Arquivo de 7 de Maio de 2007

O espírito inquieto de Pasolini

Fernando Masini

O livro “Alì dos Olhos Azuis” reúne 20 textos escritos entre 1955 a 1967 pelo autor e cineasta italiano

O “Inferno” de Dante guarda uma inscrição na sua porta de acesso: “Deixai toda esperança, vós que entrais”. São as mesmas palavras proclamadas pela prostituta Amore ao alertar a inocente Stella sobre os perigos da profissão, ambas personagens do conto “Accattone”. Poderia se falar o mesmo antes de avançar no universo literário do escritor, poeta e cineasta italiano Pier Paolo Pasolini. Grande parte de seu legado tem como ambiente os cantos mais sórdidos de Roma e revela as peripécias de personagens desesperançados, em luta pela sobrevivência nas periferias da cidade.

Ler seus escritos é flanar pelas ruas com “cheiro de esterco”, percorrer vielas e observar o “horizonte embebido de imundície”, perambular pelas margens do rio Tibre, cujas águas, segundo Pasolini, são de um “verde ácido e podre”. E terminar o dia com o sol se pondo “vermelho como as bochechas de um tísico”. Cada personagem criado pelo escritor –seja ele uma prostituta, um cafetão ou o jovem que trabalha no abatedouro- carrega uma infância corrompida e uma esperança limitada de ascensão social.

A editora Berlendis e Vertecchia acaba de lançar o livro “Alì dos Olhos Azuis”, uma coletânea rechonchuda de 640 páginas (R$ 75), com 20 textos heterogêneos -de poemas a novelas- produzidos pelo escritor entre 1950 e 1965. A princípio, o escritor está mais preocupado em tecer estudos sociológicos de teor erudito, como em “Recortes de Noites Romanas” (1950) e “Estudos sobre a Vida em Testaccio” (1952). Aos poucos, Pasolini infiltra-se em situações mundanas, para construir histórias mais simples e cativantes. É o caso das sagas de Accattone e Mamma Roma, publicadas nos anos 60.

Na nota de introdução, um dos quatro tradutores envolvidos no projeto, Maria Cristina Pompa, esboça o caráter dos textos de Pasolini e traça o perfil da cidade de Roma retratada pelo autor. “A geografia pasoliniana da miséria e da marginalidade não pára nos limites da periferia, mas penetra e violenta os lugares consagrados da Roma do cartão-postal, junto com seus borgatari que à noite invadem a Cidade Eterna que nunca lhes pertencerá”, escreve.

O termo “borgate”, usado pela tradutora, diz muito a respeito do universo pasoliniano. Refere-se aos conglomerados de casas populares, comuns nos anos 50 e 60, localizados na extrema periferia de Roma. Pasolini fala muito dos moradores dessas habitações. No texto “Notas para um Poema Popular”, faz uma espécie de crônica social:

“No garoto da periferia há muito menos elegância, e muito mais delinqüência em um sentido menor dessa palavra. O impulso de suas reações é muito mais limitado e elementar: mais tacanho o seu modo de interpretar. É capaz de piedade muito menor. Não que haja nele pouca vida moral, simplesmente não tem nenhuma.”

Mais adiante, completa: “É necessário recordar que vive nos chamados ‘casebres’, casas para despejados, onde não há diferença entre o piso e a terra batida das ruas sujas, dos patiozinhos: ou em lotes mais nus que prisões. Tem um pouco dos fenômenos neuróticos de quem vive em um campo de concentração”.

Nos tipos retratados por Pasolini, inexiste uma noção bem definida de lealdade ou ao menos ela é subvertida no convívio entre malandros. Quando três comparsas, em “A Brava Noite”, tentam tirar proveito das putas com quem negociam uma relação, acabam sendo roubados por elas, que metem a mão no bolso e pegam toda a grana deles. Em “Accattone”, o personagem principal também passa a perna em amigos, ao tramar uma situação para não ter de dividir o macarrão com outros quatro colegas. Num dos diálogos do conto “A Brava Noite”, dois amigos discutem:

“- Pois é! A gente faz o que pode! O mundo é dos esperto!

- Você tem razão. Enquanto os trouxa existir, os esperto vão se dar bem!”.

É algo parecido com a esperteza criolla dos argentinos ou o jeitinho brasileiro. A lei é se dar bem, tendo jogo de cintura para sobreviver, mesmo que seja às custas de atitudes condenáveis. Quando Accattone –é o apelido do protagonista que significa mendigo– apaixona-se por Stella, ele promete presenteá-la com um par novo de sapatos. A única saída que encontra para conseguir dinheiro é furtar a correntinha de ouro do próprio filho Iaio e vendê-la depois.

Num texto de 1954, intitulado “Puta”, Pasolini nos mostra a história de migrantes napolitanos em busca de melhores condições de vida em Centocelle, região ao extremo leste de Roma. Nannina é uma garota ingênua que se muda com os três irmãos para a periferia da capital italiana. Passa a morar com a numerosa família de Mario, com quem ela acaba se casando. É nesse ambiente tumultuado e miserável que Nannina vai sonhar com uma nova vida. A partir dessa esperança misturada com ilusão, Pasolini explora com muita honestidade o sentimento típico dos “borgatari”.

Uma esperança que serve apenas como meio de subsistência, mas que poucas vezes permite uma ascensão social efetiva. Reforça-se a idéia de uma sociedade estamental, fendida e desigual. São pessoas condenadas, com uma condição predeterminada e privadas de livres escolhas. “Quando a gente precisa, não escolhe, basta trabalhar…”, fala Stella para Accattone. Pasolini escreve sobre a heroína Mamma Roma -encarnada no cinema pela atriz Anna Magnani- quando ela reclama da postura do filho para Carmine, o cafetão. “Mamma Roma está entregue ao seu choro de animal: a sua fúria, mais que contra Carmine, é contra a vida, o destino. Não pode fazer outra coisa senão se desesperar. Está completamente impotente e agoniza de dor”.

