituições como o FMI e o Banco Mundial. Só em serviços da dívida, os haitianos teriam que pagar 10 milhões de dólares por ano.

Era legal para os emprestadores estrangeiros cobrar as dívidas de Duvalier sendo que grande parte desse dinheiro nunca foi gasto no Haiti? Muito provavelmente não. Como me afirmou Cephas Lumina, o expert independente em dívida externa da ONU, “o caso do Haiti é um dos melhores exemplos de dívida odiosa no mundo. Só sobre essa base a dívida deveria ser cancelada incondicionalmente”. Mas, mesmo se o Haiti viesse a ter cancelada a totalidade da sua dívida (e destaco o se), este não extinguiria o seu direito de ser compensado pelas dívidas ilegais que já foram contraídas.

A dívida climática. Apoiado por muitos países em desenvolvimento na Cúpula sobre a Mudança Climática em Copenhague, o caso da dívida climática é simples. Os países ricos, que fracassaram espetacularmente em resolver a crise climática causada por eles, têm uma dívida com os países em desenvolvimento que contribuíram pouco para a crise, mas que sofrem os seus efeitos de maneira desproporcional. Em resumo, quem polui, paga. O Haiti tem um argumento irrefutável. Sua contribuição para a mudança climática foi insignificante; as emissões de carbono per capita do Haiti representam apenas 1% das emissões dos Estados Unidos. Mesmo assim, o Haiti está entre os países mais afetados – de acordo com um índice, apenas a Somália é mais vulnerável à mudança climática.

A vulnerabilidade do Haiti à mudança climática não se deve só – nem sequer principalmente – à sua geografia. Efetivamente, o país enfrenta tempestades cada vez mais devastadoras. Mas é a débil infra-estrutura do Haiti que converte situações de alerta em desastres, e os desastres em completas catástrofes. O terremoto, apesar de que não tenha relação com a mudança climática, é um excelente exemplo. E aqui é onde todos esses pagamentos de dívidas ilegais podem ter seu custo mais devastador. Cada pagamento a um credor estrangeiro é dinheiro que não foi utilizado para construir uma estrada, uma escola, uma linha elétrica. E essa mesma dívida ilegítima incrementa o poder do FMI e do Banco Mundial para impor onerosas condições para cada novo empréstimo, requerendo que o Haiti desregule sua economia e diminua ainda mais seu setor público. Ao falhar no cumprimento dessas condições foi castigado com um embargo de ajuda desde 2001 até 2004, os sinos de morte para a esfera pública haitiana.

Esta história precisa ser confrontada agora, porque ameaça repetir-se. Os credores do Haiti já estão utilizando a desesperada necessidade de ajuda por conta do terremoto para pressionar pela quintuplicação da produção no setor têxtil, um dos trabalhos mais exploradores no país. Os haitianos não têm muito prestígio nestas conversações, porque são considerados receptores passivos de ajuda, não participantes dignos e plenos em um processo de reparação e indenização.

O cálculo sobre as dívidas que o mundo tem com o Haiti poderia mudar radicalmente a sua dinâmica venenosa. Aqui é onde começa o verdadeiro caminho para a reparação: mediante o reconhecimento do direito dos haitianos de serem reparados.

Naomi Klein é jornalista e autora dos bestsellers A Doutrina do Choque. A ascensão do capitalismo de desastre. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008, e Sem Logo. A tirania das marcas em um planeta vendido. Rio de Janeiro: 2002.

Fonte: Eco Debate – www.ecodebate.com.br

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Estratégia e tática

Istvän Mészáros

Istvän Mészáros

O movimento socialista não terá a menor chance de sucesso contra o capital caso se limite a levantar apenas demandas parciais.  Tais demandas têm sempre que provar a sua viabilidade no interior dos limites e determinações reguladoras preestabelecidas do sistema do capital.  As partes só fazem sentido se puderem ser relacionadas ao todo ao qual pertencem objetivamente.  Desse modo, é apenas nos termos de referências globais da alternativa hegemônica socialista à dominação do capital que a validade dos objetivos parciais estrategicamente escolhidos pode ser adequadamente julgada.  E o critério de avaliação deve ser a capacidade desses objetivos parciais se converterem (ou não) em realizações cumulativas e duradouras no empreendimento hegemônico de transformação radical.  Portanto, não surpreendentemente, o slogan reformista bernsteiniano, que proclamou que "a finalidade é nada, o movimento é tudo" - fetichizando os objetivos parciais mais limitados do "movimento" e rejeitando, ao mesmo tempo, o objetivo socialista global - só poderia conduzir o movimento socialista ao beco sem saída da capitulação.

Uma das questões mais importantes de qualquer estratégia socialista é a contabilidade usada para orientar e avaliar os passos e medidas particulares que devem ser adotados no curso da transição da ordem estabelecida para uma outra radicalmente diferente.  Pois, se até mesmo a fase histórica de ascendência do capital pode criar algumas condições materiais favoráveis que apontam na direção de "uma vida social reformulada", como argumentou Marx, as vantagens materiais potenciais em questão se tornam totalmente ameaçadas quando a ascendência histórica do sistema terminou e o capital só pode continuar a se impor à sociedade ao custo de minar suas próprias realizações anteriores.  A incorporação estrutural da produção de desperdício na dinâmica expansionista da produção atual do capital é um exemplo muito bom de como as expectativas otimistas justificáveis de Marx desandaram sob a pressão do aprofundamento das contradições do sistema do capital.  Por isso, é vital que adotemos uma estrutura de contabilidade muito diferente daquela a que nos acostumamos, ou seja, uma nova estrutura de contabilidade que possa avaliar com segurança tanto a direção geral da estratégia emancipatória socialista como seus objetivos mediadores particulares.

Em princípio, "contabilidade" - frequentemente reduzida a seu aspecto mais óbvio de "guarda-livros" - e "administração" poderiam ser considerados momentos essenciais (alguns poderiam dizer absolutos) de todos os modos presentes e futuros de reprodução sociometabólica.  Isto é verdade no sentido de que nenhum sistema reprodutivo social pode funcionar de um modo sustentável sem ativar seus recursos materiais e humanos e sem controlar a sua distribuição e o seu desenvolvimento conforme algum princípio de "economia".

Porém, apesar da automitificação "dos princípios racionais de alocação" e dos "valores instrumentais", não existe aqui a questão da "neutralidade".  As ideias resultantes de avaliações "sem influência de valores" ou "neutras com relação a valores" das questões em jogo, e as ações baseadas em conclusões assim obtidas, pertencem às fantasias apologéticas da ordem estabelecida.  Em muitas ocasiões, vimos que as anunciadas "conclusões racionais" são, desde o início, normalmente, aceitas, acritica e circularmente, por aqueles que se identificam com o ponto de vista do capital, de modo a permitir-lhes chegar à "prova conclusiva", ideologicamente desejada, da superioridade do seu sistema.

Contudo, assim que examinamos um pouco mais de perto o supostamente neutro "livro-caixa" do capital, do qual se diz ser baseado em "pura racionalidade instrumental", fica claro que tal contabilidade é contabilidade social fortemente carregada de valores.  Como Marx corretamente observou, "o capitalista como tal só possui poder como personificação do capital.  É por isso que na contabilidade com dupla entrada ele figura constantemente duas vezes, isto é, como DEVEDOR ao seu próprio CAPITAL".1 Caracteristicamente, Max Weber designou um papel fundamental à "descoberta da contabilidade de partida dobrada" na sua tendenciosa representação da ordem capitalista como paradigma de racionalidade.  Ele pôde assim ignorar a primazia das relações materiais de poder, desconsiderando  completamente a real natureza da subjetividade específica do sistema do capital - a personificação do capital - e sua contabilidade de partida dobrada, determinada pelo sistema e nada racional.

As mesmas considerações se aplicam à administração, que é inconcebível sem a moldura social - que, sob a dominação do capital, é uma necessária moldura sócio-hierárquica profundamente injusta e estruturalmente predeterminada e garantida - pela qual os princípios globais de regulação societária são ordenados e então implementados ou impostos.  Até mesmo os "princípios puramente formais" do regulamento de trânsito, que Hayek falaciosamente quis generalizar e usar, com típica ânsia ideológica, na defesa acrítica do capital e da sua formação estatal, se apóiam em uma rede social hierárquica de representação e imposição.  Isso sem mencionar as "decisões administrativas racionais" de construir (ou não) as próprias estradas nas quais o tráfico pode ser então "racionalmente regulado".  O modo pelo qual se casam os argumentos sobre a "insuperável complexidade da sociedade industrial moderna" e a também insuperável "administração racional" do sistema do capital - incluir as alegações relativas à "contabilidade  racionalmente eficaz" e universalmente benéfica do capital - explicita claramente a intenção apologética dos mercadores da complexidade e fabricantes do mito da racionalidade capitalista "valorativamente neutra".

Naturalmente, a questão da administração racional é importante na teoria socialista, já que sua realização prática é vital para o projeto socialista.  Tal questão é inseparável da necessidade de se superar a hierarquia estrutural herdada do sistema do capital - sem que se imponha aos indivíduos sociais um tipo novo de hierárquia sob a predominãncia das personificações pós-capitalistas do capital.  Assim, o desafio fundamental, sob este aspecto, refere-se à necessidade de descartar o comando separado sobre o trabalho: um sistema de comando alienado profundamente embutido na esfera da produção, que também deve ser acompanhado por uma estrutura de comando separada na área de administração.  Não pode haver administração socialista - que mereça ser caracterizado como um sistema verdadeiramente racional de administração - enquanto as premissas práticas de representação e execução de regras forem definidas pelas demandas viciadas do comando separado sobre o trabalho e associadas a qualquer forma particular de extração forçada de trabalho excedente.  Além disso, muitas das regras, desarrazoada e conflitantemente promulgadas e impostas com tanto desperdício, são dispensáveis se a necesidade pela regulamentação emergir diretamente dos indivíduos envolvidos.  Isto não pode contrastar mais agudamente com a experiência histórica do século XX, na qual as regras para os sistemas de comando pós-capitalistas impuseram continuamente o imperativo de tempo do capital a um corpo social recalcitrante - a absoluta maioria do povo trabalhador.  Ou seja, as personificações pós-capitalistas do capital só conseguiram exercer o controle alienado do capital pós-capitalista da estração do trabalho excedente porque estavam em plena harmonia com os imperativos alienantes do sistema.

A realização prática dos pincípios da contabilidade socialista é um componente necessário e integrante da ordem socialista originalmente divisada.  Só pela realização prática de tais princípios pode ser assegurada a base material sem a qual não é possível a regulamentação racional contínua dos intercâmbios produtivos e distributivos dos indivíduos sociais.  Em que pesem os mitos da eficácia racional e da economia ideal do capital, o sistema do capital nunca foi - nem jamais poderia ser - verdadeiramente econômico no uso dos recursos materiais e humanos.  O que criou a aparência enganosa da economia racional insuperável foi a capacidade do sistema maximizar a extração de trabalho excedente, pois o capital, em seu impulso para expandir e acumular, funcionou como a bomba de sucção mais poderosa da história com a finalidade de extrair implacavelmente o trabalho excedente e a mais-valia do trabalho vivo.

Mas esta característica, apesar de sua importância no curso do desenvolvimento histórico, não deve ser confundida com economia real, que depende do uso das riquesas sociais criadas pelos produtores.  A economia do sistema do capital se assemelha à indústria britânica de água que - de modo absolutamente inacreditável - luta contra severa excassez durante todo o verão ameno de um país que se benficia de grande abundância de chuvas. O mistério é resolvido pelo simples fato de que até um terço da água extraída pelo sistema de bombeamento britânico é irresponsavelmente desperdiçada pelos vazamentos da própria rede de distribuição.  E além de tudo isso os administardores da estração privatizada de água, obscenamente bem pagos, argumentam, de modo verdadeiramente capitalista, que é "muito mais econômico" deixar que os canos desperdicem toda aquela água do que reparar ou renovar a própria rede de distribuição defeituosa: uma política seguida, dizem eles, , "estritamente no interesse dos consumidores".  De forma semelhante, o poderoso sistema de bombeamento do capital como um todo ocultou, ao longo da história, seu desperdício de imensos recursos sob os resultados espetaculares da expansão desimpedida do capital.  A "hora da verdade" só chega quando a necessidade de expansão encontra obstáculos significativos, como os que experimentamos em nossa época.  O fato de que, em tais circunstâncias, as dificuldades da expansão lucrativa do capital assumam a forma de excassez especulativa e movimentos aventureiros do capital, negando da forma mais cruel a satisfação das necessidades elementares de incontáveis milhões de pessoas, apenas sublinha que o capital é, nas palavras de Marx, a "contradição viva".

Nota:

1 MECW, vol. 34, p.457.

[MÉSZÁROS, István.  Para além do capital: rumo a uma teoria da transição.  Tradução de Paulo César Castanheira e Sérgio Lesa.  Editora da Unicamp: Boitempo editorial, 2002, p. 943-946]

Fonte: Fundação Lauro Campos – http://www.socialismo.com.br

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A guerra dos lobos

As alcateias estão de volta, emocionando os amantes da vida selvagem. Mas lobos são lobos, matam gados e alces. Muita gente está brava no oeste americano. A velha luta em torno de terra e comida voltou com tudo.

Douglas H. Chadwick
Foto de Jeff Vanuga

A guerra dos lobos

Os lobos escapam da área protegida de Yellowstone. A migração invernal conduz a alcateia de Eashakie através da cordilheira de Absaroka, no Wyoming, em busca de comida.

