Arquivo de 23 de Maio de 2007

A África nos genes do povo brasileiro

Análise de DNA revela regiões que mais alimentaram o tráfico de escravos para o país

Ricardo Zorzetto

Durante pouco mais de três séculos de tráfico negreiro o trecho da África Ocidental que vai do Senegal à Nigéria possivelmente forneceu muito mais escravos ao Brasil do que se imaginava. A proporção de homens e mulheres capturados nessa região e enviados à força para cá pode ter superado – e muito – os 10% do total estimado anos atrás pelos historiadores norte-americanos Herbert Klein e David Eltis, estudiosos do tráfico de escravos no Atlântico. Os argumentos que agora servem de suporte à revisão dos cálculos, em especial para o Sudeste do Brasil, não são apenas históricos, mas genéticos. Analisando a constituição genética de pessoas que vivem em três capitais brasileiras, os geneticistas Sérgio Danilo Pena e Maria Cátira Bortolini estão ajudando a resgatar parte dessa história ainda não de todo esclarecida sobre a origem dos quase 5 milhões de escravos africanos que chegaram aos portos de Rio de Janeiro, Salvador e Recife e contribuíram para a formação do povo brasileiro.

Em dois estudos recém-concluídos a equipe de Pena, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e a de Maria Cátira, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), compararam o padrão de alterações genéticas compartilhado por africanos e brasileiros. Desse modo, conseguiram estimar a participação de diferentes regiões africanas no envio de escravos para o Brasil, o último país da América Latina a eliminar a escravidão com a assinatura da Lei Áurea em 13 de maio de 1888.

Os resultados confirmaram que foram três as regiões da África – a Oeste, a Centro-Oeste e a Sudeste – que mais exportaram mão-de-obra africana para o país até 1850, quando o ministro da Justiça do Império Eusébio de Queirós formulou uma lei tornando crime o tráfico de escravos. Até aí, nada muito novo, e a genética apenas corrobora as informações históricas a respeito de uma das situações mais cruéis a que um ser humano pode submeter outro. Já se sabia que o Brasil foi um dos poucos, se não o único, países das Américas a receber africanos de todas as origens.

A novidade é o envolvimento maior no tráfico negreiro da África Ocidental, também conhecida como Costa Oeste, região de onde vieram povos como os iorubás, os jejes e os malês, que exerceram forte influência social e cultural no Nordeste brasileiro, em especial na Bahia.

Durante os três séculos em que os portugueses controlaram o tráfico no Atlântico – o mais antigo, de mais longa duração e maior em termos numéricos –, a proporção de escravos embarcados no Oeste, no Centro-Oeste e no Sudeste da África oscilou bastante. Avaliando registros de viagem africanos, Herbert Klein, da Universidade de Colúmbia, e David Eltis, da Universidade Emory, calcularam que, no total, 10% dos escravos teriam vindo da região Oeste da África e 17% da Sudeste.

O principal fornecedor de escravos seria mesmo o Centro-Oeste, onde ficava a colônia portuguesa de Angola, que teria contribuído com 73% dos africanos enviados para o Brasil amontoados no porão de pequenos navios. “Os dados sobre o tráfico de escravos ainda são incompletos e os historiadores aceitam que a maior parte veio da região de Angola”, comenta Marina Mello Souza, da Universidade de São Paulo (USP), especialista em história africana.

Cientes de que os registros de viagem nem sempre refletem com precisão o passado, nos últimos tempos os historiadores passaram a recorrer também à genética na tentativa de compreender melhor o que de fato ocorreu. “Nossas estimativas anteriores se basearam em amostras parciais”, disse Klein à Pesquisa FAPESP.

“Estamos revendo essas projeções, com base no trabalho de geneticistas e na revisão dos dados de viagem que a equipe de David Eltis vem investigando na Universidade Emory.” E, nesse ponto, os trabalhos de Pena e Maria Cátira podem colaborar para esse reexame histórico. A análise do material genético compartilhado por brasileiros e africanos revelou que a proporção de escravos oriundos do Oeste da África – entre Senegal e Nigéria – pode ter sido de duas a quatro vezes maior que o contabilizado até o momento, bem mais próximo dos números exportados por Angola.

