Arquivo de Novembro de 2006

CPI APONTA FALTA DE CONTROLE NO MERCADO DE ARMAS NO PAÍS

Levantamento mostra que a maioria de armas apreendidas no crime é brasileira. Dados, no entanto, não avaliam, por enquanto, o impacto do Estatuto do Desarmamento

Leandro Colon, do G1, em Brasília

Levantamento feito pela CPI do Tráfico de Armas tenta reforçar o descontrole no mercado interno do setor no país e o desvio de armas de fogo usadas pelo poder público, principalmente por policiais militares e integrantes das Forças Armadas. Os dados, porém, não refletem ainda o impacto do Estatuto do Desarmamento, aprovado em 2003, que criou regras rigorosas para o comércio de armas de fogo no Brasil.

De acordo com a CPI, de 78.001 armas usadas para o crime apreendidas no Rio de Janeiro entre 1998 e 2004, 78% são brasileiras. Em São Paulo, o número é ainda maior: são de origem nacional 85% de 43.266 armas apreendidas entre 2003 e 2006. O percentual sobe no Distrito Federal: 87% de armas brasileiras entre 25.446 apreendidas de 2003 a 2006. O documento mostra que só os traficantes do Rio de Janeiro usam armas pesadas, como fuzis e metralhadoras. As informações constam no sub-relatório que o deputado Raul Jungmann (PPS-PE) pretende apresentar à CPI nesta quarta-feira (29), quando será votado o relatório final.

Os números não avaliam o impacto do Estatuto do Desarmamento porque as armas apreendidas depois de 2003 podem ter sido negociadas no mercado interno antes deste período. Ou seja: há um risco de ter crescido a compra ilegal de armas pelo exterior, o que, neste caso, mudaria o balanço feito pela própria CPI.

Para Jungmann, apesar disso, os dados mostram o descontrole no mercado de armas no Brasil e o cenário, ele acredita, pode ter sido mantido mesmo após o Estatuto do Desarmamento. “Eu diria que é possível, que, na margem, tenha algum ganho (o estatuto), mas não acredito que com essa situação de descontrole que vimos aqui, apesar do avanço, possa ter o estatuto como fator de solução para a violência e armas de fogos. A compra de armas diminuiu, mas a fiscalização das lojas não mudou”, disse Jungmann.

A CPI analisou com mais precisão a origem de 10.549 armas brasileiras apreendidas no Rio de Janeiro entre 1998 e 2003, antes do estatuto. Segundo os dados da CPI, 68% dessas armas são compradas no mercado civil, 18% vêm do poder público e 14% do exterior. Dessas armas provenientes do estado, 59% têm como origem a polícia militar e 22%, o exército brasileiro. “Isso mostra um alto grau de falência e descontrole”, afirma Jungmann.

Contrabando
Segundo a CPI, existem cerca de 140 pontos de entrada de armas e munição no país. Além das rotas conhecidas pelos países vizinhos, a CPI descobriu novas rotas do contrabando. A CPI também descobriu que os contrabandistas mudaram as rotas.

Agora, o armamento que vem do Paraguai vai até Paso de los Libres, na Argentina, e entra no Brasil por Uruguaiana, no Rio Grande do Sul. O outro novo ponto de entrada de armas é pela fronteira do Amapá e do Pará com o Suriname.

* Com informações do Jornal Nacional.

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CNBB diz que Bolsa Família vicia e acomoda beneficiados

Religiosos defendem revisão de programa e criticam negociação de cargos no governo

Instituição enviou carta a Lula cobrando escolha criteriosa de ministros; “Estamos com receio dessas negociações”, diz d. Geraldo

SILVIO NAVARRO
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) fez ontem duras críticas ao programa Bolsa Família. A avaliação da entidade é que o programa “leva ao vício e à acomodação” da população pobre.

A CNBB também reclamou das negociações conduzidas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva com os partidos aliados para montar o ministério.

Carro-chefe da campanha de reeleição de Lula, o Bolsa Família foi criado para unificar diferentes programas (Bolsa Escola, Vale-Gás, Bolsa Alimentação) e atende hoje 11,1 milhões de famílias, segundo o governo.

Para o presidente da Comissão Pastoral para o Serviço da Caridade, Justiça e Paz, dom Aldo Pagotto, arcebispo de João Pessoa (PB), o Bolsa Família precisa ser revisto.

“A nossa sugestão seria rever profundamente. Precisamos de escolas técnicas, cursos profissionalizantes, inserção no mundo do trabalho, gerar oportunidades de estudos. Como está sendo levado adiante vicia”, afirmou dom Aldo.

“É só uma ajuda pessoal e familiar. É verdade que 11 milhões de famílias recebem no Nordeste e no Norte, mas isso levou a uma acomodação, a um empanzinamento. Não se busca mais, parece que não há visão de crescimento, desenvolvimento e inserção”, disse.
Na avaliação de d. Aldo, a política social da gestão petista tem desencadeado o que chamou de “favelização rural” devido à escassez de crédito e assistência técnica. “O povo também vai desistindo de plantar”, disse ele, defendendo que o presidente “ouça mais o povo”.

Apesar das críticas, d. Aldo disse que a idéia “não é combater a pessoa do presidente, mas questionar o modo e a metodologia como o programa está sendo organizado”.

Os bispos se mostraram ainda “preocupados” com as articulações do presidente Lula com partidos políticos para formar a nova equipe de governo. Logo após a eleição, a CNBB enviou uma carta ao presidente cobrando uma escolha criteriosa do ministério.

“Acho duro quando ouço essa palavra: em troca de apoio se oferece um emprego no ministério ou nos serviços públicos. Acho isso muito duvidoso. Parte dos partidos deveria ter coragem e desprendimento para participar sem querer nenhuma parte como se tivesse dividindo o preço”, diz o presidente da CNBB, d. Geraldo Majella.

“Estamos com receio dessas negociações com partidos políticos, de barganhas, é a reprodução de um esquema já viciado. Fica o gosto de decepção e amargura em nossa boca”, disse. Sobre as eleições, o presidente da CNBB afirmou que foi feito um julgamento nas urnas, refletido pela renovação de parte do Congresso. “A corrupção é o mal que deve ser atacado, porque pode levar à destruição da própria democracia.”

As declarações foram feitas após encerramento da quarta Semana Social Brasileira, em Brasília -cujo tema foi “Mutirão por um novo Brasil”.
O coordenador da Semana Social, d. Demétrio Valentini, disse que a assembléia quer propor um “plebiscito pedagógico”, em setembro, para avaliar as perdas com a privatização da Vale do Rio Doce no governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), segundo ele, vendida por “bagatela”.

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Ser negro, preto, pardo, moreno, corado no Brasil

O conceito de raça para o ser humano foi desmontado por cientistas e geneticistas nos últimos anos. Não se pode dizer raça num sentido científico, mesmo que a palavra ainda exista para o senso comum ou para alguns movimentos reivindicatórios. Todavia, ainda é aplicada uma categorização pela cor. Para o IBGE, atualmente podem ser chamados de negros os cidadãos de cor preta ou parda que se identifiquem como negros. Mas não foi sempre assim.

O trabalho da historiadora Ivana Stolze Lima demonstra que no Brasil imperial os censos e outras iniciativas de conhecimento demográfico encontraram dificuldades para se concretizar justamente porque questões relativas à cor e à condição da população brasileira eram problemáticas. Os censos apareceram como uma iniciativa do governo, inserida no espírito do tempo e nas tentativas de categorizar e conhecer típicas de meados do século XIX. Contudo, no início houve resistência da população, que receava um controle do Estado em suas vidas. Temia-se que os censos acarretassem tentativas de re-escravização ou de aumento de impostos. Os censos praticamente não funcionaram no período, quase não tendo valor estatístico para um estudo populacional. Porém, têm grande valor qualitativo, bem como outros documentos tais quais registros de batismos e casamentos.

Nesses registros, sempre aparece a categoria “branco”, sendo a população dividida em homens e mulheres. Para os negros, há outras subcategorias, como a de escravo, livre, liberto, negro ou pardo. O termo mulato aparece em menor ocorrência, mas sempre substituindo o termo pardo. O censo geral do império, em 1872, buscava categorizar a população quanto a “raças”, admitindo também a categoria “caboclos”, além de “branco”, “pardo” e “preto”. Porém, em outros documentos oficiais, começa-se a omitir a categoria “cor” a partir de meados do século XIX, o que indica, mais uma vez, que esse critério poderia causar constrangimento e que já não havia mais uma relação de “sinonímia entre ser branco e ser livre”.

No início do século, instituições como a Marinha contavam com grande participação de negros e mestiços. Na primeira iniciativa de identificação, com a criação do Gabinete de Identificação da Marinha em 1908, consta que 71% dos identificados como soldados navais naquele ano eram classificados como negros ou pardos, havendo 27% de brancos, dentre os quais brancos “claros” ou “corados”. Essas identificações não eram fixas, no entanto. Um mesmo indivíduo identificado duas vezes, em 1908 e 1912, poderia passar de “negro” para “pardo” ou “moreno”, ou vice-versa, de acordo com os critérios do classificador do dia. Da mesma forma, dentre os brancos, alguns soldados poderiam ser identificados como “branco corado” ou “moreno corado”. A categoria “mulato” não aparece citada. Isso indica que a questão da cor não era assim tão fácil de ser identificada no Brasil do início do século XX.

Mais recentemente essa dificuldade foi novamente comprovada. Um levantamento feito pelo historiador Clóvis Moura, após o censo de 1980, indica que foram citados 136 nomes de cores diferentes pelos brasileiros inquiridos. Alguns brasileiros declararam ter cor “acastanhada”, “café-com-leite”, “branca-suja”, “burro-quando-foge”, “cor-de-canela”, “cor-de-cuíca”, “sapecada”, dentre muitas outras. Segundo o autor, essa pluralidade atestaria, mesmo que por meio do humor, que o brasileiro foge de uma identificação étnica.

Outra pesquisa recente, elaborada pela equipe do geneticista Sérgio Pena no início da década, comprova que 87% dos brasileiros receberam ao menos 10% de genomas africanos. Ao mesmo tempo, os mesmo índices de ancestralidade genômica indígena ocorrem somente em 24% dos brasileiros. Segundo os resultados da pesquisa, há mais sangue negro do que indígena correndo nas veias dos brasileiros, e a mestiçagem seria um fato comprovado. Mais do que isso, o estudo prova que tanto intelectuais quanto cientistas ainda estão muito interessados no assunto.

Publicado em História Viva.

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Somos ou não somos Racistas?

Eis a questão que desafia legisladores, intelectuais, cientistas e historiadores há mais de um século, em uma nação que é tão mestiça quanto desigual

por Sílvia Capanema P. de Almeida

O jornalista e cientista social Ali Kamel publicou o livro Não somos racistas (Nova Fronteira). Trata-se, como o subtítulo indica, de “uma reação aos que querem nos transformar numa nação bicolor”. O livro defende a idéia de que compomos uma nação predominantemente mestiça e que o racismo existe como manifestação minoritária e não institucional, sendo a pobreza o principal problema do país. Pretende criticar as reivindicações do movimento negro e os projetos de adoção de cotas raciais nas universidades públicas brasileiras.

