Arquivo de Junho de 2007

Fernando Pessoa

Tão abstrata a idéia do te ser
Que me vem de te olhar, que , ao entreter
Os meus olhos nos teus, peco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar- te , e ao saber-me
Sabendo que tu és, que , só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto,
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo , nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou , risonho
Do inferior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo

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A percepção das crianças

Drauzio Varella

Os pequenos têm dificuldade para compreender noções científicas quando estas subvertem as expectativas
A gravidade faz sentido. A Terra ser esférica, não Mundo à mão

A dificuldade para aceitar fatos científicos é universal na espécie humana. Por isso tanta gente se submete a tratamentos alternativos de eficácia jamais comprovada, acredita em forças sobrenaturais e não sai de casa sem ler o horóscopo.

Em artigo publicado na revista Science, Paul Bloom e Deena Weisberg, do Departamento de Psicologia da Universidade de Yale, atribuem essa dificuldade a duas características psicológicas das crianças. A primeira diz respeito ao que elas sabem e a segunda, a como elas aprendem.

Hoje sabemos que o cérebro das crianças está longe de ser um livro em branco. Bebês de um ano possuem noções claras sobre o mundo físico e o universo das relações sociais. Sabem que os objetos podem ser sólidos ou líquidos, que continuam a existir mesmo guardados fora do campo visual, que caem no chão quando soltos e que não se movimentam por conta própria. Da mesma forma, percebem que as pessoas respondem a estímulos físicos e sociais, agem e reagem segundo seus objetivos e de acordo com as emoções daquele momento.

Se, de um lado, tais intuições infantis servem como ponto de partida para entender o universo racional, de outro podem chocar-se com qualquer evidência experimental que esteja em desacordo com elas. Por exemplo, a percepção de que os objetos caem no chão, adquirida na mais tenra idade, pode dificultar a aceitação de que a Terra é esférica. Como as pessoas situadas no lado oposto não despencam? Apenas aos 8 ou 9 anos de idade é que esse conceito se torna compreensível.

Em sua ingenuidade, as crianças tendem a achar que tudo foi criado para atender a determinada finalidade, propensão chamada de teleologia promíscua. Para quem tem 4 anos, as borboletas foram feitas para voar, as flores para embelezar, os cachorros para guardar a casa e os golfinhos para fazer acrobacias. No futuro, essa característica poderá se tornar incompatível com a idéia de que a vida surgiu por acaso e que chegou até nós através da seleção natural.

O caso do dualismo entre cérebro e mente é didático. Para as crianças, parte considerável da vida mental nada tem a ver com o sistema nervoso. Na fase pré-escolar, elas consideram o cérebro responsável pela execução de tarefas como resolver problemas de matemática ou descobrir como funciona um brinquedo, mas imaginam que ele nada tenha a ver com os sentimentos e a imaginação.

Numa experiência clássica, alunos da pré-escola foram colocados diante da questão: “O que aconteceria se um cérebro humano fosse transplantado para um porco?” A maioria respondeu que o animal ficaria muito inteligente, mas que conservaria os desejos e a vida mental de um porco.

A crença nesse dualismo representará um obstáculo para aceitar a lógica de que a vida mental emerge a partir de eventos físico-químicos. E explica por que são acalorados os debates entre os que juram existir alma num óvulo recém-fecundado e nas células-tronco embrionárias e aqueles que consideram necessária a existência de atividade cerebral para caracterizar a condição humana.

Na vida adulta, avaliar a lógica de uma teoria nem sempre está a nosso alcance. Quantos são capazes de julgar se existe coerência entre a Teoria da Relatividade e a mecânica quântica, ou avaliar a profundidade das idéias de Darwin e Wallace?

Para fazê-lo, os adultos geralmente se baseiam na credibilidade dos que defendem essas idéias. A criança faz o mesmo. Aos 4 ou 5 anos ela já sabe que um adulto merece mais crédito quando sua opinião é conflitante com a de outra criança. E que, numa competição de resultado incerto, o contendor que reconhece ter perdido merece mais crédito do que aquele que se declara vencedor.

Esses estudos sugerem que a resistência ao pensamento científico surge nas crianças quando as evidências se chocam com suas expectativas intuitivas. E que essa resistência poderá ser reforçada na vida adulta, particularmente, quando figuras proeminentes da sociedade contestam as afirmações científicas e oferecem explicações alternativas baseadas no senso comum.

Carta Capital
http://www.cartacapital.com.br/

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Seguros, novo caminho para os bancos

Decisão do governo beneficia as maiores instituições financeiras do país e favorece monopólios

Eduardo Sales Lima
da Redação

Nos três primeiros anos do governo Lula, os bancos lucraram 42% a mais do que nos três últimos anos da gestão de Fernando Henrique Cardoso. Em 2007, uma medida tomada pelo Ministério da Fazenda poderá ampliar ainda mais a rentabilidade dos banqueiros, com operações no mercado de seguros. Resoluções da Superintendência de Seguros Privados (Susep), ligada à Fazenda, impostas sem consulta pública no final de 2006, obrigam as seguradoras a dobrar seu capital até 2010. Os setores atingidos pelo conjunto de resoluções envolvem, sobretudo, o de transporte terrestre (danos de carga ou pessoais) e a Previdência privada.
Segundo relatório de gestão da Susep de 2006, “as empresas serão mais capitalizadas, terão um planejamento estratégico melhor e uma visão de longo prazo muito mais elaborada. Também serão afastadas do mercado aquelas sociedades que não tenham as estruturas mínimas necessárias a sua solidez e bom funcionamento”. O órgão diz que segue a tendência mundial de reforçar a solvência das seguradoras e que se mira no modelo europeu. Porém, na União Européia, o prazo concedido ao mercado para as novas regras foi mais de duas vezes maior, de dez anos.
“Vai ser um monopólio muito pior. Só os grandes bancos têm condição de aumentar o capital dessa forma e o prazo para a adaptação é muito pequeno. Isso só vem complementar várias outras medidas que o governo tem feito em benefício aos bancos”, avalia Rodrigo Ávila, da Auditoria Cidadã da Dívida.
Além do prazo curto para adaptação, as empresas não tomaram conhecimento, até 29 de dezembro de 2006, dos fatores e índices relacionados com as áreas e regiões geográficas de atuação. Os dados, conhecidos só depois da publicação das resoluções, determinam o quanto a mais de capital as empresas terão de colocar no negócio.
Para Ávila, o governo está agindo de forma conjunta com os bancos. Trata-se de uma reação à migração dos clientes dos fundos de investimento para a poupança, com o recuo da taxa média de juros da economia (Selic) - em 2005, era de 19,75% e caiu para 12,5% anuais (até o fechamento desta edição). O economista afirma que o governo, em vez de utilizar isso para forçar os bancos a diminuírem suas taxas de administração, reduziu o rendimento da poupança para que as pessoas continuassem aplicando em fundos de investimento, garantindo o lucro dos bancos.

Bom para os bancos
Mesmo sem as resoluções da Susep, o setor de seguros, desde 2000, dobrou de tamanho e arrecadou R$ 70 bilhões em 2006. Hoje, os três maiores bancos do país (Bradesco, Itaú e Unibanco) e a Sul América (associada ao banco holandês ING) já dominam mais da metade do mercado. Entre janeiro e outubro de 2006, a arrecadação de seguros no país cresceu 18%, segundo dados da Fenaseg. Em março, a Bradesco Seguros e Previdência anunciou que não esperaria o prazo de três anos dado pela Susep e iria cumprir a exigência que a beneficia até o final daquele mês, aportando R$ 250 milhões no negócio. A empresa de seguros encerrou o primeiro trimestre de 2007 com lucro líquido de R$ 529 milhões, crescimento de 14,8% em relação ao mesmo período de 2006.
“O monopólio dos seguros prejudica a população porque aumenta os preços dos seguros. Quanto à Previdência privada, tira a competição, mas é importante ressaltar que esses planos só existem porque o governo não garante uma previdência pública”, atesta Ávila.
Para a economista Maria Alejandra Caporale Madi, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a população brasileira poderá se ressentir da falta de produtos diversificados e do pagamento de altos prêmios de seguros em função da ausência de concorrência em preços no setor de seguros. “Na medida em que os bancos passam a concentrar a oferta de seguros, a sua disponibilidade e precificação, muitas vezes, virá atrelada a pacotes de outros serviços e produtos ofertados pela mesma instituição”, afirma a economista. Para ela, a euforia dos bancos, porém, não durará muito tempo se o governo não executar medidas que também beneficiam o povo. “Sem expansão da renda da população, é difícil imaginar a expansão do setor de seguros no Brasil”, diz Alejandra.

Quanto
18% foi quanto cresceu a arrecadação com seguros no país entre janeiro e outubro de 2006

Jornal Brasil de Fato
ttp://www.brasildefato.com.br/

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Pensamento

Há homens que lutam um dia e são bons; Há outros que lutam um ano e são melhores.
Há os que lutam muitos anos e são muito bons.
Mas há os que lutam toda a vida, e estes são imprescindíveis.

Bertold Brecht

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Onde enterrar Benjamin Benatar?

A morte de um comerciante judeu na província do Rio de Janeiro revela as enormes dificuldades daqueles que viviam à margem da religião oficial do império

Keila Grinberg

Estamos no ano 1859 depois de Cristo. Toda a cidade de Vassouras (RJ) era católica… Toda? Não! Um irredutível cidadão, casado na igreja, resolveu um dia tornar pública sua verdadeira religião. Era judeu. Nada de mais, se não fosse um detalhe. O dito judeu, de nome Benjamin Benatar, estava moribundo. Morreria em poucas horas, alguns dias, no máximo. Como a cidade só tinha um cemitério e este era católico, se Benatar morresse como judeu, não haveria onde enterrá-lo. Mas se aceitasse receber a extrema-unção tudo estaria resolvido. Pois bem. Benatar recusou a bênção do padre e morreu como judeu. Foi aí que começaram as peripécias de seus familiares e amigos. Onde enterrar Benatar?

Benjamin Benatar era uma daquelas figuras raras na província do Rio de Janeiro, no século XIX. Mas ele existiu de verdade (ver quadro). Filho de José e Josepha Benatar, nasceu em Gibraltar em 1809. Aos 20 anos, mudou-se para a Bahia, estabelecendo-se depois no Rio de Janeiro, onde passou a dedicar-se à venda e ao aluguel de escravos e amas-de-leite e ao comércio de casas e chácaras. Tinha um escritório de comissões na rua da Cadeia, bem no centro da cidade, próximo ao Paço Imperial. Benatar era um comerciante tão bem-sucedido que tentou até organizar uma loteria. Não deu certo. Talvez por causa do fracasso do empreendimento, em 1838 ele resolveu mudar de ares, tomando o rumo de São Sebastião. Ficou lá por um tempo, depois sumiu no mundo. Apareceu novamente já em Vassouras, em 1857.

Benatar também foi bem-sucedido e criativo na cidade mais próspera do Vale do Paraíba fluminense: abriu o primeiro botequim da praça, introduziu o jogo de bilhar e o gamão e ainda criou uma casa de bailes para divertir a população. No botequim, que também fazia as vezes de restaurante, podiam ser encontrados de pão a champanhe, passando por velas, roscas e farinha de mandioca.