Os lobos, se você pensar bem, se parecem muito com a gente.
Eles são poderosos, agressivos, territoriais e predadores. Eles são espertos, curiosos, cooperativos, leais e adaptáveis. Eles exercem profunda influência nos ecossistemas que habitam.
Contudo, temos problemas com os lobos. Talvez não sintamos o mesmo pelo simpático lobo mau ou por aquele ser de olhar carinhoso que nos segue pela casa, seu parente - o cão. Ou talvez seja porque os lobos-cinzentos são os mais disseminados entre os mamíferos terrestres, depois dos seres humanos e seus rebanhos de animais domesticados, sendo que, no hemisfério Norte, são nossos mais diretos concorrentes a carne.
Sejam quais forem as razões, homens e lobos estão em guerra. É uma antiga disputa por território e comida entre os clãs dos lupinos e dos seres humanos, travada em campos de batalha nos estados americanos das Montanhas Rochosas.
Muitos acreditavam que a guerra tinha acabado. Caçados sem trégua, pegos em armadilhas e envenenados até mesmo nas reservas naturais, os lobos-cinzentos tinham sumido do oeste lá pelos anos 1930. Em 1974, quando o Canis lupus foi declarado espécie sob risco de extinção, a população do lobo-cinzento viu-se confinada a um canto ao norte de Minnesota e no Parque Nacional Ilha Royale, em Michigan.
Daí, em meados dos anos 1980, um punhado de lobos marcharam para o sul, desde o Canadá. Dois se estabeleceram nas pradarias ocultas do Glacier, gerando cinco filhotes, em 1986. Biólogos que se esfalfavam para rastrear os recém-chegados os apelidaram de "alcateia Mágica", devido à maneira com que eles pareciam se esvanecer no ar e ressurgir feito fiapo de bruma.
A bando cresceu e logo se dividiu em dois, depois em três, a maioria mantendo-se dentro do parque. Alguns animais se desgarraram e dispersaram-se pelas florestas adjacentes. Então, de repente, lá estava um casal acoitado em um rancho a 150 quilômetros ao sul do Glacier e a 50 quilômetros da fronteira de Idaho. As pessoas passaram a relatar a presença de lobos tanto em Idaho quanto no norte do Wyoming. Mas ainda não havia provas de que esses lobos fossem nada além de viajantes de passagem. Ainda não.
Em 1995 e 1996, o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos capturou lobos no Canadá e libertou-os no Parque Nacional de Yellowstone, de 890 mil hectares, e nas áreas silvestres de Idaho. A ação federal, sem precedentes, deslanchou tal erupção de esperanças, medos, ressentimentos, processos judiciais e manchetes na imprensa, que a maioria das pessoas pensa ter sido esse o começo do retorno do lobo ao oeste. Não foi assim, mas aquelas reinserções funcionaram como um rabo de foguete. As populações de lobos aumentaram e a guerra contra eles experimentou nova escalada.
Ao longo de 2008, os agentes envolvidos com a vida selvagem confirmaram 569 mortes de gado bovino e caprino atribuídas aos lobos. Tal cifra somava menos que 1% das mortes de animais de criação na região, mas o prejuízo nunca se distribui de forma igualitária. No mesmo ano, 264 lobos foram mortos por atacar o gado. É um número alto, mas que deve ser confrontado com uma população de lobos que atingiu agora cerca de 1,6 mil indivíduos a vagar pela região, agrupados em mais de 200 alcateias. O oeste está ficando mais selvagem a cada hora que passa.
Os entusiastas ambientalistas e os turistas não poderiam estar mais felizes. Só em Yellowstone, dezenas de milhares de pessoas vêm todos os anos observar os lobos, adicionando algo como 35 milhões de dólares à economia local. Os cientistas estão documentando as mudanças ecológicas ligadas ao retorno desse predador de primeira linha, fato que tem o potencial de restaurar o equilíbrio nas áreas silvestres, tornando-as mais estáveis e biologicamente diversas.

Por outro lado, tem gente que se diz insegura ao levar a família ao mato. Os caçadores esportivos também reclamam. Para muitos, a decoração de interiores inclui cabeça ou chifres de alce e cervo. E os lobos são pintados como máquinas mortíferas de quatro patas a devastar as populações de animais caçáveis. A turma fala na surdina em resolver por conta própria o problema.
Em maio de 2009, a espécie foi declarada recuperada no norte das Montanhas Rochosas, transferindo a responsabilidade pelos lobos para Montana e Idaho. Ambos os estados estabeleceram cotas sobre a primeira caça legal ao lobo de que ambos os estados tinham memória - em 75 anos no caso de Montana e em 220 no de Idaho. "É espantoso - de uma única alcateia sob risco de extinção pulamos para um excedente", diz Jim Williams, do Departamento de Pesca e Vida Selvagem de Montana. "Essa é a mais impactante história de sucesso na Lei das Espécies Ameaçadas que se possa imaginar." Talvez.
Após uma decisão federal anterior, que tirou os lobos do oeste da lista, em 2008, o Wyoming, em essência, definiu os animais como uma peste, permitindo sua ilimitada matança e captura em armadilhas. Em função disso, uma ação judicial forçou o serviço de vida selvagem a colocar de forma temporária os lobos de volta à lista de animais ameaçados. Nesse ínterim, uma coalizão de 14 ONGs lideradas pela Earthjustice processa o governo federal americano para que torne a proteger todos os lobos até que os estados do oeste desenvolvam uma estratégia conservacionista, e que inclua áreas protegidas nas quais os lobos possam viver em alcateias que não sejam abatidas a tiros.
John e Rae Herman tocam 800 cabeças de gado na área oeste das Hot Springs de Montana. Eles cresceram na era dourada para os amantes do bucolismo, em vales e encostas cobertas de florestas - com todos os grandes predadores nativos varridos da paisagem. "Costumávamos computar de três a cinco bezerros perdidos cada vez que arrebanhávamos o gado", conta John. "Agora são uns 25. Sete morreram por lobos, confirmados de maneira a sermos reembolsados."
O problema é que, se o fazendeiro não topar logo com a carcaça, os devoradores de carniça podem destruir todas as evidências. Em algumas áreas, os casos de fato protagonizados por lobos constituem, em média, sete mortes em cada uma que é possível ser provada. Se não há evidência, não há compensação financeira. E animais mortos são apenas parte do prejuízo. A rés assediada por lobos perde, em dada estação, de 14 a 22 quilos. E os efeitos hormonais do estresse se fazem sentir. "Das 85 novilhas grávidas na última primavera, 60 abortaram", afirma John.
Gado com ferimentos nas pernas, ou infecções deles derivadas, devido a perseguições dos lobos, torna-se incomerciável. Depois de atritos com lobos, as vacas tornam-se irritadiças e superprotetoras de seus bezerros. Os Herman não são os únicos a dizer que fica mais difícil arrebanhar esse gado nos currais - nem pensar em usar seus cães. Além disso, se você levar esse gado aos bons pastos no verão seguinte, os animais podem não querer ficar ali porque há lobos rondando as florestas nas terras mais altas.
Os fazendeiros da cooperativa Blackfoot Challenge estão testando um programa de vigilância territorial. Estou ali em patrulha com o cavaleiro solitário em pessoa, Peter Brown, que pode viajar em sua picape, motocicleta ou a pé. Ele monitora as cercanias das alcateias sempre de olho no gado, e relata todos os dias o que vê aos fazendeiros, que, informados, podem deslocar seus rebanhos para pastagens mais seguras ou ficar mais atentos. Cercas elétricas agora circundam os espaços destinados a parir e criar bezerros em muitas das áreas de risco. Para advertir de maneira visual os lobos para que se afastem de outras pastagens, Brown às vezes lança mão da velha técnica europeia conhecida como fladry, na qual se estende um fio com bandeirolas de cores vivas ao longo das cercas.
Enquanto palmilhamos as terras baixas em meio à neve de outubro, o olhar de Brown é atraído por corvos - seus guias mais confiáveis para localizar uma carcaça. Nesse caso, os pássaros estão apenas se banqueteando com as vísceras de um alce abatido por um caçador. O mesmo faz um lobo-preto, membro da alcateia da montanha Elevation. Ainda assim, quatro cervos pastam em boa paz no outro lado de uma cerca, a exemplo de dúzias de bovinos 180 metros adiante.
"O comportamento de um rebanho é o nosso sistema de alarme", observa Brown. "Fico atento ao gado que se agrupa ou corre ou ainda ao que se põe a espiar em torno, alerta e mugindo. Também fico de olho em animais doentes que possam atrair predadores. Acho que só de me mover pela área já inibo os lobos com a minha presença, afastando-os dos animais de criação. Os lobos estão aprendendo e se adaptando tanto quanto nós. Além disso, temos boas populações de presas naturais aqui. Já vi lobos se meterem no meio do rebanho para perseguir cervos."

Os fazendeiros costumavam abandonar os animais que morriam de doenças, problemas no parto e acidentes, deixando-os no pasto ou juntando-os em "pilhas de ossos", como são chamadas. Mas, "à medida que os predadores foram se recompondo, as carcaças acabavam atraindo-os para encrencas", explica o biólogo Seth Wilson. "Agora coletamos as carcaças e as levamos para longe. É uma das mais simples medidas para se reduzir os conflitos com ursos e lobos."
A questão não é saber como se livrar dos lobos, mas como coexistir com eles. O fazendeiro David Mannix é quem diz: "Precisamos nos dar conta de que a população dos Estados Unidos, em geral, quer os lobos. Essa gente é também a que consome a nossa carne. Não é boa ideia dizer a nossos consumidores que eles não sabem o que estão fazendo. Então, em vez de lutar para que tudo volte a ser como antes, estamos testando coisas como patrulhamento territorial."
Quando ouviram os primeiros uivos dos lobos em Yellowstone, os alces e os seres humanos fincaram pé em seu território, como se ainda estivessem lidando com coiotes. Mau negócio. Yellowstone possui hoje metade dos alces que tinha 15 anos atrás. Todavia, a maioria dos levantamentos mostra que sua população havia inchado demais com a deterioração de seu hábitat. Pouco depois de matar os últimos lobos de Yellowstone, em 1926, as autoridades do parque abatiam alces aos milhares. Mas esses animas continuaram a se reproduzir e a pastar em escala excessiva dentro de ambientes essenciais, criando uma situação antinatural perpétua justo para um parque voltado para a preservação da natureza.
Dispondo de quase ilimitada oferta de carne, os novos lobos de Yellowstone se multiplicaram. Mas a contagem caiu de forma abrupta em 2005. Voltou a crescer, atingindo 171 indivíduos em 2007, para depois se reduzir a 124 lá pelo fim de 2008. Doug Smith, chefe do Projeto Lobo de Yellowstone, localizou os poucos casais reprodutores a partir de 2000. "Temos uma população declinante de lobos", diz ele. "Os números nunca atingiram os níveis que esperávamos com base na disponibilidade de presas. Isso sugere que, tão logo os lobos atingem certa densidade demográfica, começa a haver uma regulação social no tamanho de sua população."
Os enfrentamentos com as pessoas não constituem o único conflito travado pelos lobos. A alcateia do pico Druid, em Yellowstone, estabeleceu seu território em 1996. A pátria a céu aberto que eles demandam em ambos os lados do vale do rio Lamar, no Wyoming, é cortada por uma das principais estradas do parque. Em uma manhã de fim de outono, a temperatura está a -15°C. Uma película de geada recobre o focinho dos bisões logo abaixo de um dos pontos de encontro favoritos dos lobos. Alces pastam na mesma encosta enquanto dois coiotes fuçam os despojos de um filhote de alce à beira do rio. Não vislumbro lobos, mas Laurie Lyman, ex-professora que se mudou da Califórnia para estar perto dos lobos e os observa há vários anos, abaixou seu binóculo para me contar sobre os animais que ela viu no dia anterior.
Dois lobos da Druid - uma fêmea, a número 571, e seu irmão menor, denominado Chama Triangular por causa da mancha branca no peito - caminhavam ao longo do rio quando surgiram três invasores da nova alcateia de Hurricane Mesa. Em menor número, a dupla recuou, mas os invasores alcançaram a 571. Por quatro vezes eles a prostraram de barriga para cima. No fim, dois lobos a manietaram em cada extremidade enquanto o terceiro e maior deles mordia o peito, lacerando sua carne com os dentes. "Foi aí que o Chama Triangular pulou em cima", rememora Laurie. "Ele voltou para resgatá-la, e a 571 pôde escapar pelo rio. Quando seu irmão enfim a encontrou, ele mancava e ela sangrava pelas feridas."
Ao longo de 2008, Yellowstone teve duas vezes mais lobos mortos por outros lobos que no ano anterior. A cinomose atingiu a população em 1999, 2000 e 2005. A parvovirose, mais uma doença mortal, foi detectada. A exemplo de outras alcateias, a do pico Druid está sofrendo de perda de pelagem devido a uma epidemia de sarna.
A diminuição da superabundância de presas é outra questão, segundo Doug Smith. Ainda existem perto de 10 mil alces invernando em Yellowstone, e talvez o dobro disso passando o verão no parque. "Mas os lobos são caçadores bastante seletivos", afirma ele. "O que conta para eles é o volume de presas vulneráveis."

