Arquivo de Julho de 2007

ONU aprova envio de força de 26 mil homens para Darfur

Força híbrida será a maior missão de paz da história; capacidade total deve ser atingida até o fim do ano

Efe, Associated Press e Agência Estado

NOVA YORK - O Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou por unanimidade nesta terça-feira, 31, o envio de uma força de paz formada por 26 mil homens para a região de Darfur, no Sudão, a maior já criada pela ONU.

Este é o primeiro passo concreto tomado pela comunidade internacional para tentar conter um dos mais violentos conflitos da atualidade.

A violência em Darfur começou em 2003, quando a população local, africana, pegou em armas contra o governo central do Sudão, controlado por sudaneses árabes. A capital do país, Cartum, retaliou mandando milícias árabes à região, que perpetraram vários massacres, estupros e assassinatos contra a população civil.

Chamada de o primeiro genocídio do século 21, a guerra civil sudanesa já custou a vida de centenas de milhares de pessoas. Fala-se em 200 mil mortos, mas, segundo o Washington Post, esse número pode chegar aos 450 mil. Estima-se, ainda, que outras 2 milhões tiveram que abandonar suas casas.

A resolução aprovada nesta terça-feira foi apresentada pela França, Reino Unido e Eslováquia, com o apoio dos Estados Unidos. Ela pede que seja enviada à região uma força híbrida formada por tropas da ONU e da União Africana.

As unidades devem substituir os 7 mil homens atualmente em Darfur até o dia 31 de dezembro.

O Conselho exortou a missão UA-ONU a desenvolver “sua plena capacidade operacional e força efetiva o quanto antes, a partir dessa data.”

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse que a “operação histórica e sem precedentes” enviará “um mensagem clara e poderosa” de ajuda ao povo de Darfur e das regiões vizinhas. Segundo ele, o objetivo é “encerrar esse trágico capítulo da história do Sudão”.

Novo esforço

Embora amplamente comemorada pelos membros do Conselho de Segurança da ONU, a resolução aprovada nesta terça-feira é um novo capítulo nas já inúmeras tentativas e apelos para a estabilização da região.

Entre as iniciativas está um acordo de paz assinado há cerca de um ano pelo governo e um dos grupos rebeldes em atuação em Darfur. Considerado insuficiente por outras milícias, o trato não teve efeito.

Desde novembro, entretanto, a ONU e potências ocidentais vinham pressionando o governo sudanês para que o plano para o envio da força híbrida fosse aceito. Após meses de impasse, o presidente do Sudão, Omar al-Bashir, concordou com um pacote para fortalecer as tropas da União Africana já presentes na região.

A resolução, que previa o envio inicial de 3 mil homens da ONU, deu as bases para a aprovação do texto proposto nesta terça-feira.

Batizada de UNAMID, a nova força de paz terá 19.555 soldados, 3.722 policiais e uma força especial de 2.660 homens.

Reação

Na semana passada, o embaixador do Sudão na ONU, Abdalmahmood Abdalhaleem Mohamad, reagiu com dureza às versões iniciais do texto, classificando-o de “feio” e “horroroso”.

A versão final da resolução tem uma seção sob o Capítulo 7 da Carta da ONU, que dá respaldo para a utilização da força caso as medidas propostas não sejam cumpridas.

Ela autoriza, ainda, a UNAMID a usar “a ação necessária” para proteger e garantir a livre circulação de seu pessoal e agentes humanitários.

Por fim, o texto aprova a adoção de medidas de força para “a implementação efetiva do Acordo de Paz de Darfur e a prevenção para que este não seja rompido, assim como a proteção de civis de ataques armados”.

Jornal Estado de S. Paulo
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Brasil tem superávit primário recorde no 1º semestre

Resultado, de R$ 71,674 bilhões, é maior desde o início da série histórica do Banco Central, em 1991

Reuters e Agência Estado

BRASÍLIA - As contas do setor público (União, governo federal, estados, municípios e empresas estatais) registraram superávit primário de R$ 71,674 bilhões no primeiro semestre de 2007. O resultado, que equivale a 5,90% do Produto Interno Bruto, é o melhor da série histórica do Banco Central, iniciada em 1991.

Com esse superávit primário - que representa as receitas do governo menos as despesas, sem considerar o pagamento de juros da dívida -, o setor público precisa registrar uma média mensal de apenas R$ 4 bilhões para cumprir a meta de R$ 95,9 bilhões estabelecida para este ano.

“É uma meta bastante razoável para se cumprir a despeito da aceleração de gastos que deve ocorrer no segundo semestre”, disse o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes.

Após as despesas com os juros da dívida, que somaram R$ 78,854 bilhões durante os seis primeiros meses do ano, o setor público registrou déficit nominal de R$ 7,179 bilhões. O número é mais de três vezes menor que o déficit no mesmo período de 2006, de R$ 24,486 bilhões.

De acordo com Altamir, o desempenho primário do governo tem levado a uma redução significativa no saldo negativo após o pagamento dos juros, tanto nos dados mensais como em todo o ano.

Junho

O resultado de junho, de R$ 11,647 bilhões, também foi recorde. O resultado foi impulsionado pelo desempenho positivo das contas dos governos regionais, sobretudo dos Estados, que registraram um superávit de R$ 2,986 bilhões.

No mês passado, a despesa com juros somou R$ 10,970 bilhões, levando o setor público a um superávit nominal de R$ 677 milhões, ante déficit de R$ 7,452 bilhões em maio e déficit de R$ 6,991 bilhões em junho do ano passado.

Dívida

O BC informou ainda que a dívida líquida total do setor público atingiu 44,3% do PIB em junho, ante 44,7% em maio. Em dezembro do ano passado, a relação dívida/PIB estava em 44,9%.

Segundo Altamir, a projeção do Banco Central para a relação dívida/PIB em julho é de estabilidade, ou seja, o indicador deve continuar nos 44,3% registrados no mês passado.

Embora não faça projeções para o superávit primário, Altamir disse ter expectativa positiva em relação às contas fiscais deste mês. Em relação ao resultado do mês passado, ele destacou que a queda na relação dívida/PIB foi significativa por força do resultado do superávit primário elevado e, conseqüentemente, do superávit nominal verificado no mês. “A tendência de redução na relação dívida PIB está mantida”, disse Altamir.

Jornal Estado de S. Paulo
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Rachaduras e crateras ameaçam a capital mexicana

Jeremy Schwartz
Cidade do México

Como se não fossem suficientes a poluição que reduz a longevidade, os engarrafamentos de trânsito que duram horas e os seqüestros, os moradores da Cidade do México precisam agora se preocupar com a possibilidade de ser engolidos pela terra sob seus pés.

Quando chega a estação das chuvas de verão, aumenta o temor de que as centenas de rachaduras, buracos e frestas espalhados pela cidade se abram, com conseqüências desastrosas, em uma área metropolitana na qual residem 20 milhões de pessoas.

Esse medo tornou-se realidade no início deste mês em uma favela da Cidade do México quando fortes chuvas abriram um buraco enorme na rua, que tragou um carro e um observador curioso. O homem morreu ao cair no abismo de lama de mais de 20 metros de profundidade.

O mais recente problema urbano da Cidade do México deve-se às particularidades históricas e geográficas únicas da capital. Construída no leito de um lago drenado, depois que os espanhóis destruíram a cidade de Tenochtitlan, semelhante à Veneza, a Cidade do México está afundando continuamente há séculos, e desde 1900 o seu nível desceu o equivalente a um edifício de três andares.

Ao mesmo tempo, a megalópole em processo de afundamento tem matado a sua sede drenando o aqüífero subterrâneo que fica sob a cidade. E, como isso não fosse suficiente, a cidade também está construída sobre um labirinto de falhas geológicas e minas abandonadas.

As rachaduras e fissuras subterrâneas são alargadas pelas chuvas, que ameaçam inundar o precário sistema de drenagem da cidade.

Uma rede de esgoto maciça, o Grande Canal, tem como objetivo retirar os detritos do vale em formato de tijela no qual se situa a Cidade do México. Os especialistas afirmam que chuvas particularmente intensas poderiam causar uma inundação catastrófica de água de esgoto.

“Quando os astecas se deslocaram para cá, eles jamais poderiam ter imaginado os problemas que esta localização geraria”, afirma Martin Argueta, do Serviço Geológico Mexicano. “Não nos livraremos dessas rachaduras, mas precisamos aprender a administrar o risco”.

Crescimento desordenado aumenta o risco
Grande parte do perigo se deve ao crescimento descontrolado da Cidade do México. Bairros criados de forma caótica se espalham pelas áreas mais frágeis do vale.

As autoridades governamentais muitas vezes promovem este crescimento desorganizado a fim de obterem votos cativos. Os engenheiros há muito clamam por mais restrições à construção de casas e edifícios, mas agora pode ser muito tarde para isto. A maior parte da área metropolitana está repleta de construções residenciais e comerciais.

Uma comunidade azarada
Talvez o bairro que corra mais risco seja Iztapalapa. Maior do que as cidades mexicanas de Guadalajara e Monterrey, Iztapalapa abriga alguns dos moradores mais pobres -e mais azarados- da Cidade do México.

Mais de 200 rachaduras ameaçam 10 mil casas em Iztapalapa, devido à combinação das falhas subterrâneas com a drenagem do aqüífero.

Mas apesar de toda a água sugada do subsolo, os moradores de Iztapalapa enfrentam uma falta d’água crônica, e o líquido muitas vezes precisa ser trazido até o bairro de caminhão-pipa.

David Perez Figueroa mora há quase 30 anos perto daquilo que se transformou em um enorme e perigoso buraco. Em todo o bairro, cheio de casas de concreto não terminadas e cortado por ruas estreitas, as construções inclinam-se para frente em angulações esquisitas e as rachaduras estão disseminadas de forma não natural pelas paredes.

Perez diz que eles e outros moradores preocupam-se constantemente com aquilo que começou com uma rachadura na rua oito anos atrás.

“Avisamos às autoridades, enviamos cartas, nos reunimos com funcionários do governo, mas eles nunca nos deram atenção”, reclama Perez. “Eles sabiam que esse problema existia, mas nunca o consertaram”.

Em 7 de julho último, Perez dava uma festa de formatura no salão que ele aluga para eventos especiais quando a terra se abriu. Um dos carros de seus convidados foi tragado pela enorme rachadura. Gritando, ele mandou que Jorge Ramirez, de 19 anos, se afastasse do buraco que aumentava de tamanho. Curioso, o rapaz continuou sobre a borda da fenda, onde caiu e morreu.

Jogo de empurra
Funcionários da prefeitura taparão o buraco com bentonita, uma substância argilosa que se expande ao entrar em contato com a água. As autoridades municipais de Iztapalapa dizem que só têm dinheiro para tapar uma pequena porcentagem das 200 fendas existentes no bairro. Os problemas de infra-estrutura da cidade geraram uma briga entre o conservador governo federal e a administração municipal de esquerda.

Essa é mais uma conseqüência da altamente contestada eleição presidencial do ano passado, na qual o ex-prefeito da Cidade do México, Andres Manuel López Obrador, enfrentou o conservador Felipe Calderón. As relações entre Calderón, que acabou vencendo a eleição, e o novo prefeito da Cidade do México, Marcelo Ebrard, considerado por muitos como um protegido de López Obrador, esfriaram desde então.

