Arquivo de Março de 2007

Entrevista com Miguel González Arroyo

A revista NÓS DA ESCOLA (Ano 1, Nº 8, 2002), distribuída pela Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro por meio da MULTIRIO, trouxe uma intrigante entrevista com Miguel González Arroyo.

A discussão gira em torno da questão da indisciplina escolar que é apontada por grande parte dos professores como uma das causas do baixo rendimento dos alunos. Sabemos que esse tema ocupa lugar de destaque na lista de reclamações feitas pelas escolas às famílias de seus alunos e vice-versa. Espero com isso contribuir para a ampliação das discussões acerca dessa temática por vezes turva, difusa, mas amplamente nobre e necessária. As mentes dos que querem pensar, pensarão!

Nós da Escola: Qual o conceito de disciplina na escola?

MIGUEL: Disciplina e educação. Como unir dois processos tão desencontrados? Que significado pode ter para um docente quando se pensa como educador e para uma escola quando se pensa como educandário? Falar em disciplina? Educar para a disciplina? Educar seria disciplinar? Confesso que tenho dificuldade em encontrar qualquer relação entre educar e disciplinar seres humanos. Como educador, sou contra qualquer uso da educação para disciplinar crianças, adolescentes ou jovens. Penso antes em Paulo Freire, na educação como aprendizado da liberdade.

Nós da Escola: Onde está o problema da disciplina? No aluno? No professor? Na escola? Na família ou na sociedade?

MIGUEL: Quando a escola, a família ou a sociedade passam a entender a disciplina ou indisciplina como problema da infância ou da adolescência é um grave indicador do nosso fracasso como educadores(as). Quando uma família, um educandário, uma sociedade são violentas com suas crianças, adolescentes ou jovens, como esperar que eles (as crianças) não aprendam essas lições? A sociedade é violenta, indisciplinada, dominada pela procura de lucro. A concorrência somente submete o povo ao desemprego, ao subemprego. Os horizontes humanos se fecham para nossos adolescentes e jovens. Há violência maior? A infância é jogada nas ruas para sobreviver a qualquer custo. As famílias e escolas padecem essa violenta indisciplina social. Por vezes a reproduzem. Inclusive na rigidez das escolas. Como esperar que essas crianças, adolescentes e jovens sejam ordeiros e bem-comportados? Os adultos recolhem o que semeiam. Culpar de violentos(as), os alunos(as), os filhos ou filhas é uma irresponsabilidade.

Nós da Escola: Os professores falam em alunos indisciplinados, os alunos falam em professores bravos. Podemos sair desse olhar mútuo, deixar as acusações mútuas e pensar nas responsabilidades do convívio escolar?

MIGUEL: Primeiro devemos começar por superar essa visão saudosista de que nós fomos filhos e alunos mais disciplinados. A indisciplina, a inquietação, o questionamento sempre foram qualidades da infância, da adolescência e da juventude de todos os tempos. Coitada da escola, ou da sociedade em que a infância ou a juventude perderem o questionamento e a inquietação. Só nos cemitérios e nos campos de concentração, ou nas ditaduras (lembram do filme “A vida é bela”?) encontraremos essa disciplina. Somente em escolas ou salas de aula que viraram cemitérios encontraremos essa disciplina. Encontraremos corpos infantis e juvenis cheios de vida disciplinados, silenciosos, quietos, parafusados em suas carteiras, rígidos, olhando para a nuca do colega da carteira da frente. Esse sonho nada tem de pedagógico. Todos sabemos de milhares de educadores e educadoras e de escolas que têm orgulho de educar crianças, adolescentes e jovens vivos, questionadores e estimulam essa vida, problematizam seus questionamentos. Educadores(as) que reinventam, como Paulo Freire, a pedagogia problematizadora, libertadora. É possível um convívio escolar humano. Conheço inúmeras escolas onde reina um clima alegre, humano, construído com empenho por educadores e educandos.

nós da Escola: Quais são os alunos vistos como indisciplinados?

MIGUEL: Os pobres, os filhos e as filhas dos setores populares. Os mesmos que a mídia e as elites vêem como violentos e indisciplinados. Na escola, com freqüência, nos deixamos contaminar pelo olhar negativo que nossa sociedade excludente tem do povo, dos trabalhadores, dos negros, dos milhões de cidadãos que essa mesma sociedade condena à miséria e à sobrevivência mais elementar e ainda espera que fiquem bem-comportados. A nossa cultura escolar e docente se deixa contaminar facilmente pela cultura elitista que vê o povo como incivilizado, sem cultura, sem valores, sem disciplina. Nomeamos nossos(as) alunos(as) com termos pejorativos: repetentes, evadidos, lentos, desatentos, violentos, indisciplinados, carentes, sem caráter, sem hábitos morais… Se houver ainda educandários e docentes que vêem os(as) filhos(as) do povo com esse olhar tão negativo deveriam reconhecer que não têm preparo para serem nem educandários nem educadores. O mais grave é que muitos docentes das escolas populares são também filhos(as) do povo. Seria bom lembrar dos valores e da dignidade das famílias e comunidades. Onde nasceram, se criaram e se educaram. Talvez a indigna condição de docentes nos desumanizou? Renunciamos a nossa origem?

Nós da Escola: Como os(as) educadores(as) podem repensar seus valores e sua cultura profissional para trabalhar com alunos(as) das classes tidas como violentas?

MIGUEL: Reaquecendo os valores e a cultura popular de origem em que muitos(as) nasceram e passaram sua infância, adolescência e juventude. Trazendo a sua memória os valores e a dignidade de suas famílias, de suas comunidades trabalhadoras e negras. Reagindo violentamente aos valores e à cultura das elites violentas que mantêm o povo na miséria, no desemprego e no desespero e quando esse mesmo povo luta e reage por dignidade é pichado de violento. Pensemos como categoria docente que também é mantida no limite de salários de sobrevivência por essas mesmas elites no poder, o que temos em comum com os valores e a cultura das elites que nos violentam? Faz mais de 20 anos que a categoria docente, da escola pública popular sobretudo, é tida como violenta, indisciplinada, por quê? Porque luta por sua dignidade. Talvez esta nossa história docente nos ajude a entender que essa é mesmo a cultura política, social e pedagógica que condena a impaciência do povo como violência. Será essa a mesma cultura que nos contamina a ponto de condenarmos nossos(as) alunos(as) como violentos, indisciplinados? Por que não termos um olhar pedagógico e ver em sua indisciplina a procura da mesma dignidade, dos mesmos direitos pelos quais nós docentes lutamos? Se nossa indisciplina é um valor de que nos orgulhamos, reconheçamos os valores da indisciplina dos educandos.

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O fantasma do militarismo atiça o Japão

Enquanto a sociedade debate as homenagens prestadas a criminosos de guerra, políticos nipônicos brincam com fogo. Eles querem reabilitar o passado imperial do país e liquidar os artigos da Constituição que proíbem a guerra

Tetsuya Takahashi

Segundo as agendas de Tomohiko Tomita, ex-administrador do palácio imperial, publicadas em 20 de julho de 2006 [1], o imperador japonês Hirohito (ou Showa) interrompeu suas visitas ao santuário Yasukuni. Isso se deu desde que os dirigentes do templo decidiram incluir na celebração os quatorze criminosos de guerra – ditos de classe A. Esses foram condenados à morte pelo Tribunal Militar Internacional do Extremo Oriente, em documento conhecido sob o nome de “Processo de Tóquio”, de 1947. Sete pessoas, dentre as quais o primeiro ministro da época (e também antigo general) Hideki Tojo, foram executados. Outros sete morreram na prisão.

Dedicado ao xintoísmo, o santuário Yasukuni foi contruído em 1869, sob a “prescrição sagrada” do imperador Meiji. Seu fim era glorificar as façanhas daqueles que morreram para derrubar o governo durante as guerras civis do fim do xogunato e do começo da Restauração [2]. Tais mortes contribuíram para a construção do novo Estado imperial, ou seja, o poder de Meiji. Em seguida, este santuário, o único ligado ao exército, celebraria todos os militares ou auxiliares militares do ex-exército japonês mortos em guerras no estrangeiro, somando cerca de 2,46 milhões de “almas heróicas”. O período estende-se desde a primeira expedição militar do Japão moderno ao estrangeiro – a expedição de Taiwan, em 1874 – passando pela guerra sino-japonesa (1894 a 1895), a guerra russo-japonesa (1904 a 1905), a Primeira Guerra Mundial (1914 a 1918), o Incidente da Manchúria (1931), a Guerra Total entre a China e o Japão (1937 a 1945), até a Guerra do Pacífico (1941 a 1945) e a derrota.

Na época do “Grande Japão” colonial, (ler, nesta edição, “A construção do império nipônico” o imperador era ao mesmo tempo o detentor da soberania, o chefe religioso e o comandante do exército. Os japoneses e os habitantes das colônias eram todos considerados servos. A “moral nacional” consistia, “em tempos de crise nacional, dedicar-se ao imperador e ao Estado em detrimento de sua própria vida”. Os militares mortos em combate tornavam-se indivíduos exemplares para a nação durante suas “guerras santas”. E o santuário Yasukuni tinha a missão de, em qualquer circustância, elevar o moral das tropas e realizar uma mobilização espiritual do conjunto da nação para a guerra.

Após a derrota, ele foi considerado “símbolo do militarismo japonês”, “santuário da guerra” ou mesmo “santuário das invasões”, o que levou à sua neutralização. Em dezembro de 1945, depois do decreto contra o xintoísmo promulgado pelo quartel-general das forças aliadas, ele foi separado do Estado. Gerido por uma associação religiosa, depende do poder privado como as igrejas católicas ou os templos budistas, seguindo o princípio da separação entre política e religião, instituído na Constituição promulgada em 1946. Esta situação ainda perdura.
Atitude ambígua diante dos crimes de guerra

Desde a sua nomeação, em 2001, até a sua saída, em 2006, o primeiro-ministro Junichiro Koizumi visitou o templo todos os anos, sempre em 15 de agosto – dia de derrota para Tóquio, da vitória da China na guerra contra o Japão e da liberação, pela Coréia, da dominação colonial. Yasukuni tornou-se o problema diplomático mais importante entre Tóquio, de um lado, e Pequim e Seul, de outro. Rejeitando qualquer crítica, Koizumi construiu para si a imagem de um “dirigente que defende sempre a posição do Japão, sem jamais se curvar diante das críticas estrangeiras”.

Muitos políticos e jornalistas perguntam-se se não seria possível retirar os criminosos de guerra “classe A” do santuário. Eles têm usado as agendas do ex-veradministrador Tomita para consolidar sua posição, explicando que “mesmo que o imperador Hirohito tenha se recusado a visitar o templo, por causa do culto a esses criminosos de guerra, o primeiro-ministro deveria também interrompê-las”. No entanto, as agendas de Tomita ocultam vários pontos da história.

É evidente que os cultos no santuário de Yasukuni e as visitas oficiais representam atos que negam a responsabilidade japonesa sobre a guerra. Claro que, dentre os primeiros-ministros que o visitaram depois da guerra, nenhum negou abertamente essa responsabilidade. Em nome do governo japonês, o próprio Koizumi reafirmou a validade da declaração de 1995 do primeiro ministro Murayama Tomiichi, onde esse teria expressado seu “sentimento de sincero arrependimento e profundas desculpas pelas penas e enormes danos que [o Japão] infligiu a seus vizinhos num passado ainda recente ao longo da dominação colonial e das invasões, seguindo uma política errônea”.

