Arquivo de 1 de Julho de 2007

Herança de Maquiavel

Autor de O Príncipe, livro que ainda hoje repousa na cabeceira de muitos políticos e filósofos, é tema de biografia de Michael White, que busca destacar suas características pouco conhecidas

Ubiratan Brasil

Nicolau Maquiavel (1469- 1527) nunca matou ninguém, não era um político sedento por poder sobre a vida dos outros, nem o malvado conselheiro de um ardiloso e avarento chefe militar. Mas, por mais de cinco séculos, o nome Maquiavel tem sido associado ao mundo da política e do poder. Especialmente por ter escrito O Príncipe, baseado em sua vasta experiência entre poderosos, com a qual alargou o campo da ciência na política, distinguindo os interesses políticos primários das classes sociais, mas confundindo-os, ao mesmo tempo, em uma monstruosa razão de Estado pela qual o povo é apenas matéria plástica nas mãos do Príncipe.

Escrito durante um período vivido no exílio (ele perdeu o cargo de secretário das Milícias quando a República de Florença veio abaixo em 1512, possibilitando a volta da família Medici, que o acusou de participar de um complô), O Príncipe foi mal interpretado ao longo dos anos, como se advogasse pela corrupção e desonestidade. O motivo são as numerosas passagens do livro em que Maquiavel parece defender o oposto dos valores cristãos. Na verdade, ele tinha uma opinião bastante negativa dos seres humanos e das sociedades em que vivem.

Hoje, o nome de Maquiavel serve de base inseparável para as palavras ‘maquiavélico’, ‘maquiavelismo’, com freqüência escritas no mesmo sentido de ‘mau’, ‘despótico’, ‘tirano’, ‘dúplice’”, comenta o escritor australiano Michael White que, interessado na história daquele homem de origem humilde, mas que conquistou coisas extraordinárias, escreveu Maquiavel: Um Homem Incompreendido, recentemente lançado pela Record (364 páginas, R$ 50).

A proposta de White é mostrar como era falsa a fama de figura corrupta e gananciosa atribuída a Maquiavel, cujos escritos ainda hoje encorajam governantes a matar e a dominar de forma cruel. “O Príncipe” é um dos livros mais mal compreendidos que já existiram, e aqueles que compreenderam mal sua intenção também compreendem mal o homem que o escreveu, maculando o nome do autor com a filosofia que ele descreve”, disse ele em entrevista, por e-mail, ao Estado.

White acredita que parte do problema deriva do caráter de Maquiavel. Nascido em Florença, de família tradicional, pouco se sabe de sua infância e adolescência até iniciar a carreira de funcionário público. Mas, segundo o biógrafo australiano, Maquiavel, apesar de ser um homem comum, apresentava uma face controversa e pouco ortodoxa. Via o cristianismo como um danoso instrumento de controle social, pois deixava as pessoas mais interessadas em uma hipotética vida após a morte do que na própria realidade. Freqüentava bordéis, tabernas sombrias e festas devassas (foi até acusado de sodomia). Misturava-se com atores e prostitutas com a mesma facilidade com que convivia com reis e pontífices, sem esconder sua preferência pelos primeiros. Mas, acima de tudo, era coerente e honesto em seus escritos.

White observa que as palavras de Maquiavel são “duras e cheias de força, suas idéias são como farpas, pedaços afiados de aço; não há nada de cálido e macio em suas idéias”. Escrito entre agosto de 1513 e janeiro de 1514, O Príncipe é dividido em 26 capítulos muito curtos, começando com “Quantos tipos de principalidade existem e as maneiras como são adquiridas” e terminando com “Exortação para libertar a Itália dos bárbaros”. Em apenas 30 mil palavras, Maquiavel consegue explicar como diferem as principalidades, como elas podem se estabelecer e, mais importante, como deve agir um príncipe para manter seu domínio.

Frases como “Quando alguém é causa do poder de outrem, arruína-se, pois aquele poder vem da astúcia ou força, e qualquer destas é suspeita ao novo poderoso” foram usadas com diversas interpretações, como White comenta na seguinte entrevista.

Maquiavel estava errado quando disse que “o homem é mais inclinado ao mal que ao bem”?

É realmente uma questão subjetiva. Religiosos acreditam que os homens são essencialmente bons e têm “quedas”, encontrando a redenção em Deus. Maquiavel não concordava com essa crença. Em diversas formas, ele aparecia como um anti-Cristo, um herético, mas evitou problemas com a Igreja da melhor maneira possível. Por sorte, ele viveu em uma época antes da Reforma/Contra-Reforma, período em que a Igreja não era absolutamente tão obsessiva como se tornou um século depois. Em O Príncipe, Maquiavel oferece a visão de que os homens vivem pela necessidade de sobreviver e que sobrevive o mais forte ainda que os mais fracos morram. Ao adotar esta visão, ele enfrentou prerrogativas religiosas como obstáculos.

