Arquivo de 21 de Junho de 2007

A Revolução Estética - o Cubismo

Santos-Dumont, contemporâneo da Teoria da Relatividade de Einstein, de 1905, não deve apenas ser lembrando como um dos Titãs da Vanguarda Tecnológica do século XX, como também um homem afinado com a REVOLUÇÃO ESTÉTICA que estava ocorrendo naquele momento: o cubismo.

Picasso e Braque, pintores vanguardistas, estavam concluindo naquele momento do vôo do 14-Bis as primeiras telas cubistas, rompendo assim - ao adotar formas geométricas desconexas - com a tradição de harmonia e perspectiva que reinava na arte ocidental desde o Renascimento. Se observarmos o engenho de Santos-Dumont verifica-se ele ter sido concebido, conscientemente ou não, sob influência cubista: o 14-bis é composto por seis cubos, três de cada lado da cesta do piloto (a nicelle), que compõem as asas, e um outro, um pouco maior, que abriga do leme. Todos ligados por um retângulo. A aeronave se parece a um pássaro cubista que magicamente se desprendera de uma das telas de Picasso para ir voar pelos céus. Deste modo, Santos-Dumont celebrou a aliança entre a tecnologia dos engenhos aéreos com a estética modernista.

No ano de 1907, uma outra dessas associações casuais entre o inventor-piloto e o gênio modernista das cores ocorreu com o lançamento do Demoiselle (a libélula, o pequeno aeroplano), simultâneo à exposição da famosa tela de Picasso “Les demoiselles de Avignon”, ambos celebrando a leveza e a intenção de flutuar.

Da indiferença ao sucesso

Na paisagem calma encontra-se um lavrador arando sua terra à beira do mar, indiferente ao clarão do sol no horizonte. Um pouco mais abaixo na tela vê-se as pernas de um jovem que caiu no mar sem que ninguém possa socorre-lo. Afogou-se anonimamente. Ninguém se deixou perturbar pela queda de Ícaro. O fato maravilhoso de um homem voar até bem perto do sol e, em seguida, cair nas águas, não despertara no meio daquela gente qualquer gesto que não fosse o da indiferença.

Esse quadro de Peter Breughel, o velho, o magnífico pintor flamengo da época do Renascimento, exposto em 1558, pode ser entendido como um flagrante da apatia dos homens daqueles tempos frente aos inventos e à engenhosidade humana em geral. Indiferença essa que mereceu o registro dos poetas modernos que viram a tela dele:

“De acordo com Breughel/quando Ícaro caiu/ era primavera e um fazendeiro lavrara seu campo/ concentrado nele mesmo/transpirando no sol/ todo o esplendor do ano foi acordado por um zumbido ouvido perto da costa do mar/Aquilo que fundia as asas com cera/dragado/da costa somente um silencioso salpico não percebido/ anunciava que Ícaro caíra.”
William Carlos Williams ( Landscape with the Fall of Icarus)

Como sinal da mudança dos tempos, uma pequena multidão compareceu ao Campo de Bagatele no dia 23 de outubro de 1906 para testemunhar mais um feito extraordinário de Santos-Dumont. Queriam estar presentes frente ao anunciado experimento daquele Ícaro moderno que viera do Brasil. Naquele dia, pilotando o 14-bis, ele conseguiu não só elevar-se por seis metros do solo, como voar por um tanto mais do que 25 metros, arrebatando assim o Prêmio Archideacon, conferido aquele que conseguisse o feito de fazer um engenho “mais pesado do que o ar” (expressão cunhada por Julio Verne), alçar vôo. o moderno Ícaro, não somente não desabara como contara com a admiração e o aplauso dos seus contemporâneos. A Era do Progresso não podia ficar indiferente às conquistas tecnológicas que se seguiam então, umas seguidas das outras, fazendo com que o século XX fosse pródigo em conquistas jamais imaginadas pelos homens do passado.

Invenções, teorias e engenhos contemporâneos a Santos-Dumont

1896 - Georges Méliès funda um estúdio de cinema - Criação do cinematógrafo

1896 - Gugliemo Marconi - Radiotelegrafia (transmissão e recepção de sinais a pequena distância).