Do outro lado do debate, há vozes que defendem a tese de que o elogio da mestiçagem brasileira tem caráter ideológico, tendendo a esconder o racismo existente no país e a exclusão do negro ao longo dos cinco séculos de formação do Brasil. Esse é o pensamento do antropólogo Kabengele Munanga em seu Rediscutindo a mestiçagem no Brasil (Autêntica, 2004)

Para se situar nessa discussão, seria interessante compreender o contexto dos períodos anterior e posterior à abolição. O processo de abolição não pode ser resumido ao 13 de maio de 1888. Por trás da data histórica, o comportamento da população negra no país mostra a existência de uma realidade muito mais complexa. Por um lado, antes mesmo da abolição, ser negro já não significava mais exatamente ser escravo. Pesquisas recentes apontam que apenas 5% do total da população negra ou parda do país era escrava às vésperas da extinção da escravidão. O grande número de alforrias por reconhecimento, laços pessoais e familiares, compras, entre outros fatores, mostrava que já havia muitos negros e mestiços vivendo além da escravidão, principalmente no meio urbano. Além disso, as fugas e formações de quilombos, muitos dos quais apoiados pela população pró-abolição, também já contribuíam para uma relativização da identificação do negro como escravo nos últimos anos do império. Um sujeito de cor negra ou parda poderia ser escravo, mas também livre ou liberto, como indicam as categorias dos censos do período.

Por outro lado, a tão famosa Lei Áurea assinada pela princesa Isabel não significou a igualdade em termos de inclusão e cidadania para negros e ex-escravos, ainda que as diferenças não fossem registradas pela legislação, pelos códigos e regulamentos institucionais de maneira geral a partir dessa data. Para muitos negros, pardos e outros, o lugar social marcado inicialmente pela escravidão não seria modificado em pouco mais de um século e algumas gerações. Na ausência de qualquer programa de integração dessa população pobre e praticamente analfabeta, boa parte desse contingente de cidadãos e seus herdeiros permaneceu excluída dos bens materiais e culturais durante muitos anos.

Depois do 13 de Maio, muitas famílias continuaram como mão-de-obra nas mesmas fazendas onde tinham sido escravas. Alguns indivíduos migraram para os grandes centros urbanos, em muitos casos reforçando o número de subempregados ou “desocupados”, segundo a terminologia da época, e lotando os cortiços e favelas que se formavam nas cidades. Alguns outros adquiriram consciência da sua condição e associaram-se para denunciar a situação e defender seu lugar na sociedade, como no caso da Guarda Negra, espécie de milícia que procurava proteger a liberdade dos negros e a personalidade da princesa Isabel, e da imprensa de identidade negra, que denunciava o problema e funcionava como um espaço de sociabilidade para essa população.
Posteriormente, já nos anos 30, a fundação da Frente Negra Brasileira (FNB) iria politizar a discussão, buscando um espaço para o negro na esfera política. Tudo isso indica que havia mais diversidade do que se acreditava na inserção do negro na sociedade brasileira do pós-abolição. Esse passado de escravidão iria marcar também o debate em torno da construção da nação e do Estado brasileiro. Já em meados do século XIX, intelectuais, legisladores e cientistas mostraram-se preocupados com o perfil e a composição da sociedade brasileira, e com os modelos e projetos possíveis para a construção do país.

Muitas das construções institucionais iniciadas com d. João VI e d. Pedro I foram incrementadas no Segundo Reinado. D. Pedro II era um monarca ilustrado e incentivador das artes e da ciência, tendo certa vez afirmado, parodiando o rei absolutista francês Luís XIV, “a ciência sou eu”. Nesses governos, sobretudo após a independência, foram criados institutos de estudo e expandidas as universidades e academias, lugares onde se debatia sobre qual seria o projeto de sociedade possível e desejado no Brasil. Apesar da resistência de alguns setores, o fim da escravidão era tido como inexorável.

Vários aspectos podem ser apontados como tendo contribuído para esse fim: as pressões internacionais, o fortalecimento do capitalismo industrial e a necessidade de mão-de-obra livre e consumidora, as idéias igualitárias oriundas do pensamento iluminista, a própria ação dos escravos, que manifestaram diferentes modos de resistir, por meio das fugas, dos quilombos e das revoltas durante todo o século XIX e em várias partes do mundo. A título de exemplo, a revolta de negros escravos que massacraram seus senhores tomando o poder na colônia francesa de São Domingos, hoje Haiti, ainda no início do século XIX, apavorava o imaginário dos grandes proprietários brasileiros. Definitivamente, as elites brasileiras não gostariam que o Haiti fosse aqui. Além disso, pode-se dizer que extinguir a escravidão era uma exigência do mundo dito civilizado e corresponder a essa demanda seria fundamental para colocar o Brasil no ritmo do progresso, de acordo com os conceitos da época.
As negociações entre os interesses de diferentes setores fizeram a abolição ser fruto de um processo gradual. Uma lei de extinção do tráfico foi assinada já em 1831, a partir de uma exigência inglesa. Porém, não chegou a ser aplicada, tendo surgido daí a expressão “para inglês ver”. O tráfico só seria abolido de maneira efetiva em 1851, com a lei Eusébio de Queirós. Com o fim desse comércio, a grande mudança no país foi a acentuação do tráfico interno. Tornou-se mais comum do que nunca a venda de escravos das fazendas do Nordeste para o Sudeste cafeeiro, acompanhando o deslocamento do eixo da economia para essa região. Em 1871, foi promulgada a Lei do Ventre Livre, e, apesar do caráter moderado desta, os fazendeiros perceberam que não nasceriam mais escravos no Brasil. A escravidão estava com os dias contados. O “problema” da integração do negro na sociedade brasileira apenas começava.

Seria o Brasil um país de negros e mestiços? Será que isso combinaria com a noção de país civilizado de padrão europeu que se pretendia para a ex-América portuguesa? Essas eram algumas questões sobre a identidade brasileira que intelectuais, médicos e cientistas sociais se colocavam no fim do século XIX e início do XX. O pensamento dominante na época era fortemente influenciado pelo evolucionismo e pela teoria de seleção natural de Charles Darwin. Esse biólogo britânico, observando o comportamento das espécies animais, desenvolveu uma teoria que explicava a modificação e evolução das espécies por meio de um processo de melhor adaptação ao meio, que seria sintetizada pela expressão “a lei do mais forte”. Seu trabalho teve grande influência no pensamento moderno, sobretudo no que se refere à secularização, exterminando a idéia de que o homem teria sido criado por Deus. Porém, para alguns outros homens de ciência daquele tempo, o evolucionismo poderia também se aplicar ao comportamento humano, o que foi chamado de darwinismo social.

Segundo as mais expressivas concepções dessa corrente, não somente o negro tende a ser visto como ser inferior ao branco na escala da evolução como o mestiço apresenta em si um problema. Alguns pensadores do darwinismo social chegaram a insinuar que o mestiço seria também infértil. Daí a origem da palavra mulato, termo oriundo de “mula”, híbrido nascido do cruzamento do cavalo com o jumento. A explicação ideológica para isso seria a tentativa de desestimular as relações inter-raciais. No contexto brasileiro, a hibridação seria inevitável. Como a historiografia demonstra, o número de mulheres brancas vindas para o território brasileiro foi sempre inferior ao de homens, sendo a mestiçagem conseqüência disso. Seria preciso que os nossos cientistas e intelectuais pensassem em outros modelos.

Dentro dessa concepção, um dos primeiros a tentar identificar, qualificar e diagnosticar o elemento afro-brasileiro foi o escritor, sociólogo e jurista Sílvio Romero, que entendia que o destino da população brasileira era tornar-se branca, já que na mestiçagem o tipo racial mais numeroso tende a prevalecer. Romero acreditava que o branco seria favorecido pelo fim do tráfico e pelo aumento da imigração de trabalhadores europeus.

Outro brasileiro que se dedicou à questão nesse contexto, o médico e antropólogo Raimundo Nina Rodrigues, discordou da tese de Romero. Para ele, não seria possível estabelecer no Brasil uma civilização a partir da mistura entre o branco, o negro e o índio. Estes últimos eram tipos inferiores e não poderiam contribuir para tal ideal civilizacionista. Nina Rodrigues acreditava que a mistura entre raças diferentes criaria indivíduos fracos, que não se identificariam com o modo de viver de nenhuma das duas raças, gerando um tipo inferior. Acreditava que o Estado deveria legitimar as diferenças, para tratar de maneira mais adaptada “superiores” e “inferiores”.

Essas propostas não foram utilizadas pela República, na Constituição de 1891 e nos Códigos Civil e Penal da época, que não faziam mais distinções entre “negros”, “brancos” ou “pardos”. Todos eram cidadãos. O problema seria a pobreza, a vadiagem, a mendicância e a capoeiragem, contravenções punidas pelos artigos 391 a 404 do Código Penal de 1890. Para o direito brasileiro, não era desejável haver uma população desocupada, sem dinheiro e sem lar. Os indivíduos nesse estado, muitos dos quais negros ex-escravos ou descendentes de escravos, poderiam ser enviados a diversas instituições, como às colônias correcionais ou mesmo ao Exército e à Marinha. Não foi o pensamento do darwinismo social que vigorou na concepção dessa legislação, mas com certeza estavam presentes as idéias de ordem e em grande parte a mentalidade higienista. Observa-se, além disso, que o estímulo dado pelo governo brasileiro à imigração de trabalhadores europeus no fim do século XIX e início do XX foi em grande parte justificado pela ideologia de branqueamento da população.

Nos anos 30, enquanto as idéias eugenistas voltavam à moda na Europa, sobretudo a partir da experiência do nazismo alemão, no Brasil tendia-se para uma nova compreensão da sociedade, para uma abordagem culturalista. Já havia uma corrente de valorização do mestiço como representante da identidade brasileira desde a década de 1870, porém seria com o sociólogo Gilberto Freyre que esse modo de pensar ganharia maior expressão.

Em seu clássico Casa-grande e senzala, Gilberto Freyre compõe uma história social e cultural do Nordeste agrário e escravista durante o início do período colonial, o que corresponde à fase de predomínio da economia açucareira. Nesse contexto, o menor número de mulheres e o caráter conciliador do colonizador português favoreceram o desenvolvimento da mestiçagem no país, diminuindo a distância entre a casa-grande e a senzala. O mulato seria o elemento de conciliação entre os extremos existentes. Além disso, Gilberto Freyre aposta na mestiçagem como o principal traço da identidade brasileira, fazendo uma leitura positiva da hibridação. Estão lançadas as bases para a ideologia da “democracia racial”, posteriormente apontada como um mito pelas releituras de Gilberto Freyre.

Esse pensamento parece ter sido bem aceito pelo Estado e pela população brasileira. Ao mesmo tempo que a idéia de democracia racial foi incorporada pelo senso comum e colaborou para a construção da própria identidade nacional, o Estado e as instituições receberam com boa vontade essa teoria. A crença numa contribuição igualitária do índio, do negro e do branco participa do mito fundador do Brasil. Além disso, essa igualdade também favorece o estabelecimento do Estado brasileiro que sempre se desejou: sob a impressão de que há igualdade entre as cores e diferenças, cria-se um código comum, evitando-se conflitos e embates. Dessa forma, o Brasil se parece mais com aquilo que gostariam que fosse, já sabendo como ele é.

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Antonio Candido inaugura biblioteca do MST e fala da força da instrução

VEREN GLASS - CARTA MAIOR

SÃO PAULO – No ano passado, a biblioteca da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, da USP, uma das mais antigas do país, comemorou 180 anos com 340 mil títulos. Quando nasceu por obra do então presidente da Província de São Paulo, Lucas Antônio Monteiro de Barros, tinha 5 mil exemplares, herdados do que era até aquele momento o acervo do Mosteiro dos Franciscanos. Hoje, recebe cerca de 1,2 mil visitantes diários.

