Arquivo de Maio de 2007

A paz não virá

O intelectual palestino diz que o plano de Bush para o Oriente Médio está fadado ao fracasso e que é um erro enxergar os árabes como selvagens e atrasados

Carlos Graieb
25 de junho de 2003

Edward Said é o único intelectual palestino de renome mundial. Passou, no entanto, a maior parte da vida distante de seu país de origem. Nascido em Jerusalém, em 1935, mudou-se para os Estados Unidos em 1951 e vive lá até hoje. Ensina literatura comparada na Universidade Colúmbia, em Nova York, e mantém uma coluna de crítica musical no jornal The Nation. Um de seus livros, Orientalismo, lançado em 1978, marcou época no campo dos estudos culturais. Nessa obra, ele defende a tese de que, sob as representações do Oriente formuladas por ocidentais, se esconde o desejo de criar uma imagem discriminatória e autoritária do “outro”, do “estranho”. Said é também um ativista profundamente enredado na discussão do conflito entre israelenses e palestinos. Até o fim dos anos 80, ele foi próximo do líder palestino Yasser Arafat. Na última década, assumiu uma posição de total independência crítica. Duas coletâneas recém-lançadas no Brasil oferecem um panorama de seu pensamento: Cultura e Política (Boitempo) e Reflexões sobre o Exílio (Companhia das Letras). Há doze anos, Said luta contra um tipo raro de leucemia. “A doença despertou em mim o sentimento de que a vida é precária, e me fez agir com mais urgência e intensidade”, disse ele em entrevista a VEJA, de Nova York.

Veja – O plano de paz firmado há três semanas entre as lideranças palestina e israelense o deixou otimista?
Said – Não, nem um pouco. A única fonte de otimismo, a meu ver, continua sendo a coragem dos palestinos para resistir. Foi por causa da Intifada e porque os palestinos se recusaram a capitular diante dos israelenses que chegamos à mesa de negociação – e não apesar de tudo isso, como alguns insistem em dizer. O povo palestino vai continuar se opondo aos assentamentos ilegais, ao exército de ocupação, aos esforços políticos para pôr um ponto final em sua aspiração legítima de ter um Estado. A sociedade palestina vai subsistir, apesar de todos os esforços que têm sido feitos para sufocá-la.

Veja – Não há futuro, então, para o plano de paz da maneira como ele foi traçado?
Said – Esse plano não aborda os problemas e as reivindicações reais do povo palestino. Estamos falando de uma nação que foi destruída mais de cinqüenta anos atrás. Sua população foi privada de suas propriedades, 70% dela ficou desabrigada. Ainda hoje, 4 milhões de palestinos vivem refugiados no Oriente Médio e em outras regiões do mundo. Desde 1948 a ONU reafirma a ilegalidade dessa situação e diz que essas pessoas deveriam ser indenizadas ou repatriadas. O plano de paz, no entanto, não toca nesse ponto. O plano também não diz nada sobre a ocupação militar que começou em 1967. Estamos falando da mais longa ocupação militar da história moderna. Milhares de casas foram destruídas e, em seu lugar, surgiram quase 2 000 assentamentos israelenses habitados por cerca de 200 000 colonos. A seção leste de Jerusalém foi indevidamente anexada por Israel, que, além disso, nos últimos dois anos e meio, manteve os 3 milhões de habitantes da Faixa de Gaza e da Cisjordânia sob toque de recolher e restrições de direitos humilhantes. Nada disso é mencionado pelo plano de paz. E tampouco a questão das fronteiras de um futuro Estado palestino é abordada com clareza. Não há menção às fronteiras que existiam antes de 1967, muito menos à idéia de restabelecê-las. Ou seja, Israel se propõe a reconhecer um Estado palestino – mas provisório e sem território estabelecido. Na essência, tudo que o plano diz é que os palestinos devem abrir mão da resistência, parar de lutar. Em contrapartida, Israel eventualmente levantaria algumas das restrições que impõe ao povo palestino – mas isso é dito sem maiores especificações. O plano não prevê mecanismos efetivos de implementação de suas fases. Assim como ocorreu nas negociações de Oslo, em 1993, as decisões ficariam a cargo dos israelenses. Em resumo, estamos falando de um plano que não leva a lugar algum.

Veja – Qual seria a alternativa?
Said – O único ponto de partida realista consiste em fortalecer as instituições democráticas palestinas e israelenses para que novas lideranças surjam. Não sei quais seriam os nomes israelenses – do lado deles, meu conhecimento se limita a gente da universidade e do meio artístico. Mas entre os palestinos há diversas figuras políticas de talento e força popular que ainda não assumiram papéis que façam plena justiça a suas potencialidades.

Veja – Durante muito tempo o senhor colaborou com Arafat. Quando se desiludiu com ele?
Said – Arafat cometeu uma série de erros políticos muito graves. O pior de todos foi apoiar o Iraque quando Saddam Hussein invadiu o Kuwait. Para manter-se no poder depois daquilo, ele assumiu uma série de compromissos desastrosos com os Estados Unidos e com Israel, culminando no acordo de Oslo, em 1993 – na minha opinião, uma vergonhosa capitulação da parte dele. Nesse momento, Arafat já havia deixado de pensar no povo que representava e preocupava-se apenas com sua própria sobrevivência política. No começo dos anos 90, Arafat devia ter simplesmente saído de cena. Em vez disso, mentiu para o povo e para si próprio, dizendo que havia finalmente lançado as bases para o surgimento de um Estado palestino independente. Dali em diante as coisas só pioraram. Ele criou um regime corrupto e brutal na Cisjordânia e desqualificou-se totalmente como líder. Arafat está acabado.

Veja – O novo primeiro-ministro palestino, Abu Mazen, foi o nome certo para substituir Arafat nas negociações de paz?
Said – De maneira nenhuma. Ele é um pobre clone de Arafat. Conheço-o desde os anos 70, ainda que não de maneira muito próxima. Estamos falando de um burocrata eficiente, mas desprovido de qualquer apoio popular significativo. Ele depende de Arafat para agir, digam o que disserem em sentido contrário. Abu Mazen não é um líder, ele é um eterno número dois. Mais importante que isso, ele não tem espírito combativo. Desde Oslo, tem se mostrado muito ansioso para fazer concessões aos Estados Unidos e a Israel. Capitulou em tudo que poderia capitular e caminha numa estrada sem saída. Como muita gente que se educou na mentalidade colonial, ele acredita que a salvação está nas mãos do homem branco ocidental. Mas não é lendo discursos escritos por um assistente de Donald Rumsfeld que vamos chegar lá. Bush não é a solução de nossos problemas – e muito menos Ariel Sharon.

Veja – Abu Mazen tem força para conter as organizações terroristas sediadas na Palestina, como pedem os acordos de paz?
Said – Abu Mazen tem força para pouca coisa. Dito isso, sempre hesito muito em discutir a questão do terrorismo, porque o tema é sempre abordado num vácuo de referências históricas e políticas. Os palestinos, repito, foram privados de sua terra há mais de cinqüenta anos, foram submetidos a uma pesada ocupação militar, e viram seu cotidiano transformado num inferno. Já houve estados de sítio decretados por Israel que duraram 89 dias. Nesses períodos, as pessoas só podiam sair de casa umas poucas horas por dia, para conseguir água e comida. Mesmo em situação “normal” um palestino não pode mover-se livremente em sua própria cidade. Ele é humilhado em barreiras, quando não é proibido de trabalhar e prover seu sustento. Some-se a isso o fato de que Israel emprega táticas que podem ser consideradas de terrorismo de Estado.

Veja – O senhor está dizendo que não existem terroristas na Palestina?
Said – Estou dizendo que sou contra todos os tipos de terrorismo, e não somente contra aqueles de que os americanos não gostam. Para conversar a sério, temos de reconhecer que Ariel Sharon é um terrorista que mata mais gente do que qualquer garoto de 18 anos que se explode com uma bomba. Estou dizendo, também, que não podemos confundir causas e conseqüências. Se os jovens palestinos acabam nas garras de ideologias políticas e religiosas que professam a violência, é porque antes disso se afundaram no niilismo e no desespero, porque tiveram de atirar pedras contra tanques. Eu odeio os atentados suicidas. Eles são contra a vida, e é disso, de vida, que os rapazes que as usam precisam na verdade.

Veja – O senhor se opõe sistematicamente à mediação dos Estados Unidos na questão Israel-Palestina. Por quê?
Said – Os EUA são um império e agem, como qualquer império, buscando consolidar e ampliar seu poder. Não é uma questão de decisões individuais, não se trata dos desejos de um único presidente, seja ele Bush, Carter ou Roosevelt. Apesar das diferenças de estilo e abordagem, todos agem essencialmente da mesma maneira quando se trata do Oriente Médio. Pois essa é uma região de enorme importância estratégica – talvez a região mais importante do mundo nesse sentido. Há 250 anos a luta pelo seu controle é contínua. O cinturão que vai do Golfo Pérsico ao norte do Mar Cáspio é vital para o planejamento americano – ou de qualquer país de pretensões imperiais. Assim, tudo que tenha a aparência de um movimento por independência e autodeterminação nessa região contará com a oposição deles. O aliado privilegiado dos americanos na região é Israel. Eles encaram essa nação como um posto avançado do Ocidente. É tolice esperar que um plano de paz que responda aos interesses palestinos saia da cabeça de um político americano.

Veja – O senhor costuma comparar os palestinos e os negros sul-africanos. Diz que estes tiveram sucesso em sua luta contra o apartheid porque conseguiram capturar a imaginação do mundo em favor de sua causa. Por que os palestinos falharam nessa tarefa?
Said – Para começar, porque nunca tivemos um porta-voz com o carisma e a credibilidade de um Nelson Mandela, e isso faz falta. Em segundo lugar, as dificuldades que enfrentamos são muito maiores que as dos libertadores da África do Sul. Eles se opunham a colonos brancos cujo apoio fora de seu próprio território nunca foi significativo. Nosso embate, por outro lado, é com os judeus da Europa, um povo trágico que chegou ao Oriente Médio carregando o velho fardo do anti-semitismo e um crédito moral em relação ao Ocidente, empenhado em compensá-los depois da barbárie que foi o holocausto. Nós somos vítimas das vítimas, e essa é uma posição muito difícil. Um terceiro ponto é que, ao contrário dos sul-africanos, que nunca foram traídos por seus vizinhos, nós nunca tivemos aliados reais em nossa região. Os outros árabes nunca mantiveram sua lealdade até o fim. Finalmente, somos incapazes de lidar com os Estados Unidos com qualquer sutileza. Agimos sempre de maneira ignorante. Basta dizer que Abu Mazen e Arafat falam mal o inglês. Comunicar-se de maneira adequada é de extrema importância.

Veja – Uma Palestina independente interessa aos países árabes vizinhos?
Said – Para responder a essa pergunta é preciso distinguir entre os líderes e a população em geral. As lideranças árabes nada mais têm feito do que usar a questão palestina de maneira oportunista, como uma bandeira conveniente. No fundo, vêem uma Palestina independente como uma ameaça à estabilidade de seus regimes. Se fazem isso, contudo, é porque a causa tem força. A luta palestina tem a ver com democracia e é um símbolo poderoso. Os palestinos têm sido uma gente obcecada por eleições e parlamentos, por criar instituições representativas que consigam se manter sob as condições mais precárias. Lembre-se: apesar de tudo, Arafat ainda é um líder eleito. O debate sobre a Autoridade Nacional Palestina e sobre o poder de Arafat está sempre aberto, até as crianças participam dele. Esse debate galvaniza os árabes e tem educado as pessoas sobre as realidades da democracia e da tirania.