1896 - Otto Lilienthal, Berlim, Alemanha. - Planador

1900 - Graf von Zeppelin - Dirigível Zeppelin

1900 - Sigmund Freud “A Interpretação dos sonhos” - Começos da psicanálise

1901 - Vôo de Santos Dumont ao redor da Torre Eiffel - Dirigível nº 4

1902 - Georges Méliès: filme “Viagem à Lua”, inspirado em Julio Verne. - Primeiro filme de ficção científica

1903 - Fundação da Ford Company, em Detroit (EUA) - Carro Popular de Modelo T, produzido a partir de 1908.

1903 - Irmãos Wright, Kitty Hawk, EUA - Vôo com aeroplano

1904 - Padre Landell de Moura, registra 3 patentes nos EUA - Telégrafo sem fio, para o telefone sem fio e para o transmissor de ondas sonoras.

1905 - Albert Einstein, em Berna na Suíça - Teoria da Relatividade

1906 - Daimler-Motoren Gesellschaft’s - Carros-de-corrida

1907 - Picasso “Les Demoiselles d´Avignon” - Cubismo

Terra Educação - Voltaire Schilling
http://educaterra.terra.com.br/voltaire/

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Globalização, mercado e tecnologia criam “Riquistão”, diz autor

“Nunca antes na história tantos americanos ficaram tão ricos tão rapidamente”, afirma jornalista Robert Frank. Tendência é os EUA ficarem mais parecidos com o Brasil em desigualdade social, com o aumento no nº de bilionários, diz jornalista.

DE WASHINGTON

A construção da frase lembra as que saem da boca de um presidente de um grande país da América do Sul: nunca antes na história tantos americanos ficaram tão ricos tão rapidamente. Quem diz é o autor de “Richistan - A Journey Through the American Wealth Boom and the Lives of the New Rich”, o jornalista Robert Frank. Leia entrevista exclusiva que ele concedeu à Folha por telefone de Nova York: (SÉRGIO DÁVILA)

FOLHA - Ricos ficarem mais ricos não é novidade, mas sim o ritmo desse fenômeno. Aumentou muito na Era Bush?
ROBERT FRANK - Na verdade, começou no fim dos anos 80, mas vive seu clímax do fim dos anos 90 até hoje. De 1995 a 2004, o número de lares milionários nos EUA mais do que dobrou. É a esse período que me dedico. Sempre houve o fenômeno dos novos milionários aqui, mas nunca antes na história tantos americanos ficaram tão ricos tão rapidamente.

FOLHA - Qual o motivo?
FRANK - A combinação de três grandes eventos econômicos: crescimento da tecnologia da informação; globalização, que está criando grandes mercados para virtualmente tudo; e expansão dos mercados financeiros. Esse trio criou uma economia do tipo “o vencedor-leva-tudo”, em que as pessoas no alto de suas profissões e empresários que estão criando companhias são pagos ou ganham dinheiro em níveis recordes.

FOLHA - O sr. divide o “Riquistão” em três níveis, segundo a riqueza acumulada. Há mesmo um senso de diferenciação entre os milionários?
FRANK - Sim. O comportamento muda de acordo com o nível de riqueza que você tem. Quando eu digo comportamento, falo de tudo, atitude, tipo de investimento e filantropia, família e como você vê a vida. Então, os que vivem no que chamo de “Baixo Riquistão” estão muito bem, mas as vidas deles não são tão diferentes das do norte-americano médio. A maior parte do dinheiro deles vem dos salários, eles tendem a ter dívidas, fazem doações.
Os do “Médio Riquistão” geralmente ganham dinheiro na própria empresa, gastam mais porque têm mais crédito e pensam mais a longo prazo. No “Alto Riquistão”, a maioria ganhou dinheiro criando sua empresa, embora haja alguns CEOs chegando ao grupo. Gastam muito em iates, carros e jóias, têm várias casas e investem diferentemente do resto. Não colocam dinheiro em fundos, mas compram sociedade em perfuradoras de petróleo, por exemplo.

FOLHA - O sr. cobre esse “país” como um repórter numa terra estrangeira. Foi uma decisão consciente?
FRANK - Sim. Voltei aos EUA de Cingapura em 2002 e percebi que nos seis anos em que fiquei fora um país havia sido criado em volta dos ricos, um país, para mim, estrangeiro. São pessoas que falam “gerentes do lar”, voam em jatos privados, têm quatro casas, então foi natural para um correspondente estrangeiro se sentir como se estivesse cobrindo a Albânia.
Não só porque era exótico para mim mas porque eu queria apresentar como era a vida lá, sem julgar seus habitantes, da mesma maneira que não julguei russos ou tchecos. Não queria dizer que os ricos são ótimos ou são vilões, mas contar como a vida deles realmente é, não o que vemos na TV ou lemos na revista “People”.