Calderón tem usado a situação para criticar duramente os líderes municipais, que segundo ele não investiram o suficiente em obras de infra-estrutura.

“Os problemas da cidade ameaçam inviabilizar esta grande metrópole no longo prazo. Ou, ainda pior, se não resolvermos isto rapidamente, poderemos presenciar a pior inundação da história moderna da Cidade do México, com conseqüências desastrosas para todos”, advertiu Calderón.

As autoridades municipais estão frustradas pelo fato de o governo federal não ter liberado verbas destinadas a desastres para tapar as fendas e minas abandonadas, e tampouco ter permitido que a cidade reestruturasse a sua dívida, algo que disponibilizaria mais dinheiro para as obras.

Ebrard defendeu o trabalho da prefeitura, afirmando que ela está consertando o sistema de drenagem, em um processo que inclui a construção de quatro estações de bombeamento estrategicamente localizadas para auxiliar a retirada do esgoto da cidade.

Mas, enquanto os políticos brigam, Perez afirma que os moradores de Iztapalapa continuam prendendo a respiração toda vez que chove.

Tradução: UOL

Cox NewsPaper

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Como reconstruir o genoma neandertal

Um neandertal, um mamute e um urso das cavernas foram parar em um laboratório e nesse processo, revelaram que é possível reconstruir todo o seu mapa genético

David Biello

Se você pretende trazer de volta da extinção o ancestral do moderno Homo sapiens, mais conhecido como homem de neandertal, não se esqueça de ter em mãos uma cópia do mapa genético. No entanto, é complicado determinar se o DNA de um esqueleto de 38 mil anos de idade é realmente de neandertal ou se pertence a alguma bactéria que se alojou ou ainda às pessoas que manipularam a amostra. Svante Pääbo, especialista em análises de DNA antigo, está trabalhando na reconstrução do genoma neandertal, e revela como a destruição pelo tempo fica restrita a alguns tipos de erros.

Pääbo e sua equipe do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionária em Leipzig, na Alemanha, examinaram um osso de um neandertal proveniente de uma escavação, assim como ossos de um mamute de 43 mil anos e restos de um urso das cavernas de 42 mil anos de idade com o intuito de determinar se os genomas de criaturas tão antigas poderiam ser seqüenciados. Ainda que os pesquisadores, incluindo Pääbo, conseguissem extrair o DNA dos ossos, o código genético completo seria difícil de mapear devido à confusão gerada pelos espaços vazios na cadeia e de uma contaminação em potencial.

Mas, por meio da análise do DNA disponível, Pääbo descobriu que os danos ocorrem principalmente em certas ligações da cadeia e no final de algumas moléculas. Além disso, esses danos nas ligações são provavelmente uma confusão na interpretação da citosina (C) por tiamina (T) ou guanina (G) por adenina (A) – as bases nitrogenadas que formam o DNA.

“O dano parece estar limitado a esses dois tipos de mudança e, os cientistas acreditam que outras variações podem ser reconhecidas como diferenças genuínas entre as seqüências antigas e as modernas” explica John Hawks, paleoantropólogo da University of Wisconsin em Madison.

Com essas informações em mãos, os pesquisadores devem conseguir reconstruir o genoma do neandertal, ou até quem sabe de mamutes, ursos das cavernas ou qualquer outra criatura extinta daquele período usando muito menos amostras de DNA para concluir o trabalho, evitando assim a destruição de fósseis para a preparação de amostras para a análise. “Com exceção das substituições de C por T e de G por A, e talvez G por T, a troca de nucleotídeos observada em neandertais, quando comparadas a humanos e chipanzés, são tão confiáveis como se tivessem sido determinadas em um DNA contemporâneo”, citaram os pesquisadores na Proceedings of the National Academy of Sciences USA.

A possibilidade de se ter um genoma completo ressuscita a idéia de trazer de volta à vida animais extintos ou pessoas através da substituição do DNA em embriões de seus parentes modernos. No entanto, para Pääbo, essa possibilidade não existe. “Uma pessoa não pode clonar indivíduos apenas com o DNA, é necessário células intactas” afirma o pesquisador.

Apesar disso, esse procedimento está a caminho para alguns animais Pleitocenos. “Eu sei que estão tentando clonar um mamute. Também sei que as chances de sucesso são muito pequenas, não porque seja impossível, mas porque ainda não sabemos o suficiente sobre as diferenças genéticas entre os mamutes e os elefantes modernos para fazer com que dê certo”.

É mais provável que a leitura do genoma do neandertal se torne útil como uma comparação com código genético do Homo sapiens. Afinal, mesmo com o hominídeo extinto, os neandertais podem servir como guias para o nosso genoma, assim como nossos parentes próximos vivos, os chipanzés. “Cada diferença genética entre os neandertais e os seres humanos é um candidato potencial para o desenvolvimento de um tratamento genético ou com drogas”, diz Hawk. “Cada um dos genes trabalhava em uma criatura quase humana. Sabemos que nenhum deles era letal. Assim, por exemplo, as diferenças funcionais no metabolismo muscular de neandertais e humanos podem levar a tratamentos para problemas em seres humanos, como a perda muscular”.

Scientific American Brasil

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Congressos do PSOL definem oposição a Lula

Com o abandono de qualquer perspectiva de esquerda por parte do PT e do governo Lula, abre-se espaço na conjuntura para a construção de uma alternativa popular. O caminho será longo e penoso. PSOL tenta figurar entre os que buscam esta rota.

Gilberto Maringoni

O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) completará sua jornada de congressos estaduais até a primeira quinzena de agosto. A agremiação realizou seu congresso nacional entre os dias 7 e 10 de junho, no Rio de Janeiro, e os encontros mais importantes, em São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, aconteceram nos últimos dias. O traço principal de tais eventos tem sido o de buscar diretrizes políticas amplas, que unifiquem as várias correntes internas, além de eleger direções estáveis e representativas.

O PSOL tenta ser um dos pólos de reconstrução da esquerda brasileira após o abandono, por parte do Partido dos Trabalhadores, de qualquer perspectiva de transformação da sociedade brasileira. Com a opção do governo Lula por aprofundar o neoliberalismo e aliar-se à direita, o PT tornou-se irrelevante na determinação dos rumos do governo.

Durante a primeira gestão petista no governo federal, tais fatos confundiram e neutralizaram a ação dos mais importantes movimentos sociais brasileiros. O caso mais extremo é o da Central Única dos Trabalhadores (CUT), convertida em linha auxiliar do Planalto.

Decepção
A confusão reinou até as eleições de 2006, quando os setores progressistas da sociedade brasileira, em grande parte, optaram pelo mal menor, votando em Lula.

No entanto, o rumo oficial dos últimos meses tem se pautado pela aproximação do Brasil com os Estados Unidos, pelo afastamento em relação aos governos progressistas da América Latina, pelo favorecimento do agronegócio – leia-se etanol - em detrimento da reforma agrária, pela recomposição do governo com a direita, pela manutenção da política econômica financista, pela rendição aos monopólios da mídia, pelas tentativas de se acobertarem suspeitas de corrupção no Congresso Nacional, pela possibilidade da realização de um novo ciclo de reformas que cassem direitos dos trabalhadores, entre outras características.

O desencanto não tardou. O maior congresso do MST, realizado há poucas semanas, marca um claro afastamento do movimento em relação ao governo. O próprio PCdoB, aliado de primeira hora, paulatinamente, busca desembarcar da CUT e marcar distância da administração federal. Sinais de descontentamento entre várias outras organizações colocam no horizonte a construção de alternativas à esquerda.

Esta é a grande novidade dos dias que correm, abrindo espaço para crescimentos de forças como o PSOL.

Radical e amplo
Criado em 2003, após a expulsão de parlamentares petistas contrários à reforma da Previdência e vitaminado por dissidências do PT e do PSTU, o partido busca agora definir sua atuação. A tentativa é romper com a estreiteza, presente em algumas situações, e construir uma linha política que seja, a um só tempo, radical e ampla.

O congresso paulista, por exemplo, espelhou bem esta situação. A junção de diversos agrupamentos – em especial os oriundos da esquerda petista, como a Ação Popular e Socialista, do deputado federal Ivan Valente, o Enlace, a ALS e outros – obteve 73,5% da preferência dos delegados presentes. Até agora, vigorava no partido uma modalidade de direção colegiada. Com o encontro, a instância passa a ser composta proporcionalmente pelas diversas forças políticas.

Como diretriz, está marcada uma oposição de esquerda programática ao governo Lula, a aliança com diversos setores populares descontentes, o apoio aos governos de esquerda da América Latina, o combate aos monopólios privados de comunicação e a perspectiva da construção de um programa socialista para o Brasil.

A recomposição da esquerda brasileira pós-PT será longa e penosa, até porque a ilusão que o governo Lula desperta em setores populares ainda é muito grande. Esta reconstrução não passa mais pela disputa no interior do PT, como acontecia até há poucos anos. Até porque não se constroem projetos de país tendo miragens como alicerces.

Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista da Carta Maior, é doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de “A Venezuela que se inventa – poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez” (Editora Fundação Perseu Abramo).


Carta Maior

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O Ford que inaugurou a ‘era da Velocidade’ faz 75 anos

Don Sherman
Em Dearborn, Michigan

A ‘era da Velocidade’ completa 75 anos agora, em 2007, juntamente com o automóvel apelidado de Little Deuce Coup, que a criou, democratizando os cavalos-vapor (HPs) e fornecendo a matéria-prima a partir da qual incontáveis veículos possantes seriam moldados. Três décadas antes do apogeu dos carros poderosos, Henry Ford inventou sem querer o carro de corridas ao instalar um motor V-8 de 65 cavalos em um chassi leve e atraente. O veículo pioneiro custava US$ 460 no seu modelo mais básico, um conversível de duas portas, apenas US$ 50 a mais do que o mesmo carro movido por um motor de quatro cilindros. Ford acreditou que, mesmo em meio à Grande Depressão, o veículo seria acessível para a classe trabalhadora.

Mas o carro, que atualmente é visto como um ícone do século 20 e um dos modelos mais significantes da indústria automobilística, não foi um sucesso financeiro. Seis milhões de norte-americanos se aglomeraram nas revendedoras no dia em que foi anunciado o novo automóvel, mas após o período inicial de encomendas, a dura realidade prevaleceu: a maioria dos norte-americanos não tinha dinheiro sequer para o almoço, o que dizer para as prestações de um carro, de forma que as vendas do Ford 1932 só chegaram à metade daquelas registradas no ano anterior.

Durante dez meses de produção, foram fabricados 178.749 automóveis Ford Modelo 18 V-8, bem como 75 mil unidades do Modelo B, que tinha o mesmo chassi, mas um motor de quatro cilindros. Ambas as versões do Ford 32, cada uma oferecida em 14 estilos de carroceria, foram agregadas sob um mesmo rótulo: o Deuce.

Após a Segunda Guerra Mundial, os militares que retornavam dos campos de batalha descobriram que os Deuces eram carros usados baratos e abundantes, que o motor V-8 ‘cabeça chata’ podia ser facilmente modificado para produzir mais HPs, e que o design simples possibilitava modificações. Os carros potentes criados a partir desta combinação tornaram o Deuce o supra-sumo dos automóveis envenenados produzidos em casa.