181 anos após a criação da biblioteca da Faculdade de Direito – que teve entre seus freqüentadores 11 presidentes da República –, foi inaugurada no último sábado (5), em Guararema, pequeno município a 80 km de São Paulo, a biblioteca Confraria dos Parceiros de Guararema.

Mais ambiciosa do que a irmã mais velha, a Confraria nasceu com quase 17 mil livros e deveria, na verdade, se chamar Biblioteca Antonio Candido. Assim como a outra, é um ambiente de pesquisa, estudo e leitura de um centro de educação superior, a Escola Florestan Fernandes, do MST, mas deve atender, por enquanto, a cerca de 3 mil estudantes por ano, além da comunidade de Guararema.

Mas traçar um paralelo entre as duas bibliotecas – a do mais antigo e respeitado centro de formação da elite brasileira, e a do maior movimento social do país – foi apenas um preâmbulo à análise de um dos maiores intelectuais brasileiros do século 20, o crítico literário Antonio Candido, convidado pelo MST para inaugurar a biblioteca que deveria levar o seu nome (e não levou a pedido do próprio).

Alertando a audiência, que se apertava no auditório da Escola Florestan Fernandes na ensolarada tarde de sábado, que, “quase nonagenário, não posso mais dizer coisas novas”, Antonio Candido voltou a falar de um tema ao qual tem dado muito peso na última década: a humanização através da aquisição do saber.

“Humanização é o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante”, declarou no final dos anos 90, quando adotou a defesa da Literatura como direito humano.

Nesse sentido, o investimento do MST na formação cultural dos trabalhadores rurais, ao dar acesso a recursos (conhecimento) por séculos resguardados às elites, é, para Antônio Cândido, de um lado, a plenitude do processo de democratização do país, na perspectiva de que a “grande voz muda do Brasil”, os trabalhadores rurais, adquiriu peso de sujeito político com o movimento.

“O MST é chamado a desempenhar um papel fundamental na transformação da sociedade brasileira. Coordenou, desenvolveu e organizou a criação de uma voz política do trabalhador rural. A partir do MST é que a nação brasileira passa a ser totalmente representada. Um grande amigo, Caio Prado Junior, me disse uma vez: o drama do Brasil é quem fala somos nós; de esquerda ou de direita, somos sempre nós, de famílias ricas, gente que pode estudar, se alimentar. Graças ao MST isso não é mais verdade”, avalia. E completa: “me lembro de fazendeiros lá de Minas Gerais que diziam: estão querendo fazer uma escola municipal na minha terra. De jeito nenhum! Porque esse pessoal, se aprende a ler, vem discutir as contas com a gente. Pra esse fazendeiro, a humanidade é só o trabalho”.

A humanização que o acesso ao livro, a literatura, proporcionam, por outro lado, é, para Antonio Candido, outro elemento fundamental ao desenvolvimento do trabalhador. “O livro o que é? Uma vez um motorista de táxi disse ao grande [crítico de cinema] Paulo Emilio Sales Gomes: ‘livro é muito bom porque mata a fome da cabeça’. E é exatamente isso: não ter um livro é estar privado da alimentação fundamental da cabeça. A literatura tem uma força humanizadora extraordinária, seja no enredo de um conto, de um romance, o sentimento expresso em um poema…”

Quando o capitalismo se apossou do tempo da humanidade, quando criou o conceito de que ao trabalhador está reservado apenas o trabalho, e o não-trabalhar é condenável, tentou criar uma barreira de embrutecimento que dividisse a sociedade e excluísse a maior parte dela do acesso à cultura mais “refinada”. De acordo com a filosofia do capital, reflete Antonio Candido, o pobre deve se ater às formas elementares de manifestação cultural. “Folia de reis, sim; mas nada de Machado de Assis, nada de Dostoievski, de Vila-Lobos. Mas a força da instrução ligada à imaginação rompe esta dicotomia, quando diz que a literatura, a arte, são direito de todos”.

A escravidão do trabalho aliado à da ignorância, imposta às classes mais pobres, é, para o professor, um dos aspectos mais pérfidos do capital. “Acho que uma das coisas mais sinistras da história da civilização ocidental é o famoso dito atribuído a Benjamim Franklin, ‘tempo é dinheiro’. Isso é uma monstruosidade. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida, é esse minuto que está passando. Daqui a 10 minutos eu estou mais velho, daqui a 20 minutos eu estou mais próximo da morte. Portanto, eu tenho direito a esse tempo; esse tempo pertence a meus afetos, é para amar a mulher que escolhi, para ser amado por ela. Para conviver com meus amigos, para ler Machado de Assis: isso é o tempo. E justamente a luta pela instrução do trabalhador é a luta pela conquista do tempo como universo de realização própria. A luta pela justiça social começa por uma reivindicação do tempo: ‘eu quero aproveitar o meu tempo de forma que eu me humanize’. As bibliotecas, os livros, são uma grande necessidade de nossa vida humanizada. Portanto, parabéns ao MST pela abertura desta biblioteca, porque o amor pelo livro nos refina e nos liberta de muitas servidões”, concluiu.

Afetividade socialista
Escalado para encerrar a cerimônia de inauguração da biblioteca em nome da coordenação nacional do MST, João Pedro Stedile embarcou na corrente do convidado e, ao invés de listar agradecimentos a todos os colaboradores do projeto, discorreu sobre o que chamou de “afetividade socialista”, o mutirão que unificou trabalhadores do movimento, estudantes, intelectuais, professores universitários, voluntários internacionais e outros amigos em torno do projeto da escola e da biblioteca, ambos parte da estratégia mais ampla de formação e “educação dos trabalhadores brasileiros”.

“Essa escola quer ser um símbolo da afetividade socialista, ela é fruto disso. Só estamos aqui porque milhares de pessoas ajudaram. E já que não teremos nome para essa biblioteca, me permita, professor Antônio Cândido, declaro fundada a Confraria dos Parceiros de Guararema”, concluiu Stedile.

Serviço
A biblioteca da Escola Florestan Fernandes deve ser o principal espaço de pesquisa e estudo dos alunos da instituição, tanto os que freqüentam os cursos formais - Gestão em Administração de Empresas Sociais, e Especialização em Educação do Campo e Desenvolvimento – quanto os dos cerca de 20 cursos de curta duração. Tem capacidade para 38 mil exemplares, e conta atualmente com 16 mil livros catalogados e quase mil a espera de catalogação, em áreas como ciências sociais e políticas, economia, ciências agrárias, filosofia, religião, literatura etc. O espaço também terá uma discoteca e uma videoteca.

Segundo a coordenação da biblioteca, todos os livros foram doados, tanto por particulares quanto por universidades e outras instituições, mas várias áreas, principalmente ciências agrárias, filosofia, história e literatura estão deficitárias.

Os interessados em doar livros – que deverão ser levados à secretaria nacional do Movimento, em São Paulo, podem entrar em contato com a Escola Florestan Fernandes, tel. (11) 4693-5357, ou na secretaria do MST, tel. (11) 3361-3866.

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Uma novela exemplar

MILTON HATOUM

Na literatura brasileira, não são numerosos os prosadores que conquistaram um grande público leitor. Desse punhado de best-sellers, nenhum foi tão popular como Jorge Amado. E isso se deve a vários aspectos. O escritor baiano não se preocupou em criar uma linguagem inovadora, nem mesmo em estruturar ou organizar a narrativa com ousadia, como fez Osman Lins em Avalovara, Nove, Novena e A rainha dos cárceres da Grécia. No entanto, se a obra de Amado é carente de forma e de rigor na linguagem, é rica no universo ficcional. Em seus primeiros romances, ele se aproximou de um regionalismo empenhado em registrar a vida da gente pobre da Bahia urbana e rural.

A partir da década de 1950, sua obra dá uma guinada: a denúncia social passa a ser vista por outro ângulo e a ser trabalhada por outro viés, subtraindo ou atenuando a intenção ideológica para encontrar no exotismo, no humor, na sensualidade e no autoritarismo da sociedade baiana as forças de sua nova ficção. Em romances como Gabriela, cravo e canela e Dona Flor e seus dois maridos, o lugar dos personagens sofridos de Capitães de areia e dos pobres-diabos que se amontoam no cortiço de Suor torna-se mais restrito. O novo romance de Amado é povoado de prostitutas, rufiões, malandros, vagabundos, funcionários públicos, poetas, jogadores, marinheiros, cafetões, coronéis e proprietários poderosos e inescrupulosos.

A facilidade com que Amado escrevia, seu jeito bonachão, sua alegre e despretensiosa obsessão de apenas narrar boas histórias, tudo isso gerou comentários implicantes e irritadiços de alguns críticos e até mesmo escritores. Mas nada disso diminuiu seu público leitor, pois em todos os continentes a obra de Amado ainda é a mais lida, conhecida e traduzida da literatura brasileira. Quanto aos críticos e escritores, não se deve omitir os comentários relevantes e certeiros de Graciliano Ramos, Antonio Candido, Alfredo Bosi, José Paulo Paes, Ferreira Gullar e Vinicius de Moraes, entre outros. Isso sem contar a produção de críticos mais jovens, que têm publicado dezenas de teses e ensaios sobre a obra de Amado. Sem dúvida, algumas restrições são legítimas. Por exemplo: o narrador idealiza com freqüência os pobres e humildes da Bahia; um exotismo exagerado pode transmitir a muitos leitores um sentimento de exaltação dos valores e da cultura africana e baiana, que, afinal, fazem parte da cultura brasileira.

Uma mudança de tom e dicção separa o narrador culto das personagens populares, e essa disparidade pode ser um problema. Apesar das falhas, a obra de Jorge Amado se impôs. Ele soube traduzir sua experiência cultural e lingüís tica numa prosa que parece não ter excluído nenhum estrato social da imensa pirâmide humana presente em seus romances. Nesse sentido, ele lembra um romancista prolífico da Europa do século XIX e anterior a Flaubert. Ou seja, um prosador despreocupado em erigir um monumento estético, mas com a vantagem de possuir a verve e a imaginação de um narrador oral do Norte da África.

É notável o diálogo entre o “defunto” e os amigos. E não menos notável a andança dos vivos com o morto até o cais

Aos que nunca leram um livro de Amado, sugiro começar por uma novela: A morte e a morte de Quincas Berro Dágua. Nesse breve relato, além de ter encontrado o tom e o tamanho apropriados ao gênero, não há o desenho irregular de alguns romances excessivamente longos. A novela, mais próxima da concisão e da intensidade do conto, evita digressões, descrições e diálogos excessivos. Também nesse aspecto, A morte e a morte de Quincas Berro Dágua é uma narrativa bem realizada. Como diz o título, a novela refere-se a duas mortes do mesmo personagem. Há ainda uma terceira, que é a morte moral da família depois que o protagonista abandona o lar. Antes de ser o “cachaceiro-mor de Salvador”, o “rei dos vagabundos da Bahia”, jogador, marinheiro e farrista, Quincas foi Joaquim Soares da Cunha: o pacato e correto pai de família e funcionário público.