FOLHA - O quão distante o sr. está de se mudar para lá?
FRANK - Não conseguiria ser aceito nem mesmo no “Baixo Riquistão” [risos]. Sou um repórter de jornal, e somos espécies muito raras no “Riquistão”. E não quero ir para lá, não quero ser como eles. Estive em muitas partes do mundo e sou muito sensível à desigualdade social, ao desespero dos pobres.

FOLHA - O sr. deve saber que nós temos nosso próprio “Riquistão” no Brasil, só que mais acintoso, porque a desigualdade social é maior. Em sua viagem ao seu “Riquistão”, encontrou por acaso algum brasileiro?
FRANK - Não… Meu medo, e uma das razões pela qual escrevi o livro, é que os EUA podem estar ficando mais parecidos com o Brasil do que com a Europa em desigualdade. Gostaria de verdade que essa prosperidade do “Riquistão” daqui começasse a ser espalhada para o resto da população do mundo.

FOLHA - O sr. vê isso acontecendo durante a sua vida?
FRANK - Infelizmente, não. Eu vejo as três forças do começo -globalização, tecnologia, expansão financeira- só acelerarem a desigualdade. Veremos cada vez mais bilionários nos EUA e no resto do mundo.

Jornal Folha de S. Paulo
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“Riquistão” concentra riqueza americana

Livro recém-lançado por colunista do “Wall Street Journal” mostra o “país próprio” e as regras dos ricos nos EUA. País imaginário conta com 10 milhões de famílias, que, em conjunto, movimentam riqueza de US$ 17 tri, 30% a mais do que o PIB dos EUA.

SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON

Bem-vindo ao “Riquistão” -”Richistan” no original. Esse país imaginário dentro de um país de verdade, os EUA, tem 10 milhões de famílias, que, juntas, movimentam US$ 17 trilhões, ou 30% a mais do que o PIB dos EUA. Apesar de falar inglês, tem seus próprios termos, como “gerente do lar”, “filantropia performática” e “iate fantasma”. Conta com um sistema de saúde próprio. E sofre com alta inflação.
Nos últimos dez anos, segundo dados do Fed (o BC dos EUA), mais do que dobrou o número de lares norte-americanos em que a riqueza total ultrapassa US$ 1 milhão. Nem o estouro da bolha da internet, nem o 11 de Setembro nem o gigantesco déficit público da Era Bush conseguiram diminuir esse ritmo. Em 2006, um em cada dez milionários do topo da pirâmide social ficou 85% mais rico do que no ano anterior.
Não há precedentes históricos. Quando a revista “Forbes” começou a fazer sua lista dos 400 mais ricos, em 1982, o primeiro colocado tinha US$ 2 bilhões, e havia apenas outros 12 no país que podiam ser chamados de bilionários; hoje, são mais de mil famílias.
Pelos cálculos do ex-secretário do Tesouro Lawrence Summers, apresentados em palestra recente em Washington, tamanha concentração de renda não acontece nos EUA desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Esse contingente cada vez maior de pessoas se distancia cada vez mais do resto da população. A ponto de formar um “país próprio”, com suas próprias regras. É o que percebe a população em geral. Levantamento do renomado Instituto Pew aponta que 73% dos cidadãos ouvidos neste mês concordam com a máxima de que “os ricos ficam mais ricos, enquanto os pobres ficam mais pobres” como realidade nos EUA -um salto de 8% em relação a 2002 e o maior índice desde que a pesquisa começou a ser feita, no início dos anos 90.
Foi o que percebeu também Robert Frank, que assina a coluna e o blog “The Wealth Report” (”O Relatório da Riqueza”) no “Wall Street Journal”. O repórter foi o primeiro do diário a se dedicar exclusivamente a cobrir a vida dos muito ricos, o que faz desde 2003. De sua convivência com a elite nasceu “Richistan - A Journey Through the American Wealth Boom and the Lives of The New Rich” (”Riquistão - Uma Viagem pelo Boom de Riqueza Americano e as Vidas dos Novos Ricos”, editora Crown), que acaba de ser lançado.
“Os muito ricos se tornaram, de alguma maneira, culturalmente diferentes do resto dos EUA”, disse ele à Folha (leia entrevista à pág. B11). “Enquanto o resto do país se preocupa com o preço da gasolina, dos alimentos e com a dívida no cartão de crédito, as famílias milionárias e bilionárias desfrutam um crescimento recorde de renda.”
Ao tratar seu livro como um guia de viagem a um país exótico, o ex-correspondente internacional humaniza o lugar. “Mostro como, mesmo que você tenha US$ 10 milhões hoje em dia, há centenas de milhares de lares que ganham mais do que você. E é grande a probabilidade de que você não se sinta rico nos EUA hoje, mesmo com todo esse dinheiro; aliás, é mais provável que se sinta de classe média.”
Nascem dessa ansiedade os “grupos de apoio aos “decamilionários’”, uma das boas histórias, que o repórter freqüentou. São pessoas com mais de US$ 10 milhões que se reúnem para dividir suas preocupações em relação a, por exemplo, aposentadoria.
Uma delas, cansada dos jatos particulares, pede de aniversário “uma viagem num avião de verdade, daqueles grandes, com pessoas estranhas e saindo de um aeroporto cheio de gente”. Mas o pai dela está preocupado. Todos os seus amigos têm um G5 ou um Citation. Os mais ricos, porém, estão começando a comprar jatos comerciais usados e a transformá-los em mansões flutuantes, com camas “king size” e banheiras jacuzzi. Ele teme que não terá dinheiro para tanto.
Faz parte do “Médio Riquistão”, que reúne os que “só” têm entre US$ 10 milhões e US$ 100 milhões. É visto pelos do “Alto Riquistão” (entre US$ 100 milhões e US$ 1 bilhão) como um “affluent”, um “novo rico”. É para diferenciá-los que grifes como Gucci e Tiffany criaram os termos “luxo de massa” e “hiperluxo”. Um Mercedes pertence à primeira categoria; um Bentley, à segunda (veja quadro à pág. B11).
E quem são os “riquistaneses”? Segundo o último censo, a maioria é de homens (60%), são casados, têm entre 40 e 50 anos e média de 2,5 filhos. O mais provável é que tenham ganhado o dinheiro que têm (metade da riqueza americana logo após a Segunda Guerra era herdada; hoje, esse percentual é de 10%). É pouco provável que sejam celebridades, que respondem por 3% do “Riquistão”.
Seus gurus são Bill Gates e Warren Buffett, respectivamente primeiro e terceiro homens mais ricos dos EUA, segundo a lista da “Forbes”. Ambos fazem parte de um bairro ainda mais exclusivo dentro do “Riquistão”, “Billionaireville”, mas são vistos pelos outros como exemplos, principalmente por suas atividades filantrópicas. “Riquistaneses” adoram doar. Mas querem ver o dinheiro trabalhando na boa causa.
Daí o termo “filantropia performática”, um dos vários neologismos dessa classe em expansão. Define o interesse do doador em como a entidade beneficente usará a doação. Também aí há regras a seguir: quem dá um cheque de US$ 10 mil para a filantropia patrocinada pelo amigo pode esperar receber os mesmos US$ 10 mil para a sua. Dar menos ou mais é considerado descortês.
“Riquistanês” também sofre. Como a demanda é grande, a inflação no “país” é maior: foi de 6% no “Baixo Riquistão”, o dobro da do resto dos EUA, no ano passado, e inaceitáveis 11% no “Médio Riquistão”.

Jornal Folha de S. Paulo
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Morrem diariamente no Brasil 46 idosos vítimas de acidente ou violência

A população idosa no Brasil vem crescendo significativamente nas ultimas décadas. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem hoje no país cerca de 18 milhões de pessoas com mais de 60 anos. A cada ano, 650 mil novos idosos são incorporados à população. Apesar desse aumento, o Dia Mundial de Combate à Violência Contra o Idoso ainda não pode ser comemorado de fato. De acordo com a pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Maria Minayo, morrem diariamente no Brasil 46 idosos vítimas das mais diversas formas de violência e acidentes.

Segundo o IBGE, a população idosa chegará a 30 milhões até 2025, o que representará 13% da população. No entanto, de acordo com dados do Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi), hoje não há nenhum programa do governo que atenda diretamente as pessoas da terceira idade no Brasil. Os dois programas ligados diretamente à faixa etária – o Programa de Valorização do Idoso, do Ministério da Saúde, e o Programa de Proteção Social à Pessoa Idosa, da Pasta do Desenvolvimento Social e Combate à Fome – não existem mais. Desde o ano passado, as duas rubricas receberam dinheiro dos cofres públicos somente para efetuar pagamento de dívidas antigas.