Benjamin Benatar havia se casado em 1841, no Rio de Janeiro, com Brites Maria da Costa Gavião, em cerimônia religiosa católica. Como não foi encontrado o processo de licença de casamento, não se sabe se, a ele, teria precedido a conversão de Benatar. Formalmente, esta era uma exigência para que a cerimônia fosse realizada. O que se sabe, no entanto, é que o noivo não estava presente para receber, pessoalmente, as bênçãos do padre. E que seus filhos foram batizados na igreja. Além disso, não existe, em nenhum lugar, a menção às origens judaicas de Benjamin Benatar. Nem se sabe se sua mulher, Brites, tinha conhecimento delas.

De qualquer forma, Benjamin Benatar e Brites Cândida Gavião viveram por muitos anos como prósperos católicos em Vassouras, participando intensamente da vida social local. Seus oito filhos tiveram, entre seus padrinhos, as pessoas mais influentes da sociedade local, como Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, o barão do Paty do Alferes; Joaquim José Teixeira Leite – filho do barão de Itambé, irmão do barão de Vassouras, presidente da câmara municipal em várias legislaturas e vice-presidente de província – e Ana Esméria Teixeira Leite, cafeicultores de grande porte, pais de Eufrásia Teixeira Leite, que décadas mais tarde ficaria famosa por seu romance com Joaquim Nabuco; e Laureano Corrêa e Castro e Eufrásia do Sacramento Teixeira, barões do Campo Belo e proprietários, entre outras, da fazenda do Secretário.

Sua casa de bailes possuía um piano de cauda de jacarandá, no valor de 1 conto e 500 mil réis; a despensa possuía nada menos que 108 garrafas de vinho Bordeaux, 24 de conhaque, 22 de champanhe, 11 garrafas grandes de licor fino, 57 cervejas e 135 garrafas de vinho do Porto, para citar somente algumas. Além disso, servia pães-de-ló, doces, queijos londrinos, conservas, suspiros, biscoitos e chocolates finos, vários tipos de açúcar, amêndoas, frutas francesas e cristalizadas, doces de Lisboa, tâmaras e alimentos em lata, como peixes e camarões.

Tanta prosperidade não impediu que o comerciante caísse doente em junho de 1858, na iminência de completar 50 anos. Mas o que ninguém podia imaginar era a surpresa que a proximidade de sua morte traria: Benatar era judeu. Foi o que confessou a seus parentes e amigos próximos. E declarou que, em vez de receber os últimos sacramentos, queria ser enterrado como tal.

A questão era que ser enterrado como judeu não era tão simples assim. Benatar provavelmente sabia disso. Não havia cemitérios judaicos em Vassouras em 1859, nem em qualquer outro lugar do Império do Brasil.

De fato, mais difícil do que viver como judeu no Brasil oitocentista era morrer como tal. Na década de 1850, justamente quando os enterros deixaram de ser feitos no interior das igrejas, os cemitérios públicos recém-criados eram de uso exclusivo dos católicos. Os seguidores de “culto diverso do da religião do Estado” até podiam ter cemitérios particulares, desde que autorizados pelo governo. Só que, para que estes cemitérios fossem constituídos, era preciso que houvesse uma comunidade responsável, tanto por sua criação, quanto por sua constituição. Em meados do século XIX, não havia comunidades judaicas suficientemente estabelecidas no Brasil que fossem capazes de gerir, sozinhas, seus cemitérios. Resultado: os judeus não tinham onde ser enterrados.

Solucionar este problema era possível somente na corte. Lá, os judeus compraram terrenos em conjunto com protestantes, que na época passavam pela mesma dificuldade. Como as áreas designadas para estabelecimento de cemitérios eram o Caju e a região de São João Batista, nas imediações da lagoa Rodrigo de Freitas – ambas fora dos limites da cidade –, os primeiros cemitérios conjuntos de judeus e protestantes foram sediados ali. Embora hoje, no cemitério do Caju, haja um muro separando a área batista da área judaica, originalmente tratava-se de um terreno só. Antes disso, enterros de judeus só podiam ser feitos no cemitério dos Ingleses, com permissão destes, em terreno adquirido em 1810 no Morro da Providência e, na prática, utilizado por todos os estrangeiros.

Mas esta solução só era possível quando havia alguma organização comunitária, como ocorria no Rio de Janeiro. Não era o caso de Benatar. Naquela época, o único cemitério existente na cidade era o da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição. Isto criou um grande problema para o vigário da cidade, que tentou convencer Benatar de todo modo a renegar o judaísmo e a aceitar o catolicismo como sua religião, no que foi até ajudado pelas autoridades locais.

Benatar, no entanto, ficou irredutível. Morreria judeu, como dizia ter nascido. Depois de seu falecimento, os problemas vislumbrados pelo vigário foram concretizados. Benatar não tinha onde ser enterrado. Foi por isso que ele tentou conceder-lhe sepultura eclesiástica, mas também não conseguiu. O desfecho do caso, portanto, era aquele que já se previra: não havia lugar para o judeu Benjamin Benatar no cemitério da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição.

O caso Benatar é uma boa demonstração das dificuldades que cercavam a vida dos judeus no Brasil do século XIX. Afinal, por um lado, eles desfrutavam de um certo grau de liberdade religiosa, podendo estabelecer associações comunitárias, exercer livremente o culto etc. Por outro, por não serem católicos, não tinham todos os direitos que marcavam uma cidadania plena.

Vejamos esta história desde o início: com a vinda da corte portuguesa para o Rio de Janeiro e a abertura comercial dela decorrente, em 1808, estrangeiros, principalmente ingleses e franceses começaram a freqüentar os mercados brasileiros. Como muitos eram protestantes, a Inglaterra, principal parceira comercial do reino, preocupou-se em garantir liberdade de culto para seus súditos. Foi por isso que, no artigo XII do tratado comercial de 1810, ficou estabelecido que “os vassalos de Sua Majestade Britânica (…) não serão perturbados, inquietados, perseguidos e molestados por causa de sua religião”. Este decreto nem de longe igualava outras religiões ao catolicismo – suas capelas tinham de ser discretas, semelhantes a casas de habitação, e não se podia fazer uso de sinos –, mas, como foi mais tarde confirmado pela Constituição do recém-independente Império do Brasil, de 1824, ele estabeleceu definitivamente a liberdade religiosa no país, concedendo direitos de cidadania a súditos não-católicos.

Os efeitos desta política não tardaram a aparecer: ainda nas primeiras décadas do século XIX, judeus ingleses e franceses começaram a mudar-se para o Rio de Janeiro. Logo após a abertura dos portos, mesmo antes do tratado de 1810, a firma inglesa Samuel & Philips, de propriedade de judeus, estabeleceu-se no Rio de Janeiro. Eles vieram fazer parte de um grupo composto por industriais, eruditos, profissionais liberais e comerciantes, todos vindos no rastro da modernização da corte. Alguns se especializaram no comércio de carne verde: como os judeus religiosos só consumiam certas partes do gado, eles vendiam as carnes consideradas proibidas para açougueiros cristãos.

Por causa desta onda migratória, os judeus e o judaísmo adquiriram certa visibilidade na sociedade carioca. O próprio imperador d. Pedro II era conhecido por seu interesse pelo hebraico, tendo visitado a região hoje compreendida por Israel, à época parte do Império Otomano, para conhecer a chamada Terra Santa, em uma das grandes viagens empreendidas por ele na década de 1870, quando também foi ao Egito. João do Rio, cronista do início do século XX, descreveu os judeus em uma de suas crônicas, espantado com a diversidade do grupo: “Havia gente morena, gente clara; mulheres vestidas à moda hebraica de túnica e alpercata, mostrando os pés, homens de chapéus enterrados na cabeça, caras femininas de lenço amarrado na testa e crianças lindas”.

Boa parte da diversidade de tipos percebida por João do Rio está relacionada à imigração de judeus marroquinos, iniciada ainda na década de 1820, quando começaram a cruzar o oceano Atlântico em busca de melhores condições de vida e da liberdade religiosa de que não dispunham em seu país de origem. A seu favor, tinham o conhecimento do espanhol e do português, por serem descendentes diretos das comunidades expulsas da Península Ibérica em fins do século XV. Alguns destes marroquinos dirigiram-se para Pernambuco e para Bahia, como fez Isaac Amzalak, comerciante que se estabeleceu em Salvador, e cuja filha foi tema de platônicos versos do vizinho Castro Alves, que a ela se dirigia como “linda, sedutora Hebréia…/ Pálida rosa da infeliz Judéia”. Mas a grande maioria foi mesmo para a Amazônia. Embora não existam dados precisos sobre o assunto, sabe-se que esses judeus chegavam às centenas, estabelecendo-se no início nos confins da selva amazônica ou em cidades ribeirinhas.

Os imigrantes judeus que chegavam por esta época não parecem ter tido grandes problemas para obter a cidadania no Brasil. A maioria conseguia a naturalização com muita facilidade. Isto quer dizer que, pela Constituição Imperial Brasileira, os judeus poderiam ser considerados cidadãos como quaisquer outros, sem nenhuma outra distinção que não fosse por seus “méritos e virtudes”, como então se enfatizava, sem restrições de ordem religiosa à cidadania brasileira, pelo menos no que se refere ao exercício de direitos civis. Caso tivessem a renda necessária – e a grande maioria tinha –, os judeus podiam ter direitos civis plenos.

A posse ou a obtenção desses direitos, no entanto, não garantia seu exercício. Este era o caso dos cemitérios. Afinal, toda a regulamentação da vida civil no Brasil, até o fim do Império, estava a cargo da Igreja. Assim, todos os registros de nascimento, casamento e óbito eram feitos nas igrejas. Não havia registros civis ou casamentos civis para os não-católicos. Quem não era católico não podia ser formalmente casado, já que não se casaria na igreja. Pode parecer bobagem hoje, mas na época não era. O que aconteceria, por exemplo, com os bens de um casal de judeus (ou de protestantes) quando um dos cônjuges falecesse? O outro cônjuge herdaria os bens? Como ele poderia provar que era casado, já que o casamento não tinha sido realizado em nenhuma igreja católica? Ele não tinha, a princípio, nenhum registro que comprovasse sua união.

Só com a primeira Constituição republicana, em 1890, a realização de registros foi regulamentada pelo Estado. Na prática, esta situação, revela uma clara limitação dos direitos básicos do cidadão não-católico (protestantes e judeus, principalmente) no Brasil imperial.

Quer dizer então que a solução para o problema de Benatar só viria em 1890? Mas ainda estamos em 1859 e ele não podia esperar até lá para ser enterrado. Como passavam os dias e a solução não chegava, Benatar foi embalsamado na Santa Casa. Talvez porque lá já estivesse, talvez por influência de algum amigo importante, ou então porque talvez, no fundo, os pecados sejam menos graves do lado de baixo do Equador, fato é que, depois de tanta discussão, Benatar acabou ali mesmo, sepultado nos jardins da Santa Casa – onde, aliás, permanece até hoje, para quem quiser ir visitá-lo.

Keila Grinberg É professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, pesquisadora do CNPq e organizadora do livro Judeus no Brasil: inquisição, imigração e identidade. Civilização Brasileira, 2005.