Isto não impede que os dirigentes do santuário Yasukuni expliquem que se tratou de uma “guerra por defesa e sobrevivência” do Japão, a fim de salvar a Ásia da dominação colonial ocidental. Por conseqüência, o conjunto dos “criminosos de guerra”, sejam eles de classe A, B ou C, seriam “falsamente acusados”. Eles teriam recebido esse qualificativo injusto depois de um julgamento unilateral pelos países vencedores.
Uma polêmica que esconde o principal

O debate seria consideravelmente reduzido caso se inferisse que é apenas a presença dos criminosos de guerra de classe A na celebração comum [3] do santuário a causa do problema. Bastaria então retirá-los para que todos os problemas desaparecessem.

Na verdade, o conceito de criminosos de guerra de classe A permitiu julgar os dirigentes japoneses desde o Incidente da Manchúria, em 1931 (e até mesmo antes, em sua preparação, em 1928) até a guerra do Pacífico. Isso significa que o período julgado vai de janeiro de 1928 a agosto de 1945. Em outras palavras, a história anterior à agressão japonesa contra a Ásia, para constituir seu Império com várias colônias, dentre as quais a Coréia e Taiwan, não foi questionada.

É preciso dizer que os países que julgaram o Japão no imediato pós-guerra sofriam a dominação colonial dos Estados Unidos, Reino Unido, Holanda e França. Esses não teriam nem vontade, nem capacidade, de julgar a responsabilidade japonesa sobre a questão da dominação colonial (leia, nessa edição, “Japão: espelho do Ocidente”.

Todos os mortos em combate do exército japonês durante essas guerras coloniais é celebrado no santuário Yasukuni desde a Expedição de Taiwan de 1874. Nesta ilha, a dominação colonial apoiou-se, no princípio, sobre a repressão militar dos taiwaneses de origem chinesa, que haviam desencadeado levantes armados contra os ocupantes. As vítimas seguintes foram as etnias aborígenes da ilha. A Coréia sofreu ataques militares desde 1876, e a sua rebelião foi igualmente combatida. Os militares japoneses, assim como todos os que morreram em combate durante aquele período, tornaram-se divindades no santuário de Yasukuni. Por meio de sua glorificação, ao lado dos criminosos de guerra de classe A, continua-se a renegar a dominação colonial nipônica.
A criação da potência justifica guerras e mortes?

Isto não diz respeito apenas aos revisionistas de extrema direita mas também de “intelectuais progressistas”, que, de qualquer maneira, reconhecem a responsabilidade dos criminosos de guerra de classe A. Na realidade, segundo eles, a era Meiji permitiu ao Japão igualar-se às potências ocidentais e constituiu uma vitória considerável. Apenas depois, a partir dos anos 1920, o Japão teria se desviado. Ou ainda: até a época do conflito sino-japonês e da guerra russo-japonesa. Ou seja, até o começo do século XX, o exército japonês era são; ele teria degenerado apenas a partir da agressão contra a China.

Ao apresentar as agendas de Tomita, a mídia colocou a tônica no fato de que “o imperador Showa deixou de visitar o santuário Yasukuni por lhe ser desagradável saber que os criminosos de guerra de classe A eram celebrados ali”. De repente, apenas esses parecem culpados, e a responsabilidade do imperador se esvai. Assim como durante o Processo de Tóquio, ao longo da qual o imperador Hiroito não foi interrogado, mesmo sendo o dirigente supremo do Japão e comandante do exército. Ele pôde continuar no cargo depois da guerra, sob o título de “símbolo do Japão e da unidade na nação japonesa” (artigo 1o. da Constituição). Foi usado pelos Estados Unidos por medo de que o Japão se tornasse comunista. A responsabilidade do imperador, antes dissimulada e negada, foi mais uma vez ocultada do episódio das visitas ao santuário.

As distorções não param por aí. O santuário Yasukuni muda a própria história dos combatentes. Ele transforma os mortos ensangüentados e miseráveis dos campos de batalhas em mortos sublimes e heróicos. Essa falsificação não leva em conta o caso dos militares originários de colônias, de onde vinham mais de vinte mil coreanos (e um número quase igual de taiwaneses), mortos em combate –- no total, cerca de cinqüenta mil mortos. Na verdade, no contexto de sua política de “imperialização”, ou seja, de assimilação, o Japão exigia dos coreanos e dos taiwaneses que “servissem e morressem pelo imperador e pelo Estado”. Muitos deles foram mobilizados de maneira autoritária. Mesmo entre os homens que serviram como voluntários, a motivação fundamental era salvar-se da segregação étnica — o que não significa uma interiorização da fé xintoísta.
Os colonizados relembram os crimes de guerra

Em 1978, pela primeira vez, os parentes de um morto de Taiwan pediram que seu nome fosse retirado das listas da celebração comum. Em seguida, famílias coreanas fizeram o mesmo, o que acabou acarretando em processos. A celebração do morto, explicam as famílias, “no seio deste símbolo do militarismo do povo agressor, ao lado dos agressores que nos invadiram e dominaram ao longo da colonização, constitui uma ignomínia completamente intolerável”. Até agora, os dirigentes do santuário recusaram-se a responder positivamente a esta argumentação: “Se eles eram japoneses na hora de sua morte, é impossível deixarem de ser depois de morrerem” [4].

Além disso, é preciso lembrar o caso dos mortos civis da batalha de Okinawa, na primavera de 1945. Reino autônomo dos Ryukyu, situado entre o Japão e a China, Okinawa foi destruída pelo governo japonês em 1879, marcando o primeiro período da colonização japonesa moderna. Na fase final da guerra do Pacífico, o exército japonês convoca civis não-combatentes, em nome de uma pretensa “unidade entre o povo e o exército”. A trágica batalha de Okinawa fez 100 mil mortos entre os civis. Foram mortos como espiões, ou vítimas de “suicídios coletivos” provocados pelos militares. Uma grande parte deles são celebrados no santuário Yasukuni [5]. Assim, de vítimas das guerras do exército japonês eles passaram a… colaboradores deste mesmo exército. Por fim, dos 2,46 de mortos mortos celebrados (2 milhões só da Guerra do Pacífico), quase 60% deles não foram mortos em combates. Morreram de fome. Foi o caso, por exemplo, da maioria dos soldados enviados principalmente para a Nova Guiné, falecidos depois de terem esgotado seus estoques de mantimentos, perdidos no meio da floresta equatorial, condenados a apodrecer por ali mesmo.

As agendas de Tomita foram utilizadas para interrromper as visitas oficiais ao santuário Yasukuni. No entanto, a médio e longo prazo, há o risco de elas terem um efeito inverso. Alguns políticos influentes, a começar pelo ex-ministro das Relações Exteriores, Taro Aso, pediram a nacionalização do santuário, a fim de retomar as visitas imperiais. Esta proposta já foi apresentada pelo Partido Liberal Democrata [PLD, no poder] com um “projeto de lei pelo patrocínio estatal do santuário Yasukuni” (apresentado ao Legislativo sucessivamente em 1968, 1970 e 1973). A oposiçao derrotou-o na época, invocando principalmente “o risco de um retorno ao militarismo”.
Santuário nacionalizado: símbolo da nova ambição militar

Mais de trinta anos mais tarde, os políticos influentes do PLD sustentam que, “a fim de retirar os criminosos de guerra de classe A por decisão do Estado, depois de obter o consentimento da China e da Coréia do Sul, e enfim, de retomar as visitas do primeiro-ministro e sobretudo do imperador, é a única via possível consiste em nacionalizar o santuário Yasukuni”.

Isto está inscrito no projeto da nova Constituição, que revisando o artigo 9 do texto atual [que proíbe a guerra] e afirma claramente a existência de um “exército de defesa”. Em outras palavras, seria suspensa a proibição de uso da força armada, “a fim de manter a paz no mundo”. O atual primeiro-ministro Shinzo Abe expressou claramente seu desejo de se dedocar a essa revisão constitucional durante seu mandato. Após o envio de tropas terrestres de autodefesa ao Iraque, houve um debate interno dentro desta organização para saber se seria possível ou não celebrar eventuais mortos no santuário Yasukuni.

Tudo acontece como se o governo japonês do começo do século 21 tentasse novamente constituir um “exército japonês” e de construir um santuário Yasukuni de caráter nacional, que o sustente.

Tradução: Patrícia Andrade

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

[1] As agendas foram reveladas pelo Nihon Keizai shimbun, de Tóquio. Tomita exerceu suas funções até 2003, quando faleceu.

[2] Na seqüência de uma verdadeira guerra civil, o shogunato (governo militar) cai. O império é restaurado plenamente em janeiro de 1868. Abre-se o que se chama de Era Meiji (até 1912

[3] A “celebração comum” é organizada para todo o grupo de mortos inscritos no interior do santuário.

[4] Declaração, em 1978, do segundo vigário do santuário Yasukuni.

[5] Prometeu-se às suas famílias, em 1985, uma pensão indenizatória.

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Criança que fica em creche é mais agressiva, diz estudo

Pesquisa mostra que crianças que ficaram muito tempo em creches tinham problemas de comportamento como desobediência e agressividade

LONDRES - Um estudo divulgado nesta segunda-feira, 26, nos Estados Unidos afirma que quanto maior o tempo que uma criança passa em uma creche, antes mesmo de entrar no jardim de infância, maior a probabilidade de a criança ter problemas com comportamento agressivo na escola.

A conclusão é da pesquisa publicada na revista Child Development e realizada pelo Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano dos Estados Unidos.

O professor de psicologia da Universidade Birbeck de Londres Jay Belsky, diretor do Instituto para Estudo de Crianças, Famílias e Questões Sociais, foi um dos autores da pesquisa.

O estudo analisou 1364 crianças americanas desde o nascimento em 1991 em dez lugares diferentes dos Estados Unidos. Elas foram acompanhadas até os 54 meses de idade.

Os professores destas crianças - quando elas atingiam os 11 anos de idade - relataram que elas tinham problemas de comportamento como “entrarem em muitas brigas”, “desobediência” e “muitas discussões”.

Definição

Os pesquisadores afirmam que as crianças estudadas não eram uma amostra de crianças na população americana. Durante o estudo os pesquisadores mediram a qualidade, quantidade e tipo de cuidados recebidos desde o nascimento até os 54 meses de idade.

O cuidado de crianças nas creches foi definido como o cuidado recebido por crianças vindo de qualquer outra pessoa que não fosse a mãe, agendado com regularidade por, pelo menos, dez horas por semana. Isto inclui o cuidado dispensado por pais, avós e outros familiares.

Os pesquisadores descobriram que, nas primeiras séries da vida escolar, crianças com mais experiências em creches mostraram, aos 11 anos, maior freqüência do que os pesquisadores chamaram de problemas de externalização de comportamento.

Professores

Crianças que passaram mais tempo longe das mães nos primeiros anos da infância, em creches ou sob os cuidados de outras pessoas, tiveram mais probabilidade de ter mais ocorrências de relatos de comportamento agressivo, segundo relato dos professores.

Estes relatos de comportamento agressivo ocorriam independentes da qualidade da creche ou dos cuidados dispensados às crianças observadas.

Mas os pesquisadores destacaram que o comportamento destas crianças era considerado normal.

Os autores do estudo sugeriram que a correlação entre creches e problemas de comportamento pode ocorrer devido ao fato de que alguns funcionários de creches não teriam o treinamento adequado e não teriam tempo de cuidar do problema.

Funcionários de creches podem não ser capazes de dar atenção suficiente ou orientação para tratar de problemas que podem ocorrer quando grupos de crianças estão juntos - como resolver conflitos a respeito de brinquedos ou atividades, por exemplo.