A verba dos programas servia, por exemplo, para construir, ampliar e modernizar centros públicos de saúde, custear vacinações, estudos e pesquisas sobre a saúde do idoso, pagar serviços de proteção socioassistencial e promover eventos técnicos na área da medicina. Foram gastos, desde 2001, R$ 10,2 bilhões. No entanto, ainda sobraram dívidas orçadas em R$ 14,4 milhões para quitar. A assessoria do Ministério da Saúde informou que realmente o programa não existe mais. Porém, disse que as ações e projetos para a saúde da pessoa idosa continuam sendo desenvolvidos pela pasta.

A assessoria do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome explicou que a rubrica Programa de Proteção Social a Pessoa Idosa não consta mais no Siafi porque as ações e projetos que antes faziam parte do programa, agora estão incluídos nos serviços específicos de proteção social básica e de proteção social especial. Segundo a assessoria, a mudança foi feita porque muitos municípios necessitavam de recursos do programa para gastar em outras áreas, como com crianças de até seis anos, mas ficavam impedidos por não ser essa a destinação original da verba. De acordo com a pasta, os convênios que eram feitos pelo órgão e os municípios através dos programas, agora são feitos fundo a fundo, dentro das ações oferecidas pelos municípios.

Políticas adotadas no Brasil e o mundo

A assessoria do Ministério da Saúde informou ainda que o governo, em parceria com o Conselho Nacional do Direito do Idoso (CNDI), está lançando hoje o Plano Nacional de Combate à Violência Contra o Idoso, que engloba as Pastas da Saúde, Justiça e Desenvolvimento Social. A Organização das Nações Unidas (ONU) reconhece a violência contra a pessoa idosa como uma violação grave aos direitos humanos. Em 2002, os países membros da ONU assinaram, no Canadá, a Declaração de Toronto, que definiu um Plano Internacional de Prevenção da Violência contra a Pessoa Idosa. O documento propõe estratégias e ações para serem adotadas pelos países membros para prevenção e formas de intervenção nas diversas manifestações da violência contra a pessoa idosa. Em especial, mediante a participação dos múltiplos setores da sociedade civil em uma ação global contra esse tipo de violência.

No Brasil, a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República lançou, em dezembro de 2005, o Plano Nacional de Enfrentamento à Violência contra o Idoso. No documento, são expressas as competências e ações dos ministérios, bem como a co-responsabilização dos estados e municípios no desenvolvimento dessas ações em todo o território nacional. No ano passado, a Pasta da Saúde também inaugurou a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa. O objetivo é recuperar, manter e promover a autonomia e a independência dos idosos.

Uma das marcas da campanha do governo é a orientação dos serviços públicos de saúde para identificar o nível de dependência do idoso e atribuir um acompanhamento diferenciado para cada situação. Em um projeto complementar, foram lançadas duas ações para o atendimento ao idoso: a internação domiciliar no Sistema Único de Saúde (SUS) e a Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa. O coordenador da área técnica de saúde do idoso da Pasta da Saúde José Luiz Telles disse que já foram distribuídas cinco milhões de cadernetas.

“O documento é um instrumento de cidadania. É muito importante para o acompanhamento do idoso. Ainda é fácil manuseá-lo e guardá-lo, cabe no bolso. Para os próximos cinco anos serão mais 18 milhões de cadernetas”, afirmou. Telles lembrou que em setembro, mês do Dia Internacional do Idoso, o Senado vai homenagear a classe. Já a coordenadora do Programa de Prevenção à Violência do ministério, Marta Maria Alves, disse que o aumento da população idosa no país também faz crescer os custos da saúde pública.

A coordenadora afirmou que a queda, um dos principais acidentes entre as pessoas com mais de 60 anos, custa muito caro á área da saúde, já que há internações, exames, etc. “O ministério tem feito muitas portarias, que são espécies de leis do órgão, em benefício dos idosos. O incrível é que a maioria das agressões contra essas pessoas no Brasil é praticada por familiares e dentro de casa”, aponta. Marta Alves acredita que, para haver mais respeito ao idoso, deve existir uma política intersetorial entre o Legislativo, sociedade civil e instituições privadas.

