Arquivo de 5 de Maio de 2007

À sombra dos cactus em flor

Lawrence, Breton, Trotski, Kerouac: um célebre time já passou pelo México sem a pressa dos turistas

Sérgio Augusto
ESPECIAL PARA O ESTADO

O novo livro de Carlos Fuentes traduzido pela Rocco, Geografia do Romance, já está na mala, junto com duas curtas relíquias de Alfonso Reyes (Aquellos Dias e De Viva Voz, pequenos ensaios memorialísticos escritos entre 1917 e 1947).
Vai dar para ler todos: não durmo em avião, e, só no ar, ida e volta, serão umas 16 horas. Destinación? México, por supuesto. Minha sexta viagem à terra de Reyes, Fuentes, e também de Maria Félix e Cantinflas. A primeira foi há 35 anos. Talvez seja redundante dizer que adoro o México (incluída a comida), mas não de todo irrelevante revelar que, de suas cidades mais conhecidas, só não conheço, nem pretendo conhecer, Vera Cruz, Tampico e Tijuana.
Esquisitice não é. O México não é apenas um país pitoresco, colorido e caloroso. Sua história, na verdade, são duas: a pré-colombiana e a pós-Hernán Cortéz. Duas civilizações acumuladas, soma que nestas paragens não se deu, pois, como é sabido, nossos silvícolas não suportam qualquer comparação com maias e astecas.
No início do século passado, o México foi uma espécie de França dos trópicos: um refúgio generoso, com um passado de glórias e um futuro promissor, berço de Montezuma e Pancho Villa. Nas décadas seguintes, a peregrinação não cessou. De D.H. Lawrence a André Breton, passando por Trotski e Jack Kerouac, um timaço de celebridades artísticas e políticas por ela passou, sem a pressa dos turistas, e nela se instalou, com e sem os melindres dos adventícios.
Fascinado pelas relações entre Montezuma e Cortéz, o poeta americano Hart Crane (1899-1932) passou meses no México em busca de inspiração para um épico que nunca pôs no

HART CRANE PASSOU MESES EM BUSCA DE INSPIRAÇÃO PARA UM ÉPICO QUE NUNCA FEZ

papel. No meio do Caribe, voltando para os EUA, caiu no mar. De porre, supõe-se. Seu corpo nunca foi encontrado.
Dezoito anos antes, seu conterrâneo, o contista e jornalista Ambrose Bierce (1842-1914), também desaparecera sem deixar rastro, só que, presume-se, em terra firme, provavelmente durante um confronto da Revolução Mexicana, à qual fora prestar solidariedade.
Outro jornalista americano, John Reed (1897-1920) - aquele glamourizado por Warren Beatty no filme Reds - logrou chegar são e salvo à derrubada do ditador Porfírio Díaz. Também entrou na linha de fogo, mas, embora simpatizante da causa dos insurgentes, limitou-se ao seu ofício, resultando da experiência um livro-reportagem definitivo sobre aquela que foi a primeira grande insurreição popular do século 20: México Rebelde.
Montezuma, Pancho Villa-e, finalmente, Cárdenas. Ou melhor, general Lázaro Cárdenas, o terceiro herói mexicano. Eleito presidente em 1934, seduziu as massas com atitudes populistas e um programa político-econômico nacionalizante e socializante. Em seu relato (The Lawless Roads) sobre a viagem que fez pelo interior do México, em 1939, um ano antes de Cárdenas deixar o poder, Graham Greene retratou o general como um ‘pérfido caudilho’. Greene, muito mais católico naquele tempo, pegou o auge da repressão anticlerical sob Cárdenas, trauma que afinal lhe forneceria a trama do romance O Poder e a Glória, publicado em 1940.
Evelyn Waugh (1903-1966) exagerou ainda mais nas tintas.
Estivera no México em 1938, acompanhado da mulher e à custa de Clive Pearson, milionário londrino cujas empresas de petróleo haviam sido recentemente nacionalizadas pelo governo Cárdenas, por sinal, com o apoio entusiástico dos socialistas britânicos. Até o seu proverbial senso de humor Waugh perdeu na viagem, o que talvez explique o fracasso de vendas de
Robbery Under Law: The Mexican Object Lesson, seu testemunho do que viu (e detestou) na terra de Emiliano Zapata.
Trotski (1879-1940) não teve do que se queixar do governo Cárdenas. Ao descer no porto de Tampico, no golfo do México, em 1937, encontrou o trem presidencial à sua espera, para levá-lo, a ele e sua mulher, Natália, até a Cidade do México. Enclausurado numa casa transformada em fortaleza, pouco saboreou do México.
Por duas vezes deslocou-se para o interior, para cavalgar, caçar e descansar os olhos e os neurônios da maratona intelectual e política em que viveu metido até o dia em que Ramón Mercader enfiou aquele furador de gelo em sua cabeça.
Ao contrário de Eisenstein, o cineasta americano John Huston (1906-1987), só guardou boas recordações do México.
Rodou por lá três filmes (O Tesouro de Sierra Madre, A Noite do Iguana e À Sombra do Vulcão), e, durante mais de duas décadas morou em Puerto Vallarta, balneário do nordeste mexicano. ‘É o melhor lugar do mundo para se viver’, revelou em sua autobiografia. Era o que também pensavam B. Traven e Malcolm Lowry, os respectivos autores de O Tesouro de Sierra Madre e À Sombra do Vulcão.
Traven foi uma das figuras mais misteriosas da literatura ocidental. Seu verdadeiro nome, ninguém sabia; seu rosto, raríssimos puderam vê-lo. Nasceu entre 1882 e 1901 e morreu, isto é certo, em 1969, deixando uma não menos misteriosa viúva na Cidade do México. Sua mais remota aparição deu-se na antiga Alemanha ocidental, onde fez carreira como ator e fama como anarquista, com o nome de Ret Marut. Condenado à morte em 1919, fugiu para Moscou, aliou-se a Stalin, mandou-se para a França, alistouse na marinha mercante e acabou como ‘El Rubio’, o mais inflamado agitador do sindicato dos petroleiros mexicanos. Escreveu mais de 30 livros e cuidou de queimar todos os seus manuscritos inéditos, antes de dar o último suspiro.
Enquanto B. Trave se escondia, Lowry (1909-1957) fazia que nem Hart Crane: enchia a cara.
Preferia gin, mas, em situações extremas, entornou até água de colônia e bebeu tequila no penico de um xadrez, na cidade de Oaxaca. Um bêbado terminal, com o seu alter ego ficcional, o diplomata de À Sombra do Vulcão. Esteve duas vezes no México, a primeira no final da década de 30, deixando um dossiê que um policial esfregou em sua cara, aos gritos de ‘borrachón’.
Encontrou lá o que procurava: uma paisagem árida, um povo místico e uma filosofia de vida visceralmente ligada à morte.
Greene vivia reclamando do calor, das moscas, da comida apimentada (também foi vítima da ‘vingança de Montezuma’, eufemismo do piriri que a apimentada culinária local costuma provocar nos gringos sem os necessários anticorpos). Nem a tequila apreciou: ‘uma aguardente inferior’.
A visão que o surrealista francês André Breton (1896-1966) teve do México foi quase tão ligeira quanto a de Trotski. Chegou em abril de 1938, como emissário da 4ª Internacional, criada por Trotski, praguejando contra o fascismo montante e o stalinismo estabelecido. Propôs um manifesto contra a arte oficial soviética, ‘mais serviçal que a arte cortesã da monarquia’, segundo Trotski. E assim, sob o sol dos astecas, os dois redigiram e assinaram, com o aval do muralista mexicano Diego Rivera, marido de Frida Kahlo e hos

