Vitória dos ‘herdeiros de Pinochet’ condicionará o cenário latino-americano

Atilio A. Boron

Para a Concertação, o triunfo da direita (na realidade, sua variante mais virulenta, a pinochetista) nas eleições presidenciais chilenas poderia ser considerado mais um exemplo da "crônica de uma morte anunciada". A progressiva assimilação do legado ideológico da ditadura militar pelos principais quadros da aliança democrata-cristã-socialista fez com que a distinção entre a Concertação e os herdeiros políticos do regime militar (a ‘Renovação Nacional’, em sua ala ‘moderada’, se é que um pinochetismo moderado pode ser outra coisa que não um absurdo e a União Democrática Independente, seus batalhões mais cavernícolas) fosse se desvanecendo até tornar-se imperceptível para o eleitorado. Fernando Henrique Cardoso, melhor sociólogo que presidente, gostava de repetir a seus alunos que "no final das contas, os povos sempre vão preferir o original à cópia". E tinha razão. Neste caso, o original era o pinochetismo e seu herdeiro, Sebastian Piñera; a Concertação e seu inverossímil candidato, a cópia.

Trata-se de um exagero injusto? De jeito nenhum. Escutemos o que dizia Alejandro Foxley, que entre 1990 e 1994 se desempenhou como Ministro da Fazenda do governo de Patrício Aylwin, nem bem inaugurada a "transição democrática". Nesse cargo, Foxley se esmerou em preservar e aprofundar o rumo econômico imposto pela ditadura. Senador pela democracia cristã entre 1998 e 2006 e ministro de relações exteriores do governo de Michelle Bachelet entre 2006 e 2009, toda sua atuação política esteve marcada por uma incondicional submissão às orientações estabelecidas por Washington e seus representantes locais no Chile. Este altíssimo representante da Concertação declarava em maio de 2000 que "Pinochet realizou uma transformação, sobretudo na economia chilena, a mais importante que houve neste século. Teve o mérito de se antecipar ao processo de globalização… Há de se reconhecer sua capacidade visionária para abrir a economia ao mundo, descentralizar, desregular etc. Essa é uma contribuição histórica que vai perdurar muitas décadas no Chile… Além do mais, passou no teste do que significa fazer história, pois terminou mudando o modo de vida de todos os chilenos para bem, não para mal." Pinochet visionário, Pinochet criador do Chile moderno, Pinochet mudando o Chile para bem! Os horrores do pinochetismo com sua seqüela de milhares de mortos, desaparecidos, torturados, assassinados, com as liberdades suspensas, o terrorismo de Estado e a violação sistemática dos direitos humanos, tudo é malandramente acobertado na sofisticação do tecnocrata "progressista".

Com lideranças que sustentavam um discurso como esse (que muitos compartilhavam, porém poucos se atreviam a manifestar com tanto descaro) e com políticos que, em muitos casos, foram abertamente golpistas e facilitadores do golpe que perpetraria Pinochet em 1973 (coisa que alguns parecem ter esquecido), poderia a Concertação ser crível como uma alternativa de superação ao pinochetismo? Na verdade, o que deveria se encontrar é a razão pela qual a cidadania chilena não se decidira muito antes a substituir a cópia pelo original.

No entanto, a continuidade entre o pinochetismo e seus sucessores "democráticos" não se verifica tão somente na admiração, aberta ou envergonhada, pela obra e o legado histórico de Pinochet. Também se demonstra nas políticas econômicas "pró-mercado" e "pró-investimento" (e, portanto, anti-justiça e igualdade) implementadas pela Concertação ao longo de duas décadas e no supersticioso respeito à Constituição de 1980, uma obra mestra do autoritarismo e formidável barreira contra qualquer pretensão séria de democratizar a vida política chilena. Em seus trinta anos de vida, esse corpo constitucional só experimentou reformas marginais, a mais importante delas sendo a redução do mandato presidencial de cinco para quatro anos e a impossibilidade de uma reeleição imediata. Mas a camisa de força que esclerosou um sistema partidário que nas eleições recém finalizadas terminou de morrer, o sistema binominal, permaneceu incólume do mesmo modo que as escandalosas prerrogativas de suas forças armadas que ainda distam muito de estarem subordinadas ao poder civil. Essa Constituição faz com que o Chile incorra em exorbitante gasto militar, várias vezes superior, por exemplo, ao da Venezuela, cuja quantia tira o sono da secretária de estado Hillary Clinton.

Com a vitória de Piñera o sistema partidário urdido pelo regime pinochetista foi ferido de morte. A implosão da Concertação parece ser destino inexorável e com isso o fim do espúrio bipartidarismo. Uma parte importante da democracia cristã se aproximará do novo governo, enquanto outro setor procurará encontrar um difícil e pouco promissor caminho próprio. Não muito diferentes são as perspectivas que enfrenta o socialismo chileno, dividido entre um setor majoritário que aderiu sem reservas ao neoliberalismo, e outro, muito minoritário, que ainda conserva uma certa fidelidade ao nobre legado de Salvador Allende, que deve estar se revirando na tumba ao ver o que fizeram seus supostos herdeiros políticos. O futuro político do PS não parece muito diferente do que teve em seu momento o Partido Radical Chileno, poderoso nos anos 30 e 40 para logo apodrecer até sua completa irrelevância. Vinte anos de governos "progressistas" não foram suficientes para consolidar um bloco histórico alternativo, mas conseguiram, de maneira exitosa, trânsito desde o domínio econômico-financeiro – fomentado por políticas econômicas de seus antecessores no Palácio de La Moneda – até a proeminência política.

A supremacia direitista será facilitada pelo desmonte do pólo da ‘centro-esquerda’ e sua atomização em vários partidos, sendo que nenhum dos quais, ao menos hoje, teria condições de desafiar a hegemonia da direita. Fica em aberto a forma que reagirá o heterogêneo espaço político que se levantou após a candidatura de Marco Enriquez-Ominami, cujo desempenho no primeiro turno atropelou todas as previsões, alcançando notáveis 21% dos votos, principalmente dos jovens.

Um dado nada desprezível que fala com eloqüência a respeito da frustração cidadã é o desinteresse pela política por parte dos jovens: calcula-se que cerca de 3,5 milhões deles não se registraram para votar, desacreditados pela despolitização que a Concertação promovia na gestão dos assuntos públicos. Se tivessem se registrado, os resultados da eleição poderiam ser bem diferentes, mas este é um exercício contra-factual que não vem ao caso dar prosseguimento aqui. Mas vai um exemplo: no rico distrito de Las Condes, se alistaram para votar pouco mais de 50% dos jovens de 18 e 19 anos. Em compensação, na comunidade operária La Pintana somente 300 dos mais de 8000 jovens da mesma faixa etária fizeram o mesmo, ou seja, pouco mais de 3%. Em resumo: o Chile tem um eleitorado envelhecido, cada vez mais conservador, com poucos jovens que, além do mais, superdimensionam os setores mais acomodados da sociedade chilena.

A derrota da Concertação põe de manifesto os limites do chamado ‘progressismo’, uma espécie de terceira via que, tendo fracassado rotundamente na Europa – sobretudo no Reino Unido e na Alemanha -, procurou, sem êxito, ter melhor sorte na América Latina. O que caracteriza os governos desse signo político é sua incondicional submissão às forças de mercado e a debilidade de sua vocação reformista, carente da ousadia necessária para ultrapassar as fronteiras traçadas pelo capitalismo neoliberal. Umas das chaves pra entender as desventuras eleitorais da centro-esquerda nesta parte do mundo é a oferecida pela grande distância que a separa dos governos que empreenderam com decisão o caminho de reformas – sociais, econômicas e institucionais -, como na Venezuela, Bolívia e Equador. Enquanto estes parecem ser máquinas incansáveis de ganhar eleições por cifras surpreendentes, no Chile o progressismo tem sido derrotado, ao passo que na Argentina e no Brasil enfrenta a eventualidade de ser desalojado do poder nas próximas trocas presidenciais. Conclusão: se um governo quer ser ratificado nas urnas, o caminho mais seguro é avançar sem titubear pelo caminho das reformas, e, desse modo, cristalizar uma base social de apoio popular que permita triunfar nas contendas eleitorais. Quem não estiver disposto a seguir este curso de ação pavimenta, com sua claudicação, o caminho para a restauração da direita.

Uma última consideração: a derrota da Concertação gravitará e muito no cenário sul-americano. As situações se colocarão mais difíceis para os governos da Venezuela, Bolívia, Equador e Cuba; a ampliação do Mercosul, com a plena incorporação da Venezuela, sofrerá renovados tropeços, se bem que não de maneira direta, posto que o Chile não é membro pleno do acordo; e, com o triunfo de Piñera, o bloco direitista controla, com a honrosa exceção do Equador, todo o flanco do Pacífico latino-americano. Ademais, o ‘efeito demonstração’ do desenlace eleitoral chileno poderia chegar a exercer um certo (e negativo) influxo sobre as eleições presidenciais de outubro de 2010 no Brasil e aquelas que terão lugar no ano seguinte na Argentina, em ambos os casos dando corda aos candidatos de direita. Por outro lado, a belicista contra-ofensiva imperial dos Estados Unidos (Quarta Frota, bases militares na Colômbia, golpe em Honduras, reconhecimento das fraudulentas eleições nesse país etc. etc.) contará, a partir de março, com um novo aliado, liberado de qualquer compromisso, ainda que seja retórico, com o projeto emancipatório latino-americano.

Há que se recordar que, sob os governos ‘progres’ da Concertação, o papel que estes desempenharam foi sempre o de um operador privilegiado de Washington na América do Sul. Na Conferência de Mar del Plata que culminou com o naufrágio da ALCA, as vozes a favor deste acordo foram as de Ricardo Lagos e Vicente Fox, com a cumplicidade de George W. Bush. Agora, esta tendência ‘isolacionista’ – e, no fundo, anti-latino-amerciana – se acentuará ainda mais, revertendo uma profunda vocação latino-americana que o Chile supõe ter e que, sob a presidência de Salvador Allende, chegou a seu apogeu. Mas esse país se transformou, e hoje é o verdadeiro campeão do neoliberalismo, título ganho, entre outras coisas, mediante o estabelecimento de tratados bilaterais de livre comércio que regulam suas relações econômicas com mais de 70 países.

Desde a época da ditadura militar, o desdém de La Moneda pela América Latina tem sido proverbial. Uma mostra contundente desse desinteresse é o fato de que o Chile prefere importar petróleo da Nigéria do que comprá-lo da Venezuela ou chegar a um acordo com a Bolívia. Há apenas alguns dias Sebastián Edwardes, um dos precursores do neoliberalismo latino-americano e seguramente futuro consultor do novo governo, ratificava a vigência da doutrina pinochetista dizendo que "economicamente, nosso futuro está no mundo, e não na América Latina. Devemos deixar de nos comparar com nossos vizinhos. América Latina é a nossa geografia. Nossas aspirações devem ser chegar a ser como os países da OCDE".

Por isso, os necessários processos de integração supranacional atualmente em marcha na América Latina – desde o Mercosul até a Unasul, passando pelo Banco do Sul e outras iniciativas semelhantes que o Império invariavelmente tem esmerado em postergar ou desbaratar – não devem avançar com Piñera instalado no La Moneda. Com Frei, as coisas não foram tão diferentes, mas ao menos ele tinha um vago compromisso com o eleitorado que, no caso de seu contendor, não existe. O que há por trás de Piñera é uma vigorosa histeria de seus partidários celebrando a vitória de seu candidato com imagens e bustos de Pinochet e cânticos exortando a acabar de vez com os ‘comunistas’ infiltrados no governo da Concertação. Nada de novo sob o sol. A década não podia ter começado pior. Mais do que nunca adquire importância, para aqueles que querem mudar um mundo que se tornou insuportável e insustentável, o sábio conselho de Gramsci: ‘pessimismo da inteligência, otimismo da vontade’.

Atilio A. Boron é diretor do PLED, Programa Latinoamericano de Educación a Distancia em Ciências Sociais, Buenos Aires, Argentina.

Website: http://www.atilioboron.com/

Traduzido por Gabriel Brito e Valéria Nader.

Correio da Cidadania

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Os princípios do monoteísmo islâmico

Esther Solano Gallego

O dogma do Monoteísmo é um dos pilares básicos do Islã. A Unicidade de Allah, denominada Tauhîd, é o fundamento essencial da crença e da teologia islâmicas. “Não há outra divindade senão Allah; e Mohammad é o seu Profeta”, é a expressão de fé de todos os crentes muçulmanos. As ciências islâmicas da Unicidade são muito complicadas e para uma boa compreensão é importante um bom domínio da língua árabe. No entanto, pretende-se aqui oferecer uma noção básica do Tauhîd, elemento imprescindível na compreensão do Islã. Podemos assim distinguir três tipos de Unicidade:

1. Tauhîd Ar-Rubûbiiah. A Unicidade da Soberania de Allah.
Deus é o único poder real do universo. Ele é Al-Jâliq, o criador, quem dá às coisas suas capacidades, quem controla a realidade no seu conjunto, no todo. Nada acontece fora do seu poder.
2. Tauhîd Al-Asmâ´ua As-Sifât. A Unicidade dos Nomes e Atributos de Allah.
A descrição de Allah só pode ser por nomes e atributos que encontramos no Alcorão ou pelos utilizados pelo profeta Mohammad. Os seus Nomes são denominados Al-Asmâ´ Al-Husna, os Nomes mais belos (Alcorão 20:8). Segundo as mais importantes compilações de hadîz, as de Al-Bujâri e Muslim, existem 99 nomes: Deus, Umo, Misericordioso, Clemente, Santo, Poderoso, Pacificador, Criador, Onisciente, Protetor, Primeiro, Último, Sublime…
A memorização e repetição destes nomes abençoa o crente. Os Atributos de Allah são também únicos porque não existe nada semelhante a Ele (Alcorão 42:11): Grandiosidade, Poder, Soberania, Fortaleza…
3. Tauhîd Al- ´Ibâdah. A Unicidade da Adoração.
As orações e os atos de adoração dos muçulmanos só devem se dirigir a Allah. Ele é o único que pode responder às súplicas dos crentes.
O contrário do Tauhîd é a idolatria, a associação (Shirk). “Allah não perdoa quem lhe atribuir parceiros” (Alcorão 4:48). Acreditar no poder de um talismã, um amuleto, uma pessoa ou uma figura, é idolatria. Segundo as categorias da Unicidade, existem também categorias da idolatria:
1. Shirk da Unicidade da Soberania de Allah.
Podemos distinguir entre dois tipos, Shirk por associação: acreditar que o poder e o domínio sobre a criação não são exclusivos de Allah; e Shirk por negação: não acreditar em Allah.
2. Shirk da Unicidade dos Nomes e Atributos de Allah.
Distinguimos entre a idolatria por humanização de Deus, isto é, atribuir a Allah qualidades ou atributos humanos, ou idolatria por deificação, isto é, atribuir a seres ou coisas criadas os nomes e atributos de Allah.
3. Shirk da Unicidade da Adoração.
Este tipo de idolatria pode ser Idolatria Maior, que é quando o crente dirige seus atos de adoração a um ídolo diferente de Allah, e Idolatria Menor, que é quando o muçulmano realiza a adoração para conseguir elogio e liderança.
Para concluir, devemos reiterar a relevância de estudar o monoteísmo no Islã, assim como a importância de conhecer as bases da teologia islâmica. Este esforço nos ajudará no diálogo e na compreensão das diferenças entre religiões e culturas, evitando que se caia em interpretações equivocadas e na criação de confusões, acontecimentos estes que nada têm contribuído para o diálogo inter-religioso.

Fonte: ICARABE - http://www.icarabe.org/

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Caros generais, almirantes e brigadeiros

Marcelo Rubens Paiva

Marcelo Rubens Paiva

Eu ia dizer "caros milicos". Não sei se é um termo ofensivo. Estigmatizado é. Preciso enumerar as razões?

Parte da sociedade civil quer rever a Lei da Anistia. Sugeriram a Comissão da Verdade, no desastroso Programa Nacional de Direitos Humanos, que Lula assinou sem ler. Vocês ameaçaram abandonar o governo, caso fosse aprovado.

Na Argentina, Espanha, Portugal, Chile, a anistia a militares envolvidos em crimes contra a humanidade foi revista. Há interesse para uma democracia em purificar o passado.

Aqui, teimam em não abrir mão do perdão. E têm aliados fortes, como o presidente do Supremo, Gilmar Mendes, e o ministro da Defesa, Nelson Jobim, que apesar de civil apareceu num patético uniforme de combate na volta do Haiti. Parecia um clown.

Vocês pertencem a uma nova geração de generais, almirantes, tenentes-brigadeiros. Eram jovens durante a ditadura. Devem ter navegado na contracultura, dançado Raul Seixas, tropicalistas. Usaram cabelos compridos, jeans desbotados? Namoraram ouvindo bossa nova? Assistiram aos filmes do Cinema Novo?

Sabemos que quem mais sofreu repressão depois do Golpe de 64 foram justamente os militares. Muitos foram presos e cassados. Havia até uma organização guerrilheira, a VPR, composta só por militares contra o regime.

Por que abrigar torturadores? Por que não colocá-los num banco de réus, um Tribunal de Nuremberg? Por que não limpar a fama da corporação?

Não se comparem a eles. Não devem nada a eles, que sujaram o nome das Forças Armadas. Vocês devem seguir uma tradição que nos honra, garantiu a República, o fim da ditadura de Getúlio, depois de combater os nazistas, e que hoje lidera a campanha no Haiti.

Sei que nossa relação, que começou quando eu tinha 5 anos, foi contaminada por abusos e absurdos. Culpa da polarização ideológica da época.

Seus antecessores cassaram o meu pai, deputado federal de 34 anos, no Golpe de 64, logo no primeiro Ato Institucional. Pois ele era relator de uma CPI que investigava o dinheiro da CIA para a preparação do golpe, interrogou militares, mostrou cheques depositados em contas para financiar a campanha anticomunista. Sabiam que meu pai nem era comunista?

Ele tentou fugir de Brasília, quando cercaram a cidade. Entrou num teco-teco, decolou, mas ameaçaram derrubar o avião. Ele pousou, saltou do avião ainda em movimento e correu pelo cerrado, sob balas.

Pulou o muro da embaixada da Iugoslávia e lá ficou, meses, até receber o salvo-conduto e se exilar. Passei meu aniversário de 5 anos nessa embaixada. Festão. Achávamos que a ditadura não ia durar. Que ironia…

Da Europa, meu pai enviou uma emocionante carta aos filhos, explicando o que tinha acontecido. Chamava alguns de vocês de "gorilas". Ri muito quando a recebi.

Ainda era 1964, a família imaginava que fosse preciso partir para o exílio e se juntar na França, quando ele entrou clandestinamente no Brasil.

Num voo para o Uruguai, que fazia escala no Rio, pediu para comprar cigarros e cruzou portas, até cair na rua, pegar um táxi e aparecer de surpresa em casa. Naquela época, o controle de passageiros era amador.

Mas veio a luta armada, os primeiros sequestros, e atuavam justamente os filhos dos amigos e seus eleitores - ele foi eleito deputado em 1962 pelos estudantes.

A barra pesou com o AI-5, a repressão caiu matando, e muitos vinham pedir abrigo, grana para fugir. Ele conhecia rotas de fuga. Tinha um aviãozinho. Fernando Gasparian, o melhor amigo dele, sabia que ambos estavam sendo seguidos e fugiu para a Inglaterra. Alertou o meu pai, que continuou no País.

Em 20 de janeiro de 1971, feriado, deu praia. Alguns de vocês invadiram a nossa casa de manhã, apontaram metralhadoras. Depois, se acalmaram. Ficamos com eles 24 horas. Até jogamos baralho. Não pareciam assustadores. Não tive medo. Eram tensos, mas brasileiros normais.

Levaram o meu pai, minha mãe e minha irmã Eliana, de 14 anos. Ele foi torturado e morto na dependência de vocês. A minha mãe ficou presa por 13 dias, e minha irmã, um dia.

Sumiram com o corpo dele, inventaram uma farsa (a de que ele tinha fugido) e não se falou mais no assunto.

Quando, aos 17 anos, fui me alistar na sede do 2º Exército, vivi a humilhação de todos os moleques: nos obrigaram a ficar nus e a correr pelo campo. Era inverno.

Na ficha, eu deveria preencher se o pai era vivo ou morto. Na época, varão de família era dispensado. Não havia espaço para "desaparecido". Deixei em branco.

Levei uma dura do oficial. Não resisti: "Vocês devem saber melhor do que eu se está vivo." Silêncio na sala. Foram consultar um superior. Voltaram sem graça, carimbaram a minha ficha, "dispensado", e saí de lá com a alma lavada.

Então, só em 1996, depois de um decreto-lei do Fernando Henrique, amigo de pôquer do meu pai, o Governo Brasileiro assumiu a responsabilidade sobre os desaparecidos e nos entregou um atestado de óbito.

Até hoje não sabemos o que aconteceu, onde o enterraram e por quê? Meu pai era contra a luta armada. Sabemos que antes de começarem a sessão de tortura, o brigadeiro Burnier lhe disse: "Enfim, deputadozinho, vamos tirar nossas diferenças."

Isso tudo já faz quase 40 anos. A Lei da Anistia, aprovada ainda durante a ditadura, com um Congresso engessado pelo Pacote de Abril, senadores biônicos, não eleitos pelo povo, garante o perdão aos colegas de vocês que participaram da tortura.

Qual o sentido de ter torturadores entre seus pares? Livrem-se deles. Coragem.

Fonte: Fundação Lauro Campos - http://www.socialismo.com.br

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Potências do comunismo

Daniel Bensaid

No dia 12 de janeiro passado faleceu Daniel Bensaid, filósofo e militante político. Nascido em Toulouse, na França, há 64 anos, Bensaid foi um dos mais destacados dirigentes do Maio de 68 francês, sendo um dos iniciadores do Movimento 22 de Março, ao lado de Cohn Bendit e de outros ativistas. Fundador da LCR (Liga Comunista Revolucionária) francesa e depois do NPA (Novo Partido Anticapitalista), Bensaid foi – e continua sendo – uma importante referência teórica e política para vários militantes ao redor do mundo, tendo publicado vários livros. Como forma de prestar uma singela homenagem e de manter viva sua memória, publicamos, a seguir, um de seus últimos escritos.

Potências do comunismo

Daniel Bensaid (1946 - 2010)

Em um artigo de 1843 sobre “os progressos da reforma social no continente”, o jovem Engels (que tinha acabado de fazer 20 anos) via o comunismo como “uma conclusão necessária, que se está claramente obrigado a tirar, diante das condições gerais da civilização moderna”. Um comunismo lógico em suma, produto da revolução de 1830 em que os operários “votaram às fontes vivas e ao estudo da grande revolução e se apoderaram vivamente do comunismo de Babeuf”.

Para o jovem Marx, por outro lado, esse comunismo não era ainda mais do que uma “abstração dogmática”, uma “manifestação original dos primórdios do humanismo”. O proletariado nascente havia “se atirado nos braços dos doutrinários de sua emancipação”, das “seitas socialistas” e dos espíritos confusos que “divagavam como humanistas” sobre “o milênio da fraternidade universal” como “abolição imaginaria das relações de classe”. Antes de 1848, este comunismo espectral, sem programa preciso, estava presente, então, no ar do tempo sob as formas “pouco polidas” das seitas igualitárias ou dos sonhos icarianos[1].

Entretanto, já então a superação do ateísmo abstrato implicava um novo materialismo social que não era outra coisa senão o comunismo: “da mesma forma em que o ateísmo, em relação à negação de Deus, é o desenvolvimento do humanismo teórico, também o comunismo, quanto à negação da propriedade privada, é a reivindicação da vida humana verdadeira”. Longe de todo anticlericalismo vulgar, esse comunismo era “o desenvolvimento de um humanismo prático”, para o qual não se tratava só de combater a alienação religiosa, senão a alienação e a miséria sociais reais das quais nasce a necessidade de religião.

Da experiência fundadora de 1848 até a da Comuna, o “movimento real” que busca abolir a ordem estabelecida tomou forma e força, dissipando as “loucuras sectárias” e deixando no ridículo “o tom de oráculo da infalibilidade científica”. Dito de outra forma, o comunismo, que foi primeiro um estado de espírito ou “um comunismo filosófico”, encontrava sua forma política. Em um quarto de século, levou a cabo sua transformação: de seus modos de aparição filosóficos e utópicos à forma política, por fim encontrada na emancipação.

1. As palavras de emancipação não saíram imunes das tormentas do século passado. Pode-se dizer delas, como dos animais da fábula, que não morreram todas, mas que todas foram gravemente feridas. Socialismo, revolução, anarquia inclusive, não estão muito melhor do que comunismo. O socialismo esteve implicado no assassinato de Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo, nas guerras coloniais e nas colaborações governamentais, até o ponto de perder todo conteúdo na medida em que ganhava em extensão. Uma metódica campanha ideológica conseguiu identificar aos olhos de muitos a revolução com a violência e o terror. Mas, de todas as palavras outrora portadoras de grandes promessas e de sonhos de porvir, a palavra comunismo foi a que mais danos sofreu devido à sua captura pela razão burocrática de Estado e ao seu submetimento a uma empresa totalitária. Fica por saber, todavia, se de todas essas palavras feridas há algumas que valem a pena reparar e pôr de novo em movimento.

2. É necessário para isso pensar no que ocorreu com o comunismo do século XX. A palavra e a coisa não podem ficar fora do tempo das provas históricas às quais foram submetidas. O uso massivo do título “comunista” para designar o Estado liberal autoritário chinês pesará muito mais durante longo tempo, aos olhos da grande maioria, do que os frágeis testes teóricos e experimentais de uma hipótese comunista. A tentação de subtraí-la de um inventário histórico crítico conduziria a reduzir a ideia comunista a “variáveis” atemporais, a fazer dela um sinônimo das ideais indeterminadas de justiça ou de emancipação, e não a forma específica de emancipação na época da dominação capitalista. A palavra perde então em precisão política o que ganha em extensão ética ou filosófica. Una das questões cruciais é saber se o despotismo burocrático é a continuação legítima da revolução de Outubro ou o fruto de uma contrarrevolução burocrática, verificada não só pelos processos, pelas purgas, pelas deportações massivas, senão também pelas comoções dos anos trinta na sociedade e no aparelho de Estado soviético.

3. Não se inventa um novo léxico por decreto. O vocabulário se forma com o tempo, através de usos e experiências. Ceder à identificação do comunismo com a ditadura totalitária estalinista seria capitular ante os vencedores provisórios, confundir a revolução e a contrarrevolução burocrática e fechar assim o capítulo das bifurcações, único aberto à esperança. E seria cometer uma irreparável injustiça com os vencidos, todas as pessoas, anônimas ou não, que viveram apaixonadamente a ideia comunista e que a mantiveram viva contra suas caricaturas e falsificações. É vergonhosa a postura dos que deixaram de ser comunistas ao deixarem de ser estalinistas e que não foram comunistas mais do que foram estalinistas![2]

4. De todas as formas de nomear “a alternativa” necessária e possível ao capitalismo imundo, a palavra comunismo é a que conserva mais sentido histórico e carga programática explosiva. É a que evoca melhor a repartição comum e a igualdade, a partilha do poder, a solidariedade contra o cálculo egoísta e a competição generalizada, a defesa dos bens comuns da humanidade - naturais e culturais-, a extensão aos bens de primeira necessidade de um espaço de gratuidade (desmercantilização) dos serviços, contra a rapina generalizada e a privatização do mundo.

5. É também o nome de uma medida diferente da riqueza social da adotada pela lei do valor e da valorização mercantil. A competição “livre e não falseada” repousa sobre “o roubo do tempo de trabalho do outro”. Pretende quantificar o não quantificável e reduzir à sua miserável medida comum, mediante o tempo de trabalho abstrato, a incomensurável relação da espécie humana com as condições naturais de sua reprodução. O comunismo é o nome de um critério diferente de riqueza, de um desenvolvimento ecológico qualitativamente diferente da corrida quantitativa pelo crescimento. A lógica da acumulação de capital exige não só a produção para o lucro, e não para as necessidades sociais, senão também “a produção de um novo consumo”, a ampliação constante do círculo de consumo “mediante a criação de novas necessidades e pela criação de novos valores de uso… Por isso, a exploração da natureza inteira e da terra em todos os sentidos”. Essa desmesura devastadora do capital funda a atualidade de um eco-comunismo radical.

6. A questão do comunismo é primeiro, no Manifesto Comunista, a da propriedade: “Os comunistas podem resumir sua teoria nesta fórmula única: supressão da propriedade privada dos meios de produção e de troca, que não deve ser confundida com a propriedade individual dos bens de uso. Em todos os movimentos colocam a questão da propriedade, em qualquer grau de evolução que tenham conseguido chegar, como a questão fundamental”. Dos dez pontos que concluem o segundo capítulo, sete dizem respeito, com efeito, às formas de propriedade: a expropriação da propriedade latifundiária e o emprego da renda da terra em proveito do Estado; a instauração de impostos fortemente progressivos; a abolição da herança dos meios de produção e de circulação; o confisco dos bens dos emigrados rebeldes, a centralização do crédito em um banco público; a socialização dos meios de transporte e a construção de uma educação pública e gratuita para todos; a criação de manufaturas nacionais e o cultivo das terras improdutivas. Estas medidas tendem todas a estabelecer o controle da democracia política sobre a economia, a primazia do bem comum sobre o interesse egoísta, do espaço público sobre o espaço privado. Não se trata de abolir toda forma de propriedade, senão “a propriedade privada de hoje, a propriedade burguesa”, “o modo de apropriação” fundado na exploração de uns por outros.

7. Entre dois direitos, o dos proprietários de se apropriarem dos bens comuns e o dos despossuídos à existência, “é a força que decide”, dizia Marx. Toda a historia moderna da luta de classes, da guerra dos camponeses na Alemanha até as revoluções sociais do século passado, passando pelas revoluções inglesa e francesa, é a história desse conflito. Resolve-se pela emergência de uma legitimidade oposta à legalidade dos dominantes. Como “forma política enfim encontrada de emancipação”, como “abolição” do poder do Estado, como realização da república social, a Comuna ilustra o surgimento desta nova legitimidade. Sua experiência tem inspirado as formas de auto-organização e de autogestão populares surgidas nas crises revolucionárias: conselhos operários, sovietes, comitês de milícias, cordões industriais, associações de vizinhos, comunas agrárias, que tendem a desprofissionalizar a política, a modificar a divisão social do trabalho, a criar as condições de extinção do Estado enquanto corpo burocrático separado.

8. Sob o reino do capital, todo progresso aparente tem sua contrapartida de regressão e de destruição. Não consiste, afinal, “em nada mais do que uma mudança na forma de servidão”. O comunismo exige uma ideia diferente e critérios distintos dos do rendimento e da rentabilidade monetária. Para começar, uma redução drástica do tempo de trabalho obrigatório e uma mudança da noção mesma de trabalho: não poderá haver completo desenvolvimento individual no ócio ou o “tempo livre” enquanto o trabalhador permanecer alienado e mutilado no trabalho. A perspectiva comunista exige também uma mudança radical na relação entre o homem e a mulher: a experiência da relação entre os gêneros é a primeira vivência da alteridade e enquanto subsistir esta relação de opressão, todo ser diferente - por sua cultura, sua cor ou sua orientação sexual - será vítima de formas de discriminação e de dominação. O progresso autêntico reside enfim no desenvolvimento e na diferenciação de necessidades cuja combinação original faça de cada um e de cada uma um ser único, cuja singularidade contribua para o enriquecimento da espécie.

9. O Manifesto concebe o comunismo como “uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos”. Apresenta assim a máxima de um livre desenvolvimento individual que não deveria ser confundido nem com as ilusões de um individualismo sem individualidade submetido ao conformismo publicitário, nem com o igualitarismo grosseiro de um socialismo de quartel. O desenvolvimento das necessidades e das capacidades singulares de cada um e de cada uma contribui para o desenvolvimento universal da espécie humana. Reciprocamente, o livre desenvolvimento de cada um e de cada uma implica no livre desenvolvimento de todos, pois a emancipação não é um prazer solitário.

10. O comunismo não é uma ideia pura, nem um modelo doutrinário de sociedade. Não é o nome de um regime estatal, nem o de um novo modo de produção. É o nome de um movimento que, de forma permanente, supera/suprime a ordem estabelecida. Mas é também o objetivo que, surgido desse movimento, o orienta e permite - contra políticas sem princípios, ações sem continuidade e improvisações cotidianas - determinar o que aproxima do objetivo e o que afasta dele. Desse modo, não é um conhecimento científico do objetivo e do caminho, mas uma hipótese estratégica reguladora. Nomeia, indissociavelmente, o sonho irredutível de um mundo diferente, de justiça, de igualdade e de solidariedade; o movimento permanente que aponta para a derrocada da ordem existente na época do capitalismo; e a hipótese que orienta este movimento para uma transformação radical das relações de propriedade e de poder, longe dos acordos com um mal menor que seria o caminho mais curto para o pior.

11. A crise social, econômica, ecológica e moral de um capitalismo que não posterga já seus próprios limites senão ao preço de uma desmesura e de uma injustiça crescentes, ameaçando por sua vez a espécie e o planeta, volta a colocar na ordem do dia “a atualidade do comunismo” radical que invocou Benjamin frente ao ascenso dos perigos do entre guerras.

Notas:

[1] Tal expressão faz referência a Icária, nome dado por Cabet - um dos representantes do chamado socialismo utópico - ao seu país utópico e, mais tarde, à sua colônia comunista na América [nota do tradutor]. (retornar ao texto)

[2] Ver Mascolo, D. (2000) A la recherche d´un communisme de pensée. Paris : Editions Fourbis, p. 113.

Fonte: Barla Vento - http://www.barlavento.org/

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Da miséria ideológica à crise do capital

O livro da cientista social Maria Orlanda Pinassi emerge, em tempos de ilusões pós-modernas, na oposição da apologética acadêmica niilista. Pinassi reflete sobre a incidência do conceito de decadência ideológica na atualidade, principalmente diante das ideologias que pregam o “fim da história”, o “fim da ideologia”, o “fim do trabalho”. O grande mérito da autora foi resgatar a categoria decadência ideológica como um dos mais férteis instrumentos da crítica marxiana-lukacsiana. A resenha é de Ricardo Lara, professor da Universidade Federal de Santa Catarina.