Veja – Até que ponto as instituições da sociedade civil estão organizadas no mundo árabe?
Said – Há muita ignorância e distorção sobre o mundo árabe. Dizem, por exemplo, que os árabes não têm a mais vaga idéia do que seja democracia, que eles abraçam uma cultura da violência, que desistiram de manifestar-se sob regimes que os controlam ferreamente. Tudo isso é um acúmulo de tolices. Comecemos por uma das instituições-chave da sociedade civil, a imprensa. Pois eu diria que em alguns sentidos as idéias circulam de maneira mais ampla no Oriente Médio, inclusive em países com censura forte como o Egito e a Jordânia, do que nos Estados Unidos. Você pode, se quiser, comprar um jornal do Partido Comunista numa esquina de Amã ou no Cairo – e isso é absolutamente impossível nos Estados Unidos. Todo tipo de opinião é transmitido por satélite. Veja o caso da rede de televisão Al Jazira. Ali falam liberais e maoístas, islâmicos e antiislâmicos, gente de todas as frentes. Isso não acontece na CNN ou na Fox News. Em segundo lugar, os regimes linha-dura se mantêm num estado de tensão constante com movimentos de direitos civis, movimentos femininos, ONGs e instituições representativas dos mais diversos tipos. A propaganda faz os árabes parecerem todos selvagens e atrasados, mas isso é mentira. Compor uma representação mais refinada do que seja o mundo árabe é uma tarefa urgente para os ocidentais.

Veja – O senhor não gosta da expressão “choque de civilizações”. Por quê?
Said – Essa expressão foi posta para circular pelo cientista político americano Samuel Huntington, apoiando-se num artigo de Bernard Lewis, especialista no Oriente Médio famoso por seu menosprezo pelas pessoas que lá vivem. São inúmeros os seus problemas. Para começar, ela trata as civilizações como se fossem entidades fechadas, lacradas, alheias a qualquer tipo de troca. E isso é tudo o que as civilizações não são, pois elas se forjam na inter-relação e na fertilização mútua. Em segundo lugar, a imagem que Huntington faz das civilizações encobre o fato de que elas não são internamente monolíticas – que também estão crivadas de contradições, de correntes e contracorrentes que as animam. Por fim, a idéia de choque de civilizações tem um aspecto caricatural muito nocivo, como se enormes entidades chamadas “Ocidente” e “Islã” estivessem num ringue, lutando para ver qual é a melhor. Essa imagem das civilizações exibindo seus músculos uma para a outra como Brutus e Popeye no desenho animado é de uma infantilidade atroz.

Revista Veja

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Grande sertão

Há 55 anos, o escritor João Guimarães Rosa fazia uma viagem pelo interior de Minas Gerais. Além de lembranças, trouxe personagens

João Correia Filho

Algumas viagens entram para a história. Outras entram também para a literatura. Foi o que aconteceu com o escritor João Guimarães Rosa, quando, em maio de 1952, há exatos 55 anos, se lançou numa empreitada pelo sertão mineiro que marcaria sua vida e sua obra.

Acompanhado de oito vaqueiros e levando 300 cabeças de gado, percorreu em dez dias os 240 quilômetros que separam Três Marias e Araçaí, na região central de Minas Gerais, sua terra natal. Trazia amarrada ao pescoço uma caderneta, onde anotava tudo que via e ouvia - as conversas com os vaqueiros, as sensações, as dificuldades e tudo que brotasse daquele mundo que ele reencontrava depois de anos vivendo como diplomata no exterior.

As cadernetas, hoje parte do acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, foram reunidas em dois diários, que Rosa chamou de A Boiada 1 e A Boiada 2. As anotações seriam utilizadas como elementos de suas próximas obras - entre elas, Corpo de Baile (lançado em 1956), Tutaméia (de 1967) e Grande Sertão: Veredas (1956).

No dia 16 de maio, o escritor chegava à fazenda Sirga, de seu primo Francisco Moreira, em Três Marias. Três dias mais tarde, a boiada partiria para a viagem, fazendo seu pouso em várias fazendas e vilarejos da região.

Rosa fez questão de acompanhar o dia-a-dia dos vaqueiros em tudo, comendo da mesma comida - carne-seca, toucinho, feijão e arroz com pequi - e dormindo nos mesmos locais. Em Barreiro do Mato, por exemplo, teria dormido dentro de uma grande forma de rapadura, um enorme tacho côncavo, e em vários outros locais passou a noite em colchões de palha de milho, comuns naquela época.

Já próximo a Cordisburgo, cidade em que nasceu e etapa final da viagem, a comitiva teve um encontro com uma equipe da revista O Cruzeiro, que cobria a viagem do já famoso autor de Sagarana, lançado em 1946.

As obras de Rosa possuem uma infinidade de referências diretas e indiretas à viagem de 1952. A principal delas está em Corpo de Baile, mais especificamente na novela “Uma Estória de Amor”, inspirada na vida de Manuel Nardy, um dos oito integrantes da comitiva. Ele aparece transfigurado no personagem de Manuel Jesus Rodrigues, o Manuelzão. As semelhanças vão além do nome: estão em acontecimentos da vida do vaqueiro.

Outro vaqueiro que se destacou durante a viagem foi João Henrique Ribeiro, o Zito. Embora não tenha ficado tão famoso quanto Manuel, era Zito quem seguia o tempo todo ao lado do escritor.

Assumiu as funções de guia e de cozinheiro da tropa e tirava quase todas as dúvidas de Guimarães Rosa. Embora não tenha resultado na criação de um personagem, a relação entre Zito e o escritor também teve seu destaque na obra.

A perspicácia do vaqueiro chamou tanto a atenção de Rosa que, anos mais tarde, ele o homenagearia em Tutaméia, lançado no ano da morte do escritor. Em um dos quatro prefácios, Guimarães Rosa transcreve trechos de conversas com o vaqueiro e elogia sua inteligência e criatividade.

Aventuras na História
http://historia.abril.com.br/

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TEMPO É ASSASSÍNIO

Robert Kurz

Que o tempo é dinheiro e nada mais, já o capitalismo sabia antes de Karl Marx. O tempo linear abstracto da economia empresarial corresponde ao “trabalho abstracto”, ao dispêndio de “nervo, músculo e cérebro” que há que optimizar para o fim em si da valorização do capital monetário – com indiferença face ao conteúdo e face à saúde dos trabalhadores. A máquina social capitalista faz também do ser humano uma máquina. Já nos tempos do milagre económico foi observado que o ritmo do tempo de trabalho apodera-se até do “tempo livre”. A corrida geral contra o tempo tornou-se precisamente o signo da sociedade pós-moderna da aceleração. O filósofo Paul Virilio falou em “pausa frenética”. No Japão deu que falar o “Karoshi”, a morte repentina em serviço no sagrado local de trabalho.

A crise mundial da terceira revolução industrial levou a loucura do trabalho ao paroxismo. Quanto mais o desemprego e o subemprego alastram, tanto mais descaradamente se espreme até ao tutano os orgulhosos ocupantes de postos de trabalho. Seja nas fábricas dos conglomerados ou entre o pessoal das empresas de serviços, seja nos privatizados correios e caminhos de ferro ou mesmo nos templos do capital financeiro: em toda parte uma só pessoa tem de desempenhar as tarefas que antes eram de três ou quatro. Nos EUA e na Argentina veio a público que os supermercados distribuiram fraldas às empregadas das caixas, para que elas não “roubassem tempo” à economia da empresa com as suas necessidades fisiológicas. A ocupação total vem a par da humilhação, tudo em nome das necessidades da rentabilidade.

Mas de maneira nenhuma a lufa-lufa do trabalho atinge apenas as camadas inferiores das cadeias globais de criação de valor. Uma vez que a máquina de combusão de seres humanos não se alimenta só de “músculo”, mas também de “nervo e cérebro”, também não são poupados os “oficiais e sub-oficiais” da muito invocada sociedade do conhecimento. Quando, no início de 2007, um jovem advogado financeiro da renomeada sociedade de advogados “Freshfields Bruckhaus” se lançou do sétimo andar do museu londrino Tate Modern, ouviu-se lamentar: “A City devora os seus filhos”. Apesar da perspectiva de um salário anual de 1 milhão de libras para breve, o ambicioso elemento da elite não aguentou mais as jornadas de 16 horas, sete dias por semana, a que o imperativo “up or out” obrigava. Ao mesmo tempo foi conhecida uma série de suicídios no centro de tecnologia da Renault. Um director de informática lançou-se para a morte, um engenheiro altamente qualificado afogou-se num lago próximo, um outro enforcou-se na sua residência. Como pano de fundo está o programa de saneamento “Renault Contrat 2009″, o qual acaba em psicoterror entre os trabalhadores de topo, com críticas negativas na presença dos colegas.

Tais acontecimentos, abordados mediaticamente com completa impotência, são apenas a ponta do iceberg. Tempo é dinheiro, ou seja, assassínio. Possivelmente ainda vamos ver empresários modelos a pôr fraldas de manhã cedo, para não desperdiçar, com desnecessárias idas à casa de banho, o precioso tempo do seu cérebro. Fraldas descartáveis para todos e “Karoshi” para todos, então talvez se consiga mais facilmente aguentar o estremo escachar dos rendimentos e talvez a “retoma” possa prosseguir. É preciso aceitar que entretanto as panes e as catástrofes se acumulem, pois, de todo o modo, o que conta no capitalismo virtual não é a qualidade do conteúdo. Para uma cultura de combustão universal impõe-se também a obrigação de uma corajosa autocombustão.

Original ZEIT IST MORD in www.exit-online.org. Publicado em Neues Deutschland, 05.04.2007

http://obeco.planetaclix.pt/

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Reformas republicanas e modernizadoras

Uma reforma mais radical e abrangente, que abranja o conjunto do Poder e do Sistema Judiciário brasileiro, adquire enorme urgência diante da revelação do envolvimento de quadros do Judiciário e do Ministério Público com o crime organizado e com a máfia do jogo.

Jeferson Miola

Em duas áreas em que o Estado tem monopólio de atuação vêm se processando reformas de caráter republicano e modernizador. São reformas que se concretizam sem estardalhaços, sem traumas e sobrevivendo aos habituais combates odiosos da oposição contra o governo. E que têm prescindido de mudanças no arcabouço jurídico-constitucional do país, pelo menos no estágio em que se encontram. A forma de condução e a compreensão estratégica de longo prazo dos seus operadores são características que têm assegurado êxito na implementação dessas reformas, imprescindíveis para a nação e para a sociedade brasileira. É o que vem acontecendo em relação à Política Externa e aos assuntos da Justiça, vista sob a jurisdição do Poder Executivo.

A Política Externa brasileira durante o governo Lula girou cento e oitenta graus em relação ao padrão de submissão e alinhamento anterior. E consegue produzir, com isso, resultados favoráveis na diplomacia, na economia e na inserção internacional do Brasil. O Itamaraty soube posicionar o país de maneira altiva e exemplar no concerto das nações, como também reforçou a postura de independência na sustentação de interesses e posições brasileiras no exterior. Esta política restituiu a plena soberania do Brasil e inaugurou uma nova fase da Política Externa enquanto vetor para a construção do desenvolvimento interno autônomo, sustentável e, por isso, instrumento poderoso para a diminuição das imensas disparidades regionais, econômicas e sociais.

Por outro lado, a reforma na Justiça que está em andamento, delimitada no espaço de poder institucional do Ministério da Justiça, vem conseguindo alterar profundamente a cultura e o modo de funcionamento do Estado brasileiro, outrora prisioneiro das oligarquias e setores dominantes.

Concebida e iniciada por Márcio Tomáz Bastos e continuada com a mesma visão pelo ministro Tarso Genro, a reforma da Justiça brasileira avança em questões importantes como a valorização e profissionalização dos agentes públicos, no aperfeiçoamento dos serviços e ações operacionais e na realização de maciços investimentos em tecnologia, especialização, informações e inteligência.

Atualmente a Polícia Federal e as demais instituições de combate ao crime possuem independência e autonomia para o enfrentamento à criminalidade – muito diferente da atuação no passado, quando eram instrumentalizadas para perseguir e atacar adversários de governos de plantão e proteger os representantes do poder. Não são impostos limites à investigação e à apuração de fatos e indícios, independentemente da posição social, política ou econômica das pessoas investigadas.