Apesar do destino trágico, as personagens de Pasolini sempre parecem ostentar certa dignidade em se manterem de pé dia após dia e demonstram-se suficientemente calejadas para suportar a batalha do cotidiano. Em “Noite no Externa Esquerda”, o autor nos mostra a infância de Rafele, um menino que aos 10 anos perde o pai na guerra e vende seu corpo para se sustentar:

“Ao redor do fogo aceso por Rafele e pelos companheiros, dentro de uma velha assadeira quebrada, mas ainda nobre, fica ali indiferente, velho para qualquer malandragem, já quase cético e irônico, com o rosto ainda mais escuro pelo frio. As mãos no bolso fazem com que o ventre se estique -o ventre em que já pesa a potência viril e facciosa de um rapaz de vinte anos- e puxando as casas dos botõezinhos, quase se fende no seu segredo de animalzinho com o abdômen desenhado com a pungente doçura de uma estátua de Gemito”.

A morte trágica em Ostia

Quando encontraram o corpo de Pier Paolo Pasolini desfigurado devido a golpes de bastonete num campo de futebol de terra batida em Ostia, periferia de Roma, a suspeita de atentado político foi grande e imediata. O escritor italiano havia pertencido ao Partido Comunista e escrevia fortes críticas publicadas no jornal “Corriere della Sera” contra os principais partidos burgueses da Itália.

No entanto, a confissão de culpa veio logo. O garoto de programa Pino Pelosi, na época com 17 anos, confessou à polícia que havia matado Pasolini com golpes de porrete. Contou que na noite de 1º. de novembro de 1975 tinha saído no carro do escritor para dar uma volta. Depois de comerem na Trattoria Biondo Tevere e passarem por um posto de gasolina, haviam seguido até um local distante, isolado de possíveis testemunhas. Pararam no campo de futebol e começaram a bater boca, porque Pelosi não concordava com as exigências de Pasolini quanto ao programa.

Iniciou-se uma briga, os dois deixaram o carro e trocaram pontapés no campo de futebol. Pelosi pegou um bastão e investiu contra Pasolini. Ainda de acordo com seu depoimento, teria pegado o carro do escritor e passado involuntariamente sobre o corpo dele na volta. Após a declaração de culpa de Pelosi, a polícia rapidamente arquivou o caso, sem aprofundar as investigações, o que suscitou a desconfiança dos advogados do escritor.

Passados 30 anos da morte de Pasolini, Pino Pelosi apareceu no programa “Ombre sul Giallo” (veja link no final), uma espécie de “Linha Direta” da emissora italiana RAI. E, após a exposição dos fatos pela apresentadora Franca Leosini, disse que havia mentido à época sobre as circunstâncias da morte de Pasolini. Declarou-se inocente e divulgou uma nova versão para o assassinato. Revelou que ambos teriam sido abordados por três homens barbudos enquanto passeavam no carro de Pasolini e que dois deles teriam arrancado o escritor do volante e o agredido fora do carro.

A vida nas “borgate” de Roma

Pier Paolo Pasolini nasceu em Bolonha, em 5 de março de 1922. Seu pai era tenente da infantaria italiana, e a mãe, professora de primeiro grau. Pasolini sempre declarou uma afinidade maior com a mãe, a conduta muito rígida e o comportamento violento do pai impediram uma aproximação entre eles. Com 17 anos, matriculou-se no curso de letras na Universidade de Bolonha. Neste período, publicou seus primeiros poemas no dialeto friulano, uma variação regional do italiano.

Em 1945, concluiu a faculdade de letras e começou a lecionar como professor de ginásio. Dois anos depois, ingressou no Partido Comunista Italiano (PCI), do qual já faziam parte intelectuais do porte de Luchino Visconti e Antonio Gramsci.

Homossexual assumido, Pasolini teve problemas com o recato moral da época em que viveu. Acusado de corromper menores, foi expulso do Partido Comunista sob a acusação de “desvio moral” e afastado de seu cargo de professor.

Para se distanciar das repreensões, mudou-se para Roma com a mãe, onde passou a dar aulas de literatura e prestar serviços como crítico cultural para uma rádio local. Seu primeiro romance, “Ragazzi di Vita”, foi publicado em 1955. Junto ao trabalho de escritor, colaborou escrevendo roteiros para diretores como Federico Fellini e Bernardo Bertolucci. A partir de 61, Pasolini resolveu filmar suas próprias histórias: “Accattone” foi seu primeiro longa-metragem, seguido de “Mamma Roma”.

Acostumado a freqüentar os bairros da periferia de Roma -Testaccio, Trastevere, Centocelle, Primavalle-, Pasolini transferiu para as suas histórias o que via diariamente no comportamento das pessoas que habitavam esses locais. Encontrou nas “borgate” o centro ideal do seu mundo poético. Ao ser perguntado sobre a preferência pelos tipos marginais, retrucou que era a única forma de buscar a inocência do ser humano e uma relação mais pura com o mundo, menos infectada pelo formalismo burguês.

No fim dos anos 60, jogou no triturador os valores da família burguesa no seu filme mais conhecido, “Teorema”, de 1968. Foi talvez o período de maior ousadia do diretor. Após filmar duas tragédias gregas, levou às telas três clássicos da literatura universal -“Decameron”, “Os Contos de Canterbury” e “As Mil e Uma Noites”-, pacote que ficou conhecido como a “Trilogia da Vida”.

No mesmo ano em que foi assassinado, havia realizado uma de suas obras mais vigorosas e polêmicas no cinema, “Saló, ou os 120 dias de Sodoma”, adaptação dos escritos de Marquês de Sade, cujo alvo era o ressurgimento do fascismo na Itália.

