Arquivo de 25 de Março de 2007

Colapso das colônias - Será que plantações de transgênicos estão matando as abelhas?

Uma dizimação misteriosa das populações de abelhas preocupa os
apicultores alemães, enquanto um fenômeno semelhante nos EUA está
assumindo gradualmente proporções catastróficas

Gunther Latsch

Walter Haefeker é um homem que está acostumado a pintar cenários
sombrios. Ele faz parte do conselho diretor da Associação Alemã de
Apicultores (Dbib) e é vice-presidente da Associação Européia de
Apicultores Profissionais. E como reclamar faz parte da atividade do
lobista, é praticamente seu dever profissional alertar que “a
própria existência da apicultura está em risco”.

O problema, disse Haefeker, tem várias causas, uma delas o ácaro
Varroa, oriundo da Ásia, e outra a prática disseminada na
agricultura de borrifar as flores silvestres com herbicidas e
promover a monocultura. Outra possível causa, segundo Haefeker, é o
uso crescente e controverso de engenharia genética na agricultura.

Já em 2005, Haefeker encerrou um artigo para o qual contribuiu no
jornal “Der Kritischer Agrarbericht” (Relatório Agrícola Crítico)
com uma citação de Albert Einstein: “Se a abelha desaparecer da
superfície do planeta, então ao homem restariam apenas quatro anos
de vida. Com o fim das abelhas, acaba a polinização, acabam as
plantas, acabam os animais, acaba o homem”.

Eventos misteriosos nos últimos meses repentinamente fizeram a visão
apocalíptica de Einstein parecer mais relevante. Por motivos
desconhecidos, as populações de abelhas por toda a Alemanha estão
desaparecendo - algo que até o momento está prejudicando apenas os
apicultores. Mas a situação é diferente nos Estados Unidos, onde as
abelhas estão morrendo em números tão dramáticos que as
conseqüências econômicas poderão em breve ser calamitosas. Ninguém
sabe o que está causando a morte das abelhas, mas alguns
especialistas acreditam que o uso em grande escala de plantas
geneticamente modificadas nos Estados Unidos poderia ser um fator.

Felix Kriechbaum, um representante da associação regional dos
apicultores na Baviera, informou recentemente um declínio de quase
12% na população local de abelhas. Quando as “populações de abelhas
desaparecem sem deixar vestígio”, disse Kriechbaum, é difícil
investigar as causas, porque “a maioria das abelhas não morre na
colméia”. Há muitas doenças que podem fazer as abelhas perderem seu
senso de orientação, de forma que não podem encontrar seu caminho de
volta às suas colméias.

Manfred Hederer, o presidente da Associação Alemã de Apicultores,
quase que simultaneamente informou uma queda de 25% nas populações
de abelhas por toda a Alemanha. Em casos isolados, disse Hederer,
declínios de até 80% foram informados. Ele especula que “alguma
toxina em particular, algum agente do qual não estamos
familiarizados”, está matando as abelhas.

Até o momento, os políticos têm demonstrado pouca preocupação diante
de tais alertas e da situação difícil dos apicultores. Apesar de
estes terem recebido uma chance de expor seu caso -por exemplo, às
vésperas da aprovação pelo Gabinete alemão do documento de política
de engenharia genética de autoria do ministro da Agricultura, Horst
Seehofer, em fevereiro- suas queixas ainda permanecem em grande
parte ignoradas.

Mesmo quando os apicultores recorrem à Justiça, como fizeram
recentemente em um esforço conjunto com a sucursal alemã da
organização de agricultura orgânica Demeter International e outros
grupos contrários ao uso de plantações de milho geneticamente
modificado, eles só podem sonhar com o tipo de atenção da mídia que
grupos ambientalistas como o Greenpeace atraem com seus protestos em
locais de teste.

Mas isto poderá mudar em breve. Desde novembro passado, os Estados
Unidos estão vendo um declínio das populações de abelhas tão
drástico que ofusca todas as ocorrências anteriores de mortalidade
em massa. Os apicultores na Costa Leste dos Estados Unidos se
queixam de terem perdido mais de 70% de suas colônias desde o final
do ano passado, enquanto a Costa Oeste vê um declínio de até 60%.

Em um artigo em sua seção de negócios no final de fevereiro, o “New
York Times” calculou os prejuízos que a agricultura americana
sofreria em caso de dizimação das abelhas. Especialistas da
Universidade de Cornell, no interior de Nova York, estimaram o valor
que as abelhas geram -polinizando plantas responsáveis por frutas e
legumes, amendoeiras e trevos que alimentam animais- em mais de US$
14 bilhões.

Os cientistas chamam o fenômeno misterioso de “Colony Collapse
Disorder” (CCD, desordem de colapso da colônia) e ele está se
transformando rapidamente em uma espécie de catástrofe nacional.
Várias universidades e agências do governo formaram um “Grupo de
Trabalho para CCD” para procurar as causas da calamidade, mas até o
momento continuam de mãos vazias. Mas, como Dennis van Engelsdorp,
um apicultor do Departamento de Agricultura da Pensilvânia, eles já
estão se referindo ao problema como uma potencial “Aids do setor de
apicultura”.

