Entre santarrões e fanfarrões

Portugal, país católico, passo a passo descriminaliza o aborto. Nos EUA, políticos vivem de malabarismos

Sérgio Augusto

A Terra continua esquentando, nossos menores cometeram mais dois crimes hediondos, Romário conseguiu marcar três gols (na galinha-morta do Volta Redonda, até eu), a situação do Greg complicou-se ainda mais na firma do Tide, mas o assunto da semana foi aquilo que o Aurélio define como ‘expulsar prematuramente do útero o produto da concepção’. Na Europa, nos EUA, e mesmo aqui, onde a mãe de um dos assassinos do menino João Hélio lamentou-se por ter dado à luz um maldito fruto de seu ventre.
Domingo passado, os portugueses foram às urnas para revelar se queriam chegar mais rápido ao século 21 e distanciarse da Polônia, Irlanda e Malta, livrando da cadeia as mulheres que lá praticam o aborto depois das primeiras 12 semanas de gravidez, ainda que tenham sido vítimas de estupro e corram risco de morte. Na quintafeira, durante o 7º Congresso do Partido Socialista Europeu, na cidade do Porto, a postulante socialista à presidência da França, Ségolène Royal, felicitou o primeiro-ministro português José Sócrates pela coragem de promover o referendo do aborto. O premiê luso sorveu, orgulhoso, o cumprimento, mesmo ciente de que a consulta popular não fora um feito exclusivo do PS português, mas sobretudo o resultado de múltiplos movimentos de cidadãos (contra e a favor da atual lei antiaborto), que contribuíram para despartidarizar a questão e diminuir um pouco a abstenção, conforme me informou a escritora portuguesa e cronista do semanário Expresso Inês Pedrosa. Embora legalizado há 30 anos na terra de Ségolène - e desde 2001 sem a exigência de autorização parental -, o aborto ainda é uma questão de peso nos debates pré-eleitorais da França. Discute-se por lá não a revogação de uma conquista (a legalização de 1975), mas o aprimoramento de sua eficácia, mediante o aperfeiçoamento de meios capazes de prevenir a gravidez. Essa é a questão nodal do aborto. E não apenas na França, onde as mulheres passaram a livrar-se de fetos indesejados como quem extrai um dente. ‘Mulher nenhuma, por muito que tenha sido educada para o auto-sacrifício e o masoquismo, prefere fazer um aborto a preveni-lo’, escreveu Inês Pedrosa, duas semanas antes do referendo. ‘A diferença está em que, se o ´sim´ganhar, as mulheres de menores recursos deixarão de ser humilhadas nos bancos dos réus dos tribunais’ - arrematou a escritora. Ela, como seus patrícios, não foi às urnas para, simplesmente, defender o direito da mulher de tomar decisões sobre o seu corpo e a sua vida, mas, acima de tudo, para acabar com a sua vexatória e estigmatizante criminalização.
Nos EUA, o problema do aborto possui contornos e dimensões diferentes. Divisor de águas nas eleições locais e nacionais, motivo de atentados criminosos contra médicos e clínicas, o aborto predomina amplamente sobre as questões morais que mais tocam os americanos, o que não seria tão inquietante se os americanos se preocupassem mais com os rumos da guerra no Iraque, os perigos do terrorismo e os percalços da economia do que com quizilas morais e religiosas.
O aborto cumpre, hoje, um papel que já foi do abolicionismo, do sufrágio feminino e dos direitos civis, as três mais bemsucedidas cruzadas liberais de uma América que parecia ler a Bíblia com a mão esquerda e guinou para a direita depois da morte de Martin Luther King, em 1968. Desde então, os democratas passaram a representar a secularidade e os republicanos, a religiosidade. Mas as eleições presidenciais de 2008 descortinam um cenário surpreendente: à frente dos postulantes democratas, dois cristãos que rezam e vão à missa (Hillary Clinton e Barack Obama); entre os republicanos, dois pretendentes pouco dados a manifestações de fé (John McCain e Rudy Giuliani).