Mesmo após a trágica morte em 1975, o espírito de Pasolini ainda persiste, inquietante, nas páginas de seus livros, tal como nas palavras do personagem Ruggeretto, no conto “A Brava Noite”: “No dia que eu morrer, quero que me botem dentro de um carrinho e me descarreguem lá na frente do portão do cemitério, quero feder mesmo depois de morto. Mesmo depois de morto, quero incomodá as pessoa!”.

Veja o programa dedicado a Pasolini - http://www.raiclicktv.it/raiclickpc/secure/stream.srv?id=3267&idCnt=28964&pagina=1&path=RaiClickWeb^Home^Storie^Storiebrbrnere^OMBREbrbSULbrbrGIALLO#1

(Publicado em 25/4/2007)

Fernando Masini é jornalista.

Revista Trópico

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A crença UNIVERSAL

O filósofo francês Bernard-Henri Lévy, que profere palestra em Porto Alegre depois de amanhã, diz que o anti- americanismo é a verdadeira religião no mundo de hoje

MARCOS STRECKER
DA REDAÇÃO

Para o filósofo francês Bernard-Henri Lévy, é claro o crescimento do fundamentalismo religioso nos EUA.
Mas ele rejeita a associação do fundamentalismo neoprotestante -que julga débil- com o fundamentalismo muçulmano, que classifica de totalitário.
Em entrevista à Folha, o pensador-celebridade defende a vitalidade da democracia americana, comenta o crescimento do antiamericanismo em escala global (”a verdadeira religião mundial da atualidade”), defende o governo Lula e critica Hugo Chávez (”um totalitário”).
O francês publicou no ano passado “American Vertigo” (Cia. das Letras”), em que analisa a sociedade americana e a vitalidade de sua democracia. Fruto de uma reportagem encomendada pela revista “Atlantic Monthly”, o texto remete ao clássico “A Democracia na América” (Martins Fontes), escrito pelo francês Alexis de Tocqueville em meados do século 19, quando foi estudar o sistema prisional americano.
O intelectual é um dos convidados do ciclo Fronteiras do Pensamento, do Projeto Copesul Cultural, em Porto Alegre, onde profere conferência depois de amanhã (às 19h30, no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; informações pelo tel. 0/xx/51/ 3019-2326).

FOLHA - O fundamentalismo religioso está em ascensão nos EUA?
BERNARD-HENRI LÉVY - Claro. É um tema que abordo com freqüência no meu livro. Visitei essas grandes igrejas chamadas de “não-denominacionais”, em que se celebra um Deus que não tem relação nem de perto com aquele das igrejas judaico-cristãs tradicionais. E, nessas igrejas, vi algo ao mesmo tempo perturbador, um pouco inquietante e, sobretudo, profundamente débil.
Mas não estou de acordo com o discurso que fala dos fundamentalismos em geral, em que os fundamentalismos protestante e muçulmano seriam subespécies.
Em outras palavras, não estou de acordo com colocar um sinal de igual entre um fundamentalismo que mata em grande escala (o de Bin Laden) e um fundamentalismo (o neoprotestante) que, até segunda ordem, se destacou apenas pelo seu poder de emburrecer e de vulgarizar.

FOLHA - Na França o sr. é criticado por ser simpático demais aos EUA. E vários representantes da “nova filosofia”, grupo do qual o sr. faz parte, têm sido apontados como “néoréacs” (neoreacionários). O sr. é conservador?
LÉVY - Tenho simpatia pelos EUA. Mas não sou arqueólogo nem neoconservador.

FOLHA - Com Hillary Clinton (senadora democrata e pré-candidata à Presidência dos EUA) e Barack Obama (senador por Illinois, também pré-candidato democrata à Presidência), pela primeira vez os EUA podem ter uma mulher ou um negro na Presidência. Há uma mudança concreta acontecendo na política americana?
LÉVY - A mudança já aconteceu. É essa revolução formidável, freqüentemente subestimada, que começou nos anos 1960 e que é a revolução dos direitos civis. Poucos países conseguiram fazer uma revolução assim.
Poucos passaram tão rapidamente da mancha da escravidão, da segregação, da Ku Klux Klan -ou seja, do horror- para a luz de uma democracia respeitada e apresentável.
É preciso visitar os Estados do sul para perceber isso. É necessário ir ao Alabama, ao Tennessee e ao Arkansas, a esses Estados em que, há gerações, os negros eram linchados.
E onde hoje a igualdade é perfeitamente respeitada, pelo menos do ponto de vista formal. Se Hillary ou Obama forem eleitos, será por causa disso. Será fruto da maior revolução cultural que uma sociedade já conheceu, na época moderna, pelo menos.

FOLHA - Tocqueville havia previsto que a origem puritana da sociedade americana seria uma das razões para sua democracia vigorosa. Os direitos individuais estão em perigo ou, pelo menos, sob risco. A democracia americana está em crise? E no resto do mundo?
LÉVY - Não acho que os direitos civis estejam em perigo. Há Guantánamo, certo. Claro, há o Patriot Act [pacote de leis antiterroristas lançado após o 11 de Setembro que amplia o poder de agências governamentais e prevê medidas excepcionais].
Mas não devemos cair no clichê antiamericano, como nos anos 50 de Sartre, de que “a América é raivosa”. Não, a democracia americana vai sobretudo bem, ainda que desagrade seus adversários.
Aliás, seria necessário que os antiamericanistas chegassem a um acordo entre si. Não se pode condenar os EUA de serem ao mesmo tempo um país gregário por excelência ou a terra do individualismo.
É preciso escolher entre as duas críticas!

FOLHA - O antiamericanismo está em alta?
LÉVY - Sim, e crescendo de uma maneira exponencial. Primeiro, está se tornando um fenômeno planetário. A começar da França, ou talvez da Europa, em que está se tornando a verdadeira religião mundial da atualidade.
E sobretudo está se tornando um ímã do que há de pior, resumindo e unindo tudo o que pode haver de pior nas sociedades modernas: nacionalismos, racismos, anti-semitismo, tensões identitárias etc. Eu detesto os EUA de George W. Bush. Meu livro o julga -e como!
Mas esse ódio contra os EUA, a forma como são classificados em um tipo de categoria metafísica e, no limite, de “nazificante”, não me agrada, mas é uma das tendências de nossa época.