Origens e destinos – Superior à esperada, a contribuição do Oeste africano provavelmente não se distribuiu igualmente pelo país. Pena e sua aluna de doutorado Vanessa Gonçalves analisaram amostras de sangue de 120 paulistas que classificavam a si próprios e aos seus pais e avós como sendo pretos, seguindo a nomenclatura adotada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, que agrupa os brasileiros em brancos, pretos e pardos – os movimentos de afrodescendentes em geral usam a palavra negro para se referir a pretos e pardos.

Quatro de cada dez pretos paulistas apresentavam material genético típico do Oeste africano. Essa proporção, no entanto, foi menor no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, segundo artigo da equipe da UFRGS a ser publicado no American Journal of Physical Anthropology. Dos 94 pretos cariocas testados por Maria Cátira e Tábita Hünemeier, 31% traziam no sangue a assinatura genética do Oeste africano, apresentada por apenas 18% dos 107 pretos gaúchos. Além de indicar origens e destinos, esses dados talvez expliquem a penetração heterogênea no país do candomblé, religião com importantes traços culturais iorubás e jejes.

Na busca pelas origens do povo brasileiro, não são apenas os historiadores que recorrem aos achados genéticos. Também os geneticistas precisam, por vezes, voltar aos livros de história, sociologia ou antropologia para compreender o que as características genéticas lhes mostram. Ao menos um fato histórico ajuda a entender por que a proporção de pretos com origem no Oeste africano é mais elevada em São Paulo do que a do Rio ou a de Porto Alegre. Nos séculos XVI e XVII, os africanos oriundos do Oeste chegaram aos portos de Salvador e Recife para em seguida serem vendidos aos proprietários dos engenhos de cana-de-açúcar do Nordeste.

Mais tarde, porém, a decadência da economia açucareira levou ao deslocamento da mão-de-obra escrava para as plantações de café que floresciam no estado de São Paulo. Antes dessa migração interna, entre o fim do século XVIII e o início do XIX, São Paulo já apresentava uma concentração de escravos do Oeste africano muito mais elevada que no restante do país. De acordo com Klein, as razões para essa diferença ainda não são completamente compreendidas, mas talvez possam ser parcialmente explicadas pela importação de mão-de-obra diretamente do Oeste africano.

Maria Cátira explica a proporção mais baixa de material genético típico do Oeste da África entre os pretos de Porto Alegre pelo fato de os escravos chegarem ao sul do país por via indireta: 80% da mão-de-obra africana do Rio Grande do Sul era proveniente do Rio de Janeiro, onde a presença de povos do Oeste africano era mais baixa que no Nordeste brasileiro. Ainda assim transparece na composição genética dos pretos brasileiros o tráfico mais intenso para o país de escravos de Angola, no Centro-Oeste africano. Uma proporção menor (12%), mas significativa, veio da região de Moçambique, no Sudeste, sobretudo depois que a Inglaterra passou a controlar mais rigidamente os portos de embarque na costa atlântica da África.

Presença feminina – A contribuição africana para a composição genética do brasileiro não foi desigual apenas do ponto de vista geográfico. Enquanto os homens africanos foram os braços e as pernas que movimentaram a economia açucareira do Nordeste, as mulheres exerceram um encanto especial, de cunho sexual, sobre os senhores de engenho de origem européia, como o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre registrou em 1933 em Casa-grande & senzala, ensaio clássico sobre a formação do país. Por essa razão, o preto brasileiro guarda hoje em seu material genético uma contribuição maior das mulheres do que dos homens africanos, embora o volume do tráfico masculino tenha sido maior.

Essa desigualdade, que os geneticistas chamam de assimetria sexual, torna-se evidente quando se comparam dois tipos de material genético. O primeiro é o DNA encontrado nas mitocôndrias, usinas de energia situadas na periferia das células. Transmitido pelas mães aos filhos de ambos os sexos, o chamado DNA mitocondrial permite conhecer a origem geográfica da linhagem materna de uma pessoa. O segundo tipo de material genético estudado é o cromossomo Y, que os pais passam apenas para seus filhos homens e serve como indicador da linhagem paterna.

A equipe de Pena constatou que 85% dos pretos de São Paulo tinham DNA mitocondrial africano, enquanto apenas 48% apresentavam cromossomo Y característico da África. De modo semelhante, o grupo coordenado por Maria Cátira viu que, em 90% dos pretos do Rio e em 79% dos de Porto Alegre, o material genético africano era de origem materna. Do lado paterno, só 56% do Rio e 36% de Porto Alegre tinham material genético paterno típico da África. “Esses números comprovam a história de exploração sexual das escravas pelos brancos”, comenta Pena, “uma história nada bela porque se baseava em relação de poder”.