BrHistória

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A MUNDIALIZAÇÃO DO CAPITAL

Vito Letizia
Professor no Departamento de Economia/PUCSP

O livro de François Chesnais, A Mundialização do Capital, tem sido mal compreendido. É visto, em geral, como obra de crítica ao neoliberalismo. E, como tal, é jogado na vala comum da esquerda neokeynesiana que domina amplamente o antineoliberalismo.
François Chesnay não é neokeynesiano. Não está preocupado com sugestões para que o capitalismo retome um “desenvolvimento sustentado”. Limita-se a dissecar o capitalismo da atualidade, usando uma metodologia marxista sem concessões, para demonstrar o caráter destrutivo das forças econômicas desencadeadas com a virada thatcherista, a partir dos anos oitenta. Não é, portanto, uma crítica às políticas neoliberais. É uma crítica ao capitalismo de hoje. Ao próprio sistema.
No início do livro, François Chesnais explica o caráter ideológico da terminologia usada pelos economistas da modernidade, partindo do termo globalização, de origem anglo-saxônica, que deslocou na língua francesa o termo mundialização, mais próximo da realidade.
Mais usado pela mídia sob influência anglo-saxônica, o termo globalização quer indicar uma internacionalização econômica livre, supostamente não submetida a intervenções institucionais ou nacionais, usando por isso a raiz de conotação geográfica globo, entendendo este como uma esfera com habitantes indiferenciados, espalhados por sua superfície. O sentido dessa neutralidade é impingir a evolução econômica recente como uma superação da velha compartimentação nacional por uma atuação mais livre dos indivíduos no mercado.
Essa ideologia tenta esconder que o globo terrestre continua sendo um mundo humano de nações desiguais, onde a livre atuação das mais fortes submete as restantes a uma hierarquia inexorável, na qual os Estados Unidos se encontram em posição absolutamente privilegiada, com sua moeda nacional funcionando como dinheiro mundial e com mais direito de endividamento do que as demais nações. Existem outras seis nações que, articuladas com os Estados Unidos, formam o G7, dominando amplamente o resto do mundo. Existem as grandes multinacionais com direitos exorbitantes garantidos por essas potências dominantes, que controlam a produção industrial de ponta e são proprietárias das patentes de tecnologia avançada. E existem, por cima disso tudo, as instituições mundiais controladas pelo G7, que decidem o que deve ser globalizado e o que não deve. Por exemplo, as finanças não devem ter fronteiras, porém as relações de trabalho devem permanecer compartimentadas, para que as multinacionais possam deslocalizar-se, explorando as diferenças.
E existe um FMI, ao qual os grandes investidores atribuem o direito de dar notas de bom ou mau aluno às nações subalternas, e de punir, desse modo, com restrições de crédito internacional às que desobedecem ás suas recomendações.
É evidente, portanto, que não há globo comandado livremente pelo mercado. Há um mundo organizado de modo bastante rígido, impondo uma verdadeira camisa-de-força às nações mais fracas. Como diz François Chesnais, os grandes globalizam, e os pequenos adaptam-se. Em seguida, Chesnais desenvolve um longo detalhamento do processo de mundialização, referindo-se aos três tipos fundamentais de capital – segundo Marx –, o produtivo, o comercial e o financeiro. Chesnais concorda com C. Oman – economista da Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico, em Paris – quanto ao entendimento da nova forma de organização do trabalho, desregulamentada ou flexibilizada como a mola essencial da mundialização. Quer dizer: na esfera produtiva a mundialização tem seu centro dinâmico, que consiste numa ofensiva contra as conquistas trabalhistas do segundo pós-guerra.
As novas formas de organização empresarial e as práticas de terceirização da mão-de-obra têm como eixo a criação de uma solidariedade empregado-patrão dominada por este e o rebaixamento da situação social da mão-de-obra terceirizada. Isto significa a apropriação da mente dos trabalhadores mais qualificados e estáveis pelas empresas, a precarização do emprego para a maioria, e a desregulamentação dos contratos de trabalho para todos. Em suma, no âmago da mundialização está uma nova norma de direitos flexíveis para o trabalho e poderes inflexíveis para o capital.
Mas as novas formas de organização empresarial dizem respeito também à organização entre as empresas. Desenvolveram-se novos tipos de empresas – como as empresas-rede – centralizadas de modo que o capital dominante pode se apossar de parte da mais-valia extraída por empresas subordinadas, espalhadas pelo mundo inteiro. Trata-se de um novo tipo de capital produtivo que não só extrai mais-valia diretamente mas que também vende direito de extrair mais-valia em seu nome, sem arriscar capital.
E há ainda outro aspecto da mundialização do capital produtivo, que diz respeito à concentração das patentes de invenção importantes em mãos de pequeno número de grandes empresas, que concentram também a maior parte dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Aqui, de novo, há relações de subordinação por cima das leis do mercado e participação na extração de mais-valia por empresas subordinadas.
É justamente pelo fato de as novas formas de organização do trabalho constituírem a mola essencial da mundialização, que esta pode ser datada a partir das derrotas dos trabalhadores no Reino Unido e nos Estados Unidos, sob os governos Thatcher e Reagan, combinadas com o fim das ilusões do movimento operário do mundo inteiro no socialismo real.
A mundialização do capital comercial se dá principalmente através da modificação da estrutura do comércio mundial, que provoca inclusive o desaparecimento de muitas exportações especializadas regionais. O comércio passa a concentrar-se entre os países ricos, o que diminui o poder de barganha da periferia capitalista. Principalmente, surge o comércio internacional intra-empresas, que assume hoje proporções gigantescas, e que se furta à lógica do comércio entre as nações.
Os governos perdem o poder de escolha da especialização de seus respectivos países na divisão internacional do trabalho. Aliás, todas as especializações nacionais são substituídas por uma mistura pouco transparente de exportações tangíveis e intangíveis, na qual a competitividade – outro fetiche da mundialização – decorre mais das relações de força do que de verdadeira eficiência.
Por último, a mundialização do capital financeiro coroa todas as transformações, dando-lhes a nota mais marcante e os efeitos mais perigosos para o próprio sistema. O fato desencadeador da mundialização financeira é a circulação de um capital em alqueive – O Capital, livro III – ao redor do planeta, quase instantaneamente, a partir de um processo de desregulamentação iniciado já nos anos setenta. Evidentemente, a forma em que se deu essa desregulamentação foi ditada pelas grandes nações, as pequenas sendo colocadas diante dos fatos consumados.
Em função desse processo, surgiram dois fenômenos de importância crucial. Por um lado, a autonomização do capital financeiro, no sentido de que a distensão dos laços com o capital produtivo atingiu um grau sem precedentes. Chesnais vê aqui um acontecimento histórico inteiramente novo, uma vez que a circulação de dinheiro desligada da circulação de mercadorias tornou-se absolutamente desproporcional.
A norma da mundialização é tratar a atividade financeira como uma indústria igual a qualquer outra. Com dois resultados altamente nocivos para o sistema: desvio de parte da mais-valia para fora do ciclo produtivo, em condições impositivas, que quebram a hegemonia do capital produtivo, a qual faz parte dos fundamentos do sistema; auto reprodução de capital sem passar pela produção de bens, que hoje só pode ser sustentado por um tributo disfarçado, cobrado sobre a população trabalhadora do mundo inteiro.
Marx já mencionava a ilusão mercantilista dos capitalistas – O Capital, livro II –, que consiste em tentar saltar de D a D’ sem passar por …P… (processo produtivo). Agora isso é, segundo Chesnais, a realidade dominante. O capital financeiro tem hoje o poder de apossar-se de uma massa enorme de mais-valia, sem prestar qualquer serviço, simplesmente movendo-se pelo planeta.
A base principal desse parasitismo extremado está na dívida externa e interna de todos os países capitalistas. No caso dos países periféricos, há ainda um sistema de subvenção ao grande capital financeiro privado, através do interminável serviço de suas dívidas externas.
Por outro lado, o velho imperialismo mudou de forma. A exploração da mão-de-obra periférica pelo capital do Centro tornou-se secundária. Hoje, a maior parte dessa extração se dá sem investimento, o que permite o sucateamento da indústria periférica, sem dor para o capital.
Chesnais conclui de modo sombrio seu livro porque vê uma necessidade nas contradições internas do capitalismo atual. Necessidade que o impele para uma deterioração inexorável de sua força expansiva. O que implica uma advertência para a possibilidade de uma decadência econômica e social irreversível, caso as forças vivas da sociedade não reagirem eficazmente.
Mas como? A resposta é deixada a cargo dos movimentos de trabalhadores que lutam em defesa das conquistas sociais ainda vigentes. F. Chesnais adianta um palpite sobre o conteúdo dessa luta: depois de rejeitar qualquer tentativa de retorno ao socialismo real, “destruidor de homens, destruidor de esperanças e de razões de lutar” (p. 321), apenas sugere que “é difícil ver como a humanidade poderia prescindir de medidas de expropriação do capital” (ibidem).
É o que se precisa ouvir hoje.

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CHESNAIS, François: A Mundialização do Capital. Tradução de Silvana Finzi Foá. São Paulo: Xamã Editora, 1996. 335 p.

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A turma do ‘deixa disso’

Ao contrário do que muitos dizem, Brasil e África do Sul não têm condições de executar os mesmos papéis de China e Índia no mundo. Sem as ferramentas de poder necessárias, devem se manter como porta-vozes do ‘bom senso ético universal’. A “turma do deixa disso”.

José Luís Fiori

Não existem países satisfeitos, todos querem aumentar seu poder e riqueza, e alguns sonham com a condição de “potência”. Mas o buraco da agulha que conduz ao reino dos poderosos é muito estreito, e o “clube dos grandes” sempre teve poucos sócios. Nunca mais do que seis ou sete, desde o século XVI, além de um ou dois candidatos à entrada que tiveram sucesso, em cada século, desde e quando algum velho sócio tenha perdido sua posição na “diretoria”. Muitos analistas políticos e financeiros costumam classificar os países segundo seu potencial de entrada neste grupo restrito de nações, e na entrada do século XXI, muitos falam da China, Índia, Brasil e África do Sul. Mas fazem isso em geral baseados em similitudes estatísticas ou analogias financeiras, que não tomam em conta que estes quatro países são completamente diferentes, do ponto de vista de sua inserção política e econômica internacional, e de sua capacidade autônoma de iniciativa estratégica.

A China e a Índia possuem civilizações milenares, um terço da população mundial, 3.200 quilômetros de fronteira comum, e, além disto, são potências atômicas. Dentro do xadrez geopolítico asiático, os indianos consideram que as relações amistosas da China com o Paquistão, com Bangladesh e com o Sri Lanka fazem parte de uma estratégia de “cerco” da Índia, e de expansão chinesa no Sul da Ásia – a “zona de influência” imediata dos indianos. Por sua vez, os chineses consideram que a aproximação recente entre os Estados Unidos e a Índia, e a sua nova parceira atômica fazem parte de uma estratégia de “cerco” da China, na competição territorial e bélica pela hegemonia no Sul e no Sudeste da Ásia, envolvendo também os Estados Unidos. Além disto, China e Índia também competem, neste momento, na Ásia Central, no Oriente Médio e na África, por recursos capazes de assegurar sua “segurança energética”.