ARTAUD TAMBÉM CAIU DE AMORES PELA RAÇA E PELO SANGUE DOS MEXICANOS

pedeiro de Trotski, o célebre panfleto Por Uma Arte Revolucionária Independente, traduzido em 1985 pela Paz e Terra.
Antes e depois de Cárdenas, mais dois escritores ingleses tiveram sua experiência mexicana. D.H. Lawrence (1885-1930) e Aldous Huxley (1894-1963). Lawrence, que foi antes, execrava a Inglaterra e perseguia o sol em todos os quadrantes, do Mediterrâneo ao sul do Pacífico.
Achava que o clima mexicano lhe faria bem ao espírito e aos frágeis tubérculos pulmonares. ‘This place is no good’, foi sua conclusão sumária. Contraiu malária e também foi ‘vingado por Montezuma’. De quebra, pegou uma tempestade e um terremoto. Achou a paisagem local um convite à depressão. ‘A tal ponto desoladora’, escreveu, ‘que até as igrejas têm duas torres. Se só tivessem uma torre, ela morreria de solidão.’ Quem ler A Serpente Emplumada, romance publicado em 1926, não terá dificuldades para identificar na protagonista, Kate Leslie, traços do autor e sua mulher, Frieda.
Era o general Eliás Calle quem governava o México quando o cineasta soviético Eisenstein (1898-1948) apareceu por lá, com um assistente (Alexandrov) e seu cinegrafista de confiança (Tissé). Vinha de uma abortado projeto para os estúdios da Paramount, em Hollywood, e, a conselho de Chaplin, acertara com o romancista Upton Sinclair a produção de um ambicioso semidocumentário, intitulado Que Viva México!.
Nos 60 mil metros de película que logrou filmar, gravou algumas das imagens mais expressivas da paisagem e do ethos mexicanos. Ao romper com Sinclair, em janeiro de 1932, quando se preparava para rodar a penúltima das seis partes do filme, perdeu o direito de montálo, e teve de voltar para a União Soviética. Sinclair retalhou e vendeu o material filmado, que, em versões apócrifas e fitas alheias, circulou quase cinco décadas, até cair nas mãos de Alexandrov e recuperar a forma prevista por Eisenstein.
Todos os ingleses desbundaram com o México, no bom e no mau sentido. Nem a mente razoavelmente equilibrada de Huxley escapou ao choque cultural, e uma prova contundente está em Beyond the Mexique Bay, escrito em 1934, um ano depois de uma árdua travessia pela Guatemala e México. Embora tivesse qualificado as cidades que visitara de ‘pecados de omissão mental e espiritual’, voltaria, 20 anos depois, atrás de peyote, um tipo de cacto cujo alcalóide, a mescalina, o ajudaria a escancarar as portas da percepção.
Por elas entraria o americano William Burroughs (1914-1997), o junkie globetrotter, em cuja casa, na Cidade do México, Jack Kerouac (1922-1969) passou dois meses, no verão de 1958, dissipando-se com todas as drogas disponíveis. Atravessara a fronteira atraído ‘pela fartura de mulheres e marijuana’. Anos mais tarde, retornaria, legando-nos, no fim das contas, um conto (The Mexican Girl) e as ‘meditações sensoriais’ de Mexico City Blues. Pelas mesmas portas entrariam ainda Timothy Leary (1920-1996), o profeta lisérgico dos anos 1960, e o Saint-Exupéry dos hippies, Carlos Castañeda (1935-1998).
Lowry amava a paisagem. Lawrence apreciava o cheiro das manhãs e a graça dos papagaios. Reed imaginava o que teria acontecido com o México se os maias e astecas tivessem derrotado os espanhóis. Artaud (1896-1948), o polivalente intelectual francês, caiu de amores ‘pela raça e pelo sangue’ dos mexicanos. Apesar de enviado pelo ministério da Educação da França para uma série de conferências sobre teatro, na Cidade do México, em 1936, alardeou ter fugido da civilização européia (’racionalista e falida’) para banhar-se na cultura asteca (’superior e curativa’). Achou tudo maravilhoso. Por pouco não cruzou com Waugh. Ainda bem. Teriam saído no tapa.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

