Os banqueiros sabem o que querem Lula e Alckmin

Gilberto Maringoni

Na edição anterior, este espaço foi ocupado por uma crônica com o sugestivo título “Afinal, o que quer essa mulher?” A mulher referida é a senadora Heloísa Helena. O texto desancava pesadamente a candidata à presidência da República pelo PSOL.

A pergunta é das mais pertinentes numa campanha eleitoral em que praticamente não há contornos programáticos definidos entre os dois postulantes à frente das pesquisas de intenção de voto. A questão não caberia se os sujeitos da oração fossem o presidente Lula (PT) ou o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB-PFL).

Não há nada mais previsível do que suas campanhas. Quem diz isso – vejam só! – é o banqueiro Olavo Setúbal, em entrevista à Folha de S. Paulo, em 31 de agosto último. Vamos a um trecho dela:

“Folha - Se ele ou o Alckmin for eleito, para o senhor tanto faz?
Setúbal - Não tem diferença do ponto de vista do modelo econômico. Eu acho que a eleição do Lula ou do Alckmin é igual.

Folha - Os dois são a mesma coisa?
Setúbal - Os dois são conservadores. Cada presidente tem suas prioridades, mas dentro do mesmo leque de premissas econômicas. Acho que o Lula vai conservar a premissa da linha de superávit primário, de metas de inflação e tudo o mais. São evoluções que estão consolidadas no Brasil e serão mantidas por qualquer presidente.”

Setúbal parece ter atendido a um apelo do próprio presidente Lula. Num rasgo de sinceridade, ele fez a seguinte declaração durante a inauguração de seu comitê eleitoral em Brasília, um mês antes: “Banqueiro não tinha porque estar contra o governo, por que os bancos ganharam muito dinheiro… Então, não tinham por que estar com tanta raiva e preconceito”.

Estamos em meio a uma disputa eleitoral que encurta horizontes, amesquinha estratégias e transforma qualquer projeto de longo prazo em metas para 1º de outubro. Setúbal mostra que estamos diante da mais insossa e enfadonha campanha dos últimos anos.

Há uma razão básica para isso. Qualquer um que se dê ao trabalho de examinar as propostas econômicas do PT e do PSDB encontrará poucas diferenças reais entre elas. Os marqueteiros podem dourar a pílula e fazer a redação em estilos diferentes. Mas a essência das duas postulações tem como meta prosseguir com o ajuste fiscal, realizar mudanças constitucionais que desonerem o capital e penalizem o trabalho – como uma terceira reforma da Previdência, pretendida pelos dois candidatos – e manter cada vez mais as decisões do Estado nas mãos de interesses privados.

Estamos diante de duas vertentes do modelo neoliberal, uma mais à esquerda e outra mais à direita. Nenhuma delas visa melhorar a vida de nosso povo de forma duradoura. Uma tem uma bolsa-escola um pouco melhor, reajusta um pouco mais o salário mínimo, mas não se distancia do modelo herdado. Outra abusa do palavreado oco do “choque de gestão”. Mesmo a política externa atual – área em que o governo Lula se sai um pouco melhor – apresenta problemas. Ela é ambígua. Há uma solidariedade a Hugo Chávez, dada apenas após o referendo revogatório em que se sagrou vitorioso em 2004 e um comportamento de dupla face em relação à Bolívia. Enquanto a diplomacia brasileira apresenta uma conduta louvável, a Petrobrás, pressionada por seus acionistas privados, busca endurecer o jogo com o governo Evo Morales. Não se pode esquecer também da falta de apoio à moratória argentina, em 2003, do envio de tropas brasileiras ao Haiti ou da abstenção em relação a Cuba, em duas oportunidades, quando uma comissão da ONU buscou condenar a Ilha por supostas violações de direitos humanos.

Se acharmos isso coisa pouca, olhemos para as manchetes da semana. Somente no mês de agosto, por conta da estratosférica taxa de juros, a dívida pública cresceu 25,08 bilhões de reais, três vezes mais do que é gasto em todos os programas sociais num ano. Quase metade dos jovens entre 16 e 24 anos está desempregada. A Volkswagen impõe uma chantagem ao país e inicia a demissão de 3.600 trabalhadores e nada acontece. E o país segue pelo caminho do baixo crescimento econômico, maior apenas que o do Haiti, um país mergulhado em guerra civil.