Governo e sociedade civil debatem assunto no Senado

Além dos dois coordenadores do Ministério da Saúde, seis palestrantes participaram da audiência pública que discutiu o combate à violência contra o idoso, esta semana, na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) do Senado. O ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH), elogiou a sociedade civil por estar se engajando no processo de defesa e inclusão social das pessoas idosas. “Hoje, o segmento já defini até eleições no Brasil, enquanto antigamente os jovens eram os principais cabos eleitorais dos políticos”, afirmou Vannuchi.

O ministro elogiou as pessoas idosas do país citando personalidades que vivem de maneira saudável, como o arquiteto Oscar Niemayer e os atores Dercy Gonçalves e Paulo Autran. Já a pesquisadora da Fiocruz Maria Cecília de Souza Minayo mostrou dados sobre a população idosa no país. Disse que somente em 2004 mais de 16 mil morreram por algum tipo de violência e em acidentes, na maioria de carros.“Por dia são 46 óbitos. A maioria de homens. Cerca de 50% dos idosos que morrem em acidentes de trânsito são pedestres”, explicou, lembrando que a má conservação das calçadas e das placas de sinalização são os fatores determinantes nesses casos.

A pesquisadora afirmou também que a negligência é a principal causa das quedas dessa população. “Nem as próprias casas são preparadas para os idosos. Além disso, o abandono por parte da família e da sociedade vem causando depressão entre as pessoas da terceira idade. O número de suicídios está crescendo, assim como o de homicídios”, revelou. Para ela, o governo tem que trabalhar com promoção e prevenção, com os serviços sociais e de saúde. “A pessoa idosa tem que estar saudável. É muito caro para os cofres públicos tratar de um paciente com mais de 60 anos. Melhorando esses serviços, a população em geral também sairia beneficiada”, sugere. A pesquisadora lembrou que 26% das famílias brasileiras possuem pelo menos um idoso em casa.

O presidente do Conselho Nacional do Idoso, Paulo Roberto Barbosa Ramos, disse que a pobreza é um dos principais problemas das condições precárias da população idosa. “A situação da pessoa que não teve acesso, durante toda a vida, aos serviços básicos como educação e saúde, se agrava na velhice. Tem que haver políticas públicas para afastar as pessoas da pobreza”, acredita. Paulo Roberto disse também que muitas vezes os idosos não sabem os direitos que têm e nem a quem recorrer.”O conceito de velhice precisa trazer consigo uma conotação positiva. Não dá para continuar do jeito que está, com uma percepção negativa. Isso desvaloriza o ser humano”, acredita.

Para ele, os recursos do Ministério do Desenvolvimento e da SEDH para o setor têm que ser disponibilizados e não contingenciados. “Envelhecer é um direito a vida. O conselho trabalha para que o idoso seja protagonista na busca da afirmação dos seus direitos”, concluiu. O subsecretário da Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, Perly Cirpiano, também estava presente no debate. Ele disse que em alguns países da Europa a expectativa de vida é de mais de 80 anos. “No Brasil, a média aumentou muito. Hoje é de 72 anos. No entanto, uma pesquisa em mais de 200 municípios apontou que 35% das pessoas idosas já sofreram algum tipo de violência”. Entre 1980 e 2003, a esperança de vida ao nascer elevou-se em 8,8 anos: mais 7,9 anos para os homens e mais 9,5 anos para as mulheres.

O subsecretário elogiou os órgãos da Esplanada dos Ministérios por terem aumentado a sensibilidade às questões de infra-estrutura para as pessoas idosas, obesas e deficientes. No entanto, disse que a inclusão digital ainda é um desafio para os cidadãos da terceira idade. “O antigo conceito de que homens e mulheres velhos são coitados ou doentes não é mais válido hoje em dia”, afirmou. Já a representante da Associação Internacional de Geriatria e Gerontologia e do International Network for the Prevention of Elder Abuse (Rede Internacional para Prevenção de Abusos contra Idosos), doutora Laura Mello Machado, acredita que o Brasil tem a melhor política para as pessoas idosas na América Latina e uma das melhores do mundo.

“O estatuto do idoso, que tem três anos de vigência, já trouxe melhoras significativas. Depois da aprovação do documento, as pesquisas mostram que os idosos se sentem mais respeitados”, afirmou. Segundo ela, um estudo feito na América Latina em 1997 e um levantamento realizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2001 em 33 cidades do mundo mostram que os problemas dos países em desenvolvimento são os mesmos enfrentados nas nações ricas. Laura Machado também comentou a realização da 1ª Assembléia Mundial do Envelhecimento, em 1982, e da 2ª Assembléia, em 2002, ambas promovidas pela ONU.

