Cérebro usa apenas 20% de seus neurônios formadores de lembranças
O ritmo de ativação de uma proteína pelo neurônio influencia a memória. A descoberta promete novos tratamentos para Alzheimer
Nikhil Swaminathan
Você se lembra daquela velha história de que as pessoas usam apenas 10% do cérebro? Apesar de um novo estudo confirmar que esse lugar-comum é falso, ele revelou também que talvez usemos somente 20% das células nervosas do mesencéfalo para construir lembranças.
Pesquisadores da University of California, em Los Angeles, e do Hospital for Sick Children, em Toronto, monitoraram neurônios nas amídalas laterais (duas regiões em formato de amêndoas em cada lado do mesencéfalo, associadas ao aprendizado e à memória) de camundongos para analisar se a presença da proteína CREB tem algum papel na sinalização dos neurônios para a formação de lembranças. CREB quer dizer elemento de ligação a proteínas de resposta à molécula adenosina monofosfato cíclico, na sigla em inglês.
Acredita-se que a CREB, um fator de transcrição que geralmente aumenta a produção de outras proteínas nas células, esteja envolvida no registro de lembranças em vários organismos, de lesmas do mar a seres humanos. Os cientistas esperam que as descobertas, publicadas na revista Science, possam ajudar a abrir caminho para novos tratamentos para o Mal de Alzheimer.
Os pesquisadores injetaram um vetor criado para fazer com que a produção de CREB voltasse ao normal nos camundongos que tinham sido geneticamente alterados para produzi-la em níveis mais baixos. Este procedimento garantiu aos animais antes deficientes em CREB, e que também apresentavam problemas para construir lembranças, resultados tão bons em testes de memória quanto camundongos normais. Durante o experimento, os camundongos ouviam um barulho e então recebiam um choque; quando o som aparecia de novo, os animais normais e aqueles com a função CREB restaurada ficavam paralisados por um período curto de tempo: uma típica reação de medo.
Ao dessecarem os cérebros dos camundongos, os pesquisadores descobriram que as sondas fluorescentes que tinham fixado nos vetores de CREB mostraram que haviam afetado apenas 20% dos neurônios nas amídalas laterais. “Isso nos surpreendeu. Pensávamos que iríamos afetar muito mais neurônios para obter uma mudança significativa na memória”, diz a co-autora Sheena Josselyn, do Hospital for Sick Children. “Nem todos os neurônios participaram dessa lembrança e a CREB é tudo que você precisa para obtê-la”.
Para determinar se as células produtoras de CREB estavam envolvidas, os cientistas buscaram seguir o processo de formação de lembranças inserindo um marcador fluorescente para verificar se o RNA de um gene conhecido como Arc havia sido transcrito recentemente nos neurônios. Os níveis de Arc são normalmente baixos em uma célula, mas aumentam consideravelmente quando ocorre atividade neuronal. O RNA é transcrito no núcleo da célula e então transportado até o dendrito, a projeção do neurônio que recebe informações de outras células. “O RNA do Arc é um bom indicador molecular da atividade de um neurônio”, diz Josselyn. Ela ressalta também que se a equipe encontrasse RNA no núcleo dos neurônios imediatamente após uma tentativa, saberia que as células estavam ativas nos últimos cinco minutos; se o marcador estivesse no dendrito, eles estimariam que a atividade teria ocorrido vinte minutos antes.
A equipe descobriu que núcleos com CREB normal têm uma chance três vezes maior de ter sinais de Arc que nos núcleos dos neurônios em que a CREB estava com problemas. Os pesquisadores também testaram camundongos injetados com um vetor que diminuia seletivamente a função CREB em alguns de seus neurônios. Depois de fazer os “testes do medo” mais uma vez, eles notaram que os animais aprenderam normalmente, o que sugere que os neurônios não afetados pelo vetor de redução da CREB ainda estavam produzindo essa proteína suficientemente para memorizar os fatos.
Os resultados: o traço de lembrança, sinalizado pelo Arc, mostrou que a atividade aconteceu em 20% dos neurônios. “Achamos que, na verdade, trata-se de uma competição, e que os neurônios estão lutando uns contra os outros para se envolverem no processo de memorização”, diz Josselyn.
Cada lembrança pode ser formada pela mesma porcentagem de neurônios, mas não pelas mesmas células nervosas. Os pesquisadores também não têm certeza do que realmente impulsiona a função CREB e, portanto, da probabilidade de qualquer neurônio específico participar no processo de criação da lembrança. Mas Josselyn especula que o cérebro provavelmente “diferencia lembranças usando neurônios diferentes para codificá-las”.
No futuro, Josselyn diz, o mecanismo poderia ser aproveitado para criar um novo tratamento para o Mal de Alzheimer. “Com o tempo, vamos ter algum tipo de tratamento de substituição de neurônios para essa doença”, ela diz, e admite “Por enquanto ainda é um pouco de ficção científica”. Mas, se neurônios novos forem inseridos em um cérebro danificado, modular a função CREB poderia induzir o cérebro em recuperação a usar os neurônios que realmente funcionam, e não seus representantes comprometidos.
Scientific American Brasil
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