“Estas descobertas acrescentam ao crescente corpo de pesquisa que mostra que a qualidade e o tipo de cuidado recebido pela criança no início da vida podem ter um impacto duradouro no desenvolvimento”, disse James Griffin, do Escritório de Ciência para pesquisa, do Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano dos Estados Unidos.

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Qualidade do ar causa alerta em oito pontos de SP

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

São Paulo - A Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) apontou no seu último relatório estado de atenção em oito pontos da cidade. De acordo com o boletim divulgado pela Cetesb, as regiões do Ibirapuera, Santo Amaro, Mooca, Nossa Senhora do Ó, Parque D. Pedro II, Pinheiros, Santana e em Diadema, na Grande São Paulo, atingiram o estado de alerta na qualidade do ar.

“Isso se deu por causa das altas concentrações do poluente ozônio nas oito regiões acima. Neste ano, foi a primeira vez que verificamos este número elevado de estações com altos índices de ozônio”, explica o gerente da Divisão de Tecnologia de Avaliação de Qualidade do Ar da Cetesb, Jesuíno Romano.

Segundo informações do Centro de Gerenciamento de Emergências da Prefeitura (CGE), a umidade do ar atingiu índices baixíssimos por causa do tempo seco ontem. Em alguns locais, a média de umidade do ar ficou em 17%, índice considerado ruim pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Hoje o CGE registrou índices mais baixos em comparação aos observados ontem. “Vamos ficar em alerta o dia todo. Hoje à tarde os níveis devem ficar abaixo de 20% por causa das altas temperaturas e, principalmente, pela massa de ar quente que está sobre a região metropolitana de São Paulo”, afirma a meteorologista do CGE, Lucyara Rodrigues.

Amanda Valeri

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OFERTA DE ÁGUA NO ORIENTE MÉDIO PODE CAIR PELA METADE ATÉ 2050,

O Banco Mundial (Bird) alertou que se os países do Oriente Médio quiserem
evitar um agravamento na falta de água na região, terão de cooperar uns com
os outros. Esta é uma das recomendações de um relatório divulgado
recentemente pelo órgão, que traça um futuro seco para o Oriente Médio se
não forem implementadas mudanças na administração da água.”A disponibilidade
de água per capita vai cair pela metade até 2050, com sérias conseqüências
aos já sobrecarregados lençóis subterrâneos e sistemas hidrográficos
naturais”, alerta o documento.A história recente do Oriente Médio não
inspira grandes esperanças: o ex-primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon,
teria dito que a Guerra dos Seis Dias, em 1967, começou quando engenheiros
sírios tentaram desviar parte do fluxo de água de Israel.Após assinar o
tratado de paz com o Estado israelense, em 1979, o presidente do Egito,
Anwar Sadat, disse que seu país nunca mais lutaria em uma guerra, exceto
para proteger suas fontes de água. O rei Hussein, da Jordânia, também já deu
declarações neste sentido.A questão da água está sempre presente nas
negociações de paz entre israelenses e palestinos, já que os lençóis de água
que abastecem Israel ficam na Cisjordânia e o rio Jordão corre por uma parte
dos territórios ocupados.Porém, na opinião da especialista em administração
de recursos naturais, co-autora do estudo do Banco Mundial, Julia Bucknall,
a falta de água atualmente “pode ser muito mais um veículo condutor para a
paz do que para a guerra, como era antigamente”.

BBC

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Colapso das colônias - Será que plantações de transgênicos estão matando as abelhas?

Uma dizimação misteriosa das populações de abelhas preocupa os
apicultores alemães, enquanto um fenômeno semelhante nos EUA está
assumindo gradualmente proporções catastróficas

Gunther Latsch

Walter Haefeker é um homem que está acostumado a pintar cenários
sombrios. Ele faz parte do conselho diretor da Associação Alemã de
Apicultores (Dbib) e é vice-presidente da Associação Européia de
Apicultores Profissionais. E como reclamar faz parte da atividade do
lobista, é praticamente seu dever profissional alertar que “a
própria existência da apicultura está em risco”.

O problema, disse Haefeker, tem várias causas, uma delas o ácaro
Varroa, oriundo da Ásia, e outra a prática disseminada na
agricultura de borrifar as flores silvestres com herbicidas e
promover a monocultura. Outra possível causa, segundo Haefeker, é o
uso crescente e controverso de engenharia genética na agricultura.

Já em 2005, Haefeker encerrou um artigo para o qual contribuiu no
jornal “Der Kritischer Agrarbericht” (Relatório Agrícola Crítico)
com uma citação de Albert Einstein: “Se a abelha desaparecer da
superfície do planeta, então ao homem restariam apenas quatro anos
de vida. Com o fim das abelhas, acaba a polinização, acabam as
plantas, acabam os animais, acaba o homem”.

Eventos misteriosos nos últimos meses repentinamente fizeram a visão
apocalíptica de Einstein parecer mais relevante. Por motivos
desconhecidos, as populações de abelhas por toda a Alemanha estão
desaparecendo - algo que até o momento está prejudicando apenas os
apicultores. Mas a situação é diferente nos Estados Unidos, onde as
abelhas estão morrendo em números tão dramáticos que as
conseqüências econômicas poderão em breve ser calamitosas. Ninguém
sabe o que está causando a morte das abelhas, mas alguns
especialistas acreditam que o uso em grande escala de plantas
geneticamente modificadas nos Estados Unidos poderia ser um fator.

Felix Kriechbaum, um representante da associação regional dos
apicultores na Baviera, informou recentemente um declínio de quase
12% na população local de abelhas. Quando as “populações de abelhas
desaparecem sem deixar vestígio”, disse Kriechbaum, é difícil
investigar as causas, porque “a maioria das abelhas não morre na
colméia”. Há muitas doenças que podem fazer as abelhas perderem seu
senso de orientação, de forma que não podem encontrar seu caminho de
volta às suas colméias.

Manfred Hederer, o presidente da Associação Alemã de Apicultores,
quase que simultaneamente informou uma queda de 25% nas populações
de abelhas por toda a Alemanha. Em casos isolados, disse Hederer,
declínios de até 80% foram informados. Ele especula que “alguma
toxina em particular, algum agente do qual não estamos
familiarizados”, está matando as abelhas.

Até o momento, os políticos têm demonstrado pouca preocupação diante
de tais alertas e da situação difícil dos apicultores. Apesar de
estes terem recebido uma chance de expor seu caso -por exemplo, às
vésperas da aprovação pelo Gabinete alemão do documento de política
de engenharia genética de autoria do ministro da Agricultura, Horst
Seehofer, em fevereiro- suas queixas ainda permanecem em grande
parte ignoradas.

Mesmo quando os apicultores recorrem à Justiça, como fizeram
recentemente em um esforço conjunto com a sucursal alemã da
organização de agricultura orgânica Demeter International e outros
grupos contrários ao uso de plantações de milho geneticamente
modificado, eles só podem sonhar com o tipo de atenção da mídia que
grupos ambientalistas como o Greenpeace atraem com seus protestos em
locais de teste.

Mas isto poderá mudar em breve. Desde novembro passado, os Estados
Unidos estão vendo um declínio das populações de abelhas tão
drástico que ofusca todas as ocorrências anteriores de mortalidade
em massa. Os apicultores na Costa Leste dos Estados Unidos se
queixam de terem perdido mais de 70% de suas colônias desde o final
do ano passado, enquanto a Costa Oeste vê um declínio de até 60%.

Em um artigo em sua seção de negócios no final de fevereiro, o “New
York Times” calculou os prejuízos que a agricultura americana
sofreria em caso de dizimação das abelhas. Especialistas da
Universidade de Cornell, no interior de Nova York, estimaram o valor
que as abelhas geram -polinizando plantas responsáveis por frutas e
legumes, amendoeiras e trevos que alimentam animais- em mais de US$
14 bilhões.

Os cientistas chamam o fenômeno misterioso de “Colony Collapse
Disorder” (CCD, desordem de colapso da colônia) e ele está se
transformando rapidamente em uma espécie de catástrofe nacional.
Várias universidades e agências do governo formaram um “Grupo de
Trabalho para CCD” para procurar as causas da calamidade, mas até o
momento continuam de mãos vazias. Mas, como Dennis van Engelsdorp,
um apicultor do Departamento de Agricultura da Pensilvânia, eles já
estão se referindo ao problema como uma potencial “Aids do setor de
apicultura”.

Uma coisa é certa: milhões de abelhas simplesmente desapareceram. Na
maioria dos casos, tudo o que resta nas colméias são proles
condenadas. Mas as abelhas mortas não são encontradas - nem nas
colméias e nem em qualquer lugar próximo delas. Diana Cox-Foster, um
membro do Grupo de Trabalho para CCD, disse ao “The Independent” que
os pesquisadores estão “extremamente alarmados”, acrescentando que a
crise “tem o potencial de devastar o setor de apicultura americano”.
É particularmente preocupante, disse ela, o fato da morte das
abelhas ser acompanhada por um conjunto de sintomas “que não parece
se enquadrar em nada na literatura”.

Em muitos casos, os cientistas encontraram evidência de quase todos
os vírus de abelha conhecidos nas poucas abelhas sobreviventes
encontradas nas colméias, após a maioria ter desaparecido. Algumas
apresentavam cinco ou seis infecções ao mesmo tempo e estavam
infestadas de fungos - um sinal, disseram especialistas, de que o
sistema imunológico dos insetos pode ter entrado em colapso.

Os cientistas também estão surpresos com o fato de abelhas e outros
insetos geralmente deixarem as colméias abandonadas intactas.
Populações próximas de abelhas ou parasitas normalmente atacariam os
depósitos de mel e pólen das colônias que morreram por outros
motivos, como um frio excessivo no inverno. “Isto sugere que há algo
tóxico na própria colônia que os repele”, disse Cox-Foster.

Walter Haefeker, o diretor da associação alemã de apicultura,
especula que “além de vários outros fatores”, o fato de plantas
geneticamente modificadas, resistentes a insetos, atualmente serem
usadas em 40% das plantações de milho americanas pode ter um papel.
O número é muito menor na Alemanha -apenas 0,06%- e a maioria se
encontra nos Estados do leste, de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e
Brandemburgo. Haefeker recentemente enviou a um pesquisador do Grupo
de Trabalho para CCD alguns dados de um estudo de abelhas que ele há
muito sente que mostra uma possível conexão entre a engenharia
genética e a doença nas abelhas.

O estudo em questão é um pequeno projeto de pesquisa realizado na
Universidade de Jena, de 2001 a 2004. Os pesquisadores examinaram os
efeitos do pólen de uma variante geneticamente modificada de milho,
chamada “milho Bt”, sobre as abelhas. Um gene de uma bactéria do
solo foi inserido no milho, que permitiu à planta produzir um agente
que é tóxico a pragas de insetos. O estudo concluiu que não havia
evidência de “efeito tóxico do milho Bt em populações saudáveis de
abelhas”. Mas quando, por acaso, as abelhas usadas nas experiências
foram infestadas por um parasita, algo estranho aconteceu. Segundo o
estudo da Jena, “um declínio significativamente forte no número de
abelhas” ocorreu entre os insetos que se alimentaram de uma ração
altamente concentrada de Bt.

Segundo Hans-Hinrich Kaatz, um professor da Universidade de Halle,
no oeste da Alemanha, e diretor do estudo, a toxina bacteriana no
milho geneticamente modificado pode ter “alterado a superfície dos
intestinos das abelhas, o suficiente para enfraquecê-las e permitir
a entrada dos parasitas - ou talvez tenha sido o contrário. Nós não
sabemos”.