“A maior reclamação das pessoas da terceira idade em todo o mundo diz respeito ao preconceito que a sociedade tem. As respostas mais marcantes das pesquisas foram as seguintes: violência é como a sociedade nos trata; e a maior doença da sociedade é o preconceito com a pessoa idosa”, revelou. Laura Machado disse também que os idosos em todo o planeta reclamam do transporte público. “Em 25 anos de pesquisas, essa é a questão mais criticada. Isso mostra que o problema é um fenômeno mundial para as pessoas da terceira idade”. A doutora disse ainda que os idosos são objeto de interesse em época de campanhas eleitorais. “Os entrevistados das pesquisas dizem que são procurados por políticos com várias promessas, mas que depois somem. O Congresso pode mudar efetivamente a vida da pessoa idosa. Falta vontade política”, criticou.

O presidente da Federação das Associações de Aposentados e Pensionistas do Pará, Emídio Rebelo Filho, acredita que só através de conhecimento e educação a questão da violência ao idoso será resolvida. “A inserção educacional melhora a vida das pessoas com mais de 60 anos, inclusive diminui a violência”, afirmou. Ele citou a falta de transparência nas contas de seguridade social como um problema de violência ao idoso. “De 2000 pra cá, houve movimentação de cerca de R$ 280 bilhões nas faturas. Nunca ouve déficit na previdência, como muitos acham. Não se justifica penalizar o aposentado que ganha pouco mais de um salário mínimo”, falou, lembrando das novas leis da Previdência.

Leandro Kleber
Do Contas Abertas

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Economia para pagar juros bate recorde

Abril registra superávit primário de R$ 23 bi, e país praticamente zera o déficit nominal no primeiro quadrimestre. Superávit primário atinge 6,56% do PIB; analista critica equilíbrio pelo aumento na coleta de impostos e não pelo gasto público menor

NEY HAYASHI DA CRUZ
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Um aumento na arrecadação permitiu que o aperto fiscal promovido pelo setor público batesse recorde em abril. Governo federal, Estados, municípios e estatais economizaram R$ 23,5 bilhões para pagar juros de suas dívidas, maior valor já registrado desde 1991, início da série estatística do Banco Central.
Essa economia, chamada de superávit primário, foi recorde e equivale a quase todo o investimento em obras estimado pelo governo federal para este ano, que deve ficar próximo de R$ 25 bilhões. Dos R$ 23,5 bilhões economizados em abril, R$ 14,9 bilhões -ou 63%- vieram do governo federal.
Também contribuíram para o recorde as empresas estatais, que obtiveram um superávit primário de R$ 4,727 bilhões, o maior já registrado por essas companhias num mês de abril.
De acordo com o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, os resultados de abril costumam ficar acima da média devido à arrecadação de alguns tributos que comumente ocorrem nesse mês, como é o caso do Imposto de Renda de pessoas físicas. “Abril é sempre muito maior, é natural. Esse número não deve se repetir em outros meses.”
O superávit primário recorde serviu para mudar, pelo menos por enquanto, uma característica sempre presente aos indicadores fiscais do Brasil: o aperto fiscal promovido nos primeiros quatro meses do ano conseguiu cobrir quase toda a carga de juros que incidiu sobre a dívida pública no período.
Entre janeiro e abril, o total de juros pagos pelo setor público somou R$ 51,1 bilhões, ou 6,56% do PIB (Produto Interno Bruto). O valor é elevado -média diária de R$ 426 milhões-, mas foi quase todo coberto por um superávit primário de R$ 50,7 bilhões.
Com a combinação desses números, foi praticamente zerado o chamado déficit nominal (diferença entre todas as receitas e todas as despesas públicas, inclusive os gastos com juros). Entre janeiro e abril, esse déficit ficou em R$ 405 milhões, que corresponde a 0,05% do PIB. No mesmo período de 2006, o saldo negativo foi de R$ 16,6 bilhões.
De forma geral, os números mostram que a situação das contas públicas é mais ou menos a mesma observada recentemente: o setor público, puxado pelo governo federal, continua economizando bilhões de reais para pagar juros, e esse esforço ajuda a reduzir a dívida de União, Estados e municípios.

