Arquivo de 2 de Junho de 2007

Leonardo Boff, fundador da Teologia da Libertação: “Sou um cigano teológico”

Lluís Amiguet

Tenho 68 anos. Sinto o peso da idade, mas também o equilíbrio e a serenidade de ter vivido. Nasci no Brasil e é com dor que vejo a morte da Amazônia e de seus filhos. Deixei o sacerdócio porque o Vaticano me exigiu não humildade, que é virtude, mas humilhação, que é pecado. Resta-me a palavra.

EFE

La Vanguardia - Padre Boff…
Leonardo Boff - Não me chame de padre que o Vaticano não gosta.

LV - Como quer que o chame?
Boff - Como quiser. Eu sou o mesmo: mudei de trincheira para continuar a mesma batalha. Deixei o ministério, mas continuei como teólogo e nunca mais voltei a ter problemas com o Vaticano.

LV - Resuma sua vida em três cenas.
Boff - Nasci no Brasil, estudei teologia no seminário e tornei-me franciscano. Fui à Alemanha estudar teologia e voltei para a Amazônia…

LV - Lá a teologia crítica alemã lhe foi útil?
Boff - Agora imaginemos a primeira cena: estamos em Manaus, capital da Amazônia, e explico a um grupo de cristãos e sacerdotes o “Jesus na visão crítica da ciência”, e vejo em seus olhos que não entendem nada. Um deles me pergunta: “Como vou anunciar esse Jesus aos indígenas que morrem nas terras dos latifundiários porque as desmatam e acabam com eles e todo o seu mundo?” Então percebo que devo ser humilde e aceitar que devo reinventar a teologia a partir deles. Na cena seguinte estou em Roma, sentado na mesma sala onde estiveram Galileu Galilei e Giordano Bruno…

LV - A das causas da inquisição.
Boff - Ali, o então cardeal Ratzinger me processa e ali sinto muito fundo a dureza vaticana e sua falta de coração. A terceira cena: estamos na Eco 92 no Rio de Janeiro e saio de um diálogo com o Dalai Lama. Aproxima-se um cardeal da Cúria Romana e me critica: “Você não aprendeu nada do silêncio necessário…” “Pode escolher: Filipinas ou Coréia.”

LV - O senhor se negou a ir?
Boff - Obedeci, mas perguntei ao cardeal se lá poderia continuar falando, escrevendo, ensinando… E ele respondeu: “Não poderá, porque lhe ordenamos ficar em silêncio em um convento”.

LV - Então o senhor se negou a obedecer.
Boff - Porque já não se tratava de humildade, que é uma virtude, mas de humilhação, que é um pecado. Um teólogo só tem a palavra para continuar vivo, e negar-se a usá-la é morrer. Então abandonei o sacerdócio.

LV - O senhor mantém um ministério universal.
Boff - Sou um cigano teológico, mas convencido de continuar defendendo minha fé, que não é a única verdade. E nisso discordo de Roma.

LV - A verdade, segundo eles, é uma só: a deles.
Boff - O Vaticano afirma que sem a Igreja não há salvação, e isso é uma arrogância medieval: o espírito de Deus está em todas as partes e Deus, olhando a humanidade, vê todos os seus filhos; não olha só para o Vaticano.

LV - Para Roma isso é relativismo moral.
Boff - Roma tem medo do presente, da diversidade: tem medo da modernidade e do futuro. E se aceitasse que a centralidade não é a Igreja, mas a humanidade inteira, poderia realmente salvar o mundo.

LV - Como?
Boff - Superando o choque de culturas causado pelo terrorismo e os fundamentalismos. Teríamos de aceitar que nenhuma igreja é portadora da única verdade; só assim poderíamos chegar à paz duradoura.

LV - Todos temos algo de verdade, mas ninguém a tem inteira.
Boff - Antonio Machado explica isso bem: “Não me dê a sua verdade; busquemos juntos a verdade e guardemos a sua e a minha”.

LV - Se a verdade é única, anda sempre armada.
Boff - O Ocidente, com sua pretensão de impor a sua, que ele acredita única, levou guerra e exploração a muitos lugares, e o sistema que impôs ameaça devastar o planeta, o lar da humanidade.