Ricardo Lara

RESENHA
PINASSI, M. O. Da miséria ideológica à crise do capital: uma reconciliação histórica. São Paulo, Boitempo, 2009, 140p. (Coleção Mundo do Trabalho)

O livro da cientista social Maria Orlanda Pinassi emerge, em tempos de ilusões pós-modernas, na oposição da apologética acadêmica niilista. A teoria social articulada em seus ensaios alimenta-se na tradição ontológica materialista e dialética que se agarra a práxis revolucionária. Aliada ao conceito de decadência ideológica – “um dos mais férteis instrumentos da ciência marxiana da história” (PINASSI, 2009, p. 16) –, a autora oferece contundente arsenal de críticas as ideologias irracionais que se instauraram no pensamento social após a consolidação da hegemonia burguesa.
O conceito de decadência ideológica, elaborado por Georg Lukács (1885 – 1971) designa a crise espiritual da burguesia após 1848. Para Lukács (1968, p. 52) o que temos, com a evolução do pensamento social burguês, é a:
liquidação de todas as tentativas anteriormente realizadas pelos mais notáveis ideólogos burgueses, no sentido de compreender as verdadeiras forças motrizes da sociedade, sem temor das contradições que pudessem ser esclarecidas; essa fuga numa pseudo-história construída a bel prazer, interpretada superficialmente, deformada em sentido subjetivista e místico, é a tendência geral da decadência ideológica.
Pinassi reflete sobre a incidência do conceito de decadência ideológica na atualidade, principalmente diante das ideologias que pregam o “fim da história”, o “fim da ideologia”, o “fim do trabalho”. O pensamento burguês contemporâneo, na maioria dos casos, apresenta tendências que não se preocupam em construir conhecimentos que levam em consideração a materialidade social. O pensamento social faz das ciências sociais e humanas um mecanismo irracional que nega o desenvolvimento sócio-histórico e evita produzir conhecimentos que têm como pressuposto o mundo da atividade concreta e sensível do homem.
Nos tempos presentes a irracionalidade burguesa avança a passos vastos, as concepções científicas de todas as áreas do saber mostram-se capacitadas para responder as ânsias de um modo de vida que sobrevive entre a plena realização da coisa (fetiche do capital) e a barbárie social. As possíveis respostas para os fenômenos sociais e naturais que afligem a humanidade estão presentes em todas as ciências, mas os abismos entre a realidade social e suas percepções científicas geram concepções caóticas.
Os “paradigmas” científicos explicam o homem tentando buscar sua essência, mas não compreendem que a essência humana deve ser encontrada no conjunto das relações sociais, pois “a essência humana não é uma abstração intrínseca ao indivíduo isolado. Em sua realidade, ela é o conjunto das relações sociais”. (MARX; ENGELS, 2007, p. 534).
A trajetória DA MISÉRIA IDEOLÓGICA À CRISE DO CAPITAL delongou aproximadamente 130 anos para sua RECONCILIAÇÃO HISTÓRICA, composta pelo ponto de partida, as “origens do processo da consolidação da hegemonia burguesa, momento pós-revolucionário que impõe uma enorme transfiguração das ideologias clássicas do século XVIII em ideologias apologéticas” (PINASSI, 2009, p. 11), e o ponto de chegada, a crise estrutural do capital iniciada nos anos de 1970, com seus limites absolutos, crônicos e implacáveis. O livro é uma denúncia imprescindível, um chamado para a consciência crítica e revolucionária, uma arma em potencial para combater as delirantes abstrações e aberrações ideológicas da atualidade. O grande mérito de Pinassi foi de resgatar a categoria decadência ideológica como um dos mais férteis instrumentos da crítica marxiana-lukacsiana. A autora indica com radicalidade teórica o vínculo e a coexistência da ideologia apologética com a eficiência da produção material capitalista.
A decadência ideológica desvenda o “racionalismo burguês”, justificador do desenvolvimento capitalista do final da segunda metade do século XIX, que se ancora no período imperialista, e concretiza-se nas crises cíclicas do século XX. Nessa processualidade social surgem os causídicos do sistema, com suas teorizações do “pleno emprego”, do “estado de bem estar social”, sustentadores da inconsciência burguesa. Pinassi expõe o poder da ideologia, revestida de apologética, que oferece sustentação para a acumulação capitalista. O conceito de decadência ideológica revela a crítica da totalidade social, revela a conexão entre força material e construção ideológica do sistema do capital, oferece a possibilidade da crítica, genuína e fecunda, que resgata a perspectiva ontológica.
Os ensaios que compõem o livro depositam confiança na alternativa socialista como a única opção para a sobrevivência da humanidade. Aborda questões fundamentais da transição socialista. Desmistifica a irracionalidade burguesa e abre o caminho para a teorização da revolução socialista, pois a história da humanidade não é algo dado e acabado como ampara o pensamento burguês apologético. A luta de classes e a constituição da classe revolucionária é o principal tema perquirido ao longo das páginas. Os textos abordam as principais polêmicas do projeto verdadeiramente socialista, Pinassi não teme em deixar evidente sua postura radical contra as ilusões irracionais acadêmicas pós-modernas.
Para isso ela inquieta-se com a universalização do capital e suas absurdas e cruéis formas de irracionalismo. Para levar a êxito tal posicionamento, nota-se, no livro, a atenta interlocução com as obras de Marx, Lukács e Mészáros, ganhando evidência a percepção audaz de extrair os debates nodais da crítica ontológica expirada na ciência da história marxiana. As interlocuções com os clássicos do pensamento marxiano rejuvenesce as críticas impenitentes ao capitalismo. Sem rodeios apologéticos, a autora vai a questão essencial: só é possível liberdade e democracia numa sociedade para além do irracionalismo burguês, da propriedade privada e da alienação.
O principal fundamento da crítica marxiana foi a descoberta de quê a produção e reprodução da vida social burguesa se estabelece pela dialética da propriedade privada e do trabalho estranhado. Nos onze ensaios do livro, observamos a crítica ontológica que orienta a humanidade na suprassunção da propriedade privada em busca da emancipação humana.
Temas e categorias teóricas – transição socialista, emancipação humana, revolução, propriedade privada, luta de classes, criminalidade, ecletismo, reforma agrária, consciência de classe, movimentos sociais – hesitados pelos cientistas sociais contemporâneos, ou criminalizados pelo irracionalismo burguês, ressurgem com autenticidade e necessidade histórica nos textos da autora. Esses assuntos são colocados na história e ganham significados ontológicos e transitórios. Observe a seguinte afirmação em relação a luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST):
o que poderia constituir uma debilidade – ou seja, a particularidade histórica da luta pela reforma agrária – pode ser um dos seus maiores triunfos. Ou seja, da bandeira que evoca velhas contradições nacionais não resolvidas pode aflorar a consciência para as mais atuais formas assumidas pela exploração de classe e pela dominação imperialista. (PINASSI, 2009, p. 71).
Pinassi destaca a importância de analisar o MST como um movimento que luta pela transitoriedade, pela superação do sistema de funcionamento do capital. O MST é considerado uma base fundamental para compreender a práxis das atuais organizações alternativas constituídas no mundo do trabalho latino-americano.
A autora, ao abordar as temáticas polêmicas, questiona o medo dos homens contemporâneos, o temor que vem transvestido de mais alienação. A teoria social tem medo de questionar a realidade e colocar em xeque o metabolismo social do capital. Perante isso, evidencia-se a generosa crítica aos anticapitalistas românticos que não questionam a exploração da mais-valia e a propriedade privada, e aos que levantam a bandeira visionária dos “direitos das minorias”. A racionalidade pseudo-crítica não questiona as raízes das contradições da sociedade burguesa, ignora a luta de classes e não resgata a crítica a barbárie social imposta pela ordem do capital. Depois de ler o livro, percebemos o quanto e o porquê as ciências sociais e humanas estão tão distantes da realidade social.
Enfim, na contemporaneidade, muito se escreve e muito se lê sobre a sociedade humana e suas relações sociais submetidas à lógica do capital, mesmo aqueles que se pautam na crítica da sociabilidade burguesa acabam, em alguns casos, reproduzindo estilos acadêmicos oriundos da decadência ideológica. Pinassi diverge da maioria da intelectualidade atual, afronta o “tema” da emancipação humana como prioridade no debate das ciências sociais e humanas. O destemido livro representa a imprescindível crítica radical às ideologias apologéticas e, por conseguinte, irracionais. A leitura é uma interlocução, segura, com Marx, Lukács e Mészáros, na melhor maneira da aspiração ontológica, as análises são sobre determinadas condições de existência reais, históricas e transitórias, as críticas teóricas são sobre as relações de produção e reprodução da vida humana sob as contradições inconciliáveis do sistema do capital.

Referências bibliográficas
LUKÁCS, G. Marxismo e teoria da literatura. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968, 288p.
MARX; ENGELS, F. A ideologia alemã. São Paulo, Boitempo, 2009, 614p. (Coleção Marx e Engels)
PINASSI, M. O. Da miséria ideológica à crise do capital: uma reconciliação histórica. São Paulo, Boitempo, 2009, 140p. (Coleção Mundo do Trabalho)

Fonte: Agência Carta Maior - http://www.agenciacartamaior.com.br

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‘Avatar’ e o espírito do nosso tempo

Eugênio Bucci

Na estação de enchentes em São Paulo, as salas de cinema também se deixam inundar. De gente. A causa é Avatar, a superprodução dirigida por James Cameron (o mesmo de Titanic, aquele romance de aguaceiro e de naufrágio). Rios de espectadores deságuam com tal violência contra as bilheterias que estas, atônitas, precisam impor diques à correnteza: os ingressos estão esgotados.

Então, obediente às leis da hidrodinâmica, a massa líquida faz redemoinhos e encontra veios alternativos para sua voragem: compra entradas por antecedência. Depois, retorna em torrentes para afogar todas as poltronas.
Avatar é um fenômeno cultural como não vemos há um bom tempo. Por trás dos óculos baratos que garantem o efeito tridimensional do espetáculo, a freguesia contempla a consolidação das fantasias do nosso tempo, que misturam tecnologia, amor adolescente, engenharia genética, jogos eletrônicos e congraçamento transcendental com a natureza. Avatar também é um passatempo banal, claro, mas não é só isso. É uma síntese do pensamento político da moda, legitimada pela caudalosa acolhida que vem recebendo, tanto em São Paulo como em cidades onde não chove tanto assim.
O pensamento político da moda herda algumas utopias ancestrais. Ele incorpora, como já foi observado, o mito do bom selvagem, que embevecia o olhar dos europeus diante dos nativos do Novo Mundo. Agora, porém, o bom selvagem habita não outro continente, mas outro planeta, onde as raízes das árvores tecem conexões com todo o ecossistema. Os seres desse mundo carregam, nas tranças do cabelo, uma espécie de cabo USB, como bem definiu um jovem jornalista que viu o filme comigo. Plugando o seu "cabo USB" a cavalos de seis patas e a répteis voadores, os neosselvagens comandam-nos por ondas cerebrais. O novo bom selvagem sabe-se uma célula de um organismo vivo maior que ele, uma "Gaia" cintilante, uma internet com neurônios e clorofila.
Nesse lugar fantástico, a natureza é sujeito político. Ela é capaz até mesmo de ter consciência e agir segundo sua vontade. Conclamada, ela transforma sua consciência difusa ("consciência em si") em consciência ativa ("consciência para si") e parte para a guerra contra aqueles que pretendem dominá-la e explorá-la. Ou seja, quem assume a causa universal do "bem" não é mais uma nação, um povo ou uma classe social, mas a própria natureza. O humanismo converte-se em ambientalismo cibernético e esse cyberambientalismo é a base do ideário que anima as plateias. Elas acreditam que natureza e tecnologia encontrarão um ponto de equilíbrio harmonioso. Elas choram no cinema.
As contradições da nossa era também aparecem na tela. A ciência, embora financiada pelo dinheiro, termina por se insurgir contra a face mais cruel do capital. No modelo dramático de Avatar, o extrativismo que desrespeita o meio ambiente é "do mal" - e a ciência que se opõe à razão econômica é "do bem". As contradições explicitam-se também na mocinha, a neosselvagem pura - um pouco Iracema, totalmente Pocahontas - que reza uma prece para cada animal que mata com fins pacíficos e, ao mesmo tempo, tem acessos de raiva, como qualquer adolescente neurótica, quando confrontada com uma mentira do seu príncipe encantado. A mocinha é "natural" e, não obstante, é também uma "urbanoide" histérica.
Vários chavões da ficção científica - que sempre é ficção política - marcam presença no filme. Seres construídos em laboratório desenvolvem sentimentos próprios, mais que vontade própria, e se voltam contra o criador, como o monstro do dr. Frankenstein ou o cyborg de Blade Runner. Desta vez, no entanto, com uma nota distinta: antes, os heróis eram os humanos; agora, não é bem assim. Aquilo que em Matrix era um pesadelo - a rede de computadores a serviço do poder numa sociedade administrada, sem saída - vira um sonho dourado, fluorescente e libertador, mas além dos nossos corpos de hoje. Cameron propõe um Éden de realidade virtual, onde a forma humana já não tem parte com a solução: ela é, antes, um estágio a ser superado, a ser deixado para trás, como aquele pedaço de cauda que o foguete descarta no espaço para seguir seu curso. No Eldorado de Cameron, o que há de mais humano em nós só poderá sobreviver na forma de novos seres, geneticamente modificados, mais aptos do que nós para a felicidade que sempre almejamos e que nunca alcançamos.
Parece discurso religioso - e é. Político e religioso. Avatar vislumbra um reino de amor além da extinção da própria humanidade. O novo sucesso de Hollywood anuncia um futuro pleno - e pós-humano.
Antes, os micróbios da Terra dizimavam os alienígenas (como em A Guerra dos Mundos). Agora, a natureza alienígena, "do bem", é que vai dar cabo dos homens de carne e osso para ver se deles resta algo de bom, mas em novos corpos, corpos mutantes. Certamente alguns dirão que, nessa fábula, a forma humana é apenas uma metáfora para o que temos chamado de ego: ou o sujeito se liberta da tirania do ego, ou ficará escravo, sem conhecer a si mesmo. Mas não é apenas isso. Em seu libelo contra o extrativismo e a ganância, o filme prega um paraíso edificado sobre a ideologia do politicamente correto, um mundo melosamente humano sem humanos, um jardim em que não há formigas, bicho-de-pé, arranha-gato nem gente de carne e osso.
Avatar é o céu das multidões em turbilhão, um altar para as crenças de uma humanidade descrente. É também uma historinha de amor como muitas outras - mas, como um relâmpago, vem fotografar o imaginário do nosso tempo. Quem quiser entender as fantasias políticas que restam a este nosso mundo açoitado por tempestades - fantasias um tanto mágicas, um tanto idílicas, bastante irracionais -, que vá ao cinema. Enquanto chove.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo - http://www.estadao.com.br

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França está “à beira da explosão social”, diz cientista político.

As respostas do governo francês às consequências da crise econômica vêm frustrando os franceses e milhares já protestaram nas ruas de todo o país, exigindo medidas mais eficazes.

Monclaire: pessoas saíram às ruas onde há anos isso não se via.

Pela segunda vez em menos de dois meses, os franceses saíram às ruas na semana passada para protestar contra as respostas do governo às conseqüências da crise econômica. As previsões econômicas são cada vez piores: o governo estima uma queda de 1,5% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2009, além de déficit superior a 5% do PIB e dívida pública de 72% do PIB. Isso significa que a França não vai cumprir os chamados critérios de Maastricht, que assinou com a entrada em vigor do euro: déficit inferior a 3% e dívida pública inferior a 60%. Como a maioria dos países da zona euro.
Para entender melhor o que está acontecendo e onde esse movimento de protesto pode chegar, Opera Mundi entrevistou Stéphane Monclaire, professor de Ciências Políticas na Universidade Sorbonne, em Paris, durante viagem ao Rio de Janeiro, na última sexta-feira (20). Monclaire, que é também especialista em Brasil, alerta sobre a defasagem cada vez maior entre as elites políticas e a população. Lembrando da tradição de contestação violenta no país, ele avalia que uma explosão social faz parte dos cenários plausíveis.
A França foi paralisada na última quinta-feira pela maior mobilização social desde a posse do presidente Nicolas Sarkozy, em maio de 2007. Como interpretar este movimento?
De fato, a mobilização foi considerável, e podemos apreciá-la de muitas maneiras. Em primeiro lugar, quem manifestou, e onde? O que chama a atenção é que a mobilização não foi apenas em Paris e nas grandes cidades de sempre, mas também em lugares onde ninguém saía nas ruas há anos. É um movimento geograficamente muito amplo. E existe uma clara correlação com as zonas em que o desemprego está aumentando ou zonas em que grandes empresas têm projetos de demissões massivas.
O que é notável, também, é a popularidade do protesto. 75% dos entrevistados apoiaram a greve da última quinta. É uma proporção enorme, sem precedentes nas últimas duas décadas. Isso significa que o movimento vai bem além da oposição. Muitas pessoas que votaram em Sarkozy e apoiam o governo estão a favor da greve. Esse apoio é ainda mais impressionante quando se lembra que a jornada não tinha nenhum slogan claro. É uma multidão de reivindicações diversas, às vezes contraditórias, com a ideia que algo tem que mudar. Isso dá uma ideia do nível de ansiedade.
O que está por trás desse mal-estar?
É uma agregação de descontentamentos e exigências, algumas antigas, outras novas. A preocupação antiga é com a queda do poder aquisitivo, contínua nos últimos dois anos. Ela não afeta toda a população, mas a classe popular e a classe média. Há um aumento real do preço dos produtos de primeira necessidade que não é refletido pelos números da inflação. Claro que o preço das TVs tela plana diminuiu muito, mas não é o que importa para as famílias humildes. A realidade é que o preço das massas, do leite, da manteiga e outros produtos desse tipo subiu. A classe média, que representa a maioria, percebe que com o mesmo dinheiro, consegue cada vez menos comida.
A isso se junta uma nova angústia relacionada ao desemprego. Houve uma melhoria do mercado de trabalho nos últimos anos, mas a partir de novembro, tudo mudou. A crise financeira se transformou em crise econômica com uma violência que não dá para perceber ainda no Brasil. As previsões oficiais são de cerca de 500 mil novos desempregados em 2009. Essas estimativas duplicaram no espaço de seis semanas. Ou seja, podem até mesmo piorar. Isso afeta as pessoas que já perderam seus empregos, mas também todas aquelas que se encontram numa precariedade psicológica frente a este risco.
O que o governo está fazendo para responder?
O governo aumentou o valor do seguro-desemprego, que passou de 60% do salário perdido para 70%. É uma boa decisão, mais ainda insuficiente. Também aumentou os subsídios para as famílias mais modestas. Sarkozy decidiu isentar as pessoas com renda baixa (entre um e dois salários mínimos) de dois terços do imposto anual em 2009. É uma decisão de alto custo para o Estado, mas que vai aumentar em várias centenas de euros a renda de muitas famílias. Mas, em termos gerais, todo o pacote do governo parece ridículo comparado com o que o foi gasto para salvar o sistema financeiro, mais de 300 bilhões de euros emprestados, uma fortuna.
A população entende o porquê deste investimento nos bancos?
Nem um pouco! As somas são tão grandes que as pessoas que não entendem o funcionamento do sistema financeiro (mais da metade da população) nem conseguem decorá-las. Durante anos, todos os governos disseram que não tinham orçamento para aumentar os funcionários públicos, ou melhorar os sistemas de saúde, educação e justiça. De repente, o governo solta bilhões para os bancos, sem nenhuma pedagogia. Isso gera incompreensão, que vira exasperação. Especialmente quando, ao mesmo tempo, grandes executivos de bancos seguem exigindo bônus e dividendos astronômicos, enquanto estão à frente das instituições responsáveis pela crise. Até o Medef (Movimento das Empresas da França, representante do empresariado) admite que não sabe mais o que fazer para impor decência a estes executivos. Recentemente, a companhia petrolífera Total anunciou lucro recorde de 14 bilhões de euros e, ao mesmo tempo, a demissão de 400 pessoas.
Estas cenas chocam muito a população. Pouco a pouco, as pessoas começam a duvidar do sistema econômico inteiro. Como é que estas perdas financeiras abismais foram possíveis? Qual é a legitimidade dessas elites que querem ganhar cada vez mais ignorando o desespero dos outros? Uma série de perguntas estão surgindo, e parece que os políticos não têm nenhuma resposta.
Os partidos de esquerda estão capitalizando sobre este questionamento?
Nada disso. O Partido Socialista está atolado em disputas pessoais desde seu último congresso, provocando cansaço inclusive do próprio eleitorado. O Partido Comunista não consegue travar seu declínio. A extrema esquerda tem um capital de simpatia – há anos que denuncia o capitalismo, e a realidade parece mostrar que tinha razão. Mas isso não significa que o público gosta das soluções expostas. Dessa vez, os sindicatos estão unificados, o que é muito raro. Mas eles não têm qualquer reivindicação comum, e não estão atraindo novos membros. A taxa de sindicalização nunca foi tão baixa na história da França (8%, e apenas 5% no setor privado). A popularidade do governo está cada vez mais baixa à medida que o país mergulha na crise.
Quais são os atores políticos que se aproveitam da crise?
Estamos em um vácuo político. O sistema representativo está perdendo a legitimidade. Os partidos viraram máquinas profissionais cuja única preocupação é eleger mais pessoas, ganhar cargos. Os programas são apenas ideias vagas para obter votos. Não há renovação do pessoal político, isso é muito claro no Partido Socialista. Gera uma defasagem em relação à população. A mídia também tem uma responsabilidade. Ultimamente, a única coisa que fazem os jornais é perguntar aos políticos como eles pensam em compor as listas para as eleições europeias de junho. Este assunto não interessa a ninguém, apenas aos candidatos. Nós estamos enfrentando a pior crise econômica dos últimos 60 anos – talvez mais, ainda não se sabe – e os telejornais não mudaram. Para evitar uma explosão social, seria urgente explicar para a população o que está realmente acontecendo.
Uma explosão social é possível na França?
Absolutamente. A França tem essa tradição de contestação na rua. Não existe uma tradição de sindicalismo pragmático, ou de social-democracia como na Alemanha ou nos países escandinavos. Aqui, é sempre um confronto de forças que resolve. É por isso que a imprensa mundial, inclusive a brasileira, deu uma grande repercussão à jornada de mobilização. Estamos numa situação de transbordamento. O nível de descontentamento é muito alto comparado ao que o sistema político pode aceitar. Parece que o governo não consegue tomar conta da velocidade, da acumulação, da violência, da distribuição geográfica das mobilizações.
Alguns donos de grandes empresas foram seqüestrados durante horas por seus funcionários. Outros executivos foram bombardeados com ovos podres. E não são extremistas ou radicais que fazem estes atos, simplesmente funcionários exaustos, exasperados. Todo mundo pensa no exemplo da Guadalupe. O território francês no Caribe ficou paralisado durante semanas, no começo do ano, por um movimento social muito duro. Acabaram ganhando, obrigando o governo a ceder aumentos de 200 euros por mês. É considerável. Na França, muitos estão começando a pensar que sair para a rua é a única forma de ser ouvido.
Qual é a resposta do governo para conter as tensões?
Acho que está fazendo um cálculo. Um governo pode se beneficiar com um conflito violento. Se chegar a ameaçar a segurança pública, uma parte da população começa a ficar com medo, e o governo pode usar isso para recuperar o papel do ator legítimo que restabelece a ordem e impõe as reformas que quiser. É o que aconteceu em 1968. Porém, é um jogo perigoso, até porque a situação econômica não é comparável com a de 1968. Hoje, você pode ver surgir uma série de crises no país. Greves relacionadas com o emprego, mas também grandes problemas no mundo agrícola, já que os agricultores entenderam que iam perder muitos subsídios. E não falta muito para haver de novo uma situação muito crítica nas periferias, como aconteceu nos últimos anos. Dá para imaginar uma explosão social que não seja controlada nem pelo governo nem pela oposição nem pelos sindicatos. Vão aparecer novamente as falsas boas soluções, tal como o protecionismo, ou a rejeição dos trabalhadores estrangeiros. Numa visão otimista, esta crispação pode ajudar a repensar todo o sistema econômico, integrando pela primeira vez a questão ambiental.

Fonte: Opera Mundi - http://www.operamundi.com.br/

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Gutenberg não inventou a imprensa

O mérito de ter publicado a primeira obra com a ajuda de caracteres móveis é desse famoso artesão europeu, cujo feito deixou o mundo extasiado. Certo? Errado?

Olivier Tosseri

Gutenberg examinando uma prova, pintura mural, John White Alexander, 1896.

O alemão Johannes Gutenberg (c. 1400-1468) não inventou, mas sim “reinventou” a imprensa no século XV. A técnica de imprimir com caracteres móveis é, na verdade, asiática, e muito mais antiga. Tudo começou com a criação do papel, obra de chineses no ano 105 da era cristã. O novo material abriu caminho para uma produção, ainda artesanal, de maior número de livros, que se tornaram práticos para manusear e muito mais baratos.
Já existiam a gravura em pedra e a cópia manual. Surgiu, então, a xilografia, praticada principalmente na China e, depois, na Coreia e no Japão do século VII. Os orientais usavam uma prancha de madeira para gravar imagens e textos, que podiam ser reproduzidos por estampagem.
A técnica foi aperfeiçoada no século XI, com ensaios de impressão por meio de caracteres móveis, só que de terracota. Problema: eles não podiam ser reutilizados, o que tornava o sistema caro e trabalhoso. Entre 1041 e 1048, os caracteres foram aprimorados pelo chinês Bi Sheng, ferreiro e alquimista. Mas o custo elevado e a necessidade de mão de obra numerosa continuaram a atrapalhar o desenvolvimento dessa forma de imprimir.
Quase 200 anos depois, a Coreia tomou a dianteira no processo, já com incentivo público. Os caracteres móveis metálicos se disseminaram, e, em 1377, foi publicado o primeiro livro impresso nesse padrão. Diferentemente dos demais países, o governo local seguiu atento ao potencial do invento.

No século XV, o rei coreano Htai-Tjong investiu pesadamente na ideia e promulgou um decreto cujo texto é uma homenagem à informação: “Para governar, é preciso propagar o conhecimento das leis e dos livros de modo a satisfazer a razão e endireitar o coração dos homens. Quero que se fabriquem caracteres de cobre que sirvam para a impressão, a fim de ampliar a difusão de livros: será uma vantagem sem limites”. Tjong talvez não soubesse na época quanto estava certo.
Os europeus simplesmente não se interessaram pela revolução em curso na Ásia. Tomaram conhecimento das novas técnicas por meio de impressos, trazidos por mercadores. Nem mesmo Marco Polo, tão encantado com o dinheiro-papel que observou na China, chegou a indagar acerca de sua impressão feita com pranchas gravadas.
Nesse ponto surgiu o alemão Gutenberg, dito inventor da imprensa, mas na verdade um homem que aperfeiçoou de maneira decisiva a arte asiática. Ele desenvolveu os caracteres móveis de chumbo, que podiam ser utilizados indefinidamente, além de uma nova tinta de impressão e a prensa de imprimir. Com isso, mudou definitivamente o mundo, em todas as suas dimensões: política, econômica, social e religiosa.
Por sua enorme contribuição, Gutenberg pode ser chamado de pai da tipografia moderna. O primeiro fruto de seu trabalho foi uma bíblia impressa em Mogúncia, entre 1425 e 1456. Foi o primeiro livro produzido na Europa com a ajuda de caracteres móveis, com tiragem de 180 exemplares. Ainda existem 48 conservados, em museus e bibliotecas mundo afora.

Fonte: História Viva - http://www2.uol.com.br/historiaviva/

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Candeia: Samba e Resistência

Candeia foi um dos principais expoentes de uma geração de sambistas da Portela que surge na década de 1950. Filho de Seu Candeia, portelense antigo com livre trânsito por todos os cantos de Oswaldo Cruz, Candeia (o filho) conviveu com o samba desde criança. Ele lembrava, em seus depoimentos, da tristeza que sentia em seus aniversários. Enquanto nas festas das outras crianças havia bolo e sorvete, na dele tinha era feijoada, caipirinha, partido alto, e a grande maioria dos convidados era gente adulta, amiga de seu pai. A frustração só não era maior porque quando batia 10 horas da noite e ia para cama, Candeia ficava acordado tentando entender tudo aquilo que era cantado pelos mestres portelenses e convidados.

Com essa bagagem musical, ingressou cedo na Portela, à revelia do pai. Aos 14 anos participou de seu primeiro desfile, fantasiado de mecânico. Três anos depois, em 1953, compôs com Altair Prego o samba-enredo que concorreu com o samba de Manacéia, principal compositor de samba-enredo da Portela. Candeia ganhou e seu samba levou a Portela ao campeonato daquele ano com nota dez em todos os quesitos. Ainda compôs mais cinco sambas-enredos vitoriosos na Portela.

Além de sua vida na escola de samba, Candeia começou a trabalhar na polícia. Policial durão, era severo até com os próprios sambistas e amigos. Contavam que uma prostituta, após ter sido esbofeteada por ele, o rogou uma praga. No dia seguinte, Candeia foi baleado, por causa de uma discussão de madrugada no trânsito, e nunca mais andou. Essa fatalidade, ocorrida em dezembro de 1965, mudou definitivamente seu comportamento e o rumo de sua vida.

Depois de um longo período tentando se recuperar física e psicologicamente do acidente, Candeia reinicia sua obra, na cadeira de rodas que o acompanhou até sua morte. É notável o quanto se ampliou o horizonte de seus objetivos no samba e de sua música.

Na década de 1970, o movimento de resistência à descaracterização das escolas de samba no Rio de Janeiro encontrou em Antonio Candeia Filho seu principal líder. Juntamente com Paulinho da Viola, Carlos Monte, André Motta Lima e Cláudio Pinheiro, formulou um longo documento endereçado ao presidente da Portela, Carlos Teixeira Martins, em março de 1975, em que fazia diversas críticas às mudanças ocorridas na Portela e propondo uma série de mudanças, que iniciava da seguinte forma:

“Escola de samba é Povo em sua manifestação mais autêntica! Quando se submete às influências externas, a escola deixa de representar a cultura do nosso povo. (…) Durante a década de 60, o que se viu foi a passagem de pessoas de fora, sem identificação com o samba, para dentro das escolas. O sambista, a princípio, entendeu isso como uma vitória do samba, antes desprezado e até perseguido. O sambista não notou que essas pessoas não estavam na escola para prestigiar o samba. E aí as escolas de samba começaram a mudar. Dentro da escola, o sambista passou a fazer tudo para agradar essas pessoas que chegavam. Com o tempo, o sambista acabou fazendo a mesma coisa com o desfile. (…) Consideramos que este é o momento de fazer a única evolução possível, com o pensamento voltado para a própria escola. Ou seja, corrigindo o que vem atrapalhando os desfiles da Portela, que tem confundido simples modificações com evolução. É preciso ficar claro que nem tudo que vemos pela primeira vez é novo. (…)”

E o documento continuava, discorrendo ponto a ponto sobre as mudanças necessárias para o prosseguimento da escola de samba como manifestação genuinamente popular. As propostas não foram sequer discutidas dentro da Portela.

A insatisfação dos sambistas era evidente. Mas o que fazer? Faltava uma proposta que pudesse dar forma a uma atitude coletiva e representasse os reais interesses dos sambistas e a retomada da linha evolutiva que vinha sendo traçada nas escolas antes da descaracterização. Mas essa proposta não tardou a chegar, e surgida dentro do próprio meio do samba.

Após ver ignoradas as críticas feitas ao funcionamento de sua Portela, Candeia passou a nutrir a idéia de fundar uma nova escola. Dizia ele ao jornalista seu amigo Juarez Barroso: “Uma escola em que tudo fosse feito pelo povo. As costureiras do lugar fazendo as fantasias. Não ia ter esse negócio de figurinista de fora não. As alegorias também, tudo de lá, escolhido lá. (…) Ia ser uma escola muito bonita. Sei lá, é uma idéia”.

“Estou chegando…
Venho com fé. Respeito mitos e tradições. Trago um canto negro. Busco a liberdade. Não admito moldes.
As forças contrárias são muitas. Não faz mal… Meus pés estão no chão. Tenho certeza da vitória.
Minhas portas estão abertas. Entre com cuidado. Aqui, todos podem colaborar. Ninguém pode imperar.
Teorias, deixo de lado. Dou vazão à riqueza de um mundo ideal. O amor é meu princípio. A imaginação é minha bandeira.
Não sou radical. Pretendo, apenas, salvaguardar o que resta de uma cultura. Gritarei bem alto explicando um sistema que cala vozes importantes e permite que outras totalmente alheias falem quando bem entendem. Sou franco atirador. Não almejo glórias. Faço questão de não virar academia. Tampouco palácio. Não atribua a meu nome o desgastado sufixo –ão. Nada de forjadas e mal feitas especulações literárias. Deixo os complexos temas à observação dos verdadeiros intelectuais. Eu sou povo. Basta de complicações. Extraio o belo das coisas simples que me seduzem.
Quero sair pelas ruas dos subúrbios, com minhas baianas rendadas sambando sem parar. Com minha comissão de frente digna de respeito. Intimamente ligado às minhas origens.
Artistas plásticos, figurinistas, coreógrafos, departamentos culturais, profissionais: não me incomodem, por favor.
Sintetizo um mundo mágico.
Estou chegando…”

(Manifesto escrito por Candeia)

Candeia e Martinho da Vila

Candeia foi reunindo os sambistas para a sua idéia. Com sua capacidade de liderança, conseguiu formar as bases iniciais para fundar a nova escola. No dia 8 de dezembro de 1975 foi inaugurado o Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo. Suas cores: branco, dourado e lilás. Esse primeiro encontro dos sambistas se realizou num terreno baldio da Rua Pinhará, em Rocha Miranda, sede que logo foi substituída.

Já em janeiro de 1976 a escola se mudou para Coelho Neto, onde fez sua sede no Esporte Clube Vega, que estava em ruínas e fizera um acordo com a diretoria da Quilombo possibilitando a utilização do clube pelos “quilombolas”. Uma grande festa foi feita para inaugurar a nova sede. Lá estavam sambistas para se incorporar à Quilombo ou somente prestar seu apoio. A satisfação era geral pela concretização do espaço onde o sambista pudesse desenvolver livremente sua arte. Chegavam para se juntar a Candeia gente como Elton Medeiros, Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Nei Lopes, Wilson Moreira, Guilherme de Brito, Monarco, Casquinha e outros integrantes da Velha Guarda da Portela, Mauro Duarte, Clementina de Jesus, dona Ivone Lara, Beth Carvalho, Clara Nunes, Nelson Sargento e outros.

Juarez Barroso, jornalista do Jornal do Brasil na época, bastante ligado à música popular e amigo de Candeia também aderiu à Quilombo. Na inauguração da nova escola, assim iniciava uma matéria de página inteira chamada Quilombo, nasce uma nova escola:

“As escolas de samba agigantaram-se, deformaram-se à medida que se transformaram (ou pretenderam se transformar) em shows para turistas. O tema é polêmico, tratado como sempre em tom passional. Deformação ou evolução? Seria possível o retorno à pureza, ao comunitarismo dos anos 30, quando essas escolas se consolidaram? O sambista Candeia, liderando outros sambistas descontentes com a situação, prefere responder de modo objetivo. E responde com a fundação de uma nova escola de samba, Quilombos, escola que terá sede em Rocha Miranda e irá para a Avenida mostrando como era e como deve ser o samba.”

Como explicava Candeia, mais do que uma escola de samba, a Quilombo seria uma escola de sambistas, que pudesse servir de alerta às outras, assim como de referência. E nenhum de seus integrantes precisava abandonar as escolas a que pertenciam, a Quilombo não exigia exclusividade. Nei Lopes, já em 1980 no programa da TVE Tudo é música especial sobre escolas de samba – apresentado por José Ramos Tinhorão –, sintetizava: “A maioria das pessoas que estão aqui, como eu, o Martinho [da Vila], o Wilson [Moreira], a gente não deixou nossa escola de origem. A gente está pensando inclusive em levar a filosofia do Quilombo para nossas escolas de origem”.

Outro fato importante era o de que a Quilombo não era somente uma escola de samba. Candeia não cansava de explicar: “É Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba. Quilombo é jongo, é capoeira, é lundu, é maracatu”. A Quilombo se propunha a resgatar a cultura negra, a cultura dos morros e subúrbios do Rio de Janeiro, a cultura trazida, transformada e recriada pelos negros do Brasil, antepassados daqueles sambistas que ali se reuniam. Havia vários grupos de danças de origem negra (jongo, maracatu, maculelê, caxambu, afoxé, samba de lenço, samba de caboclo, lundu e capoeira). Chamaram para o grupo de jongo a vovó Teresa de 113 anos, mãe de Mestre Fuleiro, que morava no Morro da Serrinha, em Madureira. A sede da Quilombo era utilizada também para encontros culturais, como as conferências sobre a contribuição negra na formação cultural do Brasil, que chegava a reunir duzentas pessoas, além de atividades que buscavam integrar ainda mais a comunidade e a escola.

Numa matéria publicada na Última Hora/Revista, Candeia e Elton Medeiros definiam os objetivos da escola:

“1. Desenvolver um centro de pesquisas de arte negra, enfatizando sua contribuição à formação da cultura brasileira.

2. Lutar pela preservação das tradições fundamentais sem as quais não se pode desenvolver qualquer atividade criativa popular.

3. Afastar elementos inescrupulosos que, em nome do desenvolvimento intelectual, apropriam-se de heranças alheias, deturpando a pura expressão das escolas de samba e as transformando em rentáveis peças folclóricas.

4. Atrair os verdadeiros representantes e estudiosos da cultura brasileira, destacando a importância do elemento negro no seu contexto.

5. Organizar uma escola de samba onde seus compositores, ainda não corrompidos ‘pela evolução’ imposta pelo sistema, possam cantar seus sambas, sem prévias imposições. Uma escola que sirva de teto a todos os sambistas, negros e brancos, irmanados em defesa do autêntico ritmo brasileiro”.

Em 1976, a escola ainda não tinha estrutura para desfilar. Mas um animado bloco sem fantasia pôde ser visto no carnaval pelas ruas do subúrbio de Coelho Neto e Acari. Já em 1977, mesmo com muitas dificuldades, a escola desfilou nas ruas do subúrbio e fechou o carnaval na Presidente Vargas no desfile das campeãs. Sua presença foi a grande novidade do carnaval e um grande sucesso segundo a imprensa. A Quilombo não se preocupava em filiar-se a entidades nem em participar de desfiles oficiais. Também não disputava campeonato. Aceitava o convite da Riotur para se apresentar na Avenida, mas não deixava de desfilar também nas ruas do subúrbio. E foi assim que em 1978 e 1979, com os enredos Ao povo em forma de arte e Noventa anos de Abolição, respectivamente, ambos os sambas compostos pela dupla Wilson Moreira e Nei Lopes, a Quilombo mais uma vez apresentou um desfile da maior qualidade e comprovava que as tais “inovações” no samba não eram necessárias para se fazer um belo carnaval. Depois do carnaval de 1978, o dinheiro que sobrou do desfile, sem ostentação, foi utilizado para comprar uniformes escolares para as crianças pobres do bairro onde ficava a sede da escola.

Em 16 de novembro de 1978, Candeia morria no Hospital Cardoso Fontes, por causa de crise renal-hepática. Sua morte foi um baque na luta intensa em defesa das raízes das escolas e do samba. Houve um grande vazio na comunidade “quilombola” pois Candeia era o principal líder e organizador. O contrato com o Esporte Clube Vega foi rompido e a escola ficou sem sede. Por iniciativa de várias pessoas a sede pode voltar a existir na Fazenda Botafogo, em Acari. A escola continuou existindo na década de 80, embora com menor destaque.

O legado de Candeia permanece cada vez mais vivo, na lembrança das ruas, nas rodas de samba, nas regravações de suas músicas e em espetáculos como “É samba na veia, é Candeia”.
Para ouvir um pouco de sua obra genial, sugerimos começar por Axé! Gente Amiga do Samba (1978), disco em que Candeia reúne sambistas da Velha Guarda da Portela, além de Clementina de Jesus e Dona Ivone Lara para fazer uma das obras-primas do samba brasileiro. Outro registro importante é o documentário Partido Alto, de Leon Hirzman, curta-metragem finalizado em 1982, com cenas raras das rodas de samba comandadas por Candeia em sua cadeira de rodas.

Recentemente, o grupo paulista Terreiro Grande se uniu a Cristina Buarque para uma emocionante homenagem em forma de shows (já realizados em São Paulo e no Rio de Janeiro), trazendo a obra do mestre.

Outra importante homenagem a Candeia foi o premiado espetáculo É samba na veia, é Candeia. O musical, encenado inicialmente no CCBB, onde venceu concurso de dramaturgia Seleção Brasil em Cena 2007 concorrendo com cerca de 300 trabalhos inscritos, vem colecionando prêmios, reconhecimento e carinho do público (escolhido o melhor espetáculo de 2008 pelos leitores do JB). Trouxe a vida e as principais composições de Candeia também em memoráveis apresentações no Teatro Casa Grande e Sesc Tijuca (no Rio de Janeiro).

