Arquivo de 14 de Junho de 2007

Os americanos e a história do Brasil

Ronald Reagan contou a invasão do Suriname, e o ex-chefe da CIA desfez a fantasia líbia de Lula

Elio Gaspari

DOIS LIVROS publicados recentemente nos Estados Unidos mostram o tamanho da parolagem da diplomacia de Nosso Guia (qualificativo criado pelo chanceler Celso Amorim), e a dimensão do silêncio a que muitas vezes o Itamaraty condena seus bons momentos. O primeiro livro é “At the Center of the Storm” (”No Centro da Tormenta”) com as memórias de George Tenet, diretor da CIA de 1997 a 2004. O segundo é o diário que Ronald Reagan manteve nos oito anos em que presidiu os Estados Unidos (1981-1989).
A narrativa de Tenet enriquece a história da ida de Lula à Líbia, em dezembro de 2003. À época, Nosso Guia anunciou que visitaria o ditador Muamar Kadafi porque era um desbravador: “Por muitos anos o Brasil não pôde sequer conversar com a Líbia porque os americanos não gostavam dos libaneses”. Noves fora a descortesia com o Líbano, a Petrobras e a picaretagem armamentista da ditadura sempre tiveram boas relações com Kadafi.
Após a viagem de Lula, o governo líbio entregou aos americanos seus planos armamentistas e destruiu seu programa nuclear. Foi o suficiente para que Amorim se orgulhasse: “Duas semanas depois de o presidente Lula ter visitado a Líbia, o presidente Bush elogiou o Kadafi pela cooperação que estava dando em armas de destruição em massa”.
Tenet não menciona a viagem de Lula, mas sua cronologia das negociações com Kadafi leva Amorim para a companhia do japonês de Hiroshima que deu a descarga e convenceu-se de ter explodido a bomba atômica.
Lula desceu na Líbia em dezembro de 2003. Antes disso, conversações secretas de Kadafi com americanos e ingleses tinham resultado na chegada a Tripoli, no dia 19 de outubro, de um avião com técnicos autorizados a inventariar o arsenal líbio. No dia 21, um representante da CIA reuniu-se pessoalmente com Kadafi. Ele repetiu várias vezes que queria “limpar a ficha”. No dia 28 de novembro, quando Nosso Guia disse que os americanos não gostavam de conversas com os libaneses, tudo isso já havia acontecido.
O Kadafi que Bush elogiou no final de dezembro foi o que capitulara em outubro. O que Lula chamou de “amigo” foi o que, em setembro, ainda pensava em bomba atômica.
O diário de Reagan, um monumento à banalidade, mostra a ponta de um bom momento da diplomacia brasileira, ocorrido em 1983, durante o governo do general João Figueiredo, quando era chanceler o embaixador Ramiro Guerreiro.
Quatro meses após uma visita de Reagan ao Brasil e ao palácio da “Alvarado” (”parecido com um QG de companhia de seguros”), houve um golpe no Suriname. A Casa Branca se assustou com um avanço dos cubanos. Planejaram uma invasão, com algumas centenas de tropas brasileiras e venezuelanas e apoio aeronaval americano. Na primeira semana de abril de 1983, o diretor da CIA, William Casey, passou secretamente por Brasília e quase certamente reuniu-se com Figueiredo.
Reagan registrou que o presidente brasileiro teve uma “idéia diferente”. Não deixou claro, mas a invasão foi rebarbada. Logo depois da gestão de Casey, Guerreiro deu ao general a minuta de uma carta a Reagan, explicando seus motivos.
O embaixador Guerreiro nunca contou esse episódio, mas faria bem a Nosso Guia ler a minuta dessa carta (é curta). Aprenderia que a história do Brasil começou bem antes da sua saída de São Bernardo.

