Arquivo de Fevereiro de 2007

Viramos turcos!

Khalid Tailche

“Viramos turcos para permitir-nos o que o céu não consente aos otomanos?”. Estas são as exatas palavras de Otelo, o nobre mouro árabe a serviço da República de Veneza, no segundo ato da obra homônima de William Shakespeare. À época de Shakespeare, mais especificamente quando a peça Otelo foi ensaiada pela primeira vez, em 1604, o Império Turco invadira os paises árabes, desde o Egito, controlando o mar Mediterrâneo em boa parte da Europa Ocidental, e foi até a Hungria. A invasão turca representava, por um lado, uma ameaça para os europeus, e por outro, a consolidação de uma má fama para os turcos. Sob o Império Turco, milhares de pessoas foram massacradas, e outras milhares foram exiladas para longe de sua terra.

A ironia é que, no nosso tempo, os inimigos de ontem podem ser os aliados de amanhã. A Turquia, monstro que ameaçava seus vizinhos, acaba sendo a ponte que liga a Europa ao Oriente Mulçumano. Apesar da história sangrenta da morte de milhares de armênios - em um dos massacres mais violentos da história mundial -, a invasão do mundo árabe e a ameaça à Europa, a Turquia é hoje um país democrático que quer fazer parte da União Européia. E por que não, já que a capital da Turquia localiza-se no lado Europeu da Turquia, e não no lado asiático?

Os dois países árabes que têm fronteiras com a Turquia são Iraque e Síria. Até hoje podemos observar várias palavras da língua turca no dialeto iraquiano. O efeito não pára por aí. As relações econômicas e políticas entre a Turquia e os países árabes também mudaram. Da mesma forma que se aproxima dos países europeus, na posição de país amigo e possível aliado, não perde seu papel de liderança na região. Mesmo assim, a longa invasão turca ao mundo árabe criou certa sensibilidade entre os árabes e os turcos, que pode ser observada até hoje, registrada na memória do mundo árabe em geral.

Longe da Turquia, no continente americano, está o Brasil, um país que abarca uma variedade étnica imensa. Cosmopolita, apresenta mistura de raças de vários países. Tanta diversidade cria muitas vezes dificuldades no entendimento das diferenças culturais e históricas, gerando um senso popular sobre as raças e suas origens. No caso dos árabes, muitas vezes ficaram surpresos pelo fato de serem chamados de turcos!

O apelido não agrada aos árabes, mas justifica-se, pois na época do principal fluxo de imigração árabe para o Brasil, estes chegaram com passaportes do Império Otomano, que ocupava seus países naquele momento. Também por causa da música e da comida, muitas vezes semelhantes nos vários países árabes e na Turquia, a confusão cultural se espalhou. Desde então, árabes têm sido chamados de turcos e sentem-se ofendidos, pois muitos brasileiros não compreendem a diferença.

A questão que se apresenta é: será que o nosso mundo globalizado de hoje vai nos aproximar uns aos outros, criando uma harmonia maior entre os países do mundo e seus povos, ou o antigo lobo cobiçoso só mudará sua aparência, mas não seu comportamento, guardando escondidos seus dentes afiados? Não sabemos, mas o futuro nos dirá. Há esperança de que os povos comecem a aprender a respeitar os outros e a conviver com mais harmonia e sem preconceitos. Assim, o passado não será mais amargo, e todos nós seremos chamados de turcos, árabes ou brasileiros com prazer!

Khalid Tailche, graduado em literatura no Iraque, nasceu em Mosul, Iraque, e vive há 19 anos no Brasil.

Icarabe

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Vitória do neoliberalismo torna virtude o que era visto como um defeito: o individualismo

França solidária x França liberal - o país está dividido entre os defensores de um projeto coletivo e do interesse geral, e os expoentes do individualismo neoliberal e do “cada um por si”

Jean-Louis Andreani
Em Paris

Esperança coletiva, solidariedade social e política…

Essas palavras eram as mais utilizadas em maio e junho de 1936 (quando a Frente Popular, uma coalizão dos partidos de esquerda então no poder, instituiu muitas leis trabalhistas, tais como a das férias remuneradas). Setenta anos depois deste “belo verão”, o contraste é espantoso entre a França da Frente Popular, por vezes ingênua com o seu entusiasmo excessivo, em particular no plano internacional, e aquela do verão que está começando: não há mais nenhum projeto coletivo, instaurou-se uma angústia social multiforme, enquanto a solidariedade está em frangalhos diante dos avanços de uma verdadeira ideologia do individualismo.

De fato, uma nova linha divisória veio se sobrepor às diversas fraturas que já tomaram conta do país, para desenhar duas Franças: a da solidariedade, e aquela do “indivíduo-rei”, que por vezes vem a ser a do cada um por si.

Vale reconhecer que, no âmbito da população, a generosidade e o cuidado com os outros sempre se opuseram ao egoísmo e à indiferença. Mas a vitória das idéias neoliberais, a partir dos anos 80, proporcionou ao individualismo uma justificativa política e econômica.

Combinada com o fim das grandes esperanças coletivas das quais se alimentava a esquerda, a consagração do neoliberalismo transformou numa virtude aquilo que era anteriormente considerado como um defeito francês. Simultaneamente, o advento de uma sociedade cujos valores essenciais são o indivíduo e o dinheiro fortaleceu ou recriou a necessidade de solidariedade entre aqueles que ficam entristecidos com esta evolução num plano humano ou que a recusam de um ponto de vista político.

De um lado, portanto, temos uma França seduzida pelas idéias liberais. Para ela, o indivíduo é o conceito essencial, a concorrência o melhor regulador da sociedade, a lei do mercado uma regra intangível e salutar. A defesa das conquistas sociais, a recusa do crescimento das desigualdades, ou ainda a intervenção da potência pública na economia, acabaram sendo marcadas pelo selo do “arcaísmo”, ou, até mesmo, do “partidarismo oculto do comunismo”.

O princípio de precaução (segundo o qual medidas precisam ser tomadas quando existem razões suficientes para acreditar que uma atividade ou um produto pode causar danos à saúde ou ao meio-ambiente), que está inscrito na Constituição, não passa de um sinal de cautela excessiva e de recusa do progresso. Com isso, uma certa indiferença para com os outros, fora do circulo familiar e das relações privadas, é com freqüência o corolário dessas idéias, mesmo se ela não é confessa ou assumida.

Do outro lado, a França solidária revolta-se contra a exclusão; fica indignada com as desigualdades que existem tanto na França como no resto do mundo; defende os serviços públicos “à francesa”; recusa a preeminência econômica das idéias liberais, agita-se no âmbito daquilo que de vez em quando vem tomando as aparências de uma “contra-sociedade” nostálgica dos grandes movimentos do passado. Não raro esses militantes da solidariedade se sentem decepcionados com a política, na qual eles não mais encontram o que procuram para satisfazer sua vontade de engajamento coletivo.

O crescimento avassalador desta necessidade de solidariedade é perceptível de diversas maneiras. Assim, em 21 de maio, dezenas de milhares de pessoas manifestaram em Paris com música e debaixo da chuva, tendo como única palavra de ordem a solidariedade internacional para com os países do Sul duramente atingidos pela pandemia de Aids. Da mesma forma, pela primeira vez, a editora Autrement publica um “guia da solidariedade” chamado a se tornar anual –”Ensemble, Initiatives solidaires en France, Guide 2006″ (”Juntos, iniciativas solidárias na França, Guia 2006″, editora Autrement, 320 pág., 18 euros).

A discrepância volta a ser encontrada em relação à concepção da Europa, das relações internacionais, etc. Ela se reproduz nas forças políticas, sociais, na Igreja. Sem estarem engajados à esquerda, alguns cristãos recusam uma doutrina que deixa os mais fracos “à beira do caminho”. Nas periferias, eleitos de direita sabem que apenas uma forte solidariedade dos habitantes entre eles e do país com elas poderia permitir às suas comunas saírem da situação de crise e do marasmo.

Ainda no campo da direita, alguns eleitos locais constatam os danos sociais provocados pelo aumento dos preços no setor imobiliário e lamentam que apenas o mercado governe o acesso à moradia. Inversamente, uma parte da esquerda moderada mostra-se sensível ao canto das sereias liberais. En particular, este é o caso da “esquerda caviar”, conforme sublinha Laurent Joffrin no seu livro, “História da Esquerda Caviar” (editora Robert Laffont).

A fratura
A fratura/ruptura entre essas duas Franças talvez seja mais profunda do que aquela que opunha a direita e a esquerda durante os anos 60 e 70. Na época, ambas agiam em nome do interesse geral, mesmo se os dois campos tinham uma idéia diferente do que esse interesse vinha a ser.

Hoje, os liberais os mais radicais, ou os mais sinceros, contestam a própria existência deste interesse geral. Eles escoram sua concepção nos princípios de Adam Smith, um economista escocês do século 18, segundo o qual a situação mais adequada para todos resulta do livre jogo da busca, por parte de cada um, do seu interesse pessoal.

O pai do liberalismo econômico morreu em 1790, um ano depois do início da Revolução francesa, que fundamentou justamente uma filosofia política inversa: desde 1789, toda a história política da França foi construída em função da idéia de que o Estado republicano representa e defende um interesse geral que não resulta da soma dos interesses particulares.

Ora, os neoliberais os mais radicais, dentro da linhagem dos postulados fundamentais do thatcherismo (definidos por Margaret Thatcher, que foi primeira-ministra do Reino-Unido de 1979 a 1990), preferem ficar excluídos deste consenso.

Assim, um site na Internet intitulado “A página liberal, a atualidade dentro de uma visão liberal”, publica um texto cujo autor, Georges Lane, sublinha: “Aos olhos da classe política e dos meios de comunicação, é considerada ultra-liberal toda pessoa que raciocina a partir do ser humano (…) e não a partir do conceito vago de “sociedade”, toda pessoa que sustenta que o ser humano (…) age em função do seu interesse pessoal e não levando em conta um suposto interesse geral”.

Este texto remete ao de um outro autor, que expõe suas idéias, entre outros, no site do Instituto Hayek, o qual goza de uma audiência importante. Sob o título “A Raposa no Galinheiro”, François Guillaumat sustenta que “a opção de não interferir na vida política, econômica e social” não sacrifica (…) o interesse “da sociedade aos interesses particulares”, uma vez que “só existe um interesse (…) para seres vivos individuais”. Este texto afirma também que todo “poder político se baseia em última instância no poder de prejudicar, na capacidade de destruição”.

Vale reconhecer que o extremismo que esses textos expressam não é compartilhado pelo conjunto dos liberais franceses. Mas o questionamento do papel do Estado, e até mesmo da ação política em si, a visão muito individualista da sociedade, são efetivamente a fonte da sua abordagem.

É difícil dimensionar ao certo a importância relativa das duas Franças, a solidária e a liberal. Em todo caso, é certo que elas não mais se entendem e que elas conversam cada vez menos entre elas. O seu principal ponto de encontro talvez seja a apropriação das novas tecnologias no manuseio das quais, por meio de utilizações diferentes, as duas são exímias. É muito pouco para alimentar a coesão de um corpo social.