Morto, os familiares tentam recuperar a dignidade do outro, quando vivo. A novela trabalha com esses dois registros: a vida exemplar e a vida vagabunda. A primeira refere-se ao tedioso cotidiano de uma família de classe média de Salvador: a mulher rabugenta de Joaquim, sua filha não menos ranzinza, seu genro e seu irmão. Dois personagens na mesma pessoa, e dois passados de vidas opostas, no mesmo morto. Mas trata-se realmente de um morto? Durante o velório no quartinho de um cortiço na ladeira do Taboão, o defunto dirige a sua filha “um sorriso cínico, imoral, de quem se divertia”; xinga a tia Marocas com um apelido nada edificante e faz com o polegar um gesto de deboche. Quando os amigos chegam ao velório, não acreditam que Quincas está morto.

É notável o diálogo entre o “defunto” e os amigos. E não menos notável a andança dos vivos com o morto pelas ruas de Salvador até o cais, onde Quincas, velho marinheiro, embarca num saveiro para uma viagem ao fundo do mar. Durante uma tempestade, Quincas Berro Dágua se deixa envolver por sua própria vontade “num lençol de ondas e espuma”. Essa reviravolta do destino – o morto que se revela vivo e escolhe a hora e a maneira de morrer – é típica da novela enquanto gênero.

Mas algo nos diz que ele realmente está morto. Essa ambigüidade, que a narrativa explora o tempo todo, é um dos grandes feitos da novela. A farsa que Joaquim, ainda vivo, arma para a família, arma de novo enquanto defunto. Para o leitor, esse jeito farsante de morrer permanece em suspenso, como a reiteração de uma dúvida anunciada na abertura dessa novela de fato extraordinária, como poucas na literatura brasileira.

Entre Livros

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No Brasil, as prostitutas estão na moda

Num país tradicionalista e conservador que sofre com a influência das Igrejas católica e evangélica sobre o poder político, a Daspu usa a moda em sua luta contra os preconceitos e em defesa do reconhecimento legal da profissão de prostituta

Claire Lefebvre, Daphné Mongibeaux e Stefania Rousselle

Esquecidas pela classe política, prostitutas do Rio de Janeiro vêm conduzindo uma campanha em defesa dos seus direitos e seduzem os brasileiros. A sua arma são as roupas. Uma puta trajando um vestido de noiva é algo que chama a intenção. Principalmente se este último for feito com lençóis de hotéis de alta-rotatividade. Aliás, esse vestido será a peça principal do próximo desfile da Daspu, uma grife de moda que foi lançada por um grupo de prostitutas cariocas em dezembro de 2005.

No quadro da Bienal das artes de São Paulo, em 7 de outubro, as prostitutas tomaram conta das passarelas pela décima vez. No programa, apresentação de camisetas, vestidos sexy, calças corsário, bolsas de mão e bonés. Foi mais uma oportunidade para essas garotas clamarem a sua mensagem: “Putas e com muito orgulho”.

Fundada pela Davida, uma ONG brasileira que luta pelo reconhecimento da prostituição como atividade profissional e se dedica à luta contra as doenças sexualmente transmissíveis, a Daspu tinha como objetivo inicialmente de sanar as dificuldades financeiras desta organização não-governamental.

Contudo, os veículos de comunicação nacionais não demoraram a se interessar pelo projeto. Uma das principais razões dessa mobilização é o nome da marca. “Daspu” - do português “das putas” - é uma referência à “Daslu”, o templo do luxo em São Paulo. Ao longo de várias semanas, a condenação da diretora desta loja por fraude fiscal foi manchete dos principais jornais brasileiros. A polêmica foi benéfica para a Daspu: achando graça nessa gozação, a mídia faz dessa iniciativa um fenômeno de sociedade.

O alarde resulta numa propaganda gratuita que incita Gabriela Leite, a diretora da Davida, a diversificar a grife. Ela contrata uma estilista, Rafaela Monteiro, em tempo integral, e dez prostitutas para atuarem como modelos. Juntas, elas decidem qual será o tema da primeira coleção: a Estrada 69. Inspirada na famosa “Route 66″ americana, símbolo do rock’n'roll, essa “estrada” é uma referência/homenagem ao seu cliente ideal, “o homem que passa e que não fica”: o caminhoneiro.

“Feminino sem ser vulgar, o vestuário da Daspu destina-se a todas as mulheres”, explica a estilista, que foi buscar a sua inspiração nas praias populares de Copacabana e nas ruas do centro da cidade carioca. Trata-se de uma moda que ela quis “muito brasileira”, tanto nas cores como no estilo.

Em seis meses, a marca passa de algumas camisetas para militantes, para uma linha de prêt-à-porter. Os desfiles se multiplicam. Muitas estrelas do showbiz, artistas e intelectuais comparecem para aplaudir as garotas. Uma camiseta da grife é até mesmo oferecida a Mick Jagger por ocasião do famoso show dos Rolling Stones em Copacabana, em 18 de fevereiro. Fotógrafos e jornalistas afluem do mundo inteiro. A Daspu torna-se descolada.

Em junho, a marca já havia vendido mais de 5.000 camisetas nas butiques da moda do Rio de Janeiro, de São Paulo, e também na Internet, o que permitiu à marca obter um lucro substancial. “Nem mesmo o maior gênio do marketing poderia ter imaginado uma campanha tão bem-sucedida!”, comenta com entusiasmo Flavio Lenz, o assessor de imprensa e marido de Gabriela Leite, a diretora da ONG.

As passarelas tornam-se palanques. Na esteira dessa paixonite, as reivindicações da Davida ganham visibilidade. “Nós queremos acabar com os preconceitos e as discriminações contra as prostitutas, e o jeito é fazê-las desfilarem nas passarelas. Por serem de todas as idades e com as suas formas generosas, elas rompem com os estereótipos da beleza. É também uma maneira de devolver-lhes confiança”, garante Gabriela Leite, que, por sua vez, parou de se prostituir para dedicar-se à associação. “Muitas delas optaram pela prostituição, mas não assumem o seu trabalho por causa do preconceito que a profissão desperta nos outros”.

Ela espera que o sucesso da marca consiga mudar a maneira de ver da sociedade, de modo que a prostituição seja enquadrada juridicamente. Isso porque, enquanto a sua prática é legal no Brasil ela não está regulamentada. “As prostitutas não têm direito algum: nem aposentadoria, nem previdência social. Contudo, elas são cidadãs iguais a todos os outros. Aos 60 anos, algumas delas seguem se vendo obrigadas a trabalhar na calçada para garantir a sua sobrevivência. Ora, a concorrência das garotas novinhas é rude, e os clientes tornam-se mais raros”.

Além de constituir um meio para mudar a sociedade, a Daspu em primeiro lugar quer servir de terapia para as suas garotas. Ao expô-las aos projetores e aos flashes dos fotógrafos, a associação faz muito em benefício da sua estima pessoal. Aquelas que fazem inúmeros “programas” às noites nas vielas escuras do Rio, por alguns reais, de repente são tratadas assim como stars. Ao aderirem a esse novo padrão de vida que inclui hotéis de luxo, sessões de fotos, viagens de avião, as garotas da Daspu vivem um verdadeiro conto de fadas e despertam a inveja das outras prostitutas que com elas compartilham o mesmo trecho de calçada.

Jane, 32 anos, uma das modelos mais destacadas da marca, conseguiu “roubar o espetáculo” da top-model Gisele Bündchen durante a mais recente edição da Fashion Week do Rio, em junho passado. Hoje, Jane é reconhecida na rua. Ela se sente finalmente respeitada. A Daspu deu-lhe a coragem para confessar a sua condição de soropositiva, que ela escondia há dez anos, e a vontade de contar a sua vida num livro. Por meio de palavras cruas e sem muito pudor, ela conduz o leitor até os bastidores do universo pouco conhecido e mal considerado dos hotéis de randevu, afirma o seu amor transbordante pelo sexo.

Contudo, enquanto elas conseguem aceitar mais facilmente a si mesmas como mulheres, algumas delas ainda não conseguem se aceitar como prostitutas. “Quando eu desfilo na passarela, sinto-me mais bonita e esqueço-me da minha profissão. Eu gostaria de parar de me prostituir para tornar-me modelo”, confessa Maria. Uma mulher da noite já faz mais de trinta anos “por necessidade financeira”, ela não gosta de pronunciar a palavra “prostituta” e prefere apresentar-se como modelo.

Assim como todas as outras garotas da Daspu, ela trabalha também a serviço da Davida, em atividades de prevenção contra as doenças sexuais transmissíveis. Duas vezes por semana, ela vai até a Praça Mauá, onde ela visita bares, discotecas e clubes de strip-tease para distribuir preservativos para os clientes e as garotas. Trata-se de um engajamento ideológico e pecuniário que lhe rende R$ 300 por mês.

Enquanto o sucesso junto à mídia e de marketing da marca é inegável, o seu impacto sociológico e político permanecem difíceis de medir. Já faz três anos, um projeto de lei que visa a regulamentar a prostituição segue trancado numa gaveta do Parlamento. O seu autor, Fernando Gabeira, é deputado federal do Partido Verde e foi candidato nas eleições legislativas de 1º de outubro. Apelidado de “um puta de um deputado”, ele aprova a iniciativa da Daspu, cujas reivindicações são um dos seus temas de campanha.

“As prostitutas desempenham um papel importante na sociedade”, afirma. “A prostituição deve ser entendida como uma indústria, e o proxeneta como um diretor de empresa que fornece serviços aos seus clientes”. Gabeira espere que o seu projeto seja colocado na pauta do Congresso durante a próxima legislatura, mas ele permanece, por enquanto, distante das preocupações dos eleitos.

As instituições não parecem estar prontas, de fato, para aceitar uma tal mudança: “O Brasil é um país tradicionalista e conservador, que sofre com a influência das Igrejas católica e evangélica sobre o poder político”, explica Jacqueline Pitanguy, uma socióloga e presidente da associação feminista Cepia (Cidadania, Estudos, Pesquisas, Informação, Ação).

Inversamente, a sociedade parece ter sido conquistada pela Daspu: “A grife se parece muito com o Brasil, e, sobretudo, com o Rio. O lado diferente a o humor que emanam da marca seduziram os cariocas”, constata a socióloga. “Na França, a mesma iniciativa teria provocado uma maior quantidade de discussões e teria certamente exercido um impacto menor sobre a sociedade”.

Contudo, o fenômeno Daspu já está irradiando muito além das fronteiras do Brasil. E leva consigo a esperança, para Gabriela Leite e Flavio Lenz, de exportar a sua mensagem. As camisetas da marca, que já vêm sendo comercializadas em sete países, em breve serão acompanhadas de um livreto explicativo das reivindicações da Davida. “Todo mundo pode compreender o nosso discurso, já que a prostituição existe em todos os países”, comenta Flavio Lenz, o assessor de imprensa da companhia. “Nós esperamos que a marca possa suscitar o debate em todos os lugares onde ela for comercializada”.

Esta onda acaba justamente de arrebentar na França, graças à iniciativa da Modafusion, uma organização especializada em incentivar os intercâmbios entre estilistas franceses e brasileiros.

A “concept store” (loja conceitual) Colette expõe na Rua Saint-Honoré, em Paris, em seu espaço destinado aos profissionais, camisetas e um biquíni da Daspu. Trata-se de um primeiro passo que poderia lançar a marca na França, caso houver interesse do mercado e encomendas forem fechadas. Por sua vez, a estilista de lingerie de alto luxo Fifi Chachnil, que veste Madonna e Vanessa Paradis, aceitou ser a madrinha da Daspu. Junto com Rafaela Monteiro, ela está criando atualmente a primeira linha de roupas íntimas da grife. O tema da sua coleção: as pin-ups dos anos 60. A coleção deverá estar pronta em junho de 2007 e estará à venda na França e no Brasil.