Apesar do anacronismo do Estado brasileiro em muitas áreas em que direitos civis ainda não foram concretizados, na Justiça se observam avanços importantes que modernizam o país, tornando crível a idéia de República entre nós. É perceptível, neste sentido, o esforço de qualificação das estruturas permanentes do Estado para a proteção da sociedade nos campos dos direitos econômicos, de consumo e de cidadania; para o combate à corrupção, lavagem de dinheiro e ao crime organizado; e em políticas de segurança pública.

Em tempos não muito distantes, seriam impensáveis as operações deflagradas pela Polícia Federal [bem articuladas institucionalmente com vários órgãos] como a Operação Navalha, descortinando os meandros do poder e os escaninhos da corrupção, mesmo que se deparando com o envolvimento de altos agentes públicos com o crime.

No país que deseduca o povo e que tolhe a esperança na justiça social em razão de privilégios, de impunidades, de favorecimentos e de vantagens, as mudanças realizadas na área da Justiça podem ser consideradas revolucionárias, e serão de valor transcendental para a sedimentação de um sentimento de justiça e de igualdade no Brasil.

Uma reforma mais radical e abrangente, que abranja o conjunto do Poder e do Sistema Judiciário brasileiro - que já era considerada inadiável -, adquire enorme urgência diante da revelação do envolvimento de quadros do Judiciário e do Ministério Público com o crime organizado e com a máfia do jogo. Não realizá-la significaria renunciar à idéia de que é possível o país se conciliar com a Justiça.

Jeferson Miola, integrante do Instituto de Debates, Estudos e Alternativas de Porto Alegre (Idea), foi coordenador-executivo do 5º Fórum Social Mundial.

Carta Maior
http://agenciacartamaior.uol.com.br/

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“Monsanto é o símbolo da destruição da agricultura”

01/02/2007

Vandana Shiva, fundadora de associação de defesa da biodiversidade, que denuncia as transnacionais que tutelam os agricultores do Terceiro Mundo. “Uma empresa como a Monsanto - que assina contratos com os agricultores e lhes impõe a compra de sementes geneticamente modificadas nefastas ao meio ambiente e às práticas agrícolas - que, para mim, são genocidas. A Monsanto, que fabricava gases mortais durante a guerra do Vietnã, reconverteu-se à agroquímica, mas é bom não se enganar”, diz Shiva.

A ativista também criou a associação Navdanya, que luta pela conservação da biodiversidade indiana, prêmio Nobel Alternativo em 1993 e dirige a Fundação de Pesquisa em Ciência, Tecnologia e Recursos Naturais.

“Os agricultores devem se organizar entre si, em bancos rurais, mobilizar as populações locais para não mais comprar essas sementes geneticamente modificadas. Há iniciativas na África, na Etiópia, por exemplo, onde as mulheres se reagruparam em defesa da sua terra. As mulheres são o futuro da agricultura, são elas que, desde sempre, fazem as famílias viver”, aponta como saída.

Ela é também autora de vários livros, dentro os quais se destaca Biopiratiaria. A pilhagem da natureza e do conhecimento (Vozes, 2001). Vandana Shiva concedeu uma entrevista, em Nairobi, ao jornal francês Libération, em janeiro, que foi traduzida pelo Cepat.

Quem você acusa quando denuncia a expansão das multinacionais na África e em outros lugares?

Uma empresa como a Monsanto - que assina contratos com os agricultores e lhes impõe a compra de sementes geneticamente modificadas nefastas ao meio ambiente e às práticas agrícolas - que, para mim, são genocidas. A Monsanto, que fabricava gases mortais durante a guerra do Vietnã, reconverteu-se à agroquímica, mas é bom não se enganar. As transnacionais são o símbolo da destruição da agricultura e da imposição de uma monocultura, com o apoio de fundações, tais como Bill Gates ou Rockfeller, portanto tidas como apoiadoras do desenvolvimento. O que lhes interessa é unicamente criar um mercado de sementes e tornar os agricultores totalmente dependentes de seus produtos. Repentinamente, os agricultores não podem mais fazer seus estoques de sementes, reutilizando-as no ano seguinte e são obrigados a comprar os fertilizantes. E de se endividar.

Quais são as conseqüências?

A biodiversidade e o ecossistema do continente africano estão em processo de destruição. Durante a colonização, a África teve que se curvar diante das exigências dos países europeus, que obrigaram os agricultores a cultivar o algodão em massa, por exemplo, e a abandonar as culturas de subsistência.

Hoje, é o modelo da revolução verte que prevalece. Em Penjab, região noroeste da Índia, 150 mil agricultores se suicidaram no espaço de 10 anos, porque seu campo não valia mais nada e porque não tinham mais do que viver, após terem abandonado sua cultura de subsistência que ao menos os tornava auto-suficientes e os alimentava! Quando se diz que no Sudão os cristãos lutam com os muçulmanos, é uma visão extremamente redutora que não toma em conta a luta pelos recursos naturais e pela terra. É quando não se tem mais terras, nem do que viver, que germinam as idéias extremistas e as guerras civis.

Quais são as soluções para os agricultores africanos que vieram para as mobilizações aqui no Fórum Social de Nairobi?

Os agricultores devem se organizar entre si, em bancos rurais, mobilizar as populações locais para não mais comprar essas sementes geneticamente modificadas. Há iniciativas na África, na Etiópia, por exemplo, onde as mulheres se reagruparam em defesa da sua terra. As mulheres são o futuro da agricultura, são elas que, desde sempre, fazem as famílias viver.

MST
http://www.mst.org.br/mst/index.html

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As seqüelas da política cambial

ALTAMIRO BORGES

Apesar de o presidente Lula ter afirmado em sua recente entrevista coletiva que não está preocupado com a queda do dólar e que manterá o cambio flutuante, crescem os temores no governo e na sociedade sobre os efeitos deletérios, imediatos e futuros, das políticas monetária e cambial adotadas pelo ortodoxo Banco Central. “[A queda do dólar] é boa para uns e ruim para outros”, desconversa Lula. Nas últimas semanas, a moeda estadunidense despencou para menos de R$ 2, a menor cotação desde 2001. No acumulado deste ano, ela já sofreu perdas de quase 9%, resultando numa supervalorização da moeda brasileira, o real.

De fato, aparentemente, a política cambial tem reflexos contraditórios, como insiste o presidente. Por um lado, a desvalorização do dólar faz, num primeiro momento, cair os preços de alguns produtos e serviços, como o dos eletroeletrônicos importados e das passagens aéreas, o que alivia o bolso dos consumidores – em especial, das camadas ricas e médias da sociedade. “As viagens para conhecer a Disneylândia, que foram esquecidas pela classe média por um tempo, voltaram a ficar em alta”, festeja o jornal Folha de S.Paulo. O “derretimento” do dólar também atrai o capital estrangeiro para o país, tanto que a Bolsa de Valores fechou com forte oscilação na semana passada, registrando novos recordes na sua pontuação.

“Os custos excedem as vantagens”

Por outro lado, porém, a valorização artificial do real prejudica as exportações brasileiras e afeta toda a cadeia produtiva. Setores industriais como dos têxteis, calçados e outros perdem competitividade no país e no exterior – o que, a curto prazo, pode aumentar a quebradeira das empresas e o índice de desemprego. Além disso, a atual política cambial serve ao capital financeiro especulativo, que migra para o Brasil em busca do lucro fácil proporcionado pelas mais altas taxas de juros do planeta. Pesando estes dois lados da “moeda”, fica a pergunta: a quem interessa esta política? O economista Paulo Nogueira Batista Jr., que hoje inclusive faz parte do governo, não vacila em afirmar que ela não serve aos interesses nacionais.

“Alguns consideram a queda do dólar inevitável ou bem-vinda. Ela refletiria a situação internacional e a melhoria dos ‘fundamentos’ da economia brasileira. Muitos lembram que o real forte ajuda a controlar a inflação… Esses argumentos têm alguma validade. Mas parece estar ficando cada vez mais claro que os custos da valorização excedem suas vantagens”. Entre outros efeitos negativos, ele pontua: “a valorização persistente e crescente do real tende a provocar a erosão gradual das contas externas”; “prejudica o nível de atividade, especialmente no setor industrial”; “deprime a competitividade das exportações e estimula a substituição da produção nacional por importações”; e “estimula a migração de investimento de empresas brasileiras para o exterior”. Em síntese, ele serve para exportar “produção, investimentos e empregos”.

“Um alerta ao Banco Central”

As seqüelas do cambio flutuante já se fizeram sentir no ano passado. Segundo estudos do Ministério do Trabalho, então sob comando de Luiz Marinho, o dólar barato afetou o mercado de trabalho, reduzindo a abertura de vagas. A criação de empregos com carteira assinada em 2006 foi menor do que em 2005 – 4,7% contra 5%. A valorização do real atrapalhou as vendas de produtos dentro e fora do país e reduziu a necessidade das empresas reforçarem a produção com mais contratações. “O nível de emprego poderia ter sido melhor se o juro tivesse caído mais e o câmbio estivesse num patamar que estimulasse exportações e inibisse importações”, criticou, na época, Luiz Marinho, amigo intimo do “tranqüilo” presidente Lula.

“Esse resultado é um alerta para a equipe econômica do governo, especialmente para o Banco Central. O câmbio prejudica a indústria nacional e está afetando a tomada de decisões do empresariado”, completou o ex-ministro. No mesmo período, em janeiro passado, a Confederação Nacional das Indústrias divulgou um estudo que corroborava as suas criticas. A pesquisa apurou que as fábricas já estavam se adaptando à queda do dólar, mas à custa da redução dos investimentos – principalmente os voltados à exportação, que já não despertavam tanto apetite do patronato. O estudo revelou que, para as grandes empresas, o preço do dólar é tido como o segundo maior problema para os seus negócios – depois dos “impostos”.

Ortodoxos ainda dão as cartas

O debate sobre a política cambial sempre gerou polêmicas no interior do governo Lula e, inclusive, já fez algumas vítimas. Recentemente, o Ministério da Fazenda demitiu o seu secretário de Política Econômica, Julio Sérgio Gomes de Almeida, que denunciou, numa entrevista ao O Estado de S.Paulo, que a queda do dólar está “dissolvendo as relações interindustriais e as relações de mercado” e provocando “a dispensa de 350 trabalhadores”. Pressionado pelo Banco Central, o ministro Guido Mantega, que nos bastidores até manifesta temores com a valorização do real, exonerou o seu auxiliar – em mais uma vitória do banqueiro Henrique Meireles. Há quase um “pacto do silêncio” no ministério para inibir críticas à política cambial.

O que predomina na equipe econômica do governo, apesar dos espaços conquistados pelos heterodoxos neste início de segundo mandato, ainda é a visão ortodoxa. O Banco Central é o bunker destes adoradores do “deus-mercado”. Para eles, juros e cambio devem ser regulados pela “mão invisível do mercado”, sem maiores intervenções do Estado. Como desvenda o economista Ricardo Carneiro, os neoliberais negam a “centralidade desses preços-chave na definição da trajetória de longo prazo da economia, em aspectos essenciais como o ritmo de crescimento e a distribuição da renda. Mais do que isto, diante de uma gestão ortodoxa da economia neste campo, as demais políticas terminam por assumir um caráter compensatório”.

Economia sob graves riscos

Em contraposição ao recente triunfalismo do governo, Ricardo Carneiro avalia que as políticas monetária e cambial trarão duras seqüelas. “As taxas de juros elevadas constituem, via de regra, um desestimulo ao investimento produtivo… Já a flutuação exacerbada da taxa de câmbio, produto da crescente liberalização e da abertura financeira, constitui um outro óbice. As experiências exitosas de desenvolvimento mostram a relevância de taxas de câmbio estáveis para definir estratégias consistentes de inserção na economia globalizada, pela sua importância na atração do investimento direto estrangeiro e na competitividade das exportações. Com a alta volatilidade da taxa de câmbio não há cálculo de longo prazo possível”.

