Congressos do PSOL definem oposição a Lula

Com o abandono de qualquer perspectiva de esquerda por parte do PT e do governo Lula, abre-se espaço na conjuntura para a construção de uma alternativa popular. O caminho será longo e penoso. PSOL tenta figurar entre os que buscam esta rota.

Gilberto Maringoni

O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) completará sua jornada de congressos estaduais até a primeira quinzena de agosto. A agremiação realizou seu congresso nacional entre os dias 7 e 10 de junho, no Rio de Janeiro, e os encontros mais importantes, em São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, aconteceram nos últimos dias. O traço principal de tais eventos tem sido o de buscar diretrizes políticas amplas, que unifiquem as várias correntes internas, além de eleger direções estáveis e representativas.

O PSOL tenta ser um dos pólos de reconstrução da esquerda brasileira após o abandono, por parte do Partido dos Trabalhadores, de qualquer perspectiva de transformação da sociedade brasileira. Com a opção do governo Lula por aprofundar o neoliberalismo e aliar-se à direita, o PT tornou-se irrelevante na determinação dos rumos do governo.

Durante a primeira gestão petista no governo federal, tais fatos confundiram e neutralizaram a ação dos mais importantes movimentos sociais brasileiros. O caso mais extremo é o da Central Única dos Trabalhadores (CUT), convertida em linha auxiliar do Planalto.

Decepção
A confusão reinou até as eleições de 2006, quando os setores progressistas da sociedade brasileira, em grande parte, optaram pelo mal menor, votando em Lula.

No entanto, o rumo oficial dos últimos meses tem se pautado pela aproximação do Brasil com os Estados Unidos, pelo afastamento em relação aos governos progressistas da América Latina, pelo favorecimento do agronegócio – leia-se etanol - em detrimento da reforma agrária, pela recomposição do governo com a direita, pela manutenção da política econômica financista, pela rendição aos monopólios da mídia, pelas tentativas de se acobertarem suspeitas de corrupção no Congresso Nacional, pela possibilidade da realização de um novo ciclo de reformas que cassem direitos dos trabalhadores, entre outras características.

O desencanto não tardou. O maior congresso do MST, realizado há poucas semanas, marca um claro afastamento do movimento em relação ao governo. O próprio PCdoB, aliado de primeira hora, paulatinamente, busca desembarcar da CUT e marcar distância da administração federal. Sinais de descontentamento entre várias outras organizações colocam no horizonte a construção de alternativas à esquerda.

Esta é a grande novidade dos dias que correm, abrindo espaço para crescimentos de forças como o PSOL.

Radical e amplo
Criado em 2003, após a expulsão de parlamentares petistas contrários à reforma da Previdência e vitaminado por dissidências do PT e do PSTU, o partido busca agora definir sua atuação. A tentativa é romper com a estreiteza, presente em algumas situações, e construir uma linha política que seja, a um só tempo, radical e ampla.

O congresso paulista, por exemplo, espelhou bem esta situação. A junção de diversos agrupamentos – em especial os oriundos da esquerda petista, como a Ação Popular e Socialista, do deputado federal Ivan Valente, o Enlace, a ALS e outros – obteve 73,5% da preferência dos delegados presentes. Até agora, vigorava no partido uma modalidade de direção colegiada. Com o encontro, a instância passa a ser composta proporcionalmente pelas diversas forças políticas.

Como diretriz, está marcada uma oposição de esquerda programática ao governo Lula, a aliança com diversos setores populares descontentes, o apoio aos governos de esquerda da América Latina, o combate aos monopólios privados de comunicação e a perspectiva da construção de um programa socialista para o Brasil.

A recomposição da esquerda brasileira pós-PT será longa e penosa, até porque a ilusão que o governo Lula desperta em setores populares ainda é muito grande. Esta reconstrução não passa mais pela disputa no interior do PT, como acontecia até há poucos anos. Até porque não se constroem projetos de país tendo miragens como alicerces.

Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista da Carta Maior, é doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de “A Venezuela que se inventa – poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez” (Editora Fundação Perseu Abramo).


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