Um monstro à luz do dia

Diogo Cronemberger

O filme “O Hospedeiro”, do diretor Bong Joon-ho, é a mais nova prova da originalidade do cinema sul-coreano

Acaba de chegar aos cinemas brasileiros “O Hospedeiro”, o filme de maior bilheteria da história de seu país de origem, a Coréia do Sul, visto por cerca de 13 milhões de pessoas, o que equivale aproximadamente a um quinto da população da parte sul da “terra da manhã tranqüila”. Além disso, é o filme de maior êxito financeiro internacional da história do cinema sul-coreano. Como se não bastasse, foi eleito pela rigorosa revista francesa “Cahiers du Cinéma” como o terceiro melhor filme de 2006 e quase só recebe elogios da crítica onde quer seja exibido.

Trata-se do terceiro longa dirigido por Bong Joon-ho, responsável pelo maravilhoso suspense “Memórias de um Assassino” (2003). Em “O Hospedeiro”, o diretor recorre a um outro gênero, o “kaiju eiga”, expressão japonesa que designa filmes de monstros à la Godzilla. Porém, um dos grandes trunfos de Bong Joon-ho não é ater-se a apenas um gênero, mas misturar de maneira bastante original vários deles.

Vamos nos ater, por enquanto, ao “kaiju eiga” e ao início do filme. Se em “O Mundo em Perigo” (1954), “O Monstro do Mar Revolto” (1955) e outros filmes norte-americanos da década de 50, bem como no próprio “Godzilla” (1954), a radiação atômica estava por trás do aparecimento de animais ou seres gigantescos, em uma relação de causa e efeito (reflexo da Segunda Guerra Mundial e das bombas atômicas que atingiram Hiroshima e Nagasaki), em “O Hospedeiro” a premissa não é muito diferente. Joon-ho apenas atualizou a idéia.

“O Hospedeiro” começa em uma base do Exército dos Estados Unidos na Coréia, em 2000, onde um cientista americano ordena ao subordinado coreano que despeje grande quantidade de formaldeído, um químico tóxico, pelo ralo, ou seja, no rio Han, alegando que detesta poeira e que o rio é enorme. O modo como a cena é filmada é uma referência clara aos filmes norte-americanos de ficção científica citados.

O tom é de sátira. É o primeiro de uma série de comentários irônicos acerca dos Estados Unidos, que permeiam todo o filme. Infelizmente, o episódio é verdadeiro. A base para a construção do roteiro –além da vontade do roteirista-diretor de fazer sua versão do Nessie do lago escocês- foi o incidente McFarland, em que detritos químicos de uma base militar americana de Yongsan, no centro de Seul, foram lançados nas águas do Han, gerando, na vida real, um sério impasse diplomático.

No filme, um longo travelling para a direita mostra inúmeras garrafas vazias à medida que o subordinado coreano esvazia mais uma, dando conta da dimensão do que está por vir. Fusão das garrafas com as águas do rio Han. Causa e efeito. Dois anos depois, em 2002, trilha de suspense, e a confirmação de que há algo de errado no rio vem por dois pescadores, que deparam com um pequeno animal mutante. Chegamos, enfim, em 2006. O animal pequeno é agora uma mancha gigantesca sob as águas do Han, onde pula um executivo arruinado. Busca o suicídio e encontra uma morte carregada de significações políticas. Sobre as águas, aparece então o título do filme. Como em “Memórias de um Assassino”, a passagem do tempo é uma questão fundamental para Joon-ho. Por mais que muitas coisas mudem de um ponto a outro, existem outras que permanecem ao longo da linha do tempo.

Depois de tanta tensão, o filme exibe o protagonista, o abobalhado Park Gang-du (interpretado pelo excelente Song Kang-ho), que aparece dormindo no trailer em que trabalha com o pai (Byeon Hie-bong) vendendo alimentos. Gang-du é pai da menina Park Hyun-seo (Ko Ah-sung), e a sua família problemática inclui ainda dois irmãos, Nam-joo (Bae Du-na), uma arqueira olímpica meio lerda, e Nam-il (Park Hae-il), um jovem com diploma universitário, mas desempregado, um misto de herói e hipócrita, uma referência clara à história recente do país, marcada por protestos estudantis em favor da democratização.