É samba na veia, é Candeia

Fontes:

ABRIL CULTURAL. Candeia / Elton Medeiros. Nova História da Música Popular Brasileira. Abril Cultural, 1978

AQUINO, João de et al. Eterna Chama. Candeia 20 anos de memória. Rio de Janeiro: Perfil Musical, 1998 (encarte)

ARAGÃO, Diana. Quilombo, uma escola de sambistas. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 20 jan 1978

BARROSO, Juarez. Quilombos, nasce uma escola de samba. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 dez 1975

CABRAL, Sérgio. As escolas de samba do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IPLANRIO/Jorge Zahar Ed., 1996

TINHORÃO, José Ramos. Tudo é música: samba se aprende na escola. Especial Quilombo. Rio de Janeiro: TVE, 1980 (Programa de TV)

VARGENS, João Baptista M. Candeia: luz da inspiração. Rio Bonito (RJ): Almadena, 2008 (3ª Edição)

Confira mais em:

Discografia de Candeia – Samba & Choro

CECAC

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Os dilemas do trabalho no limiar do século 21

Do subemprego à exploração infantil, a situação contemporânea do trabalho exige uma reflexão à altura daquela relacionada ao meio ambiente

Ricardo Antunes

Se há um tema que está sempre presente nos debates atuais, junto com a destruição ambiental, esse tema é o do trabalho e seu corolário, o desemprego. Isso porque também não há nenhum país que, em alguma medida, não esteja vivenciando o desmoronamento do trabalho.

Em plena eclosão da mais recente crise financeira, estamos constatando a corrosão do trabalho contratado, a erosão do emprego regulamentado, que foi dominante no século 20 e que está sendo substituído pelas diversas formas alternativas de trabalho e subtrabalho, de que são exemplo o "empreendedorismo", o "trabalho voluntário", o "cooperativismo", modalidades que frequentemente "substituem" o trabalho formal, gerando novos e velhos mecanismos de intensificação e mesmo autoexploração do trabalho.

Os modos de precarização do trabalho, o avanço tendencial da informalidade, o desemprego dos imigrantes, tudo isso acentua o tamanho da tragédia social em que estamos envolvidos. O emprego assalariado formal, modalidade de trabalho dominante no capitalismo da era taylorista e fordista, que magistralmente Chaplin satirizou em Tempos modernos, está se exaurindo e sendo substituído por formas de trabalho que em alguns casos se assemelham às da fase que marcou o início da Revolução Industrial. Senão, como explicar, em pleno século 21, as jornadas de trabalho que, em São Paulo, chegam a 17 horas por dia? Tudo isso nos obriga a refletir: que trabalho queremos, de que trabalho necessitamos?

Trabalho como atividade vital

Aqui, devemos fazer uma pequena digressão. Sabemos que o trabalho, concebido como atividade vital, nasceu sob o signo da contradição. Desde o primeiro momento, foi capaz de plasmar a própria sociabilidade humana, por meio da criação de bens materiais e simbólicos socialmente vitais e necessários. Mas também trouxe dentro dele, desde seus primeiros passos, a marca do sofrimento, da servidão e da sujeição. Ao mesmo tempo em que expressa o momento da potência e da criação, o trabalho também se originou nos meandros do " tripalium", instrumento de punição e tortura.

Se era, para muitos, dotado de uma ética positiva (ver as análises de Weber), própria do mundo dos negócios (cujo significado etimológico é negar o ócio), para outros, ao contrário, tornou-se um não valor, estampado na magistral síntese de Marx: "Se pudessem, os trabalhadores fugiriam do trabalho como se foge de uma peste!".

Mas o século 20 moldou-se pela estruturação da chamada sociedade do trabalho, em que desde muito cedo fomos educados para o princípio fundante do trabalho. Esse cenário começou a ruir, no entanto, a partir dos últimos 20 anos. Tragicamente, quanto mais a população vem aumentando, menor é a capacidade de incorporar os jovens ao mercado de trabalho. Esta é a situação que vivenciamos hoje: não encontramos empregos para aqueles que dele necessitam para sobreviver e os que ainda estão empregados em geral trabalham muito e não ficam um dia sem pensar no risco do desemprego. Esse medo ocorre não só na base dos assalariados, pois essa tendência cada vez mais avança na ponta da pirâmide social, chegando até os gestores.

Foto: Creative Commons

Outro lado: relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) projeta mais de 50 milhões de desempregados em 2009

Desemprego

Uma rápida consulta aos dados acerca do desemprego mundial é esclarecedora. A Organização Internacional do Trabalho (OIT), em recente relatório, projetou mais de 50 milhões de desempregados ao longo deste ano de 2009, em consequência da intensificação da crise que atingiu especialmente os países do Norte. A mesma OIT acrescentou ainda que aproximadamente 1,5 bilhão de trabalhadores sofrerão redução em seus salários ( Relatório mundial sobre salários 2008 - 2009).

Na China, país que mais intensamente cresceu na última década, com quase 1 bilhão de trabalhadores, cerca de 26 milhões de trabalhadores que migraram do campo para as cidades perderam seus empregos, gerando a onda de revoltas a que assistimos atualmente.

A América Latina também não ficou de fora desse cenário: a mesma OIT antecipou que, dada a ampliação da crise, "até 2,4 milhões de pessoas poderão entrar nas filas do desemprego regional em 2009", somando-se aos quase 16 milhões hoje desempregados, sem falar do "desemprego oculto" e outros mecanismos que mascaram as taxas reais de desemprego ( Panorama laboral para América Latina e Caribe, janeiro de 2009 ).

No limite da degradação

Dentro de um contexto marcado por uma profunda crise estrutural, ampliam-se, portanto, as formas de aviltamento do trabalho.

Foto: Creative Commons

Degradação: trabalhadores imigrantes em jornadas que atingem até 17 horas diárias

Os exemplos são abundantes e o espaço aqui seria por demais limitado. Mas podemos emblematicamente apresentar alguns casos mais expressivos.

A cada dia vemos mais e mais exemplos de trabalho escravo no campo; nos agronegócios do açúcar, no etanol de Lula, cortar mais de 10 toneladas de cana por dia é a média por baixo, low profile. No norte do país esse número pode chegar a até 18 toneladas diárias.

Em São Paulo, não é difícil localizar a degradação dos trabalhadores imigrantes, como os bolivianos, subempregados nas empresas de confecção, com jornadas que atingem até 17 horas diárias, configurando uma modalidade de trabalho no limite da condição degradante. E os exemplos se esparramam por todas as partes do mundo: chicanos (EUA), dekasseguis (Japão), gastarbeiters (Alemanha), lavoro nero (Itália) etc.

No Japão, jovens operários migram em busca de trabalho nas cidades e dormem em cápsulas de vidro do tamanho de um caixão. Configuram o que já chamei de operários encapsulados. Na América Latina, trabalhadoras domésticas chegam a trabalhar 90 horas por semana, tendo não mais que um dia de folga ao mês, conforme lembrou Mike Davis em seu Planeta favela (Boitempo, 2006).

Se, no século passado, os povos do Norte migraram em massa para o Sul do mundo (como os italianos, alemães, portugueses, espanhóis, tão bem acolhidos no Brasil), estamos presenciando o exato inverso. Nesse sentido, exemplos recentes na Espanha, nos EUA e na Inglaterra, contra os brasileiros, são por demais expressivos.

Outra manifestação, ainda que diferenciada, é também esclarecedora: trabalhadores britânicos em greve, no início de 2009, empunhavam um cartaz que dizia: "Empreguem primeiro os trabalhadores britânicos", em manifestação contrária à contratação de italianos e portugueses. Se é justíssima a reivindicação de salário igual para trabalho igual, para se contrapor à tendência destrutiva dos capitais de explorar o imigrante carente de trabalho, é repulsiva a manifestação que estampe qualquer traço xenófobo contra trabalhadores imigrantes.

O fenômeno é curioso: em plena apologética da assim chamada "globalização", os capitais transnacionais podem fluir e viajar livremente, enquanto o trabalho imigrante encontra-se cada vez mais cerceado e tolhido. Talvez pudéssemos dizer que, enquanto os capitais transnacionais são livres em seus voos e saques, os trabalhadores imigrantes devem se manter cativos.

O trabalho jovem

São essas algumas das forças que moldam o mundo do trabalho hoje. Mas existe ainda um outro ponto - dentre tantos - que podemos lembrar, para concluir. Sendo a CULT uma publicação que tem nos jovens um público importante, vale a pena fazer uma nota geracional: poucos jovens hoje conseguem emprego nas carreiras que escolheram. Quando têm qualificação, perambulam de um emprego a outro até chegar - se conseguirem - ao que pretendiam inicialmente. Quando lhes falta o capital cultural, aí a empreitada é mais difícil. Para conseguir emprego, são "obrigados" a realizar trabalhos "voluntários". Ou o que é ainda mais frequente: a explosão do trabalho do estagiário, que se converte em um trabalho efetivo com sub-remuneração.

Se a ordem societal dominante dificulta o acesso dos jovens em idade de trabalhar, ela inclui, por outro lado, precoce e criminosamente crianças no mercado de trabalho, não somente no Sul, mas também nos países capitalistas avançados. Pouco importa que o trabalho hoje seja supérfluo e que centenas de milhões de assalariados em idade de trabalho se encontrem em desemprego estrutural. Os capitais globais frequentemente recorrem ao corpo produtivo das crianças, que deveriam estar exercitando seu corpo brincante (na conceitualização de Maurício da Silva). E esse retrato se amplia quando estudamos a produção de sisal, de têxtil e confecções, calçados, cana-de-açúcar, carvoarias, pedreiras, olarias, emprego doméstico etc.

Por fim, outra contradição social cada vez mais vital: se os empregos se reduzem, aumentam os índices de desemprego, empobrecimento e miserabilidades social - realidade em que bilhões hoje vivem com menos de 2 dólares por dia. Se, como resposta, os capitais globais e suas transnacionais recuperarem os níveis de crescimento, como fez a China na última década, o aquecimento global nos converterá no mundo da torrefação. Trabalho e aquecimento global serão, portanto, os grandes dilemas do século 21.

Revista Cult

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Organizando para a transição anti-capitalista

David Harvey

A história geográfica do desenvolvimento capitalista está em um ponto de inflexão no qual as configurações geográficas de poder estão rapidamente mudando ao mesmo tempo em que a dinâmica temporal está enfrentando sérias restrições. Três por cento de crescimento composto (geralmente considerada a taxa mínima aceitável para uma economia capitalista saudável) está se tornando cada vez menos possível de sustentar sem recorrer a toda sorte de ficções (como aquelas que caracterizaram os mercados de ações e negócios financeiros nas últimas duas décadas).

Há razões para crer que não existe alternativa para a nova ordem mundial de governança, que eventualmente terá que administrar a transição para uma economia com crescimento zero. Se isto precisa ser feito de maneira equitativa, então não há alternativas que não o socialismo ou o comunismo. Desde o fim dos anos 1990, o Fórum Social Mundial tornou-se o centro de articulação do tema “um outro mundo é possível”. E agora deve assumir a tarefa de definir como um outro socialismo ou comunismo são possíveis e como a transição para estas alternativas deve ser realizada. A atual crise oferece uma oportunidade de reflexão a respeito do que pode estar envolvido.

A crise atual foi originada nas medidas tomadas para resolver a crise dos anos 1970. Estas medidas incluem:

(a) o bem sucedido ataque ao trabalho organizado e suas instituições políticas enquanto mobilizavam o excedente da mão de obra global, instituindo mudanças tecnológicas para economizar mão de obra e aumentando a competição. O resultado foi a diminuição dos salários em nível global (uma parcela em declínio dos salários no total do produto interno bruto em quase toda parte) e a criação de uma reserva de trabalho descartável ainda mais vasta vivendo em condições marginalizadas. 

(b) o enfraquecimento das estruturas prévias de monopólio de poder e a substituição do estágio anterior (Estado nação) de monopólio capitalista ao abrir o capitalismo para uma competição internacional muito mais feroz. A intensificação da competição global traduziu-se em lucros corporativos não-financeiros mais baixos. O desenvolvimento geográfico desigual e a competição interterritorial tornaram-se peças chave no desenvolvimento capitalista, abrindo caminho em direção a uma mudança hegemônica de poder particularmente, mas não exclusivamente, na Ásia.

(c) a utilização e o empoderamento das formas mais fluidas e altamente voláteis de capital – dinheiro – para realocar globalmente recursos de capital (eventualmente através dos mercados eletrônicos) incentivando assim a desindustrialização em regiões fundamentais tradicionalmente e novas formas de (ultra opressiva) industrialização e extração de recursos naturais e matéria prima agrícola em mercados emergentes. A proposta era melhorar o potencial lucrativo das corporações financeiras e encontrar novas maneiras de globalizar e supostamente absorver riscos através da criação de mercados de capital fictícios.

(d) No outro extremo da escala social, isso significou uma maior credibilidade do “acúmulo por espoliação”, como meio de aumentar o poder da classe capitalista. Os novos ciclos de acumulação primitiva contrários às populações indígenas e camponesas foram intensificados por perdas patrimoniais das classes mais baixas nas economias centrais (como testemunhado pelo mercado imobiliário sub-prime nos EUA que impingiu uma perda enorme de ativos particularmente por parte das populações de afroamericanos.

(d) O aumento da demanda efetiva, anteriormente flácida, ao pressionar a economia da dívida (governamental, empresarial e doméstica) até o seu limite (especialmente no EUA e no Reino Unido, mas também em muitos outros países da Letônia a Dubai).

(e) A compensação pelas anêmicas taxas de retorno da produção com a construção de toda uma série de bolhas no mercado de ativos, que tiveram um caráter Ponzi, culminando na bolha imobiliária que estourou em 2007-8. Essas bolhas de ativos apoiaram-se no capital financeiro e foram facilitadas por grandes inovações financeiras tais como os derivativos e as “obrigações de dívida colateralizada”, também conhecidas como “obrigações de dívida com garantia”

As forças políticas que se uniram na mobilização por trás dessas transições tinham um caráter de classe distinto e vestiram-se com as roupas de uma ideologia distinta chamada neoliberal. A ideologia repousava sobre a idéia de que os mercados livres, o livre comércio, a iniciativa pessoal e o empreendedorismo eram os melhores fiadores da liberdade individual e da liberdade como um todo e que o “Estado-babá” deve ser destruído para o benefício de todos. Mas a prática implicava na idéia de que o Estado estivesse por trás da integridade das instituições financeiras, introduzindo assim (começando pela crise da dívida mexicana e dos países em desenvolvimento de 1982) o “risco moral” de maneira acentuada no sistema financeiro. O Estado (local e nacional) também se tornou cada vez mais empenhado em proporcionar um “bom ambiente de negócios” para atrair investimentos em um ambiente altamente competitivo. Os interesses do povo eram secundários em relação aos interesses do capital e na eventualidade de um conflito entre eles, os interesses do povo teriam que ser sacrificados (prática que se tornou padrão nos programas de ajuste estrutural do FMI do início dos anos 1980 em diante). O sistema criado equivale a uma verdadeira forma de comunismo para a classe capitalista.

Estas condições variaram consideravelmente, como era de se esperar, dependendo de qual parte do mundo a pessoa morasse, das relações de classe lá predominantes, das tradições políticas e culturais e de como o equilíbrio de poder político-econômico estivesse se movendo.

Então, como poderá a esquerda negociar a dinâmica desta crise? Em tempos de crise, a irracionalidade do capitalismo torna-se clara para todos. Excedentes de capital e de trabalho existem lado a lado sem uma forma clara de uni-los em meio a um enorme sofrimento humano e necessidades não satisfeitas. Em pleno verão de 2009, um terço dos bens de capital nos Estados Unidos permaneceu inativo, enquanto cerca de 17 por cento da força de trabalho estava desempregada, trabalhando involuntariamente em regimes de meio período ou era formada por trabalhadores “desencorajados”. O que poderia ser mais absurdo que isso!

Seria o capitalismo capaz de sobreviver ao presente trauma? Sim. Mas a que custo? Esta pergunta encobre outra. Poderia a classe capitalista reproduzir seu poder face ao conjunto de problemas econômicos, sociais, políticos e geopolíticos e dificuldades ambientais? Novamente, a resposta é um sonoro “sim” Mas a massa terá de entregar os frutos do seu trabalho para quem está no poder, ceder muitos dos seus direitos e ativos (de todos os tipos desde habitação à previdência) e sofrer degradações ambientais em abundância sem falar nas sérias reduções em seus padrões de vida, o que significa a fome para muitos daqueles que já lutam para sobreviver no fundo do poço. As desigualdades de classe aumentarão (como já vimos acontecer).

Estas questões podem exigir mais do simplesmente um pouco de repressão política, violência policial e controle militarizado do Estado para reprimir a desordem.

Uma vez que boa parte destes fenômenos é imprevisível e os espaços da economia global são tão variáveis, as incertezas quanto aos resultados são intensificadas em períodos de crise. Todos os tipos de possibilidades localizadas surgem para que os novos capitalistas em algum espaço novo aproveitem as oportunidades para desafiar os mais antigos e as hegemonias territoriais (como quando o Silicon Valley susbstituiu Detroit a partir dos anos 1970 nos Estados Unidos) ou para que os movimentos radicais desafiem a reprodução de um poder de classe já desestabilizado. Dizer que a classe capitalista e o capitalismo podem sobreviver não quer dizer que eles estão predestinados a isso nem que seu caráter futuro está determinado. As crises são momentos de paradoxo e possibilidades.

Então, o que vai acontecer desta vez? Se quisermos voltar para o crescimento de três por cento teremos encontrar novas e lucrativas oportunidades de investimento global para US$1,6 trilhão em 2010 subindo para perto de US$ 3 trilhões em 2030. Isto contrasta com o investimento de 0,15 trilhão de dólares necessários em novos investimentos em 1950 e 0,42 trilhão de dólares necessários em 1973 (os valores em dólar foram reajustados de acordo com a inflação). Problemas reais para se encontrar saídas adequadas para o capital excedente começaram a aparecer depois de 1980, mesmo com a abertura da China e o colapso do bloco soviético. As dificuldades foram, em parte, resolvidas pela criação de mercados fictícios onde a especulação dos valores dos ativos poderia decolar sem impedimentos. Para onde irá todo esse investimento agora?

Deixando de lado as restrições indiscutíveis nas relações com a natureza (o aquecimento global sendo de suma importância), as outras potenciais barreiras para a demanda efetiva no mercado, para as tecnologias e para a distribuição geográfica/geopolítica serão provavelmente profundas, mesmo supondo, o que é improvável, que nenhuma oposição ativa séria para o contínuo acúmulo de capital e posterior consolidação do poder de classe se materialize. Que espaços são deixados na economia global para novas correções espaciais para absorção do excedente de capital? A China e o antigo bloco soviético já foram integrados. Sul e Sudeste Asiático estão se abastecendo rapidamente. África ainda não está totalmente integrada, mas não há nenhum outro local com capacidade para absorver todo este capital excedente. Que novas linhas de produção podem ser abertas para absorver o crescimento?

Pode não haver soluções capitalistas eficazes a longo prazo (além da volta às manipulações fictícias de capital) para esta crise do capitalismo. Em algum ponto, as mudanças quantitativas levarão às mudanças qualitativas e precisamos levar a sério a idéia de que estejamos exatamente neste ponto de inflexão na história do capitalismo. O questionamento a respeito do futuro do próprio capitalismo como um sistema social adequado deve, portanto, estar na vanguarda do atual debate.

No entanto, parece haver pouco apetite para tal discussão, mesmo entre a esquerda. Em vez disso, continuamos a ouvir os mantras convencionais de sempre sobre o potencial de perfeição da humanidade com a ajuda dos mercados livres e do livre comércio, da propriedade privada e da responsabilidade pessoal, dos impostos baixos e do envolvimento minimalista do Estado na provisão social, ainda que tudo isso soe cada vez mais vazio. Uma crise de legitimidade se avizinha. Mas as crises de legitimação normalmente se desdobram em um ritmo diferente do ritmo dos mercados de ações. Passaram-se, por exemplo, três ou quatro anos antes que o crash da bolsa em 1929 produzisse o movimento social massivo (tanto o progressista quanto o fascista) depois de 1932. A intensidade da atual busca do poder político por meios para sair da atual crise pode ter algo a ver com o medo político de iminente ilegitimidade.

Os últimos trinta anos, no entanto, assistiram ao surgimento de sistemas de governança que parecem imunes a problemas de legitimidade e despreocupados, até mesmo com a criação de consentimento. A mistura de autoritarismo, corrupção monetária da democracia representativa, a vigilância, o policiamento e a militarização (particularmente através da guerra contra o terror), controle de mídia e produção sugere um mundo no qual o controle dos descontentes através da desinformação, fragmentação de oposições e da concepção de culturas de oposição através da promoção de ONGs tende a prevalecer com muita força coercitiva para apoiá-lo, se necessário.

A idéia de que a crise teve origem sistêmica é pouco debatida na mídia prevalente (mesmo que alguns economistas como Stiglitz, Krugman e até Jeffrey Sachs para tentar roubar a cena histórica da esquerda, confessem uma epifania ou outra). A maioria dos movimentos governamentais para conter a crise na América do Norte e Europa levou a perpetuação da situação de sempre que se traduz em apoio à classe capitalista. O “risco moral” que foi o estopim para os fracassos financeiros está ultrapassando novos limites nos resgates a bancos. As práticas atuais do neoliberalismo (ao contrário de sua teoria utópica) sempre implicaram claro apoio para o capital financeiro e para as elites capitalistas (geralmente com base na teoria de que as instituições financeiras devem ser protegidas a todo custo e que é dever do poder do Estado criar um clima agradável para os negócios, o que resultaria em um maior lucro). Fundamentalmente, nada mudou. Tais práticas são justificadas pelo apelo à proposição duvidosa de que uma “maré crescente” do empreendimento capitalista “levantaria todos os barcos”, ou seja, que os benefícios do crescimento composto traria, como em um passe de mágica, benefícios à toda população (o que nunca acontece, exceto sob a forma de alguns migalhas caídas das mesas dos mais abastados).

Então, como a classe capitalista sairá da atual crise e em quanto tempo? O recuo dos valores nos mercados acionários de Xangai, Tóquio, Frankfurt, Londres e Nova York é um bom sinal é o que nos dizem, mesmo que o desemprego por toda parte continue a aumentar. Mas notem o viés de classe dessa medida. Somos intimados a regozijar-nos com a recuperação dos valores das ações para os capitalistas, porque esta sempre precede, dizem, uma repercussão na economia “real”, onde os postos de trabalho são criados e os salários pagos. O fato de que a recuperação do último recuo das ações nos Estados Unidos após 2002 revelou-se uma “recuperação de desempregados” parece já ter sido esquecido. O público anglo-saxão, em particular, parece ser seriamente atingido por essa amnésia. Ele esquece e perdoa com grande facilidade as transgressões da classe capitalista e os desastres periódicos que suas ações precipitam. A mídia capitalista tem o prazer de promover essa amnésia.

China e Índia ainda estão crescendo, o primeiro aos trancos e barrancos. Mas no caso da China, o custo equivale a uma enorme expansão dos empréstimos bancários em projetos de risco (os bancos chineses não foram apanhados no frenesi especulativo global, mas agora estão dando continuidade a este movimento). O superacúmulo da capacidade produtiva, que promove investimentos em infraestrutura graduais e de longo prazo, cuja produtividade não será conhecida por vários anos está crescendo (inclusive nos mercados imobiliários urbanos). E a crescente demanda da China está envolvendo também essas economias fornecedoras de matérias-primas, como a Austrália e o Chile. A probabilidade de um choque subseqüente na China não pode ser descartada, mas pode levar algum tempo para sabermos (uma versão de longo prazo de Dubai). Enquanto isso, o epicentro mundial do capitalismo acelera seu deslocamento primordialmente para o leste da Ásia.

Nos centros financeiros mais antigos, os jovens tubarões financeiros pegaram seus bônus do ano anterior e, conjuntamente, abriram pequenas instituições financeiras para continuarem a circular em Wall Street e City of London (centro financeiro de Londres) peneirando os restos deixados pelos gigantes financeiros de outrora e recolhendo as partes suculentas para recomeçarem tudo novamente. Os bancos de investimento que permanecem nos EUA – Goldman Sachs e JPMorgan – embora reencarnados como holdings bancários ganharam isenção (graças ao Federal Reserve) de requisitos regulamentares e estão conseguindo lucros enormes (e deixando de lado enormes quantias para os seus próprios bônus) ao especularem perigosamente com o dinheiro de contribuintes em mercados derivativos ainda não regulamentados e em plena expansão. A alavancagem que nos levou à crise retornou como se nada tivesse acontecido. Inovações em matéria de finanças usadas como novas formas de empacotar e vender dívidas de capital fictício estão sendo reinventadas e oferecidas às instituições (como os fundos de pensão), desesperados por encontrar novos mercados para o capital excedente. As ficções (assim como os bônus) estão de volta!

Os consórcios estão comprando propriedades cujo direito de resgate à hipoteca encontra-se anulado esperando que o mercado mude seu rumo antes de cancelá-los definitivamente ou ainda guardando propriedades de alto valor para um futuro momento de volta ao desenvolvimento ativo. Os bancos normais estão estocando dinheiro, boa parte colhida em cofres públicos, também com a intenção de voltar ao pagamento de bônus compatíveis com o estilo de vida que levavam anteriormente, enquanto um conjunto de empresários paira ao seu redor à espera de aproveitar este momento de destruição criativa, apoiados por uma enxurrada de dinheiro público.

Enquanto isso, o poder do dinheiro exercido por poucos prejudica todas as formas de governança democrática. Os lobbies farmacêutico, de seguro de saúde e de hospitais, por exemplo, gastou mais de US $ 133 milhões no primeiro trimestre de 2009 para se certificar que as coisas sairiam como eles querem na reforma da saúde nos Estados Unidos. Max Baucus, chefe do comitê de Finanças do Senado, que formulou o projeto de lei referente aos serviços de saúde recebeu US $ 1,5 milhões por um projeto de lei que oferece um vasto número de novos clientes para as companhias de seguros, com poucas proteções contra a exploração cruel e o lucro excessivo (Wall Street está encantada). Outro ciclo eleitoral, legalmente corrompido pelo imenso poder do dinheiro, logo se avizinhará. Nos Estados Unidos, os partidos de “K Street” e de Wall Street serão devidamente re-eleitos enquanto trabalhadores americanos são exortados a encontrar uma saída para a confusão que a classe dominante criou.

Nós já estivemos em situação igualmente precária antes, e em todas as vezes os trabalhadores norte-americanos arregaçaram as mangas, apertaram os cintos, e salvaram o sistema de algum mecanismo misterioso de auto-destruição, pelo qual a classe dominante se exime de qualquer responsabilidade. Responsabilidade pessoal é, afinal, para os trabalhadores e não para os capitalistas.

Se este é o esboço da estratégia de saída, então quase certamente estaremos em outra confusão antes de cinco anos. Quanto mais rápido sairmos desta crise e quanto menos capital excedente for destruído agora, menor será o espaço para revivermos o crescimento ativo a longo prazo. A perda de valor dos ativos nesta conjuntura (meados de 2009) é, fomos informados pelo FMI, pelo menos de US $ 55 trilhões, o que equivale a praticamente toda produção anual mundial de bens e serviços. Já estamos de volta aos níveis de produção de 1989. Podemos estar frente a perdas de US$400 trilhões ou mais antes do fim. De fato, em um surpreendente cálculo feito recente, sugeriu-se que os EUA estavam em maus lençóis por terem que garantir sozinhos mais de US $ 200 trilhões em valor de ativos. A probabilidade de que todos os ativos estejam “podres” é mínima, mas a idéia de que muitos deles possam estar é bastante realista. Só para dar um exemplo concreto: Fannie Mae e Freddie Mac, agora resgatadas pelo Governo dos EUA, têm ou ofereceram garantia para mais de US$5 trilhões em empréstimos de habitação, muitos dos quais estão com profundas dificuldades (perdas de mais de US$150 bilhões foram registradas apenas em 2008). Então, quais são as alternativas?

Há tempos o sonho de muitos no mundo é que uma alternativa para a ir(racionalidade) capitalista possa ser definida e concluída racionalmente por meio da mobilização das paixões humanas, na busca coletiva de uma vida melhor para todos. Estas alternativas – historicamente chamadas socialismo ou comunismo – foram tentadas em diferentes épocas e lugares. Antigamente, como em 1930, a visão de um ou outro deles funcionava como um farol de esperança. Mas nos últimos tempos ambos têm perdido seu brilho, ignorados, não apenas por conta do fracasso das experiências históricas com o comunismo em cumprir suas promessas e a propensão dos regimes comunistas para encobrir os erros cometidos pela repressão, mas também por causa de seus pressupostos supostamente falhos sobre a natureza humana e do potencial de perfeição da personalidade humana e das instituições humanas.

A diferença entre o socialismo e o comunismo é digna de nota. O Socialismo visa democraticamente gerir e regular o capitalismo de modo a acalmar seus excessos e redistribuir seus benefícios para o bem comum. Trata-se de espalhar a riqueza através de acordos em torno de uma tributação progressiva, enquanto as necessidades básicas – como educação, saúde e até mesmo de habitação – são fornecidas pelo Estado, fora do alcance das forças de mercado. Muitas das principais conquistas do socialismo redistributivo no período após 1945 não só na Europa, mas em outros locais, tornaram-se tão socialmente incorporadas que estão praticamente imunes ao ataque neoliberal. Mesmo nos Estados Unidos, a seguridade social e o Medicare são programas extremamente populares que as forças de direita encontram enorme dificuldade para exterminar. Os Thatcheristas na Grã-Bretanha não puderam encostar em nada que dissesse respeito à saúde nacional, exceto marginalmente. As provisões sociais na Escandinávia e na maior parte da Europa Ocidental parecem ser uma camada indestrutível da ordem social.

O comunismo, por outro lado, pretende deslocar o capitalismo através da criação de um modo completamente diferente da produção e distribuição de bens e serviços. Na história do comunismo realmente levado a cabo, o controle social sobre a produção, troca e distribuição significava controle estatal e planejamento estatal sistemático. No longo prazo, estas medidas se mostraram mal sucedidas, porém, curiosamente, sua conversão na China (e sua adoção anteriormente em locais como Singapura) tem se mostrado muito mais bem sucedida do que o modelo neoliberal puro na geração de crescimento capitalista, por tantas razões que não poderiam ser desenvolvidas neste texto.

Tentativas contemporâneas de reviver a hipótese comunista tipicamente evitam o controle estatal e procuram outras formas de organização social coletiva para suplantar as forças do mercado e a acumulação de capital como base para organizar a produção e distribuição. Em rede horizontal, ao contrário dos sistemas de coordenação comandados hierarquicamente entre coletivos de produtores e consumidores autonomamente organizados e autogovernados estão previstas no cerne de uma nova forma de comunismo. Tecnologias contemporâneas de comunicação fazem um sistema como este parecer viável. Podem ser encontrados por todo o mundo experiências de pequena escala em que tais formas econômicas e políticas estão sendo construídas. Há nisto uma convergência de algum tipo entre as tradições marxista e anarquista que remonta à situação amplamente colaborativa entre elas na década de 1860, na Europa.

Ainda que não tenhamos certeza é possível que 2009 marque o início de uma prolongada reviravolta em que a questão ao redor de alternativas ao capitalismo que sejam grandiosas e de longo alcance irão passo a passo borbulhar até a superfície em uma parte ou outra do mundo. Quanto mais prolongadas forem a incerteza e a miséria, maior será o questionamento em torno da legitimidade do atual modo de fazer negócios e maior será a demanda para se construir algo diferente. Reformas radicais ao contrário das reformas estilo band aid são necessárias para se consertar o sistema financeiro.

O desenvolvimento desigual das práticas capitalistas ao redor do mundo tem produzido movimentos anticapitalistas em toda parte. As economias Estado-cêntricas de grande parte da Ásia Oriental geram descontentamentos diferentes (como no Japão e China) em comparação com a agitação antineoliberal das lutas que ocorrem em boa parte da América Latina, onde o Movimento Revolucionário Bolivariano pelo Poder Popular encontra-se em uma relação peculiar com os interesses da classe capitalista que ainda têm que ser verdadeiramente confrontados. Diferenças a respeito de táticas e políticas em resposta à crise entre os Estados que compõem a União Européia estão aumentando ao mesmo tempo em que uma segunda tentativa de chegar a uma constituição unificada da UE está em curso.

Movimentos revolucionários e resolutamente anticapitalistas também podem ser encontrados, embora nem todos eles sejam do tipo progressista, em muitas das zonas marginais do capitalismo. Espaços foram abertos dentro dos quais algo radicalmente diferente em termos de relações sociais dominantes, modos de vida, capacidades produtivas e concepções mentais do mundo pode florescer. Isto se aplica tanto para os talibãs e para o regime comunista no Nepal, como para os zapatistas em Chiapas e os movimentos indígenas na Bolívia, os movimentos maoístas na Índia rural, ainda que sejam muito diferentes entre si em termos de objetivos, estratégias e táticas.

O problema central é que, no total, não há movimento anticapitalista suficientemente unificado e decidido capaz de desafiar adequadamente a reprodução da classe capitalista e a perpetuação do seu poder no cenário mundial. Da mesma forma não há nenhuma maneira óbvia de atacar os baluartes dos privilégios das elites capitalistas ou de limitar seu desmesurado poderio financeiro e militar. Apesar de haver aberturas para uma possível ordem social alternativa, ninguém realmente sabe onde ela está ou o que ela é. Mas só porque não há nenhuma força política capaz de articular e muito menos montar um programa, não há motivos para se deter o esboço de alternativas.

A famosa pergunta de Lenin “o que fazer?” não pode ser respondida, certamente, sem alguma noção de quem é que pode fazê-lo e onde. Mas é pouco provável que um movimento global anticapitalista surja sem alguma animação visual do quê está por ser feito e o porquê. Existe um duplo bloqueio: a falta de uma visão alternativa impede a formação de um movimento de oposição, enquanto a ausência de tal movimento opõe-se à articulação de uma alternativa. Como, então, esse bloqueio poderia ser superado? A relação entre a visão do que fazer e o porquê, e a formação de um movimento político em determinados lugares tem que ser transformada em uma espiral. Uma tem que reforçar a outra, para que algo possa ser feito. Caso contrário, a potencial oposição será trancada para sempre em um círculo fechado que frustra todas as perspectivas de mudança construtiva, deixando-nos vulneráveis a sofrermos no futuro perpétuas crises do capitalismo, com resultados cada vez mais mortais. A pergunta de Lênin exige uma resposta.

O problema central a ser abordado é bastante claro. Obter crescimento composto para sempre não é possível e os problemas que assolaram o mundo nos últimos trinta anos sinalizam que estamos próximos do limite para o contínuo acúmulo de capital, que não pode ser transcendido exceto criando-se ficções não duradouras. Adicione-se a isso o fato de que tantas pessoas no mundo vivem em condições de extrema pobreza, que a degradação ambiental está fora de controle, que a dignidade humana está sendo ofendida em toda parte, enquanto os ricos estão acumulando mais e mais riqueza (o número de bilionários na Índia dobrou no ano passado de 27 para 52) para si próprios e que as alavancas dos poderes políticos, institucionais, judiciais, militares e midiáticos estão sob controle político estrito, porém dogmático, encontrando-se incapazes de fazer algo além do que perpetuar o status quo e o frustrante descontentamento.

Uma política revolucionária capaz de enfrentar o problema do interminável acúmulo de capital composto e, eventualmente, desligá-lo como o principal motor da história humana, requer uma compreensão sofisticada de como ocorre a mudança social. O fracasso dos esforços passados para construir um socialismo e comunismo duradouros tem que ser evitado e lições dessa história extremamente complicada devem ser aprendidas. No entanto, a absoluta necessidade de um movimento revolucionário anticapitalista coerente também deve ser reconhecida. O objetivo fundamental deste movimento é assumir o comando social sobre a produção e distribuição de excedentes.

Precisamos urgentemente de uma teoria revolucionária explícita adequada aos nossos tempos. Eu proponho uma “teoria co-revolucionária” derivada da compreensão de Marx sobre como o capitalismo surgiu do feudalismo. A mudança social surge através do desdobramento dialético das relações entre sete momentos dentro do corpo político do capitalismo, visto como um conjunto ou junção de atividades e práticas:

a) formas de produção tecnológicas e organizacionais, intercâmbio e consumo
b) relações com a natureza
c) relações sociais entre as pessoas
d) concepções mentais do mundo, abrangendo conhecimentos e entendimentos culturais e crenças
e) processos de trabalho e produção de bens específicos, geografias, serviços ou sentimentos
f) arranjos institucionais, legais e governamentais
g) a condução da vida diária que está subjacente a reprodução social.

Cada um desses momentos é internamente dinâmico e internamente marcado por tensões e contradições (imagine apenas as concepções mentais do mundo), mas todos eles são co-dependentes e co-evoluem em relação ao outro. A transição para o capitalismo implicou em um movimento de apoio mútuo em todos os sete momentos. Teóricos sociais têm o hábito de tomar apenas um destes momentos e enxergá-lo como o causador de todas as mudanças. Temos deterministas tecnológicos (Tom Friedman), deterministas ambientais (Jarad Diamond), deterministas da vida cotidiana (Paul Hawkin), deterministas dos processos do trabalho (os autonomistas), institucionalistas, e assim por diante. Eles estão todos errados. É o movimento dialético entre todos estes momentos que realmente importa, até mesmo porque há um desenvolvimento desigual.

Quando o próprio capitalismo passa por uma de suas fases de renovação, ele o faz precisamente por co-evolução de todos os momentos, obviamente, não sem tensões, lutas e contradições. Mas considere como estes sete momentos foram configurados aproximadamente em 1970, antes do surgimento da onda neoliberal, e considere como eles são hoje em dia e você verá que todos eles mudaram de uma forma que re-define as características operativas do capitalismo visto como uma totalidade não-Hegeliana.

Um movimento político anticapitalista pode começar em qualquer lugar (em processos de trabalho, em torno de concepções mentais, na relação com a natureza, nas relações sociais, na concepção de tecnologias revolucionárias e formas organizacionais, na vida diária ou através de tentativas de se reformar estruturas institucionais e administrativas, incluindo a reconfiguração dos poderes do Estado). O truque é manter o movimento político seguindo em frente de um momento para outro, de maneira que se reforcem mutuamente. Foi assim que o capitalismo surgiu do feudalismo e é assim que algo radicalmente diferente chamado comunismo, socialismo ou outra coisa deve surgir do capitalismo. As tentativas anteriores de se criar uma alternativa comunista ou socialista não foram capazes de manter a dialética entre os diferentes momentos em movimento e não conseguiram abraçar as imprevisibilidades e incertezas no movimento dialético entre eles. O capitalismo tem sobrevivido justamente por manter focado o movimento dialético entre os momentos e abraçar construtivamente as tensões inevitáveis, incluindo as crises.