LV - A Amazônia corre perigo.
Boff - O planeta está em perigo. Lembre que “homem” vem de húmus: terra. Somos a Terra, e se a destruirmos também não sobreviveremos: o papa no Brasil deveria ter-se pronunciado pela Terra.

LV - Essa é a mensagem de são Francisco.
Boff - Por isso continuo sendo franciscano. Francisco está mais vivo que nós, apesar de ter nascido há 800 anos.

LV - É o santo ecologista.
Boff - Francisco abraçou todos os seres da terra com emoção sincera. É o santo do diálogo com todos, começando pelo Irmão Lobo, então flagelo dos homens…

LV - E hoje espécie em extinção, o pobre.
Boff - Francisco soube ver a comunidade dos seres vivos e sua união inseparável entre todos e com a Terra. Não há felicidade possível se explorarmos os humanos e outras espécies. “Adão” vem de Adana, terra boa.

LV - Mas: “Povoem a Terra e a subjuguem”.
Boff - Esse “subjuguem” foi mal traduzido; no original bíblico refere-se a cuidar dela, no sentido de cuidar de uma herança. Tratamos a Terra como se fosse uma mina de onde tirar todas as riquezas e depois abandoná-la e esquecê-la. E a Terra somos nós.

LV - Sua mensagem para a rica Espanha?
Boff - Lembrem que vocês foram pobres, e hoje 20% da humanidade se apropriam de 80% das riquezas do planeta, que deveriam ser de todos.

LV - O que fazer?
Boff - Transformemos com a paz e a palavra esse sistema que explora a nossa Terra e faz que nos exploremos entre nós.

LV - Como?
Boff - Transformemos a nós mesmos; tomemos consciência e empurremos nossos governantes com nossa pressão e nossos votos e razões para evitar o sofrimento e a exploração do resto dos homens e das espécies. Se não o fizermos, por mais que tenhamos, não teremos nada.

A “teodiversidade”

Vejo em Leonardo Boff um homem sábio e bom, porque nele se sente a bondade, e se o outro grande teólogo malvisto em Roma, Hans Küng, falou aqui desde a inteligência bondosa, Boff dirige-se agora ao coração com a bondade inteligente. Seu discurso -moderno, como franciscano- sobre a biodiversidade ameaçada e a teodiversidade necessária para evitar o choque de civilizações é humilde, sincero, sentido e necessário. Boff, mais que separado do ministério, sente-se livre da imposição de defender o indefensável e entrega-se à sua fé como teólogo livre: nenhuma igreja é dona da única verdade; todas as religiões têm algo da verdade e nenhuma a tem inteira. Por isso é uma idiotice matar e matar-se para impor a nossa.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

La Vanguardia

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Personagem de si mesmo

Marcelo Rollemberg

De todos os personagens que Oscar Wilde criou em sua vasta produção teatral e, de forma mais ampla, literária - aí envolvendo seu único romance, contos e novelas -, talvez o maior tenha sido justamente um de carne e osso: ele mesmo, Oscar Fingal O’Flahertie Wilde. O autor de A Importância de Ser Prudente não utilizava as letras para apenas criar mundos e criaturas ficcionais, mas sim, principalmente, para estabelecer os princípios do que ele acreditava ser a Arte, assim mesmo, em maiúscula, e de como o artista, em seu cotidiano, deveria lidar com ela.

Correndo todos os riscos, se assim se fizesse necessário. “O Artista não tem simpatias éticas. A simpatia moral num artista traz o maneirismo imperdoável do estilo”, escreveu Wilde no prefácio - na verdade, uma série de aforismos - de O Retrato de Dorian Gray, seu único romance, publicado em 1890 em capítulos no periódico Lippincott’s Magazine e, um ano mais tarde, em forma de livro. Foi nesse livro que Oscar Wilde estabeleceu talvez de forma mais abrangente sua condição de esteta - na vida e na arte - e seu hedonismo, indo muito além do que a hipócrita moral vitoriana de sua época poderia suportar.