É claro, a concentração da toxina era dez vezes superior nas
experiências do que no pólen normal do milho Bt. Além disso, a ração
das abelhas foi ministrada ao longo de um período relativamente
longo de seis semanas. Kaatz preferia ter continuado estudando o
fenômeno, mas carecia dos recursos necessários. “Aqueles que têm o
dinheiro não estão interessados neste tipo de pesquisa”, disse o
professor, “e aqueles que estão interessados não tem o dinheiro”.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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Globo demite editor de economia do Jornal Nacional

Marco Aurélio Mello, editor há quatro anos do principal jornal da emissora, foi demitido por seu trabalho “não ser mais compatível” com a empresa. Em outubro, ele foi um dos jornalistas que se recusou a subscrever o abaixo-assinado em defesa da cobertura da Globo das eleições presidenciais.

Bia Barbosa – Carta Maior

SÃO PAULO – A Rede Globo demitiu, nesta sexta-feira (23), o jornalista Marco Aurélio Mello. Há quatro anos editor de economia do Jornal Nacional, Mello está há mais de 12 anos na empresa, nove em São Paulo. Antes de integrar a equipe do Jornal Nacional, foi, por três anos, editor de política do Jornal da Globo. Segundo informações de funcionários da empresa, o editor recebeu a notícia da sua demissão do chefe de jornalismo em São Paulo, Luiz Cláudio Latgé. Ele teria dito a Mello que, após uma avaliação interna de seu trabalho, a conclusão era a de que ele não era mais compatível com a empresa. Latgé teria chegado a dizer que foi feito um esforço para que Mello fosse aproveitado em outros jornais da Globo, mas que as equipes já estariam fechadas.

Em outubro do ano passado, Marco Aurélio Mello foi um dos jornalistas que não subscreveu o abaixo-assinado divulgado por funcionários da Globo em defesa da cobertura feita pela empresa da campanha presidencial (leia matéria “População critica cobertura; Globo faz abaixo-assinado pra se defender”).

Ele chegou a assinar o documento, mas depois, ao perceber que o texto seria usado politicamente, pediu a Mariano Boni, da chefia de redação do Jornal da Globo, pra retirar seu nome. Na ocasião, outras quatro pessoas fizeram o mesmo pedido. Boni teria dito “quem não estiver satisfeito com a cobertura da Globo que pegue o chapéu e vá para a Record”.

“Não tenho dúvidas de que ele ficou com essa marca lá dentro”, disse um jornalista à Carta Maior. Logo depois das eleições, Marco Aurélio Mello foi deslocado para a equipe do Bom Dia Brasil. Depois que voltou das férias tiradas no final do ano, retornou ao Jornal Nacional e foi demitido um mês depois.

Colegas contam que não houve nenhum erro cometido pelo editor neste período. A tentativa de desqualificação do trabalho de um jornalista antes de sua demissão, no entanto, parece ser prática da emissora. Em entrevista concedida à revista Caros Amigos no ano passado, o jornalista Franklin Martins descreveu assim o momento em que ficou sabendo de sua demissão:

“Ó, Franklin, nós fi zemos uma pesquisa qualitativa muito grande, vários grupos aqui, todos os jornais, todos os telejornais, todos os âncoras, os comentaristas e tivemos uma surpresa: a sua imagem diante do telespectador é fraca”. Eu olhei: “Como é que é?” “É, sua imagem é fraca.” […] me estenderam um papelzinho que tinha uma foto minha e cinco tópicos do que a qualitativa tinha dito a meu respeito. A primeira era assim: “Alguns entrevistados não souberam dizer quem era”. A outra dizia: “Fala sobre as coisas da política, as coisas de Brasília”. Terceiro: “Dá menos opinião e mais informação” – o que considero um extraordinário reconhecimento do que eu quero fazer como profi ssional. Quarto: “Faz comentários muito equilibrados” – a mesma coisa. E eu digo: “Bom, e aí?” “E aí nós pensamos melhor, eu pensei melhor, e decidi não renovar o seu contrato.” Eu digo: “Espera aí, conta outra!” “Não, não, é isso.” “Ó, fulano (pede que não coloquemos o nome), eu saí de férias você dizendo que minha posição é consolidada; agora você diz que saiu numa pesquisa uma coisa assim, todo mundo vai achar evidentemente que tem alguma coisa a ver com o Diogo Mainardi. Tem alguma coisa a ver com isso?” “Eu sou peremptório, não tem nada a ver com isso.” “Mas todo mundo vai achar que tem, e aí?” “Não, não.” Aí eu olhei: “Então não há o que discutir, mas é o seguinte: tenho o Fatos e Versões pra gravar amanhã, como é que faz?” “Não, você não precisa gravar mais nada na TV Globo.” “Está vendo, é alguma coisa diferente de a minha imagem estar fraca, porque, se minha imagem estivesse fraca, talvez você tivesse dito: ‘Você não quer ficar na Globo News, fazer alguma coisa?’ Não, alguma coisa aconteceu que eu não sei o que é e você não quer me dizer, e acho que devia me dizer.” “Não, não.” “Então está bom.”

“Cabeças vão rolar”
O caso de Marco Aurélio Mello não é o primeiro nem deve ser o último. No dia 19 de dezembro, o repórter Rodrigo Vianna, que havia feito críticas internas à cobertura da Globo das eleições presidenciais, foi informado de que não teria seu contrato de trabalho renovado, depois de cerca de doze anos de casa. Antes da notícia, Vianna foi afastado da cobertura de política e destacado para atuar nos jornais locais (leia matéria “Repórter da Globo denuncia parcialidade na cobertura das eleições 2006”).

O mesmo está acontecendo com outros profissionais. Repórteres e editores foram deslocados para funções inferiores ou para jornais de menor prestígio. Outros sumiram do ar sem que seu destino seja conhecido. A imensa maioria deles se recusou a participar do abaixo-assinado do final do ano. Na redação, o clima é o de que novas cabeças vão rolar.

“É claro que eles mapearam as pessoas”, contou um jornalista da Globo.

Procurado pela reportagem da Carta Maior, Marco Aurélio Mello preferiu não dar declarações sobre o assunto. A Central Globo de Comunicação informou que a demissão do editor se deve a mudanças operacionais e remanejamento interno da equipe.

Carta Maior
http://agenciacartamaior.uol.com.br/

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Poluição de mananciais ameaça abastecimento em São Paulo

Mais de um bilhão de pessoas no mundo não têm água potável. Essa realidade, porém, não é tão distante: a represa do Guarapiranga, que abastece quase 4 milhões de pessoas em São Paulo, está seriamente ameaçada.

Natália Suzuki - Carta Maior

SÃO PAULO – A garantia de água potável para os próximos anos tem sido uma das grandes preocupações ambientais, pois compromete diretamente a sobrevivência da vida no planeta. Nos últimos 60 anos, o consumo de água aumentou sete vezes, em parte porque a população mundial duplicou, mas também porque houve o aumento do desperdício, da contaminação hídrica e do seu uso na agricultura.

De acordo com a Organização das Nações Unidas, nos próximos 25 anos haverá uma drástica diminuição da disponibilidade de água por habitante. Estima-se que a diminuição será próxima dos 30%. Atualmente, mais de um bilhão de pessoas já vivem sem acesso à água potável, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). O panorama se agrava com a previsão de um crescimento populacional de dois bilhões de novos habitantes, principalmente em cidades de países em desenvolvimento, que deverão ter uma rápida expansão urbana.

O Brasil é um país que tem um papel importante na discussão, já que 12% de toda água disponível do mundo estão em seu território. Mas, ainda assim, o país não tem conseguido preservar os seus mananciais de forma satisfatória.

Um exemplo dessa situação, que conjuga crimes ambientais, descaso e falta de planejamento, é a região metropolitana do Estado de São Paulo (RMSP). Metade de toda a sua área está localizada em mananciais da Bacia do Rio Tietê; são 21 municípios de um total de 39. A maior parte deles - fundamentais para o abastecimento da população dessas cidades – está poluída. Corpos d´água, que convivem lado a lado com a população paulistana, como o próprio Tietê, Pinheiros, Tamanduateí e Ipiranga estão contaminados.

Hoje, a RMSP conta com uma baixa disponibilidade hídrica por habitante, que é semelhante à proporção da região nordeste do Brasil. Essa condição obriga a região buscar água de outras fontes que se situam fora da Bacia do Tietê, como por exemplo, a represa da Cantareira.

Além da poluição, o desperdício colabora no déficit. De toda a água produzida pela Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), 40% se perde no processo de produção. A metade dessa perda é devido às velhas tubulações e encanamentos do sistema que geram muitos vazamentos ao longo de toda a distribuição. A outra parte é referente ao que se chama “roubo de água”, o que inclui ligações clandestinas feitas tanto por moradias de populações carentes, como pelo pequeno comércio, como é o caso de muitos lava-rápidos.

“A maioria dos rios poluídos [de São Paulo] poderiam ser usados para o abastecimento. Se os rios não fossem poluídos, haveria maior disponibilidade”, afirma Marussia Whately, coordenadora do Programa Mananciais do Instituto Socioambiental (ISA). “A cultura brasileira é muito relapsa e displicente com uso de recursos naturais. É um mau uso histórico, um processo de quem sempre teve tudo a mão”, avalia.

O mais ameaçado
A represa Guarapiranga é o manancial mais ameaçado da região metropolitana de São Paulo. Contudo, ela é responsável pelo abastecimento de 3,7 milhões de pessoas, as quais não vivem apenas em seu entorno, mas em outros bairros paulistanos mais distantes.

O esgoto e a poluição difusa são as principais causas da poluição da Guarapiranga. De acordo com os resultados do Seminário Guarapiranga 2006, divulgados na última quarta-feira (21), a deficiência dos serviços de saneamento, sobretudo da rede de coleta, afastamento e tratamento do esgoto da população da bacia, é uma das principais responsáveis pelo quadro.

“A situação atual do reservatório e seus afluentes caracteriza-se pela deterioração progressiva da qualidade das águas, em função do crescente aumento do despejo de esgotos e da poluição difusa”, descreve o relatório. A poluição difusa é aquela depositada ao longo de toda a bacia e que provem do escoamento superficial das casas, dejetos domésticos e resíduos comerciais e industriais de pequeno porte.

A deterioração da Guarapiranga é um processo histórico, que ocorre paralelamente com a expansão da cidade. Na década de 80, a presença de algas foi registrada nas suas águas, que indicam a grande quantidade de material orgânico na represa. O excesso de poluição tem aumentado a quantidade de plantas aquáticas, cujo impacto incide na qualidade da água e no assoreamento da represa.

Uma outra causa para o assoreamento na represa é a sua intensa ocupação populacional. Com a instalação de novas casas, o terreno cede e desliza para dentro da represa, reduzindo o seu tamanho e a sua capacidade de armazenamento de água.

Mas essa ocupação contribui de outras formas para as condições atuais da represa. O local, hoje, é densamente povoado. Segundo a professora e coordenadora do Laboratório de Habitação e Assentamentos Humanos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), Maria Lúcia Refinetti Martins, a população chega a mais de um milhão de pessoas na região da bacia e a tendência é o seu crescimento, mesmo ali sendo uma Área de Proteção Permanente (APP), o que, em tese, restringiria a ocupação imobiliária indiscriminada. Por conta disso, grande parte dos 200 mil domicílios da região da bacia está em situação irregular.