A mudança surge, naturalmente, de um estado de coisas existente e tem que aproveitar as possibilidades imanentes dentro de uma situação existente. Uma vez que a situação existente varia enormemente do Nepal, para as regiões do Pacífico da Bolívia, ou para as cidades desindustrializadas de Michigan e as cidades de Bombaim e Xangai, ainda em desenvolvimento e os abalados, mas de nenhuma maneira destruídos centros financeiros de Nova Iorque e Londres, então todos os tipos de experimentos de mudança social em diferentes lugares e em diferentes escalas geográficas são provável e potencialmente esclarecedores como maneiras de produzir (ou não produzir) um outro mundo possível. E em cada instância pode parecer que um ou outro aspecto da situação existente é a chave para um futuro político diferente. Mas a primeira regra para um movimento global anticapitalista deve ser: nunca conte com a dinâmica de um momento em desdobramento sem considerar cuidadosamente como as relações com todos os outros estão se adaptando e reverberando.

Possibilidades futuras viáveis resultam do atual estado das relações entre os diferentes momentos. Intervenções políticas estratégicas dentro e entre as esferas podem mover gradualmente a ordem social para um caminho de desenvolvimento diferente. Isto é o que os líderes sábios e as instituições progressistas fazem o tempo todo em situações locais, por isso não há razão para se pensar que há algo particularmente fantástico ou utópico em se agir desta forma. A esquerda tem que construir alianças entre aqueles que trabalham nas distintas esferas. Um movimento anticapitalista tem que ser muito mais amplo do que grupos de mobilização em torno das relações sociais ou sobre questões da vida quotidiana. Hostilidades tradicionais entre, por exemplo, pessoas com conhecimentos técnicos, científicos e administrativos e aquelas que motivam as atividades dos movimentos sociais têm que ser resolvidos e superados. Temos agora que transmitir o exemplo do movimento das mudanças climáticas, um exemplo significativo de como tais alianças podem começar a trabalhar.

Neste caso, a relação com a natureza é o ponto de início, mas todo mundo percebe que algo tem que acontecer em todos os outros momentos e enquanto houver uma política de desejos que procura a solução puramente tecnológica torna-se cada vez mais claro que a vida cotidiana, as concepções mentais, os arranjos institucionais, os processos de produção e as relações sociais têm que estar envolvidos. E tudo isso significa um movimento para a reestruturação da sociedade capitalista como um todo e para confrontar a lógica do crescimento por trás do problema inicial.

Deve haver, contudo, objetivos comuns vagamente acordados em qualquer movimento de transição. Normas gerais de orientação podem ser ajustadas. Estas podem incluir (apenas apresentarei brevemente estas normas para discussão), o respeito pela natureza, o igualitarismo radical nas relações sociais, arranjos institucionais com base em alguma noção sobre interesses comuns e propriedade comum, procedimentos administrativos e democráticos (em oposição às ilusões lucrativas que existem hoje em dia), processos de trabalho organizados diretamente pelos produtores, a vida cotidiana como a livre exploração de novos tipos de relações sociais e condições de vida, as concepções mentais que focam sobre a realização pessoal através do serviço aos outros e as inovações tecnológicas e organizacionais orientadas para o bem comum e não para o apoio do poder militarizado, da vigilância e da ganância corporativa. Estes poderiam ser pontos co-revolucionários em torno dos quais a ação social poderia convergir e girar. Claro que isso é utópico! Mas e daí! Não podemos nos dar ao luxo de não sê-lo.

Deixe-me detalhar um aspecto em especial do problema que surge onde eu trabalho. As idéias têm conseqüências e idéias falsas podem ter conseqüências devastadoras. Falhas de políticas baseadas em pensamentos econômicos errôneos desempenharam um papel crucial para o desenrolar do desastre dos anos 1930 e na aparente incapacidade de se encontrar uma saída. Embora não haja consenso entre os historiadores e economistas sobre exatamente que políticas falharam foi acordado que a estrutura de conhecimento através da qual a crise foi entendida precisava ser revolucionada. Keynes e seus colegas realizaram essa tarefa. Mas, em meados da década de 1970, tornou-se claro que os instrumentos de política keynesiana já não funcionavam, pelo menos não da forma como estavam sendo aplicados, e foi neste contexto que o monetarismo, a teoria da economia de oferta e a (bela) modelagem matemática dos comportamentos de mercado microeconômicos suplantaram o pensamento econômico keynesiano. A teoria monetarista e neoliberal mais limitada que dominou após os anos 1980 está agora em questão. Na verdade ela tem falhado desastrosamente.

Precisamos de novas concepções mentais para compreender o mundo. Quais poderiam ser elas e quem irá produzi-las, considerado o mal-estar sociológico e intelectual que paira sobre a produção e (igualmente importante) difusão do conhecimento de maneira mais geral? As concepções mentais profundamente arraigadas associadas às teorias neoliberais e a neoliberalização e corporatização das universidades e dos meios de comunicação tem desempenhado um papel importante na produção da atual crise. Por exemplo, toda a questão em torno do que fazer sobre o sistema financeiro, o setor bancário, o vínculo Estado-finanças e o poder dos direitos de propriedade privada, não pode ser trabalhada sem deixarmos de lado o pensamento convencional. Para que isso aconteça será necessária uma revolução no pensamento, em lugares tão diversos quanto as universidades, a mídia e o governo, bem como no âmbito das instituições financeiras.

Karl Marx, embora não estivesse de modo algum inclinado a abraçar o idealismo filosófico, considerou as idéias como uma força material na história. Concepções mentais constituem, afinal, um dos sete momentos da sua teoria geral da mudança co-revolucionária. Evoluções autônomas e conflitos internos sobre quais concepções mentais passariam a ser hegemônicas, portanto, têm um papel histórico importante a desempenhar. Por esta razão Marx (junto com Engels) escreveu o Manifesto Comunista, O Capital e inúmeras outras obras. Estes trabalhos fornecem uma crítica sistemática, ainda que incompleta, do capitalismo e as tendências de sua crise. Mas, como Marx também insistiu, apenas quando essas idéias críticas transitassem para os campos dos arranjos institucionais, formas organizacionais, sistemas de produção, vida cotidiana, relações sociais, tecnologias e relações com a natureza que o mundo realmente mudaria.

Uma vez que o objetivo de Marx era mudar o mundo e não apenas entendê-lo, idéias tinham que ser formuladas com certa intenção revolucionária. Isto significa, inevitavelmente, um conflito com modos de pensamento mais úteis e fáceis de se conviver para a classe dominante. O fato de que as idéias de oposição de Marx, particularmente nos últimos anos, têm sido alvo de repetidas repressões e exclusões (sem falar da farta bowdlerização e das distorções), sugere que suas idéias podem ser muito perigosas para serem toleradas pelas classes dominantes. Ainda que Keynes repetidamente declarasse que nunca tinha lido Marx, ele foi cercado e influenciado em 1930 por muitas pessoas (como por seu colega economista Joan Robinson) que leram. Embora muitos deles se opusessem veementemente aos conceitos fundamentais de Marx e seu modo dialético de raciocínio, eles estavam bastante conscientes e profundamente afetados por algumas de suas conclusões e previsões. É justo dizer, penso eu, que a revolução da teoria keynesiana não poderia ter sido realizada sem a presença subversiva de Marx, sempre à espreita.

O problema nos dias de hoje é que a maioria das pessoas não tem idéia de quem foi Keynes e o que ele realmente defendia e para estas mesmas o conhecimento de Marx é desprezível. A repressão das correntes críticas e radicais do pensamento, ou para ser mais exato o confinamento do radicalismo dentro dos limites do multiculturalismo, políticas de identidade e escolha cultural, cria uma situação lamentável na academia e fora dela, que equivale em princípio a ter que pedir aos banqueiros responsáveis pela bagunça que a limpem exatamente com as mesmas ferramentas que eles usaram para produzi-la. A ampla adesão às idéias pós-modernas e pós-estruturalistas que celebram o particular em detrimento do pensamento mais amplo não ajuda. O local e o particular são de vital importância e teorias que não aceitem, por exemplo, a diferença geográfica, são inúteis. Mas quando esse fato é usado para excluir qualquer coisa maior do que políticas paroquiais, então, a traição dos intelectuais e a revogação do seu papel tradicional tornam-se completas.

A atual população de acadêmicos, intelectuais e especialistas em ciências sociais e humanidades é, em geral, mal equipada para realizar a tarefa coletiva de revolucionar as nossas estruturas de conhecimento. Eles foram, de fato, profundamente implicados na construção dos novos sistemas de governabilidade neoliberal que contornam questões ligadas à legitimidade e democracia e promovem uma política tecnocrática autoritária. Poucos parecem predispostos a empreender uma reflexão autocrítica. Universidades continuam a promover os mesmos cursos inúteis sobre a teoria política da escolha racional ou economia neoclássica, como se nada tivesse acontecido e as faculdades de administração adicionam um curso ou dois sobre ética dos negócios ou sobre como ganhar dinheiro a partir da falência de outras pessoas. Afinal, a crise surgiu da ganância humana e não há nada que possa ser feito sobre isso!

A atual estrutura do conhecimento é claramente disfuncional e ilegítima. A única esperança é que uma nova geração de estudantes com alto senso crítico (no sentido amplo de todos aqueles que pretendem conhecer o mundo) seja capaz de enxergar isso e insista em mudar esta realidade. Isto aconteceu na década de 1960. Em vários outros pontos críticos da história movimentos inspirados por estudantes, reconhecendo a disjunção entre o que está acontecendo no mundo e o que está sendo ensinado a eles e transmitido pela mídia estiveram dispostos a fazer algo a respeito disso. Há sinais em Teerã a Atenas e em muitas universidades européias de tal movimento. Como a nova geração de estudantes na China vai agir certamente deve ser de grande preocupação nos corredores do poder político, em Pequim.

Um movimento revolucionário juvenil conduzido por estudantes, com todas as suas evidentes incertezas e problemas é uma condição necessária, mas não suficiente, para produzir essa revolução nas concepções mentais que podem nos levar a uma solução mais racional para os atuais problemas de crescimento infinito.

O que, de maneira mais ampla, aconteceria se um movimento anticapitalista fosse constituído a partir de uma ampla aliança de excluídos, descontentes, pobres e sem posses? A imagem de todas essas pessoas em toda parte se levantando, exigindo e conquistando seu devido lugar na vida econômica, social e política está se formando. Ela também ajuda a focar na questão sobre o que é que eles podem exigir e o que precisa ser feito.

Transformações revolucionárias não podem ser realizadas sem que no mínimo mudemos nossas idéias, abandonando crenças e preconceitos que nos são caros, confortos diários e direitos, submetendo-nos a um novo esquema de vida cotidiana, mudemos nossos papéis sociais e políticos, reafirmemos nossos direitos, deveres e responsabilidades e alteremos nosso comportamento para estar em mais conformidade com as necessidades coletivas e com uma vontade comum. O mundo que nos cerca – as nossas geografias – deve ser radicalmente reformado, assim como nossas relações sociais, a relação com a natureza e todos os outros momentos do processo co-revolucionário. É compreensível, até certo ponto, que muitos prefiram uma política de negação a uma política de confronto ativo.

Também seria reconfortante pensar que tudo isso poderia ser realizado pacífica e voluntariamente, que disporíamos de nossas posses, nos despiríamos, como antes, de tudo o que possuímos hoje e se encontra no caminho da criação de uma ordem de Estado estável, socialmente justa. Mas seria hipócrita imaginar que isso se dará desta maneira, que nenhuma luta ativa estará envolvida, incluindo um certo grau de violência. O capitalismo veio ao mundo, como Marx disse certa vez, banhado em sangue e fogo. Embora seja possível fazer um trabalho melhor ao sairmos dele do que quando entramos, é improvável pensarmos em uma passagem puramente pacífica para a terra prometida.

Existem várias grandes correntes de pensamento rebelde à esquerda quanto à forma de abordar os problemas com que hoje nos confrontamos. Há, acima de tudo, o sectarismo habitual, decorrente da história de ações radicais e as articulações da teoria política de esquerda. Curiosamente, o único lugar onde a amnésia não é tão prevalente é dentro da esquerda (o racha entre os anarquistas e os marxistas que ocorreu na década de 1870, entre trotskistas, maoístas e os comunistas ortodoxos, entre os centralizadores que querem comandar o Estado e os antiestadistas autonomistas e os anarquistas). Os argumentos são tão ressentidos e tão turbulentos, que às vezes nos fazem pensar que um pouco mais de amnésia ajudaria. Mas para além destas seitas tradicionais revolucionárias e facções políticas, todo o campo de ação política sofreu uma transformação radical desde a década de 1970. O terreno da luta política e das possibilidades de política mudou, tanto geograficamente quanto organizacionalmente.

Existe hoje um vasto número de organizações não-governamentais (ONG’s) que desempenham um papel político que era pouco visível antes de meados dos anos 1970. Financiadas por interesses estatais e privados, muitas vezes povoadas por pensadores idealistas e organizadores (que constituem um vasto programa de empregos), e em grande parte dedicadas a questões isoladas (meio ambiente, pobreza, direitos das mulheres, antiescravidão e tráfico de trabalho, etc.) elas se abstém de uma política estritamente capitalista mesmo defendendo idéias e causas progressistas. Em alguns casos, no entanto, elas são ativamente neoliberais, defendendo a privatização de funções do Estado de bem estar social ou promovendo reformas institucionais para facilitar a integração de populações marginalizadas no mercado (esquemas de microcrédito e microfinanças para populações de baixa renda são um exemplo clássico disto).

Embora existam muitos praticantes radicais e dedicados neste mundo das ONGs, seu trabalho é na melhor das hipóteses benéfico. Coletivamente, eles têm um registro irregular de conquistas progressistas, embora em certas áreas, tais como os direitos da mulher, saúde e preservação ambiental seja possível afirmar que fizeram grandes contribuições para o aperfeiçoamento humano. Mas a mudança revolucionária através das ONGs é impossível. Elas são muito limitadas pelas instâncias políticas e de formulação de políticas dos seus mantenedores. Assim, embora elas possam apoiar a capacitação local ao ajudar na abertura de espaços onde as alternativas anticapitalistas se tornam possíveis e até mesmo apoiar a experimentação com essas alternativas, elas são inócuas para impedir a re-absorção destas alternativas para a prática capitalista dominante: elas até mesmo a encorajam. O poder coletivo das ONGs, nos dias de hoje é refletido no papel preponderante que desempenham no Fórum Social Mundial, onde as tentativas de forjar um movimento de justiça global, uma alternativa global ao neoliberalismo, têm-se concentrado ao longo dos últimos dez anos.

O segundo grande grupo de oposição surge de anarquistas, autonomistas e organizações de base (GROS), que recusam financiamento externo, ainda que alguns deles se apóiem em algum tipo de base institucional alternativa (como a Igreja Católica com as “comunidades de base”, na América Latina ou patrocínio mais amplo da igreja para a mobilização política em cidades do interior dos Estados Unidos). Este grupo está longe de ser homogêneo (na verdade, existem fortes disputas entre eles, colocando, por exemplo, os anarquistas sociais contra aqueles a que eles se referem raivosamente como meros anarquistas por “estilo de vida”). Há, no entanto, uma antipatia comum à negociação com o poder do Estado e uma ênfase na sociedade civil como sendo a esfera onde a mudança pode ser realizada.

Os poderes de auto-organização das pessoas nas situações cotidianas em que elas vivem têm que ser a base para qualquer alternativa anticapitalista. A formação de redes horizontais é o seu modelo de organização preferido. As chamadas “economias solidárias” baseadas em trocas têm os sistemas coletivos e de produção local como sua forma político-econômica preferida. Eles normalmente se opõem à idéia de que qualquer direção central possa ser necessária e rejeitam as relações sociais hierárquicas ou estruturas de poder político hierárquico, juntamente com os partidos políticos tradicionais.

Organizações deste tipo podem ser encontradas em todos os lugares e em alguns locais atingiram um alto grau de proeminência política. Alguns deles são radicalmente anticapitalistas na sua postura e defendem objetivos revolucionários e em alguns casos, estão dispostos a defender a sabotagem e outras formas de desordem (as Brigadas Vermelhas na Itália, o Meinhoff Baader na Alemanha e o Weather Underground nos Estados Unidos, na década de 1970). Mas a eficácia de todos estes movimentos (deixando de lado os mais violentos) é limitada pela relutância e a incapacidade para elevar seu ativismo a formas de organização em grande escala capazes de enfrentar os problemas globais. A presunção de que a ação local é o único nível significativo de mudança e que tudo o que cheira a hierarquia é anti-revolucionário é, na verdade, autodestrutivo em se tratando de questões maiores. No entanto, esses movimentos estão, inquestionavelmente, fornecendo uma base ampla para a experimentação com políticas anticapitalistas.

A terceira grande tendência advém da transformação que vem ocorrendo na organização do trabalho tradicional e nos partidos políticos de esquerda, variando desde tradições social-democráticas até trotskistas mais radicais e formas comunistas de organização de partidos políticos. Esta tendência não é hostil à conquista do poder do Estado ou de outras formas de organização hierárquica. Na verdade, ela vê esta última como necessária à integração da organização política em uma variedade de escalas políticas. Nos anos em que a social-democracia era hegemônica na Europa e até mesmo influente nos Estados Unidos, o controle estatal sobre a distribuição dos excedentes se tornou uma ferramenta essencial para diminuir as desigualdades.

O fracasso em se conseguir o controle social sobre a produção de excedentes e, assim, realmente desafiar o poder da classe capitalista foi o calcanhar de Aquiles deste sistema político, mas não devemos esquecer os avanços que ele fez, mesmo que agora seja claramente insuficiente a volta para tal modelo político com o seu assistencialismo social e economia keynesiana. O movimento bolivariano na América Latina e a ascensão ao poder do Estado conseguida por governos social-democratas é um dos sinais mais promissores da ressurreição de uma nova forma de estatismo de esquerda.

Tanto o trabalho organizado quanto os partidos políticos de esquerda tomaram bons golpes no mundo capitalista desenvolvido ao longo dos últimos trinta anos. Ambos foram convencidos ou coagidos a um amplo apoio ao neoliberalismo, ainda que este contasse com contornos mais humanos. Uma maneira de se enxergar o neoliberalismo, como mencionado anteriormente, é como um movimento grandioso e bastante revolucionário (liderado pela figura autoproclamada revolucionária, Margaret Thatcher) para privatizar os excedentes, ou pelo menos impedir o avanço de sua socialização.

Embora existam sinais de recuperação da organização do trabalho e das políticas de esquerda (em oposição à “terceira via”, celebrada pelo Novo Trabalhismo na Grã-Bretanha sob Tony Blair e desastrosamente copiada por muitos partidos social-democratas na Europa), juntamente com os sinais do aparecimento de partidos de esquerda mais radicais em diferentes partes do mundo, o uso exclusivo de uma vanguarda de trabalhadores está agora em questão tanto quanto a habilidade daqueles partidos de esquerda que conquistam algum grau de acesso ao poder político a ter um impacto substancial sobre o desenvolvimento do capitalismo e lidar com a dinâmica conturbada da acumulação propensa a crise.

O desempenho do Partido Verde alemão no poder não tem sido algo fora do comum em relação à sua postura política de poder e os partidos social-democratas perderam sua habilidade para atuar como uma verdadeira força política. Mas os partidos políticos de esquerda e sindicatos ainda são significantes e sua aquisição de aspectos do poder do Estado, como no caso do Partido dos Trabalhadores do Brasil ou do movimento bolivariano na Venezuela teve um claro impacto no pensamento de esquerda, não apenas na América Latina. Talvez não seja fácil resolver os complicados questionamentos a respeito de como interpretar o papel do Partido Comunista da China, com seu controle exclusivo sobre o poder político e sobre quais serão suas futuras políticas.

A teoria co-revolucionária anteriormente apresentada sugeria que de forma alguma uma ordem social anticapitalista poderia ser construída sem a tomada do poder do Estado, transformando-o radicalmente e retrabalhando as estruturas constitucional e institucional que atualmente apóiam a propriedade privada, o sistema de mercado e a interminável acumulação de capital. A concorrência interestatal e as lutas geoeconômica e geopolítica por tudo, desde comércio e dinheiro até as questões de hegemonia também são importantes demais para serem deixadas para os movimentos sociais locais ou postas de lado como sendo grandes demais para serem contempladas. Como a arquitetura da conexão Estado-finanças deve ser retrabalhada juntamente com a questão premente da medida comum de valor determinado pelo dinheiro são fatos que não podem ser ignorados na busca pela construção de alternativas para a economia política capitalista. Ignorar o Estado e a dinâmica do sistema interestatal é, portanto, uma idéia ridícula demais para ser aceita por qualquer movimento revolucionário anticapitalista.

A quarta tendência geral é constituída por todos os movimentos sociais que não sejam guiados por alguma filosofia política ou inclinação em especial, mas pela necessidade pragmática de resistir a deslocamentos e desapropriações (através da gentificação, do desenvolvimento industrial, da construção de barragens, da privatização da água, do desmantelamento dos serviços sociais públicos e oportunidades educacionais e outros). Neste caso, o enfoque na vida diária na cidade, vila, aldeia ou outro local fornece uma base material para a organização política contra as ameaças que as políticas de Estado e de interesses capitalistas, invariavelmente, representam para as populações vulneráveis. Estas formas de protesto político são enormes.

Novamente, há uma vasta gama de movimentos sociais deste tipo, alguns dos quais podem tornar-se radicalizados ao longo do tempo na medida em que eles, cada vez mais, percebam que os problemas são sistêmicos e não particulares ou locais. A junção de tais movimentos sociais em alianças da terra (como a Via Campesina, o movimento dos camponeses sem-terra no Brasil, ou camponeses mobilizando contra a tomada de terra e recursos por corporações capitalistas na Índia) ou em contextos urbanos (o direito à cidade e retomada dos movimentos dos sem teto no Brasil e agora nos Estados Unidos) indica que o caminho esteja aberto para a criação de alianças mais amplas para discutir e enfrentar as forças sistêmicas que sustentam as particularidades da gentificação, da construção de barragens, da privatização e outros.

Mais pragmáticos, ao invés de impulsionados por preconceitos ideológicos, esses movimentos, no entanto, podem chegar a uma compreensão sistêmica gerada por suas próprias experiências. Na medida em que muitos deles existem no mesmo espaço, como dentro da metrópole, eles podem (como supostamente aconteceu com os operários nas fases iniciais da revolução industrial) se reunir em torno de uma causa comum e começar a estabelecer, com base na sua própria experiência, a consciência de como o capitalismo funciona e o que pode ser feito coletivamente.

Este é o terreno em que é muito significativa a figura do líder “orgânico intelectual”, tão presente na obra de Antonio Gramsci, o autodidata que consegue entender o mundo em primeira mão através de duras experiências, mas formula sua compreensão do capitalismo de maneira mais geral. Ouvir as falas de líderes camponeses do MST no Brasil ou dos líderes do movimento contra a tomada de terras por corporações na Índia é um privilégio educacional. Neste caso, a tarefa dos excluídos e descontentes educados é ampliar a voz subalterna, para que se possa prestar atenção à situação de exploração e repressão, assim como as respostas que podem ser pensadas para um programa anticapitalista.

O quinto epicentro para a mudança social reside nos movimentos emancipatórios em torno das questões de identidade – mulheres, crianças, homossexuais, minorias raciais, étnicas e religiosas, todos merecem um lugar ao sol – juntamente com a vasta gama de movimentos ambientais que não são explicitamente anticapitalistas. Os movimentos que reivindicam a emancipação em cada uma destas questões são geograficamente desiguais e muitas vezes geograficamente divididos em termos de necessidades e aspirações. Mas as conferências mundiais sobre os direitos das mulheres (Nairóbi, em 1985, que levou à declaração de Pequim de 1995) e anti-racismo (conferência muito mais controversa, em Durban, em 2009) estão tentando encontrar um terreno em comum, como é o caso também das conferências ambientais, e não há dúvida de que as relações sociais estão mudando juntamente com todas essas dimensões, pelo menos em algumas partes do mundo.

Quando expressos em termos estritamente essencialistas, esses movimentos podem parecer antagônicos à luta de classes. Certamente, dentro de grande parte da academia eles tornaram-se prioridade em detrimento da análise de classe e economia política. Mas a feminilização da força de trabalho global, a feminilização da pobreza em quase toda parte e o uso das disparidades de gênero como um meio de controle do trabalho fazem a emancipação e a eventual libertação da mulher das suas repressões uma condição necessária para ajustar o foco da luta de classes. A mesma observação se aplica a todas as outras formas de identidade onde a discriminação ou a repressão podem ser encontradas.

O racismo e a opressão das mulheres e crianças foram fundamentais para a ascensão do capitalismo. Mas o capitalismo na sua atual forma pode, em princípio, sobreviver sem estas formas de discriminação e opressão, apesar de sua habilidade política para fazê-lo ser gravemente prejudicada se não mortalmente ferida, face à uma força de classe mais unida. A modesta inclusão do multiculturalismo e dos direitos das mulheres no mundo corporativo, em particular nos Estados Unidos, fornece algumas evidências da acomodação do capitalismo a essas dimensões de mudança social (incluindo o meio ambiente), enquanto reenfatiza a relevância das divisões de classe como a principal dimensão para a ação política.

Estas cinco grandes tendências não são mutuamente exclusivas nem anulam os modelos organizacionais para a ação política. Algumas organizações combinam aspectos de todas as cinco tendências maneira organizada. Mas há muito trabalho a ser feito para fundir essas várias tendências em torno da questão subjacente: poderia o mundo mudar materialmente, socialmente, mentalmente e politicamente, de tal forma a confrontar não apenas o estado terrível das relações sociais e naturais nas muitas partes do mundo, mas também a perpetuação do crescimento composto infinito? Esta é a pergunta que os excluídos e descontentes devem seguir se perguntando, vezes sem conta, enquanto aprendem com aqueles que experimentam a dor diretamente e que são tão hábeis em organizar resistências para as terríveis conseqüências de um crescimento composto no mundo real.

Comunistas, Marx e Engels asseveraram em sua concepção original apresentada no Manifesto Comunista, não pertencerem a partidos políticos. Eles simplesmente constituem-se em todos os momentos e em todos os lugares como aqueles que entendem os limites, deficiências e tendências destrutivas da ordem capitalista, bem como as inúmeras máscaras ideológicas e falsas legitimações que os capitalistas e seus apologistas (sobretudo nos meios de comunicação) produzem para perpetuar o seu poder de classe. Comunistas são todos aqueles que trabalham incessantemente para produzir um futuro diferente do que anuncia o capitalismo. Esta é uma definição interessante.

Ainda que o comunismo institucionalizado tradicional esteja morto e enterrado, há sob esta definição milhões de comunistas ativos de fato entre nós, dispostos a agir de acordo com seus entendimentos, prontos para exercerem criativamente imperativos anticapitalistas. Se, como o movimento de globalização alternativa dos anos 1990 declarou: “um outro mundo é possível”, então por que não dizer também “um outro comunismo é possível? As atuais circunstâncias do desenvolvimento capitalista requerem algo deste tipo, se realmente desejamos alcançar a mudança fundamental.

Estas notas fazem parte do meu próximo livro, O enigma do Capital, a ser publicado pela editora Profile Books, em abril de 2010.

Tradução: Adriana Guimarães

Seminário dez anos depois

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Jogos estimulam alunos a aprenderem microbiologia

Fabrício Oliveira, do USP Online / fabricio.carmo.oliveira@usp.br

Ao observar o ensino escolar de seu filho, a professora Maria Lígia Carvalhal, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, percebeu que a microbiologia era um assunto obscuro nas escolas. A situação motivou a criação do projeto Microbiologia para Todos (Microtodos),  que busca  uma nova abordagem para o ensino do tema. O projeto desenvolve jogos que estimulam a curiosidade e o raciocínio multidisciplinar.

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Os jogos estão disponíveis para impressão no site do Departamento de Microbiologia

A professora verificou que, das poucas vezes em que é abordada, a microbiologia acaba sendo destacada principalmente por causa dos micróbios patogênicos (causadores de doenças), apesar deles representarem apenas cerca de 3% dos micróbios. “Na mídia, quando há um desastre ambiental, pouco se diz sobre toda a microbiota que se perde e que é essencial na estabilidade dos ciclos naturais”, conta. Para a professora, esse fato decorre da cultura de se enxergar os micro-organismos apenas como seres nocivos.

De acordo com Maria Lígia, os bons jogos são aqueles que não envolvem apenas sorte ou a simples memorização. “Eles apresentam uma situação-problema em que o aluno deve usar seu conhecimento para resolvê-lo”, ressalta. Os jogos acompanham diversas fases do desenvolvimento escolar do aluno e buscam estar atrelados ao cotidiano dos estudantes. “Isso pode ser feito desde a pré-escola até a graduação, dependendo do nível do jogo.”

Maria Augusta Pereira, assessora pedagógica do Colégio Guilherme Dumont Villares, da Zona Sul de São Paulo, conta que já utilizou jogos formulados no projeto em mais de uma ocasião nos últimos quatro anos. “Além da parte lúdica, os jogos permitem introduzir conceitos importantes. Os alunos, por conta das regras, passam a ter que construir o próprio conhecimento acerca da microbiologia”, afirma Maria Augusta.

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"Microbingo": jogo aborda métodos de prevenção de doenças causadas por micro-organismos

Interdisciplinariedade
O projeto, que começou em 1994, já contou com a participação de bolsistas de diferentes cursos de graduação da USP, como Física, Nutrição, Enfermagem, Pedagogia, e Geologia, entre outros. “A participação desses estudantes no projeto nem sempre tem relação com o interesse deles em microbiologia. O que os atrai é o interesse pela educação ou por jogos, simplesmente”, observa Maria Lígia. “Muitas vezes o estudante não tem conhecimento de microbiologia, mas pode ter maior experiência com narrativa ou no cálculo necessário para saber a probabilidade de certo evento acontecer durante o jogo. E assim, o trabalho se torna interdisciplinar.”

Louise Vital, graduada em Odontologia pela Faculdade de Odontologia (FO) da USP, já participou do projeto, e conta que acompanhou a aplicação dos jogos em Organizações Não-Governamentais (ONGs). “Crianças excluídas da sociedade conseguiam absorver muito bem até os conteúdos que universitários aprendem.” Segundo Louise, os mesmos jogos foram utilizados em escolas particulares de alto padrão, e os resultados foram muito similares aos de crianças carentes, o que apontaria para uma universalidade de aplicação dos jogos.

Os jogos estão disponíveis para impressão no site do Departamento de Microbiologia do ICB. Entre as opções disponíveis estão “Micromundo”, sobre os componentes celulares e suas estruturas, “Biota”, que tem como objetivo apresentar aos alunos a enorme diversidade do planeta Terra,  e “Viagem do átomo de Nitrogênio”, que demonstra as relações entre o nitrogênio e os organismos vivos.

Também podem ser impressos o “Microbingo”, sobre os métodos de prevenção de doenças causadas por micro-organismos, e o “Microzoom”, um jogo de memória que apresenta o processo de transmissão de doenças como tétano, raiva, pneumonia e leptospirose.

Imagens retiradas do site do projeto Microtodos

Mais informações: email mlcarval@icb.usp.br, com a professora Maria Lígia Carvalhal. Site http://www.icb.usp.br/~bmm/jogos/geral.html

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Che Guevara, vida e morte de um revolucionário

Voltaire Schilling

Ernesto Guevara, o "Che", cognome que os cubanos lhe deram, morto na Bolívar em 1967, é um fenômeno da história política e social da América Latina. Tornou-se o latino-americano mais famoso do século XX, sendo que nos dias que correm chegou a ensombrecer Simon Bolívar, o Libertador.

Médico, guerrilheiro, teórico revolucionário e estadista, tornou-se um personagem universal devido a sua atuação na Revolução Cubana de 1959 e nos anos que a seguiram. Argentino como Eva Perón, seu nome extrapolou de longe os limites da ilha de Cuba, fazendo com que fosse identificado com o Movimento de Descolonização do Terceiro Mundo.

A morte de Che Guevara

Che Guevara (1928-1967).

"É o meu destino: hoje devo morrer!
Mas não, a força de vontade pode superar tudo!
há obstáculos, eu reconheço!
não quero sair…
Se tenho que morrer será nesta caverna (…).
Morrer, sim, mas crivado de balas, destroçado pelas baionetas
Uma recordação mais duradoura do que meu nome
É lutar, morrer lutando"
Ernesto Guevara de la Serna, janeiro de 1947.

Desde que dois bolivianos, integrantes da guerrilha comandada por Che Guevara instalada na região do Ñacahuazú, a uns 250 quilômetros ao sul de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, desertaram, os militares tiveram quase certeza que aquele a quem denominavam "Ramón", era de fato o Che. Há dois anos, desde sua carta de despedida, lida publicamente por Fidel Castro, em outubro de 1965, que ninguém, a não ser o alto comando cubano, sabia do seu paradeiro. Em pouco tempo, assessores militares norte-americanos desembarcaram em La Paz, capital da Bolívia, para instruir o mais rápido possível um batalhão de Rangers, adestrados na contra-insurgência, capazes de sair à caça dos guerrilheiros.

As certezas da CIA e das autoridades bolivianas, da presença de Che, aumentaram ainda mais quando capturaram , em Muyupampa, um vilarejo no sul do país, no dia 20 de abril de 1967, o intelectual francês Regis Debray, um agente de ligação de Fidel com Che, e um seu companheiro, o argentino Ciro Bustos. Tornou-se evidente que a presença dos dois estrangeiros na Bolívia se devia a existência de um plano mais vasto de operações de guerrilhas para subverter o governo de La Paz.. Debray, depois de torturado, confessou que "Ramón" era mesmo o Che.

Entrementes, Che havia dividido seus homens - formado em sua maioria por cubanos, alguns bolivianos, um par de peruanos e uma mulher, Tânia (uma teuto- argentina que integrara-se na luta), em duas colunas, a de Joaquim e a dele. O grupo de Joaquim foi exterminado em Vado del Yeso, quando tentava atravessar os rios Acero e Oro. O de Guevara, reduzido a somente 17 homens, foi cercado no 11º mês de manobras.

Num canyon em La Higuera, o destacamento do capitão Gary Prado o cercou no dia 8 de outubro de 1967. Depois de intenso tiroteio, com sua arma avariada e com a perna trespassada por uma bala, Che Guevara rendeu-se. Aquelas alturas a aparência dele era assustadora. Parecia-se a um mendigo, magro, sujo e esfarrapado. Levaram-no para um casebre em La Higuera que servia como escola rural. Lá, na tétrica companhia dos cadáveres de dois jovens guerrilheiros cubanos, ele passou sua última noite. Foi interrogado pelo ten-cel. Andrés Selich ao qual apenas confessou ter sido derrotado, lamentando que nenhum camponês boliviano tenha aderido aos seus propósitos.

A execução de Che Guevara

No dia seguinte, 9 de outubro, por rádio, veio a ordem de La Paz para que o executassem. O agente cubano-americano da CIA, Félix Rodrigues, desejava levar Che como prisioneiro para o Panamá para interrogá-lo , mas o general René Barrientos, então presidente da Bolívia, fora muito claro quanto a sua vontade de matar Guevara lá mesmo.

Coube ao sargento Mário Terán, disparar-lhe uma rajada de balas quandoChe ainda estava deitado no chão batido da escola. Morreu aos 39 anos. Removeram-no para Vallegrande onde foi exposto sobre umas pias da lavandeira de um pequeno hospital. Lá amputaram-lhe as mãos para conferir com suas digitais existentes na Argentina. Antes, tiram várias fotos. Surpreendentemente ele, ferido e estirado, parecia-se com uma daquelas telas do Barroco que retratam o Cristo caído. Seu olhar fixo parecia tranqüilo, como se não fosse surpreendido pelo desastre. Consumava-se assim a sua idéia da morte como martírio.

Ele, e mais sete outros foram enterrados numa cova anônima nas proximidades do pequeno aeroporto de Vallegrande, sob o mais absoluto sigilo. Durante os 28 anos seguintes ninguém se manifestou a respeito, até que o Gen. reformado Mário Vargas Salinas informou ao jornalista Jon Lee Anderson aonde jogaram o cadáver. Depois de dois anos de escavações, peritos cubanos e argentinos, encontraram finalmente seus ossos. Foram transladados para Cuba, onde foram recebidos por Fidel e Raul Castro com honras de estado. Nesses trinta anos que se passaram Che Guevara havia deixado a História para adentrar na Mitologia da América Latina.

Che Guevara - Argentina, 1928-1953

"Sempre me tive por bom, sou touro no meu rodeio,
mais touro no campo alheio, (…)
com os brandos sempre sou brando, e sou duro com os duros
e ninguém, noutros apuros, me viu andar titubeando."
José Hernández "El gaucho Martín Fierro" (Canto I, 11-12), 1872

Parte do fascínio que Ernesto Guevara, o Che, exerceu sobre sua geração deve-se a que ele pertencia à elite argentina. Ao contrário de outras celebridades populares latino-americanas envolvidas com a política, como Emiliano Zapata, César Sandino ou Eva Perón, o Che descendia da oligarquia. Os Guevara Lynch e os la Serna, seus pais, tinham vínculos com a aristocracia rural. Não eram ricos, mas tinham "berço". Isso tornou Guevara ainda mais atraente porque sua rebeldia não podia ser atribuída ao ressentimento social ou a algum complexo de inferioridade que desejava sublimar pela revolução. Ela vinha da indignação com a miséria latino-americana: era de origem eminentemente moral e intelectual. Foi um homem que tinha tudo para realizar-se numa vida normal: posição social, relações com a alta sociedade, uma profissão respeitada, e a possibilidade de viver magnificamente em Buenos Aires, a mais culta e rica cidade da América do Sul.