Le Monde

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Entre santarrões e fanfarrões

Portugal, país católico, passo a passo descriminaliza o aborto. Nos EUA, políticos vivem de malabarismos

Sérgio Augusto

A Terra continua esquentando, nossos menores cometeram mais dois crimes hediondos, Romário conseguiu marcar três gols (na galinha-morta do Volta Redonda, até eu), a situação do Greg complicou-se ainda mais na firma do Tide, mas o assunto da semana foi aquilo que o Aurélio define como ‘expulsar prematuramente do útero o produto da concepção’. Na Europa, nos EUA, e mesmo aqui, onde a mãe de um dos assassinos do menino João Hélio lamentou-se por ter dado à luz um maldito fruto de seu ventre.
Domingo passado, os portugueses foram às urnas para revelar se queriam chegar mais rápido ao século 21 e distanciarse da Polônia, Irlanda e Malta, livrando da cadeia as mulheres que lá praticam o aborto depois das primeiras 12 semanas de gravidez, ainda que tenham sido vítimas de estupro e corram risco de morte. Na quintafeira, durante o 7º Congresso do Partido Socialista Europeu, na cidade do Porto, a postulante socialista à presidência da França, Ségolène Royal, felicitou o primeiro-ministro português José Sócrates pela coragem de promover o referendo do aborto. O premiê luso sorveu, orgulhoso, o cumprimento, mesmo ciente de que a consulta popular não fora um feito exclusivo do PS português, mas sobretudo o resultado de múltiplos movimentos de cidadãos (contra e a favor da atual lei antiaborto), que contribuíram para despartidarizar a questão e diminuir um pouco a abstenção, conforme me informou a escritora portuguesa e cronista do semanário Expresso Inês Pedrosa. Embora legalizado há 30 anos na terra de Ségolène - e desde 2001 sem a exigência de autorização parental -, o aborto ainda é uma questão de peso nos debates pré-eleitorais da França. Discute-se por lá não a revogação de uma conquista (a legalização de 1975), mas o aprimoramento de sua eficácia, mediante o aperfeiçoamento de meios capazes de prevenir a gravidez. Essa é a questão nodal do aborto. E não apenas na França, onde as mulheres passaram a livrar-se de fetos indesejados como quem extrai um dente. ‘Mulher nenhuma, por muito que tenha sido educada para o auto-sacrifício e o masoquismo, prefere fazer um aborto a preveni-lo’, escreveu Inês Pedrosa, duas semanas antes do referendo. ‘A diferença está em que, se o ´sim´ganhar, as mulheres de menores recursos deixarão de ser humilhadas nos bancos dos réus dos tribunais’ - arrematou a escritora. Ela, como seus patrícios, não foi às urnas para, simplesmente, defender o direito da mulher de tomar decisões sobre o seu corpo e a sua vida, mas, acima de tudo, para acabar com a sua vexatória e estigmatizante criminalização.
Nos EUA, o problema do aborto possui contornos e dimensões diferentes. Divisor de águas nas eleições locais e nacionais, motivo de atentados criminosos contra médicos e clínicas, o aborto predomina amplamente sobre as questões morais que mais tocam os americanos, o que não seria tão inquietante se os americanos se preocupassem mais com os rumos da guerra no Iraque, os perigos do terrorismo e os percalços da economia do que com quizilas morais e religiosas.
O aborto cumpre, hoje, um papel que já foi do abolicionismo, do sufrágio feminino e dos direitos civis, as três mais bemsucedidas cruzadas liberais de uma América que parecia ler a Bíblia com a mão esquerda e guinou para a direita depois da morte de Martin Luther King, em 1968. Desde então, os democratas passaram a representar a secularidade e os republicanos, a religiosidade. Mas as eleições presidenciais de 2008 descortinam um cenário surpreendente: à frente dos postulantes democratas, dois cristãos que rezam e vão à missa (Hillary Clinton e Barack Obama); entre os republicanos, dois pretendentes pouco dados a manifestações de fé (John McCain e Rudy Giuliani).
Na revista do New York Times que hoje chega às bancas, o conservador Gary Rosen discute essa inversão de papéis.
Rosen acha que, apesar de tudo, os carolas continuarão votando nos republicanos, por razões ideológicas ou programáticas. Ou pavlovianas, acrescento eu.
Não dá para se contar nos dedos os parlamentares americanos majoritariamente eleitos por sua posição antiaborto. A recíproca é verdadeira. Colin Powell deixou de ser vice na última chapa de Bush por ser o que os americanos chamam de ‘prochoice’, ou seja, por conceder à mulher o direito de escolher se quer ou não dar à luz um filho indesejado. John Kerry, o adversário democrata de Bush nas eleições presidenciais de 2004, perdeu um bocado de votos por não ter sabido livrar-se da pecha de ‘pro-choice’ que caluniadores republicanos lhe pespegaram.
Comparado a alguns Estados norte-americanos, Portugal é quase um modelo de avanço social e civilidade. Os legisladores republicanos de Dakota do Sul tornaram o aborto ilegal naquele Estado, até em casos de estupro e incesto, só abrindo exceção às vítimas cuja vida esteja em perigo. Em meados do ano passado, a última clínica que praticava abortos legais em Jackson (Mississippi) foi fechada por pressões de grupos que consideram a interrupção da gravidez ‘um mal comparável ao Islã, ao nazismo e ao homossexualismo’- todos eles, diga-se, eleitores de Bush, que, ‘renascido em Cristo’, mandou executar mais presidiários no Texas do que todos os governadores que o precederam, e, como presidente, iniciou uma guerra contra um país sem culpa pelos atentados de 11 de setembro, e tentou esconder as torturas cometidas por seus comandados em prisioneiros iraquianos.
E o que dizer de Paul Hill, que, em 1994, assassinou o ginecologista John Britton e seu guarda-costas numa clínica autorizada a praticar abortos em Pensacola (Flórida)? Hill diziase um ’soldado de Deus’; mas nem assim livrou-se da injeção letal que, nove anos depois, despachou o Torquemada da obstetrícia para os quintos do inferno. Hill era apenas um demente. Piores, a meu ver, são os picaretas da fé, os templários do bigotismo, os evangelistas da hipocrisia, como James Falwell, Pat Robertson e tantos outros, volta e meia envolvidos em escândalos que até ao tinhoso chocariam.
John Allen Burt, outro fanático republicano de Pensacola (já deviam ter examinado a água da cidade), foi preso em 2003 por molestar sexualmente uma jovem de 15 anos sob sua custódia. Bob Barr, congressista republicano da Geórgia, autor de um decreto em defesa da família, cujos fundamentos estariam sendo solapados pelas ‘chamas do hedonismo, do narcisismo e da moral egocêntrica’, já pagou um aborto para a segunda mulher, não honra a pensão alimentícia dos filhos dos dois primeiros casamentos, e foi fotografado a limpar com a língua o creme batido espalhado sobre o seio de uma
stripper.
Com santarrões como esses, precisamos liberar até (ou sobretudo) o aborto retroativo.?

Estado de S. Paulo

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Aquecimento global chega ao cordel

A terra está esquentando e a culpa é do homem“, do cordelista Walter Medeiros:

Muita coisa nesta vida

Já conseguiu me chocar

Me fez rir e fez chorar

E continuei na lida;

Mas agora vou narrar

O pior fato que há

Na nossa terra querida.

Não é de se apavorar

Mas é bem preocupante

Pois um problema gigante

Acabam de anunciar;

É dose prá elefante

Pois deu no alto-falante

Que a terra vai esquentar.

Não se trata de rompante

Pois quem disse foi a ONU

Nem se deve perder sono

Ou ver algo delirante;

Se a terra não tem dono,

Dióxido de carbono

É pior que meliante.

Falam também no metano

E no óxido nitroso

Um efeito horroroso

Para o habitat humano;

O calor calamitoso

Que já é muito danoso

Aumenta a cada ano.

Não é conto de trancoso

Mas é de bem e de mal

Catástrofe ambiental

É bom ficar bem cioso;

Rádio, tv e jornal

Divulgaram tudo igual

Sem ter mais vez prá dengoso.

(…)

Falam em mais um porém

Sobre as camadas polares

Que perderão seus lugares

Pois esquentarão também;

Derreterão sob olhares

Dos filhos que aqui deixares

E a quem queres muito bem.

Mais de dois mil cientistas

Assinam o relatório

Não é um dado simplório

É de encher as revistas

Apesar do falatório

De um ianque inglório

Prá quem tudo é terrorista.

(…)

Já faz quase doze anos

Que se falou em Kyoto

Não era coisa de boto

Mas sobre erros humanos

Gases, fumaça, esgoto,

Não é coisa de garoto

Mas faltam americanos.

(…)

A ciência observou

Que essa variação

Teve a participação

Do homem que relegou

Por causa de ambição

Destrói da terra o pulmão

Que Deus um dia criou.

Não é qualquer impressão

Capaz de gerar enganos

Pesquisaram em mil anos

Região por região

Então daqui a cem anos

Caso sejam mais insanos

Não sei como será não.

(…)

Acho que vou terminar

Deixo a bola com você

Para não enlouquecer

Vou parar de matutar;

Para quem conseguiu ler

Quero apenas dizer

Que só quem viver verá.

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Bobagens amazônicas

É triste ver um grande intelectual perder a compostura. Não, não me refiro ao comentário evitável de Renato Janine Ribeiro, meu amigo, sobre a morte de João Hélio, mas ao artigo “A perda da Amazônia”, de Hélio Jaguaribe, na página 3 da Folha de hoje. Um monte de sandices persecutórias sobre religiosos que lutam para ampliar terras de índios para que sejam declaradas independentes do Brasil e depois internacionalizadas por gringos…

Gente, é coisa do nível do que o Estadão publicava na década de 1980, comendo na mão dos milicos que queriam expulsar o Cimi (Conselho Indigenista Missionário) da Amazônia. As alegações eram exatamente as mesmas. Até o Estadão, ao que parece, deixou de acreditar nelas - só sobrou o Jornal do Brasil, que publicou uma série de manchetes, recentemente, com denúncias similares. Obviamente, caíram no vazio, ou melhor, encontraram solo fértil na cabeça de Jaguaribe.

O mestre fala sem corar das ONGs e pesquisas de estrangeiros como biombos para ações de desnacionalização da Amazônia (não sei como não apontou como veraz o mapa de livro didático que mostra a floresta como área de domínio internacional e todos sabem ser uma fraude pedestre). Ele poderia ter falado da mineradora Rio Tinto tentando reduzir a área de unidades de conservação, mas preferiu deblaterar contra a demarcação de terras para 200 mil indígenas.

Desconfio que Jaguaribe não conhece a Amazônia. Ou, então, não fez a lição de casa. Se está preocupado com a presença de pesquisadores americanos e de outras nacionalidades da Amazônia, deveria ao menos preocupar-se de conhecer ou obter informação sobre quem são e o que fazem lá. Pode começar pela própria Folha, que traz hoje uma entrevista com Dan Nepstad feita por Rafael Garcia.

Jaguaribe talvez ficasse arrepiado ao iniciar a leitura. Afinal, um colonizado dum repórter vai entrevistar logo um gringo sobre a Amazônia, e ainda por cima nos Estados Unidos! (durante a reunião da AAAS) Mas faria melhor de ler a entrevista toda, porque aí descobriria que Nepstad defende os interesses do… agronegócio brasileiro! Sim, ele está convencido de que a certificação socioambiental da soja e da carne bovina abrirá mercados para os produtos nacionais ao mesmo tempo em que dá uma chance de sobrevivência para parte da floresta, ao menos.

Obviamente, é uma posição impopular entre ONGs conservacionistas, estrangeiras ou não. Pergunte ao Greenpeace do Brasil, que pôs todas as suas fichas na demonização da sojicultura. Não que este blog alimente qualquer simpatia com sojeiros do jaez de Blairo Maggi, mas impugná-los como mensageiros do mal é imprudente, porque eles têm a força (capital). Não deixa de ser uma atitude tão míope quanto a de Jaguaribe, pois ambas dificultam a manutenção de um terreno comum em que essas partes possam se encontrar, conhecer-se e entender-se.

A Amazônia tão cedo não se livrará dos índios, nem de sojeiros, pecuaristas, madeireiros e milicos.

