Arquivo de 6 de Maio de 2007

Fronteiras culturais: barreiras e contatos

As fronteiras culturais mostraram, já nos primórdios da Europa Moderna, sua dupla natureza de obstáculos e de aproximações

Peter Burke

A idéia de fronteira cultural é um conceito atraente. O problema é que a idéia é atraente demais, de modo semelhante à própria idéia de “cultura”, já que significa coisas diferentes para pessoas diferentes. Usar o conceito representa um perigo constante de passar do sentido literal da expressão para um sentido metafórico, de fronteiras lingüísticas, tais como aquela que separa o francês do alemão na Alsácia, por exemplo, para as ‘’fronteiras”entre classes sociais, entre o sacro e o profano, entre o sério e o cômico, entre a história e a ficção.

Em seus Ensaios, Montaigne sugeriu que havia uma fronteira da verdade e que o que seria considerado verdade de um lado dos Pireneus (à época em que o sul da França era em grande parte protestante) era considerado falso do outro. O historiador da sociologia Norbert Elias ligou o desenvolvimento da civilização ocidental à expansão daquilo que ele chamou de “fronteira da vergonha” (Schamgrenze), querendo dizer que, com o passar dos séculos, os europeus consideraram vergonhosas um número cada vez maior de ações.

A seguir usarei o termo “fronteira” na sua acepção primeira, espacial, e “cultura” na sua acepção ampla e antropológica, referindo-se a valores e sua expressão ou corporificação em artefatos e práticas. Pode ser útil (seguindo os antropólogos que, por sua vez, seguem os lingüistas) trabalhar simultaneamente com duas concepções de fronteira cultural.

A primeira é a abordagem da pessoa que está do lado de fora, o “outsider”, que se interessa por dados relativamente objetivos, que podem até mesmo ser mapeados. No caso da cultura culinária, por exemplo, podemos distinguir duas Europas, divididas pelas fronteiras do vinho e da cerveja, do óleo e da manteiga. No caso da moradia, ou do que os alemães chamam de Wohnkultur [cultura da habitação], houve, pelo menos entre 1400 e 1800, três Europas - as regiões da pedra, do tijolo e da madeira, mais ou menos correspondentes ao Mediterrâneo, à Europa Setentrional e à Oriental. No início da França moderna, uma linha diagonal de St. Malo a Genebra separava uma região com alto nível de alfabetização no Nordeste de outra com baixo nível no Sudoeste.

A segunda abordagem é aquela que parte de dentro, mais subjetiva, interessada na experiência de fronteiras, nos limites simbólicos de comunidades imaginárias. Essas fronteiras são difíceis, se não impossíveis de mapear, porém não deixam de ser fatos culturais, mesmo assim.

Barreiras

Segundo a concepção tradicional de fronteiras, elas eram essencialmente barreiras. Até que ponto essa idéia funciona no caso da cultura? É melhor ver as fronteiras culturais não como barreiras intransponíveis, mas, antes, como obstáculos que atrasam o progresso de inovações e até mesmo de notícias. Quando o monge Máximo o Grego chegou à Rússia em 1515, descobriu que os russos ainda não tinham ouvido falar da descoberta da América por Colombo.

As fronteiras religiosas são, freqüentemente, locais onde se recusa e resiste conscientemente à inovação. No início do período moderno, por exemplo, o mundo do Islã formava uma barreira à expansão da imprensa, porque a Palavra de Deus não deveria ser transmitida por meios mecânicos. De um lado da fronteira entre a Cristandade e o Islã havia Bíblias impressas; do outro, o Alcorão era aprendido de cor ou lido a partir de manuscritos.

Quanto ao nível subjetivo, os antropólogos muitas vezes indicaram a importância de distinguir-se dos outros, como parte da construção de identidades coletivas, demarcando os limites simbólicos de comunidades imaginárias. Neste nível subjetivo se enfatizaram com freqüência diferenças relativamente secundárias, usadas para erigir uma barreira entre “Nós” e “Eles”. Sigmund Freud desenvolveu esse aspecto em um ensaio sobre o que ele chamou de “narcisismo das pequenas diferenças”, e Pierre Bourdieu fez o mesmo em sua análise da “distinção”, que tratava especialmente da fronteira cultural entre a burguesia e a classe operária na França do final do século 20.
Intercâmbios

Uma segunda concepção de fronteiras as apresenta não (ou não apenas) como barreiras, mas, ao contrário, como pontos de encontro ou “zonas de contato”. Houve um tempo em que se pensava com freqüência que esses contatos tinham lugar entre a “selvageria” e a “civilização”, mas eles já passaram a ser descritos mais recentemente como encontros entre duas culturas diferentes.