A história do homem que comete as maiores barbaridades em nome do prazer e nunca envelhece, enquanto seu retrato pintado vai ganhando, pouco a pouco, contornos soturnos e aterradores, chocou leitores e críticos, que viram ali um atestado da perversão em Wilde. A dúvida de muitos era saber exatamente quem era Wilde entre os três personagens principais da história: Dorian, lorde Harry ou Basil. “São os três, decerto…”, atestou João do Rio, dândi e homossexual como Wilde, na apresentação de sua tradução brasileira do romance em 1919. Ele estava certo. Porque foi em Dorian Gray que o autor mais esgarçou sua alma, sua estética e sua visão de mundo - principalmente o mundinho de rapapés e salamaleques da aristocracia londrina, que lhe beijara a mão e que, após tornar-se público seu escandaloso romance com lorde Alfred Douglas, virou-lhe a cara sem qualquer cerimônia. Mas foi também nesse cadinho de romance fantástico, sátira social, novela policial e diálogos repletos de paradoxos e conceitos escandalosos que lhe garantiram - e garantem até hoje - um sucesso notável, com muitos vendo ali o prenúncio da modernidade literária que só surgiria décadas mais tarde.

Mas O Retrato de Dorian Gray acabou também servindo de arma para seus detratores mais obstinados. O romance foi utilizado pelo promotor Edward Carson, ex-colega de Wilde em Oxford, no julgamento que acabaria por levar o escritor à condenação de dois anos de trabalhos forçados por homossexualismo. Mas mesmo nas barras do tribunal, Wilde não perdeu nem a verve nem a postura. Eis um trecho do diálogo travado no tribunal de Old Bailey, em 1895:

Carson: “Um livro bem escrito que exponha opiniões morais viciosas, poderia ser um bom livro?”
Wilde: “Nenhuma obra de arte nunca expôs opiniões. As opiniões são coisas de pessoas que não são artistas.”
Carson: “Um romance pervertido poderia ser um bom livro?”
Wilde: “Não sei o que quer dizer para o senhor um romance pervertido.”
Carson: “Eu me atreveria, então, a dizer que Dorian Gray poderia ser considerado um romance desse tipo.”
Wilde: “Só os brutos e os ignorantes poderiam interpretá-lo assim. Os pontos de vista dos filisteus são tremendamente estúpidos.”

Pop star vitoriano
O que aconteceu com a vida de Wilde a partir daquele julgamento foi o ocaso de uma estrela ascendente que parecia destinada a brilhar sozinha no cenário cultural e social da Londres de finais do século 19. O destino - e a auto-suficiência do escritor - deu um drible nas expectativas wildianas e, de uma hora para outra, sua fama e fortuna se transformaram em ostracismo e bancarrota. O caminho que ele vinha pavimentando desde os anos 1880 terminou, sem aviso prévio, em uma falésia, como as muitas que pontilham o litoral da Irlanda natal. Um caminho, frise-se, criado a partir de artigos escritos para várias publicações, como as revistas Woman’s World, da qual foi editor, e a prestigiada Pall Mall Gazette, nos quais já expunha suas idéias estéticas e culturais. E aí ele já chamava a atenção, atraindo para si as opiniões mais distintas a partir de suas opiniões muito particulares - mas sempre bem fundamentadas - a respeito da obra do poeta Shelley, da arte dos pré-rafaelitas e da filosofia e da arte em geral. Wilde queria chocar e atrair luzes para si. E conseguia. Quando não por meio de seus escritos, recorrendo a expedientes pouco comuns à época, como jogar pétalas de rosas e lírios no caminho de atrizes famosas como Sarah Bernhardt - que mais tarde encenaria sua Salomé, em Paris. Essas excentricidades, aliadas à sua reconhecida genialidade e suas tiradas sarcásticas fizeram com que ele se tornasse figura requisitadíssima nos salões londrinos. Pode-se dizer que, quase um século antes da criação dos astros midiáticos, Wilde inventou a figura do pop star, criando situações que só destacavam sua presença nos jornais londrinos.

A década de 1890, então, tinha tudo para ser aquela na qual Oscar Wilde definitivamente mostraria sua genialidade. Afinal, nos anos anteriores, sua preocupação havia sido justamente abrir caminho, a golpes de pétalas de rosa, frases de efeito e conceitos estéticos, para a fama. Como ele mesmo escreveu certa vez, sua intenção era “ficar famoso, célebre ou, então, notório”. Conseguiu as três coisas. Com seus poemas, artigos, peças, contos, novelas e Dorian Gray, ele conseguiu as duas primeiras. Com seu affair com Alfred Douglas, ele se tornou tristemente visível.