A comunidade Vera Cruz, no bairro do Jardim Ângela, zona sul de São Paulo, ilustra bem a situação. Apenas uma pequena parte das moradias são regularizadas e, portanto, contam os serviços de saneamento básico. A conseqüência disso é que parte considerável das moradias, especialmente as que estão mais próximas à represa e nas encostas dos terrenos mais acidentados, despeja todo o seu esgoto nas águas do Guarapiranga sem qualquer tipo de tratamento.

Nessas casas desprovidas do serviço público, os próprios moradores improvisam um sistema de canalização de água e esgoto, cujo destino mais curto e mais fácil é a represa que está logo ao lado.

Mas o fato de essas moradias se situarem entorno da represa não lhes garante abundância de água. “Falta muita água aqui quase todos os dias, mas tem dia que pega a gente de surpresa e ficamos até três dias sem água. Daí precisa pegar água do poço. A gente tem mandar as crianças limpas para a escola. E o a rede de esgoto joga tudo na represa. Nós fizemos a rede”, afirma a moradora Maria Valdete da Conceição, que vive ali há oito anos.

Na verdade, o exemplo da Vera Cruz, é um micro universo de uma realidade em que 70% da população de toda a RMSP tem esgoto coletado, mas apenas 35% desse total têm o seu esgoto tratado. Com exceção dos municípios de São Paulo e de Embu-Guaçu, os outros da Bacia não têm qualquer tipo de tratamento dos seus esgotos, que depois de coletados, são jogados em cursos d´água, como o Embu-Guaçu e o Embu-Mirim, ambos afluentes da represa do Guarapiranga.

Apenas metade da rua Bernardo Clavijo, na Vera Cruz, tem o seu esgoto coletado, a outra metade nem isso, dispondo apenas do serviço de distribuição de água. Ainda assim, a Sabesp cobra desses moradores pelos dois serviços. A conta emitida pela Sabesp para uma das casas dessa rua, com vencimento do 16 de fevereiro de 2007, cobrava R$21,21 pela água e R$21,21 pelo esgoto. A moradora afirma que conta apenas com o serviço de água.

Segundo Marussia, os problemas de fornecimento terão um efeito maior nas populações mais pobre. “Cada vez mais, os pobres não têm saneamento desde que os serviços de saneamento viraram um negócio por conta das privatizações. O pobre não tem dinheiro para pagar esse serviço e por isso não o recebe, ainda que seja um direito seu”.

A Sabesp foi procurada insistentemente pela reportagem, mas até o fechamento dessa matéria não atendeu ao pedido de entrevista.

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Segundo especialista, o continente não está derretendo

Jurema Aprile*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Afinal, o que está derretendo na Antártida? O gelo marinho, os icebergs, as banquisas, a calota polar ou as geleiras? Cerca de 10% da área do planeta Terra é coberta de gelo e 90% desse volume está na Antártida. Mas o continente gelado não está derretendo e contribui minimamente para o aumento no volume das águas marinhas observado nos últimos anos.

A afirmação é de um dos principais especialistas no assunto, o glaciólogo Jefferson Simões, coordenador do Núcleo de Pesquisas Antárticas e Climáticas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que estuda a questão do gelo do planeta e o descongelamento. A glaciologia é uma área da geologia que estuda as geleiras, as glaciações e seus efeitos sobre a Terra.

Falta consenso
Cálculos apresentados por pesquisadores em painéis climáticos internacionais prevêem que até o ano 2100 o nível do mar poderá se elevar de 60 cm a 1 m por conta de gelo que se tornará liquefeito e aumentará o volume das águas marinhas.

Em relação a isso, Simões, que é geólogo com doutorado em glaciologia, ressaltou que é uma parte muito pequena do gelo do planeta que está derretendo - exatamente 0,7% do volume total - e a participação do gelo antártico nesse percentual é mínima.

O volume do gelo antártico corresponde a 25 milhões km3. Se derretesse todo, equivaleria a um aumento de 60 metros no nível médio dos mares.

Estudos realizados nos últimos anos e publicados em revistas científicas produziram resultados contraditórios. Alguns indicavam a perda de gelo e outros o engrossamento da camada - não há consenso dos pesquisadores.

Registros gelados
A cobertura de gelo antártico tem papel fundamental no sistema ambiental. Ela é um dos principais controladores do sistema climático terrestre e do nível do mar.

Além disso, essa cobertura “arquiva” nas suas camadas a evolução e os eventos principais da atmosfera do planeta. Ficam registrados ali os resultados da ação humana sobre o ambiente nas últimas décadas. Daí se entende a importância dos estudos em glaciologia antártida.

“As pessoas confundem gelo marinho - mar congelado - com gelo de geleiras”, diz Jefferson Simões. Mar congelado tem impactos ambientais climáticos significativos, mas não afeta o nível marinho.

O aumento no nível das águas do mar está relacionado em 70% ao derretimento das geleiras -que concentram a maior parte da água doce do planeta - e em 30% à expressão térmica do mar, ensina o glaciólogo.

Outro equívoco comum é o uso da expressão “calotas polares”. Elas não existem. O que há são áreas cobertas de gelo, como os mantos de gelo da Groenlândia e da Antártida.

Afinal, o que é uma geleira?
Decididamente, não é um iceberg, aqueles blocos imensos de gelo que se vê, em fotos ou filmes, flutuando no mar. A geleira ou glaciar é uma massa continental de gelo de limites definidos, que se movimenta lentamente por ação da gravidade: ela nunca está parada.

O termo ‘’geleira'’ não é aplicado às massas de gelo formadas pelo congelamento da água: essas são as banquisas. E mais: a expressão “manto de gelo” só se refere a uma massa de neve e gelo muito espessa, com área maior de 50 mil km2. Só existem dois mantos de gelo no planeta: o antártico e o groenlandês.

Um manto pode estar apoiado sobre rochas ou flutuar na água - nesse caso são chamados plataformas de gelo. Elas têm espessura que vai de 200 a 2.000 m e são fixas à costa, podendo se estender por até 500.000 km2.

Plataformas podem aumentar de tamanho pela acumulação de neve e gelo ou pelo fluxo do gelo. Também perdem massa pelo desprendimento de icebergs. Estes podem durar mais de dez anos “viajando” na água antes de derreter. Aproximadamente 42% da costa antártida são cobertas por plataformas de gelo.

Se aquece, descongela
O descongelamento que mais contribui para o aumento das águas oceânicas no mundo ocorre ao sul da Groenlândia, nas calotas de gelo das ilhas árticas, na região polar Norte.

Outra contribuição vem do derretimento das geleiras de montanhas localizadas em regiões temperadas e tropicais. Toda essa água vai para os rios e, então, toma o caminho do mar. Na Bolívia, as geleiras estão derretendo rapidamente. Na capital, La Paz, 70% das águas vêm das geleiras.

O derretimento das geleiras nos Andes tem impactos no Brasil, causando aumento do volume das águas tanto na bacia do Paraná quanto na Amazônica. Também há diminuição do gelo na Patagônia.

O descongelamento das geleiras eternas em regiões tropicais tem sido atribuído ao aquecimento global, por pesquisadores como os da Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos. A geleira Qori Kalis, no Peru, estaria encolhendo cerca de 60 m ao ano, arriscando-se a desaparecer completamente em cinco anos.

Duas medidas
Para o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês), as mudanças climáticas são “muito provavelmente” causadas pela ação humana.

O IPCC estabelece 90% de probabilidades de que o aquecimento da superfície do planeta seja provocado pelas emissões de gases causadores do efeito estufa, ou seja, pela ação humana.

Há estudiosos que lêem essa afirmação de outra forma: existem 10% de chances de que o aquecimento global não seja causado pela emissão de gases estufa e sim por condições naturais.

Mudanças sempre ocorreram
Para o glaciólogo Jefferson Simões, mudanças no clima sempre ocorreram e não há motivo para pânico. Preocupante, para ele, é a velocidade desse processo.

Quando essas mudanças do clima acontecem de forma rápida, os organismos não têm tempo suficiente para se adaptar e se desenvolver. Quando os processos são mais lentos, nós nos adaptamos.

Em 12 mil anos, entre a última idade do gelo e o tempo presente, a temperatura média da Terra aumentou 7º C. Em comparação, nos últimos 140 anos, registrou-se um décimo desse aumento.

# Com informações da Agência FAPESP.

*Jurema Aprile é jornalista.pagina3@pagina3ped.com

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Colapso das colônias - Será que plantações de transgênicos estão matando as abelhas?

Uma dizimação misteriosa das populações de abelhas preocupa os apicultores alemães, enquanto um fenômeno semelhante nos EUA está assumindo gradualmente proporções catastróficas

Gunther Latsch

Walter Haefeker é um homem que está acostumado a pintar cenários sombrios. Ele faz parte do conselho diretor da Associação Alemã de Apicultores (Dbib) e é vice-presidente da Associação Européia de Apicultores Profissionais. E como reclamar faz parte da atividade do lobista, é praticamente seu dever profissional alertar que “a própria existência da apicultura está em risco”.

O problema, disse Haefeker, tem várias causas, uma delas o ácaro Varroa, oriundo da Ásia, e outra a prática disseminada na agricultura de borrifar as flores silvestres com herbicidas e promover a monocultura. Outra possível causa, segundo Haefeker, é o uso crescente e controverso de engenharia genética na agricultura.

Já em 2005, Haefeker encerrou um artigo para o qual contribuiu no jornal “Der Kritischer Agrarbericht” (Relatório Agrícola Crítico) com uma citação de Albert Einstein: “Se a abelha desaparecer da superfície do planeta, então ao homem restariam apenas quatro anos de vida. Com o fim das abelhas, acaba a polinização, acabam as plantas, acabam os animais, acaba o homem”.

Eventos misteriosos nos últimos meses repentinamente fizeram a visão apocalíptica de Einstein parecer mais relevante. Por motivos desconhecidos, as populações de abelhas por toda a Alemanha estão desaparecendo - algo que até o momento está prejudicando apenas os apicultores. Mas a situação é diferente nos Estados Unidos, onde as abelhas estão morrendo em números tão dramáticos que as conseqüências econômicas poderão em breve ser calamitosas. Ninguém sabe o que está causando a morte das abelhas, mas alguns especialistas acreditam que o uso em grande escala de plantas geneticamente modificadas nos Estados Unidos poderia ser um fator.

Felix Kriechbaum, um representante da associação regional dos apicultores na Baviera, informou recentemente um declínio de quase 12% na população local de abelhas. Quando as “populações de abelhas desaparecem sem deixar vestígio”, disse Kriechbaum, é difícil investigar as causas, porque “a maioria das abelhas não morre na colméia”. Há muitas doenças que podem fazer as abelhas perderem seu senso de orientação, de forma que não podem encontrar seu caminho de volta às suas colméias.

Manfred Hederer, o presidente da Associação Alemã de Apicultores, quase que simultaneamente informou uma queda de 25% nas populações de abelhas por toda a Alemanha. Em casos isolados, disse Hederer, declínios de até 80% foram informados. Ele especula que “alguma toxina em particular, algum agente do qual não estamos familiarizados”, está matando as abelhas.

Até o momento, os políticos têm demonstrado pouca preocupação diante de tais alertas e da situação difícil dos apicultores. Apesar de estes terem recebido uma chance de expor seu caso -por exemplo, às vésperas da aprovação pelo Gabinete alemão do documento de política de engenharia genética de autoria do ministro da Agricultura, Horst Seehofer, em fevereiro- suas queixas ainda permanecem em grande parte ignoradas.

Mesmo quando os apicultores recorrem à Justiça, como fizeram recentemente em um esforço conjunto com a sucursal alemã da organização de agricultura orgânica Demeter International e outros grupos contrários ao uso de plantações de milho geneticamente modificado, eles só podem sonhar com o tipo de atenção da mídia que grupos ambientalistas como o Greenpeace atraem com seus protestos em locais de teste.

