O problema histórico do Japão
G. John Ikenberry
O Japão tem um sério problema geopolítico - que se torna cada vez mais um problema americano também. Essencialmente, o problema é que o país não conseguiu eliminar as suspeitas e ressentimentos que ainda perduram na China e na Coréia em relação ao passado militarista do Japão. Enquanto a Alemanha pós-guerra de alguma forma conseguiu dar por encerrada a ‘questão da história’, o Japão pós-guerra não conseguiu isso. O resultado é que o Japão - passados 61 anos de sua rendição e do começo de seu longo e pacífico retorno à comunidade internacional - continua isolado e incapaz de proporcionar liderança numa região que está se transformando rapidamente à sombra de uma ascendente China.
A manifestação mais visível do problema histórico do Japão é a controvérsia que irrompe todos os anos quando o primeiroministro do Japão visita o santuário Yasukuni, na região central de Tóquio - o memorial xintoísta onde os nomes de 14 criminosos de guerra de primeiro escalão da época da 2ª Guerra Mundial constam na lista dos mortos homenageados. Na China e na Coréia essas visitas trazem à lembrança a guerra japonesa e a agressão imperial, desencadeiam protestos populares e desaprovação oficial e fornecem um instrumento para pôr o Japão na defensiva e encolher sua influência e apelo regional.
Este problema veio mais uma vez à tona no mês passado, no aniversário do fim da Guerra do Pacífico, quando o primeiroministro Junichiro Koizumi fez sua esperada peregrinação ao santuário Yasukuni, com cobertura ao vivo da televisão japonesa.
Para complicar as coisas, os EUA têm empurrado o Japão ao longo do caminho da ‘normalização’ de uma grande potência. De fato, alguns estrategistas de Washington divisam o Japão como uma ‘Grã-Bretanha dos EUA no Oriente’ - um aliado normalizado e militarmente capaz que pode ficar ombro a ombro com os Estados Unidos enquanto estes atuam pelo mundo. Esta é, na essência, a visão do muito influente Relatório Armitage de outubro de 2000 (que recebeu este nome em homenagem ao ex-vice-secretário de Estado Richard Armitage), preparado por um grupo bipartidário de especialistas americanos em segurança. E é também a visão predominante hoje entre pensadores democratas e republicanos preocupados com a segurança do Japão.
O problema é que ‘normalização’ e ‘reconciliação histórica’ têm propósitos contraditórios. Normalização requer fazer emendas na Constituição, adquirir novos tipos de equipamentos militares e romper normas pacifistas de longa data contra o uso da força. Já a reconciliação histórica implica gestos simbólicos de desculpas e compromissos redobrados com a contenção e com a intenção pacífica. Este vai ser um jogo difícil de jogar. Certamente será necessário um pensamento mais lúcido e imaginativo do que o Japão tem mostrado. E os Estados Unidos precisarão repensar sua visão do Leste da Ásia e a aliança americana com o Japão.
Há uma grande ironia no abismo político que o Japão cavou para si mesmo.
A ironia é que o Japão tem tido notável sucesso na definição de sua identidade pós-guerra. Transformando uma necessidade numa virtude, celebrou sua ‘Constituição da paz’ e definiu-se como uma grande potência ‘civil’ que investiria na paz e na segurança internacionais sob os auspícios da ONU. Proporcionou recursos para a ONU, apoiou compromissos internacionais com a segurança e se tornou um generoso provedor de assistência oficial ao desenvolvimento. Mas, enquanto o mundo mais amplo admira e respeita o Japão - e seu papel de grande potência no seu notável estilo civil -, seus vizinhos, não.
O mandato de Koizumi termina após as eleições deste mês - e este será um momento em que Japão e Estados Unidos poderão repensar suas políticas.
O Japão precisa encontrar uma forma honrosa de acabar com as visitas do primeiro ministro a Yasukuni ou então, discretamente, incentivar os xintoístas que administram o santuário a retirarem os 14 nomes.
