O sagrado na cratera da Rua Capri

À beira do abismo, a trama de vida e morte humaniza a relação do homem com seu destino

José de Souza Martins*

Ocorrências como a tragédia da Rua Capri, em São Paulo - terra, veículos e pessoas engolidos pelo escorregamento havido nas obras da Linha 4 do metrô -, põem a sociedade inteira diante da ruptura dos significados que constituem a teia imaginária que a sustenta. É nesses momentos que descobrimos que a sociedade não é apenas a vida cotidiana de seus membros, a rotina de cada dia. No silêncio de cada um está depositada a trama que dá sentido ao todo e a todos, as crenças que tornam a vida inteligível.

Vale a pena reconhecer expressões dessa trama de vida e morte na tragédia que ali ocorreu. Porque é a trama que humaniza a relação do homem com o seu destino. É a trama que sobrepõe ao perecível do corpo o imperecível da memória e do pertencimento. Nas entrelinhas do noticiário dramático é possível garimpar muitos indícios desse ser oculto que há em nós.

Sem dúvida, as vidas que se perderam, mas também as que se ganharam, na roleta do acaso, constituem a referência primeira para compreendermos o propriamente trágico do desastre. Privilegiado foi Israel Domiciano, 25 anos, lavador de carros num estacionamento ali perto. Atormentado por uma dor de dente, tentou correr atrás do microônibus, que já partira da estação Pinheiros, para chegar em tempo ao dentista. Assobiou, gritou em vão. O veículo avançou para o precipício que se abriu em seguida ali, diante dele. Mal teve tempo de escapar. Aquele foi o átimo em que teve o privilégio de se ver no limite entre a vida e a morte e de se compreender muito mais na inteireza do gênero humano do que na minúscula e cotidiana condição de indivíduo.

Israel sobreviveu no limite do tempo da morte iniciado pouco antes, para o grupo das pessoas que nos dias seguintes tiveram seus corpos resgatados das profundezas da terra. Iniciara-se quando o motorista do microônibus, Reinaldo Aparecido, chegou cedo ao seu local de trabalho e, por isso, foi dirigir o carro que saía um horário antes do seu. Chegou cedo e morreu. ‘Era a sua hora’, explicou-me alguém. Israel chegou tarde e sobreviveu. ‘Não era o seu dia’, explicou-me o mesmo alguém. No imaginário religioso do povo brasileiro, Deus tem um grande e velho livro no qual anota o dia e a hora em que cada um nasce e o dia e a hora em que cada um deve morrer. Foi o que me explicou um velho lavrador maranhense, conhecedor desses mistérios.

No imaginário popular, a morte abre um parêntese na vida para que a sociedade se reconheça como é e cuide dos mortos, que são de todos. Foi por isso que a moça bonita que trabalha num dos pisos altos do edifício da Editora Abril, e de sua janela presenciou o afundamento da terra, pegou o telefone, ligou para o namorado e pediu-lhe que orasse com ela pelas pessoas que estavam dentro daquela cratera. Gente que só conhecia lá de cima, trabalhando como formigas lá embaixo. Sua reação foi a de quem se reconhece no outro que sofre. Apelo para que Deus velasse pelos que estavam sendo sugados pelo abismo e podiam estar em face do tenebroso transe.

Com os dias, o que era esperança de vida foi se transformando num estranho velório à beira do abismo. A pequena multidão, que ali compareceu todos os dias, ali foi para interrogar-se diante do cenário do absurdo. Culturalmente, somos um povo que morre em família e que teme a morte solitária, repentina e sem preparo. A morte de surpresa não é um trânsito sereno para a eternidade, é um seqüestro injusto, de incertezas quanto ao caminho do todo o sempre. Ali foi para compreender essa inflexão do destino nesta sociedade de absurdos cada vez mais freqüentes em que as pessoas podem ser tragadas pelas profundezas no meio de uma tarde de sexta-feira ou podem ser alcançadas por uma bala perdida no meio do dia.

As histórias foram sendo arrancadas de dentro da terra com os mortos que nela pereceram. Dona Abigail preparava-se, aos 75 anos de idade, para se tornar surfista, confiante na vida. Valéria, que a duras penas se tornara advogada, faria o exame da Ordem dos Advogados neste domingo. Nem as ondas revoltas do oceano embalarão a vida de Dona Abigail nem Valéria lutará pela Justiça para os que dela carecem.

Abigail fora visitar a irmã de 82 anos, perto do lugar onde morreria dali a pouco. Foram almoçar num restaurante que freqüentavam na região. Depois de sua morte, seus filhos e parentes foram ao mesmo restaurante e lá almoçaram em memória dela. Pediram vinho e, sem o saber, no rito improvisado, comungaram, forma de fazê-la presente em suas vidas mesmo na morte. Os que habitam o coração dos que os amam não perecem. Para isso servem os rituais, mesmo os inventados assim no acaso da dor. É um dos procedimentos que a sociedade utiliza para revelar-se e reconhecer-se na concepção de que cada ser humano é corpo e memória, passagem e permanência, um e todos.

Também os valorosos bombeiros e operários, na troca de turmas para continuar escavando e buscando as vítimas, rezaram juntos todos os dias. A cratera de Pinheiros se tornou uma imensa catedral.

Uma escola de samba de Pinheiros suspendeu os ensaios para o desfile de Carnaval que costuma fazer naquelas ruas. Recolheu-se ao ancestral silêncio ritual que perdura durante o tempo solene da passagem, dos que partem, sobre a ponte que cobre o abismo da vida. Mas não faltou o sacrilégio da necro-publicidade, das duas moças maquiadas, com mochilas e bonés publicitários de uma bebida energética, distribuindo e divulgando o produto entre os presentes. Invadiram o tempo e o espaço da morte, do silêncio e da compaixão, com o tumulto irracional da cobiça e do ganho a qualquer preço. Ali perto, porém, a esposa do cobrador do microônibus, Wescley, foi perguntada sobre o que dirá ao filho, que nascerá dentro de um mês, quando um dia ele quiser saber quem era seu pai. Dirá ‘que seu pai era um trabalhador, que morreu trabalhando. Não era um vagabundo’. Poucos se lembram que, como numa justa medieval, a lida dos trabalhadores não é só pelo salário: é também pela honra até na morte.

* José de Souza Martins é professor titular de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP

Enviar por e-mail. Hits para esta publicação: 255.

1 Comentário »

  1. carla bispo de oliveira disse,

    15 de Junho de 2007 @ 16h 40m

    bastante comovonte o texto. uma ode sobre miséria humana.

RSS para comentários nesta publicação · URI para link desta publicação:

Deixe um Comentário