FOLHA - Qual será o legado dos neoconservadores republicanos depois dos anos Bush?
LÉVY - Um grande desastre político, sem dúvida. Um caos.
Mas também restará um certo número de intelectuais, alguns que eram realmente intelectuais, que produziram obras verdadeiras e que não vão desaparecer facilmente. Pode-se discordar dos neoconservadores, pode-se pensar que são o “Doutor Fantástico” [alusão ao filme de Stanley Kubrick] do século 21.
Mas eles levaram suas idéias ao debate intelectual nos EUA, e isso não é desprezível. Minha tese sobre eles, em “American Vertigo”, você conhece: eles pecaram não pela falta, mas pelo excesso de moral. Por ingenuidade, por angelismo. E minha verdadeira crítica é que não fizeram política o suficiente…

FOLHA - Como Tocqueville, o sr. também percorreu as prisões americanas. Guantánamo mostra que o país está melhor ou pior?
LÉVY - Pior, naturalmente, porque Guantánamo é uma vergonha. Seu próprio princípio é uma vergonha. Passei alguns dias lá em minha viagem de pesquisa para o livro.
E continuo sem entender como, quando se é democrata, se pode admitir essa zona sem direitos, esses inimigos presos sem processo, sem status, e com a duração de prisão determinada apenas pela boa vontade das autoridades da ilha ou das agências que combatem o terrorismo. É preciso fechar Guantánamo.

FOLHA - Qual sua opinião sobre o governo Lula, sobre Hugo Chávez e sobre a “nova esquerda” latino-americana? O sr. concorda com a visão de Jorge Castañeda, de que há uma “boa” esquerda e uma esquerda “ruim”?
LÉVY - Lula e Chávez são diferentes. Gosto de Lula e de seu estilo de governo, e acho que ele fará o Brasil avançar. Chávez, por outro lado, é um totalitário, um partidário do poder personalista.
Um tipo que se vê como herdeiro de Fidel] Castro, que não é, você há de convir, um modelo de democrata.

FOLHA - Existe hoje um “islamofascismo”, uma nova era de totalitarismos?
LÉVY - Claro. Acho mesmo que fui um dos primeiros, ou o primeiro, a utilizar essa expressão.
Porque todos esses movimentos islâmicos têm dois contextos, dois tipos de raiz. Um deles é “original” e tem a ver com uma interpretação errônea, fundamentalista, do Corão.
Mas o outra é “estrangeiro”, ou europeu, para ser mais preciso, que tem a ver com a história do fascismo europeu. Pegue-se o Baath [partido iraquiano de Saddam Hussein] ou os ideólogos da Al Qaeda. Todos têm mestres europeus, de pensamento fascista. Há no mundo árabe-muçulmano um mito duradouro segundo o qual, com a criação de Israel, eles acabaram pagando por um crime (o Holocausto) do qual eram inocentes.
O mundo árabe não foi tão inocente assim dos crimes nazistas nos anos 1930 e 40.
Dou apenas um exemplo: havia um regimento árabe, ligado às SS [guarda de elite nazista], que esperava, por meio das tropas de Rommel [marechal famoso pela campanha nazista no norte da África], o momento de avançar sobre Jerusalém para matar os 600 mil judeus que já estavam lá e participar, assim, da “solução final”. Apenas a derrota de Rommel impediu esse projeto.

FOLHA - O modelo francês está em crise? Nicolas Sarkozy (candidato da União por um Movimento Popular, UMP, e líder do bloco de centro-direita à Presidência da França nas eleições de hoje) parece atraído por um liberalismo que a França sempre condenou. E Ségolène Royal (candidata do Partido Socialista) parece defender um modelo de bem-estar social que está em crise há algum tempo. Para onde caminha a França?
LÉVY - A França vai se reformar. A única questão é saber quem está em melhores condições de fazer isso, se Royal ou Sarkozy. Em minha opinião, Royal.

FOLHA - Qual é o futuro da União Européia? A integração ou não da Turquia, os referendos derrotados em alguns países para a nova Constituição, a impossibilidade de criar uma política externa comum… A unificação está em crise?
LÉVY - Sim, e isso é realmente um drama. Minha geração viveu a idéia de que a Europa fazia parte do movimento da história e de que, de uma forma ou outra, quase fatalmente, acabaria por se criar. E isso aconteceria independentemente do que se fizesse.
Mesmo, por exemplo, se votássemos contra ela em um ou outro referendo. É um otimismo histórico do qual estou duvidando. Talvez a unificação européia não seja tão inevitável assim. Talvez o momento já tenha passado e o processo esteja bloqueado.

FOLHA - O sr. já escreveu sobre o papel dos intelectuais em “Elogio dos Intelectuais” (Rocco). Tocqueville critica a má influência que pensadores poderiam exercer na política. O sr. é criticado por ser um intelectual midiático e por ser mais jornalista do que filósofo…
LÉVY - Digo, como Sartre, que há uma nobreza no trabalho do jornalista. Ou, como Foucault, que também há um “jornalismo transcendental”, que faz parte da filosofia.
Quando vou à África e escrevo uma reportagem sobre a situação de Darfur [Província do Sudão onde tropas do governo enfrentam rebeldes separatistas, em conflitos que já mataram mais de 200 mil camponeses nos últimos três anos e deixaram mais de 2,5 milhões desabrigados], que teve grande repercussão dentro e fora da Europa, faço jornalismo.
Não tenho a impressão, fazendo isso, de romper de forma alguma com minha atividade de intelectual engajado.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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EUA de Bush seguem 10 passos para virar ditadura, diz pensadora americana

Em entrevista ao G1, por telefone, de Nova York, ela disse que os Estados Unidos estão seguindo dez passos semelhantes aos que seguiram todos os outros regimes que deixaram a democracia e se tornaram ditaduras, de direita ou de esquerda, de Hitler a Pinochet. Seu próximo livro, que vai ser lançado em setembro nos Estados Unidos, tem já no título este diagnóstico, vai se chamar “O fim da América – Uma carta alerta a um jovem patriota”.

