Ademir Médici
Diário do Grande ABC
Crava-se a pá no barro preto.
Rangem as pipas amassando a argila.
Bate a forma o oleiro.
Fumegam os fornos.
(Mário Dal’Mas. Poeta. São Caetano)
* * *
A primeira indústria do Grande ABC vive seus últimos momentos. São as
olarias. Restam quatro, duas em Ribeirão Pires e duas em Rio Grande da
Serra. Informações orais falam de uma quinta, na divisa de Mauá com
Ribeirão. Rodamos toda a área e não a localizamos.
O repórter-fotográfico Orlando Filho, do Diário, guiado pelo oleiro José
Valeriano Tertuliano, o Macalé, 68 anos, 48 como oleiro, percorreu as
últimas olarias e fez um ensaio fotográfico de cada uma delas. São as
seguintes:
1) Olaria do Zecão, Ouro Fino, Ribeirão Pires.
2) Olaria do José Ferreira, estrada do Soma, Ribeirão Pires.
3) Olaria do Machado, Sítio Maria Joana, Rio Grande da Serra.
4) Olaria do Sítio Maria Joana II, Rio Grande da Serra.
Orlando Filho documentou também ruínas de três outras olarias:
1) Olaria do Zecão II, avenida Pedro Ripoli, 157, Barro Branco, Ribeirão
Pires.
2) Olaria da avenida Santa Clara, hoje canteiro de obras da Sabesp, em
Ribeirão Pires.
3) Olaria do Núcleo Santa Cruz, distrito de Riacho Grande, São Bernardo.
Um terceiro trabalho de Orlando Filho: ele fotografou coleções de
tijolos raros mantidos pelo Museu de São Caetano e pelo Centro de
Pesquisa do Folclore de São Bernardo. O Museu de São Caetano expõe,
permanentemente, a maquete de uma olaria idealizada pelo fotógrafo
Dirceu da Silva Real, de Santo André, também fotografada - as últimas
olarias de São Caetano não sobreviveram à década de 1940.
A faixa que vai de Mauá a Diadema, cruzando Santo André, São Bernardo e
São Caetano, há muito deixou de ter olarias. Uma delas serviu como
temática central e virou cartaz do IV Congresso de História do Grande
ABC, realizado em Diadema. O forno já estava desativado quando o
congresso tomou a cidade, em 1996. Hoje até o forno foi demolido -
restou a foto do cartaz.
As últimas olarias de Santo André, São Bernardo e Diadema funcionaram,
de maneira rudimentar, na área de proteção aos mananciais, de Eldorado
ao Pedroso, passando pelo distrito de Riacho Grande. Conseguimos
localizar ruínas de apenas uma delas, no Núcleo Santa Cruz, adiante da
primeira balsa da represa Billings.
Tínhamos esperança de encontrar ruínas de uma segunda olaria, no Parque
do Pedroso, em Santo André, que há anos estava desativada. A Prefeitura
informa que tais ruínas também foram desmanchadas e seus tijolos
aproveitados em obras de manutenção.
Com o fim das olarias, o Grande ABC perde também a figura do oleiro,
aquele profissional que madrugava para bater barro, dar forma ao tijolo
com as iniciais do nome do dono da olaria. Profissional de múltiplas
funções, como a de pôr o tijolo secando até ser levado para o forno -
onde outros oleiros, quando não os mesmos, davam plantão para aguardar
mais uma fornada.
Vários fatores explicam o fim das olarias, do econômico ao de
preservação do meio ambiente. Há décadas os oleiros-patrões vinham se
queixando da bitributação de impostos para manter o negócio. Mais
recentemente, da virada dos anos 90 para o novo milênio, a pressão do
poder público foi grande. Afinal, as olarias necessitam de lenha,
diferentemente da sua concorrente maior, as fábricas de blocos - que
hoje imperam também no Grande ABC.
Assim, apenas nas partes mais distantes do Grande ABC, em locais de
difícil acesso, é que sobrevivem as quatro últimas das nossas olarias.
Não foi sempre assim. As duas primeiras olarias do Grande ABC ficavam no
centro de dois núcleos coloniais: São Bernardo e São Caetano. Eram as
olarias das fazendas dos monges beneditinos, instaladas na primeira
metade do século 18. Eram tocadas por escravos: negros e índios.