Da mesma forma que a experiência com lobos pode transformar o gado em animais não tão domésticos, os alces perseguidos por alcateias tornam-se presas menos vulneráveis. Eles ficam mais vigilantes e se mantêm em movimento constante. Na era sem lobos, os rebanhos acampavam em seus "restaurantes" preferidos durante o inverno, forrando o bucho de álamos, salgueiros e choupos, todos ainda jovens, de modo que os caules cresciam prejudicados e mirrados feito bonsais. Libertadas de tamanha voragem, as jovens plantas agora se desenvolvem até formar viçosos arvoredos. Mais pássaros canoros encontram hábitats para formar seus ninhos à sombra da folhagem. Ao longo dos cursos d’água, vigorosos salgueiros e choupos enraizados ajudam a estabilizar as barrancas. Mais insetos caem dos caules pendentes, alimentando peixes e anfíbios. Castores encontram gravetos nutritivos e galhos à vontade para o sustento de suas colônias.
Inspecionando a enorme cordilheira ao norte, onde a maioria dos alces do parque passa o inverno, Doug Smith descobrira apenas uma colônia de castores em 1996. Em 2009, ele registrou 12. Poços e alagados que se formam atrás das represas criam um hábitat para o alce, o rato-almiscarado, o vison-americano, as aves aquáticas e uma plêiade de outras formas de vida selvagem. Depois que os lobos ressurgiram, os pumas, que tinham começado a esquadrinhar os vales, retiraram-se para os íngremes terrenos rochosos que eles habitam. Os lobos mataram quase metade da população de coiotes, que vivem agora em grupos dentro de territórios reduzidos ou vagabundeando solitários. Sofrendo menos competição dos alces por gramíneas, os bisões devem estar se dando bem melhor que antes.
De uma única nova força predatória na paisagem resulta o reequilíbrio que se alastra até afetar os micróbios no solo. Os biólogos definem as mudanças desde o topo da cadeia alimentar como um efeito cascata trófico. Num aceno de reconhecimento aos fatores comportamentais em jogo, outros falam em "ecologia do medo".
Craig Jourdonnais é biólogo do departamento de animais caçáveis do vale Bitterroot, em Montana. Até há pouco tempo, segundo ele, a maioria das reclamações sobre animais selvagens dizia respeito a alces atacando montes de feno e cervos danificando plantações e jardins, além de ser um perigo nas estradas. "Agora, temos de dez a 12 alcateias reunindo no mínimo de 45 a 60 lobos. Temos também 14 mil caçadores vindo todos os anos para registrar os animais caçados." As principais reclamações que ele ouve hoje têm a ver com o excesso de lobos na área a aniquilar alces e cervos. "Estou neste emprego há 30 anos, e eu nunca tinha trabalhado com nenhuma criatura que causasse tanta comoção."
Espera-se que Jourdonnais, de algum jeito, arrume um lugar para os lobos em que recreação e subsistência se coadunem. Ele compreende que a caça de grandes animais no condado de Ravalli gera 11,2 milhões de dólares ao ano. Ele também vê os animais caçáveis perdendo o fundamental território nas invernadas para o loteamento imobiliário em todo o vale, e sabe muito bem que os únicos tópicos tão quentes quanto os lobos são planejamento e zoneamento.
Resumo da ópera? As taxas de sobrevivência dos animais caçáveis baixaram nos últimos dois ou três anos. Os lobos têm parte da culpa, mas o inverno também faz sua parte. No total, contudo, o número de cervos e alces ainda é bom.
Os grandes mamíferos estão aprendendo e mudando seu comportamento o tempo todo: cervos, alces, ursos, lobos e, claro, seres humanos. De nossa parte, parece que precisamos formular melhores respostas às questões colocadas pelo retorno dos lobos. Quando afirmamos querer a conservação das comunidades de animais selvagens, isso inclui os lobos ou não?

Fonte: National Geographic – http://www.natgeo.com.br/

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Mulheres do início do século XXI


“Eu sou aquela mulher que fez a escalada da montanha da vida removendo pedras e plantando flores.” Cora Coralina

Delze dos Santos Laureano

A primeira ideia que nos vem à mente quando pensamos em mulheres neste início do século XXI é a da mulher urbana, trabalhadora, realizada e feliz porque agora se viu livre do domínio machista que a condenava à inferioridade nas relações de gênero mantida por tantos séculos, inclusive a obrigação de gerar filhos. Todavia, não podemos ser ingênuas acreditando existir um único tipo “ideal” de mulher, como se ele representasse de fato todas as mulheres de hoje, de idades variadas, com os diversos problemas que enfrentam em suas comunidades e territórios, e com todos os desafios que as fazem lutar por mais dignidade, seja nas relações afetivas, na família, no trabalho ou no meio político e social em que vivem.
Mesmo considerando que são algumas mulheres urbanas, esses seres que se fizeram autônomos por terem renda própria e por se desvencilharem dos tabus e das muitas armadilhas dos preconceitos morais, as que galgaram altos cargos públicos e privados, assumindo as mesmas profissões antes reservadas exclusivamente aos homens, e que por isso são as que melhor representam, ideologicamente, a emancipação feminina, não podemos nos esquecer de outras tantas mulheres, as que ainda hoje vivem sob o jugo dos pais, dos maridos2 , ou dos patrões nessa sociedade com resquícios patriarcais e da exploração capitalista desmedida, modo de vida que transformou tudo em mercadoria. Penso nas mulheres que, mesmo tendo conquistado a emancipação frente ao machismo, estão sobrecarregadas com o ônus da própria emancipação conquistada, como a dupla ou até a tripla jornada de trabalho, com o sofrimento em face das doenças antes quase exclusivas do mundo masculino, com o fardo do provimento da prole, pelo simples fato de poderem agora romper com as relações afetivas falidas.
Foi a partir dos anos 60 do século passado que o movimento de libertação das mulheres desencadeou-se como parte integrante de um movimento cultural da juventude. No final do século XX, um número expressivo de mulheres entrou no mercado de trabalho, chegando mesmo a ser em número maior do que os homens em determinados setores, como são exemplos as universidades. Em algumas empresas, os quadros femininos passaram a atingir o topo da carreira. A economia capitalista, baseada no estímulo e na criação incessante de novas necessidades, foi a que mais contribuiu para o crescimento da participação das mulheres no mercado de trabalho, de modo a que viessem a ser uma fonte suplementar de rendimentos, necessária para a realização dos sonhos da sociedade de consumo. Todavia, olhando bem, antes disso, as mulheres sempre trabalharam. Nas sociedades primitivas executavam as tarefas agrícolas e domésticas. Às mulheres, devemos a criação da agricultura, no neolítico, enquanto os homens incumbiam-se da caça e da pesca. A partir da Revolução Industrial trabalharam nas fábricas e nas situações extremas, como no período das duas grandes guerras, trabalharam fora do lar. É de se notar, todavia, que as mulheres em todos esses momentos não deixaram de assumir a difícil tarefa das obrigações domésticas. Para justificar a dupla ou até a tripla jornada, essa “realidade” foi mascarada por uma cultura que valoriza a liberdade e o maior bem-estar individual e que vê no trabalho doméstico uma forma de submissão da mulher ao homem. A ideologia hegemônica forjou o reconhecimento social do trabalho feminino atrelado a ideias como o direito a uma “vida autônoma” e à independência econômica. Os próprios homens tiveram de reconhecer a legitimidade do trabalho assalariado feminino como instrumento de autonomia e realização pessoal, a despeito de muitas vezes ser cristalino para todos que nem mesmo sob o aspecto econômico é compensatório para as famílias, e principalmente para a sociedade de modo geral, o sacrifício da venda de toda a força de trabalho de cada família no mercado. Quando ambos os cônjuges estão fora do lar, e por muitas horas de trabalho nas empresas, há irremediavelmente uma perda na qualidade de vida dos pais e dos filhos, que acabam sendo expostos à vulnerabilidade de uma sociedade que não tem mais tempo para os laços comunitários, para os momentos de mística, de intimidade familiar e de luta social. Os maiores problemas, normalmente, tornam-se mais visíveis nos territórios de baixa renda, em vista de não disporem as famílias de creches, de escolas e de serviços necessários para compensar minimamente a falta da atenção materna e paterna no lar. Deparamo-nos diariamente com notícias de crianças e adolescentes entregues ao narcotráfico, de adolescentes grávidas e sem a mínima condição de ampararem os filhos gerados, perpetuando, deste modo, o círculo vicioso da pobreza e da exclusão, elas mesmas, essas mulheres, desde tenra idade, desamparadas pela sociedade.
E por que muitas mulheres, mesmo neste século XXI ainda estão longe das conquistas da emancipação feminina? Penso que isso ocorre em vista da hegemonia capitalista. Vivemos em uma sociedade que tem como fundamento a competição em todos os níveis. Assim, a primeira preocupação não é um lugar para cada um na sociedade. O discurso hegemônico faz acreditar que todos podem se dar bem, desde que lutem isoladamente por isso. Cada um tenta de todas as formas conquistar um lugar melhor, mas de modo a se tornar um ser que consome mais. Todavia, quem embarca no consumismo se consome aos poucos. Na busca de um sonho inatingível as pessoas empenham suas forças sem ter muita consciência de que, na prática, estão contribuindo é para a manutenção de um sistema opressor, que absolutiza o lucro e que desconsidera as mazelas sociais e ambientais que provoca. Deste modo, o nosso agir em sociedade, mesmo aparentemente emancipado, tem contribuído para o aumento das intervenções irresponsáveis no meio ambiente e para a destruição da cultura e dos bens naturais das comunidades tradicionais, nas quais ainda existem laços de fraternidade e de cultura camponesa. A cada minuto deixamos os nossos rastros na poluição do ambiente provocada pelos nossos automóveis, pelo consumo excessivo de mercadorias cada vez mais sofisticadas que exigem o uso crescente de energia, de água, de produtos de limpeza e de mais e mais embalagens. Exploramos trabalho e biodiversidade quando excedemos no uso de cosméticos, de produtos de higiene pessoal, de artigos de luxo, ou com tanta parafernália para manter a aparência e para nos manter em dia com as inovações tecnológicas. Tudo o que resulta da manipulação das necessidades humanas pelos meios de comunicação. Vítimas deste modo de vida ocidental, construído sob a lógica de um poder dominado por homens e do qual participam inexoravelmente as mulheres urbanas modernas e as suas porta-vozes, as mulheres que na televisão e na mídia em geral são usadas para vender tudo, desde os cosméticos e bebidas até os automóveis e os imóveis de luxo. As mulheres subservientes do consumismo e as que vendem a sua imagem - escolhidas entre “as mais bonitas” - contribuem para lançar no mundo da exclusão, este já esquecido pelo capitalismo, outras mulheres que ainda têm muito a conquistar. São as meninas, grávidas ainda na adolescência, as mulheres marginalizadas que não encontrando outra forma de renda não podem realizar tarefa senão a venda do seu próprio corpo de uma outra maneira, as mulheres operárias que além da tripla jornada são as responsáveis pelo provimento do lar, mesmo condenadas aos salários mais baixos do que os dos homens.
Não quero com isso passar uma visão pessimista do ser feminino deste início de século XXI. Apesar de não terem as mulheres conseguido efetivamente se emancipar neste sistema-mundo5, mantido nas e pelas relações de competição e do individualismo, são elas, emancipadas economicamente ou não, as protagonistas de uma nova sociedade. No mundo inteiro, nos chamados movimentos antissistêmicos são as mulheres as que constroem na luta os caminhos contra toda forma de opressão. Temos visto isso nas Comunidades Eclesiais de Base, no Movimento dos trabalhadores Rurais sem Terra – MST -, no Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB -, na Via Campesina e em tantos movimentos populares sociais do Brasil e da América Latina.
No Brasil, nos núcleos urbanos pobres são as mulheres as que tomaram a decisão de construir a casa própria através do mutirão3 , como consequência da falta de políticas públicas adequadas e sob pena de verem as famílias vulnerabilizadas ainda mais pela falta de moradia e após se verem mais empobrecidas com o pagamento do aluguel ao longo do tempo. Para essas mulheres faço reverência, reconhecendo que sem elas correríamos o risco de perder a esperança de vida melhor para todas as nossas crianças. São as mulheres camponesas as que descobriram que não basta a conquista da terra, que é preciso conquistar a igualdade de direitos também nas conquistas, inclusive a superação do machismo ainda existente na militância. São elas que assumiram a liderança da luta pela reforma agrária em muitos casos4 e nas denúncias da apropriação capitalista dos bens naturais no campo, como foram exemplo as mil mulheres que no Rio Grande do Sul destruíram diversas mudas de eucalipto de uma empresa transnacional que impede o fortalecimento da agricultura familiar para a produção de alimentos e para a geração de renda para os pequenos agricultores. Lembro-me também daquela mulher indígena que teve a ousadia de num ato extremo apontar um facão para o engenheiro da Eletrobrás que usava diversas mentiras para justificar numa audiência pública a construção ilegal da hidrelétrica de Belo Monte no Rio Xingu.
Por tudo isso, parafraseando o grande poeta Drumond, digo que olho as minhas companheiras mulheres neste início de século XXI e vejo que estão muitas taciturnas, mas nutrem grandes esperanças. Entre todas, considero a enorme realidade. Porém, também como Drumond, não serei a cantora de uma mulher, de uma história. Proponho na diversidade a construção de uma sociedade em que vivam mulheres, de todas as idades, de todos os lugares, de todas as culturas, fazendo um outro mundo possível, onde o poder seja somente o do cuidado, na e da perspectiva feminina. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas em mais um 8 de março, o de 2010!