Blog do Marcelo Leite

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Uma nova corrida armamentista entre Estados Unidos e Rússia?

O espectro de uma nova rivalidade militar entre Moscou e Washington surgiu no horizonte depois que Vladimir Putin fez um discurso altamente crítico contra os Estados Unidos durante a Conferência de Segurança de Munique no início deste mês

Siegesmund von Ilsemann, Uwe Klussmann, Georg Mascolo e Christian Neef

Os convidados ocidentais que visitaram o Kremlin, em Moscou, na primavera de 1989 - primeiros-ministros, chefes de gabinetes e jornalistas - receberam um presente incomum: um anel de aço do tamanho de um prato pequeno, trazendo agregado a si um fragmento de metal. O conjunto era montado sobre uma pesada base de latão. A inscrição na base artefato, “14 de janeiro de 1989 - SS-20 - Silo Kapustin”, identificava a data e o local da destruição do primeiro míssil SS-20 soviético de médio alcance. Uma fotografia na base do suvenir mostrava a poderosa explosão, que fez com que sobrasse pouco mais do que fragmentos do comprimento de um dedo, que agora estavam soldados ao anel comemorativo.

O presidente russo Vladimir Putin conseguiu abaixar a temperatura com as suas colocações em Munique. Embora talvez não tenha agradado a todo mundo, o suvenir era politicamente significante como um símbolo da modificação das relações entre norte-americanos e soviéticos, algo que poucos esperavam. Em 28 de agosto de 1988, norte-americanos e russos deram início a uma iniciativa para a destruição de 2.611 ogivas nucleares - os mísseis Pershing e SS-20 que mantiveram os europeus aterrorizados durante anos. O primeiro tratado de redução de armamentos conjuntamente monitorado tinha finalmente entrado em vigor.

As explosões pareceram derreter o gelo da Guerra Fria. Subitamente o supremo comandante militar em Moscou estava inspecionando as armas do arquiinimigo da Rússia, e os diplomatas trocavam informações anteriormente sigilosas a respeito das suas forças armadas. O Muro de Berlim foi derrubado apenas pouco mais de um ano depois. O presidente dos Estados Unidos, George Bush (pai de George W. Bush), chamou o acontecimento de uma “nova ordem mundial”, quando o último tsar soviético, o então presidente Mikhail Gorbachev, anunciou o fim do seu império.

Mas agora o sonho da coexistência pacífica parece ter mais uma vez se desfeito em fumaça. Durante a Conferência de Política de Segurança de Munique, na semana passada, o presidente russo Vladimir Putin advertiu os Estados Unidos sobre as novas tentativas de garantir um domínio global. Putin criticou duramente aquilo que chamou de “uso praticamente irrestrito da força militar por parte dos Estados Unidos” e o “desdém de Washington pelos princípios fundamentais da lei internacional”. Segundo ele, os Estados Unidos “ultrapassaram as suas fronteiras nacionais de todas as maneiras”.

O presidente russo foi especialmente duro na sua crítica ao estado atual do controle de armamentos, que pareceu durante décadas ser uma garantia da paz. De acordo com Putin, a Rússia honrou os seus compromissos referentes à redução de armamentos, enquanto o Ocidente bloqueou o Tratado de Forças Armadas Convencionais na Europa (CFE) e, em uma nítida violação aos acordos existentes, está posicionando os seus exércitos perto das fronteiras russas.

Putin reclamou junto aos políticos presentes de que “novas armas de alta tecnologia”, a “militarização do espaço” e o plano de Washington de estabelecer as linhas de frente do seu novo sistema de defesa anti-mísseis na Polônia e na República Tcheca ameaçam a segurança do seu país. “Quem necessita do próximo passo daquilo que seria, neste caso, uma inevitável corrida armamentista?”, perguntou ele de forma retórica.

Seria o ataque de Putin apenas uma demonstração verbal de força para agradar aos seus compatriotas na Rússia? Ou o seu discurso foi uma tentativa de obter o apoio dos países que estão expressando cada vez mais dúvidas em relação às políticas ocidentais? Ou seria isso uma expressão genuína da transparência que Putin prometeu apresentar quando chegou a Munique?

Qualquer que seja a explicação, com a superpotência norte-americana encurralada em um canto na sua guerra contra o terrorismo, discursos como o de Putin podem facilmente gerar uma dinâmica perigosa, confirmando temores antigos e revivendo uma sede de vingança. Por outro lado, o conjunto de tratados montado no passado pelas superpotências em uma série de negociações difíceis seria capaz de deter a atual corrida armamentista global?

As conversações sobre a limitação de armas nucleares estratégicas desencadearam uma grande alteração de políticas no final da década de 1960. Atualmente as duas maiores potências nucleares possuem apenas um terço das 70 mil ogivas que tinham anteriormente, e que eram capazes de destruir o mundo inteiro diversas vezes. Washington e Moscou respeitaram os seus compromissos mútuos de redução de seu arsenal de armas nucleares estratégicas para um patamar de 2.200 ogivas operacionais cada um até 2012. No entanto, o tratado continua sendo uma farsa, já que ambas as partes contam com liberdade para decidir se descartarão o excesso de ogivas nucleares - ou se simplesmente armazenarão essas armas atômicas em depósitos.

Os planos de Bush para a instalação e um novo sistema de defesa anti-mísseis na Europa Oriental deixaram a Rússia arrepiada.

O Senado dos Estados Unidos jamais ratificou o Tratado de Não Proliferação Nuclear, que foi assinado por 161 países. Embora Washington tenha aderido aos termos do tratado, os seus planejadores militares estão pedindo ao governo que preserve a opção de retomar os testes subterrâneos com o objetivo de fabricar novas armas nucleares. O Tratado de Mísseis Antibalísticos, de 1972, está obsoleto desde 2001, quando o governo Bush se retirou do acordo. E o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF), assinado em 1987, atualmente parece ultrapassado em um mundo no qual todos os países, com exceção dos Estados Unidos e da Rússia, contam com a liberdade para criarem tais sistemas de mísseis. Até mesmo o equilíbrio de forças convencionais na Europa, que foi penosamente mantido até 1990, está atualmente prejudicado, já que os ex-aliados de Moscou ingressaram aos bandos na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Líder inconteste
À medida que o sistema de controle de armamentos baseado em tratados se desintegra, cresce o domínio militar dos Estados Unidos. De fato, a superpotência ocidental já se posicionou como praticamente o líder inconteste no que diz respeito à tecnologia de armamentos.

Os tanques norte-americanos já são capazes de destruir vários tanques russos de distâncias das quais os russos não conseguem sequer atingir os seus adversários, e o bombardeiro Stealth, dos Estados Unidos, atualmente sem páreo em todo o mundo, é praticamente invisível para os sistemas de radar.

De forma similar, as tropas norte-americanas são capazes de observar e atacar os seus inimigos sem que sejam detectadas, devido ao uso de câmeras operadas por controle remoto instaladas em aeronaves não tripuladas. E as tripulações dos submarinos de ataque norte-americanos podem localizar qualquer outra embarcação nos oceanos do planeta por meio de sensores avançados, sem que se exponham a nenhum perigo.

Como funciona o planejado sistema norte-americano de defesa anti-mísseis.

Mas Washington obteve os seus maiores ganhos precisamente em uma área antigamente considerada totalmente desativada como resultado das iniciativas para o controle de armamentos. Os mísseis norte-americanos de longo alcance são agora tão precisos que os especialistas acreditam que um primeiro ataque por parte dos Estados Unidos poderia destruir a capacidade nuclear de Moscou. Em um recente artigo na revista “Foreign Affairs”, os especialistas norte-americanos Keir Lieber e Daryl Press descreveram o fim da estratégia da “destruição mutuamente assegurada”, que preservou o equilíbrio do poder e evitou uma guerra nuclear desde a década de 1960.

Contrastando com essa situação, a frota de submarinos russos lançadores de mísseis foi reduzida a apenas nove embarcações. Atualmente a Rússia só conta com bombardeiros estacionados em duas bases aéreas, e a ausência de um sistema de alerta antecipado deixa as aeronaves russas quase que completamente vulneráveis a um ataque de surpresa. O mesmo se aplica aos lançadores móveis de mísseis balísticos intercontinentais Topol-M, que agora dificilmente deixam os seus hangares - hangares estes que estão na mira dos norte-americanos.

O general de quatro estrelas Sergey Chemezov, presidente da Rosoboronexport, a agência russa estatal de exportação de equipamentos bélicos, traça um quadro dramático do estado lamentável em que se encontra a indústria de armamentos do país. De acordo com Chemezov, pessoa próxima ao presidente Putin, a maioria dos fabricantes de armas se encontra em “uma situação difícil”, com 75% das suas unidades de produção obsoletas. Segundo um estudo, um terço dos fabricantes de armamentos da Rússia está “praticamente falido”.

Embora o orçamento russo para a defesa tenha quase quadruplicado nos últimos seis anos, chegando ao atual patamar de US$ 31 bilhões, a Rússia utiliza os seus gastos militares “de forma muito ineficiente” quando se trata de atualizar os seus equipamentos, afirma o especialista em armamentos Rusian Puchov. Segundo um estudo feito pela Administração Principal de Inteligência (Glavnoye Razvedovatel’noye Upravlenie, ou GRU), a agência de inteligência militar russa, cerca de um terço do orçamento militar do país termina nos bolsos das autoridades de alto escalão.

Já os gastos militares dos Estados Unidos se enquadram em uma situação inteiramente diferente. Desde que assumiu o cargo, em janeiro de 2001, o presidente norte-americano George W. Bush quase dobrou o orçamento do Pentágono - para um nível planejado de US$ 620 bilhões referente ao próximo ano fiscal, um montante que inclui os custos de guerra. “Este é o mais alto investimento militar desde o auge da Guerra da Coréia”, afirma Steven Kosiak, especialista do independente Centro de Avaliações Estratégicas e Orçamentárias, em Washington. Até mesmo o novo secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, afirma que o orçamento da sua agência é “estonteante”.

A Rússia planeja uma forma de recuperar o terreno perdido na nova corrida armamentista.

O ministro russo da Defesa, Sergey Ivanov, reclama de que o orçamento de defesa dos Estados Unidos é “25 vezes maior que o da Rússia”. Para reduzir pelo menos parcialmente essa lacuna, ele apresentou um ambicioso programa de modernização à casa inferior do parlamento russo na semana passada. Segundo o plano, a Rússia construiria 50 novos bombardeiros estratégicos, oito submarinos nucleares, dezenas de novos silos de mísseis, mais de 50 mísseis móveis Topol-M e quatro satélites militares até 2015.

Os mísseis baseados em terra Topol-M e os Bulava, instalados em submarinos, são atualmente os mais modernos do arsenal russo. No entanto, vários testes realizados com o Bulava, supostamente a arma miraculosa do país, fracassaram no ano passado. E somente 50 dos 200 mísseis Topol que a Rússia pretendia fabricar estão atualmente em estágio operacional.

Parece altamente improvável que Moscou seja algum dia capaz de alcançar tecnologicamente os Estados Unidos. Em vez disso, o objetivo da planejada iniciativa de modernização é melhorar a imagem do Estado russo e das suas decrépitas forças armadas, não só no âmbito doméstico, mas também junto aos seus aliados no Oriente Médio e no Terceiro Mundo. A mensagem que Putin e os seus estrategistas militares desejam claramente transmitir é que o rival dos Estados Unidos retornou ao cenário.