Mas, mais do que isso, o próximo primeiro-ministro deve tentar fazer da reconciliação histórica um marco da sua gestão. A capacidade do Japão de exercer liderança na região depende disso. Atos políticos simbólicos precisam fazer parte desta estratégia de reconciliação. Assim, também, precisa ser a atitude do Japão em relação à ‘normalização’.
A Alemanha deve ser um modelo. A Alemanha se normalizou, mas fez isso redobrando seus compromissos com a unificação européia e com a cooperação institucionalizada com os vizinhos. Esta abordagem de via dupla - normalização mais integração regional e construção da ordem - tem ajudado a tranqüilizar os vizinhos e a fortalecer a posição de liderança da Alemanha.
O Japão não dispõe de uma organização regional como a União Européia à qual se associar e tranqüilizar os vizinhos enquanto se normaliza. Neste sentido, seu avanço é mais carregado de obstáculos e mais complicado que o da Alemanha.
O que o Japão pode fazer é procurar a reconciliação por meio da diplomacia regional, oferecendo uma visão de uma futura comunidade de segurança no Leste Asiático. Seria um golpe de mestre se o próximo primeiro-ministro japonês anunciasse o fim das visitas a Yasukuni e convidasse os líderes chineses e sul-coreanos para uma conferência de cúpula em Tóquio.
O Japão deve converter-se no líder regional e definir os parâmetros de uma nova ordem cooperativa no Leste Asiático, uma ordem que inclua um crescente papel da China, mas também um papel central japonês e americano. A alternativa é continuar fazendo o que está fazendo agora, que é normalizar-se, gerar antagonismos e ficar cada vez mais isolado.
Os Estados Unidos também precisam repensar sua visão da aliança com o Japão. A idéia contida no Relatório Armitage de transformar o Japão num parceiro de uma aliança no estilo britânico não é a resposta, porque isso inflamaria antagonismos regionais. Os EUA devem encorajar o Japão a seguir o exemplo da Alemanha, aliando ‘normalização’ com compromissos redobrados com a cooperação para a segurança regional. O que está faltando no Leste Asiático é uma organização regional que possa ser usada para corporificar compromissos fortalecidos com a ordem regional pacífica por parte do Japão, mas também da China e da Coréia.
Atualmente, o Oriente Médio ferve, enquanto o Leste Asiático cozinha em fogo brando. O Japão e os Estados Unidos devem aproveitar os próximos meses para baixar o fogo e acrescentar alguns novos ingredientes à panela.
TRADUÇÃO DE MARIA DE LOURDES BOTELHO. G. John Ikenberry é professor catedrático de Política e Assuntos Internacionais na Princeton University. Seu mais recente livro é ´Liberal Order and Imperial Ambition´. Escreveu este artigo para o jornal ´The Washington Post´
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Carlos Odas disse,
18 de Outubro de 2006 @ 18h 52m
Ei, professor!
Que grata surpresa encontrar esse seu blog.
Tenho a sensação de que nem sempre concordarei com o teor das suas opiniões manifestadas aqui. Mas ela não é nada perto da certeza de que são as idéias de um lutador que eu respeito muito e cuja história e trajetória ajudaram e ajudam a construir a minha modesta trajetória. Afinal, como dizia o grande poeta Gonzaguinha, “toda pessoa sempre é as marcas das lições diárias de outras tantas pessoas”.
Um grande abraço, meu grande amigo.
Espero que estejas bem e continue lutando.
Ainda que não defendamos rigorosamente as mesmas idéias, eu aprendi (muito com você) que podemos estar do mesmo lado de quem pensa diferente da gente, se o que defendemos (juntos) é o direito de um povo soberano de construir seu destino e avançar no rumo da felicidade.
Caro Odas, tudo bem?
Quanto tempo.
Obrigado pelas palavras. Concordo em gênero número e grau com suas colocações. Como disse Montaigne “posso não concocrdar com nada do que dizes, mas lutarei até o inferno para que tenhas o direito de dizê-las”.
Estamos juntos na luta.
Um forte abraço para você e até breve.
Ricardo