Por isto, a China investe hoje pesados recursos na modernização de suas forças armadas e ocupa lugar central no planejamento estratégico dos Estados Unidos. Afinal, a China teve um papel decisivo nas guerras da Coréia e do Vietnã, e tem - cada vez mais - as características de todas as Grandes Potências que existiram dentro do sistema mundial. A Índia, por seu lado, abandonou o “idealismo prático” da sua política externa inicial, depois da primeira explosão nuclear chinesa, em 1964, quando o primeiro-ministro Bahadur Shastri autorizou o início do programa atômica indiano, que atingiu sua maturidade com as explosões nucleares de 1998 e com o sucesso do míssil balístico indiano Agni II, em 1999. Nesse momento, a Índia assumiu plenamente a condição de potência nuclear e definiu sua nova estratégia de inserção regional e internacional, com base na expansão simultânea do seu poder econômico e militar. Por outro lado, do ponto de vista econômico, a China e a Índia já se transformaram na nova fronteira de expansão e de acumulação capitalista do sistema mundial, estabelecendo uma relação “virtuosa” de crescimento econômico com os Estados Unidos, e produzindo um efeito de crescimento em cadeia em quase toda a economia mundial.

Já Brasil e África do Sul compartem com a China e a Índia o fato de serem os Estados e as economias mais importantes de suas respectivas regiões, responsáveis por uma parte expressiva da população, do produto e do comércio interno e externo da América do Sul e da África. Mas não têm disputas territoriais com seus vizinhos, não enfrentam ameaças internas ou externas à sua segurança e não são potências militares relevantes. Depois da sua democratização, a África do Sul abandonou seu programa nuclear e se envolveu em quase todas as negociações de paz dentro do continente negro, mas sem jamais apresentar nenhum traço expansivo ou disposição para uma luta hegemônica dentro da África. Além disto, desde o primeiro governo de Mandela, a África do Sul tem se proposto a cumprir um papel de ponte entre a Ásia e a América Latina, mas o volume e o ritmo de crescimento do PIB sul-africano, o tamanho de sua população, suas limitações militares e sua falta de coesão interna impedem que a África do Sul possa aspirar à qualquer tipo de expansão ou supremacia que não seja na sua região imediata, na África Austral, ou na condição de um “estado relevante” para os assuntos da África Negra.

O Brasil, por outro lado, nunca foi um Estado com características expansivas, nem disputou jamais a hegemonia da América do Sul com a Grã Bretanha ou com os Estados Unidos. Depois de 1850, o Brasil não enfrentou mais guerras civis ou ameaças de divisão interna, e depois da Guerra do Paraguai, na década de 1860, o Brasil manteve uma relação pacífica e de pouca competitividade ou integração política e econômica com seus vizinhos latino-americanos, atuando durante todo o século XX como uma espécie de auxiliar da hegemonia continental dos Estados Unidos. Mais recentemente, depois de 2001, a política externa brasileira voltou-se fortemente para a América do Sul, mas enfrenta algumas limitações importantes nesta reaproximação, devido ao seu baixo crescimento econômico e à sua pouca capacidade de investimentos públicos e privados, no próprio continente, e também devido à grande dificuldade de iniciativa e coordenação estratégica do Estado brasileiro, depois da sua crise dos anos 80, e da adoção da sua estratégia neoliberal, nos anos 90.

Como conseqüência, neste início do século XXI, a China e a Índia se projetam dentro do sistema mundial como potências econômicas e militares, têm claras pretensões hegemônicas nas suas respectivas regiões, e ocupam uma posição geopolítica e geoeconômica global absolutamente assimétrica, com relação ao Brasil e à África do Sul. E, daqui para frente, a China deve seguir os passos de todas as Grandes Potências que fazem ou já fizeram parte do “círculo dirigente” do sistema mundial, e o mesmo deverá acontecer progressivamente com a Índia. Mas o Brasil e a África do Sul não contam com a unidade, as ferramentas de poder e com os desafios externos indispensáveis, e devem se manter na sua condição de “estados relevantes” mas não expansivos, porta-vozes pacíficos do “bom senso ético universal”. Uma espécie de “turma do deixa disso”.

José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Carta Maior
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Pensamento

A desvalorização do mundo humano aumenta em proporção direta com a valorização do mundo das coisas

Karl Marx

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Líderes da UE chegam a acordo sobre reforma da Constituição

Bruxelas, 23 jun (EFE).- Os líderes dos 27 países-membros da União Européia fecharam na madrugada deste sábado um complicado acordo sobre os termos de um tratado para reformar a fracassada proposta de Constituição, encerrando dois anos de incerteza sobre o futuro do bloco.

Os chefes de Estado e de Governo tiveram que lutar até o último momento contra a resistência da Polônia. Mas conseguiram um acordo por volta das 4h30 da madrugada (23h30 de sexta-feira, em Brasília), após dois dias de longas e duras negociações.

A cúpula finalmente decidiu por unanimidade convocar uma Conferência Intergovernamental (CIG), responsável pela redação final dos termos fixados hoje. O objetivo é concluir o novo tratado até o fim do ano, de forma que ele possa ser ratificado nas eleições para o Parlamento Europeu, em 2009.

O acordo, com 51 capítulos, mantém praticamente todos os elementos da reforma institucional incluídos na Constituição, inclusive o reforço da política externa e de segurança comum. Também avança rumo ao voto por maioria qualificada, substituindo a exigência de unanimidade.

Também haverá mais facilidades para criar cooperação entre grupos de países da UE quando alguns deles não quiserem participar de certas políticas comuns.

“Os processos são diferentes. Mas mantivemos grande parte da essência da Constituição”, afirmou a chanceler alemã e atual presidente do Conselho Europeu, Angela Merkel. “Queríamos sair do bloqueio e conseguimos”, acrescentou o presidente francês, Nicolas Sarkozy.

Para chegar ao acordo, os líderes tiveram que vencer a dura resistência da Polônia, que buscava uma revisão do sistema de voto por maioria qualificada, e que até o fim arrancou o máximo possível de concessões.

A Polônia ficou isolada na sua tentativa de reabrir o mecanismo de voto por “maioria dupla” (55% dos Estados e 65% da população). Na tarde da quinta-feira, o presidente polonês, Lech Kaczynski, rejeitou uma oferta inicial para adiar até 2014 a entrada em vigor do sistema.

Após a recusa, Merkel convocou os líderes para um jantar, no qual disse que estava disposta a lançar a CIG mesmo sem unanimidade. Após o ultimato, os líderes da Espanha, França, Reino Unido e Luxemburgo mantiveram uma série de reuniões com o presidente polonês até encontrar uma fórmula de consenso.

No fim, concordaram em adiar a entrada em vigor do mecanismo até 2014. Depois, virá um período de transição de três anos, até 2017, em que a UE poderá voltar excepcionalmente ao atual sistema de voto, a pedido de um grupo de países. O mecanismo permitirá bloquear uma decisão da maioria.

Na prática, a Polônia conseguiu manter sua atual capacidade de bloqueio até 2017, assim como a Espanha.

Na última sessão, a Polônia reforçou ao máximo sua posição e conseguiu, além de manter por 10 anos a sua cota de poder nas votações por maioria qualificada, a aplicação a partir de 2017 do “Compromisso de Ioannina”, segundo fontes diplomáticas.

O compromisso, adotado na Grécia em 1994, estabelece que uma decisão pode ser suspensa se, dentro de certa margem, um grupo de países se opuser a uma medida aprovada por maioria qualificada no Conselho.

“É um bom compromisso para todos os Estados-membros e para a Polônia”, afirmou Merkel. Para Kaczynski, a cúpula foi “um sucesso” porque levou em conta a aspiração polonesa.

Antes, os outros países-membros tinham conseguido superar as resistências britânicas ao reforço da política externa comum. A UE não terá um ministro de Relações Exteriores, e sim um Alto Representante. Mas Merkel ressaltou que os atributos do cargo “serão exatamente os mesmos”.

“Não há mudanças na substância, só no nome do cargo”, disse.

“Foi uma negociação difícil”, reconheceu o primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair, que chegou à cúpula com uma série de exigências.

O primeiro-ministro português, José Sócrates, propôs convocar nos dias 23 e 24 de julho a Conferência Intergovernamental que deve redigir o novo tratado. A aprovação do texto será a “prioridade absoluta” de Portugal, que a partir de julho exerce a Presidência da UE.

Jornal Folha de S. Paulo
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Embratur lança site de patrimônios culturais do Brasil

Ministério do Turismo
Data: 29 de junho de 2007

O Brasil conta com dez sítios inscritos na lista de Patrimônios Culturais da Humanidade, título concedido pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Cultura, Ciência e Educação). São pontos de destacado valor cultural capazes de despertar o interesse de visitantes de todo o mundo. Atento a esse potencial, o Ministério do Turismo, por meio da Embratur (Instituto Brasileiro de Turismo), lançou hoje (28) o site Patrimônios Culturais da Humanidade (www.braziltour.com/heritage) para promover os destinos turísticos brasileiros de cultura no exterior.

Os dez sítios nacionais são: os centros históricos da Cidade de Goiás (GO), Salvador (BA), Olinda (PE), São Luís (MA), Diamantina e Ouro Preto (MG), o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo (MG), o Plano Piloto de Brasília (DF), o Parque Nacional da Serra da Capivara (PI) e as ruínas jesuítico-guaranis de São Miguel das Missões (RS).

Com a nova ferramenta, os amantes e interessados por cultura em todo o mundo encontram diversas informações dos patrimônios culturais no Brasil: notícias, dados históricos, calendário de festas e eventos, clima, dicas de atrações, sugestões de roteiro relacionados, imagens e mapas. O usuário também pode fazer uma viagem guiada pelos destinos e baixar papéis de parede para o seu computador – as duas opções através de fotos de pontos turísticos.

O acesso está disponível em Português, Inglês, Espanhol, Italiano e Francês. Uma versão em Alemão está em fase final de construção e entra no ar em breve.

Sites específicos

A nova página de Patrimônios Culturais da Humanidade integra o Portal Brasileiro do Turismo (www.braziltour.com), dedicado à promoção do Destino Brasil para o público final no exterior. Sob orientação do Plano Aquarela – Marketing Turístico Internacional, promove os destinos, produtos e serviços turísticos nacionais por meio de cinco grandes segmentos: Sol e Praia, Ecoturismo, Esporte, Cultura e Turismo de Negócios e Eventos.

A criação de sites específicos faz parte da estratégia da Embratur de aprofundar o conteúdo de segmentos em que há potencial de crescimento e de qualificação do turismo internacional no Brasil. Nesse sentido, em fevereiro deste ano, o Instituto já havia lançado um site de Golfe (www.braziltour.com/golf) e, atualmente, também trabalha na finalização do site dedicado ao Turismo Náutico.

A idéia consiste em atrair o visitante estrangeiro pela sua principal motivação – a exemplo de Cultura, Golfe ou Turismo Náutico – e, a partir daí, apresentar a diversidade da oferta turística brasileira. “Uma vez aqui, o turista desses nichos conhece a riqueza da nossa oferta e pode programar uma nova viagem com outra motivação. Além disso, eles apresentam um gasto bastante elevado, o que contribui para aumentar a entrada de divisas na nossa economia”, comenta Romualdo Lopes, gerente de Marketing da Embratur.

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Mahmoud Zahar: ‘Nós tentaremos formar uma sociedade islâmica’

Entrevista concedida a Ulrike Putz

Mahmoud Zahar, co-fundador do Hamas e um dos militantes mais linha-dura, pediu a criação de um Estado islâmico na Faixa de Gaza. Após a tomada do território pelo Hamas na semana passada, ele também ameaçou o Fatah com mais violência na Cisjordânia.

Spiegel: Após combates pesados, o Hamas assumiu o controle sobre a Faixa de Gaza no sábado passado. Mas não está claro o que seu partido pretende fazer agora. A suposição no mundo ocidental é de que o Hamas pretende estabelecer um Estado islâmico em Gaza. É verdade?

Zahar: É claro. Nós queremos fazer isto, mas com pleno apoio da população. No momento nós não podemos estabelecer um Estado islâmico porque nós palestinos não temos um Estado. Enquanto não tivermos um Estado, nós tentaremos formar uma sociedade islâmica.

Abbas Momani
“… há muitas armas por aí no momento. Há dois anos, uma bala em Gaza custava cerca de 3,50 euros -agora custa 35 centavos de euro. O dinheiro de ajuda americano foi transformado em armas.”
Spiegel: Como seria um Estado islâmico liderado pelo Hamas?

Zahar: Não haveria diferença de como é hoje, porque nossos costumes e tradições em Gaza já são islâmicos. Casamento, divórcio, os negócios cotidianos -tudo é islâmico. Assim que tivermos um Estado, então todos terão sua liberdade. Os cristãos permanecerão cristãos, os partidos poderão ser seculares ou mesmo comunistas.

Spiegel: Se um Estado islâmico é o ideal, porque não há mais deles?

Zahar: Se houvesse eleições livres e justas por todo o mundo árabe, formas de governo islâmicas venceriam em toda parte. O Islã é contra a corrupção, o enfraquecimento e o materialismo que destruíram as sociedades na Europa e na América. As famílias estão partidas (no Ocidente); há Aids e drogas. Nós não temos tais coisas aqui.

Spiegel: Qual seria o futuro relacionamento do Hamas com Israel?

Zahar: Nós estamos prontos para falar com todos sobre tudo. É claro que temos que falar com os israelenses, de fato, sobre comércio, por exemplo. Nós também temos que falar com eles sobre assuntos interfronteiras, como o movimento de pacientes gravemente doentes, proteção contra a gripe aviária e como podemos evitar catástrofes ambientais. Nós não discutiríamos política, porque os israelenses não têm agenda política conosco. A agenda política de Condoleezza Rice e Ehud Olmert com o presidente Mahmoud Abbas consiste de trocar beijos a cada duas semanas -mas de mãos vazias. Nós só conversaremos sobre coisas essenciais.

Spiegel: No momento não há ataques contra Israel pela ala militar do Hamas. Esta é uma nova doutrina?

Spiegel: O presidente palestino Mahmoud Abbas disse que este é um bom momento para levar adiante o processo de paz. Gaza e o Hamas definitivamente ficarão de fora de tais negociações?

Zahar: Que tipo de processo de paz ele é? Haverá apenas muita conversa. Enquanto isso, a ocupação continuará e os israelenses permanecerão aqui para destruir nossas vidas.

Spiegel: No Ocidente há o temor de que a Faixa de Gaza poderá se tornar um playground para o terrorismo internacional. Este perigo é real?

Zahar: Nosso povo não consegue distinguir entre resistência e terrorismo. Nós estamos lutando pela libertação de nossa terra de uma ocupação. Quando as pessoas na Europa tiveram que combater os nazistas, elas foram homenageadas posteriormente como combatentes da liberdade. Ninguém chamaria Charles de Gaulle de terrorista.

Spiegel: Há conversa em Israel sobre suspender o fornecimento de eletricidade, água e gás em Gaza. As pessoas em Gaza poderiam passar fome?

Zahar: Neste caso Israel teria que abrir suas fronteiras. As pessoas não morreriam de fome antes de avançar violentamente contra as fronteiras. Israel também perde US$ 2 milhões por dia em receita com o fechamento da fronteira.

Spiegel: A comunidade internacional planeja liberar todo o dinheiro de ajuda que reteve dos palestinos por mais de um ano para o governo do
Fatah na Cisjordânia. A Cisjordânia se tornará uma Palestina de luxo, enquanto a Faixa de Gaza passará fome?

Zahar: O Fatah na Cisjordânia receberá o dinheiro e ele terá que transferi-lo para Gaza. Caso contrário, ele perderá Gaza para sempre. Nós também teríamos que buscar alternativas. Nós temos uma imagem muito boa entre os povos do mundo árabe. Se quisermos, nós podemos obter US$ 5 milhões por mês em doações do Egito. Nós também recebemos dinheiro de países estrangeiros no passado -US$ 82 milhões do Kuwait, US$ 50 milhões da Líbia. Eu já trouxe pessoalmente US$ 20 milhões do Irã para a Faixa de Gaza em uma mala. Não, na verdade foram duas vezes -da segunda vez foram US$ 22 milhões.

Spiegel: O que melhorará para a população em Gaza agora que o Hamas está no controle?

Zahar: O bom é que agora podemos coletar informação sobre nossos inimigos e informantes de potências estrangeiras. Nós procuraremos por espiões de
Israel.

Spiegel: Na semana passada ocorreram batalhas de rua na Cisjordânia entre milícias do Fatah e do Hamas. O Fatah manteve a vantagem. Como os seguidores do Hamas se defenderão em caso de novos combates?

Zahar: Me permita perguntar a você: como nos defendemos até hoje contra a ocupação israelense?

Spiegel: Com bombas e ataques?

Zahar: Exatamente. Mas é você quem está dizendo, não eu.

Spiegel: A divisão entre o Hamas e o Fatah nunca foi tão grande. Vocês ainda mantêm contato uns com os outros?

Zahar: Sim, nós falamos uns com os outros. Mas estamos procurando pelo verdadeiro Fatah, de forma que seus membros possam participar de nossa nova organização e planejar o futuro. O verdadeiro Fatah puro é o verdadeiro perdedor (neste conflito) porque seu partido na Cisjordânia está colaborando com Israel. Em Gaza nós batemos nos elementos que colaboravam com Israel. Nós batemos em todos que representavam um obstáculo -aqueles que queriam nos impedir de nos defendermos.

Spiegel: As alas militantes do Fatah e do Hamas estavam plenamente armadas nos últimos meses. Estas armas ainda estão em circulação?

Zahar: Naturalmente há muitas armas por aí no momento. Há dois anos, uma bala em Gaza custava cerca de 3,50 euros -agora custa 35 centavos. O dinheiro de ajuda americano foi transformado em armas. Obrigado, América!

Spiegel: Um grande número de armas nas mãos de milicianos -alguns controláveis, alguns não- não representa um risco de segurança? O que aconteceria se grupos dissidentes começassem a atirar uns contra os outros?

Zahar: Até o momento nós não confiscamos quaisquer armas. Se houver problemas com grupos dissidentes, nós os desarmaremos e tomaremos as armas para nós mesmos.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Der Spiegel
http://www.spiegel.de/

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A fúria do ex-diretor

Ex-diretor de O Estado de S. Paulo me acusa de querer ‘desmoralizar a liberdade de imprensa’ para realizar o que seria o ‘meu sonho secreto’: ‘um mundo de Pravdas e Granmmas’. Não deixam de ser reveladoras as afirmações.

Gilson Caroni Filho

Vale a pena refletir sobre os motivos que levam experiente jornalista a ter o seu dia de fúria. Principalmente, quando o motivo é um artigo publicado em Carta Maior, no dia 12 de junho. No Observatório da Imprensa, que também o publicou, em sua edição retrasada, o ex-redator de um dos mais conservadores veículos da imprensa brasileira acionou sua metralhadora giratória (veja o artigo). A sensatez foi o único alvo atingido.

Quando registro de evidência é interpretado como conspiracionismo mal-intencionado, não estamos diante de um mero problema semântico. Há algo profundo no jogo das palavras. Ainda mais quando quem as maneja tem, por dever de ofício, que escrever com precisão e clareza.

O artigo do ex-diretor de redação de O Estado de S. Paulo Sandro Vaia é uma demonstração cabal de como andam juntos estilo agressivo e ética ambígua. Por sinal, um não sobrevive sem o outro. O primeiro é ferramenta dos que adotam a razão cínica como norte de ação.

O autor me acusa de escrever sucessivas cantilenas com o intuito de “contrabandear lixos ideológicos” e “desmoralizar a liberdade de imprensa”, para realizar o que ele afirma ser o “meu sonho secreto”: “Um mundo de Pravdas e Granmmas”.

Não deixam de ser reveladoras as afirmações. Freud, em “A interpretação dos sonhos”, jamais se permitiu legislar sobre a pertinência da narrativa dos pacientes com quem mantinha contato direto. O jornalismo brasileiro, a julgar pelo texto de Sandro Vaia, não só é judicativo no campo onírico,como é capaz de adivinhar sonhos que jamais lhe foram relatados. Será que algo semelhante ocorre quando um editorial é escrito, prezado jornalista? Em caso afirmativo, estaremos diante de loucos varridos ou de profissionais mal-intencionados mesmo? Pessoas que negam espaço discursivo a atores que contrariam os interesses dos donos dos meios?

Sandro bem sabe como a grande imprensa promove seus recortes. Movimentos sociais que se disponham a agenciar demandas de setores excluídos, a apresentá-los como sujeitos dotados de direitos são, a priori, não-notícia. A menos que sejam envoltos em prática de significação que rotule como baderneiros todos os que se apresentem como contrapoder às relações de expropriação e dominação. Estarei, segundo os critérios do ex-diretor, enveredando pelo pernosticismo, ou descrevendo fielmente a prática diária de veículos da grande imprensa?

Isso pode até ser “liberdade de imprensa”, mas, é um tipo de liberdade que, para existir, precisa se sobrepor a outra, de capital importância para a cidadania: a liberdade de informação. E é por isso que escrevo para espaços democráticos. Não pretendo tolher a atividade jornalística. Meu objetivo é o oposto disso. Luto por uma imprensa que enriqueça o debate e ajude a consolidar esfera pública efetiva. Será que fui suficientemente claro, agora? Ou é preciso um pequeno glossário de política?

Mas voltemos ao seu artigo. O título (“Máfia dos caça-níqueis. Vavá usou nome de Lula; 13 presos são liberados”) que Vaia afirma ser “técnica consagrada em jornalismo, de sentenças curtas e objetivas, resumindo no título as informações mais importantes sobre um determinado tema”, não é tão inofensivo como ele pretende. Ora, desde quando “técnicas consagradas” não se prestam à prestidigitação? Leads, sub-leads e títulos são neutros por serem instrumentos da narrativa jornalística? Quando ele indaga “o que há nesse título que não seja informação factual? Não existe máfia dos caça-níqueis ? Vavá não usou o nome de Lula? Treze presos não foram liberados naquele dia? Então, cadê o erro? Onde está a opinião?” A resposta é tão simples que constrange: no texto travestido de informação. É tão elementar que só posso interpretar o questionamento como um exercício de espirituosidade do jornalista.