Essa assimetria sexual confirmada pela genética já havia sido antes documentada e detalhada pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, no livro Raízes do Brasil, pelo antropólogo Darcy Ribeiro, em O povo brasileiro, além de nos livros de Gilberto Freyre. Ela se tornou inconteste quando Pena e Maria Cátira começaram há cerca de dez anos, em trabalhos paralelos e complementares, a investigar a formação genética de brancos e pretos brasileiros com o auxílio do DNA mitocondrial e do cromossomo Y.

As primeiras evidências de que o brasileiro carregava em suas células o material genético de índios, africanos e europeus surgiram em abril de 2000, quando o país comemorou os cinco séculos da chegada do colonizador português a este lado do Atlântico ou os 500 anos do descobrimento do Brasil. Aproveitando a data oportuna, Pena publicou – primeiro na revista Ciência Hoje, de divulgação científica, e depois no periódico acadêmico American Journal of Human Genetics – o trabalho que chamou de “Retrato molecular do Brasil”. Nesse estudo com 200 brasileiros das regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Sul, o geneticista da UFMG constatou que, na realidade, 33% descendiam de índios por parte de mãe e 28% de africanos. Em outro estudo, publicado em 2001, mostrou que 98% dos brancos descendiam de europeus pelo lado paterno. Obviamente, a colaboração de índios e negros variava de acordo com a região do país.

Essa era a demonstração genética do que já se conhecia do ponto de vista histórico, sociológico e antropológico. Os primeiros grupos de colonizadores europeus que chegaram ao Brasil depois de 1500 eram formados quase exclusivamente por homens. Milhares de quilômetros distantes de casa, tiveram filhos com as índias. Mais tarde, com a chegada dos escravos durante o ciclo econômico da cana-de-açúcar, passaram a engravidar também as africanas.

A análise do material genético de pretos feita por Pena e Maria Cátira reforça esses resultados: 85% dos pretos brasileiros têm uma ancestral africana, mas os homens africanos estão representados em apenas 47% dos pretos – o restante tem ancestrais europeus em sua linhagem paterna. “É o outro lado da moeda”, diz Pena.

Retrato molecular – Mas o que o DNA mitocondrial e o cromossomo Y de fato revelam? Depende. São ferramentas genéticas fundamentais para determinar a composição de uma população porque são blocos de DNA que não se misturam com outros genes e passam inalterados de uma geração a outra. Mas esse material genético contém muito pouca informação sobre as características físicas de um indivíduo. Ter DNA mitocondrial africano, por exemplo, indica apenas que em algum momento do passado – recente ou não – houve uma mulher africana na linhagem materna daquela pessoa. É por isso que alguém com cabelos louros e olhos azuis pode ter entre suas ancestrais uma africana de pele escura, assim como um homem de pele escura e cabelos encaracolados pode ser descendente de europeus.

Na tentativa de detalhar essa razão, Pena decidiu investigar um terceiro tipo de material genético: o chamado DNA autossômico, que se encontra no núcleo de quase todas as células do corpo. Pena e Flavia Parra selecionaram dez trechos do DNA autossômico típicos da população africana e criaram uma escala chamada índice de ancestralidade africana: quanto mais desses trechos uma pessoa possui, mais próxima ela estaria de um africano. Em seguida, foram procurá-los na população brasileira. Os pesquisadores mineiros testaram esse índice em 173 homens brancos, pretos e pardos de Queixadinha, interior de Minas Gerais, e viram que, em média, os três grupos apresentavam proporções semelhantes de ancestralidade africana, que era intermediária entre a de um português do Porto, em Portugal, e a de um africano da ilha de São Tomé, na costa Oeste da África.

Em outro estudo, Pena e a bióloga Luciana Bastos-Rodrigues analisaram 40 outros trechos de DNA autossômico e descobriram que eles são suficientes para distinguir um indivíduo africano de outro europeu ou de indígena nativo das Américas. Ao comparar esses mesmos trechos de 88 brancos e 100 pretos brasileiros com os de africanos, europeus e indígenas, Pena e Luciana observaram altos níveis de mistura gênica: tanto os brancos como os pretos apresentavam características genéticas de europeus e de africanos. Essa mistura foi ainda mais evidente entre os pretos, que, segundo Pena, “resultam de um processo de intensa miscigenação”.

