Mães, filhos e crimes hediondos
Maria Clara Bingemer
Parece-me apenas que fazer justiça com as próprias mãos não vai impedir que haja outro e muitos outros meninos barbaramente assassinados. Somar mais violência à violência e à barbárie já existente não é solução. Ao lado das medidas emergenciais que devem ser impreterivelmente tomadas, há outras, de médio e longo prazo, que não podem ser proteladas.
O Brasil inteiro contempla o rosto macerado pela dor de Rosa Maria Vieites, “mater dolorosa” que chora a perda do filho. O lindo menino João Hélio, de apenas seis anos de idade, não enche mais a casa com suas brincadeiras, nem faz desenhos coloridos dizendo à mãe que gosta dela. Também a lousa onde traçou um coração e o contorno de sua mãozinha ficarão apenas como tributo da saudade sem remédio deixada depois que foi massacrado por uma turma de bandidos, arrastado por sete quilômetros preso ao cinto de segurança do carro de sua mãe.
A outra mãe não revelou seu nome. O jornal a identifica como M. Seu rosto não foi mostrado à mídia. É preciso imaginá-lo. Também está, seguramente, contorcido de dor, mas não pelos mesmos motivos que os de Rosa Maria. M. sente vergonha dos filhos que participaram do crime hediondo que culminou no bárbaro assassinato de João Hélio. Evangélica, culpa-se por não ter sabido educá-los e pede perdão a Rosa Maria.
As duas mães são hoje o retrato do Brasil que sofre as pavorosas conseqüências do cruel “apartheid” que criou para si mesmo. A linha divisória, sulcada pelo bisturi da injustiça e da iniqüidade social, passa pela morte infligida ou sofrida. De um lado estão famílias pobres mas dignas, que de um momento para outro vêem seus filhos entrarem no caminho sem volta do tráfico e do crime. Do outro, famílias dignas que lutam para construir um futuro melhor para seus filhos e se vêem de repente reféns da violência urbana sem quartel que açoita e dizima as capitais brasileiras.
Ambas são vítimas, embora os filhos de M., que lhe escaparam do ventre e se renderam ao crime, personalizem e encarnem tudo que rejeitamos e abominamos: a violência, o descaso pela vida humana, a frieza diante da inocência de uma criança que tem seu corpo arrastado pelas ruas e estraçalhado pelo asfalto. Seus rostos visibilizados pela mídia nos provocam asco, horror. Do fundo de nossas entranhas e corações brotam desejos de vingança que pedimos aos gritos em manifestações públicas, em abaixo-assinados, no uso da roupa preta em sinal de luto e nas marchas até Brasília para exigir uma legislação que impeça que coisas como essa voltem a acontecer.
Um dos criminosos já apareceu em sua última foto com hematomas no rosto que delatam a violência com que foi tratado pelos outros presos, igualmente indignados diante do crime que cometeu. Grupos de pessoas esperam pela saída do camburão que os leva de um lado para o outro e o clamor surdo pelo linchamento começa a crescer e tomar volume. Cartas ao leitor enchem as páginas dos jornais pedindo justiça já.
É legítima a discussão sobre a diminuição da maioridade penal. Uma vez que um cidadão de 16 anos pode votar e escolher seus governantes, pode igualmente ser responsabilizado pelos atos que comete e punido quando estes são lesivos à vida humana. Mãe de três filhos e em vésperas de ser avó, sinto em carne própria a indignação que leva a gritar: “Basta!” e a exigir uma solução eficaz no mínimo tempo possível.
Parece-me apenas que fazer justiça com as próprias mãos não vai impedir que haja outro e muitos outros meninos barbaramente assassinados. Somar mais violência à violência e à barbárie já existente não é solução. Ao lado das medidas emergenciais que devem ser impreterivelmente tomadas, há outras, de médio e longo prazo, que não podem ser proteladas. Tais como a construção de um sistema socioeconômico mais justo; uma radical reengenharia no sistema educativo do país, que situe os menores nos bancos da escola e não na errância das ruas; um repensar estrutural do sistema carcerário, transformado em especialização de bandidos e não em lugar de recuperação de infratores.
Devemos isso a Rosa Maria e a sua lancinante dor. Joãozinho não pode ser esquecido nem seu sacrifício ficar em vão. Mas devemos isso também a M. e outras como ela, que não tiveram ao seu alcance recursos para evitar que o crime se apoderasse para sempre do corpo e da alma dos filhos saídos de seu ventre.
Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio.