Grande sertão

Há 55 anos, o escritor João Guimarães Rosa fazia uma viagem pelo interior de Minas Gerais. Além de lembranças, trouxe personagens

João Correia Filho

Algumas viagens entram para a história. Outras entram também para a literatura. Foi o que aconteceu com o escritor João Guimarães Rosa, quando, em maio de 1952, há exatos 55 anos, se lançou numa empreitada pelo sertão mineiro que marcaria sua vida e sua obra.

Acompanhado de oito vaqueiros e levando 300 cabeças de gado, percorreu em dez dias os 240 quilômetros que separam Três Marias e Araçaí, na região central de Minas Gerais, sua terra natal. Trazia amarrada ao pescoço uma caderneta, onde anotava tudo que via e ouvia - as conversas com os vaqueiros, as sensações, as dificuldades e tudo que brotasse daquele mundo que ele reencontrava depois de anos vivendo como diplomata no exterior.

As cadernetas, hoje parte do acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, foram reunidas em dois diários, que Rosa chamou de A Boiada 1 e A Boiada 2. As anotações seriam utilizadas como elementos de suas próximas obras - entre elas, Corpo de Baile (lançado em 1956), Tutaméia (de 1967) e Grande Sertão: Veredas (1956).

No dia 16 de maio, o escritor chegava à fazenda Sirga, de seu primo Francisco Moreira, em Três Marias. Três dias mais tarde, a boiada partiria para a viagem, fazendo seu pouso em várias fazendas e vilarejos da região.

Rosa fez questão de acompanhar o dia-a-dia dos vaqueiros em tudo, comendo da mesma comida - carne-seca, toucinho, feijão e arroz com pequi - e dormindo nos mesmos locais. Em Barreiro do Mato, por exemplo, teria dormido dentro de uma grande forma de rapadura, um enorme tacho côncavo, e em vários outros locais passou a noite em colchões de palha de milho, comuns naquela época.

Já próximo a Cordisburgo, cidade em que nasceu e etapa final da viagem, a comitiva teve um encontro com uma equipe da revista O Cruzeiro, que cobria a viagem do já famoso autor de Sagarana, lançado em 1946.

As obras de Rosa possuem uma infinidade de referências diretas e indiretas à viagem de 1952. A principal delas está em Corpo de Baile, mais especificamente na novela “Uma Estória de Amor”, inspirada na vida de Manuel Nardy, um dos oito integrantes da comitiva. Ele aparece transfigurado no personagem de Manuel Jesus Rodrigues, o Manuelzão. As semelhanças vão além do nome: estão em acontecimentos da vida do vaqueiro.

Outro vaqueiro que se destacou durante a viagem foi João Henrique Ribeiro, o Zito. Embora não tenha ficado tão famoso quanto Manuel, era Zito quem seguia o tempo todo ao lado do escritor.

Assumiu as funções de guia e de cozinheiro da tropa e tirava quase todas as dúvidas de Guimarães Rosa. Embora não tenha resultado na criação de um personagem, a relação entre Zito e o escritor também teve seu destaque na obra.

A perspicácia do vaqueiro chamou tanto a atenção de Rosa que, anos mais tarde, ele o homenagearia em Tutaméia, lançado no ano da morte do escritor. Em um dos quatro prefácios, Guimarães Rosa transcreve trechos de conversas com o vaqueiro e elogia sua inteligência e criatividade.

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1 Comentário »

  1. pedro fonseca disse,

    24 de Julho de 2007 @ 12h 29m

    João,
    O seu texto é absolutamente verdadeiro. Você sabia que refizemos esta viagem entre os dias 17 e 26 de maio de 2007, com 25 vaqueiros conduzindo 198 cabeças de gado?
    Procuramos manter a originalidade do roteiro. Saimos da capelinha do Manuelzão, em Três Marias, e fomos até a fazenda São Francisco, em Araçaí. Fizemos todos os pousos em dez dias. A fazenda da Tolda continua do mesmo jeito. O Andrequicé também e a fazenda Santa Catarina também. A fazenda da Benedicta, no Catatau, mudou de dono e não tem mais a casa original. No Riacho das Vacas, a casa não existe mais. Não possível pousar na fazenda do Meleiro, que pertencia a Constantino Cordeiro. Ela se encontrava ocupada por um grupo de quarenta famílias de sem terra. Tivemos que pousar na outra fazenda do Meleiro, que era de Matias Lopes, de Curvelo. A fazenda da Etelvina - Barreiro do Mato - não existe mais. Foi ocupada pelo eucalipto. Pousamos na fazenda Capão Seco, de seu Antônio, filho da Etelvina. A fazenda do Juvenal, conhecida como Paulista, está do mesmo jeito. Não foi possível fazer o pouso na fazenda Taboquinhas, poorque a dona, Waldênia, não permitiu. Tivemos que pousar em Cordisburgo, no sindicato rural. Isso foi interessante, pois resgatamos o pouso de 1952, que estava previsto na fazenda do Saturnino - que não permitiu que se pousasse lá. Na fazenda São Francisco, o curral é o mesmo. Percorremos 241 quilômetros. É uma viagem fascinante. Ficamos entre a exuberância do cerrado apaixonante e a presença da monocultura exótica do eucalipto - que já domina quase 50% da região percorrida.
    Pode ter certeza de que a viagem mudou a vida de todos os participantes e dos personagens dos pousos. Mesmo que a Comitiva do Sertão das Gerais tenha feito apenas uma viagem romântica em busca da nossa história.
    Um abraço,
    Pedro Fonseca

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