Ressalvas
Ainda assim, há algumas ressalvas em relação a esse cenário aparentemente tranqüilo. “Os números são bons, mas os problemas continuam os mesmos”, diz Alexandre Cancherini, economista do Unibanco. “Continuamos vendo um ajuste fiscal feito com base no aumento da arrecadação, e não num maior controle de gastos, e isso não se sustenta no longo prazo.”
Segundo Cancherini, um superávit primário equivalente a 2% do PIB já seria suficiente para conter o crescimento da dívida pública -a meta do governo é economizar 3,88% do PIB neste ano. Logo, o problema não estaria no tamanho do aperto fiscal, e sim na sua composição.
Para o economista, o ideal seria que o governo reduzisse suas despesas para, ao mesmo tempo, diminuir a carga tributária, abrindo espaço para maiores investimentos das empresas e gastos das famílias.
Além disso, diz ele, reduções em gastos como o pagamento de aposentadorias abriria espaço para um aumento nos investimentos públicos que possam estimular a economia.

Folha de S. Paulo

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Melhor escola de SP fica em 90º lugar entre as municipais no País

Nenhuma paulistana está no topo do ranking com Ideb igual ou superior a 6, na escala de 0 a 10
Maria Rehder

Nenhuma escola da rede municipal de São Paulo aparece no topo do ranking das melhores do País, que tiveram o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) superior a 6, em uma escala de 0 a 10. Entre as dez melhores escolas públicas de 1ª a 4ª séries do País, três são do interior paulista: a terceira melhor foi a Emef Professora Helena Borsetti, de Matão, com Ideb 7,3; a sexta melhor foi a Emef Leonor Mendes de Barro, de Barra do Chapéu, no Vale do Ribeira, com Ideb 7,1; e a nona é de Juquiá, a escola João Adorno Vassão, com 6,7.

Já a melhor escola da capital de 1ª a 4ª séries - a Emef Jackson de Figueiredo, localizada no Tatuapé, na zona leste da cidade - só aparece em 90º lugar no ranking geral das escolas municipais do Brasil, com Ideb 5,9. Para os pais dos alunos, a localização da escola, a atitude dos professores em sala de aula e a organização pedagógica da equipe fazem a diferença. Logo na porta da unidade, um muro reproduz quadros da pintora Tarsila do Amaral e caricaturas de cantores famosos, como Chico Buarque, recepcionam os estudantes. “Gosto tanto daqui que passo mais tempo na escola do que em casa”, disse a dona de casa Maria Ribeiro Casfikis, de 41 anos. Ela cursa Educação de Jovens e Adultos (EJA) na escola, onde também estudam seus dois filhos. Já a pior na capital foi a Emef Senador Milton Campos, da Brasilândia, na zona norte, cujo Ideb foi 2,8. No ranking geral das municipais ela aparece em 14.998º lugar.

MUDANÇAS

Para Vera Masagão Ribeiro, especialista em Educação da organização não-governamental Ação Educativa, não é surpresa a colocação das escolas públicas da capital no ranking nacional. “Nos últimos anos, a rede municipal de ensino da capital tem sofrido com as mudanças de gestão política. A cada novo governo, novos projetos são criados e a continuidade dos antigos não é priorizada.”

Outro fator apontado pela especialista é a mudança de secretário de Educação em uma mesma gestão. “Nos últimos governos, a pasta da Educação contou com mais de um secretário, o que também teve impacto na qualidade de ensino. Acredito que falta para a rede municipal de ensino uma boa política de valorização do professor, que reduza a rotatividade de profissionais e faça com que eles criem vínculos.”

Já Yves de La Taille, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), destaca que em uma rede menor é mais fácil obter melhor desempenho. “Em uma megalópole é mais difícil obter a interação entre a escola e os membros de sua comunidade, o que é importante para uma educação de qualidade. Já em cidades menores a relação se torna mais fácil. Mas é claro que temos exceções, como bairros periféricos, que também conseguem tal interação da escola e comunidade.”

Segundo Cláudio Fonseca, presidente do Sindicato dos Profissionais em Educação do Município de São Paulo (Sinpeem), é preciso ter cautela ao fazer um ranking das escolas por meio de avaliações do Ministério da Educação. “O contexto socioeconômico que as escolas estão inseridas também tem impacto de forma direta na qualidade da educação oferecida.” A rede estadual de São Paulo fez a Prova Brasil por amostragem e não autorizou a divulgação dos dados. Por isso, constam 5.324 escolas estaduais, mas sem nota.

COLABOROU MARCELA SPINOSA

Estado de S. Paulo

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