Isso explica a resposta entusiástica ao discurso feito por Putin em Munique por parte dos políticos russos leais ao Kremlin. Leonid Ivashov, o vice-presidente da Academia Russa de Questões Geopolíticas, classifica a fala de Putin no Hotel Bayerischer Hof, em Munique, como “um ponto de inflexão sob o ponto de vista internacional, comparável ao discurso Fulton, de Churchill, em 1946, que deu início à Guerra Fria”. A diferença, de acordo com Ivashov, é que o objetivo de Putin é o oposto ao de Churchill, ou seja, o presidente russo deseja condenar a abordagem unilateral na política mundial.

Vladimir Ryzhkov, um integrante da oposição no parlamento russo, a Duma, discorda. Ele acredita que Moscou simplesmente não conta com os recursos financeiros para desafiar efetivamente os norte-americanos. “O produto interno bruto da Rússia representa apenas um treze avos do PIB dos Estados Unidos”, diz Ryzhkov, que interpreta o discurso de Putin como uma tentativa de conquistar os eleitores russos antes das eleições parlamentares de dezembro.

Independente dos motivos políticos, duas preocupações de ordem militar têm um destaque especial na agenda de Moscou: a crescente proliferação de mísseis de alcance intermediário em todo o mundo e o novo sistema de defesa anti-mísseis dos Estados Unidos. Embora tanto russos quanto norte-americanos, segundo os termos do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF), de 1987, estejam impedidos de fabricar mísseis de médio alcance, a Coréia do Norte, a China, a Índia, o Paquistão, o Irã e Israel produzem atualmente esse tipo de armamento. Os mísseis de alcance intermediário desses países podem não ser capazes de atingir a Europa Central ou Ocidental, e certamente não os Estados Unidos - “mas eles podem nos atingir”, afirma Ivanov.

A fim de neutralizar essa ameaça, os russos ressuscitaram uma velha proposta em Munique: se juntarem aos norte-americanos na construção de um sistema de defesa anti-mísseis. Qual é o objetivo, questionaram eles, de Washington instalar agora unilateralmente um sistema desses na Europa Oriental?
Os norte-americanos pretendem expandir o seus sistema global anti-mísseis com o acréscimo de dez interceptadores baseados em terra na Polônia, bem como um sistema de alerta antecipado na República Tcheca. Bush garantiu a Putin que o propósito do escudo anti-mísseis é a defesa contra “estados irresponsáveis” e a “crescente ameaça do Oriente Médio” - frisando que o projeto não é dirigido contra os russos.

Mas os russos, convencidos de que os mísseis instalados na Polônia seriam capazes de abater os seus mísseis no caso de um conflito, estão se opondo vigorosamente à estratégia “circundante” dos Estados Unidos. “Não podemos aceitar as declarações da Polônia e da República Tcheca no que diz respeito à essa questão”, declarou o ministro russo da Defesa, Ivanov, em uma entrevista a “Der Spiegel” em Munique. O ministro tcheco das Relações Exteriores, Karl Schwarzenberg, rejeita vigorosamente as objeções da Rússia.

As ações de Washington demonstram que os Estados Unidos estão “perdendo parcialmente o contato com a realidade”, acusou o jornal alemão “Suddeutsche Zeitung”: “Ninguém no Ocidente teve imaginação suficiente para perceber que Putin poderia interpretar de fato o escudo de mísseis na sua fronteira como sendo uma provocação”.

Em Washington, por outro lado, o discurso de Putin em Munique deverá fortalecer os argumentos daqueles que há muito tempo alertam para uma nova ameaça vinda da Rússia. Segundo fontes, a secretária de Estado, Condoleezza Rice, nunca confiou em Putin, um ex-agente do KGB (Komitet Gosudarstvennoi Bezopasnosti, ou Comitê de Segurança do Estado, a ex-agência de inteligência soviética), e o influente senador John McCain vem solicitando há anos a adoção de uma postura mais dura em relação à Rússia. De fato, quando o presidente russo lançou os seus ataques verbais na conferência de Munique, McCain, que estava sentado a apenas alguns metros de Putin, ficou visivelmente furioso.

Sob a ótica da Casa Branca, a lista de pecados dos auto-confiantes russos está, de forma gradual, se tornando intoleravelmente longa, não devido aos temores quanto a uma ameaça russa direta, mas porque Moscou está buscando aliados em meio aos inimigos dos Estados Unidos. O fato de a Rússia ter fornecido ao Irã avançados sistemas de defesa baseados em mísseis terra-ar foi tido como uma transgressão especialmente grave.

E os indivíduos de linha dura em Washington se convenceram nesta semana de que os seus argumentos são justificados, quando Putin se ofereceu para ajudar a família real saudita a desenvolver um programa nuclear - prova, segundo eles, de que um novo conflito entre os dois arquiinimigos é inevitável.

Der Spiegel

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Leonardo da Vinci na Oca do Ibirapuera

CIE BRASIL TRAZ AO PAÍS MAIOR E MAIS COMPLETA EXPOSIÇÃO JÁ REALIZADA NO MUNDO SOBRE LEONARDO DA VINCI, A PARTIR DE 28/02

Mostra reúne mais de 150 peças que contemplam a grande parte das áreas de estudo e trabalho do artista italiano, na Oca, em São Paulo

A mostra chega ao país num formato inédito. É a mais abrangente já concebida para itinerar pelo mundo em relação às exposições anteriores sobre Da Vinci, que normalmente focam um segmento particular de sua trajetória. Reúne mais de 150 peças inspiradas no legado davinciano e contempla sua diversidade como pintor, filósofo, cientista, arquiteto, engenheiro, anatomista e inventor. Por isso, é considerado um dos maiores gênios que o mundo já conheceu e certamente, um nome referência da Renascença Italiana.

A origem da mostra - Desde a metade da década de 50, famílias de artesãos italianos têm estudado os códigos e desenvolvido os modelos idealizados por Da Vinci. As primeiras peças foram encaminhadas para Vinci, cidade de origem do artista, e ao Museu de Milão - onde ainda se encontram em exposição. Nos anos 90, um pequeno acervo destas máquinas foi preparado para itinerar por cidades européias como Florença, Veneza, Berlim, Viena, Varsóvia e Atenas. Apesar do formato reduzido, as exposições obtiveram um retorno bem-sucedido, variando entre 50 mil e 100 mil visitas por mês.

Até 2005, porém, nenhum país de língua inglesa ou asiático havia sediado uma destas exposições - e ainda não havia um planejamento para compilar estes acervos num conjunto mais completo a respeito do trabalho de Leonardo da Vinci, sob o mesmo teto. Em maio de 2006, a Anthropos Foundation e a RYP Australia estabeleceram uma parceria para realizar este conceito, que originou a mostra atual.

Antes de chegar ao Brasil, partes deste acervo obtiveram expressivos números de visitação em Roma, na sede da Anthropos Foundation (mais de 600 mil visitantes no último verão europeu) e Moscou (500 mil visitantes durante os três meses em cartaz).

Autenticidade - A mostra contempla a essência criativa de Leonardo da Vinci (1452-1519), em todas as facetas de seu legado. Dada a restrita quantidade de originais existentes e a rígida legislação que restringe a circulação destes, a proposta é buscar a autenticidade plena na reconstrução este universo, numa abordagem extremamente detalhada. Para tanto, todos os trabalhos foram concebidos em solo italiano, por um grupo de artesãos e especialistas europeus coordenados por Modesto Veccia, presidente da Anthropos Foundation e referência mundial na pesquisa sobre Da Vinci e Bruce Peterson, co-fundador e diretor-executivo da RYP Australia Major Projects.

Na montagem das máquinas, por exemplo, em todas as ocasiões possíveis, foram utilizado materiais e técnicas do século XV, buscando um resultado semelhante ao que Da Vinci teria obtido à época. Vale ressaltar que metade delas sequer chegou a sair do papel - são conhecidos apenas os projetos e rascunhos originais, além de maquetes produzidas por outros pesquisadores.

Obras de arte foram reproduzidas em tamanho original, assinadas pelos mais reconhecidos artistas da região de Florença, enquanto os códigos, estudos de Anatomia e os desenhos da Batalha de Anghiari ganham réplicas ampliadas para uma melhor visualização. Fundamentais na trajetória de Da Vinci, o “Homem Vitruviano”, o princípio da Proporção Divina e a criação da “Última Ceia” são recriados em 3D, com recursos tecnológicos de última geração para proporcionar ao público uma experiência totalmente interativa.

A exposição - “Leonardo da Vinci - A Exibição de um gênio” está dividida em treze segmentos: “Estudos Anatômicos”, “Arte da Guerra”, “Máquinas Civis”, “Códices”, “O pai da aviação”, “Máquinas Hidráulicas e Aquáticas”, “Instrumentos Musicais e Ópticos”, “Estudos sobre Física e Mecânica”, “A arte da Renascença”, “O Homem Vitruviano”, “Desenhos da batalha de Anghiari”, “Documentário” e “Vídeos em 2D e 3D sobre o Homem Vitruviano e a Última Ceia”

Com 75 máquinas e reproduções em grande escala, os segmentos “Estudo sobre a Física e Mecânica”, “Máquinas Civis”, “A Arte da Guerra”, “Máquinas Hidráulicas e Aquáticas”, “Pai da Aviação” e “Instrumentos musicais e Ópticos” demonstram a habilidade com que Da Vinci relacionava os conceitos da mecânica ao funcionamento do corpo humano, como um conjunto verdadeiramente harmonizado.

Volantes, sistemas de rolamentos de esferas e molas espirais dividem o espaço com maquetes e modelos em escala original para itens como a bicicleta, o elevador, escavadeira, perfurador, carro de auto-tração e pontes móveis. No segmento bélico, apresentam-se artefatos como catapulta, canhões e tanques, enquanto os projetos aquáticos mostram sua inventividade visionária, trazendo escafandros, equipamentos para respiração e até mesmo um submarino.

Entre as contribuições fundamentais para a conquista do espaço aéreo, que incluem o pára-quedas, o deltaplano, o estudo da asa e o anemômetro, está também a própria “máquina-voadora” - um helicóptero de 4m x 4,5m. Por outro lado, sua relação com a música - Da Vinci era conhecido por sua habilidade em tocar a lira e também por dirigir festivais e espetáculos em Milão - originou projetos e preciosidades como o piano portátil, o tambor e a flauta mecânicos.

Detalhados e precisos desenhos de Da Vinci formam o conteúdo de “Estudos Anatômicos” (40), disciplina que desenvolveu ao dissecar mais de trinta corpos - não só para captar a beleza das proporções, como também o fluxo de energia que emanava da figura em movimento.

“A Arte da Renascença” exibe reproduções de dez de suas mais famosas pinturas, como a “Mona Lisa” - a obra de arte mais visitada em todo o mundo - e “A Última Ceia”. “Desenhos da Batalha de Anghiari” traz 14 ilustrações retratando homens que atuaram na vitoriosa ofensiva de Florença em 1440. “Códices” reúne cinco conjuntos de manuscritos e desenhos que registram diversas épocas da vida de Leonardo da Vinci e seus projetos, com notas, teorias e assuntos superpostos livremente entre as páginas: “Forster”, “Madrid” (estes recentemente descobertos na Biblioteca Nacional daquela cidade, no ano de 1966), “Hammer” (atualmente de propriedade do empresário Bill Gates), “Windsor”, “Arundel”, “Atlanticus” e “Trivulziano”.

Em formato 3D, apresentações em telas de plasma sobre o estudo da proporcão divina, em “O Homem Vitruviano” e, em 2D, o estudo em movimento para a criação da “Última Ceia” formam outro setor da exposição, que se completa com dois murais - uma linha do tempo chamada “A Vida e Realizações de Da Vinci” e outro com suas mais importantes citações - e um “Documentário” sobre sua trajetória.