Com base nesses resultados obtidos em dez anos de investigação das características genéticas do brasileiro, Pena e Maria Cátira não têm dúvida em afirmar que, ao menos no caso brasileiro, não faz o menor sentido falar em raças, uma vez que a cor da pele, determinada por apenas 6 dos quase 30 mil genes humanos, não permite saber quem foram os ancestrais de uma pessoa.

O geneticista brasileiro Marcelo Nóbrega, da Universidade de Chicago, Estados Unidos, concorda, embora afirme que as diferenças genéticas entre populações de continentes distintos podem ser úteis na área médica – por indicar capacidades diferentes de metabolizar medicamentos – e usadas para definir raça. “Isso não significa que as raças sejam profundamente diferentes entre si nem superiores umas às outras”, diz. Para ele, o aumento da miscigenação nos últimos séculos erodiu as divisões entre esses grupos, como no caso brasileiro, e deve tornar obsoleto o conceito genético de raças.

Como já disse Gilberto Freyre em Casa-grande & senzala, “todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo – há muita gente de jenipapo ou mancha mongólica pelo Brasil –, a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro”.

Revista da FAPESP
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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Proposta do governo Lula é um ataque frontal aos direitos dos trabalhadores

Ivan Valente
Deputado Federal Psol/SP

A ver pelas recentes declarações de Lula, de considerar como “férias” as greves sem punição, entre outras pérolas, como: “você pensa em modernizar e o pessoal entra em greve” se referindo aos funcionários do Ibama – o funcionalismo deve se preparar para enfrentar fortes ataques por parte do governo.

Segundo matéria publicada no jornal Valor Econômico (15/05), o governo prepara um anteprojeto de regulamentação do direito de greve no setor público. A proposta ficou a cargo da Advocacia Geral da União (AGU) e do Ministério do Planejamento, já está na Casa Civil, e em breve deverá dar entrada no Congresso.

O conteúdo do anteprojeto relatado na matéria e não negado por nenhuma autoridade do governo, pelo contrário, corroborado pelas recentes declarações de Lula, significa na prática uma lei antigreve, bem ao gosto da mídia conservadora que faz coro com o governo. Lula se une ao que existe de mais reacionário na política brasileira e mais uma vez, a exemplo do que fez na reforma da previdência, procura satanizar o funcionalismo público, tratando-os como “bodes expiatórios” e causa de todos os males no setor público.

Não é casual que este projeto apareça logo após o governo ter apresentado, dentro do propalado PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), o Projeto de Lei Complementar (PLC) 01-2007, que institucionaliza o arrocho salarial, fixando o reajuste da folha de pagamento do conjunto funcionalismo em apenas 1,5% acima da inflação nos próximos dez anos, sem levar em consideração a necessidade de contratação de novos servidores, aumento de demanda e progressão nas carreiras. O que, evidentemente, causa uma justa reação do conjunto do funcionalismo, o governo tenta assim, se antecipar às lutas que virão, querendo engessar as possibilidades de que haja greves que contestem o arrocho anunciado.

O anteprojeto é um grande retrocesso, ressuscita tudo aquilo que historicamente sempre foi condenado pelas forças populares e democráticas no nosso país, retroagindo direitos e conquistas, inclusive, as garantidas na Constituição Federal de 1988. Esta assegurou ao conjunto do funcionalismo o direito de livre organização sindical, o exercício da greve e da negociação coletiva. No entanto, indicou ao Congresso Nacional a edição de lei complementar para regulamentar esses dispositivos.

O que chama a atenção é que o forte interesse do governo em regulamentar a greve, vem desacompanhado do interesse de assegurar as negociações coletivas, como a ratificação da Convenção 151 da OIT, que define regras gerais para a negociação coletiva no serviço público. O que a imprensa não fala e o governo desconsidera, é que as categorias do funcionalismo público são obrigadas a ficar ao bel prazer de ministros e demais autoridades, implorando audiências e quando conseguem através das mobilizações assegurar negociações, não há nenhum dispositivo legal que garanta que elas serão cumpridas.

