Arquivo de 3 de Maio de 2007

Cérebro usa apenas 20% de seus neurônios formadores de lembranças

O ritmo de ativação de uma proteína pelo neurônio influencia a memória. A descoberta promete novos tratamentos para Alzheimer

Nikhil Swaminathan

Você se lembra daquela velha história de que as pessoas usam apenas 10% do cérebro? Apesar de um novo estudo confirmar que esse lugar-comum é falso, ele revelou também que talvez usemos somente 20% das células nervosas do mesencéfalo para construir lembranças.

Pesquisadores da University of California, em Los Angeles, e do Hospital for Sick Children, em Toronto, monitoraram neurônios nas amídalas laterais (duas regiões em formato de amêndoas em cada lado do mesencéfalo, associadas ao aprendizado e à memória) de camundongos para analisar se a presença da proteína CREB tem algum papel na sinalização dos neurônios para a formação de lembranças. CREB quer dizer elemento de ligação a proteínas de resposta à molécula adenosina monofosfato cíclico, na sigla em inglês.

Acredita-se que a CREB, um fator de transcrição que geralmente aumenta a produção de outras proteínas nas células, esteja envolvida no registro de lembranças em vários organismos, de lesmas do mar a seres humanos. Os cientistas esperam que as descobertas, publicadas na revista Science, possam ajudar a abrir caminho para novos tratamentos para o Mal de Alzheimer.

Os pesquisadores injetaram um vetor criado para fazer com que a produção de CREB voltasse ao normal nos camundongos que tinham sido geneticamente alterados para produzi-la em níveis mais baixos. Este procedimento garantiu aos animais antes deficientes em CREB, e que também apresentavam problemas para construir lembranças, resultados tão bons em testes de memória quanto camundongos normais. Durante o experimento, os camundongos ouviam um barulho e então recebiam um choque; quando o som aparecia de novo, os animais normais e aqueles com a função CREB restaurada ficavam paralisados por um período curto de tempo: uma típica reação de medo.

Ao dessecarem os cérebros dos camundongos, os pesquisadores descobriram que as sondas fluorescentes que tinham fixado nos vetores de CREB mostraram que haviam afetado apenas 20% dos neurônios nas amídalas laterais. “Isso nos surpreendeu. Pensávamos que iríamos afetar muito mais neurônios para obter uma mudança significativa na memória”, diz a co-autora Sheena Josselyn, do Hospital for Sick Children. “Nem todos os neurônios participaram dessa lembrança e a CREB é tudo que você precisa para obtê-la”.

Para determinar se as células produtoras de CREB estavam envolvidas, os cientistas buscaram seguir o processo de formação de lembranças inserindo um marcador fluorescente para verificar se o RNA de um gene conhecido como Arc havia sido transcrito recentemente nos neurônios. Os níveis de Arc são normalmente baixos em uma célula, mas aumentam consideravelmente quando ocorre atividade neuronal. O RNA é transcrito no núcleo da célula e então transportado até o dendrito, a projeção do neurônio que recebe informações de outras células. “O RNA do Arc é um bom indicador molecular da atividade de um neurônio”, diz Josselyn. Ela ressalta também que se a equipe encontrasse RNA no núcleo dos neurônios imediatamente após uma tentativa, saberia que as células estavam ativas nos últimos cinco minutos; se o marcador estivesse no dendrito, eles estimariam que a atividade teria ocorrido vinte minutos antes.

A equipe descobriu que núcleos com CREB normal têm uma chance três vezes maior de ter sinais de Arc que nos núcleos dos neurônios em que a CREB estava com problemas. Os pesquisadores também testaram camundongos injetados com um vetor que diminuia seletivamente a função CREB em alguns de seus neurônios. Depois de fazer os “testes do medo” mais uma vez, eles notaram que os animais aprenderam normalmente, o que sugere que os neurônios não afetados pelo vetor de redução da CREB ainda estavam produzindo essa proteína suficientemente para memorizar os fatos.

Os resultados: o traço de lembrança, sinalizado pelo Arc, mostrou que a atividade aconteceu em 20% dos neurônios. “Achamos que, na verdade, trata-se de uma competição, e que os neurônios estão lutando uns contra os outros para se envolverem no processo de memorização”, diz Josselyn.

Cada lembrança pode ser formada pela mesma porcentagem de neurônios, mas não pelas mesmas células nervosas. Os pesquisadores também não têm certeza do que realmente impulsiona a função CREB e, portanto, da probabilidade de qualquer neurônio específico participar no processo de criação da lembrança. Mas Josselyn especula que o cérebro provavelmente “diferencia lembranças usando neurônios diferentes para codificá-las”.