O mais interessante vem depois. Quando, para reforçar sua posição sobre meu suposto conspiracionismo, Sandro Vaia enfatiza que “devemos deduzir, por certo, que algum representante das tais 13 famílias foi escalado para cobrir o plantão do UOL naquele sábado à tarde para “maquiavelar” o tal título, assoprando ao sonolento redator, entorpecido pela feijoada de sábado, a pérfida armação do título conspiratório”, dou a mão à palmatória. Isso é que é “jornalismo investigativo”! Não só conseguiu reconstituir o estado em que se encontrava o redator do UOL, como foi capaz de adivinhar o que havia comido no almoço. É preciso muita argúcia para chegar à perfeição.

O bravo ex-diretor do Estadão não parou por aí. Não faltou o argumento de autoridade: “o professor nunca deve ter passado por uma redação.” A empáfia é desnecessária. Há muita gente, que passou anos em várias, e afirma o caráter golpista da imprensa: Paulo Henrique Amorim, Mino Carta, Luis Nassif são bem mais assertivos que esse autor. E continuam a travar a boa luta em suas colunas, revistas e blogs.

Aos que pedem mais evidências do conluio entre a grande imprensa e o bloco de poder conservador, asseguro que tentarei não frustrá-los.

Talvez os mais jovens não saibam e os demais não se recordem em detalhes. Assim,nada custa resgatar um episódio que marcou as eleições de 1994. O então ministro da Fazenda de Itamar Franco, Rubens Ricupero, desenvolve uma conversa informal com seu cunhado e jornalista da Globo, Carlos Monforte (a irmã do jornalista era, à época, mulher do ex-ministro). O que eles não sabiam é que a conversa estava sendo transmitida ao vivo, via satélite (antenas parabólicas estavam sintonizadas no canal privativo de satélite da Rede). Entre outras coisas, Ricupero diz que emissora dos Marinhos o utilizava para falar do Plano Real e fazer propaganda para o então candidato FHC: “(…) Ele (FHC) sabe que o grande eleitor dele hoje sou eu. Por exemplo, para a Rede Globo foi um achado. Porque eles, em vez de terem que dar apoio ostensivo a ele, botam a mim no ar e ninguém pode dizer nada.”

“(…) “Isso não ocorreu da outra vez. Essa é um solução, digamos, indireta, né?” (da “outra vez”, em 1989, a Globo havia dado apoio “direto”, ostensivo, a Collor.) Quem quiser, ouvir um trecho bem maior pode acessar o vídeo no Youtube.

E então, quem está vestindo fantasias e tecendo tramas conspiratórias? O jornalista que diz sair em defesa de uma instituição ilibada ou este conhecido antidemocrata que insiste em escrever na mídia alternativa?

Ainda assim, haverá quem retruque que estou me remetendo ao passado, para fugir de um presente que me seria incômodo por refutar idéias centrais dos meus textos. Quando esta edição estiver no ar, a reportagem de Carta Capital sobre uma pesquisa do Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro), que mostra o comportamento da Folha, do Estadão, do Globo e do JB nas eleições presidenciais de 2006, já será de conhecimento público, mas não posso deixar de reproduzir trechos da entrevista concedida por Marcus Figueiredo, cientista político e coordenador da pesquisa, ao jornalista Paulo Henrique Amorim. São as evidências, Sandro Vaia, as evidências que tanto incomodam. Veja o que ele fala sobre o comportamento dos que entraram pela porta da frente das grandes redações.

“Esta é uma linha de pesquisa que estamos fazendo já há alguns anos. Neste ano, sobre as eleições de 2006, ficou absolutamente patente que a grande imprensa, os grandes jornais do Brasil tiveram comportamento muito enviesado contra a candidatura do presidente Lula. As razões pra isso podem ser de várias ordens. Desde a questão do ponto de vista moral, do ponto de vista das articulações políticas, por conta de os escândalos todos que ocorreram nos últimos dois, três anos. Entretanto, essas são questões que fazem parte da política, que são resolvidas politicamente, foram resolvidas institucionalmente, algumas os principais assessores do presidente foram afastados, alguns foram punidos ou absolvidos pelo próprio Congresso de forma que, do ponto de vista institucional o presidente fez o que podia ser feito. Entretanto, permaneceu como o tom da grande mídia esta oposição em relação à candidatura do presidente. Agora, chamo a atenção para um detalhe importantíssimo: o excesso e o tom mais alto de críticas era em direção às atividades políticas do presidente e da própria campanha. Entretanto, quando a gente continua vendo os jornais – todos eles – e vamos pras páginas de economia, só aparecem notícias que são favoráveis ao governo e, obviamente, ao presidente Lula pela condução da economia e também na parte social. Portanto, o que ficou absolutamente claro é que nós assistimos a uma cobertura que tinham dois lados, eram duas faces da mesma moeda, ou seja, numa face a mídia posicionou-se enviesada contra a candidatura. Na outra face, ela estava inteiramente favorável ao desempenho na área econômica e social do presidente.”

Indagado sobre a aparente esquizofrenia da mídia, Marcus conclui: “eu tenho uma leve impressão, que é extremamente difícil de demonstrar, que houve um total desencantamento com a figura, com o presidente, na medida em que ele, pela sua história, acabou dando certo como um presidente. E ela dando certo significa a possibilidade de uma alternância de poder substituindo as velhas lideranças, as velhas oligarquias, a velha elite que sempre comandou o país e sem conseqüências drásticas. Apenas, evidentemente, uma mudança de rumo na política”.

E agora, jornalista Sandro Vaia, quem é o escorpião da fábula? Quem quer perpetuar velhas oligarquias, saindo em defesa incondicional do conteúdo produzido por suas oficinas? Ou quem se propõe a pensar a mídia como algo a ser reinventado para a democracia. Esopo sabe a resposta.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, e colaborador do Jornal do Brasil, Observatório da Imprensa e La Insignia.

Carta Maior
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Cuba, hora de mudanças

A era Fidel está se esgotando. O projeto natural para a transição é combinar controle político nas mãos do PC com reformas capitalistas, ao estilo chinês. Mas há uma alternativa, que se apóia nos ricos processos de mobilização social da América Latina

Carlos Gabetta

(Da edição argentina do Le Monde Diplomatique):

Todo o mundo se pergunta se haverá “transição” em Cuba e se acontecerá antes ou depois da morte de Fidel Castro. Os adversários da Revolução Cubana estão certos de que haverá. Acontecerá segundo as premissas capitalistas e, ao terminar, terá reconstruído o sistema, com todas as suas características clássicas.

Há também os que, como nós, entendem que o capitalismo já deu tudo de bom que poderia e agora só pode oferecer desigualdade, conflitos, destruição e opressão. Para esses, o problema continua sendo propor uma alternativa geral. Afinal, depois da experiência soviética, temos que rever tudo que entendemos por socialismo.

Durante anos, temos insistido em denunciar as agressões exteriores de todo o tipo a que a revolução cubana é submetida. Só a má-fé pode ignorar o papel que ataque e o bloqueio norte-americanos exercem sobre a evolução e o caráter do regime político, os problemas da economia e as recorrentes dificuldades de abastecimento da população.

Mas o final da União Soviética e do resto dos países até agora chamados socialistas, ou a evolução dos que sobreviveram (Vietnã, China), obrigam-nos a observar problemas que nada têm a ver com “o cerco e a agressão imperialista”. São dificuldades inerentes ao tipo de socialismo que se aplicou em diversos países do mundo desde a revolução soviética: regime de partido único, assimilação do Estado pelo Partido, censura e repressão à dissidência e economia centralizada.
Promessas e misérias do “socialismo real”

Como resultado, surgiram ao menos três deformações:

1. Em uma sociedade que se diz sem classes, surge a progressiva formação de uma classe dirigente e/ou “de negócios” introduzida no poder, privilegiada e paulatinamente minada pela corrupção.

2. A onipresença do Partido e seus principais líderes sobre o conjunto da sociedade, a suposta infalibilidade de suas análises e decisões, a redução da teoria e análise marxistas a formulações dogmáticas, a repressão de toda a dissidência, o controle total da imprensa e da educação acabam por eliminar todo o verdadeiro debate de idéias na sociedade. Desaparece a crítica e, com ela, a dialética entre prática e consciência social. Se “é a prática que determina a consciência” [1], essa, produto de tal tipo de socialismo, fica longe do ideal. Estabelece-se, ao contrário do desejado, uma prática da desconfiança e são ocultadas as verdadeiras opiniões, o que acaba por determinar uma consciência cínica e, no fim das contas, reacionária.

3. No plano econômico, os diversos problemas podem se resumir em um aspecto: a produtividade. O socialismo não conseguiu substituir o estímulo do progresso individual, próprio do capitalismo, por outro, de caráter social ou ideológico, capaz de igualar ou superar seus resultados. A economia socialista foi muito menos produtiva que a capitalista em qualidade, quantidade e em qualquer de seus níveis: primário, secundário e terciário. Mesmo que o “socialismo real” tenha tido êxitos iniciais e procurado maiores níveis de igualdade, não pôde sustentar essas vantagens muito tempo – precisamente por não ser capaz de produzir com eficácia. Assim recaiu-se em uma situação de pobreza, agravada pelo aumento das expectativas sociais.

Estes três fenômenos articulam-se uns com os outros, o que multiplica a gravidade dos problemas. Cuba padece claramente dessas três conseqüências do modelo: é um regime de partido único, não existe pluralismo de opinião e a economia está totalmente planificada pelo Partido e pelo Estado.
Consciência crescente da pesada herança soviética

Existe atualmente, entre os dirigentes e intelectuais cubanos, uma forte corrente de opinião que tem muito claro o peso político e econômico “herdado”, por força das circunstâncias, do sistema soviético — assim como a ajuda recebida durante anos da URSS os poupou da fase de acumulação originária de capital. Fontes ocidentais calculam que entre créditos, doações, mecanismos de preços subvencionados e de outro tipo, Cuba recebeu dos países socialistas, em seus trinta primeiros anos de revolução, 80 bilhões de dólares de ajuda — sem incluir o apoio militar. Mesmo reduzindo essa cifra pela metade ou menos, trata-se de uma soma extraordinariamente importante para um país como Cuba. Ao menos, suficiente para seu crescimento. Porém, ao fim da URSS, Cuba descobriu dolorosamente que não havia se desenvolvido completamente [2].

Em honra à revolução cubana e aos seus dirigentes, deve-se insistir que todo esse dinheiro não parou nas mãos de uma burguesia corrupta e espoliadora, como ocorreu sistematicamente nas “democracias” latino-americanas. Em Cuba, foi utilizado para construir hospitais e escolas e para melhorar o nível de vida da grande maioria da população. Também para um generoso esforço internacionalista – não só em dinheiro mas também em todo tipo de solidariedade, até o sacrifício de vidas – dirigido aos movimentos progressistas e revolucionários da América Latina e do Terceiro Mundo.

A prova dessa enorme diferença moral é justamente a maneira com que a sociedade cubana e seus dirigentes saíram com a cabeça erguida da catástrofe econômica que o desaparecimento da URSS significou para eles. Uma catástrofe capitalista muito menor, em termos relativos (como a da Argentina em 2001), deixou o país sem o controle de seus recursos naturais, mais da metade da população na pobreza e um quarto na indigência.