No mesmo rumo das preocupações, Elias Jabbour também considera que o câmbio flexível compromete o futuro da economia brasileira. De forma irônica, debocha dos que festejam a queda do dólar. “Os arraiais do entreguismo – dentro e fora de governo – estão em festa. ‘Viva o real forte’. Mais parece um bacanal à custa da independência nacional”. Para ele, essa política agrava a desindustrialização e desnacionalização do país. Ele questiona até os efeitos positivos dos investimentos do PAC. “Quem serão os beneficiados, as cadeias produtivas nacionais ou internacionais? As encomendas de equipamentos serão feitas aonde? Os empregos gerados no Brasil serão restritos às atividades como da construção civil?”. Em virtude do atual câmbio, ele afirma que “o PAC pode significar uma grande janela de transferência monetária ao exterior”.

Estudioso da experiência econômica chinesa, Jabbour lembra que “a manutenção de uma taxa de câmbio desvalorizada foi certamente o fôlego que transformou, não somente as suas empresas, mas tais países em grandes agentes nos assuntos internacionais”. Além da desindustrialização e desnacionalização, o câmbio flutuante ainda geraria pesado ônus aos cofres públicos. “Há uma diuturna campanha contra a previdência pública por conta de um ‘prejuízo’ no ano passado na cifra de R$ 10 bilhões. Por outro lado, não é tratado como ‘prejuízo’ e sim como ‘operações de salvamento’ as constantes intervenções (em apenas um dia o BC comprou cerca de US$ 2 bilhões) no sentido de conter a queda do dólar. Impressionante!”, ironiza.

Um câmbio a serviço da nação

Diante destes e outros efeitos destrutivos, já pressentidos por vários setores da economia, os ortodoxos do Banco Central afirmam que não há alternativas. Mas isto não é uma fatalidade. Paulo Nogueira lembra de três medidas que poderiam evitar o desastre futuro. “A primeira providência teria que ser uma aceleração do ritmo de queda dos juros. A taxa de juro no Brasil continua fora dos padrões internacionais e contribui poderosamente para impulsionar a valorização do real”. A segunda seria “evitar as metas ambiciosas de inflação e até flexibilizar alguns aspectos do regime de metas”. E, numa proposta ainda mais arrojada, o novo integrante do Ministério da Fazenda defende que “sempre existe a possibilidade de erguer barreiras tributárias e de outra natureza contra a entrada de capitais especulativos ou de curto prazo”.

Para Elias Jabbour, a política cambial deve servir aos interesses nacionais e não ficar à mercê do mercado. “Nossa verdade cambial deve ser pautada pela adoção de um câmbio – nada neutro – com capacidade de promoção do desenvolvimento. Um câmbio que conduz ao mais completo emprego dos potenciais ociosas da nossa econômica. Um câmbio como instrumento de planejamento econômico e não como expressão da ação especulativa. Um câmbio que nos aproxime não dos custos visíveis e sim dos custos sociais”. Caso não vingue uma política ativa, soberana e planejada do Estado, o cambio continuará sendo forte entrave à aceleração do crescimento da economia e, provavelmente, ajudará a empacar o PAC.

Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro “As encruzilhadas do sindicalismo” (Editora Anita Garibaldi, 2ª edição).

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O Socialismo do Século XXI

Boaventura de Sousa Santos

O que de mais relevante está a acontecer a nível mundial, acontece à margem das teorias dominantes e, até, em contradição com elas. Há vinte anos, o pensamento político conservador declarou o fim da história, a chegada da paz perpétua dominada pelo desenvolvimento “normal” do capitalismo – em liberdade e para benefício de todos – finalmente liberto da concorrência do socialismo, lançado este irremediavelmente no lixo da história.

À revelia de todas estas previsões, houve, neste período, mais guerra que paz, as desigualdades sociais agravaram-se, a fome, as pandemias e a violência intensificaram-se, a China “desenvolveu-se” sem liberdade e mediante violações massivas dos direitos humanos e, finalmente, o socialismo voltou à agenda política de alguns países. Concentro-me neste último porque ele constitui um desafio tanto ao pensamento político conservador, como ao pensamento político progressista.

A ausência de alternativa ao capitalismo foi tão interiorizada por um como por outro. Daí que, no campo progressista, tenham dominado “terceiras vias”, buscando encontrar no capitalismo a solução dos problemas que o socialismo não soubera resolver.

Em 2005, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, colocou na agenda política o objectivo de construir o “socialismo do século XXI”. Desde então, dois outros governantes – tal como Chávez, democraticamente eleitos –, Evo Morales (Bolívia) e Rafael Correa (Equador), tomaram a mesma opção. Qual o significado deste aparente desmentido do fim da história? Qual o perfil da alternativa proposta ao capitalismo? Que potencialidades e riscos ela contém?

O socialismo reemerge porque o capitalismo neoliberal, não só não cumpriu as suas promessas, como tentou disfarçar esse facto com arrogância militar e cultural; porque a sua voracidade de recursos naturais o envolveu em guerras injustas e acabou por dar poder a alguns países que os detêm; porque Cuba – qualquer que seja a opinião a respeito do seu regime – continua a ser um exemplo de solidariedade internacional e de dignidade na resistência contra a superpotência; porque, desde 2001, o Fórum Social Mundial tem vindo a apontar para futuros pós-capitalistas, ainda que sem os definir; porque nesse processo ganharam força e visibilidade movimentos sociais, cujas lutas pela terra, pela água, pela soberania alimentar, pelo fim da dívida externa e das discriminações raciais e sexuais, pela identidade cultural e por uma sociedade justa e ecologicamente equilibrada parecem estar votadas ao fracasso no marco do capitalismo neoliberal.

O socialismo do séc. XXI, como o próprio nome indica, define-se, por enquanto, melhor pelo que não é do que pelo que é: não quer ser igual ao socialismo do séc. XX, cujos erros e fracassos não quer repetir. Não basta, porém, afirmar tal intenção. É preciso realizar um debate profundo sobre os erros e fracassos para que seja credível a vontade de evitá-los. Quando, em dezembro passado, o presidente Chávez anunciou o propósito de criar um partido socialista unificado a partir de diferentes partidos que apoiam o governo, o temor que tal gerou de, com isso, estar a propor um regime de partido único de tipo soviético, é bem demonstrativo de como estão vivas as memórias do passado recente.

Se tal desidentificação em relação ao socialismo do séc. XX for levada a cabo de maneira consequente, alguns dos seguintes traços da alternativa deverão emergir: um regime pacífico e democrático assente na complementaridade entre a democracia representativa e a democracia participativa; legitimidade da diversidade de opiniões, não havendo lugar para a figura sinistra do “inimigo do povo”; modo de produção menos assente na propriedade estatal dos meios de produção do que na associação de produtores; regime misto de propriedade onde coexistem a propriedade privada, estatal e colectiva (cooperativa); concorrência por um período prolongado entre a economia do egoísmo e a economia do altruísmo, digamos, entre Windows Microsoft e Linux; sistema que saiba competir com o capitalismo na geração de riqueza e lhe seja superior no respeito pela natureza e na justiça distributiva; nova forma de Estado experimental, mais descentralizada e transparente, de modo a facilitar o controle público do Estado e a criação de espaços públicos não estatais; reconhecimento da interculturalidade e da plurinacionalidade (onde for caso disso); luta permanente contra a corrupção e os privilégios decorrentes da burocracia ou da lealdade partidária; promoção da educação, dos conhecimentos (científicos e outros) e do fim das discriminações sexuais, raciais e religiosas como prioridades governativas.

Será tal alternativa possível? A questão está em aberto. Nas condições do tempo presente, parece mais difícil que nunca implantar o socialismo num só país, mas, por outro lado, não se imagina que o mesmo modelo se aplique em diferentes países. Não haverá, pois, socialismo e sim socialismos do séc. XXI. Terão em comum reconhecerem-se na definição de socialismo como democracia sem fim.

Carta Maior
http://agenciacartamaior.uol.com.br/

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Operação Condor. A estrutura continua existindo

Entrevista especial com Neusa Maria Romanzini Pires

Batizada com o nome de Condor para “homenagear” a ave típica dos Andes e símbolo da astúcia na caça às suas presas, a Operação Condor foi uma colaboração entre vários regimes militares da América do Sul. Foi montada para coordenar a repressão aos esquerdistas, opositores ao regime. Sua função principal era destruir todos aqueles que eram considerados adversários políticos perigosos aos sistemas ditatoriais montados na América Latina. O primeiro passo da Operação Condor foi executar a imediata unificação de esforços de todos os aparatos repressivos das ditaduras que haviam se instalado. E conseguiram. Foi o que a pesquisadora Neusa Maria Romanzini Pires concluiu em sua tese de doutorado intitulada “Memória da dor - A Operação Condor”.

Na entrevista a seguir, Neusa fala do árduo trabalho que teve para fazer um resgate histórico da Operação e concluir que sua criação foi feita aqui no Brasil e só anos mais tarde foi controlada pelos Estados Unidos, através da CIA. Ela também conta sua própria história, pois descobriu, através da pesquisa, que seu pai foi a primeira vítima da Operação. “Eu acho que 40 ou 400 trucidados não fazem diferença, porque o genocídio é genocídio, holocausto é holocausto. A dor, a desagregação que provoca numa comunidade é igual, não é algo que se meça de forma estatística ou qualitativamente, matematicamente. A dor é uma coisa que não se mede dessa forma”, relata Neusa.

Neusa Maria Romanzini Pires é graduada em Ciências Econômicas pela Faculdade de Ciências Políticas e Econômicas do Rio de Janeiro. Em 1990, conclui sua graduação em Geografia pela Universidade Veiga de Almeida, do Rio de Janeiro. Tem especialização em História da América Latina, em Geografia Regional e em Linguística Aplicada e LIteratura Comparada, toda pela UFRN. Realizou mestrado em Ciências Sociais e em Geografia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Foi em seu doutorado que pesquisou “Memória da dor - A Operação Condor”, titulo obtido pela USP.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que você traz de experiência pessoal ao trabalhar a “Memória da dor - A Operação Condor”?

Neusa Maria Romanzini Pires – O trabalho não deixa de ser um resgate da minha própria vida, já que sou um personagem desta história, sendo filha de um desaparecido político. Mas o trabalho não tem um cunho memorialista. A primeira vítima da Operação Condor no Brasil foi o grupo do qual meu pai participava. Por isso, este trabalho foi muito difícil para mim. Eu tive que ter um grande cuidado para manter a neutralidade cientifica e um distanciamento ideológico, pois tive de ouvir as vozes da direita também. Eu fiz entrevistas com o Coronel Ustra (1), que é apontado como o assassino do meu pai, com o General Fiúza (2), entre outros. Foi uma experiência riquíssima, um mergulho que, de certa forma, inclusive, serviu para montar um quebra-cabeça sobre o seqüestro do meu pai (3). Agora, fui muito além, porque quando eu comecei o trabalho, o título nem seria esse. Para começar, eu nem imaginava que meu pai tinha sido vítima da Operação Condor. Quando eu terminei o mestrado e decidi por essa pesquisa, já ao iniciá-la comecei a ter surpresas com as entrevistas que fiz no Paraguai, na Argentina e nos Estados Unidos. Então, vi os arquivos dos desaparecidos políticos e fui caminhando nesse sentido até que encontrei a hipótese da tese, que foi o que eu defendi na qualificação.

IHU On-Line – E qual foi a hipótese?