Seduzida pela sua dimensão social e ética, a companhia francesa de lojas de departamentos Galeries Lafayette também se mostrou interessada com a grife. A possível implantação da Daspu na França não deixa de fazer sonhar as garotas do Rio, que já se imaginam desfilando nas passarelas de Paris, seguidas pelas “putes” francesas.

Tradução: Jean-Yves de Neufville. Publicado no Le Monde.

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Não tem mais o que fazer

Vereadores de Santo André evitam comentar título para Ronan M. Pinto

Araújo é o autor do projeto

Mesmo sendo apenas uma idéia do vereador José de Araújo (PMDB), a concessão de título de cidadão honorário de Santo André ao empresário Ronan Maria Pinto já cria certo constrangimento entre os vereadores da cidade, que se mostram divididos com relação ao assunto.

Questionado sobre o provável projeto nesse sentido, o vereador José de Araújo se esquiva: “Não quero falar muito sobre isso, já que não está nada certo. Antes de qualquer coisa, vou conversar com os vereadores, para saber a opinião de cada um”.

Ele explica que o título para o empresário, que é sócio de empresas de ônibus da cidade e de um jornal diário da região, ainda será discutido com os vereadores. Mas, por enquanto, o projeto permanecerá embrionário, porque ele alega estar “no momento, com muito trabalho na Câmara. Temos diversos assuntos em pauta”.

Porém, o parlamentar admite que seja dele a idéia de outorgar o título de cidadão andreense ao mineiro Ronan Maria Pinto. “Mas se o título será entregue, ou não, é uma outra história. Isso depende dos demais vereadores”.

O vereador Marcos Antônio Medeiros (PSDB), indagado sobre a idéia do seu colega peemedebista, afirmou: “Não conheço o empresário o suficiente para aprovar a entrega de um título de cidadão andreense”, admitindo que orientou o vereador José de Araújo, a fazer um levantamento sobre a vida do empresário antes dele tomar alguma decisão.

Já os vereadores Itamar Fernandes e Dinah Zecker alegaram desconhecer o assunto e anteciparam não ter ainda nenhuma posição sobre a concessão do título ao empresário.

Ronan Maria Pinto, um dos sócio-majoritários do Diário do Grande ABC, tem participação acionária em pelo menos 75% das empresas do setor de transportes da cidade. Já foi investigado pela Promotoria Pública sob a suspeita de fazer parte do grupo que mantinha um esquema de propinas em S.André.

A provável apresentação de projeto concedendo o título de cidadão andreense ao empresário Ronan Maria Pinto, está causando constrangimento entre os vereadores de Santo André

ABC Repórter - 23/11/2006

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Para Aziz Ab’Saber, transposição do rio São Francisco é demagógica

Mateus Alves

Nesta semana, entrevistamos com exclusividade o geógrafo e professor da USP (Universidade de São Paulo) Aziz Ab’Saber. O geógrafo fala sobre a transposição do rio São Francisco, sobre o panorama do desmatamento da Amazônia e analisa as políticas relacionadas ao meio ambiente conduzidas pelo governo Lula durante o seu primeiro mandato, além de traçar prognósticos para o futuro.

Correio da Cidadania: A questão da transposição do rio São Francisco voltou à tona recentemente, com membros do governo dizendo que se vive um “momento político adequado” para a realização do projeto. Qual a sua opinião sobre o assunto?

Aziz Ab’Saber: Eu achei esquisito, pela centésima vez, que alguém do governo atual viesse falar da questão da transposição e, ao mesmo tempo, dizer que há um ambiente político favorável. Isso é exatamente o que não gosto, e tenho as minhas razões para isso.

Escrevi um trabalho que será publicado na revista da USP explicando todos os problemas que me deixam preocupado com esse projeto. A primeira coisa é que eu participo de um tipo de planejamento para áreas grandes, como o Brasil, que beneficie mais a área do que a linha, e mais a linha do que o ponto, como descrevo em um trabalho na revista Scientific American Brasil, intitulado “Planejamento: fatos pontuais, fatos lineais e fatos areolares (N. do Ed.: de grandes áreas)”. A Amazônia tem 4,2 milhões de km², ou seja, quase dois terços da parte principal da Europa; é muito grande. Como vamos encontrar um tipo de planejamento que seja indicado apenas para um ponto ou até para uma linha?

No Nordeste, isso é extremamente grave. O Nordeste tem 750 mil km² de área - minha medida é muito simples: até onde vão as caatingas, é Nordeste. E até onde há rios intermitentes, sazonários - rios que correm só durante cinco ou seis meses e perdem a sua correnteza de seis a sete meses -, é Nordeste. Lá há a dualidade diferencial de estação seca e estação chuvosa; embora o conjunto seja relativamente muito quente, esfria um pouco com as chuvas.
Veja bem, esses 750 mil km² de área correspondem aos sertões e envolvem um pouco os agrestes, um pouco as transições entre agreste e sertão e depois os sertões mais secos, que o povo chama de “alto sertão”. É evidente que precisamos pensar na área como um todo. Apenas passar as águas da transposição para um outro rio é perigoso. Além do que, há problemas com as áreas de onde as águas sairão, pois se localizam no médio-baixo vale do São Francisco, que é a parte mais seca da região são franciscana - portanto, uma parte do Nordeste seco. Tirar a água dali para levá-la a outro sertão, porque lá irá servir para o desenvolvimentismo etc., é uma coisa séria, pois também é necessário se pensar na população que vive na beira do São Francisco e que é muito pobre; e não há nenhum motivo para um desenvolvimento maior nessas bases.

Além disso, perto de Xique-Xique, em plena região semi-árida, há um paleodeserto, um antigo campo de dunas de 7 a 8 mil km², que é totalmente arenoso e recoberto por uma relva, sempre verde e homogênea. Ali está havendo desgastes diversos.

Os problemas aparecem de todos os lados. Eu não seria contra a transposição das águas para além-Araripe se o governo tivesse noção do conjunto, se pensasse em todas as áreas. No artigo da Scientific American, eu disse que, no atlas do Império brasileiro de 1860, há um trabalho de um dos Cândido Mendes, tataravô de um desses que estão vivos hoje, em que ele coloca todos os nomes das comarcas do Ceará dentro de um mapa. Então, é fácil identificar os sertões segundo a nomenclatura do povo - e foi essa nomenclatura do povo que deu origem às comarcas, elas não surgiram a partir de um planejamento.

Eu participo do ideário de um planejamento que atenda a todos os sertões, e não apenas ao vale do Jaguaribe. Na época em que foi ambientada essa história de iniciar a transposição, diziam que “o problema é apenas começar” - isso, no fim de um governo. Foi algo altamente demagógico, e fiquei muito triste.

No meu ponto de vista, sem pretensão de dizer que sou um planejador único - outros terão talvez outras considerações -, para empregar dinheiro do contribuinte brasileiro para o Nordeste, é necessário que os projetos afetem todos os sertões da região. Essa é a minha luta. Não sou contra a transposição, mas sou contra a demagogia do PT de dizer que a transposição das águas irá eliminar os problemas do semi-árido brasileiro. Isso é uma idiotice, uma frase perigosa, que indica falta de conhecimento, falta de noção de planejamento, falta de inteligência e, ao mesmo tempo, é uma situação demagógica.

CC: E não há nenhuma indicação de alguma proposta que seja complementar para o combate aos problemas no semi-árido?

ABS: A proposta complementar seria a seguinte: fazer primeiro a revitalização do rio São Francisco. Esse é um outro nome muito curioso, pois querem “revitalizar” um rio de 2 mil quilômetros de extensão, desde a sua cabeceira até a região onde vai ser feita a transposição, em Cabrobó, perto da represa de Sobradinho. Uma “revitalização” de um rio desse tamanho, que recebe poluição de numerosas cidadezinhas e depois recebe a poluição da região industrial sidero-metalúrgica de Belo Horizonte, é algo extremamente difícil, não pode ser feita em dez, quinze ou vinte anos. Quando dizem que, “primeiro vamos fazer a revitalização e depois a transposição”, dizem isso sem nenhuma noção de tempo e de dificuldades. E por outro lado, tal como o São Francisco está, se for transposto, terá poluição, sua água não será potável. Além disso, quando cair do outro lado do Araripe, cairá primeiro no reservatório de Oróz, que é o maior do Nordeste e que está salinizado. É preciso ter um pouco de honestidade e dizer que, do jeito que está, a coisa não serve para todos.

Porém, ao mesmo tempo, a transposição servirá para aumentar a irrigação ao longo das margens do Jaguaribe. Só que é necessário atenção: muitas outras áreas que poderiam receber também a irrigação, como é o caso de certas regiões no próprio São Francisco, não tiveram a possibilidade de vencer com políticas públicas corretas e com incentivos. Então, não é fácil dizer que, apesar de poluídas e salinizadas, as águas servirão para a irrigação. Isso também me deixa bastante cético.

O pior de tudo foi o fato de, logo após a vitória de Lula, alguém vir e dizer que é “um momento político favorável para realizar a transposição”. Deus meu, que tristeza.

CC: O senhor acredita que, como anteriormente, a tentativa de dar início à transposição será marcada por uma ausência de debate entre o governo e outros setores da sociedade?

ABS: Acho que não, certamente vai haver debate. Eu talvez me cale, já falei demais; a minha crítica será o silêncio. Além disso, não quero mais fustigar pessoas das quais gosto, mas cuja inteligência não respeito. O governo Lula não conseguiu fazer nada, foi odioso. Pensaram só na economia e não conseguiram fazer nada a serviço dos diferentes quadrantes da Amazônia, nem a serviço das diferentes comunidades que vivem em diversos sertões do Nordeste semi-árido.

CC: E o senhor possui alguma expectativa de que esse quadro se reverta no segundo mandato? Como isso poderia ocorrer?

ABS: Eu espero que sim, que isso se reverta. Para isso, é necessário ter gente competente, honesta e ética nos diferentes ministérios, pois o futuro hoje está na mão de pessoas extremamente incapazes de pensar sobre os tempos que virão. Durante o primeiro mandato, por exemplo, o Ministério do Meio Ambiente apoiou todo o tipo de coisa, como concessão de zonas para ONGs estrangeiras. Isso é uma maneira de vender a Amazônia indiretamente, pois o prazo de concessão é de 30, 60 anos.

CC: Sobre a Amazônia, a questão da queda do desmatamento na região, celebrada pelo governo em diversas ocasiões, não passa de factóide?

ABS: O governo não controla desmatamento nenhum. O que deviam dizer é que, “se o desmatamento continuar nos níveis atuais, como será daqui a 30 ou 40 anos?”. Essa é a preocupação dos cientistas que querem defender a diversidade da Amazônia e que não se encantam apenas com números. O governo petista, durante um tempo muito grande, só cuidou de números, e, em relação à realidade, ao tempo futuro, nada foi muito bem estudado - infelizmente. Precisamos pensar a questão dos recursos naturais e a questão da preservação indispensável de uma área de biodiversidades remanescentes única no mundo, como é a Amazônia, a partir de diferentes profundidades de tempo, não apenas no espaço temporal de uma gestão ou de uma reeleição.

