Arquivo de 24 de Março de 2007

Poluição de mananciais ameaça abastecimento em São Paulo

Mais de um bilhão de pessoas no mundo não têm água potável. Essa realidade, porém, não é tão distante: a represa do Guarapiranga, que abastece quase 4 milhões de pessoas em São Paulo, está seriamente ameaçada.

Natália Suzuki - Carta Maior

SÃO PAULO – A garantia de água potável para os próximos anos tem sido uma das grandes preocupações ambientais, pois compromete diretamente a sobrevivência da vida no planeta. Nos últimos 60 anos, o consumo de água aumentou sete vezes, em parte porque a população mundial duplicou, mas também porque houve o aumento do desperdício, da contaminação hídrica e do seu uso na agricultura.

De acordo com a Organização das Nações Unidas, nos próximos 25 anos haverá uma drástica diminuição da disponibilidade de água por habitante. Estima-se que a diminuição será próxima dos 30%. Atualmente, mais de um bilhão de pessoas já vivem sem acesso à água potável, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). O panorama se agrava com a previsão de um crescimento populacional de dois bilhões de novos habitantes, principalmente em cidades de países em desenvolvimento, que deverão ter uma rápida expansão urbana.

O Brasil é um país que tem um papel importante na discussão, já que 12% de toda água disponível do mundo estão em seu território. Mas, ainda assim, o país não tem conseguido preservar os seus mananciais de forma satisfatória.

Um exemplo dessa situação, que conjuga crimes ambientais, descaso e falta de planejamento, é a região metropolitana do Estado de São Paulo (RMSP). Metade de toda a sua área está localizada em mananciais da Bacia do Rio Tietê; são 21 municípios de um total de 39. A maior parte deles - fundamentais para o abastecimento da população dessas cidades – está poluída. Corpos d´água, que convivem lado a lado com a população paulistana, como o próprio Tietê, Pinheiros, Tamanduateí e Ipiranga estão contaminados.

Hoje, a RMSP conta com uma baixa disponibilidade hídrica por habitante, que é semelhante à proporção da região nordeste do Brasil. Essa condição obriga a região buscar água de outras fontes que se situam fora da Bacia do Tietê, como por exemplo, a represa da Cantareira.

Além da poluição, o desperdício colabora no déficit. De toda a água produzida pela Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), 40% se perde no processo de produção. A metade dessa perda é devido às velhas tubulações e encanamentos do sistema que geram muitos vazamentos ao longo de toda a distribuição. A outra parte é referente ao que se chama “roubo de água”, o que inclui ligações clandestinas feitas tanto por moradias de populações carentes, como pelo pequeno comércio, como é o caso de muitos lava-rápidos.

“A maioria dos rios poluídos [de São Paulo] poderiam ser usados para o abastecimento. Se os rios não fossem poluídos, haveria maior disponibilidade”, afirma Marussia Whately, coordenadora do Programa Mananciais do Instituto Socioambiental (ISA). “A cultura brasileira é muito relapsa e displicente com uso de recursos naturais. É um mau uso histórico, um processo de quem sempre teve tudo a mão”, avalia.

O mais ameaçado
A represa Guarapiranga é o manancial mais ameaçado da região metropolitana de São Paulo. Contudo, ela é responsável pelo abastecimento de 3,7 milhões de pessoas, as quais não vivem apenas em seu entorno, mas em outros bairros paulistanos mais distantes.

O esgoto e a poluição difusa são as principais causas da poluição da Guarapiranga. De acordo com os resultados do Seminário Guarapiranga 2006, divulgados na última quarta-feira (21), a deficiência dos serviços de saneamento, sobretudo da rede de coleta, afastamento e tratamento do esgoto da população da bacia, é uma das principais responsáveis pelo quadro.

“A situação atual do reservatório e seus afluentes caracteriza-se pela deterioração progressiva da qualidade das águas, em função do crescente aumento do despejo de esgotos e da poluição difusa”, descreve o relatório. A poluição difusa é aquela depositada ao longo de toda a bacia e que provem do escoamento superficial das casas, dejetos domésticos e resíduos comerciais e industriais de pequeno porte.

A deterioração da Guarapiranga é um processo histórico, que ocorre paralelamente com a expansão da cidade. Na década de 80, a presença de algas foi registrada nas suas águas, que indicam a grande quantidade de material orgânico na represa. O excesso de poluição tem aumentado a quantidade de plantas aquáticas, cujo impacto incide na qualidade da água e no assoreamento da represa.

Uma outra causa para o assoreamento na represa é a sua intensa ocupação populacional. Com a instalação de novas casas, o terreno cede e desliza para dentro da represa, reduzindo o seu tamanho e a sua capacidade de armazenamento de água.