Jornal Folha de S. Paulo
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Exportação de pau-brasil é limitada, 5 séculos depois

Convenção internacional decide restringir comércio da madeira, a pedido do Brasil. Árvore que dá nome ao país só ocorre na mata atlântica e é a mais usada no mundo para fazer arcos de violino; restrição não afeta músicos.

CLAUDIO ANGELO
EDITOR DE CIÊNCIA

Após mais de cinco séculos de exploração predatória, o pau-brasil (Caesalpina echinata) finalmente ganha proteção internacional. Foi aprovada ontem, numa conferência na Holanda, a regulamentação ao comércio da árvore que deu nome ao único país do mundo no qual ela ocorre.
A Cites (Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas) acatou por unanimidade a proposta do Brasil de incluir sua árvore-símbolo no chamado Apêndice 2. Essa categoria de proteção prevê restrições ao comércio internacional da madeira, que desde o século 16 tem transitado mais ou menos desimpedida da mata atlântica para a Europa e alhures. Quem quiser vender pau-brasil a partir de agora precisará de certificado da Cites.
O corte da árvore vermelha já era limitado no país desde 1992, quando ela foi considerada oficialmente ameaçada pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Toda extração de pau-brasil da mata atlântica passou a depender de autorização do órgão.
O problema é que a lei brasileira não tem valor lá fora. E é na Europa e nos EUA que está a maior demanda por pau-brasil. Os amantes de música erudita sabem bem por quê: nenhuma outra madeira é tão boa para fabricar arcos para instrumentos de corda. Quando o virtuose Yo-Yo Ma se apresentar no país na semana que vem, estará usando pau-brasil no arco de seu violoncelo -como quase todos os “cellistas”, violinistas e contrabaixistas do mundo.

Na medida
Isso porque o pau-de-tinta, arrancado do litoral brasileiro a partir de 1501 para servir de corante vermelho na Europa, tem a melhor relação entre densidade e flexibilidade de todas as madeiras conhecidas. Essas propriedades foram descobertas ainda em meados do século 18 por “luthiers” (fabricantes de instrumentos) franceses.
Em pouco tempo, o pau-brasil substituiria todas as outras madeiras tropicais usadas para fazer arcos. Quando os corantes sintéticos foram inventados, por volta de 1850, a demanda pela árvore vermelha para instrumentos continuou.
Segundo o Ibama, hoje ela é de cerca de 200 metros cúbicos por ano. É pouco, se comparado com árvores da Amazônia, cuja extração se mede por milhares de metros cúbicos ao mês. “Mas você precisa considerar que é uma árvore muito rara, cujos estoques comerciais já não existem”, disse à Folha Antônio Carlos Hummel, diretor de Florestas do Ibama.
Hummel aponta um paradoxo aparente entre o que se usa lá fora e o que se autoriza aqui: “Existe demanda pelo produto, mas eu não tenho conhecimento da existência de um plano de manejo de pau-brasil sequer”.
Ele afirma que ainda há estoques da madeira feitos “há 30 ou 40 anos” em empresas européias. E que, apesar de iniciativas de recuperação de populações da espécie, há pressões renovadas do setor agropecuário sobre o pau-brasil. Elas estão sobretudo na Bahia, onde o declínio da cultura do cacau tem feito fazendeiros converterem suas cabrucas (”bosques”, muitas vezes ricos em pau-brasil, em cuja sombra crescem os cacaueiros) em pasto.
Segundo Fernando Coimbra, conselheiro do Itamaraty e chefe da delegação brasileira na Cites, existem alguns projetos sendo implementados no ES, em PE e na BA para a recuperação dos estoques. Um deles, na Bahia, envolve uma associação de músicos e fabricantes de instrumentos.
O diplomata avisa que os músicos podem ficar tranqüilos: o cerco ao comércio da espécie não afetará suas turnês. “Colocamos uma exceção para isentar os instrumentos musicais e arcos fabricados com a madeira da obrigação de portar um certificado Cites para realizar viagens internacionais.”

Jornal Folha de S. Paulo
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