No futuro, Josselyn diz, o mecanismo poderia ser aproveitado para criar um novo tratamento para o Mal de Alzheimer. “Com o tempo, vamos ter algum tipo de tratamento de substituição de neurônios para essa doença”, ela diz, e admite “Por enquanto ainda é um pouco de ficção científica”. Mas, se neurônios novos forem inseridos em um cérebro danificado, modular a função CREB poderia induzir o cérebro em recuperação a usar os neurônios que realmente funcionam, e não seus representantes comprometidos.

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

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O PAPA E OS MENDIGOS DA SÉ

O delegado responsável pela segurança de Bento XVI decidiu varrer os mendigos da Sé para segurança do Papa. Esse fato me chamou a atenção porque foi ali, com os mendigos da Sé, que eu e outros colegas fizemos nosso batismo na “opção pelos pobres”. Um deles é o Ruben Siqueira, da CPT do São Francisco.
Na década de 70, através da OAF (Organização do Auxílio Fraterno), nós andávamos pelas madrugadas de São Paulo encontrando com o povo da rua. Naquela época era apenas uma conversa e uma sopa. Mas foi a partir da sopa que as irmãs que faziam o trabalho acharam que, apesar da condição de indigência, aquelas pessoas mantinham sua dignidade e capacidade de reação. Foi proposto, então, um encontro com elas. E o encontro aconteceu numa velha casa ali pelas imediações da Sé. Compareceram umas cinqüenta pessoas que viviam nas ruas. No dia do encontro, estava entre o povo da rua o missionário americano Lourenço, que vivia nas ruas de Recife e havia sido preso pelo regime militar. Foi solto quando da visita de Jimmy Carter. D. Hélder havia dito a respeito dele: “para entender esse trabalho é preciso ter olhos que vejam e coração que sinta”.
Depois compareceu ao encontro D. Evaristo Arns. Ficou ali umas duas horas, conversou com o pessoal e disse uma frase que até hoje não me esqueço: “rezo por vocês todas as noites, principalmente quando está muito frio, para que o sofrimento de vocês não seja tão terrível”.
Depois, durante a missa, alguém perguntou a eles se iam à missa. Um deles respondeu: “eu vou, mas quando entro o pessoal me expulsa da Igreja”. O outro completou: “quando está muito frio, eu vou ali no pátio do mosteiro passar a noite, mas os monges jogam água fria na gente para expulsar a gente de lá”.
Bom, depois viemos morar no sertão, afinal, quem morava debaixo das pontes era o “Ceará, o Paraíba, o Pernambuco, o Baiano etc”. Portanto, o problema começava longe das pontes e viadutos de São Paulo. O trabalho com o povo da rua evoluiu muito e hoje temos a pastoral do povo da rua organizado no Brasil inteiro.
Talvez seja mais seguro e mais cômodo fazer a segurança do Papa afastando os mendigos de seu convívio. Eles importunam. Talvez seja mais fácil que apenas os banhados, perfumados e bem vestidos se aproximem de Bento XVI. Porém, embora o Papa pareça uma pessoa simples e generosa, seria bom que ele tivesse contato com os mendigos. Eles poderiam, por exemplo, estar na primeira fila da missa que será celebrada na catedral. O Papa iria ver que eles fazem parte da paisagem da cidade e de todo continente latino-americano. Ainda mais que eles são um desafio evangélico e pastoral para a Igreja. O pessoal põe o Papa numa redoma de vidro, longe da realidade dura da vida. Ele, que é um intelectual fino e europeu, com pouca vivência pastoral, teria a mesma chance de D. Helder, D. Arns, Lourenço etc. de ver como é dura a vida dos pobres latino-americanos.
Enfim, pode ser mais fácil para a segurança e menos incômodo para os bem vestidos que os mendigos estejam longe do evento. Mas seria infinitamente mais cristão que eles estivessem presentes.

Roberto Malvezzi, o Gogó, é coordenador da Comissão Pastoral da Terra, CPT.

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Yolanda de Waldir

Quando, no início de abril, resistindo às pressões militares e midiáticas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva negou a destituição do ministro Waldir Pires do comando da Defesa, mais que afirmar sua autoridade, reverenciou uma biografia política.

Gilson Caroni Filho

Há atos que, pela dimensão simbólica, transcendem as motivações imediatas que os produziram. São os que ficam registrados na história como aqueles em que, nos interstícios da ação política, o soberano submeteu a fortuna à virtù e, num átimo, se afirmou como ator republicano.