G1 – O título do seu livro fala em “fim da América”. O que a leva a considerar esta possibilidade?
Naomi Wolf – Meu livro é uma análise apartidária e objetiva de evidências reais de que o país que se proclama a mais perfeita democracia do planeta está cada vez menos democrático. Quero mostrar que há um padrão histórico para fechamento de democracias seja no comunismo da União soviética, da China, na Alemanha nazista, na América Latina nos anos 60 e 70, todos seguiram os mesmo passos ao deixar de lado a democracia e se tornarem ditaduras. São processos bizarramente similares na história, e está começando a acontecer nos Estados Unidos. Não estou fazendo retórica ou oposição política.
Os dez passos são: a referência a uma ameaça permanente (no caso, o terrorismo); criação de um gulag (a prisão de Guantánamo); formação de uma casta violenta (republicanos radicais); montagem de um sistema de vigilância interno (espionagem de cidadãos); opressão de grupos cidadãos (grupos contra a guerra são ameaçados); perseguição e permissão de prisões arbitrárias; ameaça a cidadãos; controle da imprensa; tratamento de dissidência como traição; suspensão do Estado de Direito. Isso é o que o governo Bush está fazendo com o país.

G1 – A sra. diz que não seria diferente se Hillary Clinton se tornasse presidente agora. Acha que seria diferente se Al Gore tivesse vencido as eleições em 2000?
Wolf - Acho que seria bem diferente, se Gore tivesse se tornado presidente, mas agora pode ser tarde demais.

É muito perigoso desmontar o delicado sistema de freios e contrapesos que faz com que exista um equilíbrio entre os três poderes, necessário para o funcionamento de uma democracia. Quando a democracia norte-americana foi fundada, os “founding fathers” (“pais fundadores”, membros da assembléia constituinte que criou os Estados Unidos em 1787) sabiam que a natureza humana é falha e que qualquer ser humano se corrompe quando tem poderes ilimitados. No ano 2000 o país ainda funcionava plenamente com equilíbrio entre os três poderes, e Al Gore teria respeitado este sistema, se tivesse sido eleito em 2000, por acreditar neste sistema. A estrutura de então garantia que nem o Executivo, nem o Judiciário nem o Legislativo tinha poderes em excesso. Se qualquer outra pessoa assumir a Presidência agora, depois que o sistema de freios e contrapesos foi destruído pelo governo Bush, vai se sentir completamente tentada pelo excesso de poder, que corrompe.

G1 – Essa é a idéia central do seu trabalho, a corrupção do poder?
Wolf - É um exemplo histórico que se repetiu dezenas de vezes em todo o mundo. Pessoas bem-preparadas, bem-intencionadas, chegam ao poder, mas ,se não há um sistema democrático equilibrado, cede à tentação de poder sem controles. O sistema falho corrompe facilmente qualquer pessoa. Isso aconteceu na Europa, na América Latina, no próprio Brasil. É responsabilidade desse equilíbrio do sistema manter todos os líderes na linha. Manter a democracia precisa não apenas de eleição e votos. É preciso ter pessoas que acreditam na democracia, mas também um sistema equilibrado de freios e contrapesos.

G1 – Como a população norte-americana vê esse processo de desequilíbrio na democracia?
Wolf - Os norte-americanos têm o que chamo de ‘vício em democracia’. Eles acham que só porque estão nos Estados Unidos, o sistema não pode ser corrompido. O problema é que até mesmo os fundadores do país, os homens que votaram a nossa Constituição, pensavam diferentemente, sabiam da delicadeza e da fragilidade da democracia. Eles vinham de um sistema que não era democrático, por isso tinham medo de perder este equilíbrio. Acho que precisamos ficar aterrorizados com o que está acontecendo atualmente com nosso país.

G1 – O governo Bush tem consciência de estar desmontando o sistema democrático ou está sendo um processo natural e impensado?
Wolf - Não estou tentando fazer nada além de reunir evidências de que isso de fato está acontecendo a fim de mostrar a realidade para a sociedade e os líderes da nossa nação e do mundo para que as pessoas tenham consciência do que está acontecendo. Não podemos saber quais as intenções do nosso governo atual são. O que podemos fazer, entretanto, é reunir o povo e olhar para a história, para que todos tenham noção real do que está acontecendo e saibam o quão perigoso é este processo.

G1 - O quanto a sra. acha que os Estados Unidos estão próximos, ou distantes, de deixar a democracia de lado permanentemente e se tornar uma ditadura?
Wolf - Isso depende de nós. Essa é a beleza de uma democracia e a tristeza de uma sociedade fechada. Ainda vivemos numa democracia, por mais que haja problemas, e a nação ainda pode ser mudada por seus cidadãos. Se amanhã a população acordar e decidir mudar este processo, é fácil fazê-lo. Isso vai além de partidarismo e depende de nós.

Pelo outro lado, se a população dos Estados Unidos preferir ignorar o que está acontecendo na política e, em vez disso, ficar focada apenas no American Idol, ou na Britney Spears, podemos mais uma vez olhar para a história e ver que estamos seguindo o exemplo de países que chegaram a uma situação tão fechada à sociedade que não havia mais retorno. A hora de acordar é esta.