Neusa Maria Romanzini Pires – De que a Operação Condor era realmente uma idéia brasileira e que a lenda da boa ditadura brasileira é lenda mesmo. Na realidade, nós exportamos isso para os outros países, como Chile e Argentina. O fato de termos tido aqui poucos mortos e desaparecidos não significa nada, porque, ao mesmo tempo, tivemos mais de 30 mil torturados. Precisamos levar em consideração que isso só demonstra eficiência da repressão brasileira. Demonstra, por exemplo, uma eficiência cirúrgica com que eles eliminaram toda a oposição do governo, tanto a oposição armada quanto a oposição representada pelas idéias. Sabemos que, no Brasil, foi feito de tudo para derrubar a ditadura, do abaixo-assinado à luta armada. Eu encontrei tudo isso na tese.

Alguns outros estudiosos defendiam que a Operação Condor tinha começado em 1975. Depois da minha qualificação na USP, há uns três anos, eles reconheceram que ela teria começado antes, pois o ano em que eu comecei o recorte é 1973. Conseqüentemente, acho que foi uma contribuição muito além do que esperavam. Por isso, repito, não foi um trabalho memorialista, embora saibamos que se o historiador teve a oportunidade de participar dos fatos, tem a obrigação de resgatar sua própria memória também, desde que ele tenha experiência e capacidade de manter neutralidade. Nesse sentido, acho que eu consegui muita coisa. Do ponto de vista científico e acadêmico, eu acho que pude resolver um equívoco histórico e abrir para que outros pesquisadores possam continuar este trabalho.

IHU On-Line – Como foram os anos de chumbo para quem enfrentou perdas durante a Operação Condor?

Neusa Maria Romanzini Pires – Quando alguém seqüestra um ente querido de uma família e some com o corpo, desaparece simplesmente com a pessoa, cria um trauma tão grande que praticamente tudo se transforma numa busca. A pessoa não sabe se é órfã, as mulheres não sabem se são viúvas, os pais não sabem se seus filhos estão mortos. Então, a vida toda gira em torno disso. Eu fiquei grávida do meu primeiro filho e nem percebi, porque eu estava em Brasília tentando criar uma CPI para investigar o desaparecimento do meu pai. A gravidez do segundo filho eu também não percebi, pois eu estava lutando pela anistia. Então, grande parte da minha vida foi dedicada a buscar a verdade sobre meu pai. Embora eu, particularmente por ser militante também, tenha descoberto 15 dias depois do seqüestro da morte do meu pai. Tivemos umas duas ou três testemunhas, além da testemunha que a ONU tem. A luta, depois disso, foi para saber em que circunstância isso aconteceu, porque parte da minha família, que não era militante, ficou com a vida paralisada.

Isso é tão traumatizante que muitos filhos, infelizmente, não tiveram nenhuma condição de ter uma vida normal. Agora eu tive sorte, porque morei no Chile, conversei muito com meu pai, morei no exílio com ele e sou militante desde os 13 anos. Tive sorte porque eu me dediquei à pesquisa, aos estudos para procurar compreender e para continuar a luta dele. Isso porque eu sou, não é segredo para ninguém, comunista marxista. É claro que a perda foi horrível para mim, mas eu compreendo que ele morreu por uma causa na qual eu mesmo acredito. Eu vi famílias se destruírem, pais e mães morrerem no desespero, além de ter assistido relatos terríveis. Eu acho que o que aconteceu (matar, ferir e depois não entregar o corpo para que a família possa enterrar da sua maneira, ou ver aquele morto para poder acreditar) é de uma covardia terrível. Até Jesus Cristo foi devolvido para seus familiares, não é mesmo?

Então, eu considero de uma brutalidade inadmissível e acho que não devia ser uma luta solitária desses familiares, nem de apenas pesquisadores e militantes: deveria ser uma luta de todos. Eu acho que 40 ou 400 trucidados não fazem diferença, porque o genocídio é genocídio, holocausto é holocausto. A dor, a desagregação que provoca numa comunidade é igual, não é algo que se meça de forma estatística ou qualitativamente, matematicamente. A dor é uma coisa que não se mede dessa forma.

IHU On-Line – Quais foram as memórias da dor com que você ficou desta época?

Neusa Maria Romanzini Pires – É uma coisa que não acaba não tem fim; é tão inexplicável. Eu estou tentando explicar para você e é tão difícil de compreender, porque enquanto outras pessoas estavam comemorando o milagre brasileiro (4), a Copa do Mundo (5), famílias sofriam, andavam desesperadas atrás de seus filhos, maridos, pais. É uma ferida que não cura.

IHU On-Line – E como sua família enfrentou isso?

Neusa Maria Romanzini Pires – Cada um tem uma forma de expressar. Eu acho que a melhor forma de enfrentar isso é ir de encontro a essa dor e vivê-la. Já que não nos deram a oportunidade do luto, eu aconselho a todo mundo que passou por isso a pesquisar, procurar, montar seu próprio quebra-cabeça, acompanhar tudo o que aconteceu até o último instante daquele familiar e sentir essa dor, porque ela faz parte da vida. No entanto, é uma dor que não tem perdão, não há nenhum acordo, indenização, nada que possa recuperar, por exemplo, aquelas mães que morreram sem saber o que aconteceu com seus filhos. É dilacerante.

IHU On-Line – Como você fez o resgate histórico durante sua pesquisa?

Neusa Maria Romanzini Pires – A pesquisa nunca teve um cunho memorialista, o que foi até bom pra mim, porque foi uma casualidade eu ter descoberto que meu pai era a vitima de estréia da Operação. Eu faço um resgate da seguinte maneira: eu procurei ver qual foi o embrião da Operação. Foi assim que eu cheguei aos oficiais brasileiros e à conclusão de que foi o Brasil que exportou todo o conhecimento que, claro, já foi exportado da “Escola das Américas”, onde muitos oficiais brasileiros foram fazer seus cursos. Muitos militares não são uns imbecis como muita gente pensa, isto é, eles estudam, saem da academia militar sabendo inglês, francês, alemão. Então, “esses caras” montaram uma operação e a CIA (7) só interferiu em 1975, pela necessidade de derrubar o Salvador Allende (8). Aí ela (quem?) organiza uma operação. Por isso eu consegui tantos dados das vítimas anteriores a 1975. Quando ela é formalizada e institucionalizada, quando a CIA assume o controle, a Operação começa a ficar mais difícil de localizar os corpos, porque ela começou a ficar mais refinada. Isso tudo “em defesa” de uma reorganização capital da América Latina que, segundo os Estados Unidos, precisava ser feito naquele momento. Atualmente, estamos passando pelo mesmo problema, enfrentando novamente a necessidade dos Estados Unidos, pois ele está em crise, precisa de uma reorganização está com problemas com os governos daqui. Ninguém sabe o que vai acontecer.

Eu sempre gosto de deixar claro que minha contribuição foi essa: mostrar que a Operação Condor foi iniciada anteriormente à reunião de 1975, não importa o nome que tenha adotado e que foi uma idéia brasileira. Uma idéia do nosso serviço secreto. E que, em 1975, a CIA assumiu o controle até achar que o perigo tinha acabado e desapareceu na selva da América Central com a derrota do sandinismo (9). Mas eu quero afirmar uma coisa que eu acho importante: aquilo que criou a Condor só pede um motivo para retornar. Aquilo que criou a Condor só pede uma razão para ser reativada. Porque a estrutura continua existindo…

Notas:
(1) Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra comandou o DOI-Codi de São Paulo de 1970 a 1974. No período que esteve à frente do órgão ligado aos militares foram relatados mais de 502 casos de tortura.

(2) A Repressão teve como Comandante principal o General Fiúza, chefe da 6ª Região Militar, com sede em Salvador/BA. Homem de confiança do Presidente Geisel, foi quem determinou ao Tenente Coronel Oscar, do Exército Brasileiro, a desrespeitar a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Convenção de Genebra e a espécie humana, na medida em que massacrou, alquebrou, humilhou e torturou físico, moral e psiquicamente, homens da envergadura de Wellington Mangueira, Faustino Alves Menezes, Delmo Naziazeno, Rosalvo Alexandre, Pedro Hilário, Bittencourt, Gervázio dos Santos (o Careca), João Santana Sobrinho, Asclepíades dos Santos, Seu Durval, Juca da Leste e tantos outros ilustres combatentes da causa da liberdade de expressão e do livre pensar.

(3) Desaparecido desde 1973, quando tinha 50 anos. Major do Exército Brasileiro passou à reserva pelo Ato Institucional n. 1, de 1964. Conforme documentos encontrados nos arquivos do antigo DOPS/SP foi preso no dia 21 de outubro de 1965 e encaminhado à 5ª Região Militar e entregue ao Coronel Fragomini. Em 29 de maio de 1967, foi absolvido pelo Conselho Especial de Justiça da 5ª Auditoria, da denúncia do processo 324, por crime de subversão. Foi preso novamente, em 1970, com sua mulher e o filho, que foram torturados no DOI-CODI/RJ. Foi banido do país em junho de 1970. Foi preso em Buenos Aires em 11 de dezembro de 1973, juntamente com João Batista Rita, por policiais brasileiros, provavelmente comandados pelo delegado Sérgio Fleury. Ambos foram vistos por alguns presos políticos no DOI-CODI/RJ, quando chegavam trazidos por uma ambulância. Estavam amarrados juntos, em posição fetal, tendo os rostos inchados, esburacados e repletos de sangue na cabeça.

(4) É a denominação dada à época de excepcional crescimento econômico ocorrido durante a ditadura militar, especialmente entre 1969 e 1973, no governo Médici. Nesse período áureo do desenvolvimento brasileiro em que, paradoxalmente, houve aumento da concentração de renda e da pobreza, instaurou-se um pensamento ufanista de “Brasil potência”, que se evidencia com a conquista da terceira Copa do Mundo de Futebol em 1970 no México, e a criação do mote de significado dúbio: “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

(5) Em 21 de junho de 1970 O Brasil vence a Copa do Mundo de futebol conquistando a posse definitiva da Taça Jules Rimet. O evento aconteceu no México.

(7) Central Intelligence Agency (em português Agência Central de Inteligência, sigla: CIA) é um serviço de inteligência dos Estados Unidos da América. CIA foi criada em 1947 nos Estados Unidos, pelo Presidente Harry S. Truman (1884 - 1972), para tal, foi editado um Acto Governamental de Segurança Nacional. A criação da CIA para os norte americanos foi uma necessidade estratégica devido ao início da Guerra Fria e o avanço do comunismo. A espionagem estrangeira, o roubo de projetos da área tecnológica, de armamentos, a fuga de informações, estavam causando prejuízos ao país, houve então, a necessidade de vigiar e relatar todos os assuntos referentes à segurança nacional ao Presidente, procurando a melhor forma possível interferir e neutralizar os efeitos negativos oriundos de ameaças externas .

(8) Salvador Allende foi um médico, político e estadista chileno. Foi o primeiro marxista eleito democraticamente presidente de um país da América Latina.

(9) Movimento político que teve por finalidade a derrubada da família Somoza do governo da Nicarágua.

Instituto Humanitas Unisinos
http://www.unisinos.br/ihu/index.php

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Metade de negros em pesquisa tem ancestral europeu

Estudo aponta predominância de europeus nas linhagens paternas

Carolina Glycerio e Silvia Salek

SÃO PAULO E LONDRES - Uma análise genética de um grupo de 120 negros brasileiros indicou que metade deles tem pelo menos um ancestral europeu por parte de pai.

No estudo, liderado pelo geneticista Sérgio Pena, professor titular de bioquímica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), foram analisados os cromossomos Y dos 120 indivíduos em busca do ancestral paterno mais distante de cada um deles.

O cromossomo Y é passado de pai para filho sem sofrer mudanças, a não ser em casos de mutação. Ou seja, o Y de alguém que vive hoje no Brasil pode ser idêntico ao de um português que viveu no Algarve três séculos atrás ou ao de um africano trazido como escravo da África Ocidental no século 16.

Comparando o cromossomo Y dos 120 brasileiros de São Paulo com as informações de um banco com dados sobre populações de todo o mundo, os pesquisadores conseguiram identificar a origem do ancestral mais distante de cada um no grupo.

