Arquivo de 15 de Maio de 2007

José Ramos-Horta quer “reconstruir a unidade nacional” em Timor Leste

Eleito presidente com 69% dos votos, o novo dirigente, prêmio Nobel da paz de 1996, terá de reerguer um país cuja unidade está “em frangalhos”

Do correspondente Francis Deron
Em Bancoc, Tailândia

José Ramos-Horta, o incansável defensor da causa de Timor Leste na cena internacional durante a ocupação do território pela Indonésia, de 1975 a 1999, venceu com enorme facilidade a primeira eleição presidencial organizada desde a independência, sacramentada em 2002.

Nesta sexta-feira, 11 de maio, a comissão eleitoral anunciou que Ramos-Horta havia obtido 69% dos votos válidos por ocasião do segundo turno do pleito presidencial que foi realizado na quarta-feira. Os 520.000 eleitores de Timor Leste aprovaram de forma inquestionável a candidatura de José Ramos-Horta para substituir Xanana Gusmão, o herói nacional que havia desistido de se apresentar para pleitear um segundo mandato, e para tentar salvar o país da falência política na qual ele está mergulhado já faz um ano. O seu concorrente, Francisco Guterres, conhecido como “Lu-Olo”, obteve 31% dos votos. Ele declarou que estava se inclinando “diante da escolha da maioria”, “porque eu respeito o princípio da democracia”.

Foi apurada a totalidade dos votos no nível dos treze distritos. Esta contagem oficial deverá ser confirmada por uma nova contagem em nível nacional, que permitirá então anunciar os resultados definitivos.

Nascido em 1949 em Dili, a capital do que era então o Timor português, José Ramos-Horta, de pai português - exilado pelo ditador Salazar - e de mãe timorense, recebeu sua educação na missão católica, assim como muitos dos seus compatriotas. Ele mesmo enviado em exílio para a África portuguesa pela administração colonial, por seu ativismo em prol da independência do Timor, ele ocupou em novembro de 1975 o cargo de ministro das relações exteriores da efêmera República Democrática do Timor Oriental, fundada por ocasião da partida dos colonos de Lisboa e que foi aniquilada um mês mais tarde pelo exército de Jacarta.

Foi ele quem tentou alertar a administração americana, sob Gerald Ford e
Henry Kissinger, a respeito da iminência de uma anexação do território pela Indonésia. Em vão: o caso havia sido objeto de um acordo, concluído por Washington com o ditador Suharto em troca de vantagens estratégicas e econômicas substanciais para os Estados Unidos no arquipélago

Durante os combates da resistência contra o exército indonésio, Ramos Horta perderá cinco dos seus onze irmãos e irmãs. Exilado mais uma vez, ele estudou o direito internacional em várias universidades ocidentais (Holanda, Estrasburgo, Estados Unidos), tornando-se simultaneamente a figura a mais visível, nas arenas internacionais, da resistência timorense.

O seu combate, que contou com um apoio poderoso do Vaticano, lhe valerá compartilhar em 1996 o Prêmio Nobel da paz com o bispo de Dili, Carlos Belo, uma distinção que foi apresentada explicitamente como uma manifestação em defesa dos “pequenos povos oprimidos”.

Enfrentamentos entre clãs

Um excelente orador, pouco conhecido em seu próprio país, que havia sido promovido ao posto de chefe da diplomacia de Timor Leste depois da proclamação da independência, José Ramos-Horta fora obrigado a ceder, em
2006, às exortações do seu amigo Xanana Gusmão. Na ocasião, o chefe do
Estado convocou Ramos-Horta para substituir - quando ele esteve forçado a abandonar o seu então eterno nó borboleta - o primeiro-ministro Mari
Alkatiri, que havia sido conduzido a este cargo pela ala marxista do partido histórico do independentismo, o Fretilin.

Constatando, na quinta-feira, a sua vitória inelutável, José Ramos-Horta afirmou querer “reconstruir uma unidade nacional” reduzida a frangalhos pelos enfrentamentos entre clãs do ano passado, que esvaziaram a pequena capital timorense de uma boa parte da sua população.

Francisco Guterres, o candidato derrotado do Fretilin, declarou que a sua intenção daqui para frente é de animar um movimento de reconquista eleitoral que tem como primeiro objetivo as eleições legislativas, previstas para o final de junho, início de julho.