Notas: 1. Delze dos Santos Laureano é advogada e professora universitária, mestre em Direito Constitucional pela Faculdade de Direito da UFMG, doutoranda em Direito Internacional em Direitos Humanos pela PUC-MINAS, Integrante da RENAP – Rede Nacional de Advogados Populares; e-mail: delzesantos@hotmail.com 2. Para ilustrar essa afirmação basta ver o grande número de situações de violência doméstica amparadas pela Lei Maria da Penha. 3. Em Belo Horizonte são exemplos as Comunidades Camilo Torres e Dandara, com mais de 1.000 famílias de “sem-teto e sem-terra” que estão conquistando na luta e na garra moradia popular e cidadania. Nessas duas ocupações as lideranças femininas são fortes e decisivas. 4. Temos como exemplo o Assentamento Pastorinhas do MST em Brumadinho, MG, liderado por mulheres camponesas que além da conquista da terra tem contribuído para uma educação em agroecologia em toda a região metropolitana de Belo Horizonte, especialmente para estudantes do ensino médio e superior. Cf. www.pastorinhas.blogspot.com 5. Conceito criado por Immanuel Wallerstein para retratar o Universalismo Europeu

Dom Total

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A aflição grega

A tragédia grega termina de uma forma ou de outra, no contribuinte alemão. No futuro próximo deveremos enfrentar o de certa forma peculiar sistema previdenciário grego, para não falar do italiano. O problema é não só a acumulação de dívida dos estados membros, mas uma desigualdade econômica crescente entre eles. A União Européia não pode abandonar a Grécia aos tubarões do mercado financeiro, nem tampouco, a Espanha, Portugal, Irlanda ou Itália. Tampouco expulsá-los. Ou seja, está condenada à solidariedade. A análise é de Michael Krätke

Michael Krätke

A União Européia é uma potência econômica mundial que se comporta como se não o fosse, algo que, mais do que uma necessidade, é um erro. Porque a comunidade de estados da Zona do Euro não pode se permitir abandonar a Grécia aos tubarões dos mercados financeiros, nem tampouco a Espanha, Portugal, Irlanda ou Itália (os chamados países PIIGS). É igualmente impossível expulsar um ou todos eles da união monetária. A UE não pode pois outra coisa que defendê-las: está condenada à solidariedade. Tanto faz de que forma se organize a ajuda financeira a Atenas; quando ela chegar, o Tratado de Maastricht estará praticamente condenado à morte. Pêsames estão proibidos.
Os países da zona do euro já não seguem mais à margem, à medida que terão de defender a moeda comum contra a especulação internacional. Quando o Euro foi introduzido em 1999, estabeleceram-se três dogmas incontestáveis, a saber: a política fiscal é ineficiente, a inflação virá motivada através das reservas monetárias e os mercados, quando o permitam, corrigirão os desequilíbrios de maneira automática.
Os governos de todo o mundo retomaram a política fiscal com a crise econômica que eclodiu em 2008. Para ocultar a queda dos mercados financeiros os submergiram em dinheiro barato, embora a inflação não tenha cessado. Em consequência, no terceiro ano da crise, tampouco há algo de novo a ser contado. Refutar os dogmas não implica ter certeza quanto a uma resposta à pergunta sobre como deveria ter sido no futuro a zona do euro e, em geral, a União Européia. Seguirá ela se movendo no compasso dos mercados financeiros, que tanto lhe está agradecendo pelo seu modo de resgatá-los da crise financeira mundial que eles mesmos causaram? Os europeus querem ser algo mais que um mercado de bens e capitais com mais liberdade de movimento para os cidadãos europeus?
O que quer o superestado europeu?
Em termos econômicos, a União Européia é o espaço geográfico mais fortemente integrado do mundo. Mais de 60% das exportações alemãs terminam em países vizinhos, cuja dependência do comércio exterior da própria União Européia se pode apenas diferenciar. Apesar disso, os países da zona do euro se comportam como se pudessem seguir desenvolvendo uma política econômica, financeira e social exclusivamente nacional. Uma ilusão, um dogma, tome-se como se quiser. Não é necessário tirar do armário o fantasma de um superestado europeu para poder conceber um federalismo em escala européia que seguisse o modelos dos EUA.
De maneira alguma a União Européia pode seguir agindo como se não fosse mais que um conglomerado de economias nacionais. Todos os indícios apontam que, caso se conseguisse esvaziar o nacionalismo das cabeças de seus países-membros, a União dos 27 seria vista como aquilo que já é. É por isso que, em primeiro lugar, necessita-se de uma reordenação das finanças da União Européia. Também se necessita de um orçamento europeu maior e de um Banco Central Europeu (BCE) que não seja apequenado pelo dono do Bundersbank alemão. Trata-se de obter um instituto da política econômica européia, em vez de esconder-se sob o biombo de dogmas monetaristas. Existem as condições para a criação de um Escritório europeu único de supervisão financeira e para uma legislação única para bancos e bolsas. A City de Londres, com certeza vai se queixar e gritar. O medo de uma regulação européia é em última instância a razão para que uma libra esterlina convalescente deixe de vagar perante as portas do museu da história da moeda. E existem, acima de tudo, as condições para o fim da loucura das competências em matéria de impostos a que cada país – também a rica República federal alemã – almeja, um idílio impositivo cujo objetivo é cortejar a graça da grande banca financeira internacional.
Quem salva o Estado?
No discurso dos políticos alemães prevalece a idéia de manter o contribuinte longe do perigo. De outra maneira iria se dar conta da política que, com bilhões procedentes dos impostos, salvou banco após banco – e com isso também a suas entidades irmãs no exterior. A tragédia grega termina de uma forma ou de outra, no contribuinte alemão. Nesta ocasião, não são senão os bancos alemães que se encontram na fila do despenhadeiro, já que seguradoras como a Allianz puseram somas consideráveis em empréstimos governamentais aos países do PIIGS, que perdem seu valor rapidamente. Enquanto isso, as altas finanças internacionais se beneficiaram esplendidamente de tudo, tendo na sua liderança os bancos de investimento de Wall Street e da City de Londres, às custas da miséria financeira de vários membros da UE (só o Goldman Sachs, ao menos 300 milhões de dólares).
Dever-se ia intervir tenaz e duramente nos “assuntos internos” dos Estados da UE. Daí a sensação de uma união econômica que capitula ante a lógica da união monetária. No futuro próximo deveremos enfrentar o de certa forma peculiar sistema previdenciário grego, para não falar do italiano. Teremos de nos perguntar se cada um de nossos sócios europeus pode se permitir o luxo de formar seus exércitos nacionais com latino-americanos. A proliferação de pequenos estados na grande Europa também aparece como contratempo e obstáculos a esses planos. A política comum de empréstimos do BCE pertence à união monetária, inclusive como política comum européia, que a Comissão européia deveria cuidar. Hoje, ambas estão em falta.
O problema é, contudo, não só a acumulação de dívida dos estados membros – os EUA e o Reino Unido têm cotas de déficit mais altas (ao redor de 13%) que Grécia, Portugal ou Itália -, mas uma desigualdade econômica crescente entre eles. Não deveria tolerar-se a existência de lugares pobres, tampouco na Alemanha, país que se permite ter a capital da Europa, com a maior população vivendo na pobreza. Para se enfrentar essas desigualdades será necessária uma equiparação das finanças européias e também uma redução da autoridade impositiva dos estados nacionais.
Acabamos de descobrir o estado como salvador do capitalismo em dificuldades. Falou-se de um renascimento do estado: um exagero delicioso, já que o estado nunca desapareceu. Agora, poucos meses depois, paira no ar uma pergunta: quem salvará o estado de sua crise financeira particular? Os bancos não farão nada, e os mercados financeiros vão à caça da oportunidade do século para depenar os estados mais ricos do mundo. Os estados só podem se salvar por si mesmos, ou serem salvos por outros estados. A zona do euro oferece, como nenhum outro lugar, as condições para isso. E se essas não estiverem dadas de pronto, deveriam então forjá-las e constituir a União Européia como uma comunidade que se liberou do jogo financeiro e ideológico dos mercados financeiros.

Michael R. Krätke é membro do Conselho Editorial de SinPermiso, é professor de política econômica e direito tributário na Universidade de Amsterdã, pesquisador associado ao Instituto Internacional de História Social dessa mesma cidade e catedrático de economia política e diretor do Instituto de Estudos Superiores da Universidade de Lancaster, no Reino Unido.
Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Agência Carta Maior – http://www.agenciacartamaior.com.br

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O país imaginário

LANÇADA NOS EUA, "UMA NOVA HISTÓRIA LITERÁRIA DA AMÉRICA" MAPEIA A FORMAÇÃO DA CULTURA NORTE-AMERICANA, DA COLÔNIA AOS DIAS ATUAIS

LEO ROBSON

Os EUA são, ao mesmo tempo, aquela coisa rara, um clichê complexo e uma coisa muito familiar, um conjunto de contradições: "uma nação sob Deus, indivisível", mas com uma dúzia de variedades de cristianismo, um produto do puritanismo e do iluminismo, uma colônia que virou superpotência igualmente definida por atos de violência e crença na liberdade, isolacionismo e intervencionismo, conformismo e autoconfiança.
Mas a maioria das pessoas não tem dificuldade para entender a ideia de uma América essencial -e até estável- e possui o que o crítico Greil Marcus, em "A New Literary History of America" [Uma Nova História Literária da América, Harvard University Press, 1.128 págs., US$ 49,95, R$ 91, editado com Werner Sollors], chamou de "senso do que é ser americano; o que significa, qual é o seu valor, qual seria o prêmio da vida no EUA".
A interação entre a heterogeneidade da América e sua aspiração à coerência é captada no texto da Declaração de Independência ("um povo"), no sistema de governo (uma República Federativa) e em seu nome adotivo (Estados Unidos).
Mas, se a América é um paradoxo, mais que uma hipocrisia, se possui unidade apesar de suas divisões, isso se deve a um processo claro, algo não exatamente incluído nos termos "sistema político", "democracia" ou "cadinho cultural".
O olhar estrangeiro
Esse processo distinto, essa coisa, e seus produtos na vida pública foram consistentemente notados por estrangeiros: Crèvecoeur, na década de 1780, Tocqueville, elogiando a participação civil nos anos 1830, James Bryce [historiador britânico], chocado pelo "poder solvente" dos EUA na década de 1880, Gunnar Myrdal [economista sueco] identificando "ideais gerais" entre o "credo americano" nos anos 1940.
E a admiração não parou. O crítico de arte Robert Hughes, que se mudou para Nova York em 1970, mas mantém a cidadania australiana, falou sobre "o tradicional gênio americano para o consenso, para seguir adiante fazendo compromissos práticos para suprir as verdadeiras necessidades sociais".
Uma antiga e incipiente fé nessa unidade e essência foi registrada no livre uso de "americano" como substantivo e adjetivo e, depois, em duas invenções quiméricas: o grande romance americano (1868 -uma empreitada pós-Guerra Civil) e o sonho americano (1931 -um oásis na Depressão).
Quando Crèvecoeur descreveu o norte-americano como receptor de um novo modo de vida, um novo governo e uma nova classe, ele estabeleceu os termos em que os EUA, suas tradições e sua cultura seriam discutidos.
D.H. Lawrence [escritor britânico, 1885-1930], em seu confuso "Estudos de Literatura Americana Clássica", elogiou obras como "O Último dos Moicanos" [de Fenimore Cooper] e "Moby Dick" [de Herman Melville] por produzirem uma nova voz, uma nova experiência e um novo sentimento. A tarefa definitiva da literatura americana foi engarrafar ou incorporar essa essência dos EUA.
Em "O Grande Gatsby", de Scott Fitzgerald [1896-1940], um romance que faz as duas coisas, Nick Carraway descreve Jay Gatsby "equilibrando-se sobre o painel de seu carro com a habilidade de movimento que é tão tipicamente americana", e este generaliza que "os americanos, enquanto dispostos, e até ávidos por serem servos, sempre foram obstinados por serem camponeses".
Fitzgerald não foi o único nessa missão. Como diz o britânico Martin Amis, "todo romancista americano ambicioso tenta genuinamente escrever um romance chamado EUA". A literatura americana, como a América, há muito se dedica a perseguir um destino independente do domínio ou da tutelagem britânicos.
Em 1837, Ralph Waldo Emerson fez sua palestra sobre "O Acadêmico Americano" na Universidade Harvard -uma declaração de independência literária logo cumprida por uma atarefada meia década (1850-55) em que Whitman, Melville, Hawthorne, Thoreau e o próprio Emerson produziram livros importantes. Emerson abriu caminho para uma literatura americana realmente americana.
No século 20, houve uma disparada, com dois períodos constantes de atividade heroica, primeiro nas décadas de 1920 e 30 (Eliot, Hemingway, Dos Passos, Fitzgerald, Faulkner) e, depois, no final dos anos 40 e 50, quando um leque improvável de autores talentosos realizou coisas milagrosas em poesia, teatro e, particularmente, no romance. Em 1946, o editor Max Perkins fez uma previsão acurada sobre o futuro da ficção americana: "Não sei se a forma do romance vai mudar muito, mas o espírito e a expressão, sim".
Essa mudança é muitas vezes creditada à frase inicial de "As Aventuras de Augie March", de [Saul] Bellow: "Sou um americano", e a frase continua reverberando por mais 40 palavras. E, se esse romance ávido e desimpedido constituiu um verdadeiro afastamento ou avanço, a juventude da ficção americana após a Segunda Guerra certamente pode ser atribuída a romancistas como Bellow, escrevendo sobre a vida judia em Chicago e Nova York, e John Updike [1932-2009], dando um reflexo proustiano à pobre Pensilvânia.
Também é o caso de Ralph Ellison e Gore Vidal, que forneceram os primeiros retratos das experiências negra e homossexual, respectivamente. As mudanças de forma vieram ligeiramente depois, com Gaddis, Pynchon, Barthelme e outros.
Confuso e magnífico
"Uma Nova História Literária da América" faz poucas referências a Updike e nenhuma a Max Perkins, além de exibir vários erros e ênfases indevidas. Não há um esforço sistemático para tratar dos momentos em que a literatura se precipitou na vida americana.
Não há nada sobre a visita de Charles Dickens, em 1842, nada sobre a confusão causada entre escritores e acadêmicos negros pelo romance de William Styron "As Confissões de Nat Turner" ou na comunidade judia pelos contos de Philip Roth "Goodbye, Columbus". Mas, mesmo assim, o livro é magnífico, uma prova da descrição feita por Robert Hughes dos EUA como "uma obra coletiva da imaginação cuja feitura nunca termina".
O livro viaja de Colombo e Vespúcio ao Katrina e a Obama; discute o dramaturgo Eugene O’Neill por meio do naufrágio do Titanic, o terremoto de San Francisco, em 1906, por meio de Jack London, a Grande Depressão via "The American Jitters" [Os Sobressaltos Americanos], de Edmund Wilson. Enquanto tentativas anteriores tenderam a hesitar sobre a palavra "literatura", Marcus e Sollors, cuja introdução parece uma resenha em êxtase, provavelmente vão longe demais na direção oposta.
Seu "literário" denota "não apenas o que é escrito, mas o que é falado, o que é expresso, o que é inventado de qualquer forma". O livro retorna à ideia da América, no cinema e na música, na literatura ou no jornalismo. Um problema endêmico nessa abordagem é que, de maneira crucial, a história literária é internacional.
Como colocou Borges: "Poe produziu Baudelaire, que produziu os simbolistas…". Mas um escritor é moldado tanto pela leitura quanto pela experiência.
Como estudante de 20 anos em 1935, Bellow aproveitava os longos trajetos de trem do oeste de Chicago até a Universidade Northwestern para mergulhar na tradução de Tolstói por N.H. Dole, em 12 volumes. Em sua imponente autobiografia "Timebends" [Dobras do Tempo], Miller lembra que, em um momento semelhante, estava lendo Tolstói e Dostoiévski, "os dois maiores autores que conheço", e "começando a amar" as tragédias gregas "assim como um homem no fundo de um poço ama uma escada".
Da diligência de Bellow e do amor de Miller surgiram "Agarre a Vida" e "A Morte de um Caixeiro-Viajante" [respectivamente], embora, é claro, a história tenha feito sua parte. "Uma Nova História Literária da América" erra pelo lado das lutas e do contexto, mas isso não a prejudica demais. Mas, em um livro que não traz quase nada sobre Updike, teria sido recompensador receber com mais força a impressão de que a América foi, como disse Updike, uma das "alunas estrelas" da língua inglesa. Pois, em grande parte da melhor prosa americana -em Emerson, Melville, Bellow, Updike-, encontramos a sensação de gratidão pela vida e pela linguagem, expressa em construções difíceis ou exóticas e sintaxe forçada, flexível.
Profecias
A identidade do livro como uma obra de história com sabor literário é confirmada no capítulo final, uma série de obras de arte inspiradas na eleição de Barack Obama, em 2008, cujo tema é a vida pública americana, mais que a literatura americana. As profecias para esta última são incertas: "O romance conservador pode ser uma invenção do futuro"; "talvez os autores asiático-americanos tenham descoberto um novo destino"; "resta ver se os acontecimentos de Salem fornecerão mais uma vez um modelo para novos romances e peças de autores americanos".
Houve certas evidências nos últimos anos de que o épico americano, a obra que se propõe definir ou canalizar os EUA, ainda é um grande prêmio, embora basicamente em filmes -("Gangues de Nova York", "Os Infiltrados", "Sangue Negro")- e na televisão -("Os Sopranos", "A Escuta").
Os escritores americanos que atualmente inspiram mais entusiasmo como escritores -John Ashbery, Philip Roth, Bob Dylan- nasceram na época de Hemingway, isto é, ainda não há uma figura mais jovem dominante de modo similar. Mas a literatura norte-americana resiste em ser descentrada. Ela precisa de artistas de força centrípeta, consumidora -assim como a América, se for continuar sua jornada de perpétua autorrevelação, para continuar definindo e descobrindo a si mesma.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo – http://www.uol.com.br