Mas isto poderá mudar em breve. Desde novembro passado, os Estados Unidos estão vendo um declínio das populações de abelhas tão drástico que ofusca todas as ocorrências anteriores de mortalidade em massa. Os apicultores na Costa Leste dos Estados Unidos se queixam de terem perdido mais de 70% de suas colônias desde o final do ano passado, enquanto a Costa Oeste vê um declínio de até 60%.

Em um artigo em sua seção de negócios no final de fevereiro, o “New York Times” calculou os prejuízos que a agricultura americana sofreria em caso de dizimação das abelhas. Especialistas da Universidade de Cornell, no interior de Nova York, estimaram o valor que as abelhas geram -polinizando plantas responsáveis por frutas e legumes, amendoeiras e trevos que alimentam animais- em mais de US$ 14 bilhões.

Os cientistas chamam o fenômeno misterioso de “Colony Collapse Disorder” (CCD, desordem de colapso da colônia) e ele está se transformando rapidamente em uma espécie de catástrofe nacional. Várias universidades e agências do governo formaram um “Grupo de Trabalho para CCD” para procurar as causas da calamidade, mas até o momento continuam de mãos vazias. Mas, como Dennis van Engelsdorp, um apicultor do Departamento de Agricultura da Pensilvânia, eles já estão se referindo ao problema como uma potencial “Aids do setor de apicultura”.

Uma coisa é certa: milhões de abelhas simplesmente desapareceram. Na maioria dos casos, tudo o que resta nas colméias são proles condenadas. Mas as abelhas mortas não são encontradas - nem nas colméias e nem em qualquer lugar próximo delas. Diana Cox-Foster, um membro do Grupo de Trabalho para CCD, disse ao “The Independent” que os pesquisadores estão “extremamente alarmados”, acrescentando que a crise “tem o potencial de devastar o setor de apicultura americano”. É particularmente preocupante, disse ela, o fato da morte das abelhas ser acompanhada por um conjunto de sintomas “que não parece se enquadrar em nada na literatura”.

Em muitos casos, os cientistas encontraram evidência de quase todos os vírus de abelha conhecidos nas poucas abelhas sobreviventes encontradas nas colméias, após a maioria ter desaparecido. Algumas apresentavam cinco ou seis infecções ao mesmo tempo e estavam infestadas de fungos - um sinal, disseram especialistas, de que o sistema imunológico dos insetos pode ter entrado em colapso.

Os cientistas também estão surpresos com o fato de abelhas e outros insetos geralmente deixarem as colméias abandonadas intactas. Populações próximas de abelhas ou parasitas normalmente atacariam os depósitos de mel e pólen das colônias que morreram por outros motivos, como um frio excessivo no inverno. “Isto sugere que há algo tóxico na própria colônia que os repele”, disse Cox-Foster.

Walter Haefeker, o diretor da associação alemã de apicultura, especula que “além de vários outros fatores”, o fato de plantas geneticamente modificadas, resistentes a insetos, atualmente serem usadas em 40% das plantações de milho americanas pode ter um papel. O número é muito menor na Alemanha -apenas 0,06%- e a maioria se encontra nos Estados do leste, de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e Brandemburgo. Haefeker recentemente enviou a um pesquisador do Grupo de Trabalho para CCD alguns dados de um estudo de abelhas que ele há muito sente que mostra uma possível conexão entre a engenharia genética e a doença nas abelhas.

O estudo em questão é um pequeno projeto de pesquisa realizado na Universidade de Jena, de 2001 a 2004. Os pesquisadores examinaram os efeitos do pólen de uma variante geneticamente modificada de milho, chamada “milho Bt”, sobre as abelhas. Um gene de uma bactéria do solo foi inserido no milho, que permitiu à planta produzir um agente que é tóxico a pragas de insetos. O estudo concluiu que não havia evidência de “efeito tóxico do milho Bt em populações saudáveis de abelhas”. Mas quando, por acaso, as abelhas usadas nas experiências foram infestadas por um parasita, algo estranho aconteceu. Segundo o estudo da Jena, “um declínio significativamente forte no número de abelhas” ocorreu entre os insetos que se alimentaram de uma ração altamente concentrada de Bt.

Segundo Hans-Hinrich Kaatz, um professor da Universidade de Halle, no oeste da Alemanha, e diretor do estudo, a toxina bacteriana no milho geneticamente modificado pode ter “alterado a superfície dos intestinos das abelhas, o suficiente para enfraquecê-las e permitir a entrada dos parasitas - ou talvez tenha sido o contrário. Nós não sabemos”.

É claro, a concentração da toxina era dez vezes superior nas experiências do que no pólen normal do milho Bt. Além disso, a ração das abelhas foi ministrada ao longo de um período relativamente longo de seis semanas. Kaatz preferia ter continuado estudando o fenômeno, mas carecia dos recursos necessários. “Aqueles que têm o dinheiro não estão interessados neste tipo de pesquisa”, disse o professor, “e aqueles que estão interessados não tem o dinheiro”.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Der Spiegel

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É a mesma pessoa, acredite.

Lula em 2007

“Os usineiros de cana, que dez anos atrás eram tidos como bandidos do agronegócio, estão virando heróis nacionais e mundiais, porque todo mundo está de olho no álcool”

Lula em 2000 (Revista Caros Amigos)

“Não se justifica num país, por maior que seja, ter alguém com 30 mil alqueires de terra! Dois milhões de hectares de terra!!! Isso não tem
justificativa em lugar nenhum do mundo! Só no Brasil. Porque temos um presidente covarde, que fica na dependência de contemplar uma bancada ruralista a troco de alguns votos”

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A praga

RUBEM ALVES

Permitir o divórcio equivale a dizer: o sacramento é uma balela. Donde, a Igreja Católica é uma balela…

É BOM atentar para o que o papa diz. Porta-voz de Deus na Terra, ele só pensa pensamentos divinos. Nós, homens tolos, gastamos o tempo pensando sobre coisas sem importância tais como o efeito estufa e a possibilidade do fim do mundo. O papa vai direto ao que é essencial: “O segundo casamento é uma praga!”
Está certo. O casamento não pertence à ordem abençoada do paraíso. No paraíso não havia casamento. Na Bíblia não há indicação de que as relações amorosas entre Adão e Eva tenham sido precedidas pelo cerimonial a que hoje se dá o nome de casamento: o Criador, celebrante, Adão e Eva nus, de pé, diante de uma assembléia de animais, tudo terminando com as palavras sacramentais: “E eu, Jeová, vos declaro marido e mulher. Aquilo que eu ajuntei os homens não podem separar…”
Os casamentos, o primeiro, o segundo, o terceiro, pertencem à ordem maldita, caída, praguejada, pós-paraíso. Nessa ordem não se pode confiar no amor. Por isso se inventou o casamento, esse contrato de prestação de serviços entre marido e mulher, testemunhado por padrinhos, cuja função é, no caso de algum dos cônjuges não cumprir o contrato, obrigá-lo a cumpri-lo.
Foi um padre que me ensinou isso. Ele celebrava o casamento. E foi isso que ele disse aos noivos: “O que vos une não é o amor. O que vos une é o contrato”. Aprendi então que o casamento não é uma celebração do amor. É o estabelecimento de direitos e deveres. Até as relações sexuais são obrigações a ser cumpridas.
Agora imaginem um homem e uma mulher que muito se amam: são ternos, amigos, fazem amor, geram filhos. Mas, segundo a igreja, estão em estado de pecado: falta ao relacionamento o selo eclesiástico legitimador. Ele, divorciado da antiga esposa, não pode se casar de novo porque a igreja proíbe a praga do segundo casamento. Aí os dois, já no fim da vida, são obrigados a se separar para participar da eucaristia: cada um para um lado, adeus aos gestos de ternura… Agora está tudo nos conformes. Porque Deus não enxerga o amor. Ele só vê o selo eclesial.
O papa está certo. O segundo casamento é uma praga. Eu, como já disse, acho que todos são uma praga, por não ser da ordem paradisíaca, mas da maldição. O símbolo dessa maldição está na palavra “conjugal”: do latim, “com”= junto e “jugus”= canga. Canga, aquela peça pesada de madeira que une dois bois. Eles não querem estar juntos. Mas a canga os obriga, sob pena do ferrão…
Por que o segundo casamento é uma praga? Porque, para havê-lo, é preciso que o primeiro seja anulado pelo divórcio. Mas, se a igreja admitir a anulação do primeiro casamento, terá de admitir também que o sacramento que o realizou não é aquilo que ela afirma ser: um ato realizado pelo próprio Deus. Permitir o divórcio equivale a dizer: o sacramento é uma balela. Donde, a igreja é uma balela… Com o divórcio ela seria rebaixada do seu lugar infalível e passaria a ser apenas uma instituição falível entre outras. A igreja não admite o divórcio não é por amor à família. É para manter-se divina…
A igreja, sábia, tratou de livrar seus funcionários da maldição do amor. Proibiu-os de se casarem. Livres da maldição do casamento, os sacerdotes têm a suprema felicidade de noites de solidão, sem conversas, sem abraços e nem beijos. Estão livres da praga…

Jornal Folha de S. Paulo
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CAIO PRADO JR., HISTORIADOR

FERNANDO NOVAIS

Mito ou realidade, a chamada “Revolução de 30″ parece ter indiscutivelmente estimulado entre nós as atividades intelectuais, particularmente voltadas para a interpretação do país; “nunca se falou tanto em realidade brasileira como nessa época — cada um, claro está, vendo-a de maneira diferente.”[1] Do volumoso caudal de publicações de então, contudo, poucas resistiram à corrosão definitiva do tempo, que vai separando impiedosamente o joio do trigo. Dentre essas poucas, que ainda hoje mantêm sua vitalidade, Evolução política do Brasil (1933) talvez não tenha, quando de seu lançamento, despertado o interesse que depois viria a consolidar.[2] Hoje, quando pensamos nas grandes “interpretações” surgidas naquele contexto, é sobretudo para três obras que nos voltamos: além do livro de Caio Prado Jr., Casa Grande & Senzala (1933) de Gilberto Freyre e Raízes do Brasil (1936) de Sérgio Buarque de Holanda. De lá para cá, os três autores enriqueceram normemente nossa brasiliana, por caminhos diversos e às vezes opostos, mas vale lembrar aquele ponto de partida: aparecem no bojo do que porventura se possa chamar a “geração de 30″, nos quadros de nossa história intelectual.

Fixado esse patamar, convém esclarecer objetivos e limitações, antes de avançar o passo. Efetivamente, o título acima não é uma manifestação da modéstia; antes, pretende ser um exercício de precisão. Caio Prado J r ., ainda que, quanto a nós, seja sempre e antes de tudo historiador, cultivou também a filosofia, a economia e o ensaio político. Aqui cui daremos exclusivamente de sua obra historiográfica, não nos aventurando pelas sendas filosóficas nem mesmo quando tratarmos de problemas metodológicos, quer dizer, esses problemas serão vistos tal como aparecem na prática do historiador, e não nas formulações do filósofo. O mesmo para a teoria econômica, por mais que estejam interpenetradas na obra. Dada a postura metodológica do autor — Caio Prado Jr. é marxista explícito — essa fusão é absolutamente natural, e necessária, pois as fronteiras entre as ciências tendem a se diluir. Não significa isso que deixem de existir especializações e formações profissionais, nem que trabalhos centrados numa ou noutra direção careçam de validade; significa, sim, que devem ser vistos como partes de um conjunto mais amplo e integrado, etapas de um roteiro mais longo a ser percorrido. O que tentaremos é traçar o perfil de sua obra de historiador, enfatizando o que nos pareça mais relevante em contribuições, indicando a leitura que nos pareça mais fiel e compreensiva; não deixaremos, é claro, de discutir e questionar alguns pontos, e avançar observações preliminares para situá-lo na historiografia e na cultura brasileira. Não trataremos, porém, da coerência do conjunto da obra (história, filosofia, economia). Pensamos que essa caracterização inicial seja uma etapa importante para uma avaliação mais definitiva e global; sabemos que as limitações indicadas impõem provisoriedade a conclusões.