Comentários (2)

Investidores chineses desprezam advertência do Banco Central

Jamil Anderlini e Richard McGregor

O mercado de ações da China desprezou uma advertência do Banco Central sobre o perigo de uma bolha de ações e atingiu na terça, dia 8/5, outro recorde, um sinal da diminuição da capacidade do governo de controlar os preços das ações.

Pelo menos três jornais estatais publicaram reportagens de destaque sobre a advertência de Zhou Xiaochuan, governador do Banco do Povo da China, feita em Basiléia no domingo. Quando Zhou foi perguntado se temia a formação de uma bolha no mercado de ações, ele respondeu que sim.

Mas seus comentários, os últimos de uma série de declarações oficiais manifestando temores sobre o nível do mercado, foram ignorados pelos investidores, que fizeram o índice subir quase 3%.

Declarações sobre a Bolsa feitas por autoridades graduadas há muitos anos definiram os preços das ações na China, onde os investidores tomavam a palavra do governo como um evangelho. Essas declarações eram tradicionalmente feitas através do jornal “Diário do Povo”, porta-voz do Partido Comunista, geralmente em artigos assinados por um “correspondente especial” anônimo.

No atual mercado touro, porém, em que novas contas de investimento estão sendo abertas no nível de mais de um milhão por semana, as advertências das autoridades parecem subitamente impotentes.

“Ninguém acredita que Zhou possa fazer alguma coisa para afetar o mercado”, disse Fraser Howie, autor de um livro sobre o mercado de capitais chinês. “Existem muitos apostadores com um monte de dinheiro que estão preparados para continuar investindo.”

O índice composto Xangai subiu 130% no ano passado e está em alta de 50% este ano. Um de seus principais motores são as baixas taxas de juros da China, que oferece aos poupadores do país juros de apenas 2%, um retorno real negativo comparado com a inflação de mais de 3%.

“Se Zhou realmente quisesse afetar o mercado ele poderia dobrar o índice de depósitos bancários [controlado pelo governo], mas isso arrasaria os bancos estatais”, disse Howie.

Em dezembro de 1996 o “Diário do Povo” publicou um editorial na primeira página intitulado “Sobre a correta compreensão do mercado de ações atual”, que advertia contra a especulação excessiva. Naquele dia o mercado caiu 9,91%, e outros 9,44% no pregão seguinte, enquanto os investidores devidamente interpretavam o editorial como a posição oficial do governo.

Em comparação, quando o “correspondente especial” declarou no mesmo jornal em junho de 1999 que o aumento nos preços das ações era “saudável”, o mercado subiu.

Ainda em janeiro passado, os preços das ações caíram acentuadamente depois de comentários sobre o mercado feitos por Cheng Siwei, um alto membro do Congresso Nacional do Povo.

As autoridades têm outras maneiras de influenciar os preços das ações. Principalmente, todas as emissões de papéis devem ser aprovadas pelo órgão regulador, o que teoricamente permite que aumente a oferta de ações e contenha os aumentos de preços. O governo também poderá usar medidas fiscais para conter a demanda.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Financial Times

Comentários (1)