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Dom Pedro II na Terra Santa

1876: o diário do imperador registra seu encontro com 60 monges nas imediações de Jerusalém e sua decepção com o pouco apreço deles pelos fantásticos documentos que possuíam

Reuven Faingold


Biblioteca do congresso, Washington D.C.

O mosteiro de Saint Sabbas, que Impressionou o monarca brasileiro pela riqueza de sua coleção de manuscritos, em litografia de David Roberts de 1939

Quando foi à Terra Santa, D. Pedro II redigiu um diário que revela a curiosidade intelectual, a sensibilidade artística e o empenho do monarca em conhecer e compreender a humanidade. Escrito em 1876, retrata um homem despojado de mordomias que, apesar de rei, dormiu em barracas, hospedou-se em hotéis de quinta categoria, cavalgou horas a fio, arriscou-se a enfrentar beduínos, frequentou banhos turcos e colecionou souvenirs.
Guardados no Museu Imperial de Petrópolis (Diários 18-19, maço 37, doc. 1057), os relatos se referem à segunda viagem internacional do monarca, na qual ele visitou, em 18 meses, mais de cem cidades, em quatro continentes. D. Pedro II anotou impressões dos 24 dias no Líbano, Síria e Palestina otomana, percorrendo quase 500 quilômetros.
Trata-se de uma distância significativa para os recursos de transporte da época. Além disso, a comitiva real tinha mais de 200 pessoas. Providenciar água, comida, hospedagem e segurança para tanta gente exigia uma operação de guerra. Na época, D. Pedro já tinha 50 anos, mas não reclamou do cansaço, aproveitando cada minuto de sua peregrinação.
Em 29 de novembro de 1876, a comitiva brasileira passou por uma experiência única: o grupo visitou o imponente monastério de Saint Sabbas (456 d.C.), localizado nas montanhas de Moab, próximo de Jerusalém. O acesso a esse patrimônio era difícil – só possível caminhando ao longo das ribanceiras secas do rio Cedron.

Biblioteca do congresso, Washington D.C.

Foto do século XIX mostra o convento que a comitiva brasileira visitou em 1876: um labirinto de cavernas, câmaras e galerias no meio do deserto

O convento é um labirinto de cavernas, câmaras e galerias no meio do deserto. O padre Samuel Manning (1822-1881), que o visitou em 1873, afirmou: “Only an inmate of the convent can find his way from one part to another” (“Somente um morador do convento pode achar o caminho de um lugar a outro”).
Para fazer o tour por Saint Sabbas, a comitiva dividiu-se temporariamente, pois o percurso seria difícil, e o regimento do lugar proibia a entrada de mulheres. A imperatriz D. Teresa Cristina e as suas aias ficariam fora do passeio. Mais um obstáculo: ninguém seria recebido ali sem a permissão oficial do patriarca de Jerusalém.
O Diário de viagem à Palestina relata a solene entrada da comitiva no recinto, recebida com repiques e duas tochas acesas. O encontro de D. Pedro II com os frades foi tranquilo. O cheiro de incenso impregnava corredores, e 60 frades gregos esperavam-no com impaciência. O soberano apreciou bandos de melros, cujos ninhos ocupavam os buracos das ribanceiras e comiam nas mãos de frades. Rezavam em uma capela minuciosamente examinada pelo monarca e aproveitavam espaços do rochedo para construir suas casas de madeira e plantar flores e arbustos.
Em outro canto do convento, D. Pedro II distinguiu um dos símbolos do monastério: a histórica palmeira de Saint Sabbas, que segundo o imperador “é uma palmeira bastante alta que se curva para trás como que precisando do encosto da parede”.

Galeria nacional de Retratos, Londres

A escritora britânica Harriet Martineau, uma das poucas mulheres que visitaram Saint Sabbas, também expressou seu desapontamento com os moradores do local. Óleo sobre tela de Richard Evans, 1834


Já dentro do convento, D. Pedro II pediu para conhecer a biblioteca. Sob um silêncio constrangedor (os frades nada explicavam), folheou textos dos evangelhos, sermões e outros tantos livros sagrados guardados em uma pequena sala. Sua Majestade desejava mais informações sobre manuscritos de textos religiosos, porém nada obteve dos anfitriões.
Depois de muita insistência, o único frade que falava francês permitiu que Karl Henning (terceiro mestre de hebraico de Pedro II) examinasse uma outra coleção de livros. Ele garimpou os manuscritos desejados pelo imperador, cuja existência o frade negava. Segundo o Diário,“tal repugnância poder-se-á explicar pela vergonha que eles tenham de não haverem aproveitado, por ignorância, as riquezas literárias que possuam”.
As palavras do monarca ecoavam com força e indignação. Embora o Oriente Médio fosse francófono, apenas 1 dos 60 frades falava francês. Foi destacado como intérprete e acabou admitindo que ele, como os demais, não conhecia as valiosas coleções de manuscritos, passando por momentos de constrangimento intelectual.
Por meio dos relatos de Samuel Manning, um religioso inglês que visitou Saint Sabbas três anos antes da comitiva brasileira, sabe-se que os frades eram pouco hospitaleiros. Sobre o acervo, Manning fez no livro The holy fields: Palestine (Os campos santos: Palestina) observações semelhantes às do imperador: “Apesar de existir uma valiosa biblioteca, ela me parece completamente inútil, pois a maioria dos ascetas é incapaz de ler; e o seu único passatempo consiste em beber raki (licor de uva e anis) e alimentar pássaros e chacais, que são muito numerosos”.
A escritora britânica Harriet Martineau (1802-1876) também fez entre 1846 e 1847 uma viagem ao Oriente Médio. Estudiosa do antigo Egito e dos lugares bíblicos, ela foi das poucas mulheres a burlar o regulamento e visitar o convento, expressando desapontamento com seus moradores. Em um trecho da obra #Eastern life# (Vida oriental), de 1848, chegou a dizer: “The monks are too holy to be hospitable” (“Os monges são muito sagrados para ser hospitaleiros”).
Como se vê, as opiniões de D. Pedro II, Harriet Martineau e Samuel Manning coincidem: a ignorância e o despreparo cultural dos frades de Saint Sabbas eram gritantes. Após a visita ao convento, a comitiva brasileira rumou até Jerusalém.

Trecho do diário de viagem D. Pedro II à Palestina, em 29/11/1876


Reprodução

Programação das viagens internacionais do soberano no ano de 1876

“Saí as 5 ½ (5h30). A Imp.(Imperatriz), como não podem ir as liteiras a S. Sabbas e mesmo não entram Sras. no convento, segue o caminho de antes de ontem partindo mais tarde… O caminho daí até perto de S. Sabbas é terrível, atravessando-se gargantas horrivelmente pitorescas… Ao chegar ao convento caminha-se ao longo do Cedrón, cujas ribanceiras de pedra têm centenas de pés de altura… Os edifícios do convento estão agarrados à ribanceira direita do rio que se lança no Mar Morto… Receberam-me com repiques desde que me avistaram, e à entrada com duas tochas acesas. Os frades, que são 60, estavam me esperando. O que mais me agradou no convento, cuja regra é a de S. Basílio – são gregos cismáticos –, foi como os melros, que se abrigam nos buracos da ribanceira oposta, vêm comer na mão dos frades.
Num pequeno quarto, havia manuscritos dos Evangelhos e Sermões… Custou a obter do frade que falava francês, que deixasse o Henning examinar a outra coleção de livros de uma torre onde ele achou alguns manuscritos, apesar do frade asseverar que só existiam impressos. Tal repugnância poder-se-á explicar pela vergonha que eles tenham de não haverem aproveitado, por ignorância, as riquezas literárias que possuam… O convento é, por assim dizer, um meschakid de edifícios aproveitando as grutas do rochedo… Num canto mais abençoado, levanta-se uma palmeira bastante alta, mas que se curva para trás como que precisando de encosto na parede. Os frades deram-me doce, água e café e à 1 ¾ (13h43) parti. O caminho daí em diante não é tão pitoresco. Às 3 ¼ (15h30) já via Jerusalém, subia sempre mais ou menos atravessando diversas vezes o Cedrón, ou seguindo para dentro do seu leito até Jerusalém.”

Entre o dever e o desejo


Palácio Grão-Pará, Petrópolis / Reprodução

A última viagem do imperador à Europa, em 1887

Na segunda metade de seu reinado, entre 1871 e 1888, D. Pedro II fez três grandes viagens internacionais, hoje associadas a seu desejo de expandir conhecimentos – e, em alguma medida, de escapar do enfadonho exercício do poder. Os passeios incluíram América do Norte, Europa, África e Oriente Médio. Somadas todas as viagens, ele ficou fora do Brasil pouco mais de três anos e meio. Além de seus diários de viagem, o monarca deixou um imenso acervo de fotografias dos lugares, prédios e monumentos que visitou.
O historiador José Murilo de Carvalho, que escreveu a biografia do imperador (D. Pedro II – Ser ou não ser, editora Companhia das Letras), considera essas viagens grandes pistas para desvendar a personalidade real de Pedro de Alcântara, que, embora sentasse em um trono, era um homem simples e amante das artes. Fora do Brasil, ele podia se dar ao luxo de ser um apreciador comum de conferências, espetáculos e lugares históricos.