“O Deuce conquistou a admiração dos fãs dos carros potentes por ter sido o primeiro automóvel ao mesmo tempo acessível e originalmente rápido”, diz Pete Chapouris, fã dos carros envenenados há 50 anos e presidente do grupo de carros velozes SoCal Speed Shop, em Pomona, na Califórnia.

Para testar os sinais vitais do seminal Deuce, quando este faz 75 anos, eu dirigi um Ford 1932 V-8 DeLuxe Roadster original que pertence a Lynn Stringer, de Northville, Michigan.

Circulando serenamente pelas estradas dos parques próximos à residência de Stringer, na região suburbana de Detroit, o Deuce enfrenta as armadilhas que atualmente são consideradas necessárias. O controle climático é obtido ao se abrir o pára-brisa a fim de expulsar o calor da cabine com uma brisa fresca. O entretenimento visual consiste em um céu sereno e em um show de nuvens refletidas na parte anterior do invólucro do farol. A trilha sonora é um murmúrio do V-8, tão discreto que a conversa com o meu acompanhante não é prejudicada. O Deuce de Stringer provocou tantos sorrisos e sinais de positivo com o polegar que eu me senti como um fuzileiro naval em uma parada militar no Memorial Day.

O Ford 32 foi a colaboração mais frutífera entre Henry Ford, o industrialista caseiro que colocou o mundo sobre rodas, e o seu filho, Edsel, que foi presidente da Ford Motor Company de 1919 até a sua morte em 1943.

Ao final da década de 1920, a Chevrolet havia ultrapassado a Ford, cujo Modelo T demorava muito a ser vendido. A Chevrolet respondeu ao novo Modelo A da Ford, de 1928, introduzindo um modelo ’seis cilindros pelo preço de quatro’ no ano seguinte. O V-8 de 1932 foi um contragolpe: ele custava apenas US$ 15 a mais do que o Chevrolet de seis cilindros, e US$ 35 a menos do que o Plymouth de quatro cilindros.

Inimigos comuns e amigos do ‘lado escuro’
O outro inimigo de Henry Ford foi a Grande Depressão, que levou a cidade de Detroit à falência, deixando a metade da força de trabalho local desempregada e reduzindo a produção de carros a 15% da sua capacidade. Ele esperava que um Ford novo e empolgante pudesse atrair aquele dinheiro guardado debaixo do colchão, fazendo com que o país saísse do buraco econômico.

Edsel Ford dedicou-se ao design do projeto. O filho de Henry, mais urbano do que o pai, pegou emprestado toques visuais da divisão de luxo da companhia a fim de fazer com que o 32 se parecesse com um baby Lincoln. Uma caixa de radiador aerodinâmica, pára-choques estriados e acabamentos brilhantes deram ao novo modelo um toque de excelência.

Embora os V-8 estivessem disponíveis em vários modelos de luxo, nunca um motor do gênero fora oferecido em um carro projetado para a classe trabalhadora. Henry saboreou o desafio de inventar um V-8 para as massas. Ele integrou diversos componentes em um único bloco de motor a fim de eliminar etapas do processo de fabricação. Sistemas simplificados de combustível, lubrificação e ignição também reduziram os custos.

Mas o lançamento apressado do V-8 no mercado acabou sendo um erro. O carro apresentava defeitos no motor atribuídos a pistões frágeis, arrefecimento inadequado e lubrificação deficiente. Porém, assim que esses defeitos foram corrigidos, os consumidores se deliciaram com a velocidade do Deuce.

Cartas de elogio vieram até do ‘lado escuro’ da sociedade. Clyde Barrow (um dos integrantes da dupla criminosa Bonnie and Clyde) escreveu: “Com velocidade constante e ausência de problemas, a Ford superou todos os outros carros”. Uma carta dirigida à Ford com a assinatura de John Dillinger (famoso ladrão de bancos dos EUA na década de 1930), de autenticidade duvidosa, dizia: “Sou capaz de fazer qualquer outro carro comer a poeira do Ford”.

Os amantes dos carros potentes logo descobriram que os 65 HPs e uma velocidade máxima de 120 quilômetros por hora eram apenas o início para o V-8. Em leitos de lagos secos, corredores na Califórnia atingiram velocidades de quase 210 quilômetros por hora antes da Segunda Guerra Mundial. O V-8 ‘cabeça chata’ era também o motor preferido nas pistas retas e ovais.

Stringer aderiu ao movimento em 1955, quando era um adolescente de Steubenville, em Ohio. “Comecei comprando uma revista automobilística contendo fotos e artigos sobre o Ford 32″, conta ele. “Quando era aluno da Universidade Purdue, dirigi um calhambeque envenenado feito com a conjugação de uma carroceria de Ford Modelo A, um chassi de um Ford 32 e um motor Chevrolet V-8. Finalmente comprei o meu primeiro Deuce, um cupê de cinco janelas, em 1959″.

Stringer ingressou na Ford Motor Company em 1963, e passou a maior parte dos seus 35 anos na companhia trabalhando como engenheiro de caminhões. Em 1968, o seu gosto deslocou-se dos carros envenenados para os Deuces originais de fábrica. Desde então ele foi proprietário e restaurador de dezenas de modelos daquele automóvel.

“Os 32s sempre me atraíram devido às suas linhas e ao visual suave”, diz Stringer.

Em 1978 ele comprou por US$ 7.000 o veículo que eu dirigi. Após um processo de reconstrução que durou oito anos, usando peças novas ainda disponíveis e tinta com a tonalidade do modelo original, este carro foi premiado em várias exposições de prestígio, incluindo algumas organizadas pelo Early Ford V-8 Club of America. Com menos de 80 mil quilômetros rodados, dos quais apenas 800 quilômetros referem-se ao período posterior à restauração, este carro é a coisa mais próxima possível de um Ford 32 recém-fabricado. Stringer calcula que o seu Deuce valha US$ 125 mil.

Contrastando com a maioria dos carros antigos, nenhum ruído desagradável é emitido pelo motor V-8, que pega rapidamente e responde satisfatoriamente ao acelerador. A alavanca de mudança alta sai direto do assoalho, não possuindo nenhum envoltório que prejudique o seu funcionamento. A passagem de marchas é fácil, contanto que se preste atenção ao amplo trajeto horizontal da mudança em forma de “H”. Além disso, é recomendável que não se tente passar apressadamente as marchas.

É claro que a dinâmica de direção é antiquada. O volante ou é pesado (durante as manobras de estacionamento) ou necessita de constantes correções (para compensar a folga enquanto se dirige em velocidade normal). Os freios roncam em baixa velocidade e carecem do poder de parada para que se dirija em auto-estradas. As saliências nas estradas provocam uma cacofonia de guinchos e chacoalhadas apesar do amplo isolamento de borracha acrescentado ao modelo de 1932. A suspensão rudimentar reage às grandes sacudidelas com vários movimentos cíclicos de mola.

Quando espicaçado por uma rápida pisada no acelerador, o Deuce reage rapidamente e a velocidade aumenta. A aceleração deste V-8 é modesta para os padrões atuais, mas para os da década de 1930 ela provavelmente rivalizava em popularidade com a elevação das barras das saias das mulheres, as viagens de avião e o fim da Lei Seca. A impulsão da primeira marcha faz com que o carro chegue a 40 quilômetros por hora, e a segunda a 64 quilômetros por hora. Aos 75 anos de idade, o Deuce é ainda um deleite para o motorista.

Várias centenas de Fords 1932 deverão se dirigir para Dearborn, no Michigan, de 9 a 12 de agosto, para a comemoração do 75° aniversário do Deuce. As informações sobre o evento estão disponíveis no site www.deuce75.com

Tradução: UOL

The New York Times
http://www.nytimes.com/

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Democracia e os limites da opinião

A existência democrática de múltiplas opiniões não impede a manipulação. Simplesmente, permite o desenvolvimento do antídoto para o veneno, o que nem sempre ocorre a tempo de se evitar tragédias.

Luís Carlos Lopes

Uma das características de origem da idéia de democracia é a possibilidade de se construir e divulgar opiniões. As tiranias não conseguem conviver com visões distintas sobre os mesmos problemas. Nelas, é claramente proibido discordar das verdades oficiais. Por isto, não existe oposição organizada, a não ser na clandestinidade ou como farsa oficial. Nos regimes tirânicos, mesmo entre os amigos, não são aceitáveis visões que saiam do diapasão do poder. Deixam de ser amigos, no momento em que discordam, mesmo que seja no intuito de manter a ordem e defender o regime.

Os regimes tirânicos se caracterizaram pelo seqüestro da palavra dita e debatida. A violência substitui a discussão. A verdade do poder está acima de quaisquer evidências, fatos ou opiniões. Não se pode discordar, a não ser nos limites do consentido. Quando as tiranias entram em crise, a palavra ressurge das cinzas, dita, escrita e expressa dos modos mais diversos. As tiranias, bem como as democracias, têm gradações, momentos de ápice e de crise. É possível ver o que está passando, fazendo o diagnóstico do uso da palavra. O silêncio e a censura são indicadores de práticas tirânicas radicais.

Nestas, há uma só voz e só uma verdade. Foi e é assim em toda parte. O barômetro da democracia e da tirania tem no uso da palavra a sua escala de medida.

É bem verdade que na maioria das democracias a discordância sempre sofre algum nível de demonização. A livre-opinião tem muitas dificuldades de se impor como uma decorrência da discussão aberta e desarmada de idéias. Isto porque a democracia perfeita é um mito. Este regime político é uma forma de governo, que pode ter conteúdos bastante variados. Em nome da democracia, tal como se conhece na história do passado e bem recente, foram e são cometidos crimes similares aos perpetrados pelas tiranias da mesma época. A luta entre o princípio democrático e o tirânico não raro é um disfarce de problemas profundos sob os quais não se desejam que se formem opiniões mais detalhadas.

A manipulação da opinião é clara nas tiranias. Nas democracias, ela precisa se travestir. Isto porque é um contra-senso lógico manipular informações e opiniões, no lugar de ouvir e polemizar com o contraditório, até se chegar a um consenso ou a algo próximo disto. Para alguém autoritário, é mais simples baixar a espada do poder ou da lei, ferindo a verdade dos fatos, das evidências ou das opiniões contrárias. Como diz Philippe Breton, a democracia é também uma questão de competência, de saber jogar com as diferenças. Ser democrático implica em reconhecer sua própria falibilidade e em ser capaz de ouvir a todos sem preconceitos. A democracia é produto da vontade humana, não é natural e não existe sem que pessoas de carne e osso a reivindiquem, muito além do que simples artifícios de retórica.

As opiniões são construções do pensamento, tentativas de se explicar o que sucedeu ou o que sucederá. São representações da realidade objetiva, não podem ser confundidas com a mesma. Compreender o que se
passa ou o que se passará não é tarefa fácil e o mundo é sempre visto por um prisma de interesses. Estes são partes dos elementos que constroem a opinião. É possível ver nestas uma dupla representação: uma objetiva relativa ao que se está querendo comunicar; outra subjetiva referente aos interesses que levam ver o problema de modo X ou Y. É preciso cautela para que se compreenda a dupla face das opiniões.