Apesar da pele negra, esses parentes distantes de 60 indivíduos (50%) vieram da Europa. Saíram da África os ancestrais de 58 (48%) e da própria América, apenas 2 (1,6%).

Para Sérgio Pena, esse estudo confirma as conclusões de suas pesquisas anteriores sobre as origens da população brasileira que mostram que a cor da pele é um “péssimo indicador de ancestralidade” porque ela representa uma parte ínfima do código genético humano.

“Com exceção de imigrantes de primeira ou segunda geração, não existe nenhum brasileiro que não carregue um pouco de genética africana e ameríndia”, afirmou o geneticista, em entrevista à BBC Brasil.

Ancestral materna

Os números se invertem quando o foco é a ancestralidade materna, rastreada pelo DNA mitocondrial - uma outra parte do DNA que homens e mulheres herdam da mãe e que também atravessa gerações sem sofrer mudanças, salvo em casos de mutação.

Essa análise revelou que, por parte de mãe, 102 (85%) dos 120 estudados têm conjuntos de seqüências genéticas (haplogrupos) tipicamente africanos.

Apenas quatro (2,5%) dos negros que fizeram parte da pesquisa têm uma ancestral materna proveniente da Europa e 14 (12,5%), da América.

Para Sérgio Pena, os resultados demonstram a “assimetria sexual” nos cruzamentos que deram origem ao povo brasileiro - com uma predominância de europeus nas linhagens paternas e uma maior distribuição nas linhagens maternas entre africanas, ameríndias e, em menor grau, européias.

É a confirmação genética dos indícios históricos de que nos tempos da colônia prevaleciam os relacionamentos sexuais entre os colonizadores europeus - que vinham em grupos de muitos homens e poucas mulheres - e as mulheres nativas (ameríndias) ou trazidas como escravas da África.

Romance X violência

O historiador Manolo Florentino, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), reconhece o desequilíbrio sexual destacado por Pena e acrescenta que, entre os portugueses que vinham para o Brasil, a proporção era de oito ou nove homens para cada mulher.

Por outro lado, Florentino refuta a idéia de que grande parte do povo brasileiro tem origem num relacionamento forçado entre o colonizador e a índia ou a escrava.

“A miscigenação brasileira tem muito mais a ver com o português pobre que interage matrimonialmente e sexualmente com as mulheres negras do que propriamente com homens de elite mantendo relações sexuais com mulheres pobres negras escravizadas”, afirma o historiador.

Seu argumento é que a maior parte dos portugueses que vinha para cá era de pobres aventureiros que saíam do norte de Portugal e, ao chegar aqui, geralmente sem família, se relacionavam com as índias e africanas.

“É muito mais uma história que reúne pobres amantes de cores diferentes do que violência e estupro, como uma certa vertente quer fazer passar.”

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Jornal Estado de S. Paulo
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O pós-moderno

FRANCISCO DE OLIVEIRA

Ele deu um salto à frente, de enormes proporções, e se tornou o mais eminente dos pós-modernos. Lula é, agora, a vanguarda do atraso

LUIZ INÁCIO Lula da Silva, o atual presidente, nunca disfarçou seu desprezo pelos intelectuais, sentimento ou perspectiva compartilhada, aliás, por não poucos dos seus camaradas. Houve até um ministro importante do primeiro mandato que, ao anunciar a criação de um núcleo de estudos estratégicos no governo, avisou imediatamente que nele não teriam assento intelectuais que discutem eternamente o “sexo dos anjos”, o que deu para desconfiar que ele não entendia nada de sexo ou de anjos -ou dos dois. A ironia é que Lula entregou agora o Ipea e o tal núcleo de estudos exatamente a um intelectual, tão intelectual que fala português com sotaque norte-americano.
Intelectual, diga-se logo, não é garantia de coisa alguma, pois o predecessor de Lula era um intelectual consagrado, que aliás se pavoneava com certa desfaçatez, proporcional ao desprezo de Lula. Que o PT tenha incensado certos intelectuais não faz muita diferença, pois essa é uma tradição da esquerda, a instrumentalização dos intelectuais ou de seus prestígios.
Por isso, não se lamenta muito o desprezo do presidente. Mas ele agora deu um salto à frente, de enormes proporções, e se tornou o mais eminente dos pós-modernos. Ainda que rejeitem a noção de vanguarda, é certo que Luiz Inácio é, agora, a vanguarda do atraso.
Fazendo tabula rasa da história dos trabalhadores sob o capitalismo, Lula se entregou a perigosos exercícios intelectuais: designou os usineiros de açúcar do Brasil como heróis, os mais importantes do Brasil moderno, vale dizer, do Brasil lulista. Logo ele, pernambucano, desconhecer a história dos trabalhadores da cana-de-açúcar.
Jogou na lata de lixo as vidas ceifadas e de qualquer modo amesquinhadas por uma das formas de exploração do trabalho mais brutais. Não, segundo o pós-modernismo do presidente, eles, os trabalhadores, não existiram, suas vidas não contaram, porque os usineiros sempre foram magnânimos e um viés preconceituoso da esquerda prejudicou o reconhecimento do papel e do lugar dessa primorosa classe social na história brasileira.
Francisco Alves é um pesquisador e professor da Universidade Federal de São Carlos que, com José Roberto Novaes, este da federal do Rio de Janeiro, está publicando em livro os resultados de anos de investigação sobre o trabalho dos cortadores de cana na região eldorada do açúcar em São Paulo. Em recente seminário na Faculdade de Saúde Pública da USP, foi difícil conter a indignação de Chico Alves, pois os jornais noticiavam mais uma morte por exaustão de um trabalhador da cana. Quase ao mesmo tempo, a Folha atualizava a sinistra estatística: já são 19 trabalhadores que morrem por exaustão desde 2004.
A professora Maria Aparecida Moraes, que também comparece com excelente artigo na coletânea, esclarecia em entrevista o que provocava as mortes por exaustão, mas a encerrava com uma nota final esperançosa que, para os leitores, era completamente estapafúrdia diante do que ela mesma comentara.
Aos fatos, finalmente: a produtividade dos trabalhadores tem crescido de maneira exponencial. No período de dez anos estudado por Chico Alves, ela havia passado de seis para 12 toneladas diárias. Eles perdem cerca de dez litros de água por dia, percorrem distâncias -no campo de trabalho, nos metros que lhes são destinados para corte- de dez quilômetros diários, dão 66 mil foiçadas (com o podão, um facão especial) por dia para lograr as 12 toneladas diárias, trabalham no mínimo 12 horas por dia, numa jornada que tem, pelo menos, seis horas de intensa exposição ao sol.
São encontrados no fim do dia nos postos de saúde tomando soro na veia para recuperar um pouco dos sais que perdem. Morrem por esgotamento: câimbras que podem provocar paradas cardíacas. Têm hoje vida média inferior à dos escravos coloniais.
Em reportagem da Folha, um deles relatou que quase foi picado por uma cobra, que exige que andem com perneiras de plástico e ferro para evitar os presentes da deusa do Paraíso e o repique do podão.
A ironia da história é que a mudança do critério de toneladas para metros foi uma vitória da célebre greve de Leme em 1986, aquela em que deputados do PT, entre eles José Genoino, foram acusados pelas autoridades, com apoio dos heróis usineiros, de disparar um tiro que matou uma trabalhadora rural. Mas essa vitória de Pirro exige que os trabalhadores saibam converter metros em toneladas para não serem logrados, e a história diária é a de um roubo descarado. Marx disse certa vez que o capitalismo não é roubo, é exploração.
É necessário ressuscitar a princesa Isabel e Marx: a primeira para realizar a nova abolição, e o segundo, para reformular seus conceitos, ainda generosos, de mais-valia e exploração. Ave, Lula! Os usineiros te saúdam, e o Brasil, transformado num imenso canavial, curva-se à tua sapiência!

FRANCISCO DE OLIVEIRA, 73, é professor titular aposentado do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

Jornal Folha de S. Paulo
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Ministro japonês comete suicídio e acirra problemas de premiê

Reuters
Em Tóquio

Um ministro do gabinete do primeiro-ministro do Japão envolvido em escândalos se suicidou nesta segunda-feira, aumentando os problemas do líder japonês, cujo apoio caiu antes de uma eleição em julho.

Foi o primeiro suicídio de um ministro japonês desde os dias depois da derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, disseram autoridades do arquivo nacional.

“Isso terá uma séria consequência política, mas neste momento é difícil dizer o quanto”, observou à Reuters uma autoridade do governo.

O suicídio do ministro da Agricultura Toshikatsu Matsuoka acontece no momento em que a aprovação pública do premiê Shinzo Abe está no nível mais baixo desde que ele assumiu o governo, em setembro. Os índices ruins devem-se em grande parte a críticas sobre má administração de pensões, o que poderia prejudicar os aposentados.

A coalizão do premiê poderá perder a maioria no Senado, em seu primeiro grande teste nas urnas.

Matsuoka, 62, sofria pressão devido a uma série de escândalos de financiamento político. Ele morreu no hospital depois de ser encontrado inconsciente em seu quarto, no complexo residencial de legisladores em Tóquio.

A polícia não quis comentar as reportagens da mídia japonesa, incluindo uma da emissora pública, a NHK, afirmando que ele deixou um bilhete suicida e se enforcou.

“Estou tomado pela vergonha. Espero profundamente que sua alma descanse em paz”, disse Abe, visivelmente abalado.

Matsuoka, que negou irregularidades, seria mais uma vez atacado no Parlamento nesta segunda-feira.

Críticos dizem que Abe estava protegendo o ministro e analistas afirmam que sua imagem sofrerá no curto prazo. Mas os danos a longo prazo dependem de como ele lidará com a situação.

Os mercados financeiros não tiveram reação imediata às notícias.

O Japão tem uma das mais altas taxas de suicídios entre países industrializados, algo que especialistas atribuem à ausência de proibição religiosa ao ato e à tradição de cometer suicídio como punição ou para evitar vergonha a parentes.

(Com reportagem de Ikuko Kao, Isabel Reynolds, Teruaki Ueno e Nelson Graves)

Jornal Estado de S. Paulo
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De volta ao cinema mudo

O diretor Eric Rohmer fala de seu romance “A Casa de Elisabeth”, escrito há 61 anos e só agora reeditado

SAMUEL BLUMENFELD

Um do grandes nomes da nouvelle vague, o cineasta francês Eric Rohmer, 87, fala na entrevista abaixo de sua abortada carreira de romancista.
Depois de 61 anos, chega novamente às livrarias seu romance “Elisabeth”, agora renomeado para “La Maison d”Elisabeth” [A Casa de Elisabeth].
Como explica Rohmer, o tema de sua obra não era nem Elisabeth nem sua casa, mas tudo o que acontece dentro dela.
Ele fala da geração de autores contemporâneos à escrita de seu livro, como Albert Camus e Jean-Paul Sartre. Rohmer também explica a relação entre cinema e literatura e como a busca da modernidade, para ele, só iria se dar por meio do cinema.

PERGUNTA - O senhor publicou “Elisabeth” em 1946. Esse primeiro romance, que jamais seria seguido de outro, permaneceu esgotado desde então. Por que só hoje ele é reeditado, sob o título ligeiramente diferente de “A Casa de Elisabeth”?
ERIC ROHMER - Eu tinha perdido o último exemplar que me restava e não o havia relido desde sua publicação. Há alguns anos me perguntaram se eu queria que o livro fosse reeditado. Eu respondi que não. Preferia que o fosse postumamente.
Aconteceu que um alemão me perguntou se eu concordaria que ele fosse traduzido na Alemanha.
Era uma idéia engraçada. Assim, ele foi editado lá e depois na Itália. Então eu me disse: “Por que não na França?”.
Para mim, meus filmes não pareciam ter mais qualquer relação com esse romance.
No entanto, quando o reli, achei que havia relações. Posso dizer modestamente que o romance não é tão ruim.
Há situações que se parecem com as dos meus filmes e que em certos trechos não são inferiores aos meus filmes. Pelo menos foi o que pensei.
De todo modo, eu não gostava do título original, “Elisabeth”.
Então procurei durante muito tempo. O tema do romance não é a visão de uma mulher e também não é a casa. É tudo o que acontece nessa casa.