Delimitada, circunscrita, a tarefa não é, ainda assim, fácil; pois os estudos de historiografia — isto é, de história da história — são sempre inçados de dificuldades sem conta. Procura a historiografia conhecer melhor a história através da obra dos historiadores, ao mesmo tempo em que a obra dos historiadores através da história. Neste jogo complexo, em que várias etapas têm de ser ultrapassadas, vários recortes são possíveis: pode-se, por exemplo, fixar um tema (um evento, um processo) e elencar as
obras de vários autores a ele referentes; ou, em sentido inverso, fixar um autor, e acompanhar os temas por ele tratados. No primeiro caso, a biografia do historiador contará menos; no segundo, ganhará relevo. E reaparecem as dificuldades: a biografia é um dos mais difíceis gêneros de história.

No caso de Caio Prado Jr., intelectual em atividade, contamos com o sugestivo esboço biográfico de Francisco Iglésias;[3] por ali se percebe que esse percurso existencial se organiza em torno de dois eixos básicos: a militância política e a ruptura de classe que ela envolveu. Pertencente ao tronco de uma das mais típicas famílias da elite aristocratizante de São Paulo,[4] Caio Prado Jr. desde muito jovem tornou-se militante comunista e pensador marxista. Sua produção intelectual configura a praxis-teórica em sentido pleno, pois fundada diretamente na atividade política. É aí que radicam, evidentemente, as opções mais fundas, — que por serem a um tempo intelectuais e existenciais assumem a força de convicções extremas, marcando a coerência que atravessa toda a obra. Mais ainda, a recorrência e insistência em certos temas, problemas, explicações, posições: nesse retornar quase obsessivo a certos pontos parece expressar-se a reafirmação daquelas opções ou rupturas. Percurso de vida e andamento do discurso relacionam-se, assim, iluminando-se mutuamente. É, por outro lado, sua origem de classe, a que se liga uma refinada e sólida formação intelectual, que de certo modo permitiu a Caio Prado Jr. escapar do esquementismo em que tantas vezes sossobram os intelectuais marxistas. Marxismo, para ele, não terá significado o desdobramento natural da radicalização do intelectual de classe média, em determinadas condições; [5] mais do que isso, implicava o rompimento com as raízes, o engajamento como intelectual orgânico do mundo do trabalho. Dramática, essa ruptura de classe ainda pode ser vista de outro ângulo. Trata-se, efetivamente, não apenas de uma facção de classe dominante, mas de uma elite aristocratizante, que se configurou em certos momentos e em algumas regiões do Brasil, como os senhores de engenho ou “barões” do café. Ora, o declínio de uma elite aristocratizante — declínio enquanto estilo aristocratizante de vida — parece ter o condão de estimular o espírito crítico,[6] e este parece ser o caso do clã Silva Prado, como se pode acompanhar no livro do brasilianista D. Levi. A “decadência”, eis um fator de radicalização intelectual, a ser acrescido aos já analisados por Míchael Lowy. E mais uma vez, no caso de Caio Prado Jr., a condição de classe associa-se tanto à radicalização de suas posições como ao espírito crítico que lhe garante a independência de espírito.

As condições sociais, se permitem um certo equacionamento, nunca esgotam a compreensão de uma obra, que envolve sempre a marca pessoal do autor. Nem pretendemos, com as observações anteriores, uma análise das condições sociais da produção historiográfica de Caio Prado Jr.; apenas procuramos indicar alguns aspectos, mais ligados à configuração das obras, isto é, aos temas abordados, à linha de interpretação, e ao estilo do discurso. Iniciada, em 1933, como indicamos, prossegue com Formação do Brasil Contemporâneo (1942), e História econômica do Brasil (1945), retomando-se depois com A Revolução brasileira (1966) e História e Desenvolvimento (1968). Quase todos os livros de Caio Prado Jr. têm várias edições. A partir de 1946 Evolução política do Brasil é reeditado com outros estudos, de grande interesse.[7] Trata-se de merecido êxito intelectual. Em seus pontos altos há consenso no reconhecimento de que se trata de um marco em nossa historiografia e nos estudos brasileiros em geral. Quando do aparecimento de Formação do Brasil Contemporâneo (1942), em amplo comentário, escrevia José Honório Rodrigues que “esse livro marca uma fase crítica na história de nossa história.”[8] E recentemente, em seu movimentado balanço da cultura brasileira contemporânea, Carlos Guilherme Mota destaca que “com as interpretações de Caio Prado Jr., as classes emergem pela primeira vez nos horizontes de explicação da realidade social brasileira — enquanto categoria analítica.”[9]

Enquanto José Honório refere-se a Formação do Brasil Contemporâneo, Carlos Guilherme reporta-se a Evolução política do Brasil. São livros de índole inteiramente diversa, mas ambos de grande penetração; daí o juízo altamente positivo dos críticos. O mais antigo (Evolução política, 1933) é um ensaio, navegando nas grandes linhas; Formação do Brasil (1942) é uma pesquisa em profundidade, um corte num “momento decisivo” de nossa história. O primeiro funda-se mais na bibliografia antecedente, questionando-lhe as visões; o segundo sem ignorar a historiografia, baseia-se essencialmente nas fontes coesas, — correspondência de autoridades, memórias, viajantes etc. E o fato de o autor desempenhar-se excelentemente nos dois estilos de trabalho já nos ajuda a compreender seu êxito intelectual, o impacto da obra no conjunto. E isto nos remete para um outro traço, característico de seus trabalhos: eles se estruturam sempre em torno de um eixo básico, e se desdobram por veredas laterais, sempre muito sugestivas de novos caminhos de pesquisa. Há, assim, no conjunto e em cada obra, esse núcleo recorrente de concentração, e os desdobramentos que se vão dispersando. Trata-se, desde logo, da perseguição permanente à mesma problemática básica (a identidade nacional, as possibilidades de mudança inscritas no processo histórico), e da sua retomada de vários ângulos e direções.

Detenhamo-nos, portanto, nestes pontos centrais, à procura de seus procedimentos metodológicos. A estrutura analítica de Formação do Brasil Contemporâneo, ponto mais alto da obra historiográfica, oferece, a nosso ver, o caminho mais seguro de acesso a esse núcleo mais decisivo de sua contribuição, ou seja, os temas visados, a formulação da problemática, as categorias através das quais se procede à reconstrução da realidade. É curioso notar que, embora o livro tenha sido saudado desde o início, e venha sendo citado e estudado constantemente, não se tenha destacado essa articulação mais geral que o caracteriza. Até certo ponto pode-se dizer que a sua utilização tem sido antes tópica, seja incorporando elementos de sua exposição, seja aprofundando temas laterais por ele suscitados. Não quero dizer que o livro não tenha sido compreendido, mas que não se tomou como tema a discussão e o aprofundamento de sua linha de análise. Em certos casos, efetivamente, essa atitude empobreceu o aproveitamento da obra.

À simples leitura, percebe-se que, depois de indicar o tema (Introdução), o autor procura definir o que chamou de “sentido da colonização”; segue-se a análise dos vários setores da realidade histórica agrupados em três conjuntos: “Povoamento”, “Vida material” e “Vida Social”, cada um deles subdivididos em capítulos. Nota-se que as considerações iniciais (”sentido”), voltam ao final de cada capítulo, sendo por isso consideradas “chave” para a compreensão; esse texto, — a Introdução — sempre citado, tornou-se “clássico”. Uma indagação mais profunda revela o movimento do discurso: recorte do objeto, apreensão de seu sentido, reconstrução do real a partir desse “sentido”. E o seu travejamento dialético vai transparecendo: o sentido, isto é, a essência do fenômeno, explica as suas manifestações, e ao mesmo tempo explica-se por elas. Não se trata, portanto, na constante recorrência ao ponto inicial, de simples recurso de ênfase; uma vez fixada a essência do fenômeno, dispõe-se da categoria explicativa básica para a reconstrução da realidade, dando-lhe inteligibilidade: daí, a volta permanente ao ponto de partida. É, em suma, essa categoria que explica os vários segmentos (dálhes “sentido”), ao mesmo tempo em que por eles se explica, isto é, a análise dos vários segmentos vai eriquecendo e comprovando a categoria fundamental.

Recortado o objeto, a análise desdobra-se, portanto, em dois movimentos: da aparência para a essência, e da essência para a realidade. E isto nos remete diretamente para o Marx do post-facio da Contribuição à crítica da economia política,[10] onde esses dois movimentos são claramente indicados, e o livro de Caio Prado Jr. começa a aparecer como um exemplo bem-sucedído na prática da dialética. Por isso, entendê-lo como um exemplo de interpretação econômica da história, ou mesmo como manifestação de economicismo, — como tantas vezes tem ocorrido — parece uma leitura acanhada, que não vai às últimas dimensões do texto. Diga-se, de passagem, que algumas passagens menos felizes podem levar a essa visão. Mas, insistimos, não é um ou outro trecho destacado que importa, mas o movimento conjunto da análise. Entre o sentido da colonização e o povoamento, produção, comércio, classes sociais etc., o que existe não é relação causal, mas conexões de sentido, Diríamos mesmo que os segmentos (povoamento, vida material, vida social) poderiam ser descritos e analisados em qualquer seqüência, pois guardam a mesma relação com a categoria explicativa. A segmentação aliás visa apenas a facilitar a exposição, sendo que se pode notar a interpenetração entre eles. É o tipo de análise que permite ultrapassar a visão segmentária e economicista.

Uma outra questão liga-se a essas considerações: a mesma visão, a nosso ver, já estava presente em Evolução política (e, posteriormente, em História econômica), mas a exposição cronológica, não seguindo os passos da análise, dificulta a compreensão do procedimento metodológico. Os pontos centrais da análise porém, são os mesmos, em função da mesma problemática: a constituição da nação a partir da colônia, “colonial” e “nacional” como as categorias que explicitam um determinado processo histórico específico. Assim, parece legítimo inferir que a ordem da exposição pode ou não coincidir com os passos da análise. Esses passos, contudo, envolvem problemas teóricos altamente complexos: sobretudo o “primeiro movimento”, isto é, o que, na realidade aparente, identifica as categorias essenciais — parece de difícil formulação. Não pretendemos discutir este problema, apenas anotar que, na obra que estamos analisando, esse primeiro movimento consiste na inserção do fenômeno analisado num contexto mais amplo. Assim, no clássico “sentido da colonização”, Caio Prado Jr. integra a colonização (isto é, povoamento, economia, sociedade) de uma determinada área no contexto da expansão comercial européia, e é dessa maneira que apreende o seu “sentido”. Isto, é claro, resolve apenas parcialmente o problema, para certo tipo de análise; pois quando é o próprio “contexto mais amplo” que se questiona, a dificuldade reaparece em toda sua força.