Os sensos comuns retro-alimentados pelas mídias falam, sem provar, da existência da opinião pública, um conceito ligado à publicidade e à idéia de uma sociedade sem oscilações e diferenças profundas. É verdadeiro que se possa alcançar um consenso relativo sobre uma marca de cerveja. É muito mais difícil provar que na mesma sociedade tudo seja tratado como um produto consumido de modo hegemônico. Por isso rejeita-se a idéia da existência de uma opinião pública. O que existiriam seriam múltiplas opiniões comuns e especializadas. As primeiras seriam as crenças hegemônicas e consensuais próprias de determinados segmentos sociais e regionais. As segundas seriam as proferidas e sustentadas pelos profissionais da opinião, tais como os jornalistas, juízes, políticos, professores e outros intelectuais.

A opinião comum é a que está nas ruas, construída com fragmentos de informações e suscetível a receber influxos de fontes externas, sobretudo midiáticas. Ela é múltipla, variável e dependente do que a retro-alimenta do ponto de vista social e político. Por mais que existam manipulações, grandes contingentes populacionais desenvolvem seus próprios pontos de vista, afrontando o que lhes dizem que é correto e indiscutível. Nem sempre é possível saber, com exatidão, como as pessoas realmente pensam. Isto porque a capacidade de interação entre o que recebem e o que julgam não é facilmente completado no circuito comunicacional indireto de nosso tempo. Funcionam mil canais de difusão e pouquíssimos de recepção.

A opinião especializada reflete um saber e um certo modo de ver as coisas que se destaca pela qualidade de suas fontes de informação e de discussão. A partir desta, fica mais fácil manipular ou contraditar as certezas dominantes. Quando um jornalista mais sério escreve, ele está lutando em duas frentes: combate seus iguais que pensam diferente de suas propostas; tenta convencer as pessoas mais comuns de que a sua opinião deve ser validada. É lógico que existem os que também perguntam aos seus leitores o que eles pensam, afastando-se da retórica habitual. Há os que, simplesmente, reproduzem os sensos comuns, falando para agradar, e não para provocar o debate. Outros manipulam conscientemente para convencer seus auditórios com suas retóricas.

Existe democracia, se o debate é feito. Sem ele, a tirania tem o seu caminho aberto. Mas este debate deve seguir regras e se nutrir de uma ética que o sustente. Debater não é falar o que venha a cabeça ou simplesmente matraquear chavões e lugares comuns. Significa aguçar a capacidade de análise e falar (ou escrever) de modo responsável. Como ninguém sabe de tudo, é preciso cuidado com conclusões precipitadas sobre assuntos complexos. É necessário compulsar fontes, verificar informações antes de concluir. O debate parlamentar, hoje possível de ser acompanhado na televisão e na Internet, é rico em exemplos de alocuções dos mais diversos gêneros, que revelam as diferenças de nível dos parlamentares, como também suas posições no cenário político e social do país. Não raro, falas viram gags, algumas caem no You Tube, sem serem sido concebidas com este fim.

A existência democrática de múltiplas opiniões não impede a manipulação. Simplesmente, permite o desenvolvimento do antídoto para o veneno, o que nem sempre ocorre a tempo de se evitar tragédias. Os adeptos da tirania, em todas as suas formas conhecidas ou a serem inventadas, atacam a democracia lembrando que com ela se reforçam a retórica e a demagogia. Eles ‘esquecem’ que estes males florescem igualmente na tirania, sem que nada possa se fazer, mesmo que se queira. A democracia reduz-se ou amplia-se na medida exata em que a opinião possa ser exercitada em quantidade e qualidade suficiente.

Debater significa esgrimir com opiniões, num verdadeiro jogo de linguagem, em que devem ser respeitadas as diferenças e os múltiplos enfoques. Entretanto, a opinião não pode ser construída contra os fatos sobejamente conhecidos. Elas não substituem o que já se sabe e o que já se passou. Em um exemplo recorrente, não se pode negar que houve o holocausto e que seis milhões de judeus foram sacrificados por decisão da Alemanha nazista e de seus aliados. Junto com eles foram exterminados cerca de dois milhões de ciganos, homossexuais e opositores políticos. Negar estes fatos é inaceitável, impudico e merece a mais profunda reprovação. Na Alemanha de hoje isto é crime grave, não sendo visto como um simples delito de opinião. Mentir sobre fatos conhecidos, tergiversar sobre o sofrimento humano consiste em somar-se aos condenados de Nuremberg.

Infelizmente, tal tipo de alocução ainda é muito comum. Há gente que tem a coragem de negar inúmeros fatos bem documentados ou que foram expostos a milhões pelos modernos meios de comunicação. Este comportamento continua a se repetir, sobretudo em países de tradição autoritária, onde é usual reescrever a história de acordo com os interesses do momento. Dizem estes apóstatas que têm o direito à livre expressão de suas opiniões, confundindo este belíssimo direito com o falseamento daquilo sobre o que não resta a menor dúvida. O leitor deve estar pensando em inúmeros exemplos. O autor não precisa enumerá-los, basta ver os telejornais, ler a grande imprensa e prestar atenção no discurso de alguns políticos.

Luís Carlos Lopes
é professor do Instituto de Artes e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminese (UFF).

Carta Maior
http://agenciacartamaior.uol.com.br/

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Economia do governo para pagar juros encosta em R$ 44 bi no semestre

Da Redação
Em São Paulo

A economia de receitas realizada pelo governo federal para o pagamento de juros da dívida (superávit primário) foi de R$ 43,785 bilhões no primeiro semestre deste ano.

Em termos nominais (sem considerar a inflação), o valor é 13,4% superior ao resultado do mesmo intervalo de 2006, quando o superávit primário somou R$ 38,597 bilhões.

A economia do primeiro semestre equivale a 3,6% do Produto Interno Bruto (PIB). No mesmo período de 2006, o resultado tinha sido de 3,49% do PIB. A meta para 2007 inteiro é economizar 3,88% do PIB, ou R$ 91 bilhões.

Segundo o governo, o aumento das receitas federais ajudou no semestre atual. Esse resultado tem um lado ruim. O governo consegue o superávit aumentando impostos e deixando de gastar, por exemplo, em investimentos em obras e serviços.

Esses dados divulgados agora levam em conta a economia feita somente pelo governo federal, o que engloba o Tesouro Nacional, a Previdência Social e o Banco Central.

Existem outros números, que ainda serão anunciados. O cálculo da economia para o pagamento de juros também leva em conta outras esferas de poder. É o chamado setor público consolidado, que inclui União, Estados, municípios e estatais.

De acordo com o Tesouro, o resultado decorre do aumento da receita total do governo central, que no semestre cresceu 13,1%, somando R$ 295,533 bilhões. O resultado equivale a 24,33% do PIB. Em igual período de 2006, a arrecadação totalizou R$ 261,2 bilhões, equivalente a 23,61% do PIB.

As despesas do governo também subiram. De janeiro a junho, os gastos cresceram 12,74%, atingindo R$ 199,4 bilhões, o equivalente 16,41% do PIB. No mesmo intervalo de 2006, as despesas haviam somado R$ 176,864 bilhões, ou 15,99% do PIB.

Somente as despesas com pessoal e encargos sociais subiram 12,8% no primeiro semestre (R$ 6,2 bilhões a mais), para R$ 54,744 bilhões.

(Com informações do Valor Online)

Jornal Folha de S. Paulo
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REPÚBLICA REFÉM DOS RICOS

Léo Lince
Data: 28/06/2007

Além da popularidade do Lula, aferida em pesquisas publicadas nos jornais da semana, três coisas crescem, estas com velocidade vertiginosa, na sociedade brasileira: a lucratividade da casta financeira, a violência nas ruas e a corrupção nos altos escalões da República. A semana, para espanto e tristeza do cidadão, produziu novos emblemas da marcha ensandecida de cada um destes processos que dilaceram o tecido social e aprofunda a barbárie que nos envolve.

O fluxo de entrada de capital especulativo no Brasil aumentou, entre janeiro e abril, quase cinco vezes em comparação ao mesmo período do ano passado. O bolo, que era de 4,842 bilhões de dólares em 2006, cresceu agora para 24,147 bilhões de dólares e se tornou o principal canal de entrada da moeda americana no país. A banca privada, sempre ela, faz a festa. Toma empréstimo de curto prazo e juros mais baixos no exterior e podem aplicar tais recursos no cassino estratosférico da taxa Selic. É o famoso capital motel, que os paises sérios costumam enquadrar no rigor da lei. Um dinheiro quente que entre e sai com alta rotatividade e adora se hospedar nos paraísos do rentismo e da maracutaia.

Cinco jovens riquinhos da Barra da Tijuca, no Rio, espancaram “por brincadeira” e com estupidez brutal uma empregada doméstica que aguardava condução em um ponto de ônibus. Menos mal que foram presos logo, graças a iniciativa de outro trabalhador, um motorista de táxi, que anotara a placa do carro dos espancadores. Um dos riquinhos, ao chegar na delegacia, disse que logo estaria solto porque sua família, como os bancos, tinha dinheiro. O pai de outro riquinho classificou de absurda a prisão dos espancadores, pois tanta coisa pior está acontecendo. A arrogância dos endinheirados, mau exemplo que vem de cima aos borbotões, frutifica e prospera no “baixio das bestas”.

No planalto central do país, aquela solidão imensa que se transformou no que se vê, segue a novela da corrupção nos altos escalões da República. O capítulo da vez é estrelado pelo antes vetusto Senado Federal, onde contracenam Renan e Roriz, dois riquíssimos ruralistas que fazem bico no câmara alta. Ambos criam porcos e vacas que, talvez por viverem em fazendas luxuosas, só podem emporcalhar e avacalhar outros lugares. Flagrado no grampo, Roriz se explicou naquela linha que só complica. Recebeu um cheque de dois milhões quando só pedira emprestado trezentos mil (devolveu o troco em espécie) para arrematar com a bagatela a “prenhez” de uma vaca premiada. O benemérito é um potentado que enriqueceu com concessões públicas na área dos transportes. Um “amigo de missa” do senador encalacrado e que também reza muito ao lado de outros políticos que lhe facilitam a “prenhez” de sua fortuna.

Enquanto isso, o presidente faz cara de paisagem. Sereno como um santo de bordel, ele se afirma no pedestal sustentado nas estacas da pequena política. Seu governo, por considerar que qualquer nitidez prejudica a “governabilidade”, ostenta como vantagem o empirismo radical. Navega confortavelmente nas águas do fato consumado. E quando o fato consumado governa o governo são os poderosos de turno que continuam mandando. As forças opacas do mercado extrapolam de suas tamancas e avassalam o poder público, que se amesquinha na desmoralização. O rato roeu a roupa da República. A “real-poltik” resulta em renda rápida para os ricos e é repleta de riscos para o resto. A reta razão recomenda retomar a rota da rua: resgatar a República, refém dos ricos.

Léo Lince – sociólogo e mestre em ciência política

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O trabalho mata em silêncio

O suicídio de alguns executivos da Renault, na França, chama atenção para um fenômeno oculto: milhares de mortes podem ser provocadas, a cada ano, por cânceres e neuroses claramente associadas aos ambientes a que são submetidos os assalariados

Annie Thebaud-Mony

Provocar o suicídio de outrem é punido com três anos de prisão e 45 mil euros de multa, quando a provocação tiver sido seguida do suicídio ou de uma tentativa de suicídio (Código penal francês, artigo 223-13)

Triste recorde para a França, na liderança dos países nos quais o suicídio – especialmente entre os homens ativos – está crescendo continuamente, desde 1975. Foram 11 mil mortes por esta causa, em 2000, ‘‘ou seja, mais de um por hora’’, apontaram os sociólogos Christian Baudelot e Roger Establet. No livro, tão preciso quanto inquietante, afirmaram: ‘‘Em toda parte e como sempre, são contradições graves entre as exigências da vida social e o destino individual [1]”. Segundo dados recentes fornecidos pelo Instituto Nacional da Saúde e da Pesquisa Médica (Inserm, em francês), o número de mortes por suicídio estabilizou-se em cerca de 12 mil casos por ano.

