Preço da gasolina dispara na França, enquanto o do barril de petróleo diminui
O preço na bomba é quase o mesmo de há dez meses, quando o barril alcançou a sua cotação recorde; a culpa pode ser das multinacionais americanas
Jean-Michel Bezat
As más recordações do verão de 2006 seguem assombrando a memória dos motoristas franceses: os preços da gasolina vendida nos postos alcançaram nos últimos dias níveis próximos daqueles de julho de 2006, quando o barril oscilava entre US$ 70 e US$ 78.
Por mais que as cotações do petróleo bruto tivessem diminuído nitidamente desde então (entre US$ 60 e US$ 65), esta queda não foi repassada e o preço médio na bomba da gasolina “super 95″ é hoje de 1,32 euro - equivalente a R$ 3,60 - ou seja, por volta de 0,45 centavos de euro (R$ 1,23) descontadas as taxas, segundo informa a União Francesa das Indústrias Petroleiras (Ufip). Um nível muito próximo do preço recorde de 1,34 euro alcançado há dez meses.
Trata-se de um duro golpe para os consumidores, mesmo se a gasolina representa apenas um quarto do mercado dos combustíveis para os automóveis na França, e mesmo se a força do euro em relação ao dólar alivia um pouco a fatura.
Desde o início de fevereiro, o litro de “super 95″ aumentou em 17 centavos de euro. Vale lembrar que o preço do barril de petróleo bruto, de fato, aumentou desde que ele alcançou em meados de janeiro o seu nível mais baixo no período (US$ 50) para subir novamente até o seu mais alto nível (US$ 66) no final de abril no mercado de Nova York, mas a explicação continua sendo insuficiente.
Para obter uma explicação mais precisa, é preciso se voltar para o próprio mercado do refino da gasolina. “No final de abril, início de maio, houve um forte aumento do preço internacional da gasolina nos mercados de Nova York e de Roterdã (Holanda), que alcançaram patamares excepcionalmente elevados”, explica Jean-Louis Schilansky, o delegado geral da Ufip.
Nunca a diferença entre o preço de um barril de petróleo bruto e um barril de gasolina (US$ 32) esteve tão alta. As margens das refinarias também foram excelentes no primeiro trimestre, reconhecem executivos da multinacional Total. Na Europa, elas alcançaram US$ 33 a tonelada em média para o grupo petroleiro francês, ou seja, uma progressão de 28% em relação aos três primeiros meses de 2006.
Como fica o poder aquisitivo?
Considerando-se os volumes que são escoados nos Estados Unidos, é a América que faz o preço da gasolina, comenta Jean-Louis Schilansky. Ora, a demanda americana esteve intensa no início de maio, ao passo que o aumento anormal do número de refinarias paralisadas (incidentes, manutenção…) neste país provocou problemas de abastecimento.
Por mais que as reservas da França sejam excedentes e que ela tivesse exportado 6,1 milhões de toneladas de gasolina em 2006, ela foi duramente atingida por esses aumentos.
Nos Estados Unidos, eleitos democratas deram a entender que as grandes companhias (Exxon, Chevron, BP…) estariam reduzindo deliberadamente a oferta, de forma a provocar aumentos dos preços. A candidata à investidura democrata para a eleição presidencial de 2008, Hillary Clinton denunciou essas multinacionais que, aos seus olhos, “não são consideradas como responsáveis pela manutenção dos seus equipamentos”, acusando-as de “obrigar os consumidores a arcarem com as conseqüências das dificuldades com abastecimento”.
O impacto é menos grave na França, onde o consumo de gasolina não pára de diminuir (- 5,9% em 2006) em proveito do óleo diesel (+ 2,7%), em parte importado da Rússia. Este aumentou muito menos, segundo explica Jean-Louis Schilansky, passando de 1,01 euro (R$ 2,75) no início de janeiro para 1,07 euro (R$ 2,92) em maio.
Ele assegura que “a tendência no mercado internacional da gasolina está agora para baixo, de 4 a 5 centavos”. Um refluxo que, segundo ele, deveria se traduzir por uma diminuição em breve dos preços na bomba.
Será mesmo uma certeza? Os estoques americanos de gasolina permanecem inferiores em 7% aos níveis que eles apresentavam em 2006 na mesma época, segundo as estatísticas que foram publicadas na quarta-feira, 9 de maio, pelo departamento americano da energia. Além disso, a “driving season”, o período durante o qual os americanos utilizam maciçamente os seus carros, vai começar no final de maio…
Na França, o aumento dos preços da gasolina amputa gravemente a renda das famílias. O que fará o novo governo? Apesar do discurso de campanha de
Nicolas Sarkozy sobre a necessidade de aumentar o poder aquisitivo, nenhuma previsão foi anunciada neste campo.
O novo presidente da República não sinaliza qualquer intenção de restabelecer a TIPP flutuante, que previa uma redução da taxa interior sobre os produtos petroleiros, de modo a amortecer a disparada dos preços na bomba. Ele tampouco pretende impor uma sobretaxa sobre os lucros das companhias que operam na França.
Tradução: Jean-Yves de Neufville.
Jornal Le Monde
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