A olaria pioneira de São Bernardo, entre uma das variantes do Caminho do
Mar e o ribeirão dos Meninos, ficava na atual avenida Senador Vergueiro,
onde está uma das unidades da rede Carrefour. A olaria de São Caetano
localizava-se no atual bairro Fundação, igualmente próxima a um rio
importante, o Tamanduateí, no ponto em que ele recebe o ribeirão dos
Meninos vindo de São Bernardo.
Tivemos olarias em vias centrais como a Marechal Deodoro, em São
Bernardo, avenida Pereira Barreto, em Santo André, e várzea do
Tamanduateí, a poucos metros da avenida Goiás. Há 80 anos, estava sendo
posta à venda uma olaria localizada na avenida Caminho do Mar, hoje
bairro Rudge Ramos, conforme anúncio publicado em seguidas edições de
1925 pelo semanário O Comércio de São Bernardo:
“Vende-se grande olaria.
Acha-se à venda no Caminho do Mar (bairro dos Meninos) uma grande
olaria, cuja produção diária atinge a 5 mil tijolos e enorme fabricação
de telhas, produtos superiores, barro de primeiríssima ordem. Essa
propriedade contém duas boas casas coloniais, fornos especiais, estufas,
caminhões, animais.”
Não se sabe quem ficou com a olaria, nem o que foi feito dela.
* Rota da Olaria *
Ademir Médici
Do Diário do Grande ABC
“Passou a mão no tijolo, ele não cantou… não presta”.
(Zé Macalé. Oleiro. Ribeirão Pires) Jovens que não conviveram com o auge
do funcionamento das olarias no Grande ABC estão abrindo uma empresa -
Billings Tour - com passeios voltados a antigos equipamentos artesanais
do distrito de Riacho Grande, em São Bernardo. São três rotas básicas:
Rota do Carvão, Rota dos Portos de Areia e Rota da Olaria.
A Rota da Olaria leva ao Núcleo Santa Cruz e às ruínas de uma olaria
localizada em área pertencente a uma família de japoneses. O acesso pode
ser a pé, de carro ou de bicicleta. Pelo caminho, uma paisagem
exuberante, inclusive de espécies adultas e raras de araucárias e uma
ilha escolhida pelos pássaros para procriação.
Na olaria se aprenderá com os guias - antigos oleiros, de preferência -
como é que se fazia tijolos naqueles pátios e fornos, de onde vinha o
barro, como os burricos eram postos a trabalhar, como o tijolo secava,
cozinhava e era despachado.
Os jovens estudantes têm o apoio de um funcionário da Prefeitura, o
são-bernardense Francisco Antonio da Silva, 53 anos, que conheceu muitas
olarias e que hoje pertence ao Programa Jovens Reservas da Biosfera, que
além de São Bernardo atinge outros 72 municípios da Grande São Paulo e
arredores, que formam o chamado cinturão-verde paulista.
Depois dos levantamentos registrados nesta reportagem, bem que a Rota da
Olaria de Riacho Grande poderia ser estendida para a área mais afastada
de Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, onde localizamos as quatro
últimas olarias em plena atividade. Ali, os estudantes da Billings Tour
teriam a assistência de oleiros que ainda fazem tijolos como os seus
ancestrais. Caso do Zecão.
José Benedito dos Santos, o Zecão, nasceu em Natividade da Serra (SP) em
13 de outubro de 1924. Aos 80 anos, dirige a sua olaria em Ouro Fino e
acompanha cada passo da produção de um tijolo. O Diário o localizou à
beira da boca de um forno, em pleno processo de produção. Zecão ardia
como as labaredas que o forno vomitava. Fomos obrigados a pedir para que
ele saísse dali para que pudesse nos falar.
E Zecão contou a sua grande realização como dono de olaria: cobrir o
pátio para a proteção dos tijolos e empregados. Agora pode chover em
Ouro Fino. A produção não pára.