Vivemos tempos complicados para a esquerda brasileira. A eleição de Lula, em vez de potencializar debates, liberar forças sociais represadas e dar curso a transformações ainda que tímidas na estrutura social e econômica brasileira, teve efeito inverso. O presidente absorveu a formidável energia política dos 53 milhões de votos dados em outubro de 2002 – que misturavam apoio a uma pregação mudancista de 25 anos e um repúdio ao governo FHC – e transformou-a em impulso continuísta.

Com isso, semeou confusão e desalento entre a esquerda e o movimento popular e transformou-se numa providencial tábua de salvação para as classes dominantes – em especial, o setor financeiro – que viu seus representantes políticos serem repudiados nas urnas há quatro anos.

Alckmin, por sua vez, é a direita com cara de bom moço. Suas marcas principais são 69 CPIs abafadas na Assembléia Legislativa, o prosseguimento das privatizações e o descontrole na área de segurança pública e de direitos humanos.

Escolher entre Lula e Alckmin significa ter de optar entre o ruim e o muito ruim.
Assim, já se sabe o que o petismo e o tucanato querem. Voltemos à pergunta do artigo mencionado no início: “Afinal, o que quer essa mulher?” A resposta é simples: quer um Brasil onde o povo não seja apenas um detalhe.

Gilberto Maringoni é jornalista, autor de A Venezuela que se Inventa - Poder, Petróleo e Intriga nos Tempos de Chávez.

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4 Comentários »

  1. Vagner disse,

    23 de Setembro de 2006 @ 21h 38m

    A linha programática do PSDB é conhecida. Seus governantes ,bem ou mal ,a seguem. O PT, com seu discurso voltado ao social, se notabilizou a distribuir esmolas, inchar amáquina administrativa com apadrinhados, nem sempre competentes com a função aser desempenhada.Resta saber que caminho será percorrido pelo PSOL em um eventual governo.Seguiria seu programa? ou se enebriaria com o poder? Afinal, como seguir programa de governo, com uma câmara alta e baixa comprometida com outros interesses?

    Caro Vagner, tudo bem? Obrigado pela mensagem.

    Concordo que os programas de PT e PSDB são conhecidos, fica a incógnita do P-sol..mas em política é assim mesmo, só se conhece prá valer na prática, e não enquanto proposta..É pagar para ver. A questão central para mim é a cobrança pública…a população organizada deve exigir a execução das propostas..só assim elas se efeitvam.

    Grande abraço.

    Ricardo

  2. Dioni Biavatti disse,

    24 de Setembro de 2006 @ 21h 02m

    Entendo, mas como é difícil converser a população do famoso ditado “da la toma cá”.

    Caro Dioni, tudo bem? Obrigado pela mensagem.

    Mas aos poucos a população vai amadurecendo politicamente e fazendo suas escolhas com mais refinamento. E obrigado pelo comentário. Ricardo

  3. pjc disse,

    29 de Setembro de 2006 @ 17h 59m

    Concordo Maringoni! Ha duas teorias conspiratórias possiveis! Uma a “Aliança Avenida Paulista” - acordo entre PSDB e PT, pos era-Collor, para ocupar o poder! Outra, Grupo Rio (Vide livro das conspirações pag. 28,29 - 2005) - briguinha de faxada para desestabilizar o que já está solidificado - O sucesso do MERCADO, que o diga a familia Setubal, Marinho, Bradesco, Itaú…

    Obrigado pela mensagem.
    Há uma tendência mesmo de americanização da política brasileira: dois partidos concentram as atenções e recursos…Copiar isto será demais.

    Ricardo Alvarez

  4. Gabriel Arcanjo Nogueira disse,

    13 de Outubro de 2006 @ 19h 02m

    Não é de hoje que os bancos sabem e abusam da força que têm. Ou seria mera coincidência que, já na eleição de Lula, pelo menos um dos grandes doou exatamente o mesmo valor para cada uma das campanhas?

    Nenhum presidente mexe com eles, lógico, em função dos compromissos assumidos anteriormente.

    Grande abraço

    Ricardo

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