Uma coisa é certa: milhões de abelhas simplesmente desapareceram. Na
maioria dos casos, tudo o que resta nas colméias são proles
condenadas. Mas as abelhas mortas não são encontradas - nem nas
colméias e nem em qualquer lugar próximo delas. Diana Cox-Foster, um
membro do Grupo de Trabalho para CCD, disse ao “The Independent” que
os pesquisadores estão “extremamente alarmados”, acrescentando que a
crise “tem o potencial de devastar o setor de apicultura americano”.
É particularmente preocupante, disse ela, o fato da morte das
abelhas ser acompanhada por um conjunto de sintomas “que não parece
se enquadrar em nada na literatura”.

Em muitos casos, os cientistas encontraram evidência de quase todos
os vírus de abelha conhecidos nas poucas abelhas sobreviventes
encontradas nas colméias, após a maioria ter desaparecido. Algumas
apresentavam cinco ou seis infecções ao mesmo tempo e estavam
infestadas de fungos - um sinal, disseram especialistas, de que o
sistema imunológico dos insetos pode ter entrado em colapso.

Os cientistas também estão surpresos com o fato de abelhas e outros
insetos geralmente deixarem as colméias abandonadas intactas.
Populações próximas de abelhas ou parasitas normalmente atacariam os
depósitos de mel e pólen das colônias que morreram por outros
motivos, como um frio excessivo no inverno. “Isto sugere que há algo
tóxico na própria colônia que os repele”, disse Cox-Foster.

Walter Haefeker, o diretor da associação alemã de apicultura,
especula que “além de vários outros fatores”, o fato de plantas
geneticamente modificadas, resistentes a insetos, atualmente serem
usadas em 40% das plantações de milho americanas pode ter um papel.
O número é muito menor na Alemanha -apenas 0,06%- e a maioria se
encontra nos Estados do leste, de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e
Brandemburgo. Haefeker recentemente enviou a um pesquisador do Grupo
de Trabalho para CCD alguns dados de um estudo de abelhas que ele há
muito sente que mostra uma possível conexão entre a engenharia
genética e a doença nas abelhas.

O estudo em questão é um pequeno projeto de pesquisa realizado na
Universidade de Jena, de 2001 a 2004. Os pesquisadores examinaram os
efeitos do pólen de uma variante geneticamente modificada de milho,
chamada “milho Bt”, sobre as abelhas. Um gene de uma bactéria do
solo foi inserido no milho, que permitiu à planta produzir um agente
que é tóxico a pragas de insetos. O estudo concluiu que não havia
evidência de “efeito tóxico do milho Bt em populações saudáveis de
abelhas”. Mas quando, por acaso, as abelhas usadas nas experiências
foram infestadas por um parasita, algo estranho aconteceu. Segundo o
estudo da Jena, “um declínio significativamente forte no número de
abelhas” ocorreu entre os insetos que se alimentaram de uma ração
altamente concentrada de Bt.

Segundo Hans-Hinrich Kaatz, um professor da Universidade de Halle,
no oeste da Alemanha, e diretor do estudo, a toxina bacteriana no
milho geneticamente modificado pode ter “alterado a superfície dos
intestinos das abelhas, o suficiente para enfraquecê-las e permitir
a entrada dos parasitas - ou talvez tenha sido o contrário. Nós não
sabemos”.

É claro, a concentração da toxina era dez vezes superior nas
experiências do que no pólen normal do milho Bt. Além disso, a ração
das abelhas foi ministrada ao longo de um período relativamente
longo de seis semanas. Kaatz preferia ter continuado estudando o
fenômeno, mas carecia dos recursos necessários. “Aqueles que têm o
dinheiro não estão interessados neste tipo de pesquisa”, disse o
professor, “e aqueles que estão interessados não tem o dinheiro”.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Jornal Folha de S. Paulo
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Globo demite editor de economia do Jornal Nacional

Marco Aurélio Mello, editor há quatro anos do principal jornal da emissora, foi demitido por seu trabalho “não ser mais compatível” com a empresa. Em outubro, ele foi um dos jornalistas que se recusou a subscrever o abaixo-assinado em defesa da cobertura da Globo das eleições presidenciais.

Bia Barbosa – Carta Maior

SÃO PAULO – A Rede Globo demitiu, nesta sexta-feira (23), o jornalista Marco Aurélio Mello. Há quatro anos editor de economia do Jornal Nacional, Mello está há mais de 12 anos na empresa, nove em São Paulo. Antes de integrar a equipe do Jornal Nacional, foi, por três anos, editor de política do Jornal da Globo. Segundo informações de funcionários da empresa, o editor recebeu a notícia da sua demissão do chefe de jornalismo em São Paulo, Luiz Cláudio Latgé. Ele teria dito a Mello que, após uma avaliação interna de seu trabalho, a conclusão era a de que ele não era mais compatível com a empresa. Latgé teria chegado a dizer que foi feito um esforço para que Mello fosse aproveitado em outros jornais da Globo, mas que as equipes já estariam fechadas.