Segundo o que já foi publicado, o anteprojeto apresenta questões como:

Estipula que uma assembléia só terá direito de aprovar greve se reunir 2/3 da categoria. Além de ser um ataque à autonomia e livre organização sindical, cria um impeditivo burocrático para a maioria das categorias, basta pensar em categorias numerosas e organizadas nacionalmente ou estadualmente, como docentes universitários ou os professores da rede estadual de ensino de São Paulo. Desconsidera que os sindicatos em geral têm a sensibilidade de aprovar greve quando há adesão efetiva de suas categorias, e principalmente, que a adesão é um ato voluntário. Caso contrário, a greve fracassa. Portanto, o movimento sindical já criou mecanismos próprios e democráticos para aferir a disposição de greve de suas respectivas categorias, lembrando que as greves, na maioria das vezes, é a última medida a ser tomada, caso não haja vontade do poder público em negociar.

Estabelece que 40% dos trabalhadores precisam se manter trabalhando durante o movimento grevista. Mais uma vez, desconsidera-se a experiência dos sindicatos do funcionalismo público, são principalmente os trabalhadores que sabem quais são os setores essenciais e que precisam ser mantidos em funcionamento para que a população não sofra danos irreparáveis. As greves do funcionalismo sempre primaram pela preocupação em assegurar o essencial, ou seja, o funcionamento daquilo que poderia colocar em risco a vida e a segurança.

Impõe a necessidade de comunicação prévia e pública do movimento grevista, no que chama de “atividades de interesse inadiável” com 72 horas de antecedência, pela proposta a maioria dos setores, e em outros casos, com 48 horas. Ainda, caso a greve seja considerada ilegal, haverá corte do ponto e a possibilidade da contratação temporária de servidores. Do contrário, caso a greve não seja considerada ilegal, os servidores serão obrigados a repor 50% dos dias parados.

As propostas apresentadas pelo governo estão de forma indiscutível patenteadas naquilo que chamamos de modelo neoliberal, inclusive na sua forma mais perversa, que é a restrição da democracia. Isso caso viesse de um governo de origem liberal já seria motivo suficiente para um duro repúdio de todos aqueles que lutam e lutaram pela democracia em nosso país, mas vem de um governo de origem operária, fruto das lutas sindicais e que em inúmeras vezes esteve presente nas lutas das principais categorias do funcionalismo.

A greve é um direito legítimo, ainda mais, quando os serviços públicos estão sucateados e a lógica do governo é a do ajuste fiscal e da prioridade do pagamento dos juros da dívida pública em detrimento de investimentos no setor público e garantia dos direitos dos trabalhadores. Historicamente a luta e a resistência dos trabalhadores públicos foram fundamentais para frear ataques às condições de trabalho, privatizações e demissões. Sem a luta do funcionalismo e deixados ao humor dos governos neoliberais de plantão, a qualidade dos serviços públicos estariam ainda mais comprometidas com todas as suas conseqüências para o aumento da exclusão social no país.

Nunca é demais lembrar, apesar de tudo o que já aconteceu no governo Lula, que ele foi reeleito sob a expectativa alimentada por parte dos setores da esquerda como uma forma de barrar o avanço da direita representada por Alckmin. No entanto, parte do governo Lula ataques que em nada ficam a dever a qualquer governo tipicamente de direita.

O momento, portanto, é de resistência. É preciso unidade dos movimentos sociais, fortalecendo em todo o país movimentações como a jornada de lutas marcada para o dia 23 de maio e as mobilizações de várias categorias do funcionalismo, já em curso ou previstas para os próximos dias. É preciso que todos aqueles comprometidos com a defesa da democracia e com as lutas dos trabalhadores reajam a mais estas tentativas de cassar direitos duramente conquistados, só a mobilização social será capaz de barrar esses ataques.

Câmara dos Deputados - 16/05/07

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Os novos e velhos problemas da cana

Valor Econômico

A polêmica que se instala em torno das relações trabalhistas entre bóias-frias e produtores de cana-de-açúcar é mais complexa do que pode parecer à primeira vista. O lado visível do grave problema social que representa os amontoados de trabalhadores que saem dos seus Estados para cortar cana, em safras que vão liberar novamente esta mão-de-obra seis a oito meses depois, e o centro das reivindicações do movimento sindical e dos movimentos sociais ligados ao setor, é a exigência de produtividade. A mecanização desse setor teve um efeito às avessas para o trabalhador braçal: os usineiros, que antes da mecanização exigiam oito toneladas de cana colhida por dia, por trabalhador, passou a usar a referência da produtividade da máquina para aumentar gradativamente as exigências de produtividade humana. Hoje um patrão pode exigir o corte de 10 a 20 toneladas por dia per capita - varia de acordo com a região, mas de qualquer forma resultou no aumento do esforço físico e do número de horas trabalhadas por cortador de cana.