Leonardo da Vinci (15/04/ 1452 - 02/05/1519) - um dos maiores inventores, artistas, cientistas e pensadores de todos os tempos. É considerado o maior gênio da história, devida a sua multiplicidade de talentos para ciências e artes, engenhosidade e criatividade, além de amplamente proclamado como um dos mais importantes pintores e escultores da Renascença. Seu QI foi estimado em cerca de 180, mas outras fontes chegaram a mencionar 220 - enquanto a média universal baseia-se em 120.

Nascido no pequeno vilarejo de Anchiano, próximo ao município toscano de Vinci, na Itália, Leonardo era filho ilegítimo do tabelião Piero e de Caterina, provavelmente uma camponesa ou, numa hipótese menos provável, uma escrava judia oriunda do Oriente Médio, comprada por Piero. Presume-se que ele não usou o nome do pai por causa do estado ilegítimo - e sim, o Vinci, com referência a sua terra natal.

Viveu em plena Renascença Italiana, nos séculos XV e XVI, sob influência de duas grandes personalidades da época - o estadista Lourenço de Médici e o artista Andrea del Verrocchio. Em 1472, com vinte anos, já era membro do grêmio dos pintores florentinos.

Como pintor, é o autor da obra de arte mais visitada no mundo, a “Mona Lisa” - exposta no Museu do Louvre, em Paris - e de “A Última Ceia”, exposta no Convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão. Escultor ambicioso, também era conhecido como engenheiro e cientista, embora sua obra nestes campos tenha permanecida oculta por muitos séculos.

Hoje, sabe-se que é o “pai” do vôo humano, inventor do automóvel, do rolamento de esferas e dos sistemas diferenciais. Foi estrategista militar dos exércitos milanês e florentino, criando o tanque, a bala, e muitas pontes, com uma surpreendente inventividade de engenharia; elaborou a “cidade ideal”, de ambiente equilibrado para livrar o mundo da peste; esboçou os mecanismos para construir um robô e um dos pioneiros da cartografia, anatomia e geologia.

Leonardo era fascinado pelo estudo da Natureza e a partir dos princípios naturais, obteve a base para suas criações. Dedicou-se também ao aprofundamento sobre a luz e a sombra, teorizou sobre efeitos criados por múltiplas fontes de luz sobre fisionomias e objetos. Foi, acima de tudo, um observador incansável. Ocupou sua mente na solução de uma vasta gama de problemas, criando planos e esquemas de invenções que, todavia acabaram levando séculos para serem produzidas.

Morreu em Cloux, França, e de acordo com o seu desejo, sessenta mendigos seguiram seu caixão. Leonardo da Vinci foi enterrado na Capela de São Hubert no Castelo de Amboise.

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50 mil visitas

Quando pensei em colocar o Blog no ar confesso que visitei alguns sites que orientavam os blogueiros sobre erros que deveriam ser evitados e acertos que deveriam ser copiados. Algumas das orientações eu incorporei, outras não. Dentre elas uma me chamou a atenção: se o Blog alcançasse uma média de 350 a 400 visitas por mês, se dê por contente, pois há bilhões deles espalhados pelo mundo. Um dos autores inclusive, falava na decadência desta forma de comunicação em decorrência do seu próprio sucesso. Fiquei ressabiado, mas decidi entrar na onda.

Nesta quarta-feira de cinzas o Blog Controvérsia alcançou a incrível marca de 50 mil visitas em um pouco mais de 7 meses de vida.

Agradeço mais uma vez pela navegação.

Grande abraço.

Ricardo Alvarez

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Um ‘país’ chamado interior paulista

Com PIB superior ao do Chile, área continua a atrair empresas

Marcelo Rehder e Agnaldo Brito

Estadão on line

Com uma força econômica superior à de países como o Chile, o interior paulista tem atraído cada vez mais empresas da capital e de outros Estados que buscam custos menores, espaço para crescer e um sistema logístico que favoreça o escoamento da produção, sem os congestionamentos crônicos da cidade de São Paulo. Fortalecido com essa migração de empresas, o interior viu sua participação no Produto Interno Bruto (PIB) paulista crescer 3,7 pontos porcentuais no curto período de quatro anos. Hoje, a região já responde por praticamente metade da soma de todas as riquezas produzidas no Estado.

O interior paulista (descontando os 39 municípios da Região Metropolitana de São Paulo) é um ‘país’ com um PIB de US$ 135,9 bilhões no ano passado, segundo projeção feita pela consultoria MB Associados. O valor é 12% maior que o PIB chileno, de US$ 121 bilhões em 2006.

No território brasileiro, o interior paulista não tem rivais em poder econômico, com exceção da Região Metropolitana de São Paulo. Sua participação no PIB do País é de 15,3%, praticamente metade da contribuição do Estado, de 30,9%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) referentes a 2004.

‘Se somarmos o PIB das Regiões Norte e Centro-Oeste do País, mesmo assim não dá o do interior de São Paulo’, compara Miguel Matteo, chefe do Departamento de Estudos Econômicos da Fundação Sistema de Análises de Dados (Seade), órgão do governo do Estado.

Esses fatores tornam a região um pólo de investimentos que tem atraído muitas empresas , principalmente para o espaço produtivo formado por municípios das regiões de Campinas, São José dos Campos, Sorocaba e Santos, que se concentram num raio de 150 quilômetros, com foco na região metropolitana.

‘O aumento das exportações do Estado, nos últimos anos, beneficiou essencialmente a região metropolitana e seu entorno, onde se concentram cerca de 90% do valor adicionado pela indústria paulista’, observa o economista Sergio Vale, da MB Associados.

NA FAVELA

A Omamori Indústria de Alimentos, empresa que produz embutidos da marca Ceratti, decidiu deixar a cidade de São Paulo em outubro de 2004. Segundo Mario Benedetti, proprietário da indústria, foi a única maneira de tirar a empresa da estagnação.

A fábrica da Ceratti ficava dentro da maior ocupação urbana do País, a favela de Heliópolis, na região do Sacomã, em São Paulo. ‘Há 30 anos não havia nada por ali. A ocupação avançou, surgiram os barracos, as casas de alvenaria. Quando vimos, estávamos no meio da favela, sem a menor condição de operação’, conta Benedetti.

A transferência da fábrica para Vinhedo, município da Região Metropolitana de Campinas, foi um salto. Além de ter elevado a capacidade de produção para 1 mil toneladas por mês, a unidade ganhou um SIF Exportação - que a habilita a exportar para mercados exigentes. ‘Era algo impensável em São Paulo.’ As perspectivas de exportação para a França e a China são concretas e podem ser acertadas em breve.

A 40 quilômetros de Vinhedo, entrando mais para o interior, a panificadora industrial Wickbold se apressa para terminar a montagem da nova fábrica, em Hortolândia, cidade também da Região Metropolitana de Campinas. Até abril, duas novas linhas de produção de pães começarão a funcionar. O plano, até 2010, é alcançar até seis linhas de produção de pães.

O interior paulista foi a alternativa da Wickbold para a falta de capacidade das duas fábricas na região metropolitana de São Paulo, uma em Diadema e outra na Vila Santa Catarina. A empresa tem uma terceira unidade em Jacarepaguá, no Rio. Em nenhuma destas havia espaço para crescimento.

‘A empresa precisava crescer a produção numa região próxima de São Paulo, a no máximo 150 quilômetros da capital. Hortolândia foi um achado’, diz Eric Wickbold, gestor de novos projetos da empresa. A construção da fábrica vai consumir R$ 50 milhões.

Ao lado da Wickbold, a Dell Computer, líder do mercado de servidores no Brasil, com 44,4%, escolheu o mesmo distrito industrial de Hortolândia para por em marcha um plano de expansão da produção de computadores no País. O interior de São Paulo vai dar à empresa duas condições para reforçar a capacidade de disputar uma fatia do mercado nacional: ficará mais perto dos principais fornecedores de partes e peças e estará ao lado do maior mercado de computadores, o Sudeste do País.

A Dell vai manter a unidade de produção e o centro de desenvolvimento de software em Eldorado do Sul (RS), mas terá nova condição para competir no mercado interno. Segundo Laury Johnson, diretor de Distribuição e Operações da Dell, a unidade de Hortolândia, que começa a produzir neste semestre, deve dar à empresa custos mais baixos por máquina. Os 10 principais fornecedores, que respondem por 80% das compras, estão no interior de São Paulo.

BALANÇO

US$ 135,9 bilhões
foi o Produto Interno Bruto (PIB) do interior de São Paulo no ano passado, conforme levantamento da MB Associados

12%
é quanto o PIB do interior paulista superou o do Chile
no ano passado

15,3%
foi a participação do interior paulista no PIB Brasileiro
no ano de 2004

4 anos
foi o tempo que o interior de São Paulo precisou para elevar em 3,7 pontos porcentuais a sua participação no PIB paulista

30,9%
foi a participação do Estado de São Paulo no PIB Brasileiro
em 2004, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE)

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CHINA FRACASSA EM TENTATIVA DE CUMPRIR META DE POLUIÇÃO

A China informa que vai aumentar seus esforços para frear emissões de
poluentes, suspendendo temporariamente a aprovação de alguns projetos de
investimento, após não conseguir cumprir uma meta de controle de emissões
fixada para 2006. A Administração Estatal de Proteção Ambiental disse em seu
site ( www.sepa.gov.cn) que o país havia falhado em
cumprir o objetivo de reduzir emissões em 2% em 2006, sem fornecer mais
dados. A China estabeleceu uma meta de reduzir emissões de poluentes em 10%
entre 2006 e 2010. Para conseguir seu objetivo, o governo teria que barrar
aprovações de projetos de investimento em atividades altamente poluentes nas
províncias que falharam em frear suas emissões, em linha com as metas
estabelecidas para elas por Pequim, disse o órgão. A agência também disse
que, até o fim do ano, a China iria fechar fábricas de papel com capacidade
inferior a 34 mil toneladas por ano, e aumentar os preços de eletricidade e
água para indústrias altamente poluentes e consumidoras intensivas de
energia. A China, ano passado, também não alcançou sua meta de corte de 4%
na quantidade de energia que usa para gerar cada dólar de renda nacional.

Estadão

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Violência das drogas aumenta o medo no México

Jo Tuckman
na Cidade do México

Ataques mortais contra dois postos policiais por criminosos usando uniformes militares aumentaram a pressão sobre o novo presidente do México, Felipe Calderón, para demonstrar que sua muito falada repressão ao crime organizado liderada pelas forças armadas será capaz de lidar com os poderosos cartéis do narcotráfico do país.

Os ataques na ‘cidade resort’ de Acapulco, na terça-feira (6/2), mataram cinco investigadores da polícia e duas secretárias, também provocaram o temor de que a violência ligada às drogas afugentará os turistas, cuja contribuição é importante para a economia mexicana.

Desde que assumiu a presidência em 1º de dezembro, Calderón enviou cerca de 25 mil soldados para pontos estratégicos no México, incluindo Acapulco, prometendo “recuperar a autoridade nos territórios disputados pelo crime”. Os cartéis nestas áreas mataram mais de 2 mil pessoas no ano passado em sua disputa pelo controle das rotas de tráfico de cocaína, pela produção doméstica de maconha, heroína e drogas sintéticas, assim como pelo mercado consumidor local.

Calderón convocou uma reunião de emergência com seu gabinete de segurança imediatamente após os eventos em Acapulco, que tanto desafiaram quanto zombaram de seus esforços para mostrar às gangues que não estão no controle. Uma breve declaração insistiu que “o governo não recuará ou desistirá diante dos ataques do crime organizado”, e descreveu os ataques como uma reação à repressão que está começando a parecer uma questão definidora do governo do novo presidente.