PERGUNTA - A geração de cineastas da nouvelle vague queria escrever romances. A grande ambição de Godard, por exemplo, era ter um romance publicado pela Nouvelle Revue Française.
ROHMER - E eu também! No caderno escolar que era o manuscrito do meu romance, eu havia desenhado a mim mesmo com o logotipo da NRF. E ele foi aceito!

PERGUNTA - Por que o sr. não persistiu no caminho da escrita?
ROHMER - Há um fenômeno de história literária que me intriga.
Eu escrevi este romance em 1944. Publiquei-o ao mesmo tempo em que “A Vida Tranqüila”, o primeiro romance de Marguerite Duras. O que quer dizer que ela não pôde me influenciar.
Depois tentei escrever um segundo romance. Eu estava seco, não encontrava idéias.
Percebo que a maior parte das pessoas de minha geração esteve um pouco no meu caso. Posso citar Albert Camus. De todo modo, ele escreveu o pior romance da literatura francesa, que se chama “A Peste”.
E há Jean-Paul Sartre, que escreveu “A Náusea”, depois “O Muro”, uma coletânea de novelas, mas depois não continuou tanto no romance.
Podemos acrescentar Beckett, que escreveu um romance, “Molloy”, e depois se lançou no teatro. Butor escreveu “A Modificação” e depois não fez nada.
Existe portanto um fenômeno que não é próprio de meu caso. Uma falta de inspiração que ocorre depois de uma obra em geral bem-sucedida, mesmo que meu romance não tenha agradado na época.

PERGUNTA - No prefácio de “Seis Contos Morais”, publicados em 1974, o sr. escreveu de maneira muito severa: “A idéia desses contos me ocorreu em uma idade em que eu ainda não sabia se seria cineasta. Se fiz filmes, é porque não consegui escrevê-los”. Devemos compreender que a escrita dos “Contos Morais” foi, segundo o sr., um fracasso?
ROHMER - Eu efetivamente achava que a maneira como os havia escrito não era bem-sucedida. Era ainda muito “século 19″, antiga, arcaica.
Eu queria encontrar na época alguma coisa que contasse as mesmas histórias e que tivesse ao mesmo tempo um estilo mais moderno. Eu desejava reencontrar a modernidade de “A Casa de Elisabeth” quando escrevi os “Contos Morais”.
Encontrei essa modernidade por meio do cinema, pois fazer cinema na minha época era muito moderno.

PERGUNTA - Em uma entrevista em 1983, o sr. explicou: “Creio que existe no mundo algo diferente do cinema, e que o cinema, ao contrário, se alimenta das coisas que existem ao seu redor. O cinema é de fato a arte que menos pode alimentar-se de si mesma. Para outras artes, certamente é menos perigoso”. Nessa época, o sr. já percebia a erosão do elo entre cinema e literatura?
ROHMER - Hoje existe uma não-cultura total, particularmente dos cinéfilos. Antigamente havia muitas pessoas que julgavam o cinema em comparação com a literatura.
Acadêmicos como Jean Dutourd ou Georges Duhamel tinham palavras muito severas para o cinema. Eu me dizia então, nessa perspectiva, que era preciso esquecer a literatura.
Não devemos julgar o cinema em relação à literatura. Hoje é o contrário. A literatura está muito esquecida.
Eu constato uma ausência do cinema mudo. Assim como remontamos aos gregos quando escrevemos uma obra literária, hoje seria bom remontar a Griffith. Ele deveria ser reeditado em DVD; o público o ignora.

A íntegra deste texto saiu no “Le Monde”. Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves.

Jornal Folha de S. Paulo
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O valor da notícia

A imprensa de qualidade desempenha um papel de liderança: rádio e TVs dependem de temas e contribuições provenientes do jornalismo “argumentativo”

JÜRGEN HABERMAS

Semanas atrás, a página de economia do jornal alemão “Die Zeit” assustou seus leitores com a manchete “O quarto poder corre perigo?”. Tratava-se da notícia alarmante de que o “Süddeutsche Zeitung” rumava para um futuro econômico de incertezas.
A maioria dos acionistas quer se ver livre do jornal; caso as coisas se encaminhem para um leilão, é possível que um dos dois bons diários supra-regionais da Alemanha [o outro é o “Frankfurter Allgemeine”] caia nas mãos de investidores privados, fundos de investimento ou conglomerados de mídia.
Haverá quem diga: “Business as usual” [negócios, como sempre]. O que poderia haver de alarmante no fato de que os proprietários queiram fazer uso de seu direito de se desfazer de seus negócios, sejam quais forem seus motivos?
A crise dos jornais, desencadeada no começo de 2002 pelo colapso do mercado publicitário, ficou para trás -no “Süddeutsche Zeitung” e em outros órgãos de imprensa da mesma dimensão. As famílias que agora se dispõem a vender sua participação detêm 62,5% das ações e escolheram um momento propício.
Apesar da concorrência digital e dos novos hábitos de leitura, os lucros vêm aumentando.
Deixando de lado a boa conjuntura econômica, os lucros se devem sobretudo a medidas de racionalização com impacto direto sobre o desempenho e a margem de manobra das redações. Notícias bombásticas à maneira do jornalismo norte-americano ditam a tendência atual.
Assim, por exemplo, o “Boston Globe”, um dos poucos jornais de centro-esquerda dos EUA, teve que renunciar a todos os seus correspondentes no estrangeiro, enquanto os grandes encouraçados da imprensa nacional -como o “Washington Post” e o “New York Times”- temem a capitulação diante de fundos ou conglomerados ávidos por “sanear” jornais em vista de taxas de lucro descabidas; no caso do “Los Angeles Times”, esse já é fato consumado.

Jugo do lucro
Há três semanas, o “Die Zeit” voltou à carga, falando de um “ataque de Wall Street à imprensa dos EUA”.
O que há por trás desse tipo de manchete? Certamente, o temor de que os mercados não façam justiça à dupla função que a imprensa de qualidade até hoje desempenhou: atender à demanda por informação e formação, sem comprometer taxas de lucro aceitáveis.
Mas os lucros em alta não serão uma confirmação de que jornais “enxutos” satisfazem melhor os desejos de seus consumidores?
Conceitos vagos como “profissional”, “arrojado” ou “sério” não servem apenas para velar a preeminência concedida ao leitor adulto, que sabe o que quer?
A imprensa terá o direito de, sob o pretexto da “qualidade”, cercear a liberdade de escolha de seus leitores?
Por que forçar a leitura de reportagens áridas em vez de “infotainment” [fusão, em inglês, das palavras “information” e “entertainment”, informação e entretenimento], comentários objetivos e argumentos circunstanciados, ao invés de encenações apelativas de personalidades e acontecimentos?
A objeção que se manifesta nessas questões se baseia na suposição polêmica de que os consumidores escolhem com autonomia, segundo suas preferências pessoais. Mas essa espécie de verdade acaciana certamente induz ao erro quando se trata de uma mercadoria tão peculiar quanto a informação política e cultural. Pois essa mercadoria a um só tempo atende e transforma as preferências de seus consumidores.

Formação em massa
Não há dúvida de que leitores, ouvintes e espectadores seguem suas preferências ao fazer uso dos meios de comunicação: querem se divertir ou se distrair, querem se informar ou tomar parte em debates públicos.
Mas, quando se interessam por um programa político ou cultural, quando recebem a “bênção matinal realista” da leitura de jornais, todos se expõem -com alguma medida de autopaternalismo- a um processo de aprendizado de resultados imprevisíveis.
No curso de uma leitura, novas preferências, convicções ou juízos podem se formar.
A metapreferência que orienta uma tal leitura se dirige então àquelas prioridades que se exprimem na auto-imagem de um jornalismo independente e que fundamentam o prestígio da imprensa de qualidade.
A polêmica sobre o caráter peculiar da mercadoria “informação e formação” faz pensar no slogan que fez furor quando do surgimento da televisão: essa nova mídia não seria mais que “uma torradeira com imagens”.
Pensava-se que a produção e o consumo de programas televisivos podiam ser deixados inteiramente a cargo do mercado. Desde então, as empresas de comunicação cuidam de fornecer programas para seus espectadores enquanto vendem a atenção do público a seus anunciantes.
Sempre que imperou sem peias, esse modo de organização causou danos políticos e culturais. O sistema “híbrido” de televisão [na Alemanha] é uma tentativa de remediar o mal.
E as leis locais, as decisões de tribunais federais e os princípios de programação das emissoras públicas refletem a noção de que as mídias eletrônicas não devem satisfazer apenas as necessidades mais comercializáveis dos consumidores.
Ouvintes e espectadores não são apenas consumidores mas também cidadãos com direito à participação cultural, à observação da vida política e à voz na formação de opinião.
Com base nesses direitos, não é o caso de deixar programas voltados a tais necessidades fundamentais da população à mercê da conveniência publicitária ou do apoio de patrocinadores.
Mais ainda, as taxas que financiam esses serviços também não devem variar ao sabor dos orçamentos locais, isto é, da conjuntura econômica -é o que argumentam algumas emissoras num processo contra os governos locais, em trâmite no Supremo Tribunal Federal alemão.
A idéia de uma reserva pública voltada para a mídia eletrônica pode ser interessante.
Mas algo assim poderia servir de modelo para a organização de jornais e revistas “sérios”, como o “Süddeutsche Zeitung” ou o “Frankfurter Allgemeine Zeitung”, “Die Zeit” ou “Der Spiegel”, para não falar das revistas mensais mais ambiciosas?

Efeito político
O resultado de um estudo sobre fluxos de comunicação pode ter interesse nesse contexto: ao menos no âmbito da comunicação política -ou seja, para o leitor enquanto cidadão-, a imprensa de qualidade desempenha um papel de “liderança”: o noticiário político do rádio e da televisão depende em larga escala dos temas e das contribuições provenientes do jornalismo “argumentativo”.
Suponhamos que uma dessas redações caia nas mãos de investidores que trabalham com lucros rápidos e prazos curtos: a reestruturação e o enxugamento nesses lugares estratégicos não tardarão a pôr em risco os padrões jornalísticos e a afetar em cheio a vida política.
Pois a comunicação pública perde vitalidade discursiva quando lhe falta informação fundamentada ou discussão vivaz, coisas que não se obtêm sem custos.
A esfera pública não teria mais como opor resistência às tendências populistas e não seria mais capaz de desempenhar funções que lhe cabem no quadro de um Estado democrático de Direito.
Vivemos em sociedades pluralistas. O processo de decisão democrático só pode ultrapassar as cisões profundas entre visões de mundo opostas se houver algum vínculo legitimador aos olhos de todos os cidadãos.
O processo de decisão deve conjugar inclusão (isto é, a participação universal em pé de igualdade) e condução discursiva do conflito de opiniões.
Pois tão-somente a discussão deliberativa fundamenta a suposição de que, no longo prazo, os processos democráticos propiciam resultados mais ou menos racionais.
A formação de opinião por via democrática tem uma dimensão epistêmica, uma vez que envolve a crítica de afirmações e juízos errôneos.
Esse é o papel de uma esfera pública dotada de vitalidade discursiva.
Esse papel se evidencia intuitivamente tão logo se tenha em mente a diferença entre o conflito público de opiniões concorrentes e a divulgação de pesquisas de opinião.
Opiniões que se formam por meio de discussão e polêmica são, a despeito de toda dissonância, filtradas por informações e argumentos, enquanto as pesquisas de opinião apenas invocam opiniões latentes em estado bruto ou inerte.