Publicado em Correio da Cidadania.

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Crise abala Congresso em Bogotá

Suposta ligação de parlamentares com grupos paramilitares causa rumores sobre fechamento do Legislativo
COLÔMBIA

A Colômbia descartou ontem a possilibidade de fechar o Congresso, no centro de um escândalo político sem precedentes por causa da suposta ligação de parlamentares com esquadrões paramilitares de ultradireita. A crise abala o governo do presidente Álvaro Uribe, sobre o qual também pairam suspeitas de vínculos com os paramilitares.

A crise ganhou corpo há uma semana, quando o Supremo Tribunal do país ordenou a captura de dois senadores e um deputado aliados de Uribe no Congresso, sob a acusação de terem financiado e apoiado a formação desses esquadrões, que teriam massacrado milhões de civis.

Altos funcionários do tribunal admitiram que outros congressistas aliados de Uribe poderiam ser investigados, fazendo o escândalo estender-se a figuras-chave do governo. Um desses parlamentares seria Alvaro Araújo, irmão da chanceler María Consuelo Araújo. Uribe descarta a possibilidade de demissão da ministra por causa do escândalo.

Os senadores Álvaro García e Jairo Enrique Merlan e o deputado Erik Julio Morris, os primeiros envolvidos na investigação por vínculo com os paramilitares, estão presos depois de se apresentarem voluntariamente às autoridades.

Ainda que já se falasse havia vários anos da infiltração paramilitar no Congresso, é a primeira vez na história do país que se abre uma investigação criminal e se ordena a prisão de parlamentares por esse motivo.

Os paramilitares são grupos armados ilegais que surgiram na década de 1980 com o apoio econômico de fazendeiros, criadores de gado, comerciantes e traficantes perseguidos pela guerrilha de esquerda. Na semana passada, antigos comandantes desses esquadrões que se desmobilizaram como parte da negociação de paz com o governo de Uribe admitiram que tiveram apoio político, social e militar de várias pessoas em sua luta contra as guerrilhas esquerdistas.

Em meio à negociação de paz, mais de 31 mil combatentes entregaram as armas, enquanto os antigos chefes paramilitares acusados de assassinatos, massacres, seqüestros, desaparecimentos e narcotráfico aguardam uma pena de cinco a oito anos de prisão. Uribe desafiou seus críticos a apresentarem provas sobre a suposta cumplicidade com esses esquadrões.

REUTERS

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A vida desenvolveu-se na Terra só depois do esfriamento dos oceanos

Novos estudos contrariam a teoria segundo a qual o nosso planeta, em tempos remotos, era totalmente gelado; na verdade, o contrário teria ocorrido

Por Stéphane Foucart

Qual fisionomia tinha a Terra há 3,5 bilhões de anos? Raros são os sinais materiais que permitem saber disso, e a questão vem sendo objeto de debates acirrados na comunidade científica. As análises de rochas siliciosas, que vêm sendo realizadas há três décadas, haviam incitado alguns pesquisadores a propor a hipótese segundo a qual os oceanos do período pré-cambriano eram muito quentes, mas os seus argumentos permaneciam frágeis.

Novas pesquisas que foram realizadas nos mesmos sedimentos, e cujos resultados foram publicados na quinta-feira, 26 de outubro, na revista “Nature”, conferem um peso maior a esta teoria. Elas sugerem que as temperaturas oceânicas conheceram um ápice, entre 50 ºC e 80 ºC há 3,5 bilhões de anos. E que elas teriam dado início a um processo de queda importante há 2 bilhões de anos até alcançar, há cerca de 550 milhões de anos, uma temperatura de 20 ºC (hoje ela é de cerca de 30 ºC).

Esta diminuição das temperaturas poderia ter permitido “a explosão cambriana”, evento este que correspondeu a uma grande diversificação das formas de vida e que remonta, segundo os paleontólogos, a entre 520 e 540 milhões de anos.

Até então, a análise das relações entre os diferentes isótopos do oxigênio contido nessas rochas - chamadas de “cherts”, ou seja, sílex córneo - permitia efetivamente pensar que os oceanos devem ter sido quentes. “Mas muitos cientistas estavam céticos, na medida em que as temperaturas em questão poderiam ter refletido não a dos oceanos, e sim aquela, local, de fluidos hidrotermais, por exemplo”, explica Marc Chaussidon, um pesquisador (do CNRS, o maior organismo de pesquisa científica público francês) no Centro de pesquisas petrográficas (relativas à classificação sistemática das rochas) e petroquímicas, e co-autor desses estudos. “Por meio de uma sonda iônica, nós efetuamos o mesmo tipo de trabalho para o silício contido nas mesmas amostragens”.

As relações entre isótopos do silício da rocha traduzem a sua solubilidade na água - e, portanto, revelam a temperatura que essa tinha no momento da formação das rochas. As indicações fornecidas pelo estudo do silício se revelam conformes àquelas do oxigênio.

“Efeito-estufa muito poderoso”

Para Édouard Bard, que é titular da cátedra de Evolução do clima e dos oceanos, no Collège de France (prestigioso estabelecimento de estudos superiores em Paris), “essas novas pesquisas vêm antes contrariar - mas sem questionar por completo a sua validade - as teorias conhecidas como da ‘Terra bola de neve’, segundo as quais o nosso planeta foi num passado distante totalmente gelado ou quase, durante períodos extensos ou de modo intermitente”.

“Essas teorias estão de acordo com as curvas de evolução da atividade estelar que foram elaboradas pelos astrofísicos”, precisa Édouard Bard. “Segundo esses modelos, no decorrer de um período situado entre 4 bilhões e 2 bilhões de anos, o Sol iluminava a Terra cerca de 10% a 20%menos do que hoje”.

Os oceanos, portanto, teriam se resfriado no decorrer de longos períodos, os quais, contudo, se caracterizaram por um aumento globalmente contínuo da atividade solar.

A inércia térmica dos mares é tamanha que é impossível pressupor que a atmosfera terrestre pudesse ter sido temperada ou fria com oceanos tão quentes. “Com isso”, acrescenta o professor Bard, “é possível imaginar que prevalecesse então um efeito-estufa muito poderoso, com importantes concentrações atmosféricas de dióxido de carbono ou de metano”. E, em decorrência disso, que, na sua primeva juventude, a Terra se parecesse mais com Vênus do que com Marte.

“Esses resultados poderiam também nos ajudar a explicar o porquê da ausência de sedimentos datados de 4,5 bilhões a 3,5 bilhões de anos”, sugere François Robert, um pesquisador (do CNRS) no Museu nacional de história natural e co-autor desses estudos. “É possível que no decorrer deste período as temperaturas tivessem sido tão elevadas que toda a água disponível na Terra existisse apenas sob forma gasosa”. De fato, na ausência de água líquida os sedimentos não podem se formar.

Tradução: Jean-Yves de Neufville. Publicado em Le Monde.

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ENTREVISTA – ALCEU VALENÇA

Antropofagia em demasia acaba com tradições populares

Poucos compositores brasileiros atingem o equilíbrio estético entre as tradições das culturas populares e o extenso universo eletrônico pop. Alceu Valença conseguiu. Em entrevista exclusiva, Alceu fala do espetáculo da próxima semana e de projetos futuros, da responsabilidade do poder público em definir políticas culturais para as tradições regionais e do vício antropofágico brasileiro.

Carlos Gustavo Yoda – Carta Maior

SÃO PAULO - Poucos compositores brasileiros conseguem atingir o equilíbrio estético entre as tradições das culturas populares e o extenso universo eletrônico pop. Alceu de Paiva Valença, de São Bento do Una (PE), conseguiu. E hoje, depois de 36 anos de carreira, pode falar como poucos sobre o universo da indústria cultural e das manifestações populares pernambucanas.

Alceu estará no Rio de Janeiro, dia 11, e em São Paulo, dia 15, juntamente com dezenas de artistas pernambucanos para o espetáculo de lançamento do Carnaval de Recife, em uma iniciativa da prefeitura do capital pernambucana. Muitos ritmos serão lembrados e revisitados no repertório que traz do frevo ao maracatu. Além dele, o evento terá intérpretes como Lirinha, Lenine, Silvério Pessoa. Alceu acabou de gravar também um DVD de um show só de frevos realizado na praça do Marco Zero, em Recife, com 140 mil pessoas fantasiadas, que será lançado em dezembro.

O pré-carnaval e o lançamento do DVD reafirmam em uma só voz a necessidade da preservação das culturas populares brasileiras. “A cultura popular aqui ainda resiste dentro das pessoas, na alma, no coração. O verdadeiro que pulsa dentro de cada um. Agora, as coisas estão aparecendo depois da internet. É muito pouco o apoio para a cultura popular. Então o processo é natural, é do ser humano. As novas tecnologias apenas ajudaram a libertar isso”, afirmou esse “ateu comovido à procura de fé”.

Em entrevista exclusiva à Carta Maior, Alceu Valença falou do espetáculo da próxima semana e de projetos futuros, da responsabilidade do poder público em definir políticas culturais para as tradições regionais e do vício antropofágico brasileiro.

Carta Maior – Parece que as culturas populares estão em ebulição nos últimos tempos. É alguma tendência?
Alceu Valença – Não é tendência. Um país como o Brasil, com toda essa diversidade, tem tradições muito fortes. Um país que perde sua cultura popular se acaba. Existe em quase todos os lugares a desconstrução de suas raízes. E isso é claro resultado da hegemonia da indústria cultural norte-americana. Ligamos a televisão e só tem coisas de fora. A cultura popular aqui ainda resiste dentro das pessoas, na alma, no coração. O verdadeiro que pulsa dentro de cada um. Agora, as coisas estão aparecendo depois da internet. É muito pouco o apoio para a cultura popular. Então o processo é natural, é do ser humano. As novas tecnologias apenas ajudaram a libertar isso. Mas eu procuro um equilíbrio nisso. Eu não digo que precisamos nos fechar para o que vem de fora. Só que não podemos perder nossas referências. Cadê os seguidores do Cartola e do Nelson Cavaquinho? Eles estão se perdendo. Precisamos regar as fontes dos mestres populares.

CM – Mas de quem seria a responsabilidade, então, de fazer esse resgate de referências?
AV – Dentro de um mundo globalizado, cabe ao poder público mostrar as referências de tradição e identidade para seu povo. Atrás da culinária francesa, existe uma tradição. Assim como no tango argentino, o fado português, o rock norte-americano. E parece que o Brasil nega sua tradição como se fosse um pecado.

CM – Em uma entrevista, certa vez, o sr. afirmou que “de tanta antropofagia, o brasileiro acaba perdendo as referências”. Há um exagero antropofágico no Brasil?
AV – Perfeitamente. Colocam isso como uma pedra filosofal. Antropofagia sempre existiu. Isso não é uma tradição brasileira. Agora, a partir do momento que você começa a perder toda a sua referência, não existe identidade. O mundo não tem mais barreiras. Se a cultura regional e popular desaparecer, não há mais sentido em existir essas divisões entre países. Todos serão iguais. É sobre identidade que estamos falando. Não estou macaqueando os norte-americanos. Tenho um respeito profundo pelo rock, pelo blues e pelo jazz. Mas eu vejo que eles têm respeito por isso. Aqui as pessoas se justificam: eu faço uma mistura disso com aquilo. Que coisa babaca. Isso é uma bobagem. Não que as tradições não devam ser trabalhadas, mexidas e evoluídas. Mas com a velocidade que a indústria cultural massacra as coisas, não chegaremos muito longe. Você liga a TV a cabo e só vê coisas norte-americanas. E quando não é, não passa de uma imitação barata daquilo.