E aqui vamos nos aproximando das possíveis limitações, que mesmo as obras mais penetrantes acabam por revelar. Se buscamos uma integração crítica da contribuição de Caio Prado Jr., que assimile seus avanços procurando ao mesmo tempo ultrapassá-los, temos que questionar este núcleo de sua análise, e não apenas seus aspectos laterais. Nesta linha, talvez se possa argüir que, no movimento de inserção no conjunto, isto é, no esforço por apreender a categoria básica, a análise se deteve a meio caminho. Trata-se de definir com precisão o que deve ser inserido em que; e talvez o Brasil na expansão marítima européia seja um recorte que apanhe apenas algumas dimensões da realidade, não levando a análise até a linha do horizonte. “Brasil”, é claro, não existia, a não ser enquanto colônia, e é da colônia portuguesa que trata Caio Prado Jr.: a questão é saber se não seria preciso o conjunto do mundo colonial. Expansão comercial européia é a face mercantil de um processo mais profundo, a formação do capitalismo moderno; e a questão consiste em saber se não seria preciso procurar as articulações da exploração colonial com esse processo de transição feudal-capitalista. Assim, a análise, embora centrada numa determinada região, seria sempre a análise do movimento em seu conjunto, buscando permanentemente articular o particular e o geral. A análise das formas de acumulação primitiva na gestação do capitalismo parece ser, por outro lado, o caminho para explicitar essas conexões estruturais. O que levaria à reformulação das unhas gerais, e da própria visão do conjunto. Mas, insistimos, é essa uma crítica que parte da análise de Caio Prado Jr., e a incorpora.

De toda maneira, a compreensão desse núcleo central parece-nos indispensável para compreender a obra nos seus desdobramentos. É por aí que se apreende sua extraordinária coerência. Trata-se de compreender a nação a partir da colônia e por oposição a ela, e indagar as possibilidades de transformação inscritas nesse processo. Já em Evolução política a problemática e as categorias básicas de análise estavam esboçadas, e o estudo incidiu particularmente sobre o processo de emancipação; e não será demais lembrar que o enfoque geral ali esboçado para a análise da independência como um processo mais abrangente resiste até hoje, como o que de melhor dispomos para o estudo do problema. Inserido no contexto da formação do estado nacional, a emancipação política ganhou sentido e ultrapassou a visão dos lances mais pitorescos ou mesmo dramáticos. Assim, Caio Prado Jr. insistiu na importância de levar o processo até as lutas da regência, dando início a estudos no capítulo que dedicou a essas lutas, um dos pontos mais altos do livro. Ele mesmo retomaria o tema, na introdução à edição do Tamoio, ou no estudo sobre Cipriano Barata. Outros autores aprofundariam o estudo dessas rebeliões.

Por outro lado, a análise das características da economia colonial, esboçada no primeiro livro, assume no segundo seu pleno desenvolvimento. A discriminação de seus setores, sua forma de articulação e desenvolvimento etc., permitiram caminhar para a configuração do que seria a economia nacional, isto é, voltada para dentro, centrada no mercado interno, — em processo de constituição. Esta linha seria desenvolvida na História econômica, e retomada em Diretrizes para uma política econômica (1954). Aqui, para além da análise do processo histórico, mas a partir dela, se transita para as potencialidades nele inscritas, caminhando-se no sentido da atuação política efetiva. Como que se recompõe de novo coerência da obra no conjunto. É essa última dimensão que se enfatiza em A Revolução brasileira (1965) e A questão agrária no Brasil (1979). Por todas essas obras, o autor foi semeando pistas e sugerindo temas, alguns tratados por novos pesquisadores, outros ainda não abordados, à espera dos estudiosos. Esse caráter seminal é outra marca das grandes obras.

Grande obra, no seu conjunto, tiveram razão os críticos ao considerá-la um marco em nossa história intelectual. Talvez valha a pena meditar um pouco sobre o significado dessa avaliação. Pois quando dizemos que uma obra é um “marco” convém explicar em que “série”. Neste sentido, três ângulos de análise se abrem, altamente sugestivos, para uma avaliação crítica da obra historiográfica de Caio Prado Jr. Ela pode, obviamente, ser vista no quadro da historiografia brasileira, e é isto que vimos esboçando, com essas notas preliminares. Não pode haver dúvida quanto ao seu significado preeminente nesse campo, não somente pela contribuição efetiva como pela fermentação que vem provocando.

Mas Caio Prado Jr. historiador pode ainda ser visto no quadro do marxismo latino-americano. E aqui sua posição (ao lado da de J. C. Mariátegui, que começa a ser estudado entre nós) parece ser excepcional. Durante muito tempo o que caracterizou o marxismo latino-americano foi um extremado esquematismo: a renovação, em curso, parece ligar-se à crítica do pensamento cepalino, ou noutros termos, é criticando os esquemas da chamada economia política cepalina que o marxismo entre nós adquire força de interpretação, ultrapassando esquemas simplificadores. Caio Prado Jr. (como Mariátegui), escrevendo suas principais obras no período anterior a essa renovação, tem as características do segundo período. Basta lembrar a ausência, nas suas obras, das citações rituais características da ortodoxia estéril. Essas constatações importam para uma futura história do pensamento marxista na América Latina.

Finalmente, caberia discutir o interior da “geração de 30″, com que iniciamos estas notas. E isso levaria à comparação com as obras de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. Sérgio Buarque, de mais difícil assédio, formula mais explicitamente a questão da identidade nacional, que acompanha a obra dos três, os quais, na procura dessa identidade, formularam diferentes “interpretações”. Caio Prado Jr. e Gilberto Freyre formam um curioso contraponto. Ambos se ligam às classes dominantes, de duas regiões que entretanto evoluem de forma divergente. Se, em São Paulo, pode-se pensar num declínio de estilo aristocratizante de uma elite da camada dominante, esta como um todo está em franca ascenção econômica; no Nordeste, ao contrário, a decadência econômica faz declinar inexoravelmente o peso de suas elites no conjunto da nação. Gilberto Freyre talvez por isso, analisa sempre o Brasil a partir de seu passado, isto é, daquilo que deixou de ser; Caio Prado Jr., ao contrário, pensa sempre o país pelas suas potencialidades, isto é, pelo que ele pode vir a ser. Se esta visão talvez possa considerar-se utópica, a primeira é seguramente nostálgica.

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Fernando Novais é historiador e professor da Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

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Novos Estudos
Cebrap, São Paulo,
v. 2, 2, p. 66-70, jul. 83

Notas:
[1] Wilson Martins. História da Inteligência brasileira (São Paulo. 1979), vol. VI I . p. 1.

[2] Em seu minucioso levantamento das publicações, W.Martins não menciona Evolução política no contexto de 50, referindo-se depois às suas reedições.

[3] Cf. Francisco Iglésias. “Um historiador revolucionário”. Introdução a Caio Prado Júnior, história, introdução e seleção de textos por F. Iglésias. São Paulo. 1982, pp.7-47. Coleção “Grandes Cientistas Sociais”, coordenada por Florestan Fernandes.

[4] Cf. Darrel Levi. A família Prado, trad. Port, São Paulo, 1977.

[5] Cf. Michael Lowy. Para uma sociologia dos intelectuais revolucionários, trad. port., São Paulo, 1979, especialmente pp. IX a XV e 1 a 9.

[6] Chamou-me a atenção para a relação entre “declínio aristocrático” e espírito crítico a socióloga Maria Arminda Nascimento Arruda; retornei o tema com Armem Mamigonian, geógrafo, numa viagem pelo interior de Santa Catarina.

[7] Bibliografia de Caio Prado Jr.: Evolução política do Brasil, 1933. URSS, um novo mundo, 1934 (2.ª ed. 1935). Formação do Brasil contemporâneo, 1942 (17.ª ed. 1981). História econômica do Brasil, 1945 (28.ª ed. 1983). Evolução política do Brasil e outros estudos, 1946 (12.ª ed.1980). Dialética do conhecimento, 1952 (6.ª ed. 1980). Diretrizes para uma política econômica brasileira, 1954. Esboço dos fundamentos da teoria econômica, 1957 (5.a ed. 1969). Introdução à lógica dialética, 1959 (4.ª ed. 1979). O mundo do socialismo, 1962 (3.ª ed. 1967). A revolução brasileira, 1966 (6.ª ed. 1978). História e desenvolvimento, 1968 (3.ª ed. 1978). Estruturalismo de Levi-Strauss, marxismo de Althusser, 1971. A questão agrária no Brasil, 1979 (3.ª ed. 1981).

[8] José Honório Rodrigues. Notícia de vária história, Rio de Janeiro, 1959, p. 92. A resenha saíra no suplemento literário de O Jornal.

[9] Carlos Guilherme Mota. Ideologia da cultura brasileira, São Paulo, 1977, p. 28.

[10] Cf. K. Marx — Contribuição à critica da economia política, trad. de Florestan Fernandes, São Paulo, 1946, pp. 219-231.

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Em defesa do voto obrigatório

Léo Lince

Com o voto facultativo, o direito de votar e o de não votar ficam inscritos, em pé de igualdade, no corpo legal. Uma parte do eleitorado deixará voluntariamente de opinar sobre a constituição do poder político. O desinteresse pela política e a descrença no voto serão registrados como mera “escolha”, sequer como desobediência civil ou protesto. A consagração da alienação política como um direito legal interessa aos conservadores, reduz o peso da soberania popular e desconstitui o sufrágio como universal.

Existe um mal-estar no senso comum em relação ao voto obrigatório. Toda obrigação incomoda. Este fato, indiscutível, favorece os defensores do voto facultativo, que se apresenta como elemento de desmonte da praga dos currais eleitorais. Falso. Na República Velha, o voto era facultativo e os currais proliferavam. O voto obrigatório foi implantado na década de 30 e os curais continuam a operar até hoje. Ou seja, sendo obrigatório ou facultativo, o voto pode se tornar mercadoria: a coerção que encurrala eleitores é de outra natureza.

No entanto, razões não faltam para o sucesso de público da proposta. Ela joga com a desmoralização da política em geral e com a descrença no voto como instrumento efetivo de mudança (elementos que favorecem a cristalização do poder de quem já está por cima) e, ao mesmo tempo, ainda aparece como uma concessão à liberdade individual. Desobrigado de votar, o indivíduo fica mais “livre” ao deixar de “perder” aquele pedaço do dia em que, de dois em dois anos, comparece na sessão eleitoral. Falsa conquista, perigoso conceito de liberdade individual que compromete a realização do princípio republicano da soberania popular.

O voto, além de um direito duramente conquistado, deve ser considerado um dever cívico, sem o exercício do qual aquele direito se descaracteriza ou se perde, afinal liberdade e democracia são fins e não apenas meios. Quem vive numa comunidade política não pode estar desobrigado de opinar sobre os seus rumos. Nada contra a desobediência civil, recurso legítimo para o protesto cidadão que, no caso eleitoral, pode se expressar no voto nulo (cuja tecla deveria constar na máquina de votar). A questão, no caso, é outra. Com o voto facultativo, o direito de votar e o de não votar ficam inscritos, em pé de igualdade, no corpo legal. Uma parte do eleitorado deixará voluntariamente de opinar sobre a constituição do poder político. O desinteresse pela política e a descrença no voto serão registrados como mera “escolha”, sequer como desobediência civil ou protesto. A consagração da alienação política como um direito legal interessa aos conservadores, reduz o peso da soberania popular e desconstitui o sufrágio como universal.

Ganha com a mudança quem quer o povo na “maioria silenciosa”, gigante adormecido, aglomerado de consumidores, nunca como titular soberano e organizado do poder político. Nos EUA, onde o voto é facultativo, a abstenção eleitoral é enorme e tende a se perpetuar nos mesmos grupos sociais e étnicos, especialmente