Quando, no início de abril, resistindo às pressões militares e midiáticas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva negou a destituição do ministro Waldir Pires do comando da Defesa, mais que afirmar sua autoridade, reverenciou uma biografia política. Homenageou um homem e seu tempo. Na verdade, reconheceu um homem de vários tempos. Tempos grávidos de avanços e retrocessos. Tempos em que a grandeza e o espírito de vida pública não permitiam que se tomassem derrotas como definitivas

Waldir nunca temeu o recomeço. Se for verdade que em cada cabeça há uma sentença, ele faz parte de uma geração que pensou o Brasil coletivamente e do país fez seu projeto de vida.

Com Pires, em uma equipe de governo que tratou as reforma de base como profissão de fé, estavam Hermes Lima, Celso Furtado, Santiago Dantas, Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, Carvalho Pinto e Paulo Freire. Quadros políticos de primeira linha. Gente, em sua maioria, banida para o exílio pelo golpe militar de 1964. Muitas não voltariam. Pessoas públicas que, sob o impacto da perda, avançaram, alternando o olhar entre o futuro incerto e o passado em escombros, rumo a terras estranhas.. Sabiam que a estátua de sal era a ditadura instalada. E partiram com pertences e parceiras.

Tristãos e Isoldas a beber poções de vazio. Homens e mulheres que não pertencem apenas uns aos outros. São parceiros da história, parteiros do devir. Maria Tereza, de João Goulart: Berta Loureiro, de Darcy Ribeiro; Lúcia, de Celso Furtado; Sara, de JK; Glauce, de Josué de Castro; Yolanda Avena, de Waldir Pires,entre outros casais, formaram a simbiose que neutraliza a estranheza dos apátridas e espanta o receio do retorno incerto.

Yolanda não foi apenas o esteio de Waldir Pires.Culta e determinada, reorganizou, na medida do impossível, um lar de fronteiras incertas. Enquanto Waldir, ex-fundador da UNB e Consultor Geral da República, passava do desemprego no Uruguai à recuperação do prestígio acadêmico em universidades francesas, ela intensificava o estudo da língua, enveredando pela literatura e do país que os acolheu. Em Exílio: testemunho de vida, seu livro, relata o entusiasmo com que leu Emile Zola, a poesia trágica de Baudelaire, os poemas delirantes do jovem Rimbaud e a psicologia profunda de Camus.

Nem o bom padrão de vida alcançado, fez deixá-los de pensar no Brasil. Ou, na têmpera de combatentes, de sonhá-lo como projeto a ser retomado.

“Renunciamos à nossa vida privada que poderia ser livre, disponível, aos prazeres, à convivência amorosa com nossos filhos e netos! Fomos para o Uruguai…Para o Rio de Janeiro…Viemos para a Bahia, pensando: será possível quebrar a hegemonia desse poder que no Brasil se instalou, abastardou-se na corrupção, na mentira, na manipulação da consciência?Era o desafio ao qual nos propúnhamos”, afirma Yolanda O resto é história.

Do retorno ao Rio, em plena ditadura Médici, ela retoma a militância atuando no Movimento Feminino pela Anistia. Ele, aguardando o momento certo para voltar à Bahia, dedica-se à iniciativa privada. A perda súbita de um filho não arrefece a luta pelos direitos humanos. Agora, muitos são os filhos. Dos mortos reclama os corpos. Dos vivos, muitos estão nos porões da ditadura. .Era preciso soltá-los.E, se possível, abraçá-los. A tenacidade de uma mulher em luta não comporta comparações.

Waldir assume, em 1985, o Ministério da Previdência, transformando um déficit de Cr$ 8 trilhões em superávit de pouco mais de Cr$ 2 trilhões. Em 1986, elege-se governador da Bahia, impondo uma derrota histórica ao carlismo.

Yolanda, em 1992, torna-se vereadora de Salvador, dando curso a uma vida político-afetiva que, se não fosse a dois, teria sido impossível. Em 9 de setembro de 2005 faleceu, após uma cirurgia cardíaca. Cinco anos antes, declarava desejar que ” que nossos filhos e os filhos de tantos expatriados soubessem que eles foram e são importantes no destino que escolhemos”

Ao não demitir Pires, quando o conservadorismo exigia uma destituição humilhante, Lula mostrou saber da luta de Yolanda e Waldir. Reverenciou dois combatentes que, mesmo separados, permanecerão juntos na história da democracia brasileira. Um casal que levou a filha, Lídia, a vaticinar com precisão: “Pai, a guerra vem de acordo com o guerreiro”. Estava certa. Eles venceram.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, e colaborador do Jornal do Brasil, Observatório da Imprensa e La Insignia.

Carta Maior
http://agenciacartamaior.uol.com.br/

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