“Sonhei 60 anos com isso. Esse é o sonho da minha vida.” Uma vida de
dificuldades para criar os 11 filhos, de um trabalho aprendido com o
finado Daniel Bertoldo, descendente dos primeiros italianos que
colonizaram Ribeirão Pires. Podemos dizer que Zecão, neste 2005, dirige
a derradeira grande olaria do Grande ABC, com 20 funcionários, sete
máquinas e seis animais.
Há 30 anos, queixavam-se os oleiros de Ribeirão Pires da carga
tributária (Olarias vivem fim de grande época, Diário, 24/7/1973). Eram
eles obrigados a recolher 15% de imposto único sobre minerais e mais
15,5% sobre a circulação de mercadorias, sem contar a verba dispensada
para a cobertura de encargos sociais.
Já na primeira metade do século 20, Ribeirão Pires despachou milheiros
de tijolos em vagões lotados da estrada de ferro Santos-Jundiaí para a
construção de bairros inteiros de Santos. Olarias da Vila Sacadura
Cabral, em Santo André, forneceram os tijolos para a construção do
estádio do Pacaembu, em São Paulo, inaugurado em 1940.
O artista plástico Antonio de Assis, de Santo André, desenhou uma olaria
que existiu no hoje quase central Jardim Bom Pastor. Octavio Ferrari
teve olaria no Parque Galícia, no coração de Diadema. Mantinham olarias
na também central avenida Francisco Monteiro, em Ribeirão Pires, as
famílias Sortino, Balarini, Capello, Chiedde, Del Corto, Cordeiro,
Gianasi, Bertoldo e Dicieri.
A avenida Taboão, quase esquina com a via Anchieta, abrigou a olaria da
família Angeli, anos antes da chegada da Willys, antecessora da Ford no
lugar.
Os também centrais Jardim Stela e bairro Apiaí, em Santo André, na
divisa com São Bernardo, abrigaram a olaria de Francesco Guelfo.
Hoje quem for à olaria do Zecão, nos fundos de Ouro Fino, vai gastar R$
80 pelo milheiro de tijolos; num depósito, o mesmo tijolo vai custarR$
150 o milheiro. José Ferreira, também em Ouro Fino, queixa-se das
chuvas. O pátio da sua olaria, diferentemente do pátio da olaria do
Zecão, não é coberto. Por isso, no início deste ano, a sua olaria
permaneceu fechada durante dois meses: “Olaria não dá lucro, só faz para
comer”. Na olaria do Zé Ferreira, um milheiro de tijolos custa R$ 40 ou
R$ 45, revendido em depósitos por R$ 110.
O melhor, acrescenta Zé Ferreira, é produzir blocos. Mas a atividade
exige mais capital e investimentos em cal, pedriscos e cimento, sem
contar os equipamentos. O tijolo trivial usa apenas barro, abundante em
qualquer canto.
Restam, além do barro, as recordações, as fotografias, as últimas quatro
olarias em funcionamento, as ruínas de outras, o artesanato de homens
como Dirceu Real. As miniaturas em escala de fornos de olarias e tijolos
do Dirceu são verdadeiras obras de arte.
Há o sonho da Rota da Olaria, em Riacho Grande. A história oral de
antigos oleiros. E a lista dos oleiros de 1938, preservada pelo 1º
Distrito Policial de Santo André.
Fica a possibilidade de um exercício: localizar onde estavam aquelas
olarias. Pela lista do 1º DP, tínhamos - há 70 anos - os seguintes
números de olarias: Santo André, 15; São Bernardo, 21; São Caetano, 10;
Diadema, 6; Mauá, 5; Ribeirão Pires, 39; e Rio Grande da Serra, 4. Um
total de 100 olarias, segundo registros do 1º DP de Santo André.
Daquelas 100 olarias de 1938, uma funcionava em plena rua Rio Branco, em
São Caetano; uma segunda ao lado do Aramaçan, em Santo André; várias em
Piraporinha (Diadema) e Rudge Ramos, então Meninos (São Bernardo).
Nos demoramos sobre essa lista de indústrias de Ribeirão Pires. No
começo da reportagem, falamos das duas olarias do Sítio Maria Joana.
Pois uma delas já existia em 1938, propriedade de Francisco Ripoli, que
vem a ser tio-avô do atual proprietário, José Nicanor Machado da Cunha.
Uma empresa familiar raríssima que não pode e não deve morrer.