Perto do restaurante do pai de Gang-du, algumas pessoas observam algo estranho pendurado na ponte sobre o rio. É o monstro, mas todos ignoram o perigo que ele representa. Gang-du joga uma cerveja para ele. As pessoas também jogam alimentos e fazem especulações (uma delas pergunta se a criatura veio do Paquistão e outra chega a dizer que é o golfinho da Amazônia, com certeza). De repente, o monstro se lança à caça das pessoas. Tem início uma das mais espetaculares seqüências de ação já vistas.

Em determinado momento, o monstro entra em um trailer cheio de pessoas e vemos o veículo balançando do lado de fora. Lembra Spielberg. Uma das características mais interessantes do cinema de Joon-ho e do atual cinema sul-coreano, em geral, é justamente a apropriação daquilo que os realizadores consideram o melhor do recente cinema norte-americano. Entretanto, não se trata de tentativa de cópia. Joon-ho e seus conterrâneos têm feito um cinema particular, ancorado nos gêneros e influenciado pelo cinema hollywoodiano, sim, mas com uma visão de mundo e um modo de narrar próprios.

Mistura de gêneros

O fato de o monstro aparecer logo no início do filme, e à luz do dia, é exemplar nesse sentido. Isso contraria o modelo clássico de filmes de monstro, em que a criatura aparece aos poucos, nas sombras. Contraria também, em muitos aspectos, o que Spielberg fez em “Tubarão” (1975), por exemplo, uma das maiores referências para Jooh-ho. Ao final da seqüência terrível, a filha de Gang-du é raptada pelo monstro e dada como morta. Até que ela liga para o pai do esgoto onde o monstro a levou, e o filme se transforma então na narrativa do resgate da menina pela família.

A quebra das convenções dos filmes de monstro também se dá pela mistura com outros gêneros, como a ficção científica, o suspense, o terror, a sátira política, enquanto a família vive situações típicas de uma comédia de costumes. Na cena hilariante em que os familiares fogem do hospital em uma van, ao som de uma música de filme de aventura, vem à mente o delicioso “Pequena Miss Sunshine” (2006). E vale ressaltar: a família Park é tão desajustada quanto a família Hoover, do filme americano. Outros tipos de comédia perpassam “O Hospedeiro”, desde o pastelão até o nonsense. E o filme é também um melodrama pungente, ao mostrar a luta para a restauração do equilíbrio em um mundo em que se opõem vícios e virtudes.

Bong Joon-ho acha que essa fusão de gêneros, essa mistura de elementos aparentemente díspares torna os filmes mais realistas. Tem razão. A experiência humana é complexa, abarca um sem-número de emoções diferentes. A vida não é um drama ou uma comédia, mas uma combinação de ambos. E muito mais. É o questionamento trazido por Woody Allen com “Melinda e Melinda” (2004).

Porém, o que há de mais fascinante em “O Hospedeiro” não é apenas a alternância de gêneros, mas a fusão freqüente deles. Como na cena no ginásio, em que a família chora pela (falsa) morte de Hyun-seo e, em meio aos choros, um familiar começa a cair sobre o outro, até que todos se esparramam pelo chão, se debatendo de maneira engraçada. Há outras cenas tão incríveis quanto essa, todas dirigidas com maestria. Em outros casos, a câmera lenta que traz dramaticidade permite também a expressão do cômico.

Isso leva a outro ponto fundamental do filme, que deve ser ressaltado: a quebra de convenções também se dá na estrutura formal da obra, não apenas no enredo. A opção por determinado ângulo e/ou velocidade de câmera faz com que se criem determinadas expectativas, que o diretor faz questão de frustrar. No entanto, o espectador nunca se frustra. Deleita-se com o inesperado.

Foco na família

Em “O Hospedeiro”, parece haver espaço para tudo. Nada é abandonado em nenhum momento. Contudo, mais que nos sustos (há pouquíssimos) ou em qualquer outra coisa, o foco está na família. Na oposição entre vícios e virtudes, é ela a detentora das virtudes, apesar de todos os seus problemas. É a família de classe mais baixa que tem forças para lutar contra o monstro, diante da ineficácia do Estado. Assim, as críticas do filme não se dirigem apenas aos Estados Unidos, o que seria óbvio e menos significativo, mas também ao governo sul-coreano, que só faz trapalhadas.