Mas essa ocupação contribui de outras formas para as condições atuais da represa. O local, hoje, é densamente povoado. Segundo a professora e coordenadora do Laboratório de Habitação e Assentamentos Humanos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), Maria Lúcia Refinetti Martins, a população chega a mais de um milhão de pessoas na região da bacia e a tendência é o seu crescimento, mesmo ali sendo uma Área de Proteção Permanente (APP), o que, em tese, restringiria a ocupação imobiliária indiscriminada. Por conta disso, grande parte dos 200 mil domicílios da região da bacia está em situação irregular.

A comunidade Vera Cruz, no bairro do Jardim Ângela, zona sul de São Paulo, ilustra bem a situação. Apenas uma pequena parte das moradias são regularizadas e, portanto, contam os serviços de saneamento básico. A conseqüência disso é que parte considerável das moradias, especialmente as que estão mais próximas à represa e nas encostas dos terrenos mais acidentados, despeja todo o seu esgoto nas águas do Guarapiranga sem qualquer tipo de tratamento.

Nessas casas desprovidas do serviço público, os próprios moradores improvisam um sistema de canalização de água e esgoto, cujo destino mais curto e mais fácil é a represa que está logo ao lado.

Mas o fato de essas moradias se situarem entorno da represa não lhes garante abundância de água. “Falta muita água aqui quase todos os dias, mas tem dia que pega a gente de surpresa e ficamos até três dias sem água. Daí precisa pegar água do poço. A gente tem mandar as crianças limpas para a escola. E o a rede de esgoto joga tudo na represa. Nós fizemos a rede”, afirma a moradora Maria Valdete da Conceição, que vive ali há oito anos.

Na verdade, o exemplo da Vera Cruz, é um micro universo de uma realidade em que 70% da população de toda a RMSP tem esgoto coletado, mas apenas 35% desse total têm o seu esgoto tratado. Com exceção dos municípios de São Paulo e de Embu-Guaçu, os outros da Bacia não têm qualquer tipo de tratamento dos seus esgotos, que depois de coletados, são jogados em cursos d´água, como o Embu-Guaçu e o Embu-Mirim, ambos afluentes da represa do Guarapiranga.

Apenas metade da rua Bernardo Clavijo, na Vera Cruz, tem o seu esgoto coletado, a outra metade nem isso, dispondo apenas do serviço de distribuição de água. Ainda assim, a Sabesp cobra desses moradores pelos dois serviços. A conta emitida pela Sabesp para uma das casas dessa rua, com vencimento do 16 de fevereiro de 2007, cobrava R$21,21 pela água e R$21,21 pelo esgoto. A moradora afirma que conta apenas com o serviço de água.

Segundo Marussia, os problemas de fornecimento terão um efeito maior nas populações mais pobre. “Cada vez mais, os pobres não têm saneamento desde que os serviços de saneamento viraram um negócio por conta das privatizações. O pobre não tem dinheiro para pagar esse serviço e por isso não o recebe, ainda que seja um direito seu”.

A Sabesp foi procurada insistentemente pela reportagem, mas até o fechamento dessa matéria não atendeu ao pedido de entrevista.

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Segundo especialista, o continente não está derretendo

Jurema Aprile*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Afinal, o que está derretendo na Antártida? O gelo marinho, os icebergs, as banquisas, a calota polar ou as geleiras? Cerca de 10% da área do planeta Terra é coberta de gelo e 90% desse volume está na Antártida. Mas o continente gelado não está derretendo e contribui minimamente para o aumento no volume das águas marinhas observado nos últimos anos.

A afirmação é de um dos principais especialistas no assunto, o glaciólogo Jefferson Simões, coordenador do Núcleo de Pesquisas Antárticas e Climáticas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que estuda a questão do gelo do planeta e o descongelamento. A glaciologia é uma área da geologia que estuda as geleiras, as glaciações e seus efeitos sobre a Terra.

Falta consenso
Cálculos apresentados por pesquisadores em painéis climáticos internacionais prevêem que até o ano 2100 o nível do mar poderá se elevar de 60 cm a 1 m por conta de gelo que se tornará liquefeito e aumentará o volume das águas marinhas.

Em relação a isso, Simões, que é geólogo com doutorado em glaciologia, ressaltou que é uma parte muito pequena do gelo do planeta que está derretendo - exatamente 0,7% do volume total - e a participação do gelo antártico nesse percentual é mínima.

O volume do gelo antártico corresponde a 25 milhões km3. Se derretesse todo, equivaleria a um aumento de 60 metros no nível médio dos mares.