Qual é a parcela devida à atividade profissional? Nenhuma estatística pode responder a tal pergunta. O suicídio no trabalho, como qualquer ato de violência contra a própria pessoa é um enigma difícil de decifrar. Em primeiro lugar, não se trata de fenômeno inédito. Só no ano de 1995, a seção da CGT (Confederação Geral do Trabalho) da central nuclear de Chinon apresentou, sem atrair a atenção da mídia, oito casos de suicídio entre empregados de empresas terceirizadas que trabalhavam na manutenção da central [2].

A organização do trabalho sob radiação, necessária a essa atividade, não é estranha à série de suicídios. A diretoria do parque nuclear consegue respeitar os limites individuais fixados legalmente para a exposição à radiação. Não adota medidas para reduzir a exposição, mas faz suceder-se, nas funções expostas a ela, um grande número de trabalhadores recrutados por intermédio da terceirização e temporários. É o que se chama ‘‘gestão do emprego pela dosagem’’. Tal prática, discriminatória, faz os trabalhadores temporários perderem o emprego ao atingirem a dose-limite, vendo-se proibidos de entrar na central, excluídos de seus locais de trabalho.

A contradição entre emprego e saúde é insuperável para os temporários do setor nuclear encarregados de assumi-la sozinhos. A indústria protege sua imagem e pode ostentar o respeito formal dos valores-limite de exposição. É preciso salientar que os cerca de 25 a 35 mil trabalhadores terceirizados que trabalham em ‘‘zona controlada’’ (isto é, que envolve risco de radiação) para a manutenção das instalações nucleares (ou seja, 50% do pessoal supervisionado) recebem 80% da dose coletiva de radiação da indústria nuclear francesa. No entanto, são invisíveis nos meios de comunicação.
Criar e proteger: prazeres que matam, quando viram obsessão

Mas quando oito executivos e técnicos altamente qualificados de duas fábricas de prestígio do capitalismo moderno – a Technocentre Renault Guyancourt e a central nuclear Electricité de France (EDF), de Chinon – deram fim a suas vidas, no local de trabalho ou atribuindo explicitamente seu suicídio ao trabalho, uma preocupação real exprimiu-se além dos muros dessas fábricas. Os quatro suicídios ocorridos em maio, entre os empregados da PSA-Peugeot Citroën de Mulhouse, reforçaram essa preocupação.

Em uma manhã de outubro de 2006, dentro do próprio edifício central, chamado de ‘‘Colméia’’, do Tecnocentro onde 12 mil empregados criam os novos modelos da Renault, um engenheiro atirou-se do quinto andar. Determinada, sua família obteve o reconhecimento do suicídio como acidente do trabalho e vai processar o empregador por ‘‘erro imperdoável’’. Dois outros suicídios, em dezembro de 2006 e em fevereiro de 2007, levam os sindicalistas a se expressar publicamente sobre as condições de trabalho às quais os empregados da empresa são submetidos. A transformação da obrigação normal do trabalho em uma obrigação de resultados (o ‘‘Contrato 2009’’) criou uma contradição impossível de resolver. O presidente-diretor-geral da Renault, Carlos Ghosn, comprometeu-se a aumentar o dividendo por ação em 250%.

Como converter tal aposta financeira em objetivos de produção? É simples! Basta dar nome aos bois: um crescimento de vendas de 800 mil veículos entre 2005 e 2009 e o lançamento de 26 novos modelos em três anos. Cada empregado fica pessoalmente comprometido. Quem se recusar a assinar o documento da entrevista na qual fixou, com seu superior hierárquico, seus objetivos pessoais, recebe uma carta com aviso de recebimento que notifica e adverte: deve prestar contas rapidamente. A avaliação contínua e individualizada exerce uma pressão constante sem possibilidade de discutir as contradições técnicas e temporais, individuais e coletivas desse desafio.

Na Central de Chinon, além da mesma obrigação de resultados, a contradição toma uma dimensão de outra natureza: assegurar, por meio de uma manutenção de qualidade, a segurança das instalações nucleares, em condições cada vez mais precárias. Melhor do que ninguém, os funcionários da EDF conhecem o fosso aberto entre o que é pedido aos empregados terceirizados e os recursos que lhes são oferecidos. Impotentes diante das escolhas feitas de cima, eles sabem que essa distância fragiliza a segurança das instalações. Dois dos suicídios ocorridos em Chinon foram de executivos que assumiam pesadas responsabilidades, um na manutenção e outro no funcionamento da central.
Câncer provocado pelo trabalho: um caso clássico de subestimação

O mesmo gesto foi cometido por um dos mais ilustres especialistas da segurança nuclear na ex-URSS, depois do acidente de Chernobil, em 1986. Ao se suicidar, Valeri Legassov deixou um ‘‘testamento’’ criticando as carências na gestão de seguranças no conjunto da indústria nuclear [3]. Ele acentuava três pontos em particular: a violação das regras de proteção em nome da ‘‘produtividade do trabalho’’, a falta de espírito crítico dos engenheiros diante das anomalias recorrentes no funcionamento das centrais, assim como o despreparo do pessoal e das autoridades (militares e civis) no caso de um transtorno de funcionamento grave.

Todos os casos de suicídio lembrados são acidentes de trabalho no sentido habitual do código francês de Seguridade Social (art L 411-1). Ou seja, aconteceram ‘‘no local ou durante o trabalho’’. Os problemas insuperáveis que esses empregados tiveram que enfrentar estão ligados às escolhas de organização feitas pelos altos executivos dessas empresas. Eles delegam, deliberadamente, a resolução das contradições a empregados desprovidos de margens de manobra para enfrentá-las. O artigo 213-13 do código penal francês assume todo o seu significado e deveria resultar em uma investigação sobre os responsáveis. Se afirmam que o trabalho não tem nada a ver com essa onda de suicídios, esses diretores não deveriam ser intimados a provar isso diante da justiça?

Os ataques contra a saúde ligados ao trabalho são amplamente subestimados. Na França, o trabalho mata, fere e provoca doenças à razão de dois mortos por dia, devidos a acidentes; de oito mortos por dia, devidos ao amianto; de 2,5 milhões de trabalhadores expostos cotidianamente a coquetéis cancerígenos; de milhões de homens e mulheres constantemente pressionados até os limites do que um ser humano pode suportar, moral e fisicamente [4] As últimas pesquisas sobre as condições de trabalho atestam a persistência dos riscos ‘‘tradicionais’’, de um nível elevado de pressões temporais ou hierárquicas e de uma diminuição das margens de manobra dos empregados para enfrentá-las [5].

Depois de trinta anos de estabilidade, os casos de doenças profissionais reconhecidas e indenizadas passaram de 4 mil em média, nos anos 1980, a 40 mil, em 2005. Quase 90% desse aumento são as patologias peri-articulares – o que, em outros países, se designa por ‘‘lesões por esforços repetitivos sob intensas solicitações de tempo’’ – e às doenças ligadas ao amianto [6]. Admite-se oficialmente que esses números dão apenas uma pálida idéia da realidade. Desde 1997, uma comissão [7] fixou um montante anual que o Fundo dos Acidentes de Trabalho e Doenças Profissionais deve pagar à Previdência, em compensação pelos encargos que indevidamente suporta, por danos ligados ao trabalho não-declarados como tais e não-indenizados.
Em duas décadas, dobra a incidência do mal: que conclusões tirar?

O número anual de novos casos de câncer passou de 150 mil, em 1980, a 280 mil em 2000. A França detém o recorde europeu de desigualdade masculina para o câncer antes dos 65 anos. Um operário corre quatro vezes mais risco de morrer da doença, entre 45 e 54 anos, do que um executivo. Entretanto, Richard Doll, um professor de epidemiologia de renome mundial – e vários cientistas do mundo inteiro — conseguiu poupar os industriais do amianto, da química e da indústria nuclear de serem questionados, afirmando que as únicas causas do câncer são o fumo, o álcool e alguns componentes alimentares [8]. A avaliação, arbitrária e contestada, publicada por Doll em 1981, segundo a qual o câncer profissional representaria apenas 4% dos casos de câncer, continua sendo a norma de referência, tanto no meio dos especialistas como entre os médicos. Na França, 1795 casos e 325 mortes foram reconhecidas como cânceres profissionais em 2005, dos quais mais de 85% ligados ao amianto [9]], o que, segundo a avaliação do oficialíssimo Institut de Veille Sanitaire, representa menos de 1% dos casos de câncer ligados ao trabalho.

As próprias características da doença oferecem um leque considerável de interpretações. Em primeiro lugar, o câncer não obedece ao modelo de causalidade simples que cada um tem na cabeça: uma causa, um efeito. É um processo no qual diferentes ‘‘encontros’’ entre o organismo humano e os agentes cancerígenos presentes no trabalho ou no ambiente inscrevem-se na história própria da saúde dos indivíduos nas diferentes etapas de suas existências. Muitas vezes, são necessárias dezenas de anos para que a doença se manifeste. Entre as pessoas expostas a agentes cancerígenos, algumas são atingidas, outras não. Nunca se tem certeza do pior. Ora, é justamente do caráter imprevisível dessa loteria sinistra que os industriais se servem para negar ou subestimar, por tanto tempo quanto for possível, a evidência dos riscos.

O código da seguridade social (art. L461-2) especifica que as patologias inscritas nas ‘‘tabelas de doenças profissionais’’ são presumivelmente originadas do trabalho, sem que a vítima tenha que trazer a prova. Nos casos de câncer, apenas vinte substâncias cancerígenas são objeto dessa presunção e nenhuma tabela leva em conta a exposição múltipla. Todavia, desde 1993, um sistema complementar permite o reconhecimento de doenças profissionais que não figurem nas tabelas, desde que o médico tenha conseguido estabelecer ‘‘o vínculo direto e essencial’’ entre o trabalho e a patologia. Enfim, desde 2002, as vítimas de câncer ligado ao amianto têm direito a uma indenização complementar dentro do Fundo de Indenização das Vítimas do Amianto criado em 2000, pela lei de financiamento da Seguridade Social.

Os resultados de um programa de pesquisa multidisciplinar — iniciado há cinco anos, em Seine-Saint-Denis — sobre o câncer profissional questionam a interpretação dominante dos fatores responsáveis por seu aparecimento e também as normas da qualificação como doença profissional [10]. A reconstituição dos percursos profissionais de 650 pacientes mostra que mais de 80% deles sofreram, no seu trabalho, exposição múltipla — longa e permanente — a vários agentes cancerígenos conhecidos, mas a maior parte não inscritos nas tabelas. A maior parte operários, metade com menos de 60 anos de idade, exerceu a profissão de trabalhadores da construção, da metalurgia, mecânicos de automóveis, imprensa, manutenção, limpeza etc. Apenas um em cada seis pôde ser reconhecido e indenizado.