G1 – Qual a responsabilidade da mídia com esta situação?
Wolf – Ela tem responsabilidade nessa hora de acordar a população, por isso acaba sendo uma pás primeiras a sofrer com o fechamento da liberdade social. Um dos capítulos do meu livro se chama “Punição à imprensa”, e trata da forma como os jornalistas se tornam alvo sempre que aparece algum sistema mais fechado, ditatorial, que se sente ameaçado pela liberdade de imprensa.

G1 - A sra. se sente ameaçada por fazer críticas ao sistema?
Wolf - Claro que me assusta. Sei que, ao fazer este tipo de críticas, entro numa lista de opositores, que descobri já ser imensa, e que pode ser atacada, no caso de um fechamento total do sistema. Não quero dizer que me sinto pessoalmente mais apreensiva de que o resto da sociedade deveria ficar. Acho que há o perigo, e se olhamos mais uma vez o exemplo histórico, os primeiros a serem perseguidos são os mais altos líderes oposicionistas e os intelectuais que criticaram o governo, e os jornalistas. É um padrão. Não acho que temos o direito de nos dar o luxo de esperar para ver.

G1 - Que conseqüências sentiria o resto do mundo, se os Estados Unidos se tornassem uma ditadura?
Wolf - Não poderia ser bom. Concordo plenamente com uma frase que [o democrata] Barack Obama usou, para falar do governo Bush: O papel de líder do planeta ficou vago ao longo dos últimos anos, porque Bush não o assumiu. O mundo precisa que os Estados Unidos sejam uma nação livre. Os Estados Unidos são a nação mais poderosa do planeta, e deveriam ser um modelo a ser seguido.

Mas a partir do momento em que estamos torturando pessoas, não temos moral para lutar para que o mundo seja um lugar livre de tortura. Os Estados Unidos não estão se comportando como um modelo para o planeta. Acho que se o mundo perder isso definitivamente, chegaremos a uma situação de barbárie globalizada.

G1

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A legitimidade política e jurídica da luta pela terra

O direito à propriedade e o direito do consumidor são supervalorizados no país, mas não são Direitos Humanos. Estes, que segundo a Constituição, prevalecem sobre os demais, balizam a luta dos movimentos sociais do campo.

Rogério Tomaz Jr.

Dois direitos são absolutamente sagrados no Brasil: o direito à propriedade e o direito do consumidor. Ambos estão previstos na Constituição e regulamentados em normas específicas. Na ordem político-cultural hegemônica, não admitem questionamento e se enraízam no senso comum através das mais diversas e numerosas formas, manifestadas em adágios – “o cliente sempre tem razão” – ou mesmo em nomes de instituições – “Tradição, Família e Propriedade”. Abstenho-me de emitir opinião política sobre a TFP. Basta navegar pela sua página na Internet (http://www.tfp.org.br) para compreender os objetivos e a ideologia de tal organização.

Apesar do amplo reconhecimento social e da legalidade jurídica, tanto o direito à propriedade quanto o direito do consumidor carregam consigo a pecha de não serem direitos humanos. Só possui propriedade quem detém capital ou quem recebe herança. Só é consumidor quem possui recursos para concretizar o ato de consumo. São, portanto, direitos ordinários, resultados diretos e inegáveis do processo histórico, político e cultural no qual está inserido o nosso país.

Para as mentes desatentas, vale lembrar o que afirma o inciso segundo do artigo quarto da nossa Carta Magna: “Art. 4º: A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios: (…) II - prevalência dos direitos humanos”. Bem como se faz necessário comentar o princípio da função social da propriedade. Diz o artigo 186 da Constituição:

Art. 186. A função social é cumprida quando a propriedade rural atende, simultaneamente, segundo critérios e graus de exigência estabelecidos em lei, aos seguintes requisitos:
I - aproveitamento racional e adequado;
II - utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente;
III - observância das disposições que regulam as relações de trabalho;
IV - exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores.

Se a prevalência dos direitos humanos e a função social da propriedade fossem efetivamente respeitadas pelo Executivo, pelo Legislativo e, sobretudo, pelo Judiciário, provavelmente não existiriam tantas ocupações de terra no Brasil. A reforma agrária, processo indissociável da democracia na Europa e nos Estados Unidos, continua sendo “coisa de comunista” para a elite brasileira.

Ademais, caso a função social da propriedade fizesse parte do senso comum geral, seria considerado ilegítimo – e até imoral – o fato de um único proprietário possuir 4.140.767 hectares (sim, quatro milhões, cento e quarenta mil e setecentos e sessenta e sete hectares!), caso da MANASA – Madeireira Nacional S/A, área equivalente a quase duas vezes o tamanho do estado de Sergipe.

Mas o problema da concentração fundiária no Brasil é bem mais complexo do que esse exemplo ilustra. Segundo a reportagem “Concentração de terra na mão de poucos custa caro ao Brasil”, de Fabiana Vezzali, da Agência Repórter Brasil:

“Cerca de 3% do total das propriedades rurais do país são latifúndios, ou seja, tem mais de mil hectares e ocupam 56,7% das terras agriculturáveis – de acordo com o Atlas Fundiário do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Em outras palavras, a área ocupada pelos estados de São Paulo e Paraná juntos está nas mãos dos 300 maiores proprietários rurais, enquanto 4,8 milhões de famílias estão à espera de chão para plantar”.

Estas famílias – que, certamente, não estão entre aquelas defendidas pela TFP – são despojadas de direitos, mas precisamente incluídas na engrenagem perversa do capitalismo. São vítimas diretas da estrutura que sustenta o pomposo agronegócio: trabalho escravo, desemprego em massa, êxodo rural, devastação ambiental, fome, condições precárias de saúde e moradia, utilização de venenos (agrotóxicos) em larga escala, calote nos cofres públicos (que gerou a alcunha “agrocalote”), entre outros “efeitos colaterais”.