Na revista do New York Times que hoje chega às bancas, o conservador Gary Rosen discute essa inversão de papéis.
Rosen acha que, apesar de tudo, os carolas continuarão votando nos republicanos, por razões ideológicas ou programáticas. Ou pavlovianas, acrescento eu.
Não dá para se contar nos dedos os parlamentares americanos majoritariamente eleitos por sua posição antiaborto. A recíproca é verdadeira. Colin Powell deixou de ser vice na última chapa de Bush por ser o que os americanos chamam de ‘prochoice’, ou seja, por conceder à mulher o direito de escolher se quer ou não dar à luz um filho indesejado. John Kerry, o adversário democrata de Bush nas eleições presidenciais de 2004, perdeu um bocado de votos por não ter sabido livrar-se da pecha de ‘pro-choice’ que caluniadores republicanos lhe pespegaram.
Comparado a alguns Estados norte-americanos, Portugal é quase um modelo de avanço social e civilidade. Os legisladores republicanos de Dakota do Sul tornaram o aborto ilegal naquele Estado, até em casos de estupro e incesto, só abrindo exceção às vítimas cuja vida esteja em perigo. Em meados do ano passado, a última clínica que praticava abortos legais em Jackson (Mississippi) foi fechada por pressões de grupos que consideram a interrupção da gravidez ‘um mal comparável ao Islã, ao nazismo e ao homossexualismo’- todos eles, diga-se, eleitores de Bush, que, ‘renascido em Cristo’, mandou executar mais presidiários no Texas do que todos os governadores que o precederam, e, como presidente, iniciou uma guerra contra um país sem culpa pelos atentados de 11 de setembro, e tentou esconder as torturas cometidas por seus comandados em prisioneiros iraquianos.
E o que dizer de Paul Hill, que, em 1994, assassinou o ginecologista John Britton e seu guarda-costas numa clínica autorizada a praticar abortos em Pensacola (Flórida)? Hill diziase um ’soldado de Deus’; mas nem assim livrou-se da injeção letal que, nove anos depois, despachou o Torquemada da obstetrícia para os quintos do inferno. Hill era apenas um demente. Piores, a meu ver, são os picaretas da fé, os templários do bigotismo, os evangelistas da hipocrisia, como James Falwell, Pat Robertson e tantos outros, volta e meia envolvidos em escândalos que até ao tinhoso chocariam.
John Allen Burt, outro fanático republicano de Pensacola (já deviam ter examinado a água da cidade), foi preso em 2003 por molestar sexualmente uma jovem de 15 anos sob sua custódia. Bob Barr, congressista republicano da Geórgia, autor de um decreto em defesa da família, cujos fundamentos estariam sendo solapados pelas ‘chamas do hedonismo, do narcisismo e da moral egocêntrica’, já pagou um aborto para a segunda mulher, não honra a pensão alimentícia dos filhos dos dois primeiros casamentos, e foi fotografado a limpar com a língua o creme batido espalhado sobre o seio de uma
stripper.
Com santarrões como esses, precisamos liberar até (ou sobretudo) o aborto retroativo.?

Estado de S. Paulo

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1 Comentário »

  1. LUIS disse,

    14 de Março de 2007 @ 09h 53m

    AOS GAYS URANISTAS,
    Somente quem é gay conhece o real significado de sê-lo. Assim, aqueles que estão atormentados pelo conflito que o maldito cristianismo causa nessas mentes, podem enviar mensagem para meu e-mail que procurarei demonstrar a farsa que foi a montagem dessa famigerada religião, bem como as tolices que mentes ignorantes escreveram sobre um suposto deus que de benevolente e amoroso nada tem.
    P.S. e-mails de crentes fanáticos serão exorcizados e encaminhados ao inferno. Xô, satanás! LUIS

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