O setor da construção e obras públicas é o mais intensamente representado entre os pacientes pesquisados. No entanto, com exceção dos empregados expostos ao amianto, raros foram os que puderam ter sua afecção reconhecida como doença profissional. É o caso de pintores, eletricistas ou operários que aplicavam asfalto. Os agentes cancerígenos com os quais eles estiveram em contato não estão nas tabelas e sua vida profissional – marcada pela mudança de emprego e de atividade – torna impossível a demonstração de uma ‘‘ligação direta e essencial’’ entre trabalho e câncer.
Vasta série de possíveis agentes canceríginos nunca pesquisados

A pesquisa mostra também que os postos ocupados pelas mulheres inquiridas são freqüentemente atividades de limpeza (faxina, serviços em escolas maternais e de cuidado pessoal). Os agentes cancerígenos provêm ds produtos de limpeza como o formol e os solventes clorados, que não figuram na regulamentação relativa à qualificação de doença profissional e podem vir dos locais de intervenção. Entre os casos estudados, encontramos o de uma faxineira empregada em uma empresa de limpeza e que trabalhou em laboratórios de universidades por mais de 15 anos. Morreu em 2002, aos 52 anos, de uma leucemia fulminante. Não obteve o reconhecimento de que sua doença era profissional. Ora, milhares de trabalhadores fazem esse tipo de atividade.

Entre os homens estudados, as ‘‘profissões” mais atingidas foram as de serviços gerais, operários de manutenção e conservação, motoristas e condutores de veículos particularmente expostos a hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (compostos presentes nos vapores de combustão, de alguns revestimentos de estradas), ao benzeno, aos vapores de diesel e à gasolina, e a outros cancerígenos, especialmente nas operações de manutenção, conservação e limpeza. Um operário que trabalhou como terceirizado retirando pintura de aviões, no aeroporto de Roissy, faleceu em 2006, de um câncer do seio da face, aos 53 anos. Ele também não teve o reconhecimento de sua doença profissional, mesmo tendo tido contato com produtos solventes fortemente cancerígenos e ainda que o pó da tinta retirada contivesse também compostos cancerígenos. Da fabricação à conservação dos aviões, o essencial dos riscos é sofrido pelos trabalhadores terceirizados, cuja trajetória profissional cada vez mais raramente permite reunir critérios jurídicos para o reconhecimento dos cânceres profissionais.

Enfim, uma fonte particular de problemas é a introdução contínua de novas moléculas, cujas propriedades tóxicas não são conhecidas durante a fase de produção. Esperar dez, trinta ou quarenta anos, até mesmo um século — como no caso do amianto — para que a ciência oficial admita a ‘‘relação estatisticamente significativa’’ entre um produto tóxico e um câncer constitui uma forma de experimentação humana (leia mais nessa edição).

Confirmando para a França os resultados do estudo realizado por Michael Quinlan e Claire Mahew [11], o estudo de Seine-Saint-Denis mostra que a precarização do trabalho traz uma ‘‘erosão’’ dos direitos dos trabalhadores em matéria de prevenção e de reparação dos riscos. Tal tendência constitui o vetor principal da invisibilidade do câncer profissional na sociedade. O papel do trabalho no crescimento do câncer fica assim inacessível à observação estatística.
Estranha invisibilidade de câncer profissional na sociedade

Vêem-se perfeitamente os próprios limites da indenização do dano como único terreno de ação no campo da saúde no trabalho. O direito à ‘‘reparação’’, definido pela lei de 1898 para os acidentes de trabalho e a lei de 1919 sobre as doenças profissionais, baseia-se numa lógica de seguro. Foi criado num regime de dupla exceção. Por um lado, a indenização das vítimas do trabalho saiu do terreno da justiça e foi para o da negociação salarial: depende da relação de forças entre os parceiros sociais — portantoda boa-vontade do Mouvement des Entreprises de France (MEDEF), na França. Por outro lado, a saúde do trabalho, que liga a prevenção contra os riscos à reparação em caso de acidente, ficou fora do campo de investigação e ação da saúde pública. Essa tradição permitiu a impunidade dos industriais e patrões que decidem sobre a organização e as as condições de trabalho (ver, nessa edição,).

Na verdade, nenhuma indenização ‘‘repara’’ o imenso dano que são as doenças profissionais, especialmente o câncer. É isso também que assinala um estudo, publicado em 2007, do Institut Syndical Européen pour la Recherche, la Formation et la Santé-Securité, que atesta a tomada de consciência sindical do que está em jogo nessa questão [12].

A saúde dos trabalhadores não pode ser um campo reservado de alguns especialistas saídos dos meios científicos ou médicos, sindicais ou associativos e menos ainda patronais. Há quinze anos, formam-se redes com o objetivo de questionar a invisibilidade dos danos ligados ao trabalho, à terceirização dos riscos e à deslocalização da morte no trabalho. Uma delas é a Rede Internacional Ban Asbestos, para a proibição mundial do amianto [13], que vem cumprindo um grande papel na tomada de consciência do número de vítimas e para apontar os responsáveis.

Uma aliança constituída de militantes dos movimentos sociais, cientistas e profissionais da saúde, juristas e advogados, jornalistas e documentaristas pode romper a impunidade dos industriais e acionistas responsáveis por milhares de danos trabalhistas no mundo. Daí a urgência de criar um Tribunal Penal Internacional do Trabalho, diante do qual seriam processados aqueles que, conscientemente, transformam o trabalho em local de violência e morte. A prevenção dos suicídios e câncer passa por um retorno necessário a esses princípios e direitos fundamentais – proibindo qualquer ataque à integridade de outrem – que fundamentam a democracia.

Tradução: Elisabete de Almeida
betty_blues_@hotmail.com

[1] Christian Baudelot et Roger Establet, Suicide. L’envers de notre monde, Seuil, Paris, 2006, p. 242.
[2] Annie Thébaud-Mony, L’Industrie nucléaire : sous-traitance et servitude, Inserm-EDK, coll. “ Questions en santé publique ”, Paris, 2000.
[3] Roger et Bella Belbéoch, Tchernobyl, une catastrophe, Editions Allia, Paris, 1993, p. 72.
[4] Dados oficiais do seguro de saúde e do ministério do Trabalho).
[5] Ministère du travail, Direction de l’animation et de la recherche des études et des statistiques (Dares), Premières informations, premières synthèses, Paris, janeiro de 2007
[6] Ler Patrick Herman,Um crime social quase perfeito , Le Monde diplomatique - Brasil, abril de 2002 e Dix mille morts à venir, Le Cherche Midi, Paris, 2004.
[7] Comissão instituída pelo artigo 30 da lei n° 96-1160 de 27 de dezembro de 1996 de financiamento da seguridade social para 1997, Ministério do Emprego e da Solidariedade, 1997
[8] Ler o capítulo 6 Recherche sous influence, expérimentation humaine dans Travailler peut nuire gravement à votre santé. op.cit.; e Corporate Corruption of Science, International Journal of Occupational and Environmental Health, n°11, octobre-décembre 2005, Burlington (Caroline du Nord)
[9] Ler mais em [http://www.risquesprofessionnels.ameli.fr/->http://www.risquesprofessionnels.ameli.fr/
[10] Réseau SCOP 93, A multidisciplinary network about occupational cancer in a Paris suburb, Seine Saint Denis (France), First results of a pro-active research and Environmental Health July/September 2005, 11, 263/275; Annie Thébaud-mony, Histoires professionnelles et cancer, Actes de la Recherche en Sciences Sociales, Paris, n°163, junho de 2006
[11] Michael Quinlan et Claire Mayhew, Precarious Employment and Worker’s Health International , Journal of Law and Psychiatry, vol. 22 (5-6), 1999, p. 491-520.
[12] Les cancers professionnels. Une plaie sociale trop souvent ignorée, European Trade Union Institute – Research, Education, Health and Safety – ETUI-REHS, Bruxelas, 2007
[13] Ver os sites da rede Ban Asbestos : http://www.ban-asbestos-france.com; http://www.btinternet.com/ ibas/

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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A genética do aprendizado

Rogério Tuma

Um estudo associa a dificuldade em aprender outra língua a uma característica da anatomia do cérebro. Gesticular ajuda a assimilar conceitos matemáticos.

Existem fatores genéticos que influenciam o nosso aprendizado, mas técnicas simples podem nos ajudar a compensar as deficiências que herdamos. A dificuldade em aprender uma segunda língua quando adulto, por exemplo, pode não ser apenas conseqüência de preguiça ou falta de tempo, mas de uma causa genética ou congênita. Cientistas descobriram que uma porção do cérebro, o chamado giro de Heschl, que está envolvido com a audição, tem o seu tamanho diretamente ligado à capacidade de aprender novas línguas.

Os pesquisadores da Northwestern University e da West Virginia University, nos Estados Unidos, acabam de publicar na revista Cerebral Cortex um estudo intitulado “Volume do giro de Heschl esquerdo e timbre lingüístico”. O trabalho compara o volume desta pequena parte do cérebro de 17 voluntários com a capacidade de aprender 18 palavras de uma falsa língua, criada apenas para o estudo e baseada no timbre. Mais de 50% da humanidade usa o tipo de língua tonal, muito comum no Oriente.

Para o estudo foram inventadas 18 palavras tonais, isto é, palavras cujo significado pode mudar de acordo com o timbre. Por exemplo, a palavra “pesh”, nessa falsa língua, em um tom significava copo, em outro tom, lápis, e em um terceiro significava mesa.

Os 17 voluntários foram divididos em dois grupos de acordo com o tamanho do seu giro de Heschl. Os que tinham essa área maior conseguiram aprender o significado das novas palavras com 97% de acerto em apenas duas ou três sessões de treino, enquanto os que apresentavam essa porção do cérebro menor conseguiram um índice de acerto de 67%, mesmo após 18 aulas.

O giro de Heschl era conhecido como responsável apenas pela percepção de algumas características básicas do som, como de onde vem, seu volume e se o timbre estava subindo ou descendo. Agora Wong, o pesquisador principal do estudo citado, deu um novo significado a essa área.

A capacidade de aprender uma nova língua não depende apenas de características anatômicas e, para corroborar isso, Wong avaliou em outros dois estudos outras características que poderiam facilitar ou dificultar esse aprendizado. Com os mesmos voluntários, o pesquisador avaliou características neuropsicológicas e comportamentais da tarefa de aprender.

No estudo comportamental, Wong demonstrou que aprender música quando criança também ajuda no aprendizado de uma segunda língua. Da mesma forma, os voluntários que tinham alguma experiência musical conseguiram perceber melhor as diferenças de timbre e, portanto, tiveram melhores recursos para entender a língua estrangeira. O estudo neuropsicológico usou a ressonância funcional e mostrou que quem tinha mais facilidade em aprender a nova língua apresentava um metabolismo maior exatamente no córtex auditivo, onde fica o giro de Heschl.

Não é verdade, porém, que um pré-teste para uma escola de línguas precise incluir a ressonância magnética do cérebro. Da mesma forma, não dá para explicar que uma clara dificuldade em aprender o mandarim exista apenas porque você tem um giro de Heschl diminuto. Na verdade, as pesquisas acabam sugerindo a procura de métodos de ensino que possam aproveitar outras características cerebrais para, assim, tornar o aprendizado não só de outras línguas mais eficiente.

Para crianças aprenderem matemática com mais facilidade, por exemplo, a pesquisadora Susan Cook, da Universidade de Rochester, nos EUA, tem uma sugestão simples e eficaz. Baseada no estudo de sua autoria publicado na revista Cognition, ela sugere que o ensino de matemática pode ser facilitado se as crianças gesticularem enquanto aprendem conceitos matemáticos.