Você acredita que Maquiavel foi o primeiro pensador a conceitualizar a capacidade de se estabelecer uma nova ordem jurídica e política?

Sim, acredito. O Príncipe era, de fato, um manual operacional para um líder político ditatorial. A filosofia de Maquiavel exposta em seu livro certamente não era nada democrática! Claro que diversas figuras políticas tomaram aspectos do pensamento de Maquiavel e os utilizaram à sua maneira. Em meu livro, reforço que ele não criou o maquiavelismo: sempre esteve presente, ele apenas o descreveu.

Maquiavel teve a mesma luminosidade e a força de escritores do Renascimento humanista?

Acredito que sim, mas, porque ele descrevia o que poderia ser chamado o ‘lado negro’, é mais difícil para as pessoas aceitarem o que ele tem a dizer. Maquiavel era muito rigoroso no uso da linguagem. Não há uma gordura em O Príncipe. Sua filosofia como escritor era “essa é a verdade fundamental, aceite-a ou não”. Outro pensador que agia com tal rigor era Charles Darwin.

Maquiavel também via a relação entre República e democracia como algo não-contraditório.

Ele visualizou uma forma de governo no qual o funcionamento cotidiano seria similar a um sistema democrático, mas apenas uma dessas formas, a partir das grandes decisões - a estrutura econômica, a política estrangeira, etc. -, era decidida por um ditador e não por qualquer forma de parlamento. Assim, ele não via nisso uma contradição.

Pode-se afirmar que o pensamento de Maquiavel seria uma antecipação da filosofia colocada em prática nos dias atuais?

Como eu disse antes, Maquiavel não criou o maquiavelismo, que sempre existiu. Mesmo assim, políticos de épocas diversas se aproveitaram desse engano em proveito próprio. Maquiavel apenas descreveu o que testemunhou. Ele não era um político, mas um escritor e um pensador e, acima de tudo, um observador. Algumas pessoas sugerem que George W. Bush, por exemplo, e Margaret Thatcher, nos anos 1980, adotaram as idéias de Maquiavel. Thatcher, sem dúvida, leu O Príncipe (o mesmo não posso dizer a respeito de Bush). Penso que um retrato detalhado da História mostraria que algumas figuras políticas de peso entenderam as idéias de O Príncipe e agiram a partir delas. Em 500 anos, desde que Maquiavel escreveu seu livro famoso, seria muito útil se determinados políticos o utilizassem como um manual de trabalho.

Teria sido ele o fundador da modernidade, do moderno pensamento?

As idéias de Maquiavel são atemporais e adaptáveis a qualquer época porque contêm aspectos fundamentais da civilização humana. Tão essenciais como a teoria da evolução de Darwin e tão importantes para entender a sociedade assim como a ciência darwiniana é importante para compreender a natureza.

Sociedades políticas costumam organizar-se de uma maneira a transformar o inimigo em algo sempre visível. A pergunta é: se não há nenhum inimigo à vista, o melhor a fazer é seguir o conselho de Maquiavel e inventar algum?

Você está pensando em termos de terrorismo? Que é parcialmente uma ameaça inventada? Se for, acho que está certo. Entretanto, é raro qualquer sociedade não ter inimigos, seja na forma que for. Também é rara alguma época na qual um inimigo tenha de ser inventado. Creio que a ameaça do terrorismo é um exemplo de como a importância de um inimigo ganha proporções exageradas para os extremistas políticos. Eis um bom momento para se seguir as regras apresentadas em O Príncipe.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

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Luzes, câmera, ação… lucros. É o cinema brasileiro

Richard Lapper
Quando “Cidade de Deus” fez um grande sucesso no Festival de Cinema de Cannes, em 2002, e depois bateu recordes de bilheteria no circuito internacional, ninguém ficou mais surpreso que Fernando Meirelles, seu modesto diretor. “Fernando tinha certeza de que ninguém ia querer vê-lo. Pensou que não gostariam de tanta violência”, diz Hank Levine, um co-produtor de “Cidade de Deus” e colega na O2, a produtora independente de São Paulo.

O resultado, para tristeza de Levine, foi que os acordos que a O2 negociou com os distribuidores foram muito menos interessantes do que poderiam ter sido. Mesmo assim, o sucesso de “Cidade de Deus” - que acompanha as peripécias de dois bandos de traficantes em uma favela do Rio de Janeiro - colocou o cinema brasileiro no mapa internacional e nesse processo atraiu a atenção para uma indústria cujos destinos se transformaram nos últimos 15 anos.