As relações de trabalho são rigorosamente as mesmas que fizeram outras monoculturas que existiram no país: há um intermediador de mão-de-obra, que percorre os Estados mais pobres - hoje eles atuam em especial no Norte e no Nordeste. São escolhidos para o trabalho, de preferência, os mais jovens. Ao entrar no ônibus para ir até a cidade onde o trabalho é contratado, o cortador de cana já faz a primeira dívida com o “gato”, a de transporte. O “gato”, por sua vez, ganha em média R$ 60 por cada aliciado dos empregadores. Não é incomum também que ele seja o responsável pela venda de suprimentos para os trabalhadores. Tornam-se “donos” dessa mão-de-obra conforme as dívidas se acumulem.

No Estado de São Paulo, ao longo da mecanização, houve um aumento simultâneo da formalidade do trabalho. O cortador é contratado como trabalhador eventual. Mas, segundo Luiz Bassegio, da Pastoral do Migrante, essa formalização foi praticamente anulada pelas exigências de concorrência do cortador de cana com as máquinas. Como se ganha por tonelada cortada (em média R$ 2,5 a R$ 3 por tonelada) e existe uma meta mínima de corte, o cortador é obrigado a trabalhar mais horas. A partir da mecanização do corte de parte da cana, os empregadores começaram também a cobrar do cortador cortes mais rentes ao chão, semelhantes aos feitos pela máquina e mais trabalhosos.

Existem, nas culturas de cana-de-açúcar, fatos que remetem esses trabalhadores ao século XIX. A “tonelada” é medida pelo que se chama de “triângulo”, na verdade uma medida de tamanho de cada cana cortada. Supõem-se que um “x” de braçadas com a mesma medida pese a tonelada. Recentemente, o Sindicato de Trabalhadores Rurais de Cosmópolis, que está entre os mais organizados, conseguiu dos produtores a medição de fato, “por computador”. Segundo Bassegio, no primeiro uso da nova medição constatou-se que as 10 toneladas exigidas por dia de cada trabalhador que eram “medidas” pelo triângulo na verdade pesavam 20 toneladas. Como, até onde se sabe, é só lá que se pesa de verdade a cana, e não se “mede” a tonelada”, supõem-se que nos outros lugares os cortadores estão sendo lesados por essa tradição.

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Prostituição, drogas e crime seguem rota do etanol

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A outra tradição é a de queimar o canavial antes do início do trabalho de corte. Sem a queimada, é praticamente impossível ao trabalhador, mesmo acostumado com esse tipo de atividade, cortar a cana. Isso expõe não apenas o cortador, mas as cidades próximas, a chuvas de fuligem - que hoje são muito comuns na cidade de Ribeirão Preto, por exemplo. Para o trabalhador, isso não representa apenas a possibilidade de um problema respiratório futuro, mas o risco de ser carbonizado durante a queimada. Não é um acidente de trabalho incomum.

Além das questões que remetem ao passado, a euforia da cana está trazendo também problemas para o futuro. Nesta semana, por exemplo, o Correio Braziliense publicou reportagem assinada pelo repórter Amaury Ribeiro Jr que descreve o resultado do “boom” do etanol sobre municípios do Triângulo Mineiro. Segundo a reportagem, em Delta, em menos de 4 anos, foram plantados 300 mil hectares de cana-de-açúcar em antigas áreas de pastagem ou de agricultura. A cidade, que tem 5 mil habitantes, dobra sua população para 10 mil habitantes no período de colheita. Calcula-se que, apenas para a região do Triângulo, afluam pelo menos 20 mil bóias-frias, principalmente do Maranhão e do Alagoas. A pequena Delta, segundo a reportagem, começou a registrar taxas de homicídio inimagináveis antes da duplicação da produção de álcool Delta de Alagoas. É também o destino de crianças e adolescentes aliciados ou sequestrados para engordar a prostituição na região.