CM – E de que forma o poder público poderia interferir nisso?
AV – Sobre tudo precisa rever o que é paradigma cultural. Eu não falo essas coisas em meu nome. Eu já estou consagrado, todos os meus shows estão lotados. Mas é responsabilidade minha, também, pensar a cultura brasileira. Está faltando aparecer o artista brasileiro. Eu nunca tive tanto público quanto agora. Isso é sinal de que está faltando.

CM – Mas novas expressões boas existem, só que não aparecem…
AV – É claro. Isso é o resultado de uma indústria cultural falida. Tem uma porção de gente fazendo música contemporânea brasileira, fundada no samba, no maracatu, no forró. Mas não é de bom grado de quem detém a indústria, de quem detém os meios de comunicação. Agora, quando o governo tenta intervir para melhorar as coisas, chegam esses colunistas dizendo que é stalinismo. Não passam de um bando de babacas (risos).

CM – E qual avaliação o sr. faz do Gilberto Gil no Ministério da Cultura?
AV – Os Pontos de Cultura são projetos excelentes, que valorizam as tradições populares e regionais. Agora todo mundo sabe que a verba do Ministério é pífia, e o Gil pouco pode fazer com isso. Mas ao menos fez. Agora, cabe que todo mundo coloque em discussão a comunicação. Tem que ter responsabilidade, tem que divulgar a cultura nacional. É difícil. Mas tem algumas coisas que podem ser feitas. Há de haver algum acordo com os meios para divulgar a cultura brasileira. A proposta de cotas em rádios e na televisão seria um grande avanço. Hoje em dia, as gravadoras não têm nem mais dinheiro para fazer clipes. A indústria cultural está à beira da falência. Há um buraco na programação, que está sendo explorado pelo que vem de fora. O jabaculê sempre existiu, e não se faz nada. E a pirataria corre solta e ninguém faz nada.

CM – No dia 11, no Rio de Janeiro, e dia 15, em São Paulo, o sr. vai participar de um espetáculo de lançamento do Carnaval de Recife. Como será a composição do espetáculo?
AV – O Carnaval de Pernambuco é sem dúvida uma coisa maravilhosa, com toda a diversidade de tradições e culturas. E a prefeitura do Recife está fazendo esse projeto de divulgação do carnaval. Vão participar eu, Silvério Pessoa, Lenine, Lirinha, Elba Ramalho, Orquestra do Maestro Spok, Maracatu Nação Estrela Brilhante, Lula Queiroga, entre outros tantos. Será um show dividido pelos intérpretes e em alguns momentos estaremos todos reunidos no palco. No Rio, vai ser no Circo Voador e, em São Paulo, no Citibank Hall. Ainda não sabemos se iremos levar isso para mais lugares.

CM – O que o sr. está desenvolvendo trabalho novo?
AV – O DVD é a grande novidade: Alceu Valença Marco Zero. Foi o show de maior público até hoje no Recife. 140 mil pessoas fantasiadas. E o show foi lindo, com participação do Silvério Pessoa, Daúde e Paula Lima, além da banda Spok. Tudo isso vai ser lançado em dezembro nas lojas.

CM – E o filme “Cordel Virtual”, em que pé que está?
AV – Está na agenda do dia. Hoje mesmo estava cuidando do roteiro. Já conseguimos captar uma parte dos recursos. Mas ainda estamos meio sem perspectivas de quando conseguiremos toda a verba para começar a gravar.

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Nietzsche, Bob Dylan, Janis Joplin, Platão…

À luz da música pop, “Vitaminas Filosóficas” utiliza grandes pensadores como fórmula prática do bem-viver

VLADIMIR SAFATLE
ESPECIAL PARA A FOLHA

Um dos fenômenos mais pitorescos na vida cultural do Brasil dos últimos anos é o crescente interesse pela filosofia (ou por algo que se aproxime dela).

Cursos de difusão cultural, revistas de grande circulação, spots de televisão com pérolas filosóficas: tudo isso parece que veio para ficar.
É possível que se trate de um fenômeno heteróclito para o qual convergem práticas e expectativas diversas. Mas há uma dimensão desse interesse pela filosofia que é visível para qualquer um que se aventure a deslizar os olhos por livros como: “Mais Platão e Menos Prozac” (um clássico do gênero), “Nietzsche em 90 Minutos” ou o mais recente “Vitaminas Filosóficas - A Arte de Bem Viver”.

Todos eles são animados pelas mais belas intenções. Tais livros querem retirar a linguagem “empolada” da filosofia universitária, criticar a divisão entre alta e baixa culturas, entre o pensar e o corpo, entre sofrimentos cotidianos e grandes questões existenciais. Em suma, trata-se de reconciliar o pensar e a alegria de viver.

Até porque trazem sempre a mesma mensagem edificante: a filosofia é uma arte do bem-viver, um pouco como se a “Fenomenologia do Espírito” [de Hegel] fosse apenas uma versão mais complicada de “como descobrir a si mesmo sem precisar gastar dinheiro com um novo guarda-roupa”.

Nesse sentido, “Vitaminas Filosóficas”, do amante do rock e filósofo Theo Roos, é o que os profissionais de marketing chamariam de “um case de sucesso”. Durante dois anos, uma rede de TV alemã apresentou tais vitaminas na forma de programa seriado. Agora, elas estão disponíveis em um livro em que Schopenhauer, Nietzsche, Sócrates são comentados com a ajuda de Bob Dylan, Janis Joplin e Van Morrison.
O resultado é descobrir que Schopenhauer nos ensina que devemos “desfrutar o presente, cuidar da saúde, ser nós mesmos e [esta é a melhor] imaginar-se no espaço, olhando para a Terra lá embaixo”.

Da mesma forma, o “âmago” da filosofia de Nietzsche não seria outro que o inaudito: “É preciso aprender a amar. E também aprender a amar o outro, o estranho em nós”. Mas, se assim for, por que comprar um livro caro como “O Mundo como Vontade e Representação” se tudo o que você vai encontrar nele está em qualquer pocket de auto-ajuda de R$ 10?

Dupla traição

É claro que sempre terá alguém a dizer que livros como este, por mais rasos que sejam, são importantes por despertar o interesse pela filosofia e demonstrar que clássicos do pensamento “podem falar conosco, na nossa linguagem”.

A esse respeito, vale lembrar que quem trai na forma trai no conteúdo. O estilo da escrita não é exterior ao objeto do qual se fala, e isso vale principalmente para a escrita filosófica.

O verdadeiro aprendizado consiste no trabalho paciente de confrontação com textos cuja escrita impõe um tempo para compreender, tempo que não se submete à ânsia terapêutica de quem está atrás de conhecimento em pílulas para curar desconfortos do cotidiano ou de quem tenta submeter toda experiência intelectual à transparência plena de uma linguagem instrumental de administrador de empresas.

O mínimo que se pode dizer de quem começa imaginando que a filosofia supre tais demandas é que começou mal. Por outro lado, essa maneira de reduzir a filosofia a uma arte do bem-viver feita de promessas de transgressão publicitárias e de descobertas de novas reconciliações é, no fundo, um sintoma típico da nossa época.

Uma época que não se reproduz mais por meio da apresentação de normatividades e padrões estritos, mas que, ao contrário, se alimenta da transgressão de seus próprios padrões e normas. Que transforma a transgressão em mercadoria. Nesse sentido, produtos como livros de auto-ajuda filosófica estão organicamente vinculados à ideologia do estágio contemporâneo da indústria cultural. Contra eles, devemos lembrar os momentos em que a filosofia não foi associada à cura, mas à doença. “O homem que pensa é um animal doente” é uma frase que faltou ao livro.

Ela serve para lembrar que, em certas situações, a melhor coisa a fazer é recusar a cura; até porque a doença é o que muitas pessoas têm de mais real.

VLADIMIR SAFATLE é professor no departamento de filosofia da USP e autor de “A Paixão do Negativo - Lacan e a Dialética” (Unesp). Publicado em Folha de S. Paulo.

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17% dos seres humanos carecem de água potável

Essa proporção corresponde a 1,1 bilhão de pessoas, enquanto 2,6 bilhões não dispõem de saneamento básico

Por Alain Faujas

No seu relatório mundial para 2006, que foi publicado na quinta-feira, 9 de novembro, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) pede que a comunidade internacional reconheça o direito fundamental de todo ser humano a dispor de ao menos 20 litros de água potável por dia, gratuitos para os mais pobres.

A decisão da organização internacional de enfatizar, neste ano, a crise hídrica é motivada por estatísticas alarmantes: 1,1 bilhão de pessoas não dispõem de água potável, enquanto 2,6 bilhões carecem de qualquer saneamento básico adequado.

Todo ano, 443 milhões de dias de escolaridade são perdidos por causa dessas patologias. Mais grave ainda: 1,8 milhão de crianças morrem de infecções transmitidas pela água insalubre. Milhões de mulheres perdem cotidianamente várias horas para ir buscar a água necessária para a sua família, enquanto os habitantes das favelas pagam pela sua água valores de cinco a dez vezes superiores àqueles pagos pelos residentes das áreas favorecidas.

O relatório estima que a África, por exemplo, desperdiça todo ano 5% do seu produto interno bruto (PIB), por causa dessas carências. Os Objetivos do Milênio que foram adotados em 2000 pelas Nações Unidas prevêem reduzir pela metade, daqui até 2015, o número dos que estão carentes de água potável e de saneamento.

Mas, quando se verifica a situação atual das políticas governamentais e dos créditos que foram desbloqueados, esses objetivos não têm chance alguma de serem atingidos, ainda que “não falta água no mundo”, segundo Kermal Dervis, o administrador do PNUD. Este setor desponta como muito pouco prioritário nas despesas públicas dos Estados, que lhe dedicam menos de 0,5% do seu PIB e preferem investir em outras áreas. Assim, o orçamento militar do Paquistão é superior em 47 vezes àquele da água e do saneamento.

“Guerras da água”

Contudo, os estudos mostram que no Peru, o acesso facilitado a toaletes convencionais reduziu a mortalidade infantil de 59%, e que esta proporção foi de 57% no Egito. Atingir os Objetivos do Milênio salvaria a vida de um milhão de crianças no decorrer da próxima década e economizaria US$ 38 bilhões (R$ 81,34 bilhões) por ano.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima cada dólar que é investido nos países de renda reduzida tem um rendimento de cerca de 8 dólares. Além do mais, a facilitação do acesso à água seria um meio eficaz de proteger 830 milhões de pessoas da população rural que sofrem de desnutrição e estão ameaçadas pelo aquecimento climático.

Para fazer dos 20 litros de água potável cotidiana por pessoa um direito fundamental, o PNUD pede que os Estados coloquem a água e o saneamento no topo das suas prioridades, e que eles dediquem ao menos 1% do seu PIB para esses dois setores. Isso implica que “os fluxos da ajuda internacional sejam praticamente duplicados, isto é, aumentados em US$ 3,6 a US$ 4 bilhões [de R$ 7,71 a R$ 8,56] todo ano”, escrevem os autores.

Considerando que 90% da população mundial vivem em 145 países que compartilham seus recursos hídricos com outros países, alguns observadores concluíram disso que “guerras da água” serão inevitáveis.