Pois abandonou tudo para tornar-se um peregrino da revolução, emprestando seu nome e sua liderança às causas que considerava justas. Andou por montanhas e selvas, na América do Sul e Central, no Caribe e na África, passou por incontáveis privações e todo tipo de males e doenças decorrentes da guerra de guerrilhas, sempre perseguido por ataques terríveis de asma. De certa forma, seu grande inspirador foi Martín Fierro, um gaúcho, personagem de ficção de José Hernández (obra publicada em 1872), que passou a sua vida de gaudério envolvido em pelejas e incontáveis lutas. "El gaucho Martín Fierro", era um dos seus livros favoritos. A Guevara, como a Fierro, causava repulsa o fato de que "Está na lei, o de cima se faz o que lhe aproveite (…) Ao pobre, mal se descuide, o levantam de um sogaço." Em várias ocasiões , Che usou o codinome de Martín Fierro, como que para anunciar-se como uma versão atualizada do andarilho brigão dos pampas.

Desbravando a América

Nascido em Rosário, cidade do interior da Argentina, em 15 de junho de 1928, Ernesto Guevara cursou o ginásio em Córdoba, mudando-se depois para Buenos Aires onde, em 1953, concluiu a Faculdade de Medicina. Provavelmente, em razão do seu mal especializou-se em medicina alérgica sem no entanto exercê-la. Recém-graduado saiu com um amigo a viajar pela América do Sul, amparado no lema “pouca bagagem, pernas fortes e estômago de faquir”.

Foi à Bolívia, Peru, e ao Equador. E, anteriormente, visitara o Chile e a Venezuela. Data dessa época o hábito de escrever um diário e, simultaneamente, manter uma intensa correspondência com sua mãe Célia, a quem confessou sua “nova posição de aventureiro 100%”. Visitou leprosários e chegou a andar de balsa na Amazônia peruana. Consta que imaginou ir à ilha da Páscoa. Até essa época não manifestara uma inclinação maior pela política.

Guatemala (1953-54)

"Junta experiência de vida, até para dar e emprestar,
quem a teve que passar entre sofrimento e pranto…"
José Hernández "El gaucho Martín Fierro" (Canto II, 21)

Estando no Equador, Guevara sentiu-se atraído pelo governo do presidente Jacobo Arbens, um general nacionalista guatemalteco que estava disposto a desafiar a grande empresa United Fruits Co., dona da maioria das terras produtivas da América Central e Caribe e principal produtora e exportadora de frutas de toda a região.

Apelidada de "el pulpo", essa corporação norte-americana associava-se aos ditadores locais, formando aquilo que o poeta Pablo Neruda denunciou como o "o reino tirânico das moscas." Arbenz, todavia, era uma exceção e resolveu retirar-lhe uma séria de vantagens, ameaçando-a com uma reforma agrária. Foi o que bastou para ser apontado pelos americanos como um "simpatizante do comunismo" ou que se deixava manipular por eles. Em pouco tempo, a Guatemala foi diplomaticamente isolada e a CIA instrumentalizou um golpe, o primeiro deles, que, depois, seria aplicado, com poucas alterações, nas outras deposições que ela organizou no Continente.

Guevara, enquanto isso, tratou de prestar serviços médicos, mas terminou rejeitado por motivos corporativos. Foi na cidade da Guatemala que conheceu Hilda Gadea, que se tornou sua primeira esposa. Freqüentando uma biblioteca de um partido de esquerda ele ampliou seus conhecimentos sobre o marxismo, lendo Marx e Lênin.

No dia 18 de junho, apoiado por aviões da CIA, o Cel. Castillo Armas e mais 400 combatentes, invadiram o país. A solicitação da Guatemala para que a origem da invasão fosse investigada pela ONU foi rejeitada. Os EUA conseguiram uma apertada vitória no Conselho de Segurança, negando-lhe qualquer apoio. Depois de uma frágil resistência, abandonado por todos, o governo Arbenz se desmantelou. No dia 3 de julho encerrava-se a "Operação Sucesso"da CIA. Castillo Armas chegou à capital, desembarcando ao lado do embaixador norte-americano, enquanto Arbenz partiu para o exílio e o esquecimento. Todos os privilégios da United Fruits Co,. foram restaurados imediatamente.

Guevara registrou numa carta: "a América será o palco das minhas aventuras e com uma feição muito mais importante do que eu imaginara." Também percebeu que a invasão da Guatemala pertencia a um cenário mais amplo de confronto mundial entre os Estados Unidos e os comunistas. Pouco tempo depois, decepcionado com o que vira e passara no pequeno país, rumou para o México. A essa altura, além de marxista, converteu-se num ardoroso antiamericano.

Che Guevara - México 1954-6

Ao fazer plantão voluntário num hospital mexicano, voltou a encontrar um amigo cubano dos tempos da Guatemala. Nos dias seguintes foi apresentado a um grupo de exilados militantes do “Movimento 26 de julho”, ou M-26, que haviam buscado abrigo no México. Essa denominação decorria da data (26 de julho de 1953) em que Fidel Castro, um jovem advogado, inimigo da ditadura Batista, imposta em Cuba em 1952, resolveu atacar um quartel militar na Província do Oriente: o quartel de Moncada. A operação foi desastrosa para os insurgentes. A maioria deles foi capturada e fuzilada pelos soldados da ditadura. Fidel Castro teve sorte, rendido vivo foi levado para a prisão da Ilha de los Pinos.

Para muitos cubanos ele foi visto como um herói, enfrentando a tirania de peito aberto. Cedendo à pressões, Batista permitiu que Fidel Castro fosse solto e deixasse o pais. Ele partiu então para o México onde começou a organizar um grupo de exilados para voltar a ilha e derrubar, por meio de uma “guerra revolucionária”, o ditador. Inspirava-se no mesmo modelo do herói nacional cubano, o poeta José Martí, que em 1895, deu início à guerra de Independência de Cuba contra a Espanha.

Como os expedicionários precisavam de um médico, apresentaram Guevara a Fidel Castro que o convidou a engajar-se na aventura. Logo ele participou e comandou os exercícios militares preliminares de treinamento. Os cubanos habituaram-se a chamá-lo de “Che” pelo hábito platino, que ele tinha de recorrer a essa expressão tão típica. Fidel Castro, para dar viabilidade ao plano, adquiriu um iate chamado “Granma”. No dia 25 de novembro de 1956, atulhando a embarcação com armas e 82 homens, navegou do porto de Tuxpán, no Golfo do México, em direção à Cuba. Guevara, inspirado num poeta, um pouco antes de embarcar na aventura, escreveu à mãe “Eu só levarei para o túmulo/ o pesadelo de uma canção inacabada.”

Cuba: a guerrilha: 1956-9

"Entro e saio do perigo
sem que se espante o estrago;
não cedo ao primeiro amágo…"
José Hernández "El gaucho Martín Fierro" (Canto VI, 167)

A Cuba dos anos cinqüenta era uma semicolônia norte-americana. A luta pela Independência, iniciada por José Martí em 1895, provocara a intervenção dos ianques que derrotaram a metrópole espanhola na guerra de 1898, fazendo com que a ilha se tornasse um prolongamento dos seus interesses no Caribe. A agricultura era quase que exclusivamente dedicada ao açúcar, que representava 50% da safra e 80% das exportações. Um em cada cinco cubanos dependia da cana-de-açúcar. Quase todas as usinas eram americanas e os Estados Unidos absorviam a metade da sua produção.

A pseudo-independência que obtivera, especialmente depois da rescisão da Emenda Platt, em 1934, não alterou o perfil monocultural da sua economia. Muito do nacionalismo extremado dos cubanos, manifestado pela radicalidade dos acontecimentos a partir de 1959, deve-se a tal situação de desconfortável dependência.. Mantinham uma relação dúbia para com os americanos, onde o respeito misturava-se ao ódio a eles. Quando Fidel Castro se insurgiu, ele reivindicava o retorno à constituição democrática de 1940 (aviltada pelo golpe militar de Batista). Não cogitava, em princípio, nenhum tipo de revolução social, muito menos converter a ilha num regime comunista.

Na Sierra Maestra

O Granma, ao se aproximar do litoral cubano, em 2 de dezembro de 1956, encalhou. Os insurgentes perderam grande parte do material. O pior, porém, ainda estava por vir. Dias depois foram pegos numa emboscada pelo exército do ditador em Alegria del Pio. Quase foram dizimados. Menos de vinte homens sobreviveram para chegar ao alto da Sierra Maestra para juntar-se a Fidel Castro e dar inicio ao combate.

Foi nessa ocasião que Guevara, agora chamado definitivamente de Che, deixou de ser médico para tornar-se guerrilheiro. Em pouco tempo mostrou-se extremamente capaz de comandar homens e, apesar de ser estrangeiro, ganhou a admiração e respeito dos cubanos. Fidel Castro conseguiu não só sustentar-se no alto da Sierra como articular-se politicamente com a maioria das forças oposicionistas contra Batista. Até a simpatia da opinião pública americana ele atraiu ao mostrar-se um jovem idealista lutando contra uma ditadura corrupta latino-americana.

Depois do fracasso de várias tentativas de liquidá-lo, feitas pelo exército e pela aviação de Batista, feitas em 1957-8, Fidel deu ordem a que duas colunas de guerrilheiros se lançassem na ofensiva. Uma era liderada por Camilo Cienfuegos e a outra por Che Guevara. O acontecimento mais espetacular ocorreu quando Che Guevara tomou Santa Clara, a penúltima cidade importante antes da capital. Ao saber da sua queda, o ditador Batista fugiu de Cuba ao fim da Festa do Ano Novo, na noite de 31 de dezembro de 1959, indo refugiar-se em Miami. Uma semana depois disso, após uma marcha triunfal, Fidel Castro sentado na torrinha de um tanque entrou em Havana em meio a euforia da multidão. Aparentemente um milagre ocorrera. Um pequeno grupo de gente decidida, autênticos revolucionários, havia derrotado um exército latino-americano apoiado e armado por Washington.

Che Guevara - Cuba: o poder, 1959-1965

"O caminho é largo e, em parte, desconhecido; conhecemos nossas limitações. Faremos o homem do século XXI: nós mesmos. Nos forjaremos na ação quotidiana, criando um homem novo com uma nova técnica".
Che Guevara "O socialismo e o Homem novo", 1965

O comprometimento de Fidel Castro em favorecer os camponeses que aderiram à Revolução fez com que ele se lançasse na Reforma Agrária, que se tornou dali em diante a fonte dos atritos com os proprietários de terra e com as empresas norte-americanas, naturalmente, com as classes médias que começaram a exilar-se em Miami. A lª Lei da Reforma Agrária foi promulgada em maio de 1959, seguida de uma série de outras que culminaram em 1964, expropriando as grandes fazendas e usinas. Em represália, os americanos cortaram o fornecimento de petróleo para a ilha de Cuba. Fidel Castro reagiu importando-o da URSS. As refinarias americanas negaram-se a refiná-lo. Fidel Castro expropriou-as.

Em pouco tempo a guerra econômica transformou-se numa guerra de fato, ainda que não declarada. O governo americano decidiu depor Fidel Castro. No dia 15 de abril de 1961, cubanos exilados, treinados pela CIA, desembarcaram na Praia Girón, vindos da Nicarágua. Foi um fracasso. Fidel Castro conseguiu cercá-los, levando 1.180 invasores à rendição.

Che Guevara, que tornara-se comandante da fortaleza La Cabaña, onde seguramente mais de 500 seguidores da ditadura de Batista haviam sido fuzilados, não tomou parte diretamente nos acontecimentos da Praia Girón. Um ano antes, em 1960, ele aprontara um pequeno livro que iria ter largas e desastrosas conseqüências políticas na vida futura latino-americana: "A Guerra de Guerrilhas" (La guerra de guerrillas). Baseado na experiência cubana, afirmava que um grupo decidido, representando "as forças populares", poderia vencer um exército convencional. Não seria necessário esperar que ocorressem "as condições gerais objetivas" para isso. Se uma vanguarda armada se instalasse na zona rural e recebesse apoio dos camponeses, ela seria a faísca que incendiaria o país. Era uma espécie de maoismo adaptado à América Latina.

Guevara caíra numa ilusão voluntarista na qual o exemplo cubano, que , na verdade revelou-se uma exceção, poderia ser aplicado universalmente. Qualquer das nações do Terceiro Mundo poderia seguir os passos dados por Cuba. Tinha certeza de que o que ocorrera em Cuba era o surgimento de uma nova vanguarda que iluminava o caminho da revolução para todo o resto. Para ele "a revolução pode ser feita, no momento certo, em qualquer lugar do mundo….Até em Córdoba pode-se fazer uma guerrilha". Dessa forma lançou a chamada teoria do foco revolucionário, ou foquismo, que, posteriormente foi desenvolvida, com maior acabamento teórico, num livro de Régis Debray "A Revolução na revolução"(La révolution dans la révolution), de 1967.

Che, peregrino da revolução

Che foi nomeado presidente do Banco Nacional de Cuba e depois Ministro da Indústria. A mentalidade econômica dele, inspirada no modelo soviético da época de Stalin, era extremamente centralizadora (concretizada no seu Sistema Orçamentário). As atividades das empresas estatais seriam regidas por um controle único. Isso tornou-se fonte de divergências com Raul Castro e outros técnicos soviéticos que começaram a chegar a Cuba, e que defendiam um sistema de maior independência empresarial, conjugada com estímulos materiais estendidos aos trabalhadores e aos especialistas.

Técnicos que cada vez tinham maior ascendência conforme a ilha se atritava com os EUA. Che imaginava ser possível escapar, com auxilio dos países do Bloco Socialista, da “maldição do açúcar”. De poder tornar Cuba industrialmente auto-suficiente, o que na prática revelou-se impraticável. Em 1964 os cubanos assinaram um tratado com os soviéticos, atrelando a ilha de volta à produção de cana. Outro ponto de atrito foi a questão dos estímulos materiais. Che, como quase todo idealista, acreditava que as pessoas deveriam trabalhar apenas motivadas por estímulos morais.

A dedicação à causa, o amor ao coletivo e o espirito de solidariedade seriam os combustíveis básicos da nova sociedade. Expressou esse sentimento num ensaio chamado “O socialismo e o homem novo em Cuba” (El socialismo y el hombre nuevo en Cuba) , publicado em 1965, onde defendia que o processo de transição para o socialismo deveria ser acompanho por uma mudança psicológica e moral: o surgimento de um homem novo desprendido do interesse material. Para tanto “a sociedade em seu conjunto deveria converter-se numa grande escola”.

Che decepcionou-se com os soviéticos em duas ocasiões. A primeira foi durante a gravíssima crise dos mísseis, de outubro de 1962, quando Kruschev, o 1º Ministro da URSS, evitando um enfrentamento direto com o governo Kennedy, que poderia redundar numa guerra nuclear. Sem consultar Fidel, o líder soviético, pressionado pela ameaça de uma guerra nuclear, aceitou retirar os mísseis que os soviéticos haviam instalado secretamente em Cuba, a pretexto de defendê-la contra um eventual ataque americano. E, a outra, quando discursou em Argel, em 1965, criticando o Bloco Socialista, liderado pelos soviéticos, de impor regras comerciais que não se diferenciavam dos países capitalistas.

Além disso, o rumo interno cada vez mais liberalizante da sociedade soviética que se somava à política da “coexistência pacífica” com o capitalismo, proposta por Kruschev, soava aos ouvidos de Guevara (como aos chineses de Mao Tse-tung) como o abandono da causa da revolução. Ora, na medida em que Cuba, cada vez mais dependia para a sua subsistência das suas relações com a URSS, a posição de Guevara ficou insustentável. Enquanto os soviéticos insistiam na conciliação e na coexistência, o Che aumentava a retórica revolucionária.

Congo, 1965

"Nada ele ganha na paz,
mas é o primeiro na guerra; (…)
"Vamos sorte; vamos juntos / já que assim juntos nascemos
e já que juntos vivemos/ sem poder nos cindir
Abrirei com meu punhal / o caminho pra seguir!…"

José Hernández "El gaucho Martín Fierro" (Canto VIII, 238-241)

Nos anos 60 Che tornou-se o símbolo itinerante da Revolução Cubana. Sua barba, seu uniforme e estrela vermelha no alto da boina fizeram dele a materialização da insurreição. Em constante périplo pelo mundo, conheceu os grandes personagens da política mundial da sua época: Kruschev, Mao-Tse-tung, Tito, Nasser, Ben Bella, sendo inclusive, no Brasil, condecorado pelo Presidente Jânio Quadros. Por outro lado a vida estável, familiar, rotineira -Che casara a segunda vez com uma cubana, Aleida, com quem teve quatro filhos - não condizia com seu temperamento. O pó da pólvora e gosto pela luta havia entrado em seu sangue.

Como havia uma rebelião ainda não completamente sufocada no Congo (atual Zaire) ele concebeu um plano de "enfrentar o imperialismo em outro fronte". Tratava-se, como ele escreveu para a revista Tricontinental, em 1965, de "criar dois, três Vietnãs", a fim de fazer com que os Estados Unidos dispersasse suas forças pelos vários frontes do mundo. O líder nacionalista do Congo, Patrice Lumumba, havia sido assassinado em 1961, durante a tentativa de secessão da rica província de Katanga. O poder então caiu em mãos de Kasavubu e de Tshombé, que alinharam o país recém independente numa situação neocolonial. As empresas mineradoras belgas e americanas continuavam soberanas, dominantes. No Congo oriental, um agrupamento nacionalista, dirigido por Laurent Kabila, ainda esboçava uma resistência anti-Tshombé. Che resolveu aderir na esperança de poder reverter o quadro.

Foi o seu "delírio africano". Com um grupo de 100 cubanos "internacionalistas" Che, com o codinome Tatu (do swahili), chegou à região em abril de 1965. Foi uma decepção. Os líderes africanos quase nunca vinham ao fronte, o despreparo das forças era total. Não havia a mínima disciplina e os congoleses, além de acreditarem no dawa (corpo-fechado) e na magia dos feiticeiros, não queriam nem transportar os equipamentos e alimentos. Os próprios cubanos começaram a por dúvidas no sentido daquela operação militar. Afinal era uma guerra africana, cujas regras eles pouco entendiam. Além disso, o governo de Kasavubo havia contratado as eficientes tropas mercenárias de Mike Hoare que, em geral, punham os congoleses a correr.

Em novembro de 1965, Che, mesmo a contragosto, teve que concordar em abandonar a missão. Atravessou o Lago Tanganica de volta à Tanzânia, desanimado e abatido pelo fracasso. Um mês antes Fidel Castro, para afastar os boatos de desentendimento entre ele e Che, obrigou-se a ler publicamente uma carta de despedida do amigo, onde ele renunciava a todos os postos e cargos que ocupara no governo cubano, como abdicava da própria nacionalidade cubana. Em segredo, escondeu-se na embaixada cubana em Dar es Salam, na Tanzânia, recuperando-se das várias doenças que adquirira na selva africana e cogitando qual seria o próximo passo a dar.

Che Guevara - Bolívia: 1966-7

"….ficamos/ sem rancho onde morar/ sem ramada a que ganhar/
nem rincão aonde fugir/camisa que nos vestir/
ou poncho pra nos tapar."

José Hernández "El gaucho Martín Fierro" (Canto XII, 657)

Em novembro de 1966, o economista uruguaio Adolfo Mena Gonzáles, registrou-se num hotel em La Paz, capital da Bolívia. Era Che disfarçado. Segundo o chefe do PC boliviano Mário Monje, a função deles, dos comunistas bolivianos, seria apenas servir de trampolim para que Guevara pudesse alcançar a Argentina. Um seguidor de Che, o jornalista Jorge Masetti, já havia tentado, em 1963, sem sucesso, instalar um foco em Salta, na Argentina. Praticamente todos foram mortos ou desapareceram. Mas Che não perdia a esperança de que sua presença catalisaria as energias revolucionárias, o que, por si só, poderia fazer eclodir a revolução.

Foi olhando para a Argentina que Monje comprou uma propriedade ao sul, em Ñacahuazú, mais próxima da fronteira de Salta do que de La Paz. Lá o grupo de Che Guevara se instalou. Comunicaram então a Monje que o objetivo primeiro era dar início a uma guerra na Bolívia e, depois, dependendo da evolução dos acontecimentos, expandi-la para outros países vizinhos. Monje então exigiu que a chefia do movimento fosse entregue a um boliviano. Che Guevara rejeitou. Para um "internacionalista" como ele, um revolucionário itinerante, essas questões nacionais tinham menor significado. Erro de avaliação que ele pagou com a própria vida.

Não demorou para que problemas de toda a ordem acometessem o grupo de guerrilheiros. Os contatos com Havana tornaram-se raros, as confusões com os bolivianos só aumentaram e o pior é que não havia adesão nenhuma da população local. Eram recebidos, quando adentravam nas aldeias e vilas, por olhares pétreos ou assustados. E, ao invés de angariar simpatia, eram vistos como intrusos que trariam problemas para as comunidades.

Os chefes políticos, os corregidores, não demoravam em relatar às autoridades militares o roteiro da guerrilha, apontada como invasora apátrida. E, assim Che Guevara, exausto e adoentado, nos primeiros dias de outubro de 1967, rumou definitivamente para o cerco e para a morte que o aguardava. No remoto vilarejo de La Higuera, sozinho e abandonado, com o peito furado de balas, terminou seus dias de peregrino da revolução.

Conclusão

"O Homem é o homem e suas circunstâncias"
Ortega y Gasset

Ao morrer, o nome de Che Guevara preservou-se da desilusão que a Revolução Cubana e o socialismo ligado a ela terminaram por provocar. Apesar da sua teoria do foco revolucionário ter redundado num desastre de gravíssimas proporções para a esquerda latino-americana (O MIR chileno, osTupamaros uruguaios, o ERP e os Montoneros argentinos, o VAR-Palmares no Brasil, e tantos outros mais, foram dizimados pelas Forças Armadas), a imagem de Che saiu preservada. O seu retrato foi estampado por todos os lados como um ícone rebelde, do homem-motim, do eterno inconformado, daquele que encarna o anti-sistema, seja ele qual for.

Com o ocaso e a decepção das grandes causas que acometeu na década de 90, sua figura parece um tanto estranha, senão anacrônica. Hoje é visto quase como um quixote moderno. Alguém que foi capaz de morrer por idéias, num fim-de-século sem idéias. Che, porém, como tanto outros personagens da história, deve ser entendido nas circunstâncias da época.

Os anos 60 foram revolucionários por excelência: a Revolução Cubana, a Guerra do Vietnã, o Movimento Hippie e a revolta dos campi norte-americanos, o Concílio do Vaticano II, a descolonização da África, a Revolta de Maio de 1968 na França, a Rebelião Estudantil na América Latina, aPrimavera de Praga, sufocada pelos soviéticos, o Movimento pelos Direitos Civis nos EUA, liderado por Martin Luther King , a Revolução Cultural na China de Mao, etc…foram contemporâneas deles.

Esta época, ideologicamente confusa, caótica e multifacetada, revolucionou a política, as ideologias, a religião, as universidades, a música, as leis e os costumes, e ainda estamos longe de entendê-la na sua merecida profundidade. Che, paira, portanto, como um símbolo-síntese daqueles anos turbulentos e inquietantes, e, ao mesmo tempo, como um daqueles mitológicos titãs que se insurgem contra os deuses.

Referências bibliográficas

Anderson, Jon Lee - Che Guevara, uma biografia, Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 1997

Castañeda, Jorge G. - Che Guevara, a vida em vermelho, São Paulo, Cia. das Letras, 1997

Debray, Regis - La révolution dans la révolution, Paris, François Maspero, 1967

Deutschmann, David - Che na lembrança de Fidel, Rio de Janeiro, Casa Jorge Editorial, 1997

Guevara, Ernesto Che - El socialismo y el hombre nuevo, México, Siglo XXI, 1979, 2 ª ed.

Karol, K. S. - Los guerrilleros en el Poder, Barcelona, Editorial Seix Barral, 1972

Löwy, Michael - El pensamiento del Che Guevara, México, Siglo XXI, 1978, 9ª ed.

Mires, Fernando - La rebelión permanente: las revoluciones sociales en America Latina, México, Siglo XXI, 1988

Rojo, Ricardo - Meu amigo Che, Rio de Janeiro, Editora Civilização brasileira, 1968

Taibo, Paco, e outros - O ano que estivemos em lugar nenhum, São Paulo, Editora Escritta, 1997

Thomas, Hugh - Cuba, Barcelona-México, Ediciones Grijalbo, 1973, 3 vols.

Szulc, Tad - Fidel: um retrato crítico, São Paulo, Editora Best seller, 1987

Fonte: Terra Educação / Voltaire Schilling - http://educaterra.terra.com.br/voltaire/

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Ruralistas tentam liberar venda de agrotóxicos

Está em curso uma ofensiva do setor ruralista — que inclui Ministério da Agricultura, bancada do agronegócio e fabricantes de agrotóxicos — sobre a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O objetivo do lobby é suspender a fiscalização e obrigar a Anvisa a liberar a comercialização de agrotóxicos no país, muitos já proibidos e banidos na China, na União Europeia e no Paraguai, por exemplo. A agência é responsável pelo controle desses produtos e por identificar seus malefícios à saúde.

A reportagem é de Evandro Éboli e publicada pelo jornal O Globo, 31-01-2010.

A pressão sobre a Anvisa aumentou no segundo semestre de 2009. Diretores do ministério, dirigentes de empresas, sindicatos de fábricas desses defensivos agrícolas e parlamentares iniciaram uma campanha para rever proibições da Anvisa e suspender consultas públicas feitas pela agência, com parecer pelo banimento desses ingredientes.

As empresas estão recorrendo à Justiça, que tem dado ganho de causa à Anvisa.

Stephanes participa de pressão sobre Anvisa O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, participa diretamente dessa ação contra a Anvisa e comandou, no início de dezembro, uma reunião em sua sala para tratar do assunto. Estavam presentes todos os segmentos interessados na liberação dos agrotóxicos, e representantes do Ministério do Meio Ambiente e da Anvisa. A temperatura subiu, e o clima fechou entre Stephanes e representantes da Anvisa. O ministro não esconde o descontentamento.

— A Anvisa não pode decidir sozinha sobre agrotóxicos. Não é uma decisão exclusiva da agência. Sei que a agricultura orgânica é melhor do que a que utiliza agrotóxico. Mas não tenho dúvida que, sem esses produtos (agrotóxicos), não vamos produzir mais e alimentar mais gente. Claro que, se algum deles faz, de fato e comprovadamente, mal à saúde, defendo que seja retirado do mercado — disse Stephanes.

Essa frente de defesa do agronegócio contra a Anvisa chegou ao extremo no dia 23 de dezembro do ano passado, quando dois parlamentares da bancada ruralista — Luiz Carlos Heinze (PP-RS) e Paulo Piau (PMDB-MG) — enviaram um ofício ao ministro da Saúde, José Gomes Temporão. Nesse ofício, argumentaram que, na reunião no Ministério da Agricultura, ficou decidido que a Anvisa cedera e teria se comprometido a fazer mudanças na reavaliação toxicológica de ingredientes ativos, utilizados em mais de 200 agrotóxicos no Brasil.

Esses parlamentares chegaram a enviar em anexo a minuta de uma instrução normativa, a ser baixada por Temporão, suspendendo consultas públicas de quatro produtos e revogação de decisões sobre vários agrotóxicos. Os parlamentares chegaram a fazer, no documento, duros ataques à direção da Anvisa, acusada por eles de defender interesses obscuros.

“É um tiro de morte na autonomia da Anvisa” “Sr. ministro, estamos falando de produtos essenciais para a agricultura brasileira, setor responsável pelo superávit da balança comercial e grande gerador de riquezas e empregos neste país. São claros e evidentes os interesses obscuros dos gestores dessa agência (Anvisa) ao se intitularem os únicos e exclusivos responsáveis por tão importante decisão”.

O ex-ministro da Saúde Agenor Álvares, diretor da Anvisa desde maio de 2007 e responsável pela área de agrotóxicos, reagiu com indignação à pressão dos setores ruralistas. Afirmou que, na reunião no Ministério da Agricultura, da qual participou, jamais a agência cedeu e sinalizou com a revisão de consultas públicas ou proibições.

Agenor disse que não foi feito acordo algum e que não haverá qualquer recuo da Anvisa.

O diretor afirmou também que essa pressão visa a atingir a autonomia da Anvisa e criticou a elaboração da instrução normativa que, se fosse publicada, iria liberar todos os produtos hoje sob suspeita de agredir a saúde.

— É uma proposta inaceitável, dos maiores absurdos que já vi. Essa pressão é uma intervenção direta na autonomia de uma agência, cujo papel é proteger a saúde da população. E estamos obtendo o respaldo da Justiça nas nossas decisões. Se interesse escuso há, é o de defender a saúde do brasileiro contra esses produtos. Essa pressão é um tiro de morte na autonomia da Anvisa, que não vai arredar pé — disse Agenor.

Produtos perigosos

ABAMECTINA: O produto pode provocar aborto ou má-formação. É proibido na Nova Zelândia.

ACEFATO: Pode causar danos no cérebro e nos nervos e provocar câncer a longo prazo. É proibido em toda a Comunidade Europeia.

CARBOFURANO: Provoca sintomas graves, que aparecem em um ou poucos contatos com o produto e pode levar à morte. É proibido na Comunidade Europeia, Estados Unidos, Líbia e Canadá.

CIHEXATINA: Pode causar câncer, aborto e má-formação no feto. Pode atingir o cérebro e os nervos. É proibido no Japão, Estados Unidos, Canadá, China, Áustria e Comunidade Europeia.

ENDOSSULFAN: Pode alterar o funcionamento de várias glândulas, como tireoide, e atingir órgãos como ovários, testículos e o pâncreas. É proibido na Comunidade Europeia, Índia, Burkina Faso, Cabo Verde, Nigéria, Senegal e Paraguai.

FORATO: Causa vários sintomas graves que podem levar à morte e tem capacidade de provocar danos no cérebro e nos nervos. É proibido nos Estados Unidos, Comunidade Europeia, Tailândia e Austrália.

METAMIDOFÓS: Pode causar danos no cérebro e nos nervos e outros sintomas graves, com risco de morte. É proibido na Comunid a d e Europeia, Paquistão , Kuwait, Indonésia e China.

TRICLORFOM: Pode causar câncer, má-formação no feto, além de atingir o cérebro. É proibido na Comunidade Europeia.

IHU

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Mobilização anti-Brasil ecoa no Haiti após terremoto

FÁBIO ZANINI

Acuada e radicalizada, uma franja da sociedade haitiana aproveita o caos pós-terremoto para aumentar o volume de uma demanda que completa seis anos: brasileiros, voltem para casa! São na maioria simpatizantes do ex-presidente Jean-Bertrand Aristide, deposto em 2004 por uma ação norte-americana (para a qual a ONU fez vistas grossas) e hoje exilado na África do Sul.

Vivem em bairros miseráveis de Porto Príncipe, como Cité Soleil e Bel Air, onde Aristide aparece em grafites nos muros ao lado de Bob Marley e Martin Luther King. "Aristide construiu tudo por aqui, e os brasileiros destruíram", disse um homem que se identificou apenas como Jean, tomando cerveja e fumando maconha às 10h numa rua em ruínas em Bel Air. A seu lado, outro que se apresentou como "Matador" disse que os brasileiros não têm o que fazer no país. "Eles nunca construíram nem um banheiro aqui", queixou-se.

Muitas pessoas na região nutrem ressentimento pelas operações de "pacificação" conduzidas pelos militares do Brasil entre 2004 e 2007, que desarmaram gangues pró-Aristide após duros combates. "Eles [os soldados brasileiros] não são nossos amigos. Eles matam nosso povo", diz Vanel Louis Paul, dirigente do Massa Popular, uma agremiação de base pró-Aristide que tem sede na gigantesca favela de Cité Soleil, a maior de Porto Príncipe.

Emile Wilnes, integrante do mesmo grupo e membro do conselho da Fundação Aristide, ONG assistencialista mantida por aliados do ex-presidente, diz que hoje o Brasil é um dos responsáveis por dificultar o retorno de seu líder do exílio. "Nós achávamos que [Luiz Inácio Lula da Silva] fosse um democrata. Mas hoje, vendo o que aconteceu aqui, não achamos mais", declara ele.

Ao longo de dez dias em Porto Príncipe, a Folha percebeu bem mais demonstrações de apreço aos brasileiros entre a população do que o contrário. O Brasil lidera militarmente a Minustah, a força de paz da ONU, que em geral é bem aceita pelos haitianos.

Mas a franja radicalizada existe e é atuante, não apenas nas favelas, mas também no movimento estudantil. O pior cenário para o Brasil seria o de uma aliança entre as massas empobrecidas das favelas e essa elite politizada. "Não deixamos de acompanhar atentamente e com preocupação a atuação dos partidários de Aristide, mesmo com a situação de fraqueza deles", diz o coronel Alan Santos, chefe da comunicação social do batalhão brasileiro da Minustah.

Carlos Barria /Reuters

Haitianos transitam por campo de desabrigados instalado em frente ao palácio presidencial de Porto Príncipe

Haitianos transitam por campo de desabrigados instalado em frente ao palácio presidencial de Porto Príncipe

Marcha anual

Todos os anos, em 28 de fevereiro (aniversário da queda de Aristide), pelo menos 5.000 pessoas marcham pelas ruas de Porto Príncipe para lembrar o que qualificam como um golpe de Estado. Pichações pedindo a saída da Minustah são poucas, mas visíveis em alguns muros do centro da capital.

Nunca houve violência nessas manifestações, pelo próprio fato de que as gangues ligadas ao ex-presidente foram desarmadas, e seus líderes, presos. Mas cerca de 5.500 ex-integrantes desses grupos paramilitares escaparam da prisão no terremoto e estão à solta.

Aristide quer voltar ao Haiti e promete nunca mais concorrer à Presidência. Não há no Haiti pesquisas sobre a popularidade de seu partido, o Família Lavalas, mas é certo que continua forte nos principais bolsões de pobreza do país. "Estamos no país todo. O nosso é o partido da maioria", disse à Folha a presidente do partido e principal representante de Aristide no Haiti, Maryse Narcisse.

Ex-ministra no governo do presidente deposto, Narcisse é mais diplomática ao falar dos brasileiros. Pede claramente, no entanto, um cronograma para a saída das tropas estrangeiras, algo que a ONU já disse que só acontecerá daqui a "muitos anos".

"Não podemos achar que a Minustah vai ficar aqui para sempre. Está na hora de sabermos quando seu trabalho vai terminar", diz ela. "Precisamos de solidariedade internacional, mas tem que haver dignidade para nós."

Divisão

A resposta dada pela Minustah, Brasil à frente, ao terremoto serviu para aumentar o golfo entre os que defendem e os que se opõem à presença estrangeira no Haiti. Aplausos e polegares levantados em sinal de positivo costumam saudar brasileiros em operações de distribuição de alimentos. Mas quem é contra não se convence.

"A Minustah não tem sido capaz de responder de maneira adequada ao terremoto. Minha impressão é que as tropas não sabem bem o que fazer", diz Narcisse.

Folha de S. Paulo

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É só uma questão de pele

Para os estudiosos da genética, as diferenças da cor da pele nas raças humanas são insignificantes. Mas é estarrecedor vermos sua capacidade de produzir, como nas políticas do apartheid, algumas das páginas mais cruéis da história da humanidade

Sheila Lobato

"Operários", óleo sobre tela de Tarsila do Amaral,

Centenas de milhares de pessoas lotam a praia de Copacabana. É domingo e faz um belo dia de sol. Caminhar em linha reta é impossível. E a experiência de andar em ziguezague entre as pessoas e os guarda-sóis tem algo de único no mundo. Não tanto pela massa de gente, ou pelo Cespaço inexistente para abrir o guarda-sol. Caminhar ali é uma experiência única porque, ao se olhar para a paisagem humana, a primeira descoberta que o turista, brasileiro ou estrangeiro, faz é sobre a cor das pessoas.

Há loiras que parecem nórdicas, morenas tropicais, brancos caucasianos, negros retintos, mulatos de várias tonalidades, gente de pele acobreada e outros ainda de pele cor-de-oliva. Todos com pares de olhos de muitas formas e matizes; cabelos que vão do liso ao cacheado, finos ou grossos, do loiro ao negro, do castanho-escuro ao claro. De todas as cores do Rio de Janeiro, as daquela gente são as que mais ficam na memória.

Após 508 anos de miscigenação, os cariocas - os brasileiros, de um modo geral - não têm uma cor, mas muitas cores. Praias e ruas de qualquer lugar da Europa, América do Norte, Ásia ou África sempre mostram ao menos uma cor dominante. No Brasil, em especial no Rio de Janeiro, não é assim.

Segundo o Censo de 2007, a escala de cores da pele dos brasileiros vai a 144 tonalidades diferentes. Duzentos anos atrás, éramos outro país. A cor negra caracterizava 54% da população. Hoje, essa proporção é de somente 6%, enquanto quase a metade da população é de cor mista. "Entre o branco e o negro, a maioria não é nem uma coisa nem outra", escreve a bióloga e jornalista italiana Barbara Bernardini.

Outra descoberta é a confirmação, "in natura", do que a biologia vem descobrindo nos últimos anos. A cor da pele nas diversas etnias não se deve somente a um mecanismo de resistência aos raios ultravioleta do sol, mas a duas vitaminas presentes na pele de todo mundo - a D e o ácido fólico, do grupo B. As duas reagem de formas opostas aos raios solares: enquanto a vitamina D se multiplica, o ácido fólico degrada-se rapidamente quando a pele é exposta ao sol. Ambas, porém, são extremamente necessárias à vida humana e isso obrigou a natureza a agir a favor das duas. Por um lado, facilitando a produção de vitamina D e, por outro, dificultando a perda de ácido fólico sob a luz solar. A cor da pele faz essa proeza.

Quanto mais melanina, mais escura é a pele - mas por que mais melanina? Porque, sob o sol forte das regiões equatoriais, a cor escura protege o ácido fólico sem impedir a produção de vitamina D pelos raios UV do sol. Inversamente, quanto menos melanina, mais clara é a pele, e a razão disso é que, nas regiões onde a insolação é menor, o ácido fólico não precisa da mesma proteção, mas a pele tem de produzir a mesma quantidade de vitamina D. Por isso, os habitantes do norte do planeta são majoritariamente brancos.