A crise econômica na década de 1980 e o fim do apoio do governo brasileiro tiveram um impacto devastador nas produtoras locais. Mas a aprovação de uma lei, em 1993, que permite que qualquer empresa brasileira deduza de seu imposto de renda o dinheiro investido em filmes, forneceu uma nova fonte de fundos e provocou uma reviravolta. Companhias como Petrobras, a petroleira controlada pelo Estado, e o BNDES, o banco de desenvolvimento do governo, têm sido especialmente ativos. E, em parte por causa disso, uma nova geração de diretores, da qual Meirelles e Walter Salles - diretor do internacionalmente aclamado “Central do Brasil” e mais recentemente de “Diários de Motocicleta”- são os mais famosos, ganhou o primeiro plano.

As produtoras independentes como a O2, que com 14 diretores afirma ser a maior da América Latina, também demonstraram capacidade empresarial, combinando operações de longa-metragem com uma série de outras atividades mais comerciais. A companhia, que fez seu primeiro longa-metragem em 2001, começou dedicada à publicidade para TV e ainda obtém cerca de 70% de sua renda dessa fonte. O próprio Meirelles, por exemplo, passou recentemente um mês na China fazendo um comercial para a empresa de calçados esportivos Nike. Mais receitas vêm de contratos de produção para clientes diversos, incluindo algumas das maiores corporações do mundo, assim como para cineastas estrangeiros.

O sucesso internacional também ajudou a O2 a desenvolver parcerias com produtores estrangeiros. Entre os atuais projetos estão três filmes apoiados pela Universal Studios, parte do grande esforço do grupo americano para promover o cinema nos mercados emergentes.

Como “Cidade de Deus”, grande parte da nova série de filmes produzidos pela O2, pela Conspiração - sua rival baseada no Rio de Janeiro - e por outros cineastas independentes marcou uma mudança acentuada na qualidade, comparada com uma geração anterior de cinema da corrente dominante, muitas vezes associada ao mesmo tipo de atuação exagerada e cenários baratos, típicos da poderosa indústria de novelas do Brasil.

Paulo Morelli, que fundou a O2 com Meirelles e Andrea Barata, acredita que as origens comerciais da companhia são um dos motivos desse progresso. “Fazer comerciais nos deu a oportunidade de praticar cinema, e isso foi um fator crucial. Simplesmente fizemos muitos filmes”, ele diz. Ou, como coloca Barata: “A publicidade comercial foi uma grande escola para nós”.

A nova onda embrionária do cinema brasileiro também é inovadora de outra maneira. Enquanto a novela de televisão latino-americana geralmente glamouriza estilos de vida da classe média distantes da experiência direta da maioria dos espectadores, em um sentido social, a nova safra de filmes brasileiros tem raízes mais firmes e, com freqüência, um toque de documentário.

Alguns desses filmes, como “Cidade de Deus” e o próximo “Cidade dos Homens” de Morelli, outra história de gangues que os executivos da O2 estão anunciando como uma seqüência, enfocam diretamente a vida nas favelas tão comuns nas periferias das cidades brasileiras. “Carandiru”, que mostra as condições na prisão e uma rebelião sangrenta, e “Anjos do Sol”, uma história de prostituição infantil na Amazônia, examinam a condição dos socialmente excluídos.

Outros filmes recentes focalizam a mobilidade social e geográfica. “Dois Filhos de Francisco”, um enorme sucesso de bilheteria local, é a história de dois cantores sertanejos reais que saem da pobreza em uma aldeia no oeste do Brasil e tornam-se milionários; “Caminho das Nuvens” conta a história de um homem e seu círculo familiar do nordeste pobre que vão para o Rio de Janeiro em busca de um emprego que pagará R$ 1 mil por mês; em “Céu de Suely”, uma jovem de uma cidade pobre do nordeste rifa o corpo para ganhar o dinheiro de que precisa para comprar uma passagem de ônibus para o sul.

Levine diz que filmes como estes são geralmente bem recebidos em festivais internacionais e podem se sair bem no circuito artístico internacional, apesar de não se encaixarem exatamente no que ele chama de imagem de “crise, violência e loucura” criada pelo sucesso de “Cidade de Deus”.

Mas um problema imediato para os cineastas locais - especialmente os independentes - é como consolidar sua posição no país. A dificuldade é que, apesar de sua recuperação, o cinema brasileiro, como o país de maneira geral, ainda tem um caminho a andar. O mercado ainda é relativamente pequeno para seu tamanho, com receitas de US$ 285,2 milhões no ano passado - cerca da metade das do México, por exemplo - e é dominado por filmes estrangeiros, especialmente pelas grandes produções de Hollywood.

Os filmes brasileiros tiveram uma participação de mercado de cerca de 10% em 2006. E os preços dos ingressos são relativamente caros, geralmente em torno de R$ 15, em São Paulo, o que equivale a um salário mínimo diário. Para complicar ainda mais as coisas, existe o florescente mercado negro, pouco policiado, de versões piratas de filmes em DVD. “As pessoas não têm dinheiro para ir. É uma diversão cara para os brasileiros”, diz Barata.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Financial Times

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