“Calderón tinha que fazer algo”, disse Bruce Bagley, um especialista em narcotráfico na América Latina e professor da Universidade de Miami. “A percepção da população é que saiu de controle.”

A primeira etapa da operação teve início em 12 de dezembro, no Estado central de Michoacán, cenário de parte da violência recente mais chocante, incluindo cinco cabeças decepadas que rolaram em uma pista de dança.

Em seguida veio a cidade desordeira de Tijuana, próxima da fronteira americana e de San Diego, e depois dela o Estado de Guerrero, no sul, onde fica Acapulco. Então a atenção do governo se voltou para o chamado Triângulo Dourado, onde os Estados do norte de Durango, Chihuahua e Sinaloa se encontram e onde, acredita-se, Joaquín “El Chapo” Guzmán, o líder de um dos dois cartéis das drogas, esteja escondido.

No mês passado, as autoridades levaram jornalistas até a lendária baía de Acapulco, ignorando as praias e navios de cruzeiro, mas sim para circularem e verem de perto os bloqueios de estrada.

A indústria local do turismo se preocupava com a reputação de Acapulco de centro do narcotráfico antes mesmo dos eventos da semana passada, entre eles um incidente no qual dois turistas canadenses ficaram levemente feridos por disparos no saguão de um hotel.

Falando na quarta-feira sobre os ataques de terça contra a polícia, o prefeito Felix Salgado disse aos líderes empresariais: “Eu espero que isto não afete a imagem do turismo”. Soou mais como um desejo para uma autoridade que já recebeu dezenas de ameaças de morte das gangues que disputam o controle da cidade. Ele é protegido por uma dúzia de guarda-costas.

Enquanto isso, as forças federais estavam ocupadas seguindo a trilha dos comandos. Uma batida contra um esconderijo e a recuperação de carros supostamente usados pelos assassinos resultaram na apreensão de um pequeno arsenal de rifles de assalto, pistolas e granadas, assim como uniformes militares e da polícia federal.

A ofensiva de Calderón contra os cartéis é menos significativa por seu tamanho e sim por ter reduzido a participação da polícia totalmente civil apenas a “simbólica”, segundo Bagley, o analista de Miami. A grande maioria dos agentes envolvidos é composta de soldados ou veio da polícia federal treinada pelo Exército. A estratégia está sendo elaborada pelo Ministério da Defesa.

Analistas concordam que Calderón foi levado aos braços dos generais por causa da reputação relativamente limpa das forças armadas e melhor treinamento. A corrupção e a falta de profissionalismo há muito tomaram as polícias locais e estaduais, o que as tornam mais propensas a ajudarem em uma fuga de prisão ou a protegerem a festa de casamento de um chefão do que levar um traficante à Justiça.

Como parte da ação do governo, os soldados estão investigando as forças policiais locais à procura de ligações com os cartéis. Em Tijuana, o exército mal tinha chegado à cidade quando confiscou todas as armas dos policiais locais.

Nos ataques em Acapulco na terça-feira, os comandos primeiro desarmaram suas vítimas alegando que estavam executando uma inspeção de armas. Então abriram fogo - e gravaram em vídeo os massacres. Os investigadores federais que trabalham no caso revelaram posteriormente que dois dos investigadores da polícia mortos eram suspeitos de corrupção.

Bagley disse que apesar de reconhecer que Calderón tinha pouca escolha na elaboração de sua ofensiva, o Exército “também é corruptível”. Alguns analistas vão mais longe e alertam sobre um desastre sem precedentes, caso soldados mal pagos, descontentes ou simplesmente gananciosos decidam passar para o lado dos traficantes.

Um importante especialista em drogas do México, Luís Astorga, aponta para o precedente criado pelos Zetas - um grupo de matadores formado por desertores militares no final dos anos 90 e que são protagonistas na atual violência. “Nós poderemos ter o fenômeno Zetas multiplicado”, disse Astorga, da Universidade Autônoma Nacional do México. “Isso levaria a guerra a outro nível.”

Em um reconhecimento de que os traficantes não são necessariamente neutralizados mesmo quando são capturados e mantidos em prisões federais de segurança máxima, o governo Calderón começou a extraditar os chefões do crime para serem julgados nos Estados Unidos.

Osiel Cárdenas, o principal rival de Chapo Guzmán, estava entre os primeiros enviados para o outro lado da fronteira em 19 de janeiro. Ele supostamente comandava seus negócios e sua guerra territorial de sua cela de prisão no México.

Até o momento, a repressão desfruta de um raro grau de consenso político. As extradições provocaram preocupação por parte de alguns especialistas sobre sua legalidade, mas o debate se concentrou em discutir se levarão a uma resposta comparável à guerra travada contra o Estado colombiano pelos “extraditáveis” no início dos anos 90, sob o slogan “melhor uma tumba na Colômbia do que uma cela nos Estados Unidos”.

Calderón é cada vez mais comparado ao presidente linha-dura colombiano Álvaro Uribe. De forma válida ou não, o governo americano não tem economizado elogios à forma como as coisas estão prosseguindo, e o presidente Bush disse isso ao seu par mexicano em um telefonema pessoal no mês passado.

Ainda assim, disse Astorga, todos os três líderes deveriam prestar atenção no mais recente relatório do Centro Nacional de Inteligência sobre Drogas dos Estados Unidos, que sugere que todos os recursos empregados no combate ao tráfico de cocaína fracassaram em reduzir a demanda nos Estados Unidos ou diminuir a produção na Colômbia.

Tradução: George El Khouri Andolfato

The Boston Globe

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Arrozeiros ainda resistem na Raposa Serra do Sol

Após dois anos da homologação da terra indígena que abriga 17 mil índios, grandes produtores de arroz ainda investem normalmente em suas produções e insistem em manter plantios ilegais. Desintrusão deve ocorrer até final de abril.

Natalia Suzuki - Carta Maior

SÃO PAULO – Em 2005, a Terra Indígena Raposa Serra do Sol foi homologada pelo presidente Lula após um processo que levou mais de vinte anos para ser concluído. Pouco mais de 1,7 milhão de hectares de terras foram reconhecidos como pertencentes a 100 comunidades indígenas da região. Dois anos depois do reconhecimento da terra, os índios ainda travam uma batalha contra grandes produtores de arroz continuam ativos dentro da área demarcada.

De acordo com o Conselho Indígena de Roraima (CIR), atualmente, cerca de 17 mil índios vivem na Raposa Serra do Sol, o que representa quase metade de toda a população de 34,5 mil índios de Roraima. A área de arroz plantado ilegalmente pode chegar a 100 mil hectares, segundo a Fundação Nacional do Índio (Funai).

Os fazendeiros que ainda estão na Raposa Serra do Sol têm 30 dias para contestar o valor das indenizações a serem pagas pelas suas benfeitorias e outros 30 para se retirarem do local. Ao final desses 60 dias, se houver permanência dessas pessoas na área, a Polícia Federal será acionada.

“Para o Governo Federal, não há possibilidade de os fazendeiros permanecerem ali. Eles vão ter que desocupar”, afirma o procurador-geral da Funai, Luiz Fernando Villares. A expectativa, segundo ele, é que entre abril e maio toda a desintrusão seja feita.

Mas, mesmo sob pressão dos indígenas e das instituições do governo, a produção de arroz parece continuar intocada. “Estamos plantando, colhendo, investindo e produzindo”, afirma Paulo César Quartiero, presidente da Associação dos Arrozeiros de Roraima. Ele diz que planta arroz há mais de 30 anos na região e se queixa da pressão para deixar os cultivos ilegais e as terras indígenas: “Nós sofremos impactos negativos indiretamente, porque, ao invés de plantarmos, estamos correndo atrás de apoio político e jurídico”, explica. De acordo com ele, já existem ações na Justiça por parte dos rizicultores para lhes assegurar as terras do plantio.

Nesta última sexta-feira, Quartiero (PDT), que também é prefeito do município de Pacaraima, foi cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral sob acusação de abuso de poder econômico e por compra de votos. De acordo com o CIR, a primeira acusação se refere ao fato de o fazendeiro ter feito uma de suas lavouras de arroz dentro de uma maloca indígena. O novo prefeito, que ficou em segundo lugar nas eleições de 2004, já assumiu o cargo. Quartiero vai entrar com recurso na Justiça.

O fazendeiro destaca que o arroz é o principal produto do Estado. Na sua opinião, não há alternativas econômicas para Roraima que não sejam a agricultura. “Nós geramos impostos, recursos e tecnologia. Fornecemos à população o arroz mais barato, barateando o custo de vida. Como o Estado vai atender a demanda social, se não tiver receita e produção?”, questiona.

Os índios, por outro lado, reafirmam a sua autonomia e independência. Segundo Dionito José de Souza, indígena Macuxi e coordenador geral do CIR, nos últimos tempos os índios têm evitado conflitos violentos e problemas com os produtores de arroz, mas não abrem mão de toda a área demarcada da Raposa Serra do Sol e da autonomia conquistada, que lhes foram garantidas por lei. “Nós pedimos a retirada dos produtores de arroz. Eles estão trabalhando dia e noite; o cultivo é direto, ninguém interrompe o trabalho. São grandes arrozeiros e eles tiram muitas toneladas de arroz dos plantios”, protesta Souza.

Em nota da 36a Assembléia dos Povos Indígenas de Roraima, os índios reivindicam “uma equipe de peritos agrônomos para fazer o levantamento dos danos ambientais provocados pelas plantações de arroz para posterior indenização e recuperação das áreas degradadas”.

“Temos planos de desenvolvimento sustentável e projetos de agropecuária e piscicultura”, explica Souza. Atualmente, as comunidades indígenas desenvolvem agricultura e pecuária bovina de subsistência. A idéia é que parte da agricultura de mandioca e milho, os principais produtos dos indígenas da região, se torne mecanizada no futuro.

O coordenador do CIR afirma que as comunidades da Raposa Serra do Sol têm acesso à educação e à saúde. Segundo ele, há 84 laboratórios médicos espalhados para atender as populações indígenas e quase 100% dos índios são vacinados. Existem programas de prevenção contra a malária, que contribuíram para diminuir as ocorrências da doença nos últimos anos.

Já o presidente da Associação dos Arrozeiros afirma que saídas dos fazendeiros, ao contrário, trará prejuízo aos índios. “A demarcação da Raposa Serra do Sol vai isolar os índios. Eles são os que serão prejudicados nesse processo. Você acha que, em pleno século XXI, tem como eles sobreviverem sozinhos? As ONGs dizem que os índios têm que viver de acordo com a cultura deles, mas a cultura dos índios é da idade da pedra. Não dá para viver assim no mundo globalizado”, avalia. Quartiero aponta que, por esses motivos, os indígenas serão os principais prejudicados com a demarcação e diz que os pequenos produtores também sofrerão com o processo, pois terão que se deslocar para periferias das zonas urbanas.

“Só pelo fato de os índios terem essas terras reconhecidas já é uma garantia deles para explorar a terra e exigir a infra-estrutura necessária. Há uma rede de proteção ao índio que já está estabelecida no Brasil inteiro”, afirma o procurador-geral da Funai.

Quanto aos pequenos agricultores que foram retirados da área indígena, o procurador geral explica que as condições de muitos melhoraram por terem recebido glebas maiores de terra depois da desintrusão. Ele afirma que a legalização fundiária dessas pessoas permite financiamentos e créditos para a produção, o não seria concedido se estivessem ilegalmente na Raposa Serra do Sol. Atualmente, 178 proprietários foram indenizados. Outros 95 estão com o processo de análise de propriedades em andamento e mais 63 estão na justiça para rever o valor indenizatório. Esses últimos 158 proprietários são os que ainda continuam na terra indígena.