A “descoberta” pelos norte-americanos de que o monstro é “o hospedeiro” de um “vírus” e o combate biológico através do “agent yellow”, uma clara alusão ao “agent orange” usado no Vietnã, comprovam essa capacidade de desarrumar o desarrumado. Desse modo, cabe à família a tarefa de lutar. E, tal como em “Memórias de um Assassino”, só a união faz a força, mesmo que a força não garanta a vitória. Nenhum personagem consegue nada sozinho, um ajuda o outro. É uma mensagem de celular, transmitida pelo irmão alquebrado, que dá à irmã a localização da sobrinha, por exemplo.

Lutando contra tudo e contra todos, desacreditada, a família Park lembra aquela que salva o planeta em “Marte Ataca!” (1996), dirigido por Tim Burton, outro filme em que o Estado falha e uma família comum e de classe mais baixa tem que solucionar o problema. “O Hospedeiro” e “Marte Ataca!” são exceções.

O fervilhante cinema sul-coreano

Na Coréia do Sul, o cinema do país –que vem encantando público e crítica- detém mais de 50% das vendas de ingresso, fazendo frente aos filmes norte-americanos graças a um rigoroso sistema de cotas. São produzidos cerca de 100 longas sul-coreanos por ano. “O Hospedeiro” guarda proximidades com vários deles, como os filmes da Trilogia da Vingança de Park Chan Wook, por exemplo, e não apenas pela temática.

O excelente “Lady Vingança” (2005), que fecha a trilogia, também está em cartaz em cidades brasileiras e mostra todo o talento de seu diretor, que igualmente combina diferentes gêneros em suas obras, embora com um estilo bem diferente do de Bong Joon-ho. “Oldboy” (2003), o segundo da trilogia, é outro grande filme, um exemplo bastante ilustrativo da força do cinema de Park Chan Wook, que já foi alçado ao Olimpo dos principais autores do cinema contemporâneo.

Outro nome de relevo na cinematografia sul-coreana é Kim Ji-woon, responsável, por exemplo, pelo terror “Medo” (“A Tale of Two Sisters”, 2003) e pelo filme de ação “O Gosto da Vingança” (“A Bittersweet Life”, 2005), ambos excelentes. Oferecem ao espectador histórias intrigantes e experiências estéticas singulares. Falando sobre “Medo”, Kim Ji-woon afirmou que queria com o filme o que Hitchcock conseguiu com a cena de “Topázio” (1969), filmada de cima, em que Juanita é morta, cai e seu vestido se esparrama pelo chão. Ao mesmo tempo, temos beleza e terror, tristeza.

Uma crítica que pode ser feita aos três diretores (Bong Joon-ho, Park Chan Wook e Kim Ji-woon), bastante pertinente, diz respeito ao fato de buscarem beleza ou originalidade em cada plano, deixando um pouco de lado a preocupação com o todo do filme. Contudo, até agora, essa crítica é mais uma advertência que uma repreensão.

Kang Je-gyu (“A Irmandade da Guerra”, 2004), Jang Sun Woo (“Mentiras”, 1999), Im Kwon-taek (“Chunhyang - Amor proibido”, 2000) e Kim Ki-duk (“Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera”, 2003) são outros diretores sul-coreanos de destaque.

Mas voltemos a “O Hospedeiro”, pois é importante ressaltar os efeitos visuais do filme, em especial o monstro, criado pela Weta (“O Senhor dos Anéis”) e pela The Orphanage (“Hellboy”), bem como a direção de arte. O esgoto onde fica a menina Hyun-seo é um cenário primoroso, bem ao gosto do diretor, que tem preferência por espaços altos e estreitos.

Dos protagonistas ao cenário, da narrativa às cores, as diferentes partes compuseram um conjunto interessante e muito divertido, em que diferentes gêneros se alternam e se misturam, em que diferentes emoções se confundem, entusiasmando o público. O final do filme é, de certa forma, parecido com o de “Memórias de um Assassino”. O tempo passa, as coisas mudam de um ponto a outro, mas há permanências. O diretor recusa o “happy ending” tradicional. Pode até haver um final feliz, mas nunca em sentido pleno, pois há sempre algo que não foi resolvido, algo que fica nas mentes dos personagens que passam pelos eventos narrados.

Do mesmo modo, filmes como “O Hospedeiro” ficam nas mentes dos espectadores, como experiências fascinantes, por sua originalidade. Deixam-nos perplexos. Vejamos o que acontece com o passar do tempo.

Diogo Cronemberger
É aluno de cinema na Escola de Comunicações e Artes da USP.

Revista Trópico

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