Mediação
É claro que os fluxos díspares de comunicação numa esfera pública dominada pelos meios de comunicação de massa não permitem o tipo de discussão ou consulta regrada que tem lugar em tribunais ou sessões parlamentares.
Mas isso também não é necessário, pois a esfera pública é apenas um dos elos relevantes: ela faz as vezes de mediação entre discursos e discussões nos foros do Estado, de um lado, e as conversas episódicas ou informais de eleitores potenciais, de outro.
A esfera pública dá sua contribuição à legitimação democrática da ação estatal ao selecionar temas de relevância política, elabora-os polemicamente e os vincula a correntes de opinião divergentes.
Por essa via, a comunicação pública estimula e orienta a formação da opinião e do voto, ao mesmo tempo em que exige transparência e prontidão do sistema político.
Sem o impulso de uma imprensa voltada à formação de opinião, capaz de fornecer informação confiável e comentário preciso, a esfera pública não tem como produzir essa energia.
Quando se trata de gás, eletricidade ou água, o Estado tem a obrigação de prover as necessidades energéticas da população.
Por que não seria igualmente obrigado a prover essa outra espécie de “energia”, sem a qual o próprio Estado democrático pode acabar avariado?
O Estado não comete nenhuma “falha sistêmica” quando intervém em casos específicos para tentar preservar esse bem público que é a imprensa de qualidade.

Melhores resultados
O problema é apenas de ordem pragmática: como se alcançam os melhores resultados?
Em certo momento, o governo [do Estado] de Hessen concedeu ao jornal “Frankfurter Rundschau” um crédito subsidiado -sem sucesso. Mas as subvenções diretas são apenas um dos meios disponíveis.
Outros caminhos são as fundações com participação pública ou a renúncia fiscal para famílias envolvidas no ramo.
Nenhuma dessas soluções está livre de problemas. E ainda é preciso aclimatar a idéia de subvenções a jornais e revistas.
Em termos históricos, a idéia de regular o mercado da imprensa tem alguma coisa de contra-intuitivo. Afinal, o mercado foi outrora o cenário em que idéias subversivas puderam se emancipar da repressão estatal.
Mas o mercado só é capaz de desempenhar essa função se as determinações econômicas não penetrarem nos poros dos conteúdos culturais e políticos dispersos no mercado.
Agora, como antes, a crítica adorniana da indústria cultural constitui o ponto central. A observação cética é indispensável, pois nenhuma democracia pode se dar ao luxo de uma falha de mercado nesse setor.

JÜRGEN HABERMAS (1929) é um dos principais filósofos e sociólogos vivos. Colaborou entre 1955 e 1959 com Adorno e Horkheimer no Instituto de Pesquisa Social, em Frankfurt, e lecionou nas universidades de Heidelberg e de Frankfurt. Entre suas obras de maior impacto traduzidas para o português estão “Mudança Estrutural na Esfera Pública”, “Direito e Democracia” e “Consciência Moral e Agir Comunicativo” (Tempo Brasileiro). Este texto foi publicado originalmente no jornal alemão “Süddeutsche Zeitung”. Tradução de Samuel Titan Jr.

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Um monstro à luz do dia

Diogo Cronemberger

O filme “O Hospedeiro”, do diretor Bong Joon-ho, é a mais nova prova da originalidade do cinema sul-coreano

Acaba de chegar aos cinemas brasileiros “O Hospedeiro”, o filme de maior bilheteria da história de seu país de origem, a Coréia do Sul, visto por cerca de 13 milhões de pessoas, o que equivale aproximadamente a um quinto da população da parte sul da “terra da manhã tranqüila”. Além disso, é o filme de maior êxito financeiro internacional da história do cinema sul-coreano. Como se não bastasse, foi eleito pela rigorosa revista francesa “Cahiers du Cinéma” como o terceiro melhor filme de 2006 e quase só recebe elogios da crítica onde quer seja exibido.

Trata-se do terceiro longa dirigido por Bong Joon-ho, responsável pelo maravilhoso suspense “Memórias de um Assassino” (2003). Em “O Hospedeiro”, o diretor recorre a um outro gênero, o “kaiju eiga”, expressão japonesa que designa filmes de monstros à la Godzilla. Porém, um dos grandes trunfos de Bong Joon-ho não é ater-se a apenas um gênero, mas misturar de maneira bastante original vários deles.

Vamos nos ater, por enquanto, ao “kaiju eiga” e ao início do filme. Se em “O Mundo em Perigo” (1954), “O Monstro do Mar Revolto” (1955) e outros filmes norte-americanos da década de 50, bem como no próprio “Godzilla” (1954), a radiação atômica estava por trás do aparecimento de animais ou seres gigantescos, em uma relação de causa e efeito (reflexo da Segunda Guerra Mundial e das bombas atômicas que atingiram Hiroshima e Nagasaki), em “O Hospedeiro” a premissa não é muito diferente. Joon-ho apenas atualizou a idéia.

“O Hospedeiro” começa em uma base do Exército dos Estados Unidos na Coréia, em 2000, onde um cientista americano ordena ao subordinado coreano que despeje grande quantidade de formaldeído, um químico tóxico, pelo ralo, ou seja, no rio Han, alegando que detesta poeira e que o rio é enorme. O modo como a cena é filmada é uma referência clara aos filmes norte-americanos de ficção científica citados.

O tom é de sátira. É o primeiro de uma série de comentários irônicos acerca dos Estados Unidos, que permeiam todo o filme. Infelizmente, o episódio é verdadeiro. A base para a construção do roteiro –além da vontade do roteirista-diretor de fazer sua versão do Nessie do lago escocês- foi o incidente McFarland, em que detritos químicos de uma base militar americana de Yongsan, no centro de Seul, foram lançados nas águas do Han, gerando, na vida real, um sério impasse diplomático.

No filme, um longo travelling para a direita mostra inúmeras garrafas vazias à medida que o subordinado coreano esvazia mais uma, dando conta da dimensão do que está por vir. Fusão das garrafas com as águas do rio Han. Causa e efeito. Dois anos depois, em 2002, trilha de suspense, e a confirmação de que há algo de errado no rio vem por dois pescadores, que deparam com um pequeno animal mutante. Chegamos, enfim, em 2006. O animal pequeno é agora uma mancha gigantesca sob as águas do Han, onde pula um executivo arruinado. Busca o suicídio e encontra uma morte carregada de significações políticas. Sobre as águas, aparece então o título do filme. Como em “Memórias de um Assassino”, a passagem do tempo é uma questão fundamental para Joon-ho. Por mais que muitas coisas mudem de um ponto a outro, existem outras que permanecem ao longo da linha do tempo.

Depois de tanta tensão, o filme exibe o protagonista, o abobalhado Park Gang-du (interpretado pelo excelente Song Kang-ho), que aparece dormindo no trailer em que trabalha com o pai (Byeon Hie-bong) vendendo alimentos. Gang-du é pai da menina Park Hyun-seo (Ko Ah-sung), e a sua família problemática inclui ainda dois irmãos, Nam-joo (Bae Du-na), uma arqueira olímpica meio lerda, e Nam-il (Park Hae-il), um jovem com diploma universitário, mas desempregado, um misto de herói e hipócrita, uma referência clara à história recente do país, marcada por protestos estudantis em favor da democratização.

Perto do restaurante do pai de Gang-du, algumas pessoas observam algo estranho pendurado na ponte sobre o rio. É o monstro, mas todos ignoram o perigo que ele representa. Gang-du joga uma cerveja para ele. As pessoas também jogam alimentos e fazem especulações (uma delas pergunta se a criatura veio do Paquistão e outra chega a dizer que é o golfinho da Amazônia, com certeza). De repente, o monstro se lança à caça das pessoas. Tem início uma das mais espetaculares seqüências de ação já vistas.

Em determinado momento, o monstro entra em um trailer cheio de pessoas e vemos o veículo balançando do lado de fora. Lembra Spielberg. Uma das características mais interessantes do cinema de Joon-ho e do atual cinema sul-coreano, em geral, é justamente a apropriação daquilo que os realizadores consideram o melhor do recente cinema norte-americano. Entretanto, não se trata de tentativa de cópia. Joon-ho e seus conterrâneos têm feito um cinema particular, ancorado nos gêneros e influenciado pelo cinema hollywoodiano, sim, mas com uma visão de mundo e um modo de narrar próprios.

Mistura de gêneros

O fato de o monstro aparecer logo no início do filme, e à luz do dia, é exemplar nesse sentido. Isso contraria o modelo clássico de filmes de monstro, em que a criatura aparece aos poucos, nas sombras. Contraria também, em muitos aspectos, o que Spielberg fez em “Tubarão” (1975), por exemplo, uma das maiores referências para Jooh-ho. Ao final da seqüência terrível, a filha de Gang-du é raptada pelo monstro e dada como morta. Até que ela liga para o pai do esgoto onde o monstro a levou, e o filme se transforma então na narrativa do resgate da menina pela família.

A quebra das convenções dos filmes de monstro também se dá pela mistura com outros gêneros, como a ficção científica, o suspense, o terror, a sátira política, enquanto a família vive situações típicas de uma comédia de costumes. Na cena hilariante em que os familiares fogem do hospital em uma van, ao som de uma música de filme de aventura, vem à mente o delicioso “Pequena Miss Sunshine” (2006). E vale ressaltar: a família Park é tão desajustada quanto a família Hoover, do filme americano. Outros tipos de comédia perpassam “O Hospedeiro”, desde o pastelão até o nonsense. E o filme é também um melodrama pungente, ao mostrar a luta para a restauração do equilíbrio em um mundo em que se opõem vícios e virtudes.

Bong Joon-ho acha que essa fusão de gêneros, essa mistura de elementos aparentemente díspares torna os filmes mais realistas. Tem razão. A experiência humana é complexa, abarca um sem-número de emoções diferentes. A vida não é um drama ou uma comédia, mas uma combinação de ambos. E muito mais. É o questionamento trazido por Woody Allen com “Melinda e Melinda” (2004).

Porém, o que há de mais fascinante em “O Hospedeiro” não é apenas a alternância de gêneros, mas a fusão freqüente deles. Como na cena no ginásio, em que a família chora pela (falsa) morte de Hyun-seo e, em meio aos choros, um familiar começa a cair sobre o outro, até que todos se esparramam pelo chão, se debatendo de maneira engraçada. Há outras cenas tão incríveis quanto essa, todas dirigidas com maestria. Em outros casos, a câmera lenta que traz dramaticidade permite também a expressão do cômico.

Isso leva a outro ponto fundamental do filme, que deve ser ressaltado: a quebra de convenções também se dá na estrutura formal da obra, não apenas no enredo. A opção por determinado ângulo e/ou velocidade de câmera faz com que se criem determinadas expectativas, que o diretor faz questão de frustrar. No entanto, o espectador nunca se frustra. Deleita-se com o inesperado.

Foco na família

Em “O Hospedeiro”, parece haver espaço para tudo. Nada é abandonado em nenhum momento. Contudo, mais que nos sustos (há pouquíssimos) ou em qualquer outra coisa, o foco está na família. Na oposição entre vícios e virtudes, é ela a detentora das virtudes, apesar de todos os seus problemas. É a família de classe mais baixa que tem forças para lutar contra o monstro, diante da ineficácia do Estado. Assim, as críticas do filme não se dirigem apenas aos Estados Unidos, o que seria óbvio e menos significativo, mas também ao governo sul-coreano, que só faz trapalhadas.

A “descoberta” pelos norte-americanos de que o monstro é “o hospedeiro” de um “vírus” e o combate biológico através do “agent yellow”, uma clara alusão ao “agent orange” usado no Vietnã, comprovam essa capacidade de desarrumar o desarrumado. Desse modo, cabe à família a tarefa de lutar. E, tal como em “Memórias de um Assassino”, só a união faz a força, mesmo que a força não garanta a vitória. Nenhum personagem consegue nada sozinho, um ajuda o outro. É uma mensagem de celular, transmitida pelo irmão alquebrado, que dá à irmã a localização da sobrinha, por exemplo.

Lutando contra tudo e contra todos, de