Estudos realizados nos últimos anos e publicados em revistas científicas produziram resultados contraditórios. Alguns indicavam a perda de gelo e outros o engrossamento da camada - não há consenso dos pesquisadores.

Registros gelados
A cobertura de gelo antártico tem papel fundamental no sistema ambiental. Ela é um dos principais controladores do sistema climático terrestre e do nível do mar.

Além disso, essa cobertura “arquiva” nas suas camadas a evolução e os eventos principais da atmosfera do planeta. Ficam registrados ali os resultados da ação humana sobre o ambiente nas últimas décadas. Daí se entende a importância dos estudos em glaciologia antártida.

“As pessoas confundem gelo marinho - mar congelado - com gelo de geleiras”, diz Jefferson Simões. Mar congelado tem impactos ambientais climáticos significativos, mas não afeta o nível marinho.

O aumento no nível das águas do mar está relacionado em 70% ao derretimento das geleiras -que concentram a maior parte da água doce do planeta - e em 30% à expressão térmica do mar, ensina o glaciólogo.

Outro equívoco comum é o uso da expressão “calotas polares”. Elas não existem. O que há são áreas cobertas de gelo, como os mantos de gelo da Groenlândia e da Antártida.

Afinal, o que é uma geleira?
Decididamente, não é um iceberg, aqueles blocos imensos de gelo que se vê, em fotos ou filmes, flutuando no mar. A geleira ou glaciar é uma massa continental de gelo de limites definidos, que se movimenta lentamente por ação da gravidade: ela nunca está parada.

O termo ‘’geleira'’ não é aplicado às massas de gelo formadas pelo congelamento da água: essas são as banquisas. E mais: a expressão “manto de gelo” só se refere a uma massa de neve e gelo muito espessa, com área maior de 50 mil km2. Só existem dois mantos de gelo no planeta: o antártico e o groenlandês.

Um manto pode estar apoiado sobre rochas ou flutuar na água - nesse caso são chamados plataformas de gelo. Elas têm espessura que vai de 200 a 2.000 m e são fixas à costa, podendo se estender por até 500.000 km2.

Plataformas podem aumentar de tamanho pela acumulação de neve e gelo ou pelo fluxo do gelo. Também perdem massa pelo desprendimento de icebergs. Estes podem durar mais de dez anos “viajando” na água antes de derreter. Aproximadamente 42% da costa antártida são cobertas por plataformas de gelo.

Se aquece, descongela
O descongelamento que mais contribui para o aumento das águas oceânicas no mundo ocorre ao sul da Groenlândia, nas calotas de gelo das ilhas árticas, na região polar Norte.

Outra contribuição vem do derretimento das geleiras de montanhas localizadas em regiões temperadas e tropicais. Toda essa água vai para os rios e, então, toma o caminho do mar. Na Bolívia, as geleiras estão derretendo rapidamente. Na capital, La Paz, 70% das águas vêm das geleiras.

O derretimento das geleiras nos Andes tem impactos no Brasil, causando aumento do volume das águas tanto na bacia do Paraná quanto na Amazônica. Também há diminuição do gelo na Patagônia.

O descongelamento das geleiras eternas em regiões tropicais tem sido atribuído ao aquecimento global, por pesquisadores como os da Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos. A geleira Qori Kalis, no Peru, estaria encolhendo cerca de 60 m ao ano, arriscando-se a desaparecer completamente em cinco anos.

Duas medidas
Para o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês), as mudanças climáticas são “muito provavelmente” causadas pela ação humana.

O IPCC estabelece 90% de probabilidades de que o aquecimento da superfície do planeta seja provocado pelas emissões de gases causadores do efeito estufa, ou seja, pela ação humana.

Há estudiosos que lêem essa afirmação de outra forma: existem 10% de chances de que o aquecimento global não seja causado pela emissão de gases estufa e sim por condições naturais.

Mudanças sempre ocorreram
Para o glaciólogo Jefferson Simões, mudanças no clima sempre ocorreram e não há motivo para pânico. Preocupante, para ele, é a velocidade desse processo.

Quando essas mudanças do clima acontecem de forma rápida, os organismos não têm tempo suficiente para se adaptar e se desenvolver. Quando os processos são mais lentos, nós nos adaptamos.

Em 12 mil anos, entre a última idade do gelo e o tempo presente, a temperatura média da Terra aumentou 7º C. Em comparação, nos últimos 140 anos, registrou-se um décimo desse aumento.

# Com informações da Agência FAPESP.

*Jurema Aprile é jornalista.pagina3@pagina3ped.com

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