É também esclarecedor ver as fronteiras como zonas com sua própria cultura, muitas vezes mais militar e, também, mais arcaica do que a cultura de centros urbanos. A cultura nos lados opostos de uma fronteira é freqüentemente muito similar, ao contrário da cultura das capitais, como ocorre no caso da cultura “gaúcha’ que o Rio Grande do Sul compartilha com o Uruguai e a Argentina.

Concluindo, neste breve ensaio, procurei mostrar que - mesmo sem recorrer a metáforas como Schamgrenze - é praticamente impossível escrever uma história cultural, mesmo no caso de um único país, ou até de uma única região, sem utilizar a noção de “fronteira”. Deixando de ser literalmente periférica, no que tange aos historiadores da cultura a noção de fronteira é - ou pelo menos se tornou - absolutamente central.
Peter Burke é professor de história da cultura na Universidade de Cambridge e membro da Emmanuel College, da mesma universidade. Autor de mais de trinta livros, entre eles, Popular Culture in Early Modern Europe (1978), A Revolução Historiográfica Francesa (1990), Amsterdã e Veneza: Um Estudo das Elites dos Séculos XVII (1991) e Uma história Social do Conhecimento: de Gutenberg a Diderot (2001).

Folha de S. Paulo

Comentários (1)

Biblioteca êxodos

Ferréz

Bom, foi nas andanças em várias quebradas que cruzei a primeira vez com ele.
Andava sempre arrumado, camisa com botões, sempre aberta, um boné estilo beisebol e uma corrente banhada com um pingente de Jesus.
A identificação foi imediata, curtia rap, mas tinha vontade de aprender com a literatura; convidei para ir em casa, e me surpreendi quando no outro dia ele tava lá.
O apelido Nego Du era uma abreviatura do seu nome Eduardo. Conversamos por algumas horas, e ele ficou de voltar. Na época revirou todos os meus livros para pegar um emprestado.
Depois disso foi constante sua presença, chegava já falando em comida, minha mãe fazia o prato e, quando eu não tava era a mesma coisa, não sei explicar, mas minha mãe adorava ele.
Nego Du era presença confirmada em todos os meus lançamentos, sempre tava com livros nas mãos, fazia parte de um grupo de rap chamado Realismo Frontal, que mais tarde adotaria o nome de Negredo.
Com o Nego Du eu gravei um especial pra Record na laje de uma casa, que era um ponto de venda de drogas, casa essa que mais tarde, de tanto a gente encher o saco, os caras largaram.
Foi aí que o Brown e o Negredo se apropriaram da casa e começaram a pensar em fazer uma rádio.
O tempo foi passando, as coisas mudando, e o projeto da rádio não saía; foi quando eu dei a ideia de fazer uma biblioteca no lugar, convenci um a um, e o mais difícil foi o Brown, mas ele e o pessoal acabaram aceitando.
Juntamos alguns trocados e compramos os materiais, o Brown chegava sempre com vontade de comprar caixas de som, de comprar discos, e eu pensando nos livros, e assim se passaram cinco anos, até que a casa estivesse pronta.
Pra manter a ordem das nossas ideias separamos dois ambientes, um pra livro e outro pra som, o Dj Ale, junto com o Dj Odair, sempre tava lá montando as pickups e fazendo um som, e eu pensava: “Como isso vai ser uma biblioteca com um barulho desses?”
O Brown contratou um marceneiro que fez as estantes, e eu organizei os livros, entre um trampo e outro, muita conversa, quem ganhava eram todos nós com tanto ponto de vista diferente.
Graças ao Arnaldo estava tudo pintado e só faltava bolar a inauguração, quando a laje começou a vazar, cada chuva vazava mais, até que ficou lastimável a situação.