Mas a comprovação de que os dirigentes comunistas cubanos são globalmente honestos e a evidência de que sempre têm contado com o apoio da maior parte de seu povo não elimina os problemas do modelo socialista cubano. Trata-se de questões objetivas, que nada têm a ver com a vontade subjetiva da geração de líderes que iniciou a revolução com a tomada do Quartel Moncada, em julho de 1953, e que ainda continua no poder.
A oportunidade única de uma reforma não-capitalista

Há alguns anos, um amigo cubano me disse: “A perestroika deveria ter começado aqui”. Não lhe faltava razão, já que seguramente Cuba teria menos dificuldades do que a URSS para encarar uma série de reformas estruturais, sob a condição de que os verdadeiros problemas se abordassem de frente, com profundidade e sem esquematismos.

Quem resiste com boa fé a essas mudanças (não os burocratas, fanáticos ou corruptos, que também existem), insiste que seria impossível controlar uma “abertura” em Cuba, devido à proximidade e ao enorme poder dos Estados Unidos. O argumento não é nada desprezível, mas não elimina os problemas assinalados. Também não leva em conta que a conjuntura regional — com a aparição de vários governos progressistas, com projetos de integração conseqüentes e o progressivao enfraquecimento dos Estados Unidos — configura uma ocasião única para uma abertura audaz, que combine maior democracia política com transformações econômicas de inspiração socialista. No fim das contas, o socialismo sem democracia representa uma contradição em si mesmo.

Cuba sobreviveu à brutal queda da URSS porque tomou um rumo muito “capitalista”: investimentos estrangeiros privadas; dupla economia (área dólar e área peso; depois, área CUC); abertura ao capital e à iniciativa privada na área de serviços e outras etc. Foi dessa maneira, com enormes sacrifícios por parte de uma população fiel à revolução e fortes concessões ao ideal socialista, que o essencial do processo foi salvo.
Um problema que diz respeito a toda a humanidade

Mas duas questões continuam de pé. A primeira, histório-política, diz respeito ao destino das revoluções socialistas que sobreviveram à URSS. Dentro de muito pouco tempo, terão desaparecido por completo as gerações que as formaram. No caso de Cuba, será um processo que avançará em direção a uma forma de socialismo ainda a definir? Ou Fidel e seus companheiros haverão sido, no fim das contas, o que Robespierre e os jacobinos foram para a Revolução Francesa: a primeira fase de uma revolução — mas não socialista, e sim emancipadora e, no fim, burguesa e “moderna”?

O segundo, e de enorme interesse para os que entendem que somente avançando até o socialismo a humanidade começará a resolver seus graves problemas, é o tema da produtividade socialista. É e velha disputa teórica que, em Cuba, se deu entre o vice presidente Carlos Rafael e o Che. Os estímulos ao trabalho e à produção devem ser materiais, morais ou uma combinação de ambos? O ocorrido na URSS dá a resposta do que não funciona, mas segue em pauta a necessidade de uma alternativa: como envolver a sociedade na produção socialista sem apelar a estímulos – propriedade privada, competição individual – próprios do capitalismo? Ao fim de vários anos de crescimento sustentável, o problema segue vigente em Cuba, já que o aumento do salário médio supera o da produtividade. Continuar se desenvolvendo dependerá, portanto, de um sensível acréscimo da disciplina do trabalho e da diminuição dos custos de produção [3], que é justamente onde o “socialismo real” falhou.

O tema da produção-produtividade-igualdade não diz respeito apenas a Cuba, mas a todas as sociedades. O paradoxo é que esse é o país que tem mais urgência de que se resolva o problema, e que está em melhores condições de consegui-lo, ajudando os demais a trilhar o caminho. Não seria estranho, e em todo caso é de se esperar, que o povo cubano e seus dirigentes enfrentem o desafio com o mesmo valor, calma e criatividade que assombrou e entusiasmou o mundo inteiro, 48 anos atrás.

Tradução (do espanhol): Gabriela Leite Martins

[1] Karl Marx, A ideologia alemã. Uma versão gratuita, em português, pode ser baixada no site Domínio Público
[2] Apesar de que, junto com países produtores de petróleo, era o único da região que havia gozado de uma receita equivalente à renda colonial do Primeiro Mundo.
[3] Angel Guerra Cabrera, “Cuba: crecimiento com equidad” ALAI, México, 4-1-07.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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Depois do apartheid, a democracia continua para poucos

Modelo neoliberal adotado nos últimos dez anos agrava as condições de vida dos trabalhadores na África do Sul e reforça as desigualdades raciais e de gênero

Igor Ojeda
da Redação

Em greve geral desde o dia 1º, centenas de milhares de servidores públicos da África do Sul, organizados em torno do Congresso dos Sindicatos Sul-Africanos (Cosatu) preparam-se para aceitar uma nova proposta de aumento salarial por parte do governo do presidente Thabo Mbeki.

Os trabalhadores, em sua maioria dos setores de Educação e Saúde, realizam, desde o início da paralisação – uma das maiores da história da África do Sul –, marchas e protestos por todo o país exigindo o atendimento de diversas reivindicações, entre elas um incremento nos seus salários de 10% (a demanda inicial era de 12%).

O governo, que oferecia 6%, já acena com 7,25%, ainda considerado insuficiente pelos grevistas, que chamam a atenção para a queda do padrão de vida dos trabalhadores públicos.

“Eles têm enfrentado uma massiva e brutal reestruturação do setor público nos últimos 10 anos. Esta reestruturação neoliberal tem causado a privatização ora parcial ora absoluta dos bens do Estado, terceirização de serviços de apoio e encolhimento dos serviços públicos”, explica ao Brasil de Fato Tebogo T. Phadu, do Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Educação, Saúde e Associados (Nehawu, na sigla em inglês).

Segundo ele, a política salarial do governo é ditada pela política monetária conservadora do Reserve Bank (o Banco Central). “Por isso, a política governamental tem sido geralmente de salários ‘anti-vida’ para a maioria dos trabalhadores e muito generosos para a elite”, diz.

Contraste social

Como conseqüência, de acordo com Phadu, a relação salarial entre servidores públicos de elite e os trabalhadores médios é de 1:29. Ou seja, os primeiros ganham 29 vezes mais que os segundos. Em 1998, a proporção era de 1:18.

Asanda A. Fongqo, chefe de comunicação da Organização Democrática dos Enfermeiros da África do Sul (Denosa, em inglês), concorda: “muitas das políticas sociais e econômicas do governo não tem como alvo a classe trabalhadora e os pobres. Nós sentimos que o contraste entre os ricos e pobres ainda não foi eliminado, dada nossa história política”, protesta, em entrevista ao Brasil de Fato.

Para ela, os baixos salários dos servidores públicos do país não são suficientes para acompanhar os aumentos nos preços dos alimentos, mensalidades escolares, moradia, transporte etc. A inflação no país vem subindo nos últimos anos. Em 2005, foi de 3,4%; em 2006, 4,7%. Já o índice medido em abril de 2007 (desde abril de 2006) alcançou os 7%. Além disso, explica, “há falta de enfermeiros, que estão extremamente sobrecarregados”.

Por isso mesmo, a adesão da categoria à greve foi alta. Muitos hospitais em todo o país tiveram um alto percentual de seus funcionários parados. Antes do início das paralisações, o governo havia obtido na Justiça do Trabalho uma determinação proibindo a participação dos trabalhadores de setores essenciais (policiais, funcionários da saúde, bombeiros etc).

No dia 11, cumpriu a ameaça e demitiu cerca de 600 enfermeiros e enfermeiras, o que causou a revolta dos grevistas. “Durante anos, pedimos ao governo a assinatura de um acordo de serviço mínimo para os trabalhadores da Saúde em caso de paralisação, mas foi recusado. Desse modo, eles estão privados de seu direito constitucional à greve”, observa Asanda.

No entanto, com as negociações prestes a resultar em um acordo, o governo já acena com a possibilidade de recontratar os demitidos da Saúde. Durante a greve, os sindicatos do setor estabeleceram que entre 20% e 25% de seus trabalhadores participariam de serviços como atendimento intensivo e emergências.

Discriminação

A economia sul-africana vem crescendo seguidamente desde 2003. Nesse ano, seu Produto Interno Bruto (PIB) foi 3% maior em relação ao ano anterior. Em 2004 e 2005, o crescimento foi de 4,5% e 4,9%, respectivamente. No ano passado, chegou a 5,5%.

No entanto, a população vem se beneficiando pouco desse boom econômico. Cerca de metade dos sul-africanos vivem abaixo da linha da pobreza, e o desemprego oficial foi de 25,5% em 2006. Dados do Labour Force Survey (LFS), instituição do governo, mostra que a informalidade no país, excluindo os trabalhadores em agricultura, é de 25,7%. As mulheres são mais atingidas que os homens: 30,7% contra 21,2%.

Segundo Phadu, os trabalhadores negros foram os mais duramente atingidos pela reestruturação neoliberal, “especialmente as mulheres, que ocupam muito da base da hierarquia salarial. As taxas de emprego discriminadas por raça mostram que as feridas causadas no país pelo apartheid ainda permanecem abertas. O índice de desemprego entre os brancos é de 4,5%. Entre os mestiços, de 19,4%. Entre os negros, atinge 30,5%. A discrepância entre o percentual de mulheres negras desempregadas e homens brancos é gritante: 36,4% contra 4,4%. “Este é um contexto de uma crise de desemprego e a correspondente pobreza para milhões de sul-africanos negros”, lamenta Phadu.

Jornal Brasil de Fato
ttp://www.brasildefato.com.br/

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A fraqueza do gigante

David Harvey

entrevistado por Veronica Gago

—Onde está a fraqueza estadunidense? Como se relaciona com a actual situação do dólar?
—Os Estados Unidos e as suas corporações já não dominam no mundo da produção. Um exemplo: os EUA têm apenas das dez indústrias automobilísticas líderes mundiais e ambas – Ford e General Motors – estão com profundas dificuldades económicas. Os EUA continua a dominar nuns poucos sectores, como o dos agronegócios – fortemente subsidiado pelo governo, violando as regras da OMC – e algumas áreas de alta tecnologia, vinculadas principalmente ao complexo industrial militar. Dominou no reino das finanças até meados dos anos noventa, mas agora pedem emprestado a um ritmo de 2 mil milhões de dólares por dia, sobretudo aos bancos centrais do extremo oriente, para financiar o endividamento do Estado e do consumo. O mercado estadunidense ainda é enorme e os EUA costumam utilizá-lo como uma arma nas negociações internacionais, mas muitos países estão a reorientar seu comércio em direcção aos mercados da China e da Índia, que se expandem velozmente.

—É então uma situação ambivalente?
—Isso não implica esquecer que os Estados Unidos ainda têm um voto dominante em organizações internacionais como o FMI, e Wall Street ainda é um grande mediador nos mercados de capitais globais (cada vez mais a manejar fundos estrangeiros que podem ser facilmente diversificados em outras partes). Mas se militarmente os EUA dominam o poder de destruição de alta tecnologia, estamos a ver que no Iraque e no Afeganistão falha na hora de dominar o terreno. O que quero dizer é que os EUA são cada vez mais um gigante débil e suas políticas situam-se no centro da instabilidade económica global. Um resultado disto é a considerável volatilidade do valor do dólar. Mas não nos equivoquemos: a tendência a longo prazo é para a baixa e continuará neste sentido a menos que os EUA elevem suas taxas de juros internas, o que pode desencadear uma recessão dentro do país, e ninguém quer isto devido às suas consequências globais.