O balanço dos cinco primeiros anos da mais nova nação da Ásia não permite grandes esperanças para o partido oriundo da luta armada, e, pior ainda, oferece perspectivas sombrias para a próxima equipe dirigente, da qual Xanana Gusmão está decidido a ser o motor à frente de um governo sólido: enquanto o país dispõe em alto-mar de reservas de hidrocarbonetos que a Austrália não lhe contesta mais, a metade dos timorenses adultos está sem emprego, e a outra vive com uma renda média situada, salvo algumas exceções, entre as mais baixas do planeta.

Tradução: Jean-Yves de Neufville.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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Grupo revela segredo militar macedônio

Estudo francês mostra como Alexandre, o Grande, usou banco de areia para construir península artificial na costa libanesa. Desmatamento e lavoura ajudaram a depositar os sedimentos para a ponte que permitiu a tomada de Tiro dos persas em 332 a.C.

CLAUDIO ANGELO

EDITOR DE CIÊNCIA

Num dos maiores feitos da história da engenharia militar, o exército de Alexandre Magno construiu, em 332 a.C., uma passarela de 1 quilômetro sobre o Mediterrâneo para tomar dos persas a ilha de Tiro, atual Líbano. A proeza vinha intrigando os arqueólogos até hoje, já que os macedônios não tinham tecnologia para esse tipo de obra. O mistério, no entanto, acaba de ser revelado por um trio francês: Alexandre teve uma ajudinha da geologia.
O grupo liderado por Nick Marriner, da Universidade Aix-Marseille, estudou a formação da península que hoje se estende na costa de Tiro, onde antes ficava a inexpugnável ilha usada pelos fenícios (então sob governo persa) como fortaleza.
A equipe descobriu que a própria história geológica da ilha acabou sendo o calcanhar-de-aquiles que permitiu a invasão dos helenos. Tiro funcionou como um quebra-mar natural, ajudando a frear as ondas e a formar aquilo que os geólogos chamam de proto-tômbolo, ou banco de areia.
“À medida que a energia das ondas se dissipava, a água não podia mais carregar sedimentos e eles eram depositados ali”, disse Marriner à Folha. “Esse acúmulo de areia fica perto da superfície e teria servido de base para a ponte de Alexandre.”

Caça ao tesouro
O grupo francês usou brocas para coletar 20 colunas de sedimento na atual península de Tiro (hoje totalmente urbanizada) e em volta da cidade. O material permitiu uma reconstrução detalhada de 8.000 anos da evolução da sua costa.
“Apesar da glória marítima de Tiro no passado, muito pouco era sabido sobre sua arqueologia”, disse Marriner. “O uso de técnicas arqueológicas tradicionais é dificultado pela urbanização, e nossa abordagem nos permite usar o registro geológico para identificar áreas arqueologicamente ricas.”
A costa de Tiro atrai assentamentos humanos desde a Idade do Bronze. Seu litoral é formado por recifes de arenito que foram expostos em parte pela elevação do nível do mar nos últimos 10 mil anos, protegendo a cidade de ataques por mar. A ilha de Tiro era parte dessa formação geológica.
A geologia sozinha, no entanto, não explica a vulnerabilidade de Tiro. O estudo francês, publicado hoje na revista “PNAS”, revela uma contribuição decisiva para a formação do proto-tômbolo: o desmatamento e a agricultura após 3.000 a.C., quando a ocupação da região era intensa, acelerou o acúmulo de sedimentos trazidos por rios que deságuam ali.
Os babilônios já sabiam do ponto fraco de Tiro no século 6º a.C., quando o rei Nabucodonosor 2º tentou tomá-la dos fenícios construindo uma passarela. Seu fracasso inspirou a tentativa de Alexandre.
O feito do exército macedônio, no entanto, não foi obra só de engenhosidade: muita força bruta e obstinação entraram em jogo para construir -sem aço nem concreto- uma ponte sobre o mar, usando em parte material das ruínas da Tiro continental, sitiada durante sete meses, e resistindo aos ataques regulares dos tirenses da ilha, que tentavam parar a obra.
Marriner diz que até hoje não se sabe quanto tempo Alexandre levou para completar a ponte. O destino dos tirenses na mão do conquistador, porém, é conhecido: dez mil foram mortos e 30 mil vendidos pelos gregos como escravos.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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