Com a mudança do perfil dos locais de destino dos bóias-frias, que passaram a engrossar a periferia de pequenas ou grandes cidades, o alcoolismo deixou de ser o único problema entre cortadores de cana. O uso do crack por cortadores de cana foi registrado em tese de mestrado em psicologia social de Arlete Fonseca Gonçalves já em 2003. Em 1996, a Polícia Federal já considerava como “rota caipira” 54,7 mil quilômetros quadrados do território paulista, entre os rios Tietê, Paraná e Grande. Arlete aponta estatísticas do Centro de Atendimento Toxicológico (Ceatox) de Botucatu, de 1994 a 1999, que acusavam uma média de 94 atendidos na população rural por dependência de crack, maconha ou cocaína. Um especialista em culturas de cana-de-açúcar pede que se atente, também, para os “maturadores de cana” - são herbicidas que vêm sendo usados há quatro anos para antecipar a colheita. Até agora não se tem idéia do efeito que possa ter sobre o trabalhador que fica em permanente contato com esses produtos.

Daí se conclui que o etanol não é uma solução nem econômica, nem ecológica, sem maiores comprometimentos. Antes que o país vire um imenso canavial, é necessário equacionar relações trabalhistas, de saúde e inclusive as questões urbanas que envolvem a produção do etanol.

Maria Inês Nassif é editora de Opinião.

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Quando o mar se acalma, os espanhóis se preparam para os barcos de imigrantes

De Victoria Burnett
Em Madri

Os serviços de resgate espanhóis e grupos de ajuda humanitária se preparam para uma onda de embarcações transportando imigrantes da África para as Ilhas Canárias, nesta semana, após mais de 800 chegarem em barcos de pesca nos últimos cinco dias.

Austin Wainwright, o coordenador de resposta de emergência da Cruz Vermelha para as Ilhas Canárias, disse que o aumento acentuado no número de chegadas estava associado à melhora do tempo e que espera ver a chegada de barcos de maior porte, que percorrem distâncias maiores, ao arquipélago ao longo do verão no hemisfério norte.

“É certo que a partir deste ponto no ano nós veremos mais chegadas”, ele disse.

Mais de 300 imigrantes chegaram às ilhas em cinco barcos na segunda-feira, segundo os serviços de emergência das Ilhas Canárias, elevando o número de recém-chegados até quinta-feira para 815. Cerca de duas dúzias de crianças vieram nos barcos entre os imigrantes, a maioria aparentemente oriunda do Senegal, disse Wainwright. Ele disse que os barcos senegaleses, que tendem a ser maiores, foram os primeiros avistados seguindo para as ilhas há duas semanas, e ele espera que o número deles aumente nos próximos meses, à medida que aproveitam o tempo clemente para fazer a longa jornada.

Uma enxurrada de mais de 30 mil imigrantes às Ilhas Canárias no ano passado, a maioria africanos, estressou as forças de segurança e serviços sociais da região e provocou alarme entre os espanhóis que, como mostram as pesquisas, consideram a imigração entre suas maiores preocupações. Ela provocou fortes críticas locais e internacionais à decisão do governo do primeiro-ministro José Luis Rodríguez Zapatero de oferecer anistia a cerca de 600 mil trabalhadores imigrantes ilegais.

Na segunda-feira, representantes do governo buscaram acalmar os temores de que ocorrerá uma enxurrada de imigrantes como a do ano passado.

“Em comparação ao ano passado, a situação está muito mais sob controle”, disse Marlene Menesis, uma porta-voz do governo central das Ilhas Canárias, que disse que os esforços da Guarda Civil Espanhola e da Guarda Costeira, assim como da força européia para imigração, a Frontex, ajudaram a reduzir pela metade o número de chegadas até o momento neste ano, para menos de 3 mil.

“Muitos dos barcos mal deixaram os portos ou atingiram águas internacionais quando foram obrigados a retornar”, disse Menesis.

José Segura, o representante do governo central nas Ilhas Canárias, disse que o Ministério do Interior planeja enviar duas grandes embarcações para ajudar a policiar as águas do arquipélago e o ministério emitiu uma declaração dizendo que intensificou a quantidade de imigrantes ilegais repatriados, enviando 168 para casa no fim de semana.

Wainwright disse que, apesar do número de chegadas ter caído neste ano, o tamanho de algumas das embarcações usadas para o transporte de imigrantes aumentou, assim como a proporção de imigrantes asiáticos a bordo, indicando que as Ilhas Canárias se tornaram um alvo para uma rede cada vez mais sofisticada de contrabando de pessoas.

Tradução: George El Khouri Andolfato

International Herald Tribune

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