“As únicas pessoas que vão piorar de vida são os grandes produtores, pois estão plantando e degradando o meio ambiente de uma terra que não é deles. O problema e a resistência maior são os grandes produtores, porque são a elite local”, explica Villares.

No entanto, os índios ainda lutam pelo cumprimento de outras medidas. Três das quatro escolas que atendem as oito mil crianças indígenas ainda precisam passar para a gestão das comunidades. Atualmente, apenas uma escola está em processo de repasse à administração indígena. Apesar de receberem assistência médica, Souza afirma que os repasses dos recursos enfrentam a burocracia da Funasa e, muitas vezes, isso acarreta atrasos no pagamento dos servidores.

Ocupação de má fé
Segundo Villares, a ocupação dos arrozeiros é recente e ocorreu há menos de dez anos, após a declaração da Raposa Serra do Sol como terra indígena em dezembro de 1998. Por esse motivo, explica o procurador-geral, as terras não têm valor indenizatório, já que a ocupação é considerada invasão.

Devido a essa ilegalidade, as maiores perdas de fato serão dos grandes rizicultores. Villares afirma que os plantadores de arroz, além de não terem direito à indenização sobre a terra, também não serão ressarcidos pelos plantios de arroz, pois os mesmos foram feitos após a homologação da terra. “São plantios de má-fé, pois os fazendeiros já sabiam que eram terras indígenas e não podiam cultivar ali”, explica.

Um outro problema, segundo Villares, é que os cultivos são irregulares também do ponto de vista ambiental por não apresentarem licenciamento. As indenizações contemplariam apenas benfeitorias como casas e infra-estruturas que estejam regularizadas.

Carta Maior

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EUA divulgam documentos soviéticos sobre assassinato de Kennedy

Patrice de Beer

WASHINGTON - Os Arquivos Nacionais americanos acabam de publicar 80 páginas de documentos relativos ao assassinato do presidente John Fitzgerald Kennedy. Os documentos, traduzidos para o inglês, constituem apenas uma parte dos arquivos da KGB sobre a estada de Lee Harvey Oswald na União Soviética, de 1959 a 1962. Eles foram entregues a Bill Clinton por Boris Ieltsin durante a cúpula do G8 em 20 de junho, em Colônia.

Esse presente do chefe de Estado russo, Boris Ieltsin, ao presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, levanta uma ponta do véu que oculta os dossiês da KGB a respeito do suposto assassino de Kennedy, Lee Harvey Oswald, e sobre os contatos diplomáticos que se seguiram ao drama de 22 de novembro de 1963 em Dallas.

Mas ainda há muito a descobrir, segundo o juiz Tunheim, que dirigiu a comissão que examinou os documentos sobre o assassinato. Em 1996 a KGB da Bielorússia lhe mostrou uma pilha de pastas com mais de um metro de altura. Os serviços secretos soviéticos acumularam uma enorme massa de informações sobre a estadia de Oswald na União Soviética entre 1959 e 1962.

“Esquecer o caso”

Esses documentos dão uma idéia do desejo de Moscou e de Washington de evitar qualquer atrito. Na época as relações entre as duas superpotências se haviam “descongelado” um pouco, depois da crise dos mísseis em Cuba, em outubro de 1962. Num telegrama cifrado de 25 de novembro de 1963, o vice-primeiro-ministro soviético Anastas Mikoyan, que representou seu país no funeral de Kennedy, descreve a calma aparente e o sorriso de Jackie Kennedy durante a recepção dada na Casa Branca:

“Ela me disse com grande emoção, quase chorando: ‘Tenho certeza de que o presidente [Nikita Kruschev] e meu marido teriam visto coroar-se de sucesso a busca da paz à qual dedicaram tantos esforços. Os senhores devem levar a cabo essa tarefa’. Ela disse tudo isso com inspiração e profunda emoção. Durante toda a conversa segurou minhas mãos, tentando transmitir com a maior convicção possível seus sentimentos pela causa da paz, tão cara a seu marido, e seu próprio desejo de que nossos países tenham êxito nessa missão”.

Jackie enviaria depois uma carta manuscrita nesse sentido, agradecendo ao “Senhor K” por suas condolências.

Mas o dignitário soviético surpreendeu-se principalmente com a vontade dos Estados Unidos de dar prosseguimento à política iniciada por Kennedy. Seus interlocutores lhe disseram que não permitiriam que o inquérito Warren fosse prejudicado pelas denúncias de complô comunista, feitas por alguns na época. Em contrapartida, Washington pediu que o Partido Comunista Soviético (PCUS) pusesse em surdina suas acusações sobre um complô da extrema-direita, o que foi feito.

Como escreveu Mikoyan em seu relatório: “O governo americano não quer nos envolver nesse caso, mas tampouco quer entrar em conflito com sua extrema-direita. Prefere claramente que todo o caso seja esquecido o mais depressa possível”. Essa frase é suficientemente ambígua para nos deixar em dúvida se aludia à vontade do novo presidente, Lyndon Baines Johnson, de evitar o recrudescimento das tensões com Moscou, ou se Mikoyan teve a impressão de que o sucessor de Kennedy queria enterrar a investigação.

Em todo caso, esses documentos tendem a mostrar que o Krêmlin se esforçou para cooperar com Washington: evitou exageros de sua propaganda e remeteu uma série de documentos relativos a Oswald. Através deles descobrimos que os soviéticos tinham dúvidas sobre o ex-fuzileiro naval convertido ao antiamericanismo.

Depois de voltar aos Estados Unidos em 1962, Oswald tentou novamente obter visto para a URSS no México e escreveu uma carta à embaixada soviética em Washington poucos dias antes do assassinato de Kennedy. O embaixador Dobrynin se pergunta se essa carta datilografada não era uma prova falsa destinada a implicar a União Soviética num complô.

O que fica claro no dossiê Oswald é que ele realmente não era bem-vindo na URSS, onde não inspirava a menor confiança. Depois de ele suplicar muito por asilo, a KGB lhe deu visto de apenas um ano.

“Dado que vários estrangeiros que receberam a cidadania soviética deixaram o país pouco depois, e considerando que seu caso ainda não foi suficientemente examinado, seria desejável lhe conceder somente permanência temporária”, escreveram em 27 de novembro de 1959 o ministro das Relações Exteriores, Andrei Gromyko, e o chefe da KGB no comitê central do PCUS, Chelepin.

“Sou comunista”

Embora tenha se casado com uma soviética e afirmado a seus anfitriões que pedia “essa nacionalidade porque [era] um comunista e um operário [e que tinha] vivido numa sociedade capitalista decadente, onde os trabalhadores são escravos”, não obteve o que desejava. “Não há qualquer justificativa para aprovar essa naturalização (…) e a KGB não o considera desejável”, lê-se em outro documento.

Podemos nos perguntar, no entanto, se o destino de um eletricista medíocre que foi exercer seus talentos numa fábrica em Minsk, na Bielorússia, com um salário de 700 rublos por mês e um “pequeno apartamento”, merecia ser analisado pelo comitê central do PCUS. Documentos publicados em 1995 revelaram que ele possuía um fuzil de caça, mas era um atirador medíocre, coisa surpreendente num fuzileiro naval…

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Le Monde

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Olarias: o fim das mais antigas Indústrias do ABC

Ademir Médici

Diário do Grande ABC

Crava-se a pá no barro preto.
Rangem as pipas amassando a argila.
Bate a forma o oleiro.
Fumegam os fornos.

(Mário Dal’Mas. Poeta. São Caetano)

* * *

A primeira indústria do Grande ABC vive seus últimos momentos. São as
olarias. Restam quatro, duas em Ribeirão Pires e duas em Rio Grande da
Serra. Informações orais falam de uma quinta, na divisa de Mauá com
Ribeirão. Rodamos toda a área e não a localizamos.

O repórter-fotográfico Orlando Filho, do Diário, guiado pelo oleiro José
Valeriano Tertuliano, o Macalé, 68 anos, 48 como oleiro, percorreu as
últimas olarias e fez um ensaio fotográfico de cada uma delas. São as
seguintes:

1) Olaria do Zecão, Ouro Fino, Ribeirão Pires.
2) Olaria do José Ferreira, estrada do Soma, Ribeirão Pires.
3) Olaria do Machado, Sítio Maria Joana, Rio Grande da Serra.
4) Olaria do Sítio Maria Joana II, Rio Grande da Serra.

Orlando Filho documentou também ruínas de três outras olarias:
1) Olaria do Zecão II, avenida Pedro Ripoli, 157, Barro Branco, Ribeirão
Pires.
2) Olaria da avenida Santa Clara, hoje canteiro de obras da Sabesp, em
Ribeirão Pires.
3) Olaria do Núcleo Santa Cruz, distrito de Riacho Grande, São Bernardo.

Um terceiro trabalho de Orlando Filho: ele fotografou coleções de
tijolos raros mantidos pelo Museu de São Caetano e pelo Centro de
Pesquisa do Folclore de São Bernardo. O Museu de São Caetano expõe,
permanentemente, a maquete de uma olaria idealizada pelo fotógrafo
Dirceu da Silva Real, de Santo André, também fotografada - as últimas
olarias de São Caetano não sobreviveram à década de 1940.

A faixa que vai de Mauá a Diadema, cruzando Santo André, São Bernardo e
São Caetano, há muito deixou de ter olarias. Uma delas serviu como
temática central e virou cartaz do IV Congresso de História do Grande
ABC, realizado em Diadema. O forno já estava desativado quando o
congresso tomou a cidade, em 1996. Hoje até o forno foi demolido -
restou a foto do cartaz.

As últimas olarias de Santo André, São Bernardo e Diadema funcionaram,
de maneira rudimentar, na área de proteção aos mananciais, de Eldorado
ao Pedroso, passando pelo distrito de Riacho Grande. Conseguimos
localizar ruínas de apenas uma delas, no Núcleo Santa Cruz, adiante da
primeira balsa da represa Billings.

Tínhamos esperança de encontrar ruínas de uma segunda olaria, no Parque
do Pedroso, em Santo André, que há anos estava desativada. A Prefeitura
informa que tais ruínas também foram desmanchadas e seus tijolos
aproveitados em obras de manutenção.

Com o fim das olarias, o Grande ABC perde também a figura do oleiro,
aquele profissional que madrugava para bater barro, dar forma ao tijolo
com as iniciais do nome do dono da olaria. Profissional de múltiplas
funções, como a de pôr o tijolo secando até ser levado para o forno -
onde outros oleiros, quando não os mesmos, davam plantão para aguardar
mais uma fornada.

Vários fatores explicam o fim das olarias, do econômico ao de
preservação do meio ambiente. Há décadas os oleiros-patrões vinham se
queixando da bitributação de impostos para manter o negócio. Mais
recentemente, da virada dos anos 90 para o novo milênio, a pressão do
poder público foi grande. Afinal, as olarias necessitam de lenha,
diferentemente da sua concorrente maior, as fábricas de blocos - que
hoje imperam também no Grande ABC.

Assim, apenas nas partes mais distantes do Grande ABC, em locais de
difícil acesso, é que sobrevivem as quatro últimas das nossas olarias.

Não foi sempre assim. As duas primeiras olarias do Grande ABC ficavam no
centro de dois núcleos coloniais: São Bernardo e São Caetano. Eram as
olarias das fazendas dos monges beneditinos, instaladas na primeira
metade do século 18. Eram tocadas por escravos: negros e índios.

A olaria pioneira de São Bernardo, entre uma das variantes do Caminho do
Mar e o ribeirão dos Meninos, ficava na atual avenida Senador Vergueiro,
onde está uma das unidades da rede Carrefour. A olaria de São Caetano
localizava-se no atual bairro Fundação, igualmente próxima a um rio
importante, o Tamanduateí, no ponto em que ele recebe o ribeirão dos
Meninos vindo de São Bernardo.

