Entre oleiros e alfaiates
A busca de abrigo e conforto sempre foi uma constante para o ser humano no seu processo civilizatório.
Ricardo Alvarez
Às imposições da natureza respondemos com as armas da tecnologia e da ciência em evolução, que nos aliviam do peso com que o ambiente natural se impõe sobre nós. O trabalho humano, como síntese da reflexão e da ação, produz constantemente os meios necessários a esta tarefa.
Pelos tortuosos caminhos da vida chegou a nossas mãos um pequeno anuário estatístico de Santo André do ano de 1957. Seus dados correspondem aos anos imediatamente anteriores e, apesar de antigos, são bastante ricos.
O município de Santo André possuía em 1956 nada menos do que 82 alfaiatarias que produziam ternos. Era um tempo em que os homens saíam às ruas de terno e gravata, chapéu e sapato. Tênis nem pensar. Guarda chuva item obrigatório, assim como o lenço. Por isso mesmo existiam 7 fábricas de tecidos, hoje reduzidas à pó. Tais fábricas produziam a matéria prima das alfaiatarias, que por sua vez vestia os homens principalmente. As mulheres exerciam seus dotes de costura e produziam, em grande parte suas próprias vestes, afinal, numa época bastante machista, uma das qualidades exaltadas para o casamento era a habilidade com a o alfinete e a linha para elas.
A proteção e o conforto para o corpo era comprada em qualquer esquina, na medida é lógico, das posses de cada um, como hoje. Mas há uma diferença de fundo. O ciclo produtivo era basicamente autóctone, ou seja, o movimento das mercadorias tinha seu nascedouro (produção) e seu fim (consumo) delimitado pelas fronteiras municipais. Havia, sem dúvida, o intercâmbio com outros mercados: São Paulo e Santos (pelas facilidades da ferrovia) e o próprio ABC principalmente. Porém os mercados externos eram basicamente complementares em relação às necessidades internas. Vivíamos a predominância da produção de bens de consumo não-duráveis apoiada no mercado doméstico. Nossas necessidades de vida eram muito mais elementares.
Hoje, em tempos da famigerada globalização, os mercados se mundializaram, ampliando consideravelmente o fluxo de pessoas, capitais e mercadorias. Nossas roupas estão prontas, vem de longe e são coloridas. Abolimos alguns acessórios e criamos outros. Neste vai e vem as alfaiatarias desapareceram das ruas e permanecem apenas nos anuários e na memória.
Outro dado que merece realce são as olarias. Possuíamos 25 em Santo André. A expansão acelerada do espaço construído, aliado à tecnologia da época justificavam sua presença. Só no ano de 1956 foram construídos 2.043 edificações, num total existente de 37.625. Crescemos em um ano 5,5%. A título de comparação, entre os anos de 1987 e 1994 foram expedidos, em média por ano, 2.153 alvarás de construção. Independentemente da quantidade de metros construídos por autorização, estamos hoje nos níveis de meados da década de 50, apesar de 40 anos passados desde então.
Desapareceram, assim como as alfaiatarias, as Olarias. Há contudo muita gente passando frio e sem casa para morar. A irracionalidade produtiva de hoje já nos faz importar roupas, produto de tecnologia estabilizada e amplamente dominada pelo Brasil. Só falta mesmo anunciarem que cargueiros, carregados de tijolo e telha, estão ancorando no porto de Santos vindos de algum país pobre. Importaremos barro e alguns incautos acharão normal, afinal de contas nada mais up do que abrir seus mercados, destruir seu parque industrial, ficar refém dos capitais voláteis, despejar milhões de desempregados nas ruas e comprar lá de fora o que podemos produzir aqui mesmo.
Talvez os oleiros e alfaiates, na medida em que perderam seus negócios, foram sendo absorvidos gradativamente como trabalhadores, pelas próprias companhias que os derrotaram no “altar sagrado da competição de mercado”. Porém, neste final de século, suas habilidades não servem para mais nada, afinal de contas boa parte da população não se dá mais ao luxo de se vestir e nem de morar.
Se buscamos nos livrar das dificuldades impostas pela natureza, hoje ela é apenas cócegas diante do quadro econômico que nos rodeia.