—O que indica a oscilação de preços das matérias-primas e do petróleo?
—A tendência geral de todos os preços das matérias-primas, incluindo o petróleo, foi para a subida nos últimos anos, o que se deve fundamentalmente à forte procura da China e da Índia. Isto beneficiou os produtores de matérias-primas: os altos preços do cobre ajudaram o Chile e as compras de soja favoreceram a Argentina. No caso do petróleo, seu preço também foi afectado por outros factores especiais: a guerra no Iraque, a lutas políticas na Nigéria e os problemas com o Irão. Mas as notícias positivas nas matérias-primas também geraram muita especulação quanto ao que se passará no futuro, seus preços e os investimentos nos mercados emergentes de países produtores de matérias-primas. Esta borbulha especulativa rebentou há pouco, provocando uma queda repentina, mas esta não é a tendência a longo prazo. Se os preços continuarão a subir ou não depende da força da procura de países como a Índia e a China.

“ACUMULAÇÃO POR DESPOSSESSÃO”

—Ao explicar o seu conceito de “acumulação por despossessão” apresentou como exemplo a Argentina. Por que?
—Quando uso a expressão “acumulação por despossessão” refiro-me ao comportamento predatório das elites político-económicas que lhes permite aumentar seus benefícios a expensas dos pobres e das camadas médias. Implica um núcleo de práticas favoráveis ao desmantelamento de direitos através de privatizações, da abolição de programas sociais, da desvalorização periódica de activos, etc. Encontro muitos exemplos deste processo na história recente da Argentina. A desvalorização do peso em 2002 implicou efectivamente o roubo de quase 12 mil milhões de dólares das contas dos argentinos. Para onde foram esses 12 mil milhões de dólares? Aqueles que sacaram seus dólares antes de Novembro de 2001, que os levaram para Miami e que os trouxeram de volta em Maço de 2002 triplicaram seus benefícios. É aí que foram parar esses 12 mil milhões?

—Descreve os organismos internacionais como garantes dos centros de acumulação. Qual o impacto de países como a Argentina e o Brasil pagarem sua dívida com o FMI?
—A antecipação do pagamento da dívida ao FMI por parte do Brasil e da Argentina tem um duplo significado. Por um lado, liberta os governos da degradante supervisão reguladora do FMI e, por outro, permite a exploração de uma variedade de políticas económicas. Mas simboliza também a forma como se culpa o FMI pelos efeitos políticos da acumulação por despossessão quando as elites politico-económicas do país também têm uma grande responsabilidade pelo que se passou nos anos de crise. Talvez o próximo passo seja devolver às pessoas os 12 mil milhões de dólares que perderam com a desvalorização!

—O que tem de “novo” o imperialismo actual?
—O “novo” imperialismo criado ao longo dos últimos 30 anos combina uma viragem radical em direcção ao neoliberalismo de livre mercado – agora resistido em toda a América Latina mas cada vez mais reforçado através de instituições internacionais como o FMI e a OMC – com os métodos imperialistas tradicionais dos Estados Unidos, de romper todas as barreiras geográficas a favor da mobilidade do capital das corporações desse país através de todo tipo de meios. A contradição reside em que não são só as corporações estadunidenses os que se podem beneficiar de um sistema de livre mercado, e que o que começou por ser uma estratégia para consolidar o domínio estadunidense converte-se agora num meio para afundá-lo.

—Qual é o papel da Venezuela neste cenário?
—Paradoxalmente, a invasão de Bush do Iraque e a consequente subida do preço do petróleo ajudou muitíssimo Chávez, e ele utilizou estes recursos monetários para consolidar seu poder internamente e para construir alianças com os governos progressistas da América Latina e inclusive para além deles. Chávez, portanto, tem um interesse pessoal em manter altos os preços do petróleo. Agrada-me o facto de que forneça calefacção barata à população empobrecida do Bronx, na cidade de Nova York.
[*] Geógrafo e urbanista britânico. Seu último livro é dedicado à análise das novas formas do imperialismo. Ver nota sobre Harvey em http://en.wikipedia.org/wiki/David_Harvey_(geographer)

Obras de David Harvey em português:
# “O Novo Imperialismo”, Edições Loyola , S. Paulo, 2004, 208 pgs., ISBN 8515029715
# Condição Pós-moderna. Edições Loyola, S. Paulo, 1993, 352 pgs., ISBN 8515006790.
# Espaços de Esperança, Edições Loyola, S. Paulo, 2004, 384 pgs., ISBN 8515029723
# A produção capitalista do espaço, Editora Annablume , S. Paulo, 2005, 251 pgs., ISBN 8574194964

O original encontra-se no semanário uruguaio Brecha , de 16/Junho/06
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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Transposição do Rio São Francisco. Ouvidos moucos à beira do rio

Washington Novaes

“Soldados do 2º Batalhão de Engenharia e Construção do Exército iniciaram as obras de transposição de águas do Rio São Francisco para o eixo Norte do semi-árido - começando a concretizar projeto altamente polêmico. Agora, mesmo o bispo dom Luiz Flávio Cappio - que chegou a fazer uma greve de fome, só interrompida com um apelo do presidente da República e com um acordo entre os dois - está dizendo que ‘o acordo não foi cumprido’; que o presidente ‘mentiu para o Brasil e demonstrou a falta de seriedade desse governo com o povo, empurrando um projeto goela abaixo, numa total falta de respeito’. Para ele, ‘a presença do Exército em Cabrobó remonta ao período militar da ditadura’ e é uma ‘agressão ao meio ambiente, à economia e ao povo’ (O Tempo, 10/6).

Setenta e seis empreiteiras apresentaram propostas para os lotes da obra em licitação, no valor de R$ 3,2 bilhões - o custo final está estimado em R$ 6,7 bilhões (A Tarde, 10/6). E desde março está concedida pelo Ibama a licença de instalação que a permite, mas com 51 condicionantes. Já havia outras 31 exigências na licença prévia concedida em maio de 2005, até aqui, aparentemente, também não atendidas. Por essas e outras razões, em fevereiro a Procuradoria-Geral da República (PGR) havia pedido ao Supremo Tribunal Federal (STF) que suspendesse a licença prévia. Quase ao mesmo tempo, a mesma PGR no Distrito Federal recomendara ao Ibama que não expedisse a licença de instalação. Como, entretanto, a própria ministra do Meio Ambiente considerou o projeto ‘ambientalmente seguro’ (Agência Estado, 16/3), seguiu-se em frente - ainda que estejam em tramitação no STF 11 ações, por iniciativa do Ministério Público Federal e estaduais, da OAB e outras. Mas algumas liminares que impediam o início das obras foram suspensas em dezembro de 2006 pelo ministro Sepúlveda Pertence.

Também não tiveram êxito os protestos do Fórum Nacional pela Reforma Agrária e pela Justiça no Campo (31/5), para o qual o governo federal desprezou a oferta de 140 tecnologias alternativas à transposição, ‘diversificadas e adaptadas às diversidades do bioma caatinga e ao clima semi-árido’. A transposição - diz o fórum - reforçará ‘a estrutura agrária, econômica, política e social que é a grande responsável pelo quadro de sofrimentos que há séculos atormenta o Nordeste’. A seu ver, vai agravar o problema da seca, aumentar o custo da água e exigir subsídios cruzados que serão pagos pela população, para beneficiar principalmente grandes projetos de exportação de camarões, grãos e flores, entre outros. Outros protestos vieram de etnias indígenas, da Comissão Pastoral da Terra e da CUT. Ambientalistas disseram que nos últimos 40 anos o rio já perdeu 40% de seu volume de água (Ecodebate, 11/6). E que a própria Agência Nacional de Águas já mostrou ser possível atender a todos os núcleos urbanos do semi-árido com mais de 5 mil habitantes a um custo 50% inferior ao da transposição. Houve quem lembrasse que com 1 milhão de cisternas de placa se atenderia a milhões de pessoas de todas as comunidades isoladas, as maiores vítimas da seca, a um custo muito menor que o da transposição.

De nada adiantaram críticas e protestos. Para o ministro Geddel Vieira Lima (que era contra o projeto, antes de ganhar o cargo), as pessoas que criticam a transposição ‘na maioria das vezes desconhecem o projeto ou são agentes políticos que querem ‘compensação'’ (Correio Braziliense, 17/4). Para o ex-ministro Ciro Gomes, há dois grupos de opositores: um, ‘de má-fé’, seria composto de pessoas que querem manter reserva de valor, áreas ou projetos de irrigação à beira-rio; o outro seria composto de ‘pessoas bem-intencionadas, mas desinformadas’.

Há dez anos o autor destas linhas escreve sobre o tema neste espaço, levantando dúvidas e questões até aqui sem resposta. Para ficar apenas nos artigos de 2005 para cá, foram mencionados estudos dos professores Aldo Rebouças (USP), João Abner (UFRN) e João Suassuna (Fundação Joaquim Nabuco), lembrando que o problema do semi-árido não é de escassez de recursos hídricos, é de ‘má gestão’; os consumos urbanos não chegam a 10% da disponibilidade e podem ser atendidos por ela. Na verdade, 70% da água transposta servirá a projetos de irrigação e 26%, ao consumo urbano, sem atender às comunidades isoladas. Podem estar embutidos no preço da água subsídios aos irrigantes (quem os pagará, os demais consumidores?). Tudo isso foi perguntado num artigo neste espaço em 28/1/2005.

Em 20 de maio desse ano, comentou-se a análise do Ibama sobre o estudo de impacto ambiental, mostrando que a água irá em sua maior parte para açudes onde o nível de perda por evaporação chega a 75% (alega-se que diminuirá). Que o número de beneficiados no estudo varia entre 12,4 milhões e 7,21 milhões. Que os hectares irrigáveis também oscilam de 186 mil a 161 mil. E, mais grave, ‘20% dos solos irrigáveis pelo projeto têm limitação para uso agrícola; somados aos solos litólicos, notadamente impróprios’, chega-se a mais de 50% do total; e ‘62% precisam de controle, por causa da forte tendência à erosão’. Com tudo isso, licenciou-se o projeto…

Em artigos posteriores (30/9/2005, 6/1/2006 e 22/3/2007), novos questionamentos foram levantados. Os do Tribunal de Contas da União (custos superestimados), do biólogo Ivan Bergier Tavares de Lima (sobre o desprezo, no projeto, aos cenários do clima no semi-árido e suas repercussões sobre os recursos hídricos), da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (sobre o custo da água, o volume a ser transposto - que poderia chegar a 47% da disponibilidade). Nada disso foi respondido pelos ouvidos moucos.

Só ficando, então, com a frase de Ariano Suassuna: ‘Fazer obras contra a seca no Nordeste é como criar um departamento para combater a neve na Sibéria.’ Pelo menos alivia o estado de espírito.”

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

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Todos os seres humanos nasceram de migração da África, dizem cientistas

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