Diante de tal cenário, e de um Estado historicamente dominado por uma classe, a reação não é difícil de ser compreendida. Não é à toa, aliás, que as principais características da relação Estado/sociedade no Brasil são o clientelismo, o paternalismo, o autoritarismo e o assistencialismo – este último, como forma de mascarar ou atenuar o peso da realidade sobre a maior parte da população, tática que tem como aliada a falsa idéia da passividade e do conformismo do povo brasileiro.

Caso essa tese – da passividade e do conformismo – tivesse a mínima consistência, seria natural conceber como “afronta ao Estado de Direito” a existência e a ação do MST, da CPT, do MPA, do MAB, da CONTAG, do MMC, dentre tantos outros movimentos contemporâneos, e das Ligas Camponeses, de meados do século passado.

Mas a verdade atestada pela História é que o povo brasileiro nunca aceitou a submissão à plutocracia que controla o “Estado de Direito” e busca se passar por democracia. A reação a essa plutocracia, que alterna momentos de hegemonia (supremacia cultural e institucional) e de dominação (força e coerção), é tão pujante que a contra-reação, in extremis, é a bala.

Nas últimas duas décadas, foram assassinados no campo mais de 1500 líderes e militantes de movimentos sociais. Tais crimes jamais figuram em manchetes, capas ou editoriais de jornais, revistas, rádios, televisões ou grandes portais de Internet. Do outro lado, as ocupações de terra já mereceram até projetos-de-lei que as classificavam como atos de terrorismo.

O massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido em 17 de abril de 1996, quando foram assassinados 19 trabalhadores rurais é, simultaneamente, um símbolo da violência sistemática praticada contra os movimentos sociais e da luta por reforma agrária. Não à toa, esta data foi estabelecida como o Dia Internacional de Luta Camponesa.

Em geral, juízes, legisladores e gestores públicos no Brasil não reconhecem nem respeitam os tratados de direitos humanos. Mas são justamente estes instrumentos que conferem legitimidade política à ação dos movimentos sociais contestadores da (des)ordem vigente no Brasil.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, de 1948, já no seu preâmbulo afirma que é “essencial que os direitos do homem sejam protegidos pelo império da lei, para que o homem não seja compelido, como último recurso, à rebelião contra a tirania e a opressão”.

Num modelo de sociedade onde o capital é a principal medida das coisas, e não o ser humano e suas necessidades essenciais (traduzidas em direitos humanos), a expressão da tirania não precisa se traduzir na forma de uma ditadura ou de qualquer outro regime opressor. Ela se manifesta por meio da exclusão de parcelas imensas da população do acesso efetivo a direitos imprescindíveis à vida digna como alimentação, trabalho, moradia, saúde, educação e tantos outros.

Para quem não vive cotidianamente aquilo que o grande geógrafo Milton Santos denominou de “experiência de escassez”, é extremamente fácil, cômodo e confortável tomar por “radicais” as ações dos movimentos sociais. Difícil é tentar compreender – e, mais ainda, levantar a voz e agir contra – as raízes históricas que dão origem à realidade na qual vivemos e pela qual somos todos, em distintas medidas e formas, responsáveis.

É possível negar e não aceitar a realidade e suas causas. Mas não é possível se esconder dela e de suas conseqüências

Rogério Tomaz Jr. é jornalista da Ação Brasileira pela Nutrição e Direitos Humanos (ABRANDH) e integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.

Carta Maior
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Sem Chirac, o adeus ao estilo gaullista

Aspectos da atual diplomacia devem acabar: o antiamericanismo e a prioridade às antigas colônias

Gilles Lapouge*

Jacques Chirac, presidente da França, vai desaparecer do nosso horizonte. Mas não será imediatamente colocado num armário, num museu, ou num sótão. A ocasião será aproveitada para tirar um pouco do pó de sua imagem, reformá-lo, talvez comprar um novo terno e fazer novo corte de cabelo. Na verdade, Chirac alimentou durante anos, todas as noites às 20 horas, o melhor programa da TV francesa, ‘Les guignols de l´info’ (as marionetes da informação), um programa massacrante e cômico sobre a política, animado por marionetes geniais, com vozes emprestadas a cada uma delas por imitadores.
Entre essas marionetes, a de Chirac é a mais divertida. A imitação do presidente bate a de todos os seus comparsas: astuto, simpático, barroco, terno, estrondoso, trapaceiro e glutão.
Os criadores do programa não têm coragem de privar repentinamente os franceses de um comediante tão genial como a marionete de Chirac. Se é verdade que ele será obrigado a deixar o Eliseu, pelo menos sua marionete terá direito a um ’sursis’: o tempo necessário para o sucessor vestir o traje de presidente.
Na vida real, Chirac também conseguirá obter um ’sursis’? É difícil. A verdadeira ruptura acontecerá hoje. Uma ruptura de gerações (a chegada de um cinqüentenário ao Eliseu) e espiritual - a eleição de uma pessoa não atingida pela ‘fascinação’ por De Gaulle. A política francesa vai se libertar do estilo gaullista e dos programas repisados por Chirac durante 12 anos. A maioria dos estrangeiros se alegra. Sobretudo nos Estados Unidos. O Herald Tribune, eufórico, declarou que ‘pelo menos não será mais Jacques Chirac!’ E o que esperar? Para o New York Times, Sarkozy (ou mesmo Ségolène, no improvável caso de ela ganhar a eleição) derrubará os dois sustentáculos da diplomacia de Chirac: um programa moldado pela Guerra Fria de um lado e, de outro, a prioridade dada às antigas colônias francesas.
Esses dois pontos devem ser modificados. A Guerra Fria? Ela já tinha acabado cinco anos antes de Chirac chegar ao Eliseu. É provável que o New York Times
faça alusão ao antiamericanismo de Chirac. Ele é real. Mas não é explicado pela Guerra Fria. Ele nos leva diretamente a De Gaulle, cujo antiamericanismo visceral nasceu durante a 2ª Guerra, época em que De Gaulle, chefe da França Livre em Londres, precisou lutar ferozmente contra os americanos. Roosevelt o detestava e sonhava fazer da França, após a libertação, um país secundário e sob tutela.
Foi sobretudo na guerra do Iraque que a hostilidade de Chirac para com os EUA explodiu.
Lembremos o clamor da censura a George W. Bush no Conselho de Segurança da ONU, apresentada por Villepin, em fevereiro de 2003. E se Chirac não conseguiu impedir Blair de se unir a Bush, pelo menos soube formar, com o alemão Gerhard Schroeder e o russo Vladimir Putin, uma ‘frente da recusa’.
Com a partida de Chirac, mesmo se a marionete continuar respirando nos bastidores, podemos esperar que seu sucessor apagará o quadro manchado de antiamericanismo de Chirac? Os EUA colocam suas esperanças em Sarkozy. Este nunca aprovou os protestos contra Bush que partiram do Eliseu.
Em setembro de 2006, quando era o ministro do Interior, Sarkozy foi a Washington, criticou a arrogância francesa e o discurso de Villepin perante o Conselho de Segurança. Essa visita, e a insistência para ser fotografado ao lado de Bush, parecia uma declaração de obediência. Na França, foi um choque. Sarkozy ganhou o apelido de ‘pequeno Bush’, título estúpido que, aliás, não pegou.
Certamente ele não vai se colocar ao lado de Bush no Iraque (recentemente ele assumiu distância do caso), mas deverá aderir mais à diplomacia americana no mundo e em particular no Oriente Médio. Também uma herança gaullista, Chirac privilegiou os países árabes em detrimento de Israel. Sarkozy também já manteve distância dessa posição. Ele visitou Israel em 2004 e evocou o fim da política árabe da França. Reuniu-se com o primeiro-ministro Ariel Sharon e recusou-se a entrar em território palestino, conquistando com isso o amor de Israel.
Em agosto de 2006, quando as bombas israelenses caíam sobre o Líbano do Hezbollah e Chirac procurou obter um cessar-fogo, seu ministro Sarkozy se des