A PRODUÇÃO DE VITAMINA D pelos raios solares e a manutenção dos níveis de ácido fólico no organismo são vitais para a geração de fetos humanos sadios. Sem essas duas vitaminas em equilíbrio, as chances de malformações nos embriões são muito grandes. Em resumo, a cor da pele humana se deve a um ajuste natural cujo objetivo é assegurar a procriação de seres normais - a perpetuação da espécie.

A conclusão que se impõe é uma só: a cor tem mais a ver com a continuidade do gênero humano sob diferentes condições de insolação do que com sua raça. Sem a cor escura, seria impossível o surgimento da vida humana, 2 milhões de anos atrás, na África equatorial.

A ESCALA DE CORES DA PELE DOS BRASILEIROS VAI A 144 TONALIDADES DIFERENTES. DUZENTOS ANOS ATRÁS, ÉRAMOS OUTRO PAÍS. A COR NEGRA CARACTERIZAVA54 % DA POPULAÇÃO. HOJE, ESSA PROPORÇÃO É DE SOMENTE 6%

Os Australopithecus, nossos mais prováveis ancestrais, tinham a pele clara, mas eram cobertos de pêlo escuro, que os protegia do sol, do calor e do frio.

Era uma cobertura térmica natural. Quando um ramo dessa espécie de chimpanzé - o Australopithecus erectus - começou a andar em pé, seu cérebro cresceu, caçar tornou-se uma atividade muito mais complexa e o sistema de refrigeração precisou mudar. Os pêlos caíram e deram lugar a glândulas sudoríparas, muito mais eficientes para refrescar o corpo durante as longas jornadas de caça. Mas a pele nua e clara passou a sofrer os efeitos do sol e aí, entre três e dois milhões de anos atrás, desenvolveu-se o mecanismo que escureceu a pele para, ao mesmo tempo, protegê-la e garantir a posteridade.

A cor negra é uma conquista da natureza, uma das mais importantes na história da evolução humana. "O esforço de seleção foi enorme, pois a síntese de melanina necessária para produzir essa cor só é possível pela ação combinada de uma centena de genes, a maioria ainda não identificada", diz a bióloga Barbara Bernardini. "Foi o único modo de permitir o nascimento de uma prole numerosa e sadia, apesar dos efeitos contínuos dos raios UV", completa.

"A melanina não é um filtro genérico, mas um meio desenvolvido para proteger ao máximo a pele de um certo tipo de raio UV que atinge o sangue e destrói o ácido fólico nos vasos sangüíneos da epiderme", explica a bióloga e antropóloga Nina Jablonski, da Penn State University, dos Estados Unidos. "Esse ácido atua na síntese do DNA. Sem ele, os espermatozóides não se formam corretamente e o feto gerado terá gravíssimos defeitos congênitos, como anencefalia e atrofia da coluna vertebral."

Esse tipo de malformação era responsável por 15% das mortes pré-natais até que, em 1989, a australiana Fiona Stanley, do Medical Research Council, descobriu que, adicionando ácido fólico à dieta de mulheres grávidas, podia-se prevenir 70% destes defeitos.

A COR DA PELE NAS DIVERSAS ETNIAS NÃO SE DEVE SÓ A UM MECANISMO DE RESISTÊNCIA AOS RAIOS ULTRAVIOLETA DO SOL, MAS A DUAS VITAMINAS PRESENTES NA PELE DE TODOS - A D E O ÁCIDO FÓLICO

Foi só há 115 mil anos que os seres humanos começaram a se deslocar para latitudes acima do equador, em direção a terras onde o sol se tornava tão ameno que a pele escura não representava mais uma vantagem, mas um obstáculo à produção de vitamina D. Num processo de alguns milhares de anos, a pele "sintonizava" a exata quantidade de raios UV do ambiente e ajustava a melanina. E se grupos de pele já clareada voltassem a latitudes semelhantes às da origem ancestral, tornavam-se novamente escuros. Exemplo disso se deu com os aborígenes australianos, tão escuros quanto os africanos, mas geneticamente descendentes dos asiáticos, de pele clara.

"A vitamina D não serve somente para fixar o cálcio nos ossos. É indispensável ao sistema imunológico, ao sistema nervoso e ainda condiciona o ciclo menstrual. A forte carência de vitamina D não é compatível com a vida, muito menos com a reprodução", diz Nina.

Coube a outro cientista da mesma universidade, o também biólogo Keith Cheng - que se dedica ao estudo do câncer no nível celular - explicar geneticamente a passagem da cor negra para a branca na pele dos europeus. O responsável foi uma mutação do gene SLC24A5, que regula a quantidade de melanina no organismo.

"É possível estimar que a mutação ocorreu há apenas 15 mil anos e se difundiu rapidamente por todo o Velho Mundo", diz Cheng. "Mas ela se deu somente nos europeus, pois os brancos asiáticos, como os japoneses e chineses, conservaram o gene africano, chegando ao mesmo resultado que os europeus por outro caminho genético", completa. Outras variações genéticas, associadas aos raios UV e a uma dieta alimentar mais ou menos rica em vitamina D, produziram as diversas tonalidades de branco.

O gene que descolore a pele é capaz de dar uma insólita lição à humanidade. "Essa mutação", diz o professor Cheng, "foi determinada pela variação de uma única letra do código genético. Somente uma letra", ele enfatiza. A observação é importante, anota a bióloga Barbara Bernardini, porque o DNA humano contém cerca de 3 milhões de letras.

A ORIGEM DA COR NAS RAÇAS HUMANAS AO MICROSCÓPIO É TÃO INSIGNIFICANTE QUANTO ESTARRECEDORA, POIS FOI CAPAZ DE PRODUZIR POLÍTICAS COMO O APARTHEID

"A diferença de cor de um italiano para um senegalês é causada por uma molécula milhões de vezes menor que um milímetro", ela acrescenta. E conclui seu testemunho com uma constatação irretorquível: a origem da cor nas raças humanas é tão insignificante ao microscópio quanto estarrecedora, por vermos como diferenças tão minúsculas foram capazes de produzir, como nas políticas do apartheid, algumas das páginas mais cruéis da história da humanidade.

Revista Planeta

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A esqualidez do luxo

Corpos são negativamente cevados na dieta da fome para se ajustar à gratuidade do esteticismo da alta costura

José de Souza Martins*

Para os antigos gordura era bom, e o nosso Jeca Tatu só se tornou saudável quando ficou roliço

O retorno da celeuma sobre a esqualidez das modelos nos desfiles de moda é uma útil investida crítica sobre o que a sociedade da ostentação e do consumo vem fazendo com o corpo humano, especialmente o corpo da mulher. O que, em livro referencial e clássico, Gilda de Mello e Souza chamou de espírito das roupas desdobra-se hoje e até se degrada num conjunto de manipulações da indumentária como recurso para definir identidades sociais de uma parte da sociedade cada vez mais insatisfeita com sua aparência e sua apresentação pessoal. A moda é passageira. No caso da roupa, mais passageira ainda, submetida ao tempo e ao ritmo da indústria muito mais do que ao da criatividade dos estilistas, que a eles se adaptam.

A moda é indício de uma necessidade social própria da modernidade que é a de mudar os adereços das identidades para ser novo e diferente numa sociedade massificada em que é próprio ser igual e repetitivo. Ela é um recurso contra a desidentificação e também contra o definitivo no falso novo que se anuncia todos os anos em monumentais desfiles de apresentação de tecidos e trajes; que propõem, àquela humanidade que pode e tem os meios, caras e corpos esculpidos como peças de museu de arte. Um recurso de busca da eternidade na transformação do temporário em monumental.

Esse é um mundo fascinante, sobretudo se visto de seus extremos e dos lugares mais improváveis de sua ocorrência. Um desses extremos é o da moda eclesiástica, de que em Roma se pode ver várias lojas, com vitrinas largas, padres e freiras, mais elas do que eles, contemplando atentamente as novidades das vestes litúrgicas que, pela função ritual, supostamente não contêm inovações. No entanto, no que parece ser a mesma veste desde séculos, há finos e delicados ornamentos que sofrem pequenas mudanças estéticas para expressar algo que não muda nem pode mudar. Uma necessidade cultural mais de estilo do que de moda. Com a diferença de que é moda que se ajusta ao corpo e não corpo que se ajusta à moda. Outro extremo é o da massa desprovida de meios à qual a moda chega tardia e residualmente, aquela parte da população que pode se dar ao luxo de andar fora de moda, os que se satisfazem com o que já é insatisfação dos outros.

Juntamente com a maquiagem, a moda acaba expressando um crescente desapreço pelo próprio corpo na busca de sempre nova identidade. É verdade que o que se vê nos desfiles de moda rarissimamente se vê nas ruas e mesmo nas cerimônias de grande ostentação social. Portanto, uma insatisfação atendida muito mais pelo anúncio do novo do que por sua concretização. Nas cerimônias e recepções de que tive oportunidade de participar, por dever de ofício, em diferentes países, nunca vi ninguém trajado na moda dos desfiles. Nem mesmo num encontro com os reis da Espanha, com os quais conversei numa recepção nas Nações Unidas, em Genebra. A rainha estava vestida de maneira simples, mais preocupada em fazer perguntas sobre problemas que nos afligem a todos do que com o seu traje.

Até porque trajar as roupas dos desfiles de moda imporia dificuldades de locomoção fora da passarela, não só pelo descabido em cenários que tendem à uniformidade como também pelo impacto visual no entendimento das pessoas comuns. Foi, aliás, o que ocorreu com o arquiteto e artista plástico Flávio de Carvalho, em 1956, ao desfilar no centro de São Paulo com o seu Traje de Verão, o público aparentemente dividido entre vaiar e agredir aquele estranho homem que trajava um saiote.

Isso não tira mérito nem beleza das criativas inovações nos desfiles de moda e nas proposições imaginárias neles implícitas. Mas o detalhe que deve ser considerado criticamente é a crescente e descabida esqualidez das modelos. Sem desconhecer os comprometimentos de saúde já apontados por diferentes especialistas, há que considerar o aspecto sociologicamente mais problemático na ideologia subjacente à relação entre a moda e o corpo. Examinando várias das fotografias de modelos em performances destes dias, tive a impressão de que a moda entrou em guerra com o corpo e se embrenhou no caminho fatal de definir como ideal e belo o corpo desencarnado, transformado em mera armadura de roupas deslumbrantes. Um cabide que anda.

Trata-se de uma exacerbação da concepção de luxo em conflito com a materialidade do corpo que, por isso mesmo, precisa ser não só adestrado, mas negativamente cevado na dieta da fome para se ajustar à gratuidade do esteticismo da alta costura. Num país como o nosso, governado por um regime que é derivação da ideologia do Fome Zero, a contradição se torna incômoda em face do ideal político de saturar de alimentos os famintos, supostos e reais, e engordar os magros. O que ganha sentido na nossa cultura popular mais antiga e rústica da gordura como sinal de saúde. Os antigos, com alguma razão, entendiam que magreza era doença e temiam como enfermidade a falta de apetite. Era o tempo do Jeca Tatu, que se tornou são quando ficou roliço. A captura do corpo pelas concepções dos desfiles de moda inverte nosso imaginário alimentar sem nos educar nem melhorar nossa qualidade de vida.

A moda, mesmo não chegando às ruas, se dissemina aos poucos e, não raro, com atraso nas outras classes sociais que não a dos abonados que frequentam os desfiles de moda e consomem suas criações. O ideal de beleza e elegância foi subjugado pela servidão da fome e por aí se espalha. Aquela esqualidez das modelos sutilmente se difunde através da entrada da moda em linha de produção, como fonte de imitativa aspiração de beleza coletiva. Multidões, hoje em dia, submetem-se seja à disciplina dos exercícios industrializados seja à indústria das dietas alimentares para ajustar o próprio corpo ao ideal de beleza das passarelas. Ideal que ao mudar anualmente, renova ciclicamente as bases imaginárias da rejeição do próprio corpo em nome do corpo alheio. Como acontecia com Alice, do outro lado do espelho, de Lewis Carroll: quanto mais caminhava mais longe ficava do destino.

*Professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Entre outros livros, autor de A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34)

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Villa-Lobos: Para além do nacionalismo

MARIA ALICE DA CRUZ

Villa-Lobos, cujo cinquentenário de morte está sendo lembrado: da incompreensão ao reconhecimento (Foto: W. Eugene Smith/Life) O Trenzinho Caipira” é a obra de Heitor Villa-Lobos (1887-1959) que mais atrai instrumentistas e coralistas mirins e juvenis 50 anos após sua morte. A composição erudita também já ganhou versão popular por intérpretes de música brasileira. Parte das Bachianas Brasileiras n. 2, o “Trenzinho” está para estudantes mirins assim como as Bachianas n. 5 estão para as cantoras líricas brasileiras. São duas peças importantes para introduzir a obra de Villa-Lobos na vida de alunos e de bons ouvintes de música, na opinião de Paulo de Tarso Salles, professor do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, doutor pela Unicamp e autor do livro Villa-Lobos: processos composicionais. Mas a musicografia deixada por Villa-Lobos, lembra o autor, é mais extensa e mais rica e está sendo redescoberta depois de muitos anos fadada, no Brasil, a discursos depreciativos sem fundamentos teóricos e analíticos.
Fundamentado em análise minuciosa à luz das partituras do mestre, Salles responde a esses discursos no livro, publicado pela Editora da Unicamp, mostrando que Villa-Lobos era tão genial, meticuloso e competente quanto qualquer compositor moderno de sua época. “Eu abordo mais a questão do Villa-Lobos como um compositor significativo para a música do século 20. Enfim, ele é um compositor significativo. A música dele dialogava com os principais compositores da época, Stravinsky, Webern, Bartók, Varèse, entre outros”.

Há muita discussão, polêmica e especulação sobre a qualidade musical, mas somente depois de 50 anos de sua morte um musicista decide analisar a obra de Villa-Lobos à luz da teoria musical mais compatível. A leitura do Villa-Lobos é abordada em uma análise comparativa de suas partituras com músicos da época como Stravinsky, Bartók, Schoenberg e Webern. Salles diz que a primeira coisa que salta os olhos ao analisar a partitura de Villa-Lobos como um musicólogo é que o compositor carioca é muito diferente do que falam, como, por exemplo, a afirmação de que ele é apenas intuitivo. Salles encontrou foi um compositor que planejava. “Villa-Lobos não tem um estilo único. É preciso grande domínio técnico para realizar esses diferentes estilos da maneira como ele fez. O que mostro no livro são processos composicionais que ele aplicou ao longo de toda a vida, em vários estilos, em vários meios de expressão”, enfatiza o autor.

Nas diversas obras analisadas, Salles percebeu técnicas sofisticadas, simetrias, construção de figuras musicais que permitem o espelhamento do som. A obra “Uirapuru”, segundo o professor, é uma mostra do rigor composicional de Villa-Lobos. As partituras mostram que ele tinha alto domínio das formas musicais.
Outra pontuação feita por Salles está na análise do “Choros nº 10”, fusão de cantos tribais, blocos carnavalescos e outras sonoridades. “Lévi-Strauss buscou as estruturas matemáticas nos mitos dos índios brasileiros. De certa maneira, essa foi uma das premissas que empreguei para entender a música do Villa”, revela.

Modernismo
Villa-Lobos foi o primeiro compositor brasileiro a entrar de corpo e alma no modernismo, e isso, na opinião de Salles, foi o principal motivo de rejeição a sua obra, por parte de seus críticos. Ao mergulhar na nova proposta, começou a criar formas musicais de acordo com o próprio material musical: cantos de pássaros, canções indígenas, melodias folclóricas, etc. “Ele compunha usando o material como determinante da forma”, explica Salles. Em sua primeira viagem a Paris, ele conheceu a música de Stravinsky, com uma proposta moderna, e acabou sendo influenciado. “Ele foi muito criticado por isso, mas as mesmas críticas foram feitas a Stravinsky e todos os contemporâneos na primeira metade do século 20”.

De acordo com Salles, Villa-Lobos não teve receio em dialogar com os modernistas. Ao que chamam de “imitação”, Salles chama de assimilação. Em algumas obras, segundo o professor, é possível ver a inquietação dele com coisas que ouvia, assimilava e devolvia à sua maneira, forjada no Brasil. Essas inquietações são vistas em obras como Choros nºs 3, 4, 10. “Se ele não tivesse sido genial, teria voltado frustrado de lá, e talvez não estivéssemos falando dele agora. Isso demonstra sua inteligência musical para assimilar com tanta velocidade e habilidade a complexidade stravinskiana”, acrescenta.

Havia certo preconceito para com Villa-Lobos por ele ter sido autodidata a maior parte do tempo e não ter estudado fora do Brasil. Aprendeu os rudimentos com o pai e uma tia que tocava piano e não formalizou seus estudos em um conservatório musical. Mas ele conviveu com grandes músicos da época no Brasil, entre eles Nepomuceno, Frederico Nascimento, Francisco Braga, Agnello França, mas como esse currículo não foi oficializado, não recebeu nenhum diploma de formação musical. “O autodidatismo de Villa-Lobos sempre foi malvisto, como se a aprendizagem informal fosse algo fora do comum”, questiona Salles.

O professor Paulo de Tarso Salles: “Villa-Lobos compunha usando o material como determinante da forma” (Foto: Antoninho Perri) O professor esclarece que Villa-Lobos pode ser considerado até mesmo “conservador” em suas primeiras obras, nas quais buscou formas mais clássicas. “Aliás, se ele não conseguisse dominar sinfonias e sonatas, ele não conseguiria nem mostrar suas primeiras obras, pois as orquestras eram administradas por músicos muito exigentes quanto ao domínio das formas clássicas. As sonatas para violoncelo e piano, as sinfonias nºs 1 a 3 e os quartetos de cordas nºs 1 a 4 jamais seriam estreados por volta de 1915, se não fossem reconhecidos por seus pares”, enfatiza.

Certas afirmações feitas por Villa-Lobos, bem como algumas criações em invenções eram julgadas com frases como: “Ah, ouviu Stravinsky e está copiando”. Esta era uma maneira redutora de enxergar seu talento, sendo que de 1920 a 1950 muitos compositores imitavam Stravinsky em maior ou menor grau, na opinião do autor. “Ele foi uma influência, um compositor que marcou época. Foi compositor que mexeu com a cabeça de jovens compositores da primeira metade do século 20”, enfatiza. Ao partir para a modernização mais radical dos “Choros”, veio à baila a afirmação de que não tinha técnica suficiente. “Mas olhando as partituras, pode-se constatar que não se tratam de ‘chutes’. Imitação? Observação consciente, ele analisava elementos de Stravinsky e incorporava em sua música. A obra de Villa-Lobos revela profundo sentido analítico”, esclarece.

A ausência de um pensamento teórico-musical “moderno” no país pode ser o motivo pelo qual Villa-Lobos fosse incompreendido por seus compatriotas, de acordo com Salles. O que acontece é que enquanto na Europa havia uma mediação teórica que possibilitou uma leitura crítica dessa nova musicalidade, no Brasil essa discussão era ainda incipiente, mais voltada para a questão da identidade nacional. “Mas o Brasil não cultiva a teoria como um princípio saudável”.

Mesmo nos cursos de graduação em música, apesar de algumas obras de Villa-Lobos serem muito executadas, segundo Salles, os alunos não são estimulados a analisar suas partituras por falta de referências bibliográficas. Salles informa que existem alguns textos escritos por Lorenzo Fernandes, em 1946; um pequeno livro de Souza Lima sobre a obra pianística do maestro, publicado em 1970, e até uma obra de Adhemar Nóbrega sobre seus “Choros”, mas nenhuma delas se propõe a realizar uma análise detalhada das partituras.

Invariavelmente, se observa a desconfiança, por parte dos próprios músicos, de que o melhor de Villa-Lobos não está em sua música, mas nas anedotas, no exotismo, no folclore, o que torna problemática sua apreciação como um compositor “de verdade”. Curiosamente, são os músicos populares que se adiantaram nessa apreciação que transparece em certas canções de Tom Jobim, Edu Lobo e Chico Buarque, sem falar nos trabalhos de Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal. As gerações nacionalistas de Camargo Guarnieri e Mignone, e os modernistas Willy Correia e Gilberto Mendes relutaram em reconhecer a obra villalobiana, mas Gilberto Mendes foi talvez, posteriormente, um dos primeiros nomes da vanguarda a valorizar os procedimentos composicionais de Villa. Willy só se retratou em entrevista concedida ao O Estado de S. Paulo em 2008.

A música de Villa-Lobos é bastante executada em alguns países da Europa. A Orquestra Sinfônica da Rádio de Stuttgart gravou a integral de suas 12 sinfonias, regidas por Carl St. Clair. Salles conta que em festivais internacionais de violão, é possível ver instrumentistas de várias nacionalidades se apresentando com obras de Villa-Lobos. “Hoje, a música dele é largamente executada, tanto no Brasil quanto internacionalmente”, esclarece. No final de novembro, o professor, ao lado do maestro Gil Jardim, foi convidado pelos professores Giorgio Monari, da Universidade Sapienza e Rafaelle Pozzi, da Universidade Roma Tre, para participar de um Congresso Villa-Lobos realizado em Roma, onde teve a satisfação de ver a obra villalobiana sendo executada por bons músicos italianos. E houve ainda um importante debate sobre questões interpretativas e analíticas: “Max Noubel, professor de Análise Musical da Universidade de Dijon e do Conservatório de Paris, mostrou conhecer profundamente a obra do maestro”, declarou.

Rejeição
O próprio Salles foi vítima da rejeição à obra de Villa-Lobos. Ao tentar ingressar no curso de música de uma universidade pública paulista, foi recusado por tocar violão e, principalmente, Villa-Lobos. “Foi um período de rejeição a tudo que parecia ser nacionalista”, explica. Salles acrescenta que pelo oportunismo, pela figura meio mítica que o próprio maestro criou, a qualidade composicional deixou de ser avaliada.

A aliança com Getúlio Vargas, o aproveitamento de aspectos exóticos e políticos, acusações de aproveitamento de temas alheios, como os de Stravinsky e dos chorões são críticas habitualmente feitas a Villa-Lobos, segundo Salles.

Para o professor da USP, houve a necessidade de forjar uma identidade nacional no Brasil, no início do século XX. Em 1928, foi criada a primeira escola de samba no país, no âmbito dessa discussão do que determinaria o caráter essencialmente nacional. “A construção da identidade do povo brasileiro aconteceu nesta época. Acho que Villa-Lobos viveu isso e chamou para si essa missão, talvez pela necessidade de ele próprio se inserir, se sustentar, estabelecer conexões. Acredito que não havia na época outra maneira de estabelecer diálogo se não fosse por intermédio dos meios que ele adotou”, sugere Salles.

Prova de fogo
Prova de habilidade foi dada em Nova York, quando um jornalista desafiou Villa-Lobos a compor uma música, em poucos minutos, a partir de uma fotografia de um arranha-céu. Em pouco tempo, nasceu a “New York Skyline Melody”.

A composição a partir de imagens também foi um marco na carreira do artista. O compositor francês Olivier Messiaen afirma no “Tratado de Ritmo e Ornitologia”, que aprendeu com Villa-Lobos a construção desses ritmos “minerais”, como ele chama a composição de Villa-Lobos, inspirada em montanhas. A partir de então, Messiaen compôs uma série de obras baseadas nas montanhas dos Alpes, onde costumava passar as férias.

“No Brasil, este método, não é considerado algo importante”, explica Salles. Mas ele acrescenta que Villa se revela meticuloso principalmente nessas obras, em que num papel milimetrado, ele coloca no eixo vertical, a altura das notas, e no eixo horizontal, o ritmo. “Com esse método Villa-Lobos compôs a Sinfonia nº 6, baseada nas montanhas do Rio de Janeiro”, onde, em 1887, nascia o tão sonoro gênio da música erudita brasileira.

Jornal da UNICAMP

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O triunfo neoliberal e os desafios do FSM

O triunfo do neoliberalismo continua sendo enormemente rentável para uma minúscula minoria, a mesma que é servida pelos governos do G-20. Eles não demonstram sinal algum de estarem fazendo algo sério contra as vontades dos bancos. Se imaginarmos a organização do mundo como uma série de círculos concêntricos ou esferas, o primeiro e mais influente de todos é certamente o das Finanças, agora totalmente divorciado da economia real. Os desafios para o FSM e para aqueles que são parte dele em espírito, de maneira consciente ou não, é reverter a ordem desses círculos. A análise é de Susan George.

Susan George

Ainda que as reuniões do Fórum Social Mundial sejam sempre ocasiões marcadas pela esperança, nenhum de nós encontrará razão para celebrar quando olharmos para o ano que passou. O ponto alto foi a Catástrofe de Copenhague – cujo resultado trouxe péssimas perspectivas para a raça humana – mas ele também testemunhou duas reuniões do G-20 pavorosamente convencionais, cujo claro objetivo era voltar ao modo de negociação anterior, no menor tempo possível. A solução do G-20 consistiu em salvar o FMI da extinção oferecendo o equivalente a $750 bilhões em dinheiro de contribuintes sem impor absolutamente nenhuma condição. Desta maneira, o Fundo, mais uma vez, está livre para impor drásticas políticas de ajuste estrutural. Houve uma breve tempestade sobre os paraísos fiscais, mas o G-20 fez todo o possível para que nenhum deles precisasse se preocupar com as ridículas declarações de que não havia mais país algum na lista negra da OCDE.
Enquanto isso, os bancos, ressuscitados por seus respectivos governos voltaram imediatamente ao seu antigo modo de operação. Os trilhões em dinheiro de contribuintes foram devolvidos, mas isso não significa que alguma coisa mudará para melhor. Haverá, talvez, algumas poucas mudanças regulatórias de menor importância, mas claramente nenhuma reforma nos moldes das restrições determinadas pelo ato de “Glass Steagal” será imposta às principais instituições financeiras que permanecem grandes demais para falir, mas não para não serem salvas por seus governos. O sistema bancário dos Estados Unidos gastou mais de cinco bilhões de dólares fazendo lobby para se livrar de uma dúzia de regulamentações. A crise financeira foi o resultado direto destes esforços.
No início de 2009, os especialistas que quase universalmente falharam em prever o desastre financeiro ofereceram a débil e falsa justificativa na qual afirmavam que “ninguém seria capaz de prevê-lo”. No fim do mesmo ano, eles também unanimemente declararam que “a crise havia chegado ao fim”. Nada disso é verdade: muitas pessoas previram a crise, mas não foram ouvidas; a crise não terminou sob parâmetro algum, exceto pelo parâmetro do mercado de ações parcialmente recuperado. Os bancos, entretanto, vão muito bem, obrigado – em novembro de 2009, o Goldman Sachs angariou $100 milhões por dia, segundo suas próprias declarações.
Com o G-20 oficialmente substituindo o G-7/8, poderíamos nos perguntar se a presença dos BRICs faria alguma diferença em relação aos resultados. Agora já sabemos. Aparentemente, os recém chegados estão tão agradecidos por estarem sentados na mesma mesa que o grupo dos mais experientes que ofereceram garantias implícitas de não causarem maiores problemas. Os 172 países que não estavam presentes podem esperar pouco ou nada desta nova configuração e se estes precisavam de confirmação para sua insignificância, Copenhague providenciou isso com toda clareza possível.
Nunca subestime os poderes da inovação financeira: Agora que foram verdadeiramente salvos, os bancos estão vendendo um novo produto, estruturado exatamente da mesma maneira que os empréstimos sub-prime: os CDOs ou “obrigações de dívida colateralizada”, também conhecidos como obrigações de dívida com garantia”. Ao invés de comprarem milhares de empréstimos sub-prime, embrulhá-los e vendê-los para clientes por todo o mundo, os bancos agora compram apólices de seguro de pessoas velhas e com doenças crônicas com enormes descontos sendo cuidadosos ao incluírem uma mistura de doenças – AIDS, Alzheimer, câncer, diabetes e outros, empacotando e vendendo aos investidores uma perspectiva de morte breve e ganhos vultosos quando a empresa seguradora pagar a quantia devida. Até o momento, a morte ainda não era realmente uma mercadoria negociável, mas esse equívoco já foi remediado.
Sob nenhum padrão a não ser os utilizados pelos bancos e mercados de ações, a crise encontra-se superada. O desemprego aumentou enormemente assim como o trabalho precário. As desigualdades nunca foram tão grandes entre os países ou dentro deles. Os bancos não estão emprestando para pequenos e médios negócios, que estão falindo. O enorme aumento no preço dos alimentos, que em 2008 mergulhou 100 milhões de pessoas na fome crônica foi causado, em grande parte, pela substituição das lavouras de alimentos por lavouras de agrocombustível nos Estados Unidos e Europa e, acima de tudo, pela especulação dos mercados de commodities. Estes escandalosos aumentos de preços arrefeceram no decorrer daquele ano, mas em 2009 começaram novamente a subir e continuam sua ascensão. Participantes do FSM conhecem todas essas questões muito bem e eu não usarei meu limitado espaço para trabalhar essa questão.
As conclusões que podemos tirar do lamentável estado em que se encontra a economia me parecem ser as seguintes: o triunfo do neoliberalismo continua sendo enormemente rentável para uma minúscula minoria, a mesma que é servida pelos governos do G-20. Eles não demonstram sinal algum de estarem fazendo algo sério contra as vontades dos bancos. Se imaginarmos a organização do mundo como uma série de círculos concêntricos ou esferas, o primeiro e mais influente de todos é certamente o das Finanças, agora totalmente divorciado da economia real. Mais de 80 por cento das atividades relacionadas aos empréstimos financeiros vão para o próprio setor financeiro e não para a produção, distribuição e consumo de fato.
O próximo círculo é a Economia, livre para ir onde o custo do trabalho e dos impostos forem os mais baixos. Juntos, as Finanças e a Economia regulam a Sociedade e ditam como ela precisa ser organizada. Esta, claramente, não está organizada para satisfazer as necessidades dos cidadãos. Finalmente, e menos importante que o resto no presente cenário está o Meio Ambiente. Copenhague provou mais uma vez que o menor e menos importante círculo permanece sendo o lugar de onde tiramos nossa matéria prima, incluindo o petróleo, gás e carvão e onde despejamos nosso lixo.
Os desafios para o FSM e para aqueles que são parte dele em espírito, de maneira consciente ou não, é reverter a ordem desses círculos ou esferas para que o Meio Ambiente seja visto como deveria ser – a condição para a possibilidade de continuidade de existência humana e da civilização.
Precisamos obedecer às restrições colocadas sobre nós pelo planeta porque não podemos fazer diferente e esperar sobreviver. Em seguida vem a Sociedade, democraticamente organizada de maneira que as necessidades básicas sejam reconhecidas e satisfeitas, serviços públicos sejam oferecidos de maneira automática e natural, oportunidades de emprego aumentem e desigualdades diminuam. A Economia precisa ser organizada para satisfazer as demandas da sociedade, com empresas de tipo substancialmente mais cooperativo. O mercado permanece um aspecto importante e funciona de acordo com as forças tradicionais de oferta e demanda, porque mercados podem ser eficientes e promover inovação contanto que sejam regulados. Um planejamento central à la Sovietique não é necessário, mas o gasto governamental planejado de maneira precisa pode ser usado para promover o desenvolvimento de atividades e indústrias específicas, em especial as “verdes”. Finalmente, as Finanças são uma ferramenta a serviço da economia, e não sua chefe.
Esta é a estrutura geral que, acredito, deva ser ambicionada pelo FSM. Tenho muitas propostas concretas a partir das quais poderia trabalhar:
- Nacionalização e socialização, ao menos parcial, de quaisquer bancos que recebam dinheiro público, obrigando-os a emprestar a juros zero para pequenas e médias empresas sociais/verdes, de modo a acelerar a conversão desta para uma economia de energia renovável e administração cooperativa.
- Projetos Keynesianos de infraestrutura verde para a criação de empregos financiados através da emissão de títulos de créditos especiais (na Europa isso significaria mudar a natureza do Banco Central Europeu)
- Iniciar o debate sobre limitação de renda: se a pessoa com o menor salário recebe uma quantia equivalente a 100, qual deveria ser o teto para o mais bem pago? 500?1000?10.000? Temos incontáveis estudos sobre os pobres, mas não sobre os ricos.
- Campanhas internacionais sobre paraísos fiscais. Idem para taxação internacional, incluindo impostos sobre transações financeiras de qualquer tipo, com a prerrogativa de serem usados, ao menos parcialmente, para financiar medidas de mitigação das mudanças climáticas em países pobres. Restabelecer os impostos sobre fortunas particulares abolidos pelo neoliberalismo e usá-los para financiar serviços públicos.
- Um sistema de contabilidade internacional que revele e, portanto, exclua a evasão de preços de transferência e repatriação de capital por corporações transnacionais.
-Restabelecimento (ou, na Europa, introdução) da separação de funções bancárias do tipo Glass-Steagal, com o crédito sendo considerado como bem público (e naturalmente sujeito às regras de precaução). Restabelecimento de diversas medidas regulatórias, particularmente sobre o mercado de commodities, que foram abolidas nos últimos 10 ou 15 anos.
- Cancelamento de débitos em troca de reflorestamento e bio-conservação para os países menos desenvolvidos.
O único benefício gerado em Copenhague foi o estabelecimento de relações mais sólidas entre os movimentos sociais e os responsáveis pelas campanhas ambientais: eles parecem agora, finalmente entender que não podem vencer separadamente. O FSM precisa trabalhar para fortalecer e aprofundar esta aliança e tentar descobrir e incluir neste grupo também as organizações que trabalhem com questões ligadas à paz e conflitos.
Eu ainda acredito que o FSM deva trabalhar em prol de um dia anual de protesto e propostas em todos os países nos moldes das manifestações de 15 de Fevereiro de 2003 contra a invasão do Iraque. Um tema comum, amplo, com um título fácil (como Empregos, Justiça, Clima…) e muitas idéias vindas de todas as partes do mundo preparadas para chamar atenção para ações originais, atraentes para a TV, que qualquer um pode empreender com o mínimo de equipamento. Todos os jornalistas que eu encontro começam dizendo que o movimento está morto. Certamente ele não está visível e podemos ter perdido uma excelente oportunidade em 2009. Eu gostaria de pensar que 2010 pode ser melhor, mais focado, mais cheio de energia, com mais propósito – e que podemos começar a vencer, para variar.
Susan George é licenciada em filosofia pela Sorbonne e doutora em política pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris). Autora de diversos livros, é dirigente da ATTAC-França (Associação pela Taxação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos) e presidente do conselho de administração do Transnacional Institute (Amsterdã).

Tradução: Adriana Guimarães

Carta Maior

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Poesia e paz no Oriente Médio

Lelia Maria Romero

Em dezembro passado, na Casa das Rosas, aconteceu a “Noite da Poesia do Oriente Médio”, da qual tive a honra de participar. Para este encontro foram selecionadas, entre as muitas culturas e etnias da região, as culturas árabe, judaica e persa, com apresentação de poemas e poetas de épocas diversas, divididos em dois blocos: clássico e contemporâneo. Acordes de uma música iraniana moderna acolhiam o público que lotou o hall principal. Momentos de emoção singular: um fragmento do Cântico dos Cânticos “cantado” em hebraico e duas Galáxias de Haroldo de Campos em português, árabe e hebraico, entre outros.
Durante as conversas na organização da “Noite”, foi sugerido aproveitar a oportunidade para celebrar a paz. Encarregada de escrever o texto de abertura do sarau, me vi um pouco perdida para elaborar algo curto e conciso sobre poesia e paz no Oriente Médio. Pontos de interrogação se desenharam na minha tela criativa mas rapidamente, tomada por minhas fontes fiéis _ poesia e história_ o conteúdo se apresentou. Afinal não é preciso de argumentos para se falar de paz. É sentar e fazer, antes que os preconceitos, modeladores de corações e mentes, enferrujem as lembranças poéticas, os erros e trunfos históricos. Lembremo-nos das trocas artísticas e da poesia que permanece. Longe dos interesses contemporâneos que transformaram o Oriente Médio numa região de discórdia em plena potência, recordemos as grandes civilizações que cresceram naquelas terras: egípcia, babilônica, persa, assíria, fenícia, mesopotâmica, entre tantas. No raio do Crescente Fértil – a passagem para a Índia, caminho do Mediterrâneo, entrada de grandes invasões, cruzamento de cameleiros e caravanas, ponto de intercâmbio, dos rastros de tapetes mágicos –, a região já era berço de expressiva produção poética. Do segundo milênio a.C., a Epopeia de Gilgamesh nos chega como o mais belo poema épico antes de Homero. Torneios de poesia lotavam praças e mercados e suspendiam, temporariamente, as guerras tribais na Península Arábica. A paz durava enquanto havia poesia.
O Oriente Médio passa a ser tratado de fora para dentro, antes mesmo da formação arbitrária dos estados modernos no século XX. Esse olhar se recrudesce com a deformação nas relações entre culturas e países, advindas do poder adquirido por duas riquezas subterrâneas: água e petróleo. A poesia contemporânea aproveita os temas e engendra outra teia de contatos e impermanências. Muitas vozes ecoam e estamos aqui para celebrar a poesia cotidiana e real. Lembremos ainda que o olhar de fora para dentro deforma o real e alimenta o idealismo que impõe, formata e pede fronteiras. A convivência pacífica alarga os limites, tende a construir pontes e, assim como a poesia, edifica. A paz é uma postura cotidiana, é desfronteira, é real.
É desnecessário forjar circunstâncias para se falar de paz e de poesia. Somos pela letra poética de cada dia, mensagem subliminar da “Noite da Poesia do Oriente Médio”, assim como foi o “Festival Literário da Palestina”, em 2009. Festival literário na Palestina ocupada? Parece estranho, mas se falamos sobre paz, lembremos que ali as pessoas não têm o direito de ir e vir por causa dos postos militares israelenses. Por isso os organizadores transformaram o evento em festival itinerante, para que a população da Cisjordânia tivesse a oportunidade de viver essa experiência e pudesse seguir o rastro da poesia. O Festival foi de Jerusalém a Ramallah, a Jenin, Hebron e voltou para Jerusalém, sem tranquilidade infelizmente, mas acompanhado pelo interesse e entusiasmo da gente local.
Assim são os caminhos da poesia, que de alguma forma – festiva, silenciosa, delicada – se tecem, se apresentam, se modificam e permanecem porque, soprados para outros cantos, germinam. Caros amantes da palavra poética e do desenrolar da história humana, lembremo-nos, mais que tudo neste momento, que ontem ou hoje, não há muros para a poesia, seja na Casa das Rosas ou na Palestina.