De acordo com Susan, nós sempre fazemos gestos para adicionar informações em uma conversa. Não se sabe se o fato de gesticular enquanto aprendemos adiciona informações, mas o resultado nas aulas de álgebra foi surpreendente.

Entre as crianças que aprenderam álgebra gesticulando, 90% conseguiam lembrar os conceitos mesmo três semanas depois, enquanto apenas 33% dos que aprenderam apenas ouvindo o professor falar conseguiam lembrar. Mais interessante ainda é que entre os alunos que aprenderam conceitos de álgebra só com gestos e sem fala, também 90% lembraram do que aprenderam.

Susan agora está estudando uma maneira de adicionar gestos no método de ensino, pois, como ela mesma diz: “Gesticular tem um claro benefício, e é de graça”.

Carta Capital
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Maravilhas da Natureza

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FLORESTAN FERNANDES: Cientista, político

O sociólogo Florestan Fernandes, que faria 87 anos, é tema de entrevista com o filósofo Bento Prado Jr., que morreu em janeiro.

FABRICIO MAZOCCO, COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

“Florestan tornou-se essencialmente um sociólogo crítico de uma sociedade na qual ele entrou como membro das classes oprimidas.”
Essa é uma das definições feitas por um dos maiores filósofos contemporâneos do país, Bento Prado Jr. (1937-2007), sobre um dos sociólogos mais representativos do Brasil, Florestan Fernandes, que teria completado 87 anos no dia 22.
Bento Prado, morto em 12 de janeiro passado, considerava-se um discípulo indireto de Florestan, como ele mesmo se autodenomina nesta entrevista concedida em novembro de 2005, para a Semana Florestan Fernandes, realizada no mesmo mês na Universidade Federal de São Carlos.
Logo após ingressar como aluno de filosofia na USP, na segunda metade da década de 50, Prado teve os primeiros contatos com o professor de sociologia Florestan Fernandes (1920-95).
Entretanto a influência veio com a amizade e o trabalho conjunto com Octavio Ianni (1926-2004) e Fernando Henrique Cardoso (1931), assistentes diretos de Fernandes.
Em 1961, Prado tornou-se professor de filosofia na USP. Em 1969, por decreto presidencial, Prado, Fernandes e outros colegas da USP foram cassados. Leia a seguir a entrevista.

FOLHA - Que influências tiveram na sua vida as idéias e estudos de Florestan Fernandes?
PRADO JR. - Embora eu jamais tenha sido aluno do Florestan, participei durante muitos anos de um trabalho conjunto com seus discípulos e iniciei -ou aprofundei- minha leitura de Marx e de outros clássicos das ciências sociais guiado um pouco pelos assistentes do Florestan, de tal maneira que, indiretamente, posso dizer que, sem ter sido aluno, fui algo como um discípulo indireto.

FOLHA - O que Florestan representa para a sociedade brasileira?
PRADO JR. - Ele tem que ser pensado em dois níveis diferentes: como cientista social e como homem político. É óbvio que essas duas faces não são divergentes, porque sua obra científica desde muito cedo se encaminhou para uma visão crítica da sociedade brasileira.
E, entre uma visão científico-crítica da sociedade brasileira e uma militância política de oposição e de crítica à organização social do Brasil, há uma perfeita continuidade.
Entre o sociólogo -preocupado com os excluídos, com os preconceitos raciais e com todos os processos de exclusão- e o militante -defensor dos excluídos-, há uma perfeita continuidade. Essa continuidade está marcada pelo adjetivo “crítico”, a crítica transformada em comportamento, em atividade política.
Digamos que Florestan, depois de 1969, ficou bem mais crítico do que era antes, quando, por obrigação quase profissional, era obrigado a apresentar a seus alunos a totalidade das ciências sociais, todos os clássicos da sociologia.
Por obrigação profissional, o Florestan professor era mais eclético que o Florestan militante.

FOLHA - Se pudesse resumi-lo em poucas palavras…
PRADO JR. - Diria que ele se tornou essencialmente um sociólogo crítico de uma sociedade na qual entrou como membro das classes oprimidas.
Antes de ser sociólogo, foi um engraxate que teve que abandonar seus estudos para poder ajudar sua mãe a sobreviver e só voltou aos estudos lá pelos seus 16, 17, 18 anos.
Então, como garçom de um bar em São Paulo, foi estimulado pelos seus clientes por causa de sua inteligência, por sua leitura e por sua cultura inteiramente adquirida autodidaticamente, fora dos muros escolares.

FOLHA - Como sociólogo, Florestan vai a campo para o desenvolvimento de seus estudos.
PRADO JR. - Florestan se tornou propriamente militante após a cassação, pós-69. Ele o fez oprimido pela história presente, mas sob o fundo de uma tradição já existente de um pensamento crítico.
Na década de 30, são várias as obras fundadoras de uma teoria do Brasil; penso em Caio Prado Jr., na “História Econômica do Brasil”; em Sérgio Buarque de Holanda, em “Raízes do Brasil”; em Gilberto Freyre.
Quando Florestan começou a escrever, escreveu sob a orientação de professores franceses, tendo às suas costas o esboço de uma teoria do Brasil que já era crítica.
Gilberto Freyre, cuja posição política sempre foi mais oscilante e jamais foi um crítico de esquerda da sociedade brasileira, é injusta e freqüentemente acusado de excessivamente conservador, o que acho que não é propriamente verdade.
Mas, se não era excessivamente conservador, seguramente não era revolucionário, como tendiam a sê-lo Sérgio Buarque e Caio Prado.
Sérgio Buarque sempre esteve próximo dos movimentos socialistas. Em todo caso, tratava-se de um engajamento teórico que jamais chegou a se converter em uma prática política formal, como é o caso do Florestan, que se tornou deputado.
Entre uma atitude intelectual crítica e uma militância como representante da população no Parlamento, há uma diferença crucial.
Tenho a impressão de que essa é a diferença fundamental do adjetivo “crítico” em Florestan e na boa tradição a que pertence.

FOLHA - Um ponto do Florestan “marxista” é que a classe operária deveria sempre ser bem-informada, e aí vem a defesa da educação.
PRADO JR. - É preciso nuançar um pouco as coisas. Nas décadas de 40 e de 50, Florestan era bem menos marxista do que o Florestan posterior. Nesses textos sobre indução sociológica, ele se aproximava muito mais da tradição do empirismo lógico.
De uma certa maneira, a sua carreira é de radicalização, em que as posições não permanecem as mesmas.
Nessa evolução da sociologia clássica e de uma interpretação filosófica da sociologia clássica, que às vezes era próxima do empirismo lógico, ele se aproximou cada vez mais de um estilo marxista, mas que não foi sempre o definidor de seu estilo.
Quanto às teses globais a respeito da importância política do ensino, da escola, para a democracia, é claro que não posso estar em desacordo com as teses defendidas por Florestan.

FOLHA - Como o fato de ter sido cassado influenciou a formação de Florestan?
PRADO JR. - Pessoalmente, ele não deve ter deixado de viver essa experiência como uma grande dor. É claro que o exílio a que foi forçado lhe deu a oportunidade de um reconhecimento internacional maior do que tinha até então.
Mas tenho a impressão de que a importância do seu departamento dentro da faculdade, da sua tarefa de formador de formadores era muito próxima do coração.

De tal maneira que ele deve ter sofrido uma grave frustração de uma vocação de formador que lhe foi proibida e que passou depois a desempenhar de outra maneira, como homem político.
Uma coisa é ser professor, outra é ser deputado. Os meios de que dispõem um e outro são muito diferentes.
Mas se pode dizer que os alvos de um e de outro, em última instância,, eram os mesmos, de tal maneira que, a despeito de sua frustração ao ser excluído injustamente da USP e de ter sofrido com essa exclusão, não deixou de continuar a sua atividade com os mesmos objetivos, fora da universidade.

Jornal Folha de S. Paulo
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A humanidade cada vez mais vulnerável do planeta Terra

O aumento da ameaça de calamidades, desastres e emergências em escala global têm de ser colocado no centro do palco. Eles não são eventos periféricos, mas reflexos do modo como vivemos nossas vidas normais, estruturamos nossas sociedades e distribuímos recursos


Agnes Callamard , Randolph Kent

“A maior ameaça a longo prazo”, segundo o cientista político Anatol Lieven, “é uma que nossos meios de comunicação praticamente nunca discutem, porque tem prazo excessivamente longo e não tem atrativo para entrar na moda: a crescente falta d’água, devida a uma combinação de superpopulação, uso e conservação horrivelmente ineficiente e o efeito do aquecimento global nas geleiras do Himalaia. Se a tendência atual continuar, é virtualmente certo que em cinqüenta anos, a maior parte do Paquistão vai ficar quente como o Saara – mas um Saara com uma população de centenas de milhões de seres humanos. O mesmo acontecerá no norte da Índia.”1 A fusão das geleiras do Himalaia – que está em curso agora e é provavelmente irreversível – é devida a variações climáticas que foram o resultado direto de atividades humanas dos últimos cem anos. Nos dez mil anos de história da humanidade moderna, foi apenas durante este breve intervalo que os seres humanos tornaram-se realmente um fator importante no traçado do rumo da natureza. Tornaram-se “engenheiros planetários”, sustenta o professor Albert Harrison, da Universidade da Califórnia. “Já transformamos o nosso próprio planeta. Mudamos a paisagem da Terra com enormes poços de minas e com a agricultura; modificamos o curso das águas com sistemas de açudes, comportas e canais; lançamos toneladas de hidrocarbonetos e outros produtos químicos na atmosfera, criando o aquecimento global e abrindo buracos na camada de ozônio.” 2 Em outras palavras, os seres humanos tornaram-se o maior dos perigos para a natureza. Desastres e emergências não são eventos periféricos, mas antes reflexos do modo como vivemos nossas vidas normais, estruturamos nossas sociedades e distribuímos nossos recursos.

O aumento dos desastres naturais

A tendência crescente dos assim chamados “desastres naturais” enfatiza claramente isto. Desflorestamento e destruição de pântanos, migração de áreas rurais improdutivas para cidades que não podem arcar com infra-estruturas de apoio e meios de subsistência e a relativa indiferença dos governos para com o aquecimento global atestam o fato acabado que as perdas devidas a desastres naturais nos anos 1990 foram o triplo das perdas dos anos 1980 e quinze vezes as dos anos 1950. Dados existentes também dissipam o mito de que as conseqüências econômicas e sociais dos desastres “naturais” estão limitadas às áreas atingidas pelo desastre. Este foi o tema central de uma conferência em 2001 – intitulada “Superpovoando a Costa” – na Universidade de Stanford, na Califórnia. Geólogos e peritos em relevo e na mitigação das conseqüências de desastres avaliaram os possíveis efeitos de vários desastres naturais, inclusive terremotos e erupções vulcânicas na Costa do Pacífico, de Lima a Los Angeles, Seattle, Anchorage, Tóquio e Taipé3 . Como observou um especialista, “As conexões que construímos para ligar a costa oeste dos Estados Unidos à Ásia são todas vulneráveis a “eco” transtornos… e terremotos muito maiores e devastadores estão previstos para Seattle e São Francisco4 . Apesar dessa crescente ameaça aparente, contudo, os planejadores continuam a permitir a concentração de pessoas, a atividade econômica e a infra-estrutura nessas áreas. Tais tendências parecem não ter atraído a atenção para a necessidade de “retroadaptar” sociedades para criar infra-estruturas mais difusas e distribuídas.

