Arquivo de 13 de Março de 2007

Estréia ‘Os 12 trabalhos’, de Ricardo Elias

Numa alegoria paulistana do mito de Hércules, o cineasta apresenta o mundo dos motoboys como uma realidade dura. A escolha de um motoboy como protagonista foi a idéia do diretor para fazer uma radiografia vertical dos estratos sociais de São Paulo.

Silas Martí

Talvez seja colorida demais a São Paulo retratada por Ricardo Elias em Os 12 Trabalhos, segundo longa-metragem do diretor, que estréia sexta-feira, 9, nos cinemas. Numa alegoria paulistana do mito de Hércules, o cineasta apresenta o mundo dos motoboys como uma realidade dura, mas com um lirismo afetado, que vez ou outra esbarra na pieguice de tom moralizador.

Héracles, interpretado pelo estreante Sidney Santiago, premiado nos festivais do Rio e de Gramado, é um jovem negro com passagem pela Febem que decide mudar de vida. Ele abandona o tráfico e, com a ajuda do primo Jonas, Flávio Bauraqui (O Cheiro do Ralo, Zuzu Angel), vai trabalhar como motoboy, mas antes de assinar o contrato, terá de passar por 12 provas.

Não por acaso, a empresa se chama Olimpo Express, braço da filial hercúlea montada por Elias na capital paulista. Assim como o herói grego, Héracles busca a redenção, no caso um emprego, que o tire da vida do crime. A escolha de um motoboy como protagonista foi a idéia do diretor para fazer uma radiografia vertical dos estratos sociais de São Paulo.

Num mesmo dia, Héracles pode ser terapeuta, assistente social, traficante e babá. Os contatos são rasos, mas intensos, já que ele aparece em momentos de dor, separação ou angústia na vida de cada um. Ele transporta e quase perde o gato de uma professora aposentada, acompanha um idoso para fazer exames médicos, leva drogas a pedido de outro motoboy para um arquiteto em crise, presencia a despedida de dois apaixonados no aeroporto e faz as vezes de psicólogo numa conversa com a namorada do primo recém-abandonada.

Tendo as ruas e avenidas de São Paulo como estrutura tensa de trocas, o motoboy circula pelo sistema como célula vital, gozando às vezes da perspectiva de um parasita. Entra nas casas mais humildes e prédios de executivos no mesmo dia, levando pedidos de divórcio e ordens de despejo.

Em tom onisciente, Héracles prevê o futuro de cada personagem que cruza seu caminho. São nesses momentos que o ar profético da narração em off mergulha a trama num fatalismo fácil: uma falta de esperança e desespero às vezes precoce que pouco tem a ver com a cidade ensolarada de cores vibrantes captada pelas lentes de Elias. Não que um filme sobre a falta de perspectivas e a crise da juventude tenha de ser mais agressivo no diálogo e menos colorido nas imagens.

Oscilando entre o risco de morte no asfalto e o contato romantizado com os clientes, sem contar as cenas fantásticas que ilustram os desenhos em quadrinhos que ele rabisca nos momentos livres, o roteiro revela uma esquizofrenia latente entre a vontade de realizar um retrato lírico dos jovens da periferia, longe do fatalismo evidente em algumas cenas, e o gosto amargo do sangue esparramado pelas ruas em acidentes fatais - segundo estatísticas, dois motoboys morrem por dia em acidentes de trânsito em São Paulo.

Mas a esquizofrenia é válida porque não deixa de ser verdadeira numa cidade como São Paulo. E, como mostra o roteiro, há luz no fim do túnel. Se não está na moda, como afirma uma personagem do filme, a periferia precisa estar em pauta. À diferença do retrato célebre de Fernando Meirelles, cujo Cidade de Deus foi comparado de maneira injusta a De Passagem, primeiro longa de Ricardo Elias, o segundo filme do diretor volta na mesma linha, mostrando a vida como ela é sem ignorar seus momentos sublimes.

Carta Maior

Comentários (1)

Deu no Blog do Laranjeira

ALDO E O PSOL

Será um desastre para a vida pública do ex-vereador Aldo dos Santos se ele aceitar a indicação, pelo PSOL, de candidato a prefeito de São Bernardo. O partido que saiu da cabeça da ex-senadora Heloísa Helena ainda se encontra em processo de formação e não reúne condições para apresentar candidato a um cargo dessa natureza, muito menos em Santo André. Mas, nas duas cidades, tanto Aldo quanto o ex-vereador Ricardo Alvarez têm mais de 80% de chances de retornarem às Câmaras de Vereadores dessas duas cidades, não obstante as eleições municipais tenham sido marcadas, não pela mensagem ideológica, mas pelos recursos financeiros dos candidatos.

http://carlos.laranjeira.zip.net/

Comentários