Sucessor será o primeiro a governar sem a influência De Gaulle

tacou, ao declarar que Israel ‘tinha o direito de se defender’, coincidindo com a posição de Bush. Mais recentemente, ele prometeu uma ‘política mais equilibrada em relação a Israel’ e se disse disposto a defender a ‘integridade do Líbano’, mesmo que isso envolva o ‘desarmamento do Hezbollah’.
Isso tudo significa que Sarkozy derrubará a estrutura diplomática de seu antigo chefe? Não vamos exagerar. Sarkozy (como Ségolène) é contrário a uma ação militar contra o Irã, mas quer sanções mais severas contra Teerã e o Sudão (por causa de Darfur), rejeita a suspensão do embargo de armas contra a China e acha que o escudo antimísseis dos EUA deve ser debatido com os europeus.
Uma outra ilusão: na França, Sarkozy é tido como um liberal, influenciado por Margaret Thatcher, Tony Blair ou mesmo Ronald Reagan. É inexato. A economia francesa seria incapaz de funcionar com base unicamente nas leis do mercado. E embora Sarkozy não seja contra a globalização, ele cultiva, ao mesmo tempo, um vivo patriotismo econômico. No momento em que uma empresa européia desejar colocar a mão numa firma francesa, ele sairá rapidamente da sua toca rugindo como um leão.
Charles Grant, diretor do Centro de Reforma Européia, garante que Sarkozy é protecionista, adepto da ‘França em primeiro lugar’, modelo de De Gaulle. É uma opinião exagerada, mas é certo que Sarkozy, quando era ministro da Economia em 2004, provocou a cólera de Bruxelas e Berlim ao salvar a companhia francesa Alstom, dando preferência aos ‘campeões franceses’ contra os alemães.
Resta outro pilar, também uma herança do general De Gaulle, até aqui preservado por Chirac: as ex-colônias, que sempre se beneficiaram de uma atenção extraordinária de Paris. Será estranho se isso continuar após Chirac. Há meio século os países africanos se tornaram independentes. À época de De Gaulle, Paris dispunha de conexões poderosas no continente negro, vestígios do colonialismo, e enormes meios de influência econômica.
Mas, com o passar do tempo, a ajuda francesa à África assumiu cores cada vez mais paternalistas, o que ficou insuportável para os africanos. Tanto mais que algumas intervenções de soldados franceses resultaram em calamidades (Ruanda) ou desgraças (Costa do Marfim). Mas não é tudo: a pobreza da África, os estragos que uma globalização selvagem provocou no continente e a brutalidade contra os imigrantes criaram entre a França e as antigas colônias um fosso de ressentimentos.
Todas essas razões se conjugam para que as relações entre a África e a França sejam remanejadas neste momento de mudança de gerações que se prepara no Eliseu. É o que França deseja e a África, também. ‘A França não pode mais decidir sozinha pelos africanos’, escreveu o Le Soleil, do Senegal. ‘Não é por acaso que na África se manifeste um descontentamento com a França, indiferente à miséria de populações que falam, entretanto, a língua de Molière.’ Os africanos que conseguiram desafiar o deserto, o mar e a morte para chegar à França, ali tiveram um encontro com a humilhação, as investidas policiais, os vôos charter de retorno ao país natal, uma vida degradante. ‘Tudo isso abriu os olhos dos africanos: eles compreendem hoje que o desenvolvimento da África é, em primeiro lugar, sua responsabilidade.’ E o jornal, depois de derramar seu rancor e sua cólera, termina com uma nota mais racional: ‘Os povos podem construir, tendo por fundamento a verdade, um novo contrato de gerações entre a França e a África.’ O título do artigo do Soleil define os novos caminhos que traçarão, com a partida de Chirac, as relações entre a França e suas antigas colônias: ‘A Françafrique do papai acabou.’ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris.

Jornal Estado de S. Paulo
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