Nos dez mil anos de história da humanidade moderna, foi apenas durante cem anos que os seres humanos tornaram-se realmente um fator importante no traçado do rumo da natureza.

Assim, o terremoto de 1999 em Taiwan não foi apenas muito oneroso em termos de vida e propriedade, mas também arruinou economias distantes como em San José, na Califórnia, onde as indústrias eletrônicas pararam devido a uma falta de componentes essenciais normalmente fornecidos pelas companhias taiwanesas. O terremoto revelou uma dimensão perturbadora [senão totalmente inesperada] da globalização: a vulnerabilidade econômica dos trabalhadores californianos – sob a forma de desemprego em grande escala – diante de um evento a milhares de milhas de distância.

O futuro agora

E voltando à preocupação de Lieven com as conseqüências imediatas da fusão do Himalaia, não é só o fato de que centenas de milhões de asiáticos do sul serão privados de água e de seus meios de subsistência. Também é preciso considerar os impactos que uma combinação do aquecimento global, conservação inadequada e superpovoamento poderiam ter ao mesmo tempo em outros lugares. Deveríamos também prever o impacto migratório que centenas de milhões de pessoas desesperadas – em busca da sobrevivência – causarão sobre as áreas urbanas da Ásia do Sul e sobre a segurança e estabilidade dos estados da região. E então é preciso considerar como essa potencial insegurança e instabilidade em uma variedade de formas – doenças transmitidas globalmente, padrões migratórios desorganizadores, conflitos regionais – correm o risco de aumentar a vulnerabilidade humana em escala global.

Em outras palavras, desastres e emergências não são de modo algum monopólio do Terceiro Mundo. Estão tão relacionados “conosco” quanto com “os outros”. O presente grau de insegurança resultante do 11 de setembro, a chamada guerra contra o terror e a intervenção no Iraque são uma lembrança dramática, presente demais, pelo qual não podemos mais manter a idéia de uma crise humana periférica, geograficamente contida. Em vez disso, somos todos os atores involuntários de uma pandemia global surgida por ações humanas, sejam guiadas por impiedoso interesse pessoal, zelo messiânico ou sobrevivência econômica percebida. Nada disso sugere que essas tendências sejam inevitáveis, mas antes que precisamos mudar o modo como encaramos desastres e emergências – suas causas, locais e efeitos. É cada vez mais importante fazer isto, pois o futuro, de tantas maneiras, é agora.

Rumo a calamidades globais

O professor Martin Rees, da Cambridge University, afirmou categoricamente que “por volta do ano de 2020 uma situação de bioerro ou bioterror terá matado um milhão de pessoas.” 5 Do mesmo modo, o professor T. Homer-Dixon sugere que a humanidade já criou as condições para catástrofes globais de grande porte. Espera-se apenas pela “falência síncrona dos sistemas globais, sociais, econômicos e biofísicos, surgindo de tensões diversas e contudo interativas” 6 . Ainda assim, as estruturas que são responsáveis pelos meios de prever e mitigar, prevenir-se ou ao menos preparar-se para reagir à vulnerabilidade crescente da vida humana parecem incapazes de fazer isso. Sem dúvida, invariavelmente somos atingidos pelo que poderia ser descrito como comportamento mal adaptável. Institucionalmente, organizações governamentais, não-governamentais e inter-governamentais – todas as ditas “humanitárias” de um modo ou outro – continuam presas a percepções e processos que têm mais a ver com a sua sobrevivência institucional imediata e com a sua rotina. Dito isto, devemos reconhecer os problemas que qualquer organização enfrenta tentando prever o futuro. O professor Rees nota que em 1937 a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos organizou um estudo com o objetivo de prever a superação de obstáculos ao progresso. “O relatório desse estudo” prossegue ele dizendo, “constitui leitura salutar para os autores de previsões tecnológicas de hoje. “Há algumas avaliações sensatas sobre agricultura, sobre gasolina sintética e borracha sintética. Porém o mais notável são as coisas que faltaram. Nada de energia nuclear, nada de antibióticos… nada de aviões a jato, nem foguetes, nem qualquer uso do espaço, nada de computadores, certamente nenhum transistor. O comitê não percebeu as tecnologias que de fato dominaram a segunda metade do século XX. Menos ainda poderiam prever as transformações sociais e políticas que ocorreram durante esse tempo.” 7
Ambiente de alta complexidade

As perdas devidas a desastres naturais nos anos 1990 foram o triplo das perdas dos anos 1980 e quinze vezes as dos anos 1950.

A questão para as organizações, no entanto, não é tanto a previsão e sim a capacidade de monitorar, analisar e adaptar-se a um ambiente global marcado pela rápida mudança e pela complexidade. O estudo do presente e do futuro requerem níveis elevados de competência integrada, uma gestão eficaz de informação e uma análise interdisciplinar. Ele exige também um engajamento da ação voltado, em primeiro lugar, às pessoas atingidas pelas catástrofes.

Os desafios que se anunciam exigem organizações capazes de se adaptar e, para tanto, investir tempo e energia para monitorar grandes tendências e suas conseqüências. Suas estruturas seriam projetadas para integrar uma gama relativamente ampla de competência e, principalmente, acomodariam as diferentes “linguagens” do cientista, do estrategista político, do planejador, do especialista em ética e do que toma decisões. Essas organizações teriam que ter a coragem de desnudar o poder, enfrentar suas fraquezas de compromisso e trabalhar em parceria com outras. As organizações, mesmo bem preparadas, orientadas para o futuro, tecnicamente informadas, não podem assumir a responsabilidade de reagir unilateralmente às crises atuais e futuras. A implicação das populações direta ou indiretamente atingidas na elaboração na reação sugerida é crucial se se pretende obter alguma legitimidade e eficácia8 . Acima de tudo, estas organizações – que podemos chamar de “adaptativas” - seriam orientadas para o exterior, mais centradas na compreensão do ambiente em que operam e não se satisfazer com práticas auto-referenciadas.

A deficiência da reação

A chamada comunidade humanitária de hoje não preenche estas exigências. É inerentemente reativa, freqüentemente incapaz de desenvolver estratégias para prever, quanto mais responder às crises emergentes. Só no começo da última década, por exemplo, as organizações humanitárias começaram a prever as conseqüências do colapso do Estado. As chamadas “emergências complexas” foram um reconhecimento tardio. Ainda assim, uma gama de crises em grande escala era claramente inevitável, dada a inabilidade ou falta de vontade dos Estados para dar proteção e bem-estar a seus cidadãos. Diminuição dos meios de vida, violência descontrolada e colapso das infra-estruturas pressagiariam deslocamentos em massa, fome e doenças incontroláveis. Não que os sinais de alerta não estivessem à mão desde 1970 [por exemplo, o Paquistão Oriental], ou estivessem cada vez mais evidentes nos anos 1980 [por exemplo, o Sudão],mas foi só quando múltiplas crises [por exemplo, a antiga Iugoslávia, o Chifre da África] não puderam mais ser explicadas no palavreado convencional das agências é que uma nova perspectiva emergiu.

Estas mesmas organizações também continuaram a perpetuar a divisão entre as chamadas emergências “naturais” e as “causadas pelo homem” – apesar da muito óbvia dinâmica interativa das duas. Ainda hoje a maioria das organizações responsáveis por desastres e emergências não focalizam as ligações entre desastres naturais, como secas, e a conseqüente diminuição dos meios de subsistência e seu impacto político sobre a estabilidade de sociedades afetadas por desastres. A interligação cada vez mais estreita entre desastres naturais e situações de emergência política continuam a escapar dos mecanismo de resposta às crises e, freqüentemente, de seus quadros de análise.

O “poder” humanitário

O terremoto de 1999 em Taiwan não foi apenas muito oneroso em termos de vida e propriedade neste país, mas também arruinou economias distantes como na Califórnia.

Outro exemplo esclarecedor origina-se das relações entre as comunidades ameaçadas de crise e as organizações humanitárias. Algumas, no setor humanitário procuraram, nos dez últimos anos, visar as questões de suas relações desiguais com populações afetadas por crises e suas responsabilidades9 . No centro dessa questão está a constatação de que os atores do tratamento das crises exercem poder sobre as vidas de indivíduos e comunidades afetadas por crises e que o “poder” humanitário pode ser abusivo ou mal utilizado. Algumas agências procuraram insistir para que o ethos humanitário tire sua referência moral daqueles que sofrem e sobrevivem às situações de crise em vez de ter essa referência definida através e por um único ator: o interventor bem intencionado10 . A procura por mecanismos de compromisso constitui um dos mais importantes desenvolvimentos éticos dentro do setor. Demonstra que ele tem capacidade para engajar-se criticamente com a praxis humanitária. Mesmo assim, esses progressos falharam em permear o pensamento humanitário dominante e as práticas. Os desafios políticos e de segurança originados das operações no Afeganistão e Iraque ofuscaram mais ainda a busca por um maior compromisso.

Cultura organizacional

Falhas em antecipar as fontes das crises humanas, em ser estratégico em esforços para aliviar efeitos, mas também em reagir aos desastres e emergências podem ser explicadas de muitas maneiras. Um nível de explicação relaciona-se com a cultura organizacional de muitos dentro da comunidade humanitária. Reagindo imediatamente ao mais agudo desafio atual – como os paralelos com bombeiros tão freqüentemente usados – está o ethos subjacente da comunidade humanitária. Construir-se na aprendizagem e nos achados, como a previsão de crises – até a muito louvada necessidade de prevenção e alerta contra desastres e emergências – não está profundamente enraizada na cultura humanitária Outra explicação está no ambiente competitivo no qual as organizações não-governamentais e as agências da ONU operam. Como quatro recentes estudos independentes concluíram, de um modo ou de outro, os crescentes recursos financeiros para a assistência humanitária geraram uma corrida nunca para as fontes de recursos, muitas vezes afetando as necessidades relacionadas com os desastres e as emergências, a expensas da própria integridade dessas organizações. 11
Interesse dos financiadores

“As organizações humanitárias” são freqüentemente guiadas pelos interesses e prioridades de seus financiadores que usam seus recursos de assistência humanitária em primeiro lugar e principalmente para praticar políticas que reflitam seus interesses nacionais. 12 Concomitante às orientações dos doadores de recursos, não existem prêmios institucionais para organizações que pensem estrategicamente em vulnerabilidades futuras.Isto por sua vez reforça a mais do que evidente inclinação das agências humanitárias para perpetuar a crença de que desastres e emergências são fenômenos aberrantes que não podem ser previstos. As organizações – e quem as sustenta – relutam em investir energia, quanto mais recursos em atividades destinadas a serem especulativas e teóricas. A inabilidade percebida para prever fornece a todos os envolvidos uma desculpa organizacional para não desenvolver capacidades para lidar com a incerteza e pensar mais estrategicamente. Organizações ditas “humanitárias” de um modo ou outro continuam presas a percepções e processos que têm mais a ver com a sua sobrevivência institucional imediata.

Incapazes de dominar suas próprias agendas, essas organizações que deveriam estar na linha de frente da prevenção, do alerta e da reação contra emergências são essencialmente anti-risco. Elas muitas vezes relutam em pensar estrategicam