Reuven Faingold é historiador e educador com Ph.D. pela Universidade Hebraica de Jerusalém. Leciona no curso de pós-graduação do Departamento de História da Arte da Faap, em São Paulo e Ribeirão Preto. É sócio-fundador da Sociedade Genealógica Judaica do Brasil e membro do Congresso Mundial de Ciências Judaica

Fonte: História Viva – http://www2.uol.com.br/historiaviva/

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Guerra nuclear local, catástrofe global

As preocupações se fixam em Estados Unidos e Rússia, mas uma guerra nuclear regional entre Índia e Paquistão poderia ofuscar o Sol e matar de fome grande parte da humanidade

Alan Robock e Owen Brian Toon


Richard Lee

Há 25 anos, equipes internacionais de cientistas mostraram que uma guerra atômica entre os Estados Unidos e a União Soviética poderia resultar em um “inverno nuclear”. A fumaça dos vastos incêndios deflagrados por bombas lançadas sobre cidades e áreas industriais envolveria o planeta e absorveria tanta luz solar que a superfície terrestre ficaria fria, escura e seca. As plantas morreriam em escala global e nossas fontes de alimentos seriam extintas. No verão, as temperaturas superficiais registrariam valores de inverno. Uma discussão internacional sobre essa perspectiva sombria, alimentada em grande parte pelo astrônomo Carl Sagan, obrigou os líderes das duas superpotências a confrontar a possibilidade de que a corrida armamentista não ameaçava apenas sua própria existência, mas a de toda a raça humana. Todos os países, grandes e pequenos, exigiram o desarmamento.
O inverno nuclear foi fator importante para encerrar a corrida armamentista. Em retrospectiva, o ex-líder soviético Mikhail S. Gorbachev observou, em 2000, que “modelos elaborados por cientistas russos e americanos mostravam que uma guerra nuclear acarretaria um inverno nuclear extremamente destrutivo para toda a vida na Terra; essa informação foi um grande estímulo para nós, pessoas de honra e moralidade, agirmos”.
Por que discutir esse tema agora que a Guerra Fria acabou? Porque, à medida que outras nações adquirem essas armas, guerras atômicas menores, regionais, podem gerar uma catástrofe similar. Novas análises revelam que um conflito entre a Índia e o Paquistão, por exemplo, em que 100 bombas fossem lançadas sobre cidades e áreas industrializadas – apenas 0,4% das mais de 25 mil ogivas do mundo – produziria suficiente fumaça para aniquilar a agricultura global. Uma guerra regional faria um número incalculável de vítimas, inclusive em países distantes do confronto.

Guerra Regional Ameaça o Mundo
Ao elaborar modelos climáticos em computadores modernos, não só provamos que as ideias da década de 80 estavam corretas, como seus efeitos se fariam sentir durante pelo menos dez anos, muito mais que o previsto anteriormente. Por meio de cálculos que avaliam décadas inteiras e incluem os oceanos e toda a atmosfera – empreendimento viável graças aos velozes supercomputadores – constatamos que até a fumaça de uma remota guerra localizada seria aquecida e suspensa pela ação do Sol. As partículas permaneceriam durante anos na atmosfera superior, bloqueando a luz solar e, consequentemente, esfriando a Terra.
Atualmente, a Índia e o Paquistão podem ser os adversários mais preocupantes, capazes de detonar um conflito nuclear regional. Juntos, detêm mais de 100 bombas. E há outros países bem equipados, além dos Estados Unidos e da Rússia (que têm milhares de ogivas): China, França e Reino Unido dispõem de centenas dessas armas; Israel tem mais de 80; a Coreia do Norte, cerca de dez; e o Irã pode estar tentando fabricá- las. Em 2004, esse panorama levou Owen Brian Toon, um dos autores deste artigo, e mais tarde Rich Turco, da University of California, Los Angeles, ambos veteranos das investigações dos anos 80, a computar os possíveis efeitos ambientais globais de um confronto localizado. Como estudo de base, eles utilizaram uma hipotética agressão indo-paquistanesa.
De acordo com as estimativas mais recentes de David Albright, do Instituto para Ciência e Segurança Internacional, e de Robert S. Norris, do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais, a Índia tem entre 50 e 60 armas operacionais (com plutônio suficiente para 100) e o Paquistão, 60. Os dois países continuam a expandir seus arsenais, e seus testes nucleares indicam que a potência destrutiva das ogivas seria semelhante aos 15 quilotons (equivalente a 15 mil toneladas de TNT) da bomba lançada pelos Estados Unidos sobre Hiroxima.
Toon, Turco e Charles Bardeen, do Centro Nacional para Pesquisa Atmosférica, projetaram o que aconteceria se 50 bombas de Hiroxima fossem detonadas contra alvos nas áreas mais densamente povoadas do Paquistão e outras 50 atingissem a Índia. Algumas pessoas insistem que o uso de armas atômicas seria cirúrgico e moderado. Mas na esteira do subsequente caos e terror, e com as comunicações interrompidas, é duvidoso que os líderes limitem seus ataques de modo racional. Essa probabilidade é particularmente verdadeira para o pequeno Paquistão, que poderia ser rapidamente invadido em um conflito convencional. Peter R. Lavoy, da Naval Postgraduate School, por exemplo, ao analisar como poderia ocorrer um enfrentamento indo-paquistanês, argumenta que o Paquistão talvez seja obrigado a tomar uma decisão rápida e empregar todo seu arsenal atômico antes que a Índia ataque suas bases militares com forças tradicionais.

Evidentemente, esperamos que o número de alvos nucleares em qualquer guerra futura seja nulo, mas tanto os políticos como os eleitores devem saber o que é possível. Toon e Turco concluíram que mais de 20 milhões de pessoas poderiam morrer nos dois países em consequência das explosões, dos incêndios e da radioatividade – uma terrível carnificina. Eles também ficaram chocados ao constatar que isso geraria um tremendo volume de fumaça, considerando as megacidades nos dois países. Cada incêndio calcinaria uma área idêntica à que devastou Hiroxima, levando-se em conta a quantidade de material inflamável existente por pessoa. Com base em diversos estudos eles calcularam que as 50 bombas hipotéticas detonadas no Paquistão produziriam três teragramas de fumaça e as ogivas lançadas sobre a Índia, quatro teragramas (1 Tg corresponde a 1 milhão de toneladas).
Observações por satélite de incêndios florestais reais mostraram que a fumaça pode se elevar acima da troposfera (a camada inferior da atmosfera) e, às vezes, penetrar na estratosfera inferior (a camada imediatamente acima, que se estende por cerca de 48 km). Toon e Turco ainda fizeram alguns cálculos rápidos, com números aproximados, do possível impacto climático, caso a fumaça entre na estratosfera. A magnitude desses efeitos os levou a compreender que necessitavam da ajuda de um modelador climático.
Como se constatou, Robock já estava trabalhando com Luke Oman, do Centro de Voos Espaciais Goddard, da Nasa, que estava prestes a concluir seu Ph.D. na Rutgers University sobre os efeitos climáticos de erupções vulcânicas, e Georgiy L. Stenchikov, também da Rutgers, um dos autores do primeiro estudo russo sobre um inverno nuclear. Eles criaram um modelo climático que poderia ser aplicado de modo relativamente fácil para os cálculos das explosões atômicas.
Sendo conservadores, Robock e seus colegas utilizaram 5 Tg de fumaça em sua projeção da estratosfera superior sobre a Índia e o Paquistão, na data imaginária de 15 de maio. O modelo calculou como os ventos dispersariam a fumaça ao redor do globo e como as partículas de fuligem decantariam da atmosfera. A fumaça cobriu todos os continentes em duas semanas. O vapor negro e fuliginoso absorveu luz solar, esquentou e, consequentemente, subiu até a estratosfera. Como ali jamais chove, o ar nunca é purificado. E, por serem microscópicas, com um diâmetro de apenas 0,1 mícron (mm), as partículas de fuligem precipitam muito lentamente devido à resistência do vento. Mas durante o dia elas voltam a subir à medida que são aquecidas pelo Sol, criando um ciclo repetitivo que retarda sua eliminação. Os cálculos revelaram que a fumaça penetraria muito mais na estratosfera superior que as partículas de sulfato produzidas em ocasionais erupções vulcânicas. E, como são transparentes e em geral maiores que as de fuligem, medindo cerca de 0,5 mm, elas absorvem muito menos luz solar. Partículas vulcânicas permanecem suspensas durante aproximadamente dois anos, mas a fumaça de incêndios atômicos perduraria uma década.

Geadas Devastadoras no Verão
A reação climática à fumaça foi surpreendente. A luz solar diminuiu imediatamente e mergulhou o planeta em temperaturas muito inferiores a qualquer episódio registrado nos últimos mil anos. O resfriamento médio, cerca de 1,25ºC, durou vários anos e, uma década depois, a temperatura ainda estava 0,5ºC mais baixa que a normal. Os modelos também indicaram uma redução de 10% nos índices pluviométricos ao redor do mundo. Chuvas, cursos d’água e umidade do solo diminuíram porque o bloqueio da luz solar reduz a evaporação e enfraquece o ciclo hidrológico. As áreas de secas concentraram-se em grande parte nas latitudes mais baixas, pois o clima frio retardaria o padrão Hardley de circulação do ar nos trópicos, responsável por uma grande parcela das precipitações na Terra. Em regiões críticas, como as que recebem as chuvas de monções asiáticas, ocorreria uma redução de até 40%.
Esse resfriamento pode não parecer muito, mas até uma pequena redução da temperatura acarretaria graves consequências. Um clima mais rigoroso e menos luz solar, por exemplo, abreviariam os ciclos de crescimento das plantas em latitudes médias. Análises de maciças erupções vulcânicas também proporcionaram uma compreensão melhor de seus efeitos. De tempos em tempos, esses episódios violentos provocam uma queda de temperatura temporária, de um a dois anos. A mais intensa erupção dos últimos 500 anos ocorreu em 1815, no monte Tambora, na Indonésia. Na ocasião, o Sol foi eclipsado e o planeta resfriou cerca de 0,5ºC durante um ano – 1816 ficou conhecido como “o ano sem verão” ou “mil e oitocentos e morra congelado”. Embora a temperatura média de verão, na Nova Inglaterra, fosse apenas alguns graus mais baixa, a região foi castigada todos os meses por geadas devastadoras. Após o primeiro congelamento, os agricultores replantaram as lavouras, só para vê-las destruídas pela frente fria seguinte. Os preços dos cereais dispararam e os do gado despencaram, à medida que os fazendeiros vendiam os animais que não conseguiam alimentar. Houve uma migração em massa da Nova Inglaterra para o Centro-Oeste, impulsionada por boatos sobre a existência de terras férteis na região. Na Europa, o clima era tão frio e sombrio que o mercado de ações entrou em colapso. Ocorreram vastas epidemias de fome e Mary Shelley, de 18 anos, foi inspirada a escrever Frankenstein.
Certas variedades de sementes, como o trigo de inverno, resistem a temperaturas mais baixas, mas a ausência de luz solar inibe sua capacidade de desenvolvimento. Em nosso cenário, a luz do Sol passaria pela elevada camada de névoa enfumaçada, mas na superfície terrestre todos os dias pareceriam estar completamente encobertos. Agrônomos e fazendeiros não poderiam produzir as sementes necessárias, nem ajustar as práticas agrícolas às condições radicalmente diferentes, a não ser que soubessem com antecedência o que esperar.
Além do resfriamento, ressecamento e da escuridão, haveria uma extensa redução da camada de ozônio, à medida que a fumaça esquentasse a estratosfera, pois as reações que criam e destroem a ozonosfera dependem da temperatura. Michael J. Mills, da University of Colorado, em Boulder, trabalhou com um modelo climático completamente independente do de Robock e obteve resultados similares para a elevação da fumaça e as mudanças de temperatura estratosféricas. Mills concluiu que, embora a superfície terrestre resfriasse ligeiramente, a estratosfera seria aquecida em mais de 50ºC por que as partículas negras de fumaça absorvem luz solar. Esse aquecimento, por sua vez, modificaria os ventos na estratosfera, podendo levar óxidos de nitrogênio, destruidores de ozônio, até os limites superiores da camada. Juntos, as temperaturas elevadas e os óxidos de nitrogênio reduziriam a ozonosfera aos mesmos níveis perigosos que registramos hoje, todas as primaveras, embaixo do buraco de ozônio sobre a Antártida. Consequentemente, a radiação ultravioleta na superfície terrestre aumentaria significativamente.