Lelia Maria Romero é poeta e escritora, autora de "Andaluza". Pesquisa a Espanha medieval e F.G.Lorca. Coordena o Projeto NARRARTE que organiza oficinas de escrita e saraus. Colaboradora do Conselho Cultural do ICArabe.

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Impunidade fardada

Rodrigo Martins

Novamente o Brasil terá de prestar contas à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Desta vez, pela omissão da Justiça brasileira diante de uma violenta repressão da Polícia Militar contra uma marcha do Movimento dos Sem Terra (MST) no Paraná. O confronto, ocorrido em maio de 2000, resultou na morte do agricultor Antonio Tavares, de 37 anos, vítima do projétil disparado por um PM. O atirador obteve a indulgência do tribunal militar e conseguiu um habeas corpus para trancar a ação penal na Justiça comum, com base na decisão anterior dos colegas de farda.
Ainda há um longo processo pela frente antes de o caso ser remetido à Corte Inter-americana, que pode obrigar o País reabrir a investigação. O primeiro passo foi dado: a aceitação da denúncia pela comissão ligada à Organização dos Estados Americanos, que não se convenceu da idoneidade das investigações criminais realizadas no Brasil e citadas pelos advogados de defesa do Ministério das Relações Exteriores e da Secretaria Especial de Direitos Humanos para desqualificar as acusações. Além disso, o áspero relatório da comissão, assinado em outubro de 2009 e divulgado somente agora, recrimina o País por confiar a apreciação do processo a uma corte militar, a despeito das orientações da OEA.
Desde 1997, a entidade recomenda ao Estado brasileiro “a atribuição de competência à Justiça comum para julgar todos os crimes cometidos por membros das polícias militares estaduais”. O relatório ainda ressalta que os tribunais militares não gozam “da independência e autonomia necessárias para investigar de maneira imparcial as supostas violações de direitos humanos” e reitera o apelo de não se permitir o julgamento de violações aos direitos humanos em cortes militares.
Após relembrar as circunstâncias do massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996, quando 19 sem-terra foram mortos por policiais militares no Pará, os magistrados que assinam o documento avaliam que um inquérito conduzido pela Justiça Militar “elimina a possibilidade de uma investigação objetiva e independente, executada por autoridades judiciais não ligadas à hierarquia de comando das forças de segurança”. E mesmo que o caso passe logo à Justiça ordinária, observam os juízes, o processo fica comprometido, “dado que não foram colhidas as provas necessárias de maneira oportuna e efetiva”.
Na avaliação da ONG Justiça Global, uma das autoras da denúncia oferecida à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, a investigação que se seguiu à morte do lavrador comprova esses vícios. O confronto aconteceu depois que a Polícia Militar montou um cerco na rodovia BR-277, que dá acesso a Curitiba, para impedir uma manifestação dos sem-terra na capital paranaense. Para dispersar os manifestantes, a polícia iniciou uma batalha campal, com bombas, gás lacrimogêneo, disparos com balas de borracha e até com armas de fogo. Além do agricultor assassinado, 185 pessoas ficaram feridas.
“Quando percebemos, já estávamos cercados pela polícia. A tropa de choque de um lado, atiradores de elite do outro, um helicóptero sobrevoando e lançando bombas do alto”, comenta José Damasceno, 49 anos, membro da coordenação do MST no Paraná. “No fim, todo mundo estava desnorteado. Os policiais obrigaram todos a deitar de bruços no chão. Na confusão, perdi meu filho de vista. Só fui reencontrá-lo três dias depois.”
Tão logo o confronto acabou o então secretário da Segurança Pública do Paraná, José Tavares, apressou-se em defender a operação, reiterando que o confronto fora inevitável e não ocorreu uso de armas de fogo. As imagens captadas por emissoras de tevê e o resultado de um laudo do Instituto Médico Legal desmentem Tavares. As gravações mostram a brutalidade da ação policial contra trabalhadores desarmados. E o laudo atesta que a bala que matou o lavrador saiu da arma do soldado Joel de Lima Sant’Ana. O projétil teria rebatido no asfalto e perfurado o abdome da vítima.
Como o homicídio doloso é o único crime previsto em lei capaz de levar um policial militar, no exercício de suas funções, à Justiça comum, dois inquéritos foram abertos: um civil e um militar. O civil levou a Promotoria a denunciar o soldado pelo assassinato, destacando que o policial assumiu o risco de matar ao efetuar disparos contra o chão diante da multidão. Já o promotor da Justiça Militar, Misael Duarte Pimenta Neto, pediu o arquivamento do caso, sob a justificativa de que o soldado agiu no cumprimento da lei e sem intenção de matar. No mesmo dia em que recebeu o processo de 960 páginas, o juiz militar José Carlos Dalaqua absolveu o PM.
Foi com base nessa decisão que o soldado Sant’Ana conseguiu um habeas corpus no Tribunal de Justiça do Paraná para trancar a ação penal movida pelo Ministério Público na Justiça comum. “Na prática, os desembargadores assumiram como válida a decisão da Justiça Militar, na qual o processo já havia sido arquivado”, afirma a advogada Renata Lira, da Justiça Global. “Mas basta ler o processo redigido pelo promotor militar para ver como era enviesado. Ele chama o MST de ‘milícia à margem da lei, da moral e da razão’.”
Mais do que garantir uma investigação criteriosa e punir os responsáveis pela morte do lavrador, as organizações que levaram o caso à OEA esperam que a Corte Interamericana obrigue o Brasil a acabar de vez com os julgamentos de crimes contra civis nas cortes militares. “Se o País for condenado, o que era uma recomendação passa a ser uma obrigação. E se não cumpri-la, pode sofrer sanções dos Estados membros da OEA”, diz Lira.
Até 1996, todos os crimes cometidos por policiais militares no exercício de suas funções eram investigados e julgados por cortes militares. Com a aprovação da Lei nº 9.299, de 1996, proposta pelo advogado Hélio Bicudo, a regra mudou: os homicídios passaram para a esfera da Justiça comum, mesmo que tenham acontecido durante operações policiais. Nas Forças Armadas, a regra é diferente: todos os crimes praticados em operações militares são julgados por uma corte fardada.
“É compreensível que a regra seja diferente para os policiais, porque eles não ficam dentro dos quartéis. Seu trabalho é na rua e as consequências dos seus crimes vão muito além da caserna”, comenta a socióloga Cristina Neme, pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP). “Com essa alteração na lei, ao menos os casos de homicídio deveriam seguir um trâmite independente na Justiça comum. Mas não é raro encontrar exemplos de policiais que conseguem interferir na investigação, alterando a cena do crime ou removendo o corpo das vítimas para despistar a perícia, com a justificativa de prestar socorro.”
Para Hélio Bicudo, que já presidiu a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, todos os crimes praticados por militares deveriam ser julgados pela Justiça comum. “A manutenção de uma corte especial, com esse perfil corporativista, é incompatível com a democracia”, afirma. “Quando propus a alteração na lei, era para abarcar todos os crimes cometido pelos militares. Mas não foi possível.”
Para o advogado, o 3º Plano Nacional de Direitos Humanos, sancionado por decreto presidencial no fim de 2009, poderia avançar mais nessa questão. “Os planos anteriores sugeriam restrições à competência da Justiça Militar. Mas no atual eu não encontrei nenhuma diretriz nesse sentido”, lamenta Bicudo. “O mais preocupante é que o governo federal já atribuiu poder de polícia ao Exército, e agora está encaminhando um projeto para o Congresso para estender esse poder à Marinha e à Aeronáutica. Mas e os crimes que, por ventura, os militares vierem a cometer no exercício das novas atividades policiais?”
De acordo com os ministros da Justiça, Tarso Genro, e da Defesa, Nelson Jobim, as Forças Armadas só deverão atuar em áreas fronteiriças, onde as autoridades policiais não têm pleno controle do território. Fora desse cenário, os militares só seriam convocados em casos excepcionais e a pedido do presidente da República, como aconteceu nas ocupações de favelas cariocas para pacificar guerras do tráfico. Os eventuais crimes praticados pelos militares durante essas operações continuam sob a esfera da Justiça Militar, exceto se eles praticarem um crime comum e fora das suas obrigações de trabalho.
“Se o sujeito está numa operação subsidiária, por exemplo, de patrulhamento da Força Aérea e autoriza-se a legislação de abate, estaria sujeito à Justiça Militar porque se trata de ação militar”, afirmou Jobim, durante uma palestra no fim de 2009. “Agora, se um soldado numa operação militar pratica um crime comum, ele vai responder à Justiça comum.”
A explicação não satisfaz boa parte das entidades de defesa dos direitos humanos. “Se um policial militar ou um soldado do Exército praticam um crime no cumprimento de uma operação qualquer, como a reintegração de posse de uma fazenda, ele deveria enfrentar a Justiça comum, porque a lei deve ser a mesma para todos”, afirma Darci Frigo, da ONG Terras de Direitos. “No fundo, os abusos e a impunidade que vemos no campo não são muito diferentes do que ocorre nos centros urbanos, onde sempre vemos denúncias de execuções sumárias envolvendo PMs. É preciso acabar com esse manto corporativista que protege criminosos. E espero que o julgamento da morte de Antonio Tavares possa contribuir para esse debate no Brasil.”

Carta Capital

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Uso e abuso dos professores

Gabriel Perissé

Li na Folha de S. Paulo, no dia 23 de janeiro de 2010, matéria assim intitulada: "SP admite ter de usar professor reprovado".

O verbo "usar" entra pelos olhos, assalta as mentes, espanca o coração, cai torto no estômago e nos faz mal.

O verbo "usar", bem conhecemos. Eu, você, todos nós usamos o verbo "usar". Usamos e abusamos. Faço uso desse verbo porque muitas coisas eu aprendi a usar.

Uso roupa, uso computador, uso escada para subir, uso papel para escrever, uso dinheiro para comprar, uso carro para me transportar, uso de tudo que é lícito para viver humanamente.

Usar não é errado quando uso e manipulo o que é usável e manipulável: objetos a meu dispor, simples ou complexos, caros ou baratos, de qualidade ou vagabundos.

Mas usar pessoas, isso não; isso é demais da conta. Usar pessoas, jamais! Usar alguém para escalar. Usar alguém para ganhar. Usar alguém para gozar. Usar alguém para vencer. Usar alguém é coisa que ninguém deveria fazer. Usar alguém não é do bem. Usar alguém faz mal, e faz mal aos dois: a quem é usado, e também àquele que usa!

Dirão, talvez, que entendi mal. Que o título da matéria não tem maldade. Que "usar" é assim mesmo, usamos sem pensar. Que temos aí um modo de escrever inofensivo. Que estou exagerando a força da palavra. Que estou usando mal a minha capacidade de ler o jornal. Que estou vendo coisas.

Contudo, lá está, a matéria diz: os professores reprovados serão usados. Usados, concluo, porque foram reprovados. E foram reprovados porque sempre foram usados. Porque têm sido objeto de uso e abuso.

O professor fez a prova e foi reprovado. O que será que essa prova provará? Será essa prova eliminatória ou "humilhatória"? O governo de São Paulo garante que o professor, mesmo reprovado, será usado. E ele, o professor, que já se habituou a ser usado faz tanto tempo, voltará a ser temporário. Por quanto tempo?

Usado e mal pago, de manhã, à tarde e à noite, o professor se sente manipulado como uma coisa. Sem aplauso, excluso, mero parafuso, o professor aceita ser usado.

E aqueles que, useiros e vezeiros em usar os professores, humilham o docente, provam, na verdade, que não sabem servir a sociedade. E se não vivem para servir, para que servem?

Gabriel Perissé é Doutor em Educação pela USP e escritor.

Correio da Cidadania

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Os Estados Unidos e a Conquista do Oeste

Na passagem do século XVIII para o XIX, os Estados Unidos recém-independentes, ainda formavam um pequeno país, que se estendia verticalmente entre o Maine e a Flórida e horizontalmente entre a costa do Atlântico e o Mississipi.

O primeiro momento do processo de independência dos Estados Unidos, havia se iniciado efetivamente com a mobilização das 13 colônias, frente o fortalecimento fiscal estabelecido pela metrópole com o término da Guerra dos 7 Anos em 1763.
Após o episódio do "Boston Tea Party", a Inglaterra recrudesceu ainda mais sua relação com as colônias, através das Leis Intoleráveis, o que provocou uma maior mobilização dos colonos através da convocação do Primeiro e Segundo Congresso da Filadélfia. Esse último, contando com a participação de Benjamim Franklin e Thomas Jefferson, elaborou e proclamou a Declaração de Independência dos Estados Unidos (4 de julho de 1776), que por ter sido a primeira independência na América, exercerá forte influência nos demais movimentos de emancipação política do continente, no contexto da crise do Antigo Sistema Colonial.

ANTECEDENTES: LEIS, PARTIDOS E PRINCÍPIOS
Antes mesmo da independência os colonos americanos já cobiçavam as terras do Oeste, impedidas de serem colonizadas pela Lei do Quebec (parte das Leis Intoleráveis, 1774), que proibia a ocupação de terras pelos colonos entre os montes Apalaches e o Mississipi. Apesar de pressões como essa, a expansão para o Oeste ganhou força após a independência, sendo alimentada ideologicamente pelo "Destino Manifesto", princípio que defendia a idéia de que os colonos norte-americanos de origem calvinista estariam na América por predestinação divina, com a missão civilizatória de ocupar os territórios situados entre os oceanos Atlântico e Pacífico.
A Lei Noroeste de 1787 já visava consolidar o futuro expansionismo, ao estabelecer que as terras ocupadas que atingissem 60 mil habitantes formariam um novo território que seria incorporado à União como Estado. Nesse mesmo ano foi sancionada a constituição federal, até hoje em vigor que formalizou a política da nova nação através de uma República Presidencialista Federalista.
O primeiro presidente eleito após a carta de 1787 foi George Washington (1789-97), que enfrentou as primeiras dificuldades na política interna, em razão da interpretação dada à constituição.
Os grupos políticos iam se definindo em organizações partidárias, originando a formação dos partidos Federalista e Republicano Democrático. O primeiro, liderado por Alexander Hamilton no governo de John Adams (1797-1801) apoiava-se mais nos interesses dos grandes comerciantes do norte, enquanto que o segundo, que chegou ao poder com Thomas Jefferson (1801-09), estava mais ligado aos pequenos proprietários rurais e aos cidadãos dos Estados menores. O Partido Federalista defendia um poder central mais forte, enquanto que o Partido Republicano Democrático era favorável a uma maior autonomia para os Estados.
Ao eleger os dois presidentes seguintes - James Madison (1809-17) e James Monroe (1817-25) — o Partido Republicano Democrático dava um novo impulso ao expansionismo com a conhecida Doutrina Monroe ("América para os americanos"), que defendia as independências na América Latina, frente ao caráter recolonizador europeu do Congresso de Viena. Contudo, conforme os interesses territoriais dos Estados Unidos foram ampliando-se, a Doutrina Monroe seria mais bem definida pela frase "América para os norte-americanos", caracterizando objetivos já inseridos na esfera do imperialismo.
Entre 1829 e 1837 o governo de Andrew Jackson iniciou uma nova orientação político-partidártia, representada pelo Partido Democrático, que estava ligado aos interesses dos latifundiários do Oeste e do operariado do norte. Conhecida na história como "era Jackson", essa fase, foi marcada por perseguições e expurgos de elementos que pertenciam a governos anteriores, processo que ficou conhecido como "sistema de despojos" (Spoil Sistem).
Com um crescimento demográfico fulminante — 4 milhões de habitantes em 1801, para 32 milhões em 1860 — associado às constantes correntes de imigrantes, à construção de uma vasta rede ferroviária à descoberta de ouro na Califórnia em 1848, a expansão em direção ao Oeste tornava-se cada vez mais inevitável.

A EXPANSÃO
O expansionismo pode ser dividido em três frentes: negociação, Guerra do México e anexação de terras indígenas.
A ação diplomática dos Estados Unidos foi marcada por um grande êxito já no início do século XIX, quando Napoleão Bonaparte em 1803 debilitado pelas guerras na Europa, vendeu a Lousiana (um imenso território onde foram formados 13 novos Estados) por 15 milhões de dólares. Em seguida (1819), a Espanha vendia a Flórida por apenas 5 milhões de dólares. Destaca-se ainda a incorporação do Oregon, cedido pela Inglaterra em 1846 e do Alasca, comprado da Rússia por 7 milhões de dólares em 1867, dois anos após o término da Guerra de Secessão.
Em 1821 os norte-americanos passaram a colonizar parte do México com aval do próprio governo mexicano, que em troca, exigiu adoção do catolicismo nas áreas ocupadas. As dificuldades para consolidação de um Estado Nacional no México, marcadas por constantes conflitos internos e ditaduras, acabaram criando condições mais favoráveis ainda para a expansão dos Estados Unidos. Foi nessa conjuntura, que em 1845, colonos norte-americanos proclamaram a independência do Texas em relação ao México, incorporando-o aos Estados Unidos. Iniciava-se a Guerra do México (1845-48), na qual a ex-colônia espanhola perdia definitivamente para os Estados Unidos as regiões do Texas, além das do Novo México, Califórnia, Utah, Arizona, Nevada e parte do Colorado. Em apenas três anos cerca de metade do México incorporava-se aos Estados Unidos.
Destaca-se ainda, a anexação de terras indígenas, através de um verdadeiro genocídio físico e cultural dos nativos, o que ficava evidenciado na visão que alguns colonos difundiam durante o expansionismo, de que "o único índio bom é um índio morto", afirmação essa, atribuída ao general Armstrong Custer, considerado um dos maiores matadores de índios nesse contexto.
A configuração geográfica atual dos Estados Unidos seria concluída apenas em 1912, com a incorporação do Arizona.

CONSEQUÊNCIAS DA EXPANSÃO
Durante o movimento expansionista dos Estados Unidos, o avanço econômico era notado no país de forma bem diferente. Enquanto o norte assistia o crescimento do comércio e principalmente de uma indústria cada vez mais sólida, o sul permanecia agrícola, e as novas terras do oeste eram marcadas pela pecuária e mineração. Ao longo da primeira metade do século XIX essas divergências entre o norte (industrial e abolicionista) e o sul (rural e escravista), serão agravadas, já que ambos tentarão impor seus respectivos modelos sócio-econômicas sobre os novos Estados incorporados.
Uma poderosa burguesia industrial e comercial, juntamente com um crescente operariado fabril marcava o desenvolvimento da sociedade nortista, antagonizando-a com a sulista, que permanecia estagnada e dominada por uma aristocracia rural escravista vinculada ao latifúndio agro-exportador. Nas novas terras do Centro-Oeste nascia uma sociedade organizada a partir dos pioneiros com base na agricultura e na pecuária.
Os Estados Unidos formavam um único país, mas esse país pensava, trabalhava e vivia diferente, abrigando na realidade duas nações: o Norte-Nordeste de um lado e o Sul-Sudeste de outro.
A manutenção da escravidão no sul e o aumento da rivalidade social e econômica durante a conquista do Oeste, associado a outros elementos também conflitantes, como a questão das tarifas alfandegárias e o crescimento do novo Partido Republicano, criam condições historicamente favoráveis para aquela que é considerada a maior guerra civil na história do século XIX: a Guerra de Secessão.

Fonte: História Net - http://www.historianet.com.br

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O inferno na terra

Quando forças vulcânicas abrem seu caminho à força e irrompem na superfície, temos uma noção dos dramáticos processos que se desenrolam nas profundezas da Terra. A crosta sobre a qual vivemos é muito fina. A turbulência incendiária no subsolo marca a vida terrestre: rios de lava incandescente empurram continentes e erguem montanhas; ela faz a terra tremer, supervulcões explodirem e tsunamis devastadoras.

ILHAS KURILAS

Erupções vulcânicas são acontecimentos que ocasionalmente podem ter proporções planetárias. As nuvens de partículas já provocaram, diversas vezes, pioras climáticas e interferiram na História da Humanidade. Essa erupção, do Monte Sarytschew, no extremo norte da Rússia, foi fotografada por um astronauta da Estação Espacial Internacional, no dia 12 de junho de 2009. A falha na camada de nuvens deve-se à gigantesca onda de pressão gerada pela explosão. A capa branca da coluna de fumaça é formada por vapor d’água, que, à grande altitude, se condensou

HAVAÍ

O vulcão Kilauea tem fama de ser pacífico. A lava basáltica, que brota de um hotspot (ponto quente, na Geologia), no leito do Oceano Pacífico, é pouco densa e pobre em gases. Há décadas ela borbulha até a superfície terrestre, para depois escorrer pelos suaves flancos ondulantes da montanha, até o mar. Quando ocorre uma rara erupção violenta, como em 2008, o magma fluido espirra no ar, formando guirlandas de fogo

KAMCHATKA

A península, no Leste da Rússia, é uma das zonas vulcânicas mais ativas da Tterra. A Reserva Natural de Kronotsky abriga um território geotérmico com 90 gêiseres, cujos jatos de água sobem até 40 metros de altura. A área é pontilhada por centenas de nascentes quentes, bacias de lama fervilhante e fraturas à céu aberto, que expelem as chamadas fumarolas. A região é dominada pelo monte Klyuchevskaya Sopka que, com 4.750 metros, é o vulcão ativo mais alto da Eurásia

MONTE ETNA

Uma erupção parece ameaçar a metrópole de Ccatania, na Sicília. Mas aqui se trata apenas da explosão de uma cratera lateral, no flanco Sul do Monte Etna. Ao contrário do Vesúvio, o vulcão adormecido, em Nápoles, Itália, considerado um assassino em potencial, a contínua atividade do Etna e a consistência de sua lava, impedem a formação de uma pressão excessiva, que se libertaria em uma explosão devastadora

Crosta:. …………………até 40 km de profundidade
Manto Superior:. …de 40 a 650 km
Manto:. …………………de 650 a 2.890 km
Núcleo Externo:. ….de 2.890 a 5.150 km
Núcleo Interno:. …..de 5.150 a 6.348 km
Dados em quilômetros, de fora para dentro

DEBAIXO DE UMA CROSTA FINA

A constituição da Terra faz desse planeta um corpo celeste muito especial, e provoca uma variedade de fenômenos geológicos. São eles que conferem ao nosso globo a sua típica topografia. Correntes quentes movem as placas da crosta terrestre. Elas criaram a atual distribuição de continentes e mares, e garantiram que não viveríamos em desertos planos. Os processos nas profundezas ocasionam a erupção de vulcões e os terremotos, mas eles também protegem nossa existência. O núcleo interno metálico da Terra gera um campo magnético, que desvia radiações mortíferas vindas do espaço sideral

A COLISÃO ou o afastamento de duas placas tectônicas é desencadeado por tremendas forças internas da Tterra. Por isso, onde elas são limítrofes (veja ilustração à esquerda) ocorrem terremotos relativamente frequentes. Quando uma placa desliza embaixo de outra (A abaixo: aqui, na costa oeste da América do Sul), o violento atrito levanta montanhas, ou cria vulcões. Quando duas placas continentais se chocam também surgem montanhas como os Alpes ou a Ccordilheira do Himalaia.

A TERRA é coberta por uma crosta de 10 a 65 km de espessura. Mas em comparação com os 12.750 km de diâmetro do planeta, ela é finíssima (a ilustração à direita demonstra isso, claramente). Juntamente com a camada superior do manto terrestre, a crosta forma as placas tectônicas: 13 fragmentos grandes e diversos menores, nas quais se divide a superfície terrestre (veja acima). Algumas dessas placas, como a de Nazca, são formadas apenas pela pesada crosta oceânica, além do manto superior. Outras, como a Sul-Americana, contêm componentes mais leves: os continentes (veja página 49). Todas as placas são arrastadas pelas correntezas do superaquecido manto terrestre e se deslocam constantemente na superfície de nosso planeta. Em algumas regiões, as placas nascem porque um novo material brota do interior da Terra entre dois fragmentos (veja página 82). Em outros lugares, elas morrem por que colidem, e uma placa desliza para baixo de outra

VULCÕES nascem onde rochas ígneas e liquefeitas das profundezas forçam seu caminho até a superfície. Esse processo pode ocorrer de três maneiras. Duas placas da crosta colidem, uma desliza para baixo de outra (A) exemplo, a Cordilheira dos Andes). Ou, duas placas se afastam e o magma quente surge do meio delas (B: Dorsal Mesoatlântica). Ou ainda, vulcões perfuram a crosta terrestre em lugares chamados hotspots (pontos quentes); através deles sobem fluxos extremamente quentes, vindos do manto, chamados plumas mânticas (C: Ilhas de Cabo Verde)

O MANTO TERRESTRE é praticamente incandescente, devido ao calor armazenado desde os primórdios da Terra e às decomposições radioativas. As diferenças de temperaturas desencadeiam fluxos de material derretido (D), o mesmo "motor" que aciona a movimentação das placas tectônicas

O NÚCLEO TERRESTRE é constituído por duas camadas: a externa, formada predominantemente por ferro derretido, é líquida e tem uma temperatura de mais de 3.500º C - e a interna, que contém 94% de ferro, além de um pouco de níquel. Mas, devido à colossal pressão, e apesar de uma temperatura de mais de 6.000º C, esse núcleo interno é sólido. Correntes quentes na parte externa do núcleo terrestre geram o campo magnético da Terra

1 Placa Eurasiana
2 Placa Australiana
3 Placa da Antártica
4 Placa do Pacífico
5 Placa Sul-Americana
6 Placa Norte-Americana
7 Placa Africana
8 Placa Ccaribenha
9 Placa das Filipinas
10 Placa de Nazca
11 Placa Arábica
12 Placa de Ccocos
13 Placa Índica

Fonte: Revista GEOUol - http://revistageo.uol.com.br/

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Meio Obama

Nome central da ficção dos EUA, Russell Banks diz que, um ano após ser eleito, presidente obteve trunfos no plano interno, mas prosseguiu a política de George W. Bush na área externa .

"Quem esperava que Obama se revelasse um progressista determinado deve estar decepcionado".

"Como muitas crianças carentes criadas sem a presença paterna, Obama confia demais na autoridade dos ricos".

GILLES ANQUETIL
FRANÇOIS ARMANET

Russell Banks é um dos mais importantes romancistas norte-americanos da atualidade. Várias obras suas já foram transpostas para o cinema, como "O Doce Amanhã" e "Temporada de Caça" -por, respectivamente, Atom Egoyan e Paul Schrader. Figura de destaque entre os progressistas dos EUA e um dos primeiros a apoiar a candidatura de Obama, Banks faz, no entanto, um balanço duro dos 12 primeiros meses do governo do democrata.
Para ele, no plano externo Obama praticamente não se distancia do governo de seu antecessor, George W. Bush. É apenas nos assuntos internos que Obama se afirma de forma mais clara -embora, segundo ele, ainda aqui de modo um pouco decepcionante.

PERGUNTA - Quais são os êxitos e os fracassos do governo Obama?
RUSSELL BANKS -
Deixemos de lado sua personalidade e sua habilidade retórica. No Iraque e no Afeganistão, nada mudou. Paquistão, Iêmen, Irã, Coreia do Norte? Menos discursos belicosos e moralizadores, mas, no fim das contas, é a mesma coisa de sempre. O conflito israelo-árabe? Cuba? Venezuela? Rússia? China? Até mesmo nas nossas relações com a "velha Europa" -e apesar de uma mudança bem-vinda no tom e na escolha das palavras usadas-, a continuidade entre George W. Bush e Obama é tão manifesta como se tivesse sido John McCain [candidato republicano derrotado] quem tivesse prestado juramento, 12 meses atrás. As mudanças são superficiais, linguísticas, estilísticas e protocolares.
Em outras palavras, são puramente táticas. A estratégia global de longo prazo permanece a mesma. Na política interna, em contrapartida, a diferença entre as Presidências Bush e Obama é perceptível. Nos últimos 25 anos, de Ronald Reagan a Bill Clinton, incluindo os dois, todos os presidentes americanos e seus partidários se esforçaram para desmantelar e privatizar as políticas sociais implantadas por Roosevelt durante a Grande Depressão e, depois, por Lyndon Johnson e Richard Nixon nos anos 1960 e 1970. Sob esse ponto de vista, o centro da vida política americana deslocou-se progressivamente para a direita ao longo dos últimos 40 anos.
E, em um sistema de dois partidos, como o nosso, é o centro que é determinante, especialmente em matéria de política interna e econômica. Ao reagir diante da crise econômica, Obama soube fazer esse centro mover-se alguns graus para a esquerda.
Nesse caso específico, as palavras empregadas, o estilo e o tom contribuíram para fazer aplicar uma política que não é a de seus predecessores. A população dos EUA está voltando a pensar que, em uma sociedade industrial moderna, é correto e necessário que sejam subvencionadas as necessidades dos pobres, dos sem-teto, dos doentes e dos idosos. Em outras palavras, Obama fez a opinião pública evoluir em matéria de política interna.

PERGUNTA - É legítimo ou injusto decepcionar-se com Obama após um ano de mandato? O sr. ainda confia nele?
BANKS -
Um ano é um quarto do mandato de um presidente americano. É o suficiente para ter uma ideia do estado de espírito, das intenções e da competência de um presidente. Quem esperava que Obama se revelasse um progressista determinado a pôr fim a um século de imperialismo americano fora de nossas fronteiras e a construir uma social-democracia moderna entre nós deve estar profundamente decepcionado, porque não é isso o que vai acontecer.
Mas é impossível ter esse tipo de expectativa quando se sabe como funciona o sistema político americano. Quando sabemos, por exemplo, que o senador conservador de um pequeno Estado agrícola como o Nebraska tem tanto poder, e às vezes até mais, que seu homólogo progressista de Nova York e que ele pode usar desse poder para bloquear um projeto de lei reformista. Quando sabemos, por exemplo, que as grandes empresas e os grandes doadores financiam as campanhas eleitorais de todos os parlamentares, dos governadores de Estados, de prefeitos e outros eleitos e até mesmo, em alguns Estados, dos juízes e procuradores.
Não somos uma democracia. Somos uma República que se esforça há um século para tornar-se uma plutocracia e que está a caminho de consegui-lo. Por razões estruturais, e mesmo quando tem a intenção, Obama não tem chance nenhuma de satisfazer as expectativas que suscitou entre as esquerdas americana e europeia. Para sermos honestos, ele não mentiu -muito- para nós nem fez promessas que não poderia cumprir, salvo, talvez, a de fechar Guantánamo em 12 meses. Ouvimos promessas que não existiam.
Isso talvez seja compreensível: após oito anos de Presidência Bush, estávamos na situação de um homem ou de uma mulher presos em um casamento desastroso: mesmo que ela não pareça nada de especial, a primeira aventura extraconjugal que se apresenta nos parece irresistivelmente sexy.

PERGUNTA - O Partido Democrata é leal a Obama?
BANKS -
Em um sistema bipartidário como o nosso, os dois grandes partidos são coalizões -uma coalizão da esquerda e uma coalizão da direita que se entrecruzam e se sobrepõem no centro. Após a Guerra do Vietnã, as revoluções culturais dos anos 1960 e 1970 e o surgimento do fundamentalismo religioso na vida política do país, esse centro se deslocou para a direita. Os oito anos em que os "novos democratas" de Bill Clinton estiveram no comando não mudaram nada. Pelo contrário.
Por isso, a coalizão que chamamos de Partido Democrata e da qual Obama é o líder não oficial exprime muito melhor os pontos de vista de conservadores como os senadores Joseph Lieberman (Connecticut) ou Ben Nelson (Nebraska) que os de progressistas como os senadores Bernie Sanders (Vermont) ou Dianne Feinstein (Califórnia). Os EUA não são uma democracia parlamentar na qual o chefe do partido que ganha as eleições de torna o chefe da nação. É o contrário. O chefe da nação se torna chefe de seu partido, mas isso não quer dizer que ele controle ou representa os interesses do partido.
Gostamos de acreditar que o presidente encarna os interesses e a vontade do povo, da totalidade do povo e que, como tal, ele se coloca acima dos interesses dos partidos. Por isso, é inútil queixar-se da hesitação de uma grande maioria democrata no Congresso em unir-se sob a autoridade de um presidente democrata. Não foram os 60 senadores que o elegeram presidente, foram os norte-americanos que o fizeram.
E ele só foi eleito porque soube captar as vozes dessa maioria que se define como independente e afirma não pertencer a nenhum partido. Mas não há independentes no Congresso.

PERGUNTA - Obama está ligado demais às potências financeiras? Será que conseguirá de fato reformar profundamente o sistema que causou a crise?
BANKS -
Na véspera de sua posse, quando ele nos apresentou os homens e as mulheres que recrutou para impedir que a grande recessão se convertesse em uma grande depressão, ficou claro que as pessoas que Obama considerava como as mais qualificadas para fazer a economia americana funcionar eram as mesmas que a tinham posto de joelhos: Timothy Geithner, Lawrence Summers, Peter Orszag, Ben Bernanke e todos os outros. Todos vêm de Wall Street ou do alto mundo financeiro de Washington.
Não há entre eles nenhum que represente de algum modo os interesses dos operários, dos pequenos proprietários, dos pobres ou mesmo da classe média. Não há nenhum líder sindical, nenhum militante associativo; não há intelectuais ou acadêmicos independentes. Um ano mais tarde, a situação melhorou, principalmente para Wall Street e os balancetes dos grandes bancos e instituições financeiras. Para a maioria dos americanos, porém, a situação piorou.
Segundo o "New York Times", uma família em cada oito tenta sobreviver sem fonte de receita nem meios para comprar alimentos, exceto os cupons alimentícios financiados pelo governo federal. O índice de desemprego oficialmente contabilizado passa dos 10% da população ativa e aumenta constantemente. Os bancos puderam engordar graças ao dinheiro dos contribuintes, porém os sem-teto proliferam como metástases.
Mas os mercados estão em alta, chegando a um nível próximo ao de antes da crise, e os bônus e as opções de ações pagos a banqueiros e corretores de ações não são menos obscenos do que eram um ano atrás. Como muitas crianças carentes criadas sem a presença paterna, Obama é um homem que confia demais na autoridade dos ricos, quando o assunto é economia e gestão das finanças.

PERGUNTA - Os EUA vêm hesitando em honrar suas promessas em matéria de ecologia e da luta contra o aquecimento climático. Obama será mais ousado que seu predecessor?
BANKS -
Ele é incontestavelmente mais dinâmico e mais audacioso que Bush, mas isso não é muito difícil. Basta ele comparecer a uma cúpula internacional ou enviar um representante que não insulte os outros participantes. Foi o que ele fez, aliás. Mas também, nesse quesito, ele parece estar mais disposto a seguir os americanos do que a lhes mostrar o caminho. Em razão da angústia provocada pela crise econômica, a maioria dos americanos não se preocupa com o desastre ecológico iminente, exceto à medida que afete seu cotidiano.
Em épocas de crise, o planejamento de longo prazo é eclipsado pelas necessidades do curto prazo: alimentação, abrigo, atendimento médico, emprego. É um pouco como se uma onda gigante estivesse ganhando força perto do litoral e vindo em nossa direção, enquanto nós nos acotovelamos para garantir um lugar na fila da agência de empregos. O ano que vem não existe para os pobres: as esperanças deles se limitam ao dia seguinte.
Para que a população pudesse conceder a Obama o poder de agir de modo voluntarista e inovador diante da crise ecológica, seria preciso que desse provas de imaginação para resolver a crise financeira atual. Coisa que ele não faz.

PERGUNTA - Os EUA de Obama se tornaram mais respiráveis?
BANKS -
Sim, desde que você não inspire muito profundamente. Apesar das críticas e das reservas que apresentei, é muito mais agradável ouvir Obama do que ouvir Bush, se você dá valor às palavras. E, se por acaso você prefere ter um presidente moderno, plugado na internet e elegante, se você prefere que ele tenha senso de humor, seja espirituoso e nutra um respeito sadio pela arte e a cultura, se você prefere que ele tenha lido alguns livros de história e filosofia e que se recorde de suas leituras, então, sim, os EUA hoje são um lugar culturalmente mais agradável do que foram nos oito anos anteriores.
Se você deseja que o presidente reflita a diversidade da população em suas próprias origens raciais e familiares, então é um alívio ter um presidente cujo pai é africano e cuja mãe veio do Kansas, um homem cuja mulher é descendente de escravos afro-americanos e cujas duas filhas pequenas são o retrato vivo das colegas de classe ideais que você desejaria para seus próprios filhos. Mas, se você inspirar mais fundo, os EUA de Obama não são mais respiráveis do que foram os EUA dos anos Bush.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo - http://www.uol.com.br

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Formigas doentes preferem ir morrer na solidão

Para os cientistas, abandono do formigueiro pouco antes da morte acontece para evitar que doenças se propaguem pela colônia.

RICARDO MIOTO

Quando sente que vai morrer, a formiga abandona o formigueiro. Passa os últimos momentos na solidão. Quase tão inesperado quanto o comportamento dos animais é o dos cientistas alemães responsáveis pela descoberta. O trabalho deles é passar o dia acompanhando um "Big Brother Formiga" e, depois, procurar explicar as atitudes dos animais.
O responsável pelo estudo é Jürgen Heinze, da Universidade de Regensburg (Alemanha), uma espécie de Pedro Bial do formigueiro. No caso das formigas moribundas solitárias, a explicação que ele propõe parte da ideia de que quase ninguém, na natureza, morre de velho.
Grandes grupos de seres idosos são uma anomalia histórica criada recentemente pelos humanos. Na vida selvagem, morre-se muito antes de envelhecer. Em geral, a razão é alguma doença, muitas delas transmissíveis. Imagine quantas vezes você já teria ficado à beira da morte se, como as formigas, não tivesse acesso à medicina.
A questão é que sociedades são o cenário perfeito para que doenças transmissíveis se espalhem. Como formigas são seres que vivem em complexas sociedades, afastar-se durante a doença é uma maneira muito eficiente de evitar que mais animais se contaminem no formigueiro. Em termos evolutivos, formigas que tinham esse comportamento beneficiavam a sobrevivência de toda a comunidade e, assim, de vários dos seus próprios genes.
Os cientistas não observaram as formigas doentes sendo atacadas por outras ou forçadas a abandonar os formigueiros. Elas simplesmente iam embora por "vontade" própria.
O trabalho foi feito com uma espécie em particular de formiga (a Temnothorax unifasciatus), mas os cientistas acreditam que encontrariam o mesmo altruísmo em outras espécies com a mesma estrutura de sociedade (leia mais ao lado), como abelhas ou vespas.