É curioso, e até irônico, pensar como acabou a década de 1890 para Wilde, de tão díspar que ela se prenunciou. Foi justamente nesse período que ele se mostrou mais produtivo, mais criativo. Além de seu romance e de suas peças mais conhecidas - cujos cartazes, após sua prisão, simplesmente expurgaram seu nome como autor -, ele criou contos e novelas que se tornariam célebres, como O fantasma de Canterville, O crime de Lorde Arthur Saville, O Rouxinol e a Rosa, O gigante egoísta e O príncipe feliz. Esses três últimos trabalhos tiveram franca inspiração infanto-juvenil, criados para os dois filhos que Wilde teve com sua mulher Constance - Ciryl, que morreria durante a Primeira Guerra Mundial, e Vyvyan, que se tornaria o grande defensor de sua memória e divulgador de sua obra. Críticos de seu tempo chegaram a comparar Wilde a Hans Christian Andersen. Exagero ou não, essas histórias entraram para o imaginário popular dos povos de língua inglesa. Já outros contos, como O fantasma de Canterville, que conta a história e desventuras de um fantasma solitário e carente, misturam humor a tons góticos, tão ao gosto da sociedade letrada da época, talvez antecipando o que bem mais tarde seria até equivocadamente classificado como “terrir”, histórias de terror com humor. Mas Wilde ia muito além dos rótulos, e isso pode ser comprovado ainda hoje, com a sucessiva publicação de sua obra por várias editoras brasileiras, principalmente a partir de 2000, quando se relembrou o centenário de sua morte.

Cartas e balada
Mesmo encarcerado, a partir de 1895, na prisão de Reading, Oscar Wilde não deixou de produzir, de escrever. Muitas de suas cartas endereçadas a Robert Ross, seu primeiro amante e amigo mais fiel, e a Douglas, se tornaram verdadeiras peças literárias. A mais pungente, com certeza, é De Profundis, a longuíssima carta que ele escreveu a Alfred Douglas em 1897 relatando suas angústias como prisioneiro e fazendo um inventário eivado de cicatrizes de sua vida, ao mesmo tempo em que estabelece um mea culpa quanto ao seu relacionamento com o amante. Wilde enviou uma cópia a Ross para que ele a copiasse e guardasse, para alguma utilização futura. “Quero que você seja meu executor literário em caso de minha morte”, escreveu ele ao amigo. E assim foi feito, e graças à postura de seu autor e à dedicação de Ross, De Profundis tem sido editado e reeditado insistentemente há mais de um século como talvez a obra mais importante de Wilde, seu testamento literário e pessoal. “Vou começar por dizer-lhe sobre como eu me sinto terrivelmente culpado. Sento-me aqui nessa cela escura em minhas vestes de condenado, um homem desgraçado e arruinado e me culpo. (…) Eu me culpo por permitir que uma amizade desprovida de qualquer senso intelectual, uma amizade cujo principal objetivo não era a criação e a contemplação de coisas belas, dominasse completamente a minha vida”, relata ele ao, então, ex-amante.

Foi também na prisão que ele escreveu a sua “Balada do cárcere de Reading”, um longo poema que só viria a ser publicado em fevereiro de 1898, quando Oscar já havia sido posto em liberdade. Mas, sinal dos tempos, ele não quis nem pôde pôr seu nome na capa do livro. A obra saiu assinada apenas como C.3.3., seu número de identificação na prisão. Até morrer em 1900, em um hotel de terceira categoria em Paris, Wilde não publicou mais nada. Passou os últimos tempos doente, trocando refeições por epigramas ou poemas que escrevia a toque de caixa para poder se manter. Ele sequer era mais Oscar Wilde. Ao se registrar no Hôtel de L’Alsace, no Quartier Latin parisiense, se identificou como Sebastian Melmoth. O homem havia sucumbido às suas próprias aspirações. Mas a obra deixada cumpriria o papel de resgatá-lo. Como ele mesmo afirmou certa vez, havia colocado seu gênio na vida e apenas seu talento nas obras que escreveu.

Marcelo Rollemberg é jornalista, escritor, tradutor de O Álbum de Oscar Wilde e organizador de Sempre seu, Oscar - uma biografia epistolar.

Revista Cult

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