 

Menos luz solar, índices pluviométricos baixos, frentes frias, ciclos de cultivo mais curtos e mais radiação ultravioleta limitariam ou eliminariam a produção agrícola. O resfriamento e a perda de ozônio seriam particularmente acentuados nas latitudes médias e altas nos dois hemisférios, enquanto o declínio de chuvas atingiria principalmente os trópicos.
Os danos específicos infligidos por cada uma dessas alterações ambientais dependeriam exclusivamente dos tipos de culturas e solos, das práticas agrícolas e dos padrões climáticos regionais. E nenhum pesquisador concluiu uma análise detalhada desses efeitos. Até em épocas normais a capacidade de alimentar a crescente população humana depende da transferência de alimentos por todo o globo para contrabalançar deficiências produtivas regionais, resultantes de secas e alterações climáticas sazonais. A quantidade total de cereais armazenada hoje no planeta alimentaria a população terrestre durante apenas cerca de dois meses (ver “Escassez de alimentos e ameaças à civilização”, Lester Brown, em Scientific American Brasil, edição 85, junho de 2009). Como a maioria das cidades e países só dispõe de estoques limitados a períodos muito curtos, a escassez de mantimentos (bem como o aumento dos preços) intensificou-se nos últimos anos. Uma guerra nuclear poderia desencadear quebras de produtividade quase simultâneas em todo o planeta e o pânico mundial possivelmente paralisaria o sistema global de comércio agrícola, acarretando uma severa carência em muitos lugares. Cerca de 1 bilhão de pessoas, que hoje sobrevivem com uma alimentação marginal, estariam ameaçadas diretamente de morrer de inanição no caso de uma conflagração indo-paquistanesa, ou entre outras potências atômicas.
Modelos Independentes
Em geral, cientistas testam modelos e teorias por meio de experimentos, mas nesse caso isso é obviamente impossível. Portanto, procuramos análogos que possam verificar nossas projeções.
Cidades incendiadas – Infelizmente, tempestades de fogo criadas por intensas liberações de energia já ejetaram vastas quantidades de fumaça na atmosfera superior. São Francisco ardeu em chamas em razão do terremoto de 1906 e, durante a 2a Guerra Mundial, cidades inteiras foram incineradas, inclusive Dresden, Hamburgo, Tóquio, Hiroxima e Nagasaki. Esses acontecimentos confirmam que a fumaça de intensas combustões urbanas sobe até a atmosfera superior.

Time & Life Pictur es Getty Images (monte Pinatubo); Corbis (camadas de partículas)

ACONTECIMENTOS REAIS, como explosivas erupções vulcânicas e gigantescos incêndios florestais,ajudam a verificar simulações que preveem as consequências de uma guerra nuclear.Em 1991, o monte Pinatubo expeliu cinzas a quilômetros de altura (acima), que subsequentementeformaram camadas distintas de partículas que circunavegaram o planeta (abaixo).


O ciclo sazonal – No inverno, o clima é mais frio por que os dias são mais curtos e a luz solar, menos intensa. A simples mudança sazonal nos ajuda a quantificar os efeitos dessa redução.
Nossos modelos climáticos recriam bem o ciclo das estações e confirmam que eles refletem adequadamente as mudanças de intensidade da luz solar.
Erupções – Atividades vulcânicas explosivas, como a do Tambora, em 1815, do Krakatoa, em 1883, e do Pinatubo, em 1991, nos ensinam muita coisa. Ventos espalharam ao redor do globo as nuvens de aerossóis de sulfato que se formaram na estratosfera. Após cada erupção, a temperatura superficial despencou proporcionalmente à densidade das nuvens de partículas.
Depois da erupção do Pinatubo, a temperatura média da superfície terrestre caiu cerca de 0,25ºC. O índice pluviométrico global, os cursos d’água e a umidade dos solos minguaram em escala planetária. Nossos modelos reproduzem esses efeitos.
Incêndios florestais – Ocasionalmente, a fumaça resultante de grandes incêndios florestais é injetada na troposfera e na estratosfera inferior. Ela é transportada por grandes distâncias e causa resfriamento. Nossas projeções também espelham essas consequências. Extinção dos dinossauros – Um asteroide se espatifou na península de Yucatán, no México, há 65 milhões de anos. A nuvem de poeira resultante do impacto misturou-se com a fumaça de incêndios, bloqueou o Sol e exterminou os dinossauros. Os efeitos podem ter sido exacerbados por um intenso e simultâneo vulcanismo na Índia. Esses fenômenos nos ensinam que grandes quantidades de aerossóis na atmosfera terrestre podem alterar o clima tão drasticamente a ponto de matar espécies robustas.
Utilizamos essas analogias no passado para testar e aprimorar nossos modelos, mas esperamos que mais pessoas realizem novos estudos. Modelos independentes, que verificassem ou contrariassem os nossos, seriam muito instrutivos. Estudos de impactos ambientais, que não realizamos, seriam particularmente bem-vindos.

Abolição: a única política
As pessoas têm várias noções incorretas sobre o inverno nuclear. Uma delas é que os efeitos climáticos foram invalidados. Isso simplesmente não é verdade. Outra é que o mundo passaria por um “outono nuclear”, em vez de um inverno. No entanto, nossos cálculos mostram que as consequências climáticas de um conflito regional seriam amplas e severas. Os modelos e computadores utilizados na década de 80 não tinham a capacidade de simular a elevação e a persistência da fumaça, nem o longo tempo para o reaquecimento dos oceanos quando ela finalmente se dissipasse. As projeções atuais de uma guerra atômica em escala total prevêem um inverno, não um outono nuclear.
Outra impressão equivocada é que o problema, mesmo que existisse, foi solucionado com o fim da corrida armamentista. De fato, arsenais atômicos americanos e russos remanescentes após as reduções de 2012 ainda poderiam gerar rapidamente um inverno nuclear. Além disso, o crescente número de nações nucleares aumenta as chances de um conflito deliberado ou acidental. Por exemplo, a Coreia do Norte ameaçou declarar guerra caso o mundo interditasse seus navios para inspecioná-los em busca de materiais atômicos. Felizmente, o país ainda não dispõe de um arsenal operacional, mas poderá ter um de alcance global, no futuro próximo. Na Índia, após os recentes atos terroristas, alguns líderes extremistas defendem um ataque nuclear contra o Paquistão. E, como a Índia poderia invadir seu vizinho rapidamente com forças convencionais, seria concebível que Islamabad desfechasse uma ofensiva nuclear preventiva se acreditasse estar na iminência de uma guerra. O Irã prometeu destruir Israel, potência atômica que jurou jamais permitir que os iranianos se nuclearizassem. Todos esses exemplos representam nações que se consideram sob constante ameaça. Essas áreas voláteis têm o potencial de explodir subitamente.
O primeiro ataque nuclear em 1945 chocou tanto o mundo que, apesar do intenso armazenamento de armas atômicas, nunca mais houve algo semelhante desde então. O único modo de anular a possibilidade de uma catástrofe climática é eliminar esses arsenais. Uma rápida redução das ogivas americanas e russas constituiria um exemplo para o resto do mundo de que armas nucleares não podem ser utilizadas e são desnecessárias.
No Tratado sobre Reduções Estratégicas Ofensivas (SORT, na sigla em inglês), os Estados Unidos e a Rússia se comprometeram a limitar o número de ogivas estratégicas posicionadas entre 1,7 mil e 2,2 mil cada um até o fim de 2012. Em julho de 2009, o presidente Barak Obama e seu colega russo, Dmitry Medvedev, concordaram em reduzir ainda mais essa margem – de 1,5 mil a 1,7 mil até 2016. Embora arsenais estratégicos menores sejam louváveis, nossos resultados mostram que até números mais modestos são muito mais que suficientes para destruir a agricultura em todo o mundo. Uma guerra atômica regional também. Se essa carga explosiva fosse utilizada contra alvos urbanos, centenas de milhões de pessoas seriam obliteradas da face da Terra e colossais 180 Tg de fumaça seriam enviados para a estratosfera global. As temperaturas médias se manteriam abaixo de zero durante anos nas principais regiões agrícolas, inclusive no verão. Até as ogivas transportadas por um único submarino armado com mísseis poderiam produzir fumaça suficiente para gerar um desastre ambiental de escala planetária.

Charles Dharapak AP Photo

Os presidentes Barak Obama e Dmitry Medvedev, da Rússia, assinam acordo, em julho de 2009, parareduzir o número de ogivas nucleares estratégicas posicionadas por nação. Novos cortes poderiaminspirar todos os países atômicos a diminuir drasticamente as armas atômicas em todo o mundo.


A combinação de proliferação atômica, instabilidade política e demografia urbana pode constituir um dos maiores perigos para a estabilidade da sociedade desde o alvorecer da humanidade.
Somente a abolição das armas nucleares evitará um pesadelo em potencial. A imediata redução dos arsenais americanos e russos, aos níveis dos de outras potências atômicas (algumas centenas), manteria seu poder de dissuasão, reduziria a possibilidade de um inverno nuclear e encorajaria o resto do mundo a continuar trabalhando pela eliminação total.
Barak Obama entende essa lógica. Em sua primeira coletiva à imprensa como presidente dos Estados Unidos, em 9 de fevereiro de 2009, declarou: “É importante para os Estados Unidos, em comum acordo com a Rússia… reiniciar as conversações sobre como podemos começar a reduzir nossos arsenais nucleares de um modo efetivo para que então estejamos em posição de ir a outros países e começar a recosturar os tratados de não proliferação”. Depois, no dia 24 de setembro, Obama presidiu uma importante sessão do Conselho de Segurança da ONU, que aprovou uma resolução para aumentar os esforços a fim de livrar o mundo de armas nucleares. Os resultados de nossos modelos apenas fortalecem as razões para apoiar novos progressos nessa política.

Alan Robock é professor de climatologia da Rutgers University e diretor-associado do Centro de Previsão Ambiental da instituição, onde estuda muitos aspectos das mudanças climáticas. é fellow da Sociedade Meteorológica Americana e integrante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas.
Owen Brian Toon preside o Departamento de Ciências Atmosféricas e Oceânicas da University of Colorado, em Boulder, e é fellow do Laboratório para Física Atmosférica e Espacial da instituição. É membro-associado da Sociedade Meteorológica Americana e da União Geofísica Americana.

Fonte: Scientific American Brasil – http://www2.uol.com.br/sciam/

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Amigos Imaginários

Uma em cada três crianças nutre temporariamente uma relação existente apenas na fantasia – o que não é motivo para preocupação

Inge Seiffge-Krenke


John Lund/Stone/Getty images

Vivemos tempos em que conversar com gente que nunca vemos não é nada incomum: perambulamos por chats, blogs e twitter e trocamos informações e segredos com pessoas com quem mantemos relacionamentos virtuais, às vezes bastante íntimos. Mas e quando uma criança “cria” um amigo imaginário – brinca, fala e até mora com ele, como se fosse real? Esse fenômeno, que surge principalmente entre 3 e 7 anos, não é tão raro. Quando pais e educadores percebem a existência desses companheiros invisíveis quase sempre ficam preocupados. Uma mãe escreve em um fórum on-line: “Nosso filho de 5 anos tem falado há três dias de ‘sua amiga Pia’. Ela só existe em sua imaginação, mas parece ser absolutamente real para ele. Ele se comporta como se pudesse vê-la! Nós não tivemos esse tipo de experiência com sua irmã três anos mais velha. A amizade com ‘Pia’ parece fazer bem ao nosso filho, mas nós nos preocupamos mesmo assim. Será que devemos deixá-lo com sua fantasia ou tentar convencê-lo a abandoná-la?”.
Mas os pais podem respirar aliviados, pois todos os estudos sobre esse fenômeno chegam ao mesmo resultado: não há motivo para preocupações! Os amiguinhos imaginários têm sido estudados de forma intensiva há muito tempo, nos últimos 100 anos, mas poucos psicólogos se dedicaram a esse tema. E há um ponto em comum: todos concordam que os amigos imaginários estimulam o desenvolvimento das crianças, podem suprir eventuais lacunas afetivas e ajudam na elaboração de questões psíquicas.
Para os mais novos, o amigo “de mentirinha” é quase sempre um companheiro de brincadeiras que pode estar “presente” também à mesa na hora das refeições, ser chamado pelo nome, mas não raramente acompanha a criança durante todo o dia. Alguns pesquisadores afirmam que praticamente todos nós temos um parceiro imaginário em um determinado estágio do desenvolvimento – porém, ele quase nunca é descoberto pelos adultos e a própria pessoa normalmente não se lembra disso mais tarde.
Os acompanhantes invisíveis são frequentemente crianças da mesma idade de seus criadores – como, por exemplo, Sebastian Nigge, o amigo imaginário de Madita, personagem do livro de mesmo nome, de Astrid Lindgren. Podem ser também animais, magos ou super-heróis. Alguns cabem no bolso e podem ser levados para todo lugar – como o canguru invisível Pantouffle no filme de Hollywood, Chocolate, de 2000, dirigido por Lasse Hallström.

Conrad/Divulgação

Quadrinhos: bichos de pelúcia, como o tigre Haroldo, companheiro de Calvin, ganham vida e personalidade


Os pequenos também dão vida a um bicho de pelúcia ou a uma boneca de que gostam muito ao lhe atribuírem personalidade própria. Com isso, os amigos visíveis como Hobbes (ou Haroldo na versão brasileira) – o tigre de pano dos quadrinhos americanos Calvin e Haroldo – também se tornam companheiros imaginários. Os estudos nos quais esse artigo se baseia concentram-se, porém, no fenômeno dos amigos totalmente invisíveis e semelhantes aos seres humanos.
Uma das primeiras descrições do fenômeno é um estudo publicado no século XIX, em 1895, feito pela pedagoga Clara Vostrovsky, da Universidade Stanford: o caso de uma garotinha que teve vários amigos imaginários até a idade adulta. Desde então, novos estudos mostravam que entre 20% e 30% das crianças têm, pelo menos temporariamente, um ou mais acompanhantes invisíveis.
Não raro, pais, professores e terapeutas incomodam-se não apenas com o fato de as amizades imaginárias serem mantidas por um longo tempo, às vezes por anos, mas também com a nitidez com que as crianças parecem ver seus amiguinhos. Mas os pequenos sabem muito bem que seus parceiros não são reais e que só existem em sua imaginação. Ou seja: essas criações psíquicas podem ser claramente diferenciadas de fantasias patológicas, que ocorrem, por exemplo, nas psicoses. A criança nunca se sente indefensavelmente dominada pelo amigo que criou – pelo contrário, pode modelar, modificar e manipular sua invenção como quiser. E também determinar a duração desse “relacionamento”.
Companheiros imaginários podem ter funções variadas. Algumas crianças e jovens iniciam essa amizade quando se sentem sozinhos. O estudo de 2004 de um grupo de trabalho coordenado pela psicóloga Marjorie Taylor, da Universidade de Oregon, também aponta nessa direção. Os pesquisadores entrevistaram 152 crianças em idade pré-escolar e descobriram que aproximadamente 70% com idades entre 5 e 6 anos que tinham amigos imaginários eram primogênitos ou filhos únicos.