O que seria o certo? Derrubar tudo e fazer de novo? Ce ainda tinha outro problema, um mano tava requisitando que era dono da laje da casa, e queria mudar pra lá de todo jeito, mas no debate ele perdeu, afinal nós somos fortes na comunidade, e estávamos lutando não por algo pessoal, mas por algo que envolve toda a comunidade. Mesmo assim, com o consenso de que ele precisava de uma casa, alguns manos juntaram uma grana e compraram um barraco pra ele.
Enquanto tudo isso acontecia para que a biblioteca ficasse pronta, num dia fatídico saiu um tiroteio na rua, e dois caras discutindo chegaram a trocar tiro e acertaram uma criança de 4 anos, e vocês não têm ideia do que é ter um peso desses na mente, afinal, se a biblioteca estivesse funcionando, talvez esse pequeno agora estivesse vivo.
E começamos a reconstrução da biblioteca, chegaram com a gente a Sophia Bisiliat e a sua mãe Maureen, trouxeram várias ideias, entre elas a de um DVD com a festa que o Negredo organizava todo ano na mesma rua da biblioteca, e a renda desse DVD seria para terminar a obra.
Começamos a projetar o DVD, juntamos vários artistas de hip-hop e no meio do caminho também nos decepcionamos com vários manos que de projeto social têm nojo até do nome, mas nem tudo é ruim, outros manos somaram mil graus, como o Gog, o Realidade Cruel, Zá-frica, Detentos do Rap, RDG, Muralha Sul, Colt 44, Rosana Bronx, Consciência Humana e Otraversão. E a festa aconteceu com a presença de 8.000 pessoas.
O DVD foi realizado, chama-se 100% Favela, além do showtem um documentário comigo, o Brown e o Negredo, além dos caras no estúdio. O DVD foi um sucesso pela qualidade e pelo trabalho de juntar tanta gente boa do rap, os que não quiseram se envolver hoje ficam se lamentando.
A renda do DVD é destinada ao projeto, mas uma má-fé na distribuição acabou nos deixando na mão, e pouca coisa sobrando para a biblioteca, enquanto isso o tempo ia passando.
Só com os recursos nossos tava difícil terminar, e chegou uma parceria que aos poucos foi somando, que é o Marcelo Loureiro, da Hucka.
Ele começou a trazer um engenheiro, que redesenhou o projeto e começou a nova obra.
Um corre danado e o Arnaldo (Negredo) tava de linha de frente na reconstrução de tudo.
Um dia chego lá todo animado e o Arnaldo tá com uma marreta de 3 quilos derrubando as paredes. Quando vi tudo destruído quase chorei, mas depois de alguns meses vi que tava valendo a pena recomeçar.
Pelo terreno ser úmido e a casa mal desenhada era necessário refazer, e até intervir em casas próximas já que a favela é muito desorganizada.
Bom, finalmente terminou a obra, enquanto estava construindo recebemos escritores importantes, entre eles, Paulo Lins (Cidade de Deus), Buzo (O Trem), Arnaldo Antunes, Lourenço Mutarelli.
Levar tanto tempo valeu a pena, porque vimos um ponto de droga virar um ponto de cultura, e naturalmente quem usava drogas nas vielas foi saindo e deu espaço para um novo público, o da leitura.
Hoje, depois da inauguração, dá pra ver que valeu muito a pena, o segundo andar da biblioteca chama Nego Du e vive lotado de criança, chamando a gente de tio pra cá, de tio pra lá.
A gente tá tendo que aprender a lidar com elas, pois não esperávamos esse público, pensamos em jovens e adultos. E foi uma surpresa, como tem sido todos os dias, cada coisa que elas falam; a cada ato que fazem, quem aprende muito mais somos nós.
O Gel, que é um graflteiro daqui, juntou mais vinte nomes do grafite e pintou todas as vielas próximas à biblioteca, e não é difícil você trombar com palavras como “Sabedoria” ou “Conhecimento” entre um beco e outro.
É pouco, sei disso, comparado com as mil bibliotecas que o governo prometeu no começo do mandato, mas essa única biblioteca na favela é de todos nós e, ao contrário das mil do governo, essa é real.

Caros Amigos

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