Tivemos olarias em vias centrais como a Marechal Deodoro, em São
Bernardo, avenida Pereira Barreto, em Santo André, e várzea do
Tamanduateí, a poucos metros da avenida Goiás. Há 80 anos, estava sendo
posta à venda uma olaria localizada na avenida Caminho do Mar, hoje
bairro Rudge Ramos, conforme anúncio publicado em seguidas edições de
1925 pelo semanário O Comércio de São Bernardo:

“Vende-se grande olaria.
Acha-se à venda no Caminho do Mar (bairro dos Meninos) uma grande
olaria, cuja produção diária atinge a 5 mil tijolos e enorme fabricação
de telhas, produtos superiores, barro de primeiríssima ordem. Essa
propriedade contém duas boas casas coloniais, fornos especiais, estufas,
caminhões, animais.”

Não se sabe quem ficou com a olaria, nem o que foi feito dela.

* Rota da Olaria *

Ademir Médici
Do Diário do Grande ABC

“Passou a mão no tijolo, ele não cantou… não presta”.
(Zé Macalé. Oleiro. Ribeirão Pires) Jovens que não conviveram com o auge
do funcionamento das olarias no Grande ABC estão abrindo uma empresa -
Billings Tour - com passeios voltados a antigos equipamentos artesanais
do distrito de Riacho Grande, em São Bernardo. São três rotas básicas:
Rota do Carvão, Rota dos Portos de Areia e Rota da Olaria.

A Rota da Olaria leva ao Núcleo Santa Cruz e às ruínas de uma olaria
localizada em área pertencente a uma família de japoneses. O acesso pode
ser a pé, de carro ou de bicicleta. Pelo caminho, uma paisagem
exuberante, inclusive de espécies adultas e raras de araucárias e uma
ilha escolhida pelos pássaros para procriação.

Na olaria se aprenderá com os guias - antigos oleiros, de preferência -
como é que se fazia tijolos naqueles pátios e fornos, de onde vinha o
barro, como os burricos eram postos a trabalhar, como o tijolo secava,
cozinhava e era despachado.

Os jovens estudantes têm o apoio de um funcionário da Prefeitura, o
são-bernardense Francisco Antonio da Silva, 53 anos, que conheceu muitas
olarias e que hoje pertence ao Programa Jovens Reservas da Biosfera, que
além de São Bernardo atinge outros 72 municípios da Grande São Paulo e
arredores, que formam o chamado cinturão-verde paulista.

Depois dos levantamentos registrados nesta reportagem, bem que a Rota da
Olaria de Riacho Grande poderia ser estendida para a área mais afastada
de Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, onde localizamos as quatro
últimas olarias em plena atividade. Ali, os estudantes da Billings Tour
teriam a assistência de oleiros que ainda fazem tijolos como os seus
ancestrais. Caso do Zecão.

José Benedito dos Santos, o Zecão, nasceu em Natividade da Serra (SP) em
13 de outubro de 1924. Aos 80 anos, dirige a sua olaria em Ouro Fino e
acompanha cada passo da produção de um tijolo. O Diário o localizou à
beira da boca de um forno, em pleno processo de produção. Zecão ardia
como as labaredas que o forno vomitava. Fomos obrigados a pedir para que
ele saísse dali para que pudesse nos falar.

E Zecão contou a sua grande realização como dono de olaria: cobrir o
pátio para a proteção dos tijolos e empregados. Agora pode chover em
Ouro Fino. A produção não pára.

“Sonhei 60 anos com isso. Esse é o sonho da minha vida.” Uma vida de
dificuldades para criar os 11 filhos, de um trabalho aprendido com o
finado Daniel Bertoldo, descendente dos primeiros italianos que
colonizaram Ribeirão Pires. Podemos dizer que Zecão, neste 2005, dirige
a derradeira grande olaria do Grande ABC, com 20 funcionários, sete
máquinas e seis animais.

Há 30 anos, queixavam-se os oleiros de Ribeirão Pires da carga
tributária (Olarias vivem fim de grande época, Diário, 24/7/1973). Eram
eles obrigados a recolher 15% de imposto único sobre minerais e mais
15,5% sobre a circulação de mercadorias, sem contar a verba dispensada
para a cobertura de encargos sociais.

Já na primeira metade do século 20, Ribeirão Pires despachou milheiros
de tijolos em vagões lotados da estrada de ferro Santos-Jundiaí para a
construção de bairros inteiros de Santos. Olarias da Vila Sacadura
Cabral, em Santo André, forneceram os tijolos para a construção do
estádio do Pacaembu, em São Paulo, inaugurado em 1940.

O artista plástico Antonio de Assis, de Santo André, desenhou uma olaria
que existiu no hoje quase central Jardim Bom Pastor. Octavio Ferrari
teve olaria no Parque Galícia, no coração de Diadema. Mantinham olarias
na também central avenida Francisco Monteiro, em Ribeirão Pires, as
famílias Sortino, Balarini, Capello, Chiedde, Del Corto, Cordeiro,
Gianasi, Bertoldo e Dicieri.

A avenida Taboão, quase esquina com a via Anchieta, abrigou a olaria da
família Angeli, anos antes da chegada da Willys, antecessora da Ford no
lugar.

Os também centrais Jardim Stela e bairro Apiaí, em Santo André, na
divisa com São Bernardo, abrigaram a olaria de Francesco Guelfo.

Hoje quem for à olaria do Zecão, nos fundos de Ouro Fino, vai gastar R$
80 pelo milheiro de tijolos; num depósito, o mesmo tijolo vai custarR$
150 o milheiro. José Ferreira, também em Ouro Fino, queixa-se das
chuvas. O pátio da sua olaria, diferentemente do pátio da olaria do
Zecão, não é coberto. Por isso, no início deste ano, a sua olaria
permaneceu fechada durante dois meses: “Olaria não dá lucro, só faz para
comer”. Na olaria do Zé Ferreira, um milheiro de tijolos custa R$ 40 ou
R$ 45, revendido em depósitos por R$ 110.

O melhor, acrescenta Zé Ferreira, é produzir blocos. Mas a atividade
exige mais capital e investimentos em cal, pedriscos e cimento, sem
contar os equipamentos. O tijolo trivial usa apenas barro, abundante em
qualquer canto.

Restam, além do barro, as recordações, as fotografias, as últimas quatro
olarias em funcionamento, as ruínas de outras, o artesanato de homens
como Dirceu Real. As miniaturas em escala de fornos de olarias e tijolos
do Dirceu são verdadeiras obras de arte.

Há o sonho da Rota da Olaria, em Riacho Grande. A história oral de
antigos oleiros. E a lista dos oleiros de 1938, preservada pelo 1º
Distrito Policial de Santo André.

Fica a possibilidade de um exercício: localizar onde estavam aquelas
olarias. Pela lista do 1º DP, tínhamos - há 70 anos - os seguintes
números de olarias: Santo André, 15; São Bernardo, 21; São Caetano, 10;
Diadema, 6; Mauá, 5; Ribeirão Pires, 39; e Rio Grande da Serra, 4. Um
total de 100 olarias, segundo registros do 1º DP de Santo André.

Daquelas 100 olarias de 1938, uma funcionava em plena rua Rio Branco, em
São Caetano; uma segunda ao lado do Aramaçan, em Santo André; várias em
Piraporinha (Diadema) e Rudge Ramos, então Meninos (São Bernardo).

Nos demoramos sobre essa lista de indústrias de Ribeirão Pires. No
começo da reportagem, falamos das duas olarias do Sítio Maria Joana.
Pois uma delas já existia em 1938, propriedade de Francisco Ripoli, que
vem a ser tio-avô do atual proprietário, José Nicanor Machado da Cunha.

Uma empresa familiar raríssima que não pode e não deve morrer.

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Expansão dos EUA na América Latina: origens remotas da Alca

Augusto C. Buonicore

“A expansão dos Estados Unidos sobre o continente americano, desde o Ártico até a América do Sul, é o destino de nossa raça (…) e nada pode detê-la”. Discurso de posse do presidente norte-americana James Buchanan, em 1857.

“O nosso objetivo com a ALCA é garantir para as empresas norte-americanas o controle de um território que vai do Polo Ártico até a Antártida”. General Colin Powell, Secretário de Estado do governo Bush

O projeto norte-americano de anexação da América Latina é bastante antigo e conheceu várias etapas e formas nestes quase duzentos anos. O processo não foi linear, ele foi condicionado por inúmeros fatores entre eles a capacidade de resistência dos povos latino-americanos e a correlação de forças entre as grandes potências. Mas, no geral, podemos dizer que os EUA foram persistentes nos seus propósitos anexacionistas, utilizando os mais diferentes métodos - articulando o grande porrete e a fala mansa. Este artigo busca apresentar, sumariamente, a história da expansão norte-americana no hemisfério até o início da década de 90 quando do início de uma nova ofensiva através da implantação da Alca.

A Doutrina Monroe e o Destino Manifesto

No dia 4 de julho de 1776 foi proclamada a independência norte-americana. A guerra pela independência durou cerca de 6 anos. A jovem república era composta de treze colônias federadas concentradas no lado do Atlântico. Nascia com a necessidade de proteger-se das gananciosas potências européias, especialmente a Inglaterra, e também com pretensões de se expandir para o oeste e sul do continente, conquistando novas terras para a sua população, que crescia rapidamente, e novos mercados para suas mercadorias.

Pouco a pouco foi se constituindo uma ideologia justificadora do expansionismo norte-americano. Esta seria denominada ideologia do “Destino Manifesto”. Propagou-se a idéia da superioridade dos norte-americanos sobre os outros povos do continente - descendentes de espanhóis, portugueses e indígenas. Aos norte-americanos caberia conduzir os demais povos pelo caminho da civilização e da modernidade capitalista.

Em 1823, o presidente James Monroe apresentou o seu discurso anual ao congresso norte-americanos. Ele poderia ser traduzido em uma de suas frases mais conhecidas: “A América para os americanos”. O corpo de idéias relativo a política externa seria denominado Doutrina Monroe. A princípio foi entendida como uma resposta norte-americana às potências européias que estavam de olho no continente, inclusive nos territórios do norte. Os norte-americanos ainda disputavam o Oregon com os ingleses e os russos estavam de olho na Califórnia. No sul, as independências do Brasil e da América espanhola ainda não estavam consolidadas. Naquele momento a Europa era dominada pela Santa Aliança - uma coligação monarquista e arqui-reacionária.

No entanto, mais do que protegerem as Américas das pretensões européias, queriam proteger seus interesses políticos e comercias no conjunto do continente, ainda que acobertando-os com um verniz democrático e anti-colonial. Prova disso é que os EUA se colocaram contra o projeto do México e da Colômbia de ocupar as Antilhas e libertá-las do julgo espanhol. Os EUA também se opuseram e buscaram sabotar o projeto de união americana defendido por Simon Bolívar. Ficava cada vez mais claro que quando Monroe disse a América “para os americanos” queria, na verdade, dizer “para os norte-americanos”.

Restabelecidos da guerra contra a Inglaterra, os EUA partiram para realização do seu “Destino Manifesto”, através da utilização da sua força militar. O primeiro passo foi à conquista do Texas. Desde o final da década de 1820 colonos do sul dos Estados Unidos se deslocaram para a região do Texas, pertencente à República do México. Aproveitando-se da confusão política e da corrupção reinantes montaram suas fazendas e introduziram ali o trabalho escravo - a Constituição mexicana proibia a escravidão. No entanto, em 1835, o México aprovou uma constituição centralista. Este foi o pretexto para que os colonos americanos se rebela