Estudos anteriores desse mesmo grupo com crianças e adolescentes mostraram que amigos imaginários apareciam principalmente quando surgiam mudanças drásticas: a mãe ficava grávida ou um irmãozinho nascia; quando um dos pais estava ausente devido a frequentes estadias no hospital ou depois que uma pessoa considerada referência afetiva morria. Também no caso de separação dos pais ou de amizades que se rompiam, por exemplo, devido a uma mudança de casa, os amigos imaginários ajudavam na superação. Pesquisadores relatam o caso de uma menina de 10 anos que sofria de grande solidão. Sua mãe estava em tratamento havia dois anos, devido a uma forte depressão, e desde então a menina ficava frequentemente
sozinha e tinha de cuidar de si mesma. Nessa situação, ela inventou um irmão imaginário totalmente dependente dela, ao qual ela dispensava atenção materna – assim como provavelmente gostaria de ter sido tratada. Às vezes, passava dias deitada na cama, mergulhada em uma conversa interminável com seu irmão invisível. Quando a mãe recebeu alta e voltou para casa, ele desapareceu de um dia para outro.
De tempos em tempos, portanto, crianças e adolescentes compensam a realidade com a ajuda providencial do parceiro imaginário e assim combatem sentimentos de abandono, solidão, perda ou rejeição. É possível, assim, desfrutar de um relacionamento de amor e apoio, além de companhia – independentemente das circunstâncias externas. Como consequência, essas figuras quase sempre desaparecem assim que a criança encontra amigos reais ou se adapta à nova situação.
Essa função pode explicar por que também pessoas idosas têm eventualmente amigos imaginários – o que até agora quase não foi estudado. O psiquiatra canadense Kenneth Shulmann relatou em 1984 o caso de três pacientes com mais de 80 anos que haviam perdido pessoas queridas recentemente. Os três fizeram seus companheiros falecidos reviverem em sua imaginação, embora evitassem falar sobre o assunto com outros, o que foi avaliado por Shulman como um indício de que eles tinham consciência da natureza ficcional de suas criações.

 

Divulgação

Madita, personagem do filme You are crazy, Madiken (1984): os pequenos sabem que seus parceiros não são reais, o que é um diferencial das fantasias psicóticas


PRAZER E COMUNICAÇÃO
Em seus extensos estudos sobre o desenvolvimento da inteligência infantil, o psicólogo suíço Jean Piaget (1896-1980) também deparou com os amigos imaginários. Ele os interpretou como uma forma especial do jogo simbólico. Segundo o estudioso, em situações lúdicas uma realidade estranha seria construída: as crianças fingem e desempenham papéis. Piaget relatou sobre o companheiro imaginário de sua filha de 3 anos, Jacqueline. O personagem dominou a atenção da menina durante dois meses, ajudava-a em tudo o que estava aprendendo, estimulava-a a respeitar regras e a consolava quando estava triste. De repente, desapareceu.
Piaget não atribuiu a criação do amigo de sua filha à solidão ou a condições de vida difíceis. Via nele muito mais uma prova de criatividade e prazer comunicativo. Essa ideia foi comprovada mais uma vez em 2008 por um estudo dos psicólogos Anna Roby e Evan Kidd, da Universidade de Manchester. Eles testaram a capacidade linguística de 44 crianças em idade pré-escolar e escolar. Aquelas que tinham um companheiro imaginário costumavam se expressar melhor e se colocar no lugar do interlocutor, o que faziam inclusive com prazer. Um estudo que realizei com 241 adolescentes em 2000 teve resultado semelhante: os jovens com amigos imaginários apresentaram mais qualidades sociais, como empatia, do que aqueles sem um acompanhante invisível.
Estudos sobre comportamentos lúdicos comprovam que principalmente crianças maduras e psicologicamente estáveis têm amigos imaginários. Assim, o sociólogo britânico David Finkelhor, da Universidade de New Hampshire em Durham, nos Estados Unidos, foi um dos pesquisadores que demonstraram que quanto pior for o estado físico e psíquico das crianças, menos serão capazes de brincar. O abuso ou a negligência fazem com que a imaginação se atrofie e inibem a propensão ao jogo – em geral, essas crianças não criam acompanhantes imaginários.
Os amigos inventados, porém, podem surgir quando a criança tem dificuldades em se submeter às regras dos adultos. Então o parceiro virtual simplesmente se permite fazer aquilo que é proibido a seu criador. Obviamente, os novos amigos são os culpados quando os pais descobrem a lata de bolachas saqueada ou são vítimas de alguma traquinagem. Muitas crianças até mesmo punem seus cúmplices invisíveis pelos delitos – o que naturalmente não impede os amigos de voltar a se portar mal.

Divulgação

Sucesso da Broadway nos anos 40, a comédia Meu amigo Harvey foi transformado em filme em 1950: protagonista é acompanhado por um coelho branco invisível de 2 metros de altura


Os parceiros inventados cumprem função semelhante quando servem de conselheiros morais. Quando estão na pré-escola, as crianças ainda precisam de um interlocutor externo para se certificar de que estão agindo de forma correta. Nesse caso, um amigo imaginário pode ocupar essa brecha. Geralmente, eles surgem em períodos em que seus criadores realizam grandes saltos de desenvolvimento cognitivo e oferecem às crianças a possibilidade de expressar sentimentos e impulsos.
Geralmente amigos imaginários tomam forma a partir do terceiro ano de vida, quando já é possível diferenciar entre o eu e o outro. Em 1988, o psicólogo Paul Harris, da Escola de Medicina de Harvard em Boston, acompanhou 221 crianças com o objetivo de detectar quão bem podiam separar a fantasia da realidade. Por volta dos 3 anos não havia mais confusões entre pessoas reais e inventadas, fossem seres imaginados por elas mesmas ou figuras de contos de fadas, histórias ou filmes.
A fantasia e a criatividade se modificam no decorrer do desenvolvimento. Crianças em idade pré-escolar frequentemente mostram aptidão para o chamado jogo ilusório ou ficcional, no qual partindo de poucos traços um objeto ou um personagem são construídos. Assim, uma fileira de cadeiras se transforma, por exemplo, em um “trem” num piscar de olhos. Na idade escolar a criatividade aumenta e, na adolescência, alguns jovens começam a escrever diários, uma forma muito particular de vivenciar a própria criatividade e imaginação. Para atingir esse estágio é necessário primeiramente uma compreensão madura da intimidade: crianças ainda não diferenciam entre informações “privadas” e “públicas”. Somente por volta dos 10 anos é possível compreender o que significa privacidade. Dessa fase em diante as informações sobre a própria pessoa ou sobre outros podem ser conscientemente mantidas em segredo ou manipuladas. Cerca de 40% das meninas confiam seus pensamentos pessoais a um diário (no caso dos meninos da mesma idade, esse índice é claramente mais baixo).
Com o aumento da idade, altera-se não apenas a percepção de si mesmo e das importantes pessoas de referência, mas também dos companheiros imaginários. Crianças de 4 a 6 anos, por exemplo, caracterizam muitas vezes a si mesmas e a outros por meio de atividades ou traços externos: “sou loiro”, “brinco com carrinhos”. Somente na adolescência usam aspectos da personalidade para se descreverem: “sou tímida” ou “sou generosa”. Esse conhecimento sobre a própria pessoa surge somente por meio das relações com outros, que se tornam cada vez mais significativas com o passar dos anos.

Não apenas as amizades reais, mas os companheiros imaginários também se modificam com o tempo, como demonstrou uma avaliação de vários estudos de longo prazo realizada por mim em 2008. No período pré-escolar são características as relações embasadas em uma interação física momentânea: “Somos amigas porque nós duas gostamos de brincar de boneca!”. Por volta dos 7 ou 8 anos os parceiros recebem e oferecerem ajuda – nessa fase a amizade orienta-se principalmente por vantagens próprias. Mas as crianças já atentam para um relativo equilíbrio de poder: “Eu te empresto minha bicicleta se você me deixar brincar com a sua bola”. Esses relacionamentos são mantidos também com os amigos imaginários.
No início da adolescência, por volta dos 12 anos, a troca emocional com o amigo ou amiga torna-se importante, os companheiros conversam essencialmente sobre problemas. A quebra da confiança é, nesse estágio, o motivo mais frequente para o término da amizade: jovens esperam que um bom companheiro lhes faça confidências e que saiba ouvir e guardar segredos. As meninas valorizam a confiança mútua nas amizades mais do que os meninos e tendem a contar suas experiências íntimas umas às outras.
Essas modificações resultam em uma exclusividade crescente das relações: enquanto crianças mais novas ainda brincam com qualquer um, sem selecionar, o círculo de amizades torna-se posteriormente cada vez mais restrito a poucos com visões de mundo semelhantes e com estes é possível estabelecer trocas mais afetivas. O aumento da necessidade de adolescentes de uma “alma irmã” explica por que nessa faixa etária quase sempre jovens solitários criam companheiros imaginários: para se consolar e não se sentir tão sozinhos.
Em minhas análises de entrevistas com centenas de adolescentes ficou claro que os amigos imaginários frequentemente surgem nos diários dos jovens. Os autores têm longos diálogos com seus parceiros invisíveis: os chamam pelo nome, contam fatos vividos em detalhes (“obviamente, você não poderia saber…”, “esqueci de contar…”) e ao fim da conversa sempre se despedem deles. Em nossa amostra, isso ocorreu em um terço dos diários de meninos e em até 60% das meninas. Os jovens refletiam muito sobre o relacionamento com seus companheiros imaginários e depois anotavam as reflexões em forma perguntas ou comentários. Muitas vezes, eles também convidavam o interlocutor a assumir, criticar ou julgar seu próprio ponto de vista.

Nesses casos, tinham evidentemente uma ideia muito exata de seus amigos inventados. Curiosamente, os jovens de ambos os sexos escolhem amigas imaginárias com mais frequência – 75% dos meninos e 61% das meninas – e inventam uma pessoa que se assemelhe a eles em traços essenciais. Rapazes muitas vezes criam uma cópia feminina perfeita de si mesmos, que se assemelha a eles não apenas em idade e aparência, mas também em personalidade. As meninas, por sua vez, criam ocasionalmente parceiras que se diferenciam delas em características importantes.
Com o aumento da idade, traços centrais da personalidade do amigo se modificam – assim como os do próprio autor –, às vezes ele recebe até um novo nome. Aqui, um exemplo de Tina, de 18 anos: “Durante um tempo, eu a chamei de ‘Cordula’. Agora ainda escrevo para ela, só que não mais de forma tão personificada – quase sempre sem um nome, mas ainda me refiro a ela”.
No decorrer da adolescência, os parceiros invisíveis parecem se tornar menos nítidos, adolescentes mais velhos quase não os mencionam. Aliás, entrevistamos escritores de diário mais uma vez alguns anos mais tarde e contatamos que realmente pouquíssimos conseguiram lembrar-se de seus amigos imaginários! Se o acompanhante imaginário cumpriu sua função, ele aparentemente não só é deixado de lado, mas também esquecido – um sinal de que as crianças conseguiram dar mais um passo em seu desenvolvimento de forma criativa.

Uma Menina Adorável

Em uma análise de diários de adolescentes publicada em 2000, percebi que o amigo inventado quase sempre tem um nome, é de um sexo determinado e tem aparência bem definida e traços de personalidade específicos que a criança ou o jovem pode modificar no decorrer do tempo. Nos diários encontram-se algumas descrições muito detalhadas desses personagens virtuais. Segue um trecho das anotações pessoais de uma menina de 15 anos:
“Kathrin é uma menina adorável que se move de forma encantadora. Ela é muito bonita quando está feliz. Ela tem os olhos castanho-escuros mais inacreditáveis que já vi em minha vida, muito expressivos – às vezes, como estrelas, depois, como o mar Morto, tão profunda, quieta e triste. Mas isso é apenas o que uma amiga pode ver na aparência. Através de seus olhos eu consigo olhar exatamente dentro dela, mas mesmo assim sei muito pouco sobre sua verdadeira vida interior. Por exemplo, não sei como é realmente a sua relação com Deus – portanto, eu poderia me enganar. O que mais a Kathrin é? Inteligente, decidida, apaixonada, solícita, às vezes um pouco difícil de entender, às vezes ela realmente é como uma mãe para todos, mas ela é assim e sem isso ela não seria a Kathrin. Então, há épocas em que eu tenho impressão de que ela realmente faz tudo perfeito, e fico feliz quando acho um defeito. Além disso, ela é muito calada e precisa de muito tempo para confiar em alguém. Ela parece combinar muitas coisas com Deus, a quem ela aparentemente é muito ligada”.

Inge Seiffge-Krenke é psicóloga; dirige o Departamento de Psicologia do Desenvolvimento do Instituto Psicológico da Universidade de Mainz na Alemanha.

Fonte: Mente e Cérebro – http://www2.uol.com.br/vivermente

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