Contudo, o PNUD não acredita nesta previsão, apesar de reconhecer que foram recenseados ao longo dos últimos cinqüenta anos 37 casos de conflitos entre Estados sobre a questão dos recursos hidráulicos, dos quais trinta ocorreram no Oriente Médio. O Programa da ONU cita também o caso extremo da asfixia do mar de Aral (Cazaquistão) que hoje recebe apenas o décimo do fluxo que ele recebia no passado, em razão da ausência de cooperação entre as ex-repúblicas da União Soviética.

Em contrapartida, ele destaca a importância da assinatura de 200 tratados destinados a organizar uma gestão comum da água. Apesar de duas guerras e das tensões persistentes, a Índia e o Paquistão gerem há meio-século bacias hidrológicas comuns, por intermédio da Comissão permanente para as águas do Indus.

Considerando-se o número cada vez mais elevado de pessoas que concorrem entre elas pelos recursos hídricos, o relatório do PNUD defende que os conflitos de interesses sejam superados por meio da cooperação e do diálogo.

Referências

Um indicador: O Programa das Nações Unidos para o Desenvolvimento (PNUD) classifica 177 países em função do seu índice de desenvolvimento humano (esperança de vida, instrução, renda real).

Os mais desenvolvidos: A Noruega ocupa o primeiro lugar. Ela é seguida pela Islândia, a Austrália, a Irlanda, a Suécia, o Canadá, o Japão e os Estados Unidos. A França ocupa o 16º lugar, o Reino Unido o 18º e a Alemanha o 21º.

Os menos desenvolvidos: Nos cinco últimos lugares figuram a Guiné-Bissau, o Burkina Faso, o Mali, a Serra Leoa e o Niger.

Uma comparação: Os noruegueses são quarenta vezes mais ricos que os nigerianos. Eles vivem por um tempo duas vezes mais longo e todos freqüentam a escola. No Niger, a taxa de escolarização é de 21%.

Tradução: Jean-Yves de Neufville. Publicado no Le Monde.

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IDH do Brasil melhora, mas país cai uma posição em ranking da ONU

Relatório traz estatísticas referentes a 2004 e indica aumento da renda e redução da desigualdade no país
O IDH do Brasil variou de 2003 para 2004 de 0,788 para 0,792, o que o mantém no grupo das 83 nações de desenvolvimento médio

ANTÔNIO GOIS
DA SUCURSAL DO RIO

LUCIANA CONSTANTINO
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Brasil melhorou entre 2003 e 2004, mas o país caiu uma posição, de 68º para 69º, no ranking da ONU que compara indicadores sociais e econômicos de 177 países e territórios. Esses dados foram divulgados ontem pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) em seu Relatório de Desenvolvimento Humano de 2006.
O documento traz estatísticas referentes principalmente ao ano de 2004, quando o Brasil registrou um crescimento de 4,9% do PIB (Produto Interno Bruto), o melhor do governo Luiz Inácio Lula da Silva.
Diferentemente do que ocorreu em anos anteriores, desta vez foi a renda, aliada ao avanço na expectativa de vida, o principal fator a contribuir para a melhoria do índice brasileiro. A educação, que nos últimos anos contribuiu positivamente, desta vez ficou quase estagnada.
Isso ocorreu em parte devido a uma mudança na metodologia de cálculo do índice e em parte por causa dos tímidos avanços na alfabetização de adultos.
O IDH do Brasil variou de 2003 para 2004 de 0,788 para 0,792, o que mantém o país no grupo das 83 nações de desenvolvimento humano médio (IDH entre 0,500 e 0,800).
Quanto mais próximo de 1, melhor é a situação do desenvolvimento humano. O país com melhores indicadores sociais no relatório foi mais uma vez a Noruega, com IDH de 0,965, enquanto o pior país foi também mais uma vez Níger, com índice de 0,311. Apesar do avanço brasileiro no IDH, o país perdeu uma posição porque Belarus (67º lugar) melhorou em um ritmo melhor. Acima do Brasil, na posição 68, está Dominica.
Na América Latina, 13 países tiveram desempenho superior ao do brasileiro, entre eles México, Cuba e Chile. Na expansão média anual, o Brasil teve avanços mais rápidos na segunda metade dos anos 80 e na segunda metade dos anos 90. Além da renda, um dos aspectos positivos levantados no relatório a respeito do Brasil foi a queda na desigualdade. Apesar de o Brasil ainda ostentar a 10ª maior desigualdade de renda entre 126 países para os quais há essa informação, o Brasil deixou de ser o mais desigual da América do Sul: foi superado por Bolívia e Colômbia.
Para obter esse avanço, o relatório diz que Brasil combinou forte performance econômica com o declínio da desigualdade e pobreza, elogiando o Bolsa Família, criado em outubro de 2003 para unificar os programas de transferência de renda. O desempenho brasileiro é avaliado pelo indicador de desigualdade de renda conhecido como Gini, que varia de 0 a 1 (o mais desigual). Nesse indicador, o Brasil tem 0,580. Ainda assim, continua um pouco mais desigual que África do Sul e Paraguai, ambos com 0,578.
Para o pesquisador do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) Sergei Soares, é preciso ter cuidado ao comparar indicadores de desigualdade de países muito diferentes porque, em muitos casos, as estatísticas não são de qualidade ou a renda não é o melhor critério. Ele diz, porém, que entre nações com informações relativamente confiáveis e comparáveis já está claro que o Brasil tem indicadores de desigualdade nos mesmos patamares de Chile e Colômbia, e que a África do Sul está roubando a “coroa” brasileira nesse ranking.
“O relatório traz excelentes notícias pelo lado da desigualdade, mas não fomos bem na educação. Durante a década de 90 tivemos excelentes notícias nessa área. A partir de 2000, no entanto, não houve quase nenhum avanço e a educação passou a jogar contra. Esse tem sido um ponto fraco do governo Lula, já que ainda não conseguimos aprovar o Fundeb e estamos com um sério gargalo no ensino médio”, diz Soares.
O secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do MEC, Ricardo Henriques, diz que a exclusão da matrícula de adultos no cálculo da taxa bruta de escolarização pesou no ranking: “A taxa de alfabetização de adultos está mantendo seu nível histórico de aumento. É uma pena que não esteja melhor e estamos trabalhando para acelerar isso, mas esse indicador influencia pouco no curto prazo o cálculo final. O que de fato prejudicou a posição do Brasil no ranking foi a exclusão de jovens e adultos no cálculo da taxa bruta de matrícula [razão entre o número de estudantes nos três níveis de ensino sobre a população de 7 a 24 anos].” Segundo Henriques, essa exclusão prejudicou o país: “O Brasil foi um dos mais prejudicados com a mudança porque fizemos um esforço grande no setor e que não aparecerá no cálculo do IDH”.

Publicado em Folha de S. Paulo.

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O que será que será? Adivinhas do tempo

E o homem sucumbiu às determinações econômicas que aceleravam o tempo através dos mecanismos de mercado que prometia felicidade pelo consumo, mas frustrava a promessa produzindo a escassez para mantê-lo em funcionamento.

Olgária C. F. Matos

Caro Arqueólogo do Futuro,

Entre os séculos XIX e XXI não se acreditava mais em Deus. A emancipação do homem seria obra sua. E Victor Hugo, em Os Miseráveis, sob o império do otimismo científico, dava a palavra ao estudante Enjolras: “Cidadãos, o século XIX é grande, mas o século XX será feliz”. Falava-se no término da sociedade organizada em condições dolorosas de trabalho e, com suas tecnologias, estava apta a passar “do socialismo científico ao socialismo utópico”. Porém, os resultados anti-humanos da tecnologia - as catástrofes da energia nuclear civil, a indústria bélica, a exploração produtivista da natureza, a escassez de recursos morais para “fazer dela o seu “órgão” - bem como a decepção diante dos gigantescos desenvolvimentos da técnica não convirem ao aprofundamento das democracias políticas - questionaram a fé no progresso. Mas a ele sucedeu a crença no destino - o fetichismo econômico. Com o que essa época diluiu a questão existencial e metafísica das incertezas da vida e da história pelo elogio da insegurança e do medo. Muitos consideravam a crise do futuro e sua heurística da desesperança.

O “mercado” passou a determinar todas as esferas da vida. Sociólogos, antropólogos, comunicadores faziam suas contas: em alguns países, era preciso mais tempo de trabalho do que em outros para adquirir o mesmo bem - o que permitia conhecer a geografia das riquezas e da miséria dos povos. Em 2006, por exemplo, um habitante de Nairobi precisava de 193 minutos de trabalho para consumir um hambúrguer Big Mac, 117 em Caracas, apenas 9 para um habitante de Chicago ou de Tóquio, 21 em Bruxelas ou Paris. Procuravam a “precisão” em cifras e números, estatísticas e gráficos; calculava-se tudo - o que resultava, freqüentemente, em aberrações. Assim, se em um determinado período o crescimento demográfico registrava um decréscimo do número de nascimentos, dizia-se que as mulheres tinham 4,3 filhos em média.

Eram os anos 2000. As determinações econômicas aceleravam o tempo através dos mecanismos de mercado. Fascinados, dirigentes empresariais buscavam o lucro a curto prazo, tinham obsessão pela performance e pelo desempenho produtivo anfetamínico; este levava os capitais ao deslocamento ininterrupto, de bolsa de valores em bolsa de valores, de país em país, onde permaneciam por prazos cada vez mais curtos. O novo espírito do capitalismo era o do “excesso”: falta de trabalho e desemprego, para muitos; transbordamento de tarefas, para outros. Por volta dos anos 1980, quando se falava em tempo de trabalho, diversamente dos anos 2000, era para reduzir suas horas semanais, na seqüência de lutas históricas dos trabalhadores do mundo todo para conquistar tempo livre. No século XIX, quando a ocupação nas cidades chegou a 16 horas diárias, seu aumento tanto absoluto quanto relativo era uma espécie de tortura: “durante um longo período as pessoas tentaram uma resistência desesperada contra o trabalho noturno ligado à industrialização. Trabalhar antes do amanhecer ou depois do pôr-do-sol era considerado imoral”, observava Robert Kurz. À maneira dos mercados financeiros o homem não devia dormir nunca.

Predominava o sentimento de não mais se ter tempo - percepção paradoxalmente também encontrada entre os desempregados. Na década de 1990, desaparecia a discussão pública sobre a redução das horas de trabalho e ingressava o aumento dos anos de trabalho ao longo da vida. A lógica contábil alegada nessa ocasião era a estabilidade atuarial da previdência social e eliminou completamente a questão de que, com os ganhos de produtividade pela automação e informatização, se o trabalhador fazia em uma hora o que antes fazia em duas, não precisava continuar a trabalhar duas. Ao que parece, a derrota mundial das esquerdas com a queda das ditaduras comunistas facilitou o esquecimento da questão.

A atividade sem trégua do modo de produção capitalista tornou-a desmedida, não tolerando o tempo livre, sequer o noturno de repouso, passividade ou contemplação. A economia exigiu a extensão e a intensificação da atividade até os últimos limites físicos e biológicos dos indivíduos. Prometia felicidade pelo consumo de bens materiais, mas frustrava a promessa porque produzia artificialmente a escassez para manter o mercado em funcionamento.

A temporalidade era patológica e se exprimia na ansiedade de “matar o tempo”, porque ele esvaziava-se de significado e instituiu-se o stress como ideal. Esse tempo era tamb