Espiadinha
Os cientistas retiraram os formigueiros de seus lugares de origem, no meio do mato, e os levaram para o laboratório. Eles foram delicadamente colocados em caixas de plástico, que facilitavam a observação de cada um dos animais.
"Foi algo bem fácil de fazer. Nós simplesmente sentamos em um microscópio e vemos o que está acontecendo. As colônias de T. unifasciatus [a espécie de formiga utilizada] são bastante pequenas, então, de poucos em poucos minutos, é possível rastrear o estado comportamental de todas as formigas", diz Heinze.
Foram vários os experimentos, que serão publicados na revista "Current Biology". Em um, os pesquisadores infectavam algumas formigas com fungos fatais e marcavam os animais destinados à morte com arame. Em outro, observavam formigas que morriam sozinhas, sem interferência humana. Em ambos os casos, os animais iam, salvo raras exceções, morrer no exílio.
Para Heinze, ainda há muito a pesquisar sobre as formigas, como o seu comportamento de acasalamento e os meios de resolução de conflitos, que podem acabar em lutas fatais.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo - http://www.uol.com.br

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Diferenças entre Leste e Oeste, 20 anos depois

PAULO HEBMÜLLER

Duas décadas após a queda do muro de Berlim, no dia 9 de novembro de 1989, Alemanha vive os traumas e conflitos de um doloroso processo de reunificação ainda não concluído

Construído a partir de 13 de agosto de 1961 como uma “parede de proteção antifascista”, o muro de Berlim dividiu mais do que uma cidade ou um país: foi o marco físico e visível que simbolizou a Guerra Fria travada entre as potências capitalistas do Ocidente, capitaneadas pelos Estados Unidos, e os regimes do chamado “socialismo real”, sob a órbita da União Soviética. Para além da barreira de concreto, arame farpado e torres de vigilância que se estendia por 155 quilômetros na cidade partida, o muro ergueu também separações de mentalidades, como ressalta a jornalista Anna Funder no livro Stasilândia (leia o texto ao lado).

A construção do muro de Berlim, nos anos 60: traços violentos e repressivos que constituíam o regime totalitário da RDA ainda se fazem presentes

A construção do muro de Berlim, nos anos 60: traços violentos e repressivos que constituíam o regime totalitário da RDA ainda se fazem presentes

O que terminaria em Berlim começou na verdade em Leipzig, com pequenas reuniões na Igreja Luterana de São Nicolau que acabaram se transformando em grandes manifestações por democracia. O “efeito dominó” que culminou com a queda do muro, que também simboliza o fim das ditaduras da Cortina de Ferro em todo o Leste Europeu, completa 20 anos nesta segunda, 9 de novembro.
O período da Wende (virada ou transição) é alvo de muitas análises que enfocam a história da extinta República Democrática Alemã (a RDA, que durou de 1949 a 1990) e a reunificação alemã, oficializada em 3 de outubro de 1990. Em artigo para a revista on-line Pandaemonium germanicum, do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, o professor Elcio Loureiro Cornelsen, da Universidade Federal de Minas Gerais, cita Jörg Magenau para dizer que “o annus mirabilis é um tema, mas com muitas facetas”. Na literatura alemã, há de um lado uma postura nostálgica ou apaziguadora, ressalta Cornelsen, enquanto de outro sobressai uma tendência crescente que ressalta os traços violentos e repressivos que constituíram o regime totalitário da RDA.

Visita – A experiência da Wende marcou profundamente quem a viveu. É o caso de Thomas Richter, que nasceu em 1973 perto de Dresden, na antiga RDA, e é atualmente professor visitante de Direito Internacional e Comparado na Faculdade de Direito da USP. Em 1984, quando ele tinha 11 anos, seus pais decidiram não ficar mais no país e abriram processo solicitando autorização para deixar a RDA. Foram mais de quatro anos de espera até que a licença fosse concedida. Durante esse período, houve várias tentativas, por parte do Ministério para a Segurança do Estado, a temida Stasi (do alemão Ministerium für Staatssicherheit), para que os Richter desistissem do intento. Como costumava acontecer, depois do aviso de que finalmente poderia partir, a família teve poucas horas para arrumar algumas coisas e pegar o trem para o lado ocidental. Foram viver com parentes nas proximidades de Nuremberg, sul da então República Federal da Alemanha (RFA).

Festa popular no dia da abertura das fronteiras

Festa popular no dia da abertura das fronteiras

Poucos meses depois, chegou a notícia da queda do muro em Berlim. “Não tínhamos televisão em casa, mas ninguém ficou sem saber que o muro estava aberto. Ninguém acreditou”, conta Richter, representante na USP do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD, na sigla em alemão). A “prova física” veio nos dias seguintes, quando amigos da família apareceram de carro para uma visita. “Eles diziam: ‘passamos por aqui só para cumprimentar e dizer que é verdade’”, lembra. Richter interpreta o sentimento de seus pais como de alívio pela chegada de um acontecimento esperado há tantos anos, mas não de entusiasmo. As visitas e o contato por telefone e cartas, a partir de então bastante facilitados, foram mantidos com os familiares que permaneceram vivendo no Leste – mas os pais de Richter nunca pensaram em morar lá novamente.
A sorte ajudou a família, acredita o professor, porque em 1988 as oportunidades de trabalho ainda eram maiores no lado ocidental. Ainda que estivessem na condição quase de refugiados, com poucos pertences e dinheiro, os Richter foram bem acolhidos e o pai obteve emprego em sua área, a engenharia química. A situação mudou bastante a partir do final de 1989. Quem chegou à RFA depois disso enfrentou muitos problemas para conseguir trabalho. “Arrumar emprego, dinheiro, comprar mesa e cadeiras, tudo isso são problemas que dá para resolver”, acredita o professor. “Os meus pais estavam felizes da vida por ter saído daquele inferno. Quem estava dentro sabia o que havia de perseguição psicológica. No Leste, pessoas que você não conhecia decidiam muitas coisas de sua vida.”

Para as novas gerações, o muro é só lembrança e história

Para as novas gerações, o muro é só lembrança e história

Perdas, não lucro – Para Thomas Richter, a percepção sobre a reunificação não mudou muito nos últimos 15 anos. Existe uma diferença fundamental em relação aos primeiros cinco, “quando ninguém sabia muito bem para onde iria tudo isso”, diz. Foi a época de reformar a Constituição, resolver problemas legais e reorganizar o aparelho estatal. De lá para cá, o processo ainda em fase de “digestão” é encabeçado principalmente pela reestruturação e unificação da economia. Um dos fatores que originam os problemas dessa fase, na avaliação do professor, é que o valor da economia do Leste foi superestimado. O governo pensava em vender as propriedades do Estado, as indústrias e outras empresas, para obter os fundos que financiariam a reunificação, o que poderia até gerar lucro. O que ocorreu de fato é que a situação econômica da RDA era tão precária que, em vez do ganho, vieram perdas.
Também não se fez uma estimativa realista dos custos, avalia Richter, porque em dezembro de 1990, apenas dois meses após a celebração do 3 de outubro, haveria eleições, e o governo do então chanceler Helmut Kohl “não queria manchar o processo alegre da reunificação com questões chatas”. “Mas as faturas chegaram logo depois”, considera.
A conta vem sendo paga desde então com acréscimos no imposto de renda de cidadãos e empresas do lado ocidental. A chamada “sobretaxa de solidariedade” gerou contrariedade e prevenções dos ocidentais contra os orientais. Entre as diferenças que ainda persistem está a dos níveis salariais entre os dois lados. No setor público, a paridade salarial foi praticamente alcançada nestes 20 anos, mas na iniciativa privada há um grande fosso a superar.
Nos anos 90, parte da população do Leste logo começou a ganhar dinheiro com novas atividades econômicas. Outra parte demorou um pouco mais para se adaptar à economia de mercado, mas um terceiro segmento – que tem seus integrantes ainda hoje – permaneceu com o sentimento de Ostalgie (uma junção de nostalgia com Ost, a palavra alemã para Leste). “Para quem se acostumou com o Estado durante décadas organizando toda a vida e da noite para o dia teve que conseguir o próprio pão de cada dia, realmente foi muito difícil”, avalia Richter.
No início pensava-se que reunificação estimularia o Leste e criaria “paisagens floridas”, como acentuava o discurso de Kohl. Algumas cidades, como Leipzig e Dresden, receberam mais investimentos e se tornaram vitrines do desenvolvimento sonhado, mas a precariedade do sistema e da infraestrutura não permitiu que isso ocorresse em muitos outros lugares. O resultado, ainda nos primeiros tempos da Wende, foi uma onda de exportações do Oeste para o Leste – e o êxodo maciço de jovens no sentido inverso.

Experiência física – É o que testemunha Ralph Buchenhorst, 50 anos, etnólogo e professor na Universidade Martin Luther, no Estado da Saxônia-Anhalt, território da antiga RDA. Buchenhorst estudava em Viena, na Áustria, quando o muro de Berlim caiu. “Eu via as coisas pela televisão e conversava com meus amigos por telefone. Para mim, como alemão do Oeste, era algo impactante, mas de uma maneira distante, enquanto para os alemães do Leste era uma experiência física e muito mais importante”, contou ao Jornal da USP, num espanhol aprendido em períodos de estudo em Buenos Aires, no intervalo de um recente seminário do qual participou em São Paulo.
A experiência pessoal mais significativa da era pós-muro foi entre 1994 e 1999, quando Buchenhorst viveu no Leste, trabalhando como professor adjunto na Universidade de Frankfurt (Oder), no Estado de Brandenburgo (não confundir com Frankfurt am Main, um dos grandes centros financeiros mundiais). Na época, grande parte dos estudantes era ou do Leste ou da Polônia (40% de cada lado, aproximadamente), mas a origem não era um tema a discutir, diz o professor. Entretanto, as grandes mudanças econômicas traziam conflitos, dificuldades e ressentimentos.
A cidade, na época da RDA, possuía uma enorme fábrica de chips para equipamentos eletrônicos, na qual trabalhavam cerca de 20 mil pessoas. A fábrica fechou e todos ficaram sem emprego. Muitos se foram. A população, que era de 87 mil habitantes no fim dos anos 80, caiu para 70 mil no início dos 2000. A projeção é de 58 mil para o ano que vem.
Para o etnólogo, passadas duas décadas, ainda não se pode dizer que terminaram as diferenças entre Leste e Oeste. Há relatos entre os orientais de pessoas que se sentiram enganadas, por exemplo, porque empresários do Oeste venderam carros usados a preços que jamais conseguiriam no seu lado, pois a população do Leste não estava informada sobre os valores.
“Há acusações de parte a parte. Os orientais dizem: ‘vocês não entendem o que nós sofremos’. Os outros respondem: ‘vocês não veem que agora temos que trabalhar para apoiar vocês e pagar por erros que vocês cometeram’. Essas críticas e fricções são naturais, normais”, acredita o professor. “O resultado positivo disso é que se cria uma cultura de discussão e de debate sobre esses problemas na Alemanha.”
Para Buchenhorst, o processo de reunificação já ultrapassou o cume da montanha e começa a descida rumo à normalidade, que vai levar pelo menos mais duas décadas. Entretanto, uma das realidades subestimadas, aponta, é “a transferência de traumas e de problemas de uma geração a outra”. Pais e avós que sofreram perseguições no Leste talvez não falem do assunto com seus filhos e netos, “mas mesmo assim transferem problemas e emoções a eles”, acredita.

Vigilância interna – Para os jovens que nasceram pouco antes ou depois da queda do muro, a sua existência é história, que pode ser estudada nos monumentos, livros, museus e arquivos. Os cidadãos da antiga RDA podem inclusive consultar documentos a seu respeito na Stasi. Entretanto, praticamente não há processos ou punições contra agentes ou torturadores da antiga polícia política.

A queda: diferenças econômicas persistem 20 anos após a reunificação

A queda: diferenças econômicas persistem 20 anos após a reunificação

Na rua Bernauer, em Berlim, existem pedaços do muro preservados. “Dá para imaginar como ele era, mas muito mais difícil para entender é a vigilância interna. É uma coisa abstrata”, define Thomas Richter. Para compreendê-la, diz, pode-se recorrer a analogias com regimes vigentes na atualidade, como o de Cuba e Coreia do Norte. Outra maneira é assistir a filmes que enfoquem o período. Richter não simpatiza com Adeus, Lênin, mas recomenda fortemente A vida dos outros, ambos exibidos nos cinemas brasileiros e disponíveis em DVD.
A persistência do “muro na cabeça”, diz o professor de Direito, é uma questão de geração. “Meus pais viviam com esse muro que marcava a vida deles, impedia a ida e a vinda, impedia a própria vontade. Para eles, sempre vai haver alguma coisa lá. Eu, que sou de uma geração intermediária, quando passo de um lado para outro fisicamente, penso no muro. Para os mais novos, é história, algo que eles têm que aprender”, considera.
Richter aponta a boa votação do Die Linke (“A Esquerda”) nas eleições alemãs de setembro como um sinal de integração das duas partes. “Foi a primeira vez que um partido oriental conseguiu sucesso na parte ocidental”, ressalta, “o que assustou muita gente”. A Esquerda foi constituída a partir da fusão entre social-democratas e outros grupos com o Partido do Socialismo Democrático, herdeiro do Partido Socialista Unitário (SED) da antiga RDA. “Nos próximos 15 anos vamos virar a página, até digerir tudo isso, principalmente nas questões econômicas. Espero que depois disso o processo não seja mais considerado digestão”, diz o professor.

Com o muro na cabeça

Os requintes de tortura psicológica praticados pela Stasi chegavam a invasões de residências por parte de agentes simplesmente para fazer pequenas alterações no mobiliário – trocar móveis ou quadros de lugar, por exemplo. Ao chegar em casa, o morador ficava intrigado, confuso, e com a repetição de episódios do gênero podia desenvolver sentimentos de pânico e paranoia.
Outra técnica era borrifar corredores ou carpetes da residência com radiação, para que o “suspeito”, ao sair, pudesse ser seguido em qualquer lugar com aparelhos como contadores Geiger. O procedimento era usado também para “carimbar” originais de livros ou documentos na casa de escritores ou lideranças dissidentes. Assim, se fosse armada uma rede para entrega dos papéis a contatos do outro lado da fronteira, o itinerário poderia ser rastreado e os colaboradores “subversivos”, identificados.
Casos como esses – além das prisões, torturas e perseguições do regime da Alemanha Oriental – estão descritos no livro Stasilândia, da jornalista australiana Anna Funder. Anna entrevistou agentes e vítimas da Stasi, coletando histórias trágicas contadas sob o pano de fundo do contexto histórico da criação e desabamento do regime. O livro foi publicado originalmente em 2002 e tem uma edição brasileira lançada pela Companhia das Letras em 2008. Os trechos a seguir, extraídos do volume, dão uma pequena amostra do kafkiano universo inventado pelo Ministério para a Segurança do Estado:
“Depois da queda do muro, a mídia alemã chamou a Alemanha Oriental de ‘o mais perfeito sistema de vigilância de todos os tempos’. No fim, a Stasi tinha mais de 97 mil funcionários, mais do que o suficiente para vigiar um país de 17 milhões de habitantes. Mas ela dispunha também de mais de 173 mil informantes entre a população. No Terceiro Reich de Hitler, estima-se que havia um agente da Gestapo para cada 2 mil cidadãos; na União Soviética de Stalin, um agente da KGB para cada 5830 pessoas. Na RDA havia um oficial da Stasi ou um informante para cada 63 pessoas. Se incluirmos aí os informantes de meio período, algumas estimativas chegam a situar essa proporção na casa de um informante para cada 6,5 cidadãos.”
“Em essência, a Stasi deveria ser ‘escudo e espada’ do Partido Comunista, o chamado Partido Socialista Unitário da Alemanha, ou SED (Sozialistische Einheitspartei Deutschlands). Mas sua função mais ampla era proteger do povo o Partido. A Stasi detinha, encarcerava e interrogava quem bem entendesse, inspecionava toda a correspondência do país em salas secretas, logo acima das agências do correio, e interceptava diariamente dezenas de milhares de telefonemas. Plantava escutas em quartos de hotel e espionava diplomatas. Tinha suas próprias universidades, seus hospitais, centros esportivos de elite e programas de treinamentos de terroristas para os líbios e os alemães ocidentais da Facção do Exército Vermelho” (mais conhecido como Grupo Baader-Meinhof). “Sem ela, e sem a ameaça dos tanques soviéticos a apoiá-la, o regime do SED não teria sobrevivido.”
“As pessoas aqui falam do Mauer im Kopf, do ‘muro na cabeça’. Sempre pensei que isso fosse uma forma abreviada de se referir ao modo como os próprios alemães ainda se definem como orientais e ocidentais. Agora, porém, vejo um sentido mais literal para a expressão. O muro e o que ele representava ainda existem. O muro persiste na cabeça dos homens da Stasi como algo que eles esperam que possa voltar algum dia, e como uma possibilidade apavorante na cabeça de suas vítimas.”

Jornal da USP

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Os altermundistas em busca de um espaço político

Jean-Pierre Langellier

O Fórum Social Mundial (FSM) reencontra seu berço. Para comemorar seus dez anos, decidiu voltar, pela primeira vez desde 2005, a Porto Alegre, a grande cidade do sul do Brasil que já o sediou por quatro vezes desde 2001. A primeira edição aconteceu ali pouco mais de um ano após o nascimento do movimento, em Seattle (Estados Unidos), em novembro de 1999, quando ocorreram violentas manifestações contra a globalização, durante uma conferência da Organização Mundial do Comércio.

Flávio Ilha/UOL

Participantes do Fórum Social Mundial, que teve início nesta segunda-feira (25), em Porto Alegre

Essa nona edição (não houve fórum em 2008) começou na segunda-feira (25) e terá duração de cinco dias. Como as anteriores, ela acontece na mesma semana que o Fórum Econômico Mundial de Davos, o grande encontro do capitalismo mundial, do qual o FSM se pretende o antípoda. Cerca de 20 mil militantes devem participar de centenas de encontros e debates, em Porto Alegre e em cinco pequenas cidades vizinhas.
Em dez anos, o movimento perdeu o fôlego, num universo capitalista em permanente adaptação, ainda que atingido por uma grave crise econômica, onde o slogan altermundista "Um outro mundo é possível" - um mundo mais justo, mais pacífico, mais solidário, que respeite mais o meio ambiente - ainda pertence à utopia. Então é hora de o FSM fazer um balanço realista e imaginar "uma nova agenda" para sua próxima edição, prevista para Dakar. É a tarefa estratégica que a cada manhã desta semana será incumbida aos 70 palestrantes convidados a Porto Alegre pelo Grupo de Reflexão e Apoio do Fórum.

Ao longo dos anos, as preocupações do FSM mudaram. Sem abandonar seus antigos cavalos de batalha - o comércio desigual, a dívida, a injustiça social - , o movimento adotou mais deles: o aquecimento global, o salvamento dos recursos naturais, os biocombustíveis, o acesso às fontes de energia, a segurança alimentar, a proteção dos povos autóctones…

"Nossas primeiras reuniões eram dominadas por todas as questões ligadas ao comércio e aos mercados," lembra um dos fundadores do Fórum, o sociólogo Cândido Grzybowksi, diretor-geral do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase). "Hoje, sabemos que o sistema industrial e seu produtivismo fazem parte do problema, e não da solução. A destruição do meio ambiente se inscreve em uma crise de civilização".

E a crise econômica? Cândido Grzybowski lamenta que os altermundistas não tenham aproveitado "essa ocasião histórica" para "ocupar o espaço político". "A crise validou nossos ataques contra as devastações do neoliberalismo. Ela mostrou que o sistema capitalista não funcionava. Nossas ideias progrediram, especialmente sobre a necessidade de uma crescente intervenção dos Estados. Mas estes se contentaram em evitar o pior. Eles não iniciaram verdadeiras mudanças estruturais".

Então, o quê fazer? "Devemos pensar com audácia", responde Cândido Grzybowski. "Imaginar novos sonhos, criar projetos, elaborar uma outra visão do mundo. Confiar em nossas capacidades de mudança, dar um sentido aos conflitos sociais, construir alternativas que reforcem a autonomia dos cidadãos e dos povos em relação aos governos". Os fóruns anuais, ele constata, pressionaram os hábitos políticos, especialmente entre a esquerda, "mas não muito mais que isso".

Em dez anos, a família altermundista foi mudando aos poucos de perfil. Prova disso são os resultados de uma pesquisa conduzida pelo Ibase junto aos participantes do encontro de 2009, em Belém, na Amazônia brasileira. Os adeptos do movimento continuam tendo um nível elevado de formação: 81% deles concluíram ou estão cursando alguma universidade. Sua desconfiança em relação às instituições continua sendo maciça, sendo que somente a Organização das Nações Unidas conta com alguma confiança, de 44% deles. Mas os militantes do FSM são cada vez mais jovens: 64% têm menos de 34 anos, e 34% têm menos de 24 anos.

"O movimento está em boas mãos", comemora Grzybowski. "Para a maioria desses jovens, que estão participando do Fórum pela primeira vez, é uma iniciação à política". Eles são cada vez menos engajados, no sentido tradicional do termo, sendo que 30% deles não militam em nenhuma organização política, religiosa ou cultural: "Eles têm uma visão muito ampla dos desafios de hoje em dia", conclui o sociólogo brasileiro, "e eles veem as lutas de forma muito universalista".

Tradução: Lana Lim

Le Monde

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Enlatados de inspiração

Aline Khoury

Ninguém pode se tornar sujeito sem antes virar mercadoria. Mas não basta ser qualquer mercadoria. É preciso ser comentada e desejada. Sob o olhar do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, nem a subjetividade resistiu ao domínio mercantil: ela passou a se resumir a uma lista de compras. Até mesmo um livro que critica esta lógica não consegue escapar dela própria, uma vez colocado na vitrine. A partir deste dilema e das inquietações de Bauman, os pesquisadores do grupo Direito, Justiça e Direitos Humanos do Núcleo de Estudos da Violência da USP organizaram o livro Vidas à venda, lançado pela Editora Terceira Margem.

Tendo como base a obra baumiana Vida para consumo, os dezessete autores tiveram liberdade para expressar suas interpretações pessoais. O resultado se mostra bem diverso não apenas no conteúdo, mas também nos formatos, que vão de poesia concreta e versos brancos a diálogos e crônicas fantasiosas. Mas por que justamente teóricos do Direito, conhecidos pela tecnicidade e hermetismo de seus entediantes compêndios, se aventurariam na literatura? A freqüência com que as temáticas artísticas penetravam seus debates fez com que o grupo experimentasse esta linguagem, que permite ainda um maior alcance de suas reflexões.

Em detalhes corriqueiros, no escritório, na escola, no quarto, devaneios surgem e logo se dispersam para dar lugar às tarefas cotidianas. Personagens comuns se apresentam como fortes e satisfeitos, se revelando aos poucos seres incompletos, incertos e inseguros. O leitor tem acesso à auto-análise destas figuras como um voyeur de seus desabafos mais íntimos.  Criaturas solitárias perseguindo objetivos vazios. Mais desconfortável ainda é perceber como é fácil se identificar com sua rotina patética e os truques que pregam em si mesmo para ocultá-la. Um trecho do primeiro poema parece resumir esta vida entre disfarces: “Mesmo tudo estando errado, ao mesmo tempo, tudo parece estar disposto em seu lugar”. Como a engrenagem continua em movimento, a vida é vista como normal, já que cada elemento parece cumprir sua função. E estas digressões a que se entregam alguns personagens podem ser exemplos das “revoluções nas entrelinhas da existência” em que acreditam os versos de abertura.

A liberdade dada a cada autor resulta também em textos com posições bastante particulares, naturalmente divergentes. Tons mais fortes de ateísmo (“Quem em nada mais crê, está maduro para este mundo”) estão ao lado dos que cogitam a crença como um modo de enfrentar o mesmo lugar (“E com a fé que Deus me deu, o mundo poder salvar” - ainda que melhor trégua acabe sendo encontrada na loucura). A proposta livre também permitiu que os desprazeres do Direito fossem poeticamente metralhados, como na crônica de um jovem delirando entre as pressões desta carreira à qual a sociedade atribui tanto valor (principalmente o de troca). Chavões do marxismo, aliás, aparecem a cada página - mas a opção pela forma literária distancia a abordagem do clichê. É também por meio de trocadilhos e paradoxos que é tratado o deslocamento do dinheiro de intermediador para objetivo final, tão recorrente nas críticas do filósofo alemão. Requintes finais em tais teorias denunciam o toque à la Direito, como o típico uso do latim.

Além da explicitada retomada de Bauman, outras pontes com a filosofia não poderiam deixar de acontecer. O sêmen expelido por um frustrado metropolitano, seu consolo para a solidão de uma rotina frenética, remete-se ao conjunto de obras de Bauman com analogia comum: Amor líquido, Vida líquida, Modernidade líquida, Medo Líquido, Tempos Líquidos, entre outros escritos na última década. A intensa divulgação de progresso, liberdade sem fronteiras e emancipação do século 21 são comparadas às imagens projetadas nas paredes da caverna do mito de Platão. A satisfação com estas meras sombras é retomada em outras passagens, ainda que indiretamente (“Talvez estejam sorrindo as cores e nós só percebamos o fosco”). O pessimismo de Nietzsche é outro elemento que percorre diversas linhas, em crônicas que misturam sinestesia, questionamentos, êxtases e suicídio (“escolhemos acreditar nas mentiras que somos e precisamos da fantasia rude de todos para conseguirmos enxergá-los e dimensionarmos a nós mesmos…”).

Na obra, fica nítido o amplo repertório teórico que precede a empreitada artística, de modo a não resumi-la à mera fruição estética. Tragados pelo universo consumista, os autores de Vidas à Venda se deixam vender. Uma aquisição valiosa.

Aline Khoury é estudante de jornalismo

Caros Amigos

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“A pobreza extrema do Haiti é uma construção histórica bi-centenária”

Segundo o historiador Mário Maestri, séculos de intervenção colonialista e imperialista sobre o país caribenho geraram a miséria que hoje potencializa os efeitos do terremoto do dia 12

Igor Ojeda

Se existe uma análise com a qual todos os meios de comunicação do mundo concordam em relação ao tremor de terra ocorrido no dia 12 no Haiti é a que diz que se o país fosse menos pobre, os efeitos do desastre seriam menores. As causas dessa pobreza, no entanto, muito raramente são explicadas. De acordo com o historiador Mário Maestri, professor do Programa de Pós Graduação em História da Universidade de Passo Fundo (UPF), do Rio Grande do Sul, o subdesenvolvimento haitiano tem suas raízes na extrema dependência em que a nação do Caribe foi permanentemente mantida pelas potências coloniais e imperialistas.

Nesta entrevista ao Brasil de Fato, Maestri analisa as causas estruturais da pobreza e do êxodo rural no Haiti – que, ao gerar moradias precárias nas cidades, também contribuiu para o agravamento das consequências do terremoto –, a responsabilidade da missão de paz da ONU comandada pelo Brasil, o envio de militares pelos EUA e os riscos do processo de reconstrução do país. “A reconstrução pode constituir balão de ensaio para uma gestão não-nacional de territórios por órgãos internacionais, não-estatais etc. As grandes catástrofes são os melhores momentos para o capital realizar reorganizações estruturais de populações e recursos”.

Brasil de Fato – A grande mídia, nacional e internacional, vem insistindo que a extrema

pobreza do Haiti fez agravar as consequências do terremoto. No entanto, a mesma imprensa não diz quais são as causas dessa pobreza. Por que o Haiti é o país de menor IDH do hemisfério ocidental?

Mário Maestri – A pobreza extrema do Haiti é uma construção histórica bi-centenária, produto da incessante intervenção colonialista e imperialista, em boa parte devido precisamente a ter sido o Haiti a primeira e única nação negreira onde os trabalhadores escravizados insurrecionados obtiveram a liberdade, em 1804. Isso após derrotar expedições militares francesas, inglesas e espanholas. Ao se transformar no segundo Estado americano a obter a independência, após os EUA, e o primeiro a abolir a escravidão, o Haiti passou a ser temido, pois poderia servir como exemplo para os cativos americanos. Foi objeto de bloqueio quase total, desde seus primeiros anos, pelas nações metropolitanas e americanas independentes. Já em 1825, foi obrigado a pagar, sob pena de agressão militar, pesadíssima indenização à França. Conheceu nas décadas seguintes intervenções militares dos EUA, que, mesmo após a desocupação, em 1934, transformaram o país em semi-colônia, sobretudo através das sinistras ditaduras dos Duvaliers, Papa-Doc e seu filho [entre 1957 e 1986].

Algumas análises indicam que a grande quantidade de haitianos vivendo em Porto Príncipe, em casas amontoadas nas favelas, foi um dos fatores que determinaram um alto número de vítimas do terremoto. Por que se chegou a essa situação de forte migração do campo para a cidade?

O regime histórico da propriedade da terra no Haiti foi a plantagem escravista. Com a revolução de 1804, houve importante divisão de latifúndios em lotes unifamiliares, que retomaram as tradições camponesas negro-africanas, ensejando independência alimentar. Isto não produzia excedentes mercantilizáveis. As intervenções imperialistas, com a colaboração das frágeis e corruptas elites negras e mulatas, desdobraram-se para metamorfosear a agricultura familiar-camponesa em mercantil. Levantes camponeses foram duramente reprimidos, para reconstituir a grande propriedade. A expropriação da terra e a reversão para produtos comerciais ensejou enorme migração urbana, nascida também da depredação do meio ambiente, com o desmatamento selvagem para a produção de carvão vegetal, com o aumento do seu uso como combustível doméstico, imposto pelo imperialismo. As enormes massas de miseráveis urbanos são vistas como mão-de-obra extremamente barata para as indústrias maquiladoras que se estabeleceram no Haiti. As forças brasileiras e da ONU têm reprimido duramente as manifestações pelo aumento do ínfimo salário mínimo.

Seis anos após o golpe contra Jean-Bertrand Aristide e a chegada da Minustah, a situação não melhorou. Por quê?

A intervenção militar franco-estadunidense orquestrada pelo governo Bush afastou o presidente constitucional Jean-Bertrand Aristide, em 29 de fevereiro de 2004. Ainda que ele tivesse rompido com suas antigas raízes populares e de esquerda, seu governo lutava por autonomia relativa e despertava a mobilização social. O que era inaceitável, em uma região próxima de Cuba e fundamental aos EUA. Devido ao envolvimento no Iraque, Bush 2º convocou o presidente Lula da Silva para capitanear a ocupação militar (e pagar seus custos, é claro), participando da organização de governo títere pró-imperialista. Essa ocupação deveria reorganizar a ilha segundo os interesses políticos do grande capital, sobretudo franco-estadunidense. O governo Lula da Silva aceitou o convite envenenado para fortalecer seu objetivo de ingressar, inferiorizado, sem direito, como membro do Conselho de Segurança Permanente da ONU. Foi também uma concessão à alta oficialidade das Forças Armadas brasileiras, com interesses econômicos, políticos, ideológicos na operação. Nos últimos seis anos, as tropas brasileiras comandaram a repressão, praticamente sem qualquer oposição por parte da imensa maioria dos partidos, sindicatos, organizações etc. ditos populares e de esquerda do Brasil. Deve-se destacar o silêncio do movimento negro organizado, atrelado ao governismo. A prova dos nove dessa intervenção se deu durante e sobretudo após essa terrível catástrofe, com a total ausência de Estado e de instituições haitianas autônomas, que jamais se pretendeu criar. Apenas o presidente [René] Préval funciona como testa de ferro do despudorado intervencionismo internacional em nome da solidariedade que acaba de se concluir com a ocupação militar dos EUA no país, que ignorou olimpicamente a ONU e o seu preposto brasileiro, que já não sabe mais onde se meter. Hillary [Clinton, secretária de Estado dos EUA] acaba de propor que o parlamento e o presidente dêem carta branca aos Estados Unidos nas operações!

Fala-se em "desconcentrar" a capital, oseja, incentivar a volta da população para seus povoados de origem, de onde saíram devido à falta de oportunidades. O senhor acha isso uma boa ideia no momento? O que isso pode trazer como consequência a médio e longo prazo?

A operação humanitária tem se dado no contexto de enorme desprezo imperialista, prenhe de racismo implícito. Realidade que se registra na proposta de enviar parte da população urbana ao campo sem qualquer consulta à mesma! Deve-se destacar o claro corte polpotiano da proposta e que parte dessa população não tem mais raízes agrárias. Não podemos esquecer, também, que o campo não apresenta condições para incorporar os que aceitem a solução – acesso à terra, recursos contra a erosão, combate à falta de água, financiamento, ajuda durante os primeiros tempos, preços mínimos para a produção etc. Após a terrível passagem do furacão Jeanne [em 2008], a única contribuição real da chamada comunidade internacional foi a reorganização da política para reprimir os seguidores de Aristide.

Qual sua avaliação sobre a atuação que a comunidade internacional vem tendo em relação ao terremoto no Haiti, como por exemplo o anúncio da liberação de centenas de milhões de dólares?

O que vemos, até agora, passada uma semana do desastre, é uma desassistência indiscutivelmente responsável por dezenas de milhares de mortos. Dizer que não era possível chegar aos necessitados por razões logísticas é piada. Se fosse insurreição popular desarmada, em dois dias haveria um soltado imperialista em cada esquina! No frigir dos ovos, muito se falou e pouco se fez. Até porque o objetivo era esse. Para além dos bem intencionados, há uma enorme indústria internacional, ligada ao imperialismo, formada por milhares de pequenas, médias e grandes ONGs especializadas na assistência às catástrofes que necessitam e se locupletam com tais sucessos, para financiar seus enormes aparatos administrativos que mitigam o desemprego do Primeiro Mundo. Boa parte dos fundos postos à disposição do Haiti pelos organismos internacionais, como o FMI e o Banco Mundial são empréstimos que deverão ser pagos sempre com o sangue e suor da população.

Ao mesmo tempo, o Haiti possui uma dívida externa de mais de 1 bilhão de dólares. Não é contraditório?

Não, não é contraditório. É necessário, para manter a dependência. Veremos que no final de tudo, essa dívida será ainda maior! Temos que lembrar que a catástrofe haitiana mantinha-se nos últimos anos, com parte da população do país comendo literalmente bolos de terra, sem que nada fosse realmente feito, a não ser controlar militarmente o país e reprimir a organização e a mobilização popular. Víamos sempre belos soldados, belos tanques, belos fuzis, funcionários bem falantes e uma enorme miséria popular.

Há algumas críticas (inclusive de Brasil e França) em relação a um suposto controle excessivo dos EUA sobre a ajuda humanitária. Os trabalhos de resgate estão sendo organizados pelo Pentágono e pela USAID. Inclusive, alguns denunciam que, no aeroporto de Porto Príncipe, controlado pelos EUA, os estadunidenses estariam priorizando o pouso de aviões de seu país,

alguns deles vindo com militares. Além disso, Obama prometeu enviar 10 mil marines ao Haiti, o que causou preocupação sobre uma eventual ocupação militar. O que o senhor pensa sobre tudo isso?

Aristide, deposto em 1991 pelo governo estadunidense republicano [de George Bush pai], voltou ao governo, em 1994, devido à intervenção patrocinada pelos democratas, de novo no governo [Bill Clinton]. A intervenção no Haiti, em 2004 foi novamente ação republicana de um país sob a presidência de Bush 2º, que contou com a oposição dos democratas, sobretudo da burguesia e da intelectualidade negra desse partido. Atualmente, no governo dos EUA se encontra um democrata negro. Se associamos isso à tradição imperialista, compreenderemos o enorme ativismo estadunidense com viés militarista. Cuba manda médicos. Os EUA, porta-aviões e marines de fuzis! Não é certo ainda o que os democratas e Obama pretendem para o Haiti. Talvez sequer eles saibam precisamente o que fazer com o sofrido país, devido ao caráter inesperado da crise. Há, porém, elementos claros. A ocupação militar do país, com tropas infinitamente maiores às da ONU, deixam claro que, nessa região, é o imperialismo estadunidense que manda. Um movimento que se associa ao retorno dos EUA à América Central e do Sul, expresso no golpe de Estado em Honduras, nas bases militares na Colômbia etc. O governo Obama teme igualmente uma imigração maciça clandestina de haitianos para os EUA. Vai ficar muito feio prender em campos de concentração uma população negra! É melhor no próprio país dela, mesmo morrendo de fome! Hoje, na região, o grande problema é a Venezuela. Certamente teremos novas bases militares dos EUA no Haiti, região estratégica, e muito barata!

Já se começa a ouvir algumas vozes falando em reconstrução do Haiti. Quais os riscos que trazem as reconstruções depois de tragédias naturais e o que o senhor acha que pode ocorrer no Haiti?

A grande imprensa do Brasil, com destaque para a Globo, retoma a proposta internacional de tratar o Haiti como Estado falido. Ou seja, nação incapaz de se organizar e reger por si só, tendo que ser monitorada, para seu bem. Como está ocorrendo agora! Uma volta aos tempos dos protetorados. A reconstrução pode constituir balão de ensaio para uma gestão não-nacional de territórios por órgãos internacionais, não-estatais etc. As grandes catástrofes são os melhores momentos para o capital realizar reorganizações estruturais de populações e recursos. Nuvens terríveis cobrem os horizontes do povo haitiano. Os trabalhadores e todos os homens e mulheres de bem do país devem se mobilizar contra isso. A primeira exigência deve ser a imediata saída das tropas de ocupação brasileiras do Haiti, substituídas por médicos, enfermeiros, engenheiros, agrônomos. Temos que ajudar a plantar a vida, não a morte, nesse país glorioso. Se o Nelson Jobim quiser voltar fantasiado ao país sofrido, que seja de médico!

Brasil de Fato

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