Em outubro do ano passado, Marco Aurélio Mello foi um dos jornalistas que não subscreveu o abaixo-assinado divulgado por funcionários da Globo em defesa da cobertura feita pela empresa da campanha presidencial (leia matéria “População critica cobertura; Globo faz abaixo-assinado pra se defender”).

Ele chegou a assinar o documento, mas depois, ao perceber que o texto seria usado politicamente, pediu a Mariano Boni, da chefia de redação do Jornal da Globo, pra retirar seu nome. Na ocasião, outras quatro pessoas fizeram o mesmo pedido. Boni teria dito “quem não estiver satisfeito com a cobertura da Globo que pegue o chapéu e vá para a Record”.

“Não tenho dúvidas de que ele ficou com essa marca lá dentro”, disse um jornalista à Carta Maior. Logo depois das eleições, Marco Aurélio Mello foi deslocado para a equipe do Bom Dia Brasil. Depois que voltou das férias tiradas no final do ano, retornou ao Jornal Nacional e foi demitido um mês depois.

Colegas contam que não houve nenhum erro cometido pelo editor neste período. A tentativa de desqualificação do trabalho de um jornalista antes de sua demissão, no entanto, parece ser prática da emissora. Em entrevista concedida à revista Caros Amigos no ano passado, o jornalista Franklin Martins descreveu assim o momento em que ficou sabendo de sua demissão:

“Ó, Franklin, nós fi zemos uma pesquisa qualitativa muito grande, vários grupos aqui, todos os jornais, todos os telejornais, todos os âncoras, os comentaristas e tivemos uma surpresa: a sua imagem diante do telespectador é fraca”. Eu olhei: “Como é que é?” “É, sua imagem é fraca.” […] me estenderam um papelzinho que tinha uma foto minha e cinco tópicos do que a qualitativa tinha dito a meu respeito. A primeira era assim: “Alguns entrevistados não souberam dizer quem era”. A outra dizia: “Fala sobre as coisas da política, as coisas de Brasília”. Terceiro: “Dá menos opinião e mais informação” – o que considero um extraordinário reconhecimento do que eu quero fazer como profi ssional. Quarto: “Faz comentários muito equilibrados” – a mesma coisa. E eu digo: “Bom, e aí?” “E aí nós pensamos melhor, eu pensei melhor, e decidi não renovar o seu contrato.” Eu digo: “Espera aí, conta outra!” “Não, não, é isso.” “Ó, fulano (pede que não coloquemos o nome), eu saí de férias você dizendo que minha posição é consolidada; agora você diz que saiu numa pesquisa uma coisa assim, todo mundo vai achar evidentemente que tem alguma coisa a ver com o Diogo Mainardi. Tem alguma coisa a ver com isso?” “Eu sou peremptório, não tem nada a ver com isso.” “Mas todo mundo vai achar que tem, e aí?” “Não, não.” Aí eu olhei: “Então não há o que discutir, mas é o seguinte: tenho o Fatos e Versões pra gravar amanhã, como é que faz?” “Não, você não precisa gravar mais nada na TV Globo.” “Está vendo, é alguma coisa diferente de a minha imagem estar fraca, porque, se minha imagem estivesse fraca, talvez você tivesse dito: ‘Você não quer ficar na Globo News, fazer alguma coisa?’ Não, alguma coisa aconteceu que eu não sei o que é e você não quer me dizer, e acho que devia me dizer.” “Não, não.” “Então está bom.”

“Cabeças vão rolar”
O caso de Marco Aurélio Mello não é o primeiro nem deve ser o último. No dia 19 de dezembro, o repórter Rodrigo Vianna, que havia feito críticas internas à cobertura da Globo das eleições presidenciais, foi informado de que não teria seu contrato de trabalho renovado, depois de cerca de doze anos de casa. Antes da notícia, Vianna foi afastado da cobertura de política e destacado para atuar nos jornais locais (leia matéria “Repórter da Globo denuncia parcialidade na cobertura das eleições 2006”).

O mesmo está acontecendo com outros profissionais. Repórteres e editores foram deslocados para funções inferiores ou para jornais de menor prestígio. Outros sumiram do ar sem que seu destino seja conhecido. A imensa maioria deles se recusou a participar do abaixo-assinado do final do ano. Na redação, o clima é o de que novas cabeças vão rolar.

“É claro que eles mapearam as pessoas”, contou um jornalista da Globo.

Procurado pela reportagem da Carta Maior, Marco Aurélio Mello preferiu não dar declarações sobre o assunto. A Central Globo de Comunicação informou que a demissão do editor se deve a mudanças operacionais e remanejamento interno da equipe.

Carta Maior
http://agenciacartamaior.uol.com.br/

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