Arquivo de Agosto de 2007

O abandono da política

O mundo do coletivo está em declínio. Nós seguimos à deriva do abandono da política. Mas há arquipélagos de resistência nesse oceano de devastação e poluição abstencionista.

Lula Miranda

“Eu detesto política” – quem nunca escutou essa frase que atire a primeira pedra. É, existem pessoas que pensam assim. Pode não ser o meu caso – ao contrário! Tampouco, certamente, o seu, prezado leitor. Mas essa é uma frase assim mesmo, curta e grossa e, sem dúvida, ouve-se bastante por aí – curta e grossa, principalmente, se aquilatamos a pobreza de sentido de tudo que lhe é subjacente e imanente. E tem gente que fala isso até com certa empáfia/jactância, como se estivesse falando a coisa mais sensata e inteligente do mundo.

Muitas pessoas falam sem pensar e algumas agem sem pensar – outras (muitas) até vivem sem exercer essa atividade tão singular e própria aos de nossa espécie. Se refletissem perceberiam que, como já dizia Bertolt Brecht no poema “*O* *Analfabeto Político*” [aliás, nunca é demais recomendar a leitura desse autor: leiam-no, assistam suas peças, sempre que possível], o analfabeto político é aquele que “não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos./Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,/ do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio/dependem de decisões políticas. (…) que da sua ignorância política nasce a prostituta/ o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista”.

Abandonamos a política. De modo geral, muito pouco, quase nada, lemos, refletimos, falamos ou debatemos sobre questões importantes da política nacional. Muito pouco, quase nada, participamos da pulsante vida política do país. Do resto do mundo então, nem pensar. Talvez estejamos demasiado aferrados ao nosso mundo – num âmbito, por assim dizer… umbilical. E o resto …

Não participamos das assembléias em nossos sindicatos e demais associações de classe – muitas delas, sejamos honestos, muito mal conduzidas e, muitas vezes, palco de disputas comezinhas de correntes políticas (por vezes dentro de um mesmo partido, numa espécie de autofagia ou de briga entre irmãos). Mas isso não pode servir como pretexto/desculpa para não freqüentarmos o nosso sindicato e procurarmos desenvolver em nós a solidariedade e o espírito de corpo (não confundir com espírito de porco ou com o corporativismo mesquinho).

Num âmbito mais “doméstico”, não participamos sequer das reuniões de condomínio em nosso prédio – nas quais, muitas vezes, decidem-se coisas que vão influir diretamente em nosso cotidiano ou mexer com as nossas finanças ou patrimônio. Nós não queremos nem saber dessa “chatice” toda. Não é mesmo?

Praticamente já não saímos às ruas a empunhar bandeiras – sejam de partidos ou de ideologias. Participamos muito pouco de fóruns de debates – observe que nas seções de cartas/comentários em sites e por toda a blogosfera predomina, muitas vezes, o pensamento conservador, de direita. A direita começa a perder a vergonha, a colocar as “manguinhas” de fora, e já principia, despudoradamente, a ocupar largos espaços.

Sim, votamos. Decerto. Porém, exercemos de forma limitada e precária nossa cidadania. Pois, na maioria das vezes, no dia da eleição, saímos de casa rumo a sessão eleitoral sem sequer saber em que deputado ou vereador votar. E, após votar, passado poucos meses do pleito, sequer nos lembramos em quem votamos e, quando lembramos, não nos preocupamos em acompanhar o desempenho do parlamentar nas câmaras municipais, nas Assembléias Legislativas ou no Congresso Nacional.

Ou seja, abandonamos a política. Entregamos o espaço do exercício da política àqueles com “senso de oportunidade”, àqueles que tiverem tempo e disposição (na verdade, interesse) em ocupá-lo. Daí que, diante do abandono da política, ela tenha sido de imediato acolhida e “instrumentalizada” por alguns oportunistas e salafrários que a utilizam, não para seu fim primeiro (o debate pluralista de idéias, a defesa de interesses da coletividade etc), mas em benefício próprio e de seus interesses ou de seu grupo. São pessoas, não exatamente vocacionadas para o nobre ofício da Política; são arrivistas espertalhões que dotados de senso de oportunidade, uma boa lábia e muita cara de pau, ocupam com impressionante desenvoltura esse vácuo por nós deixado.

Como uma deletéria conseqüência disso, os partidos praticamente não têm inserção na sociedade e a sociedade não se sente representada pelos políticos, ou pelos partidos. Culpa dos políticos, dos partidos? Muitos dos sindicatos funcionam como meros cartórios para expedição de documentos e homologações, e perdem pouco a pouco a necessária representatividade que os legitimam. Culpa dos sindicatos, dos sindicalistas?

Portanto, se abandonamos o terreno da Política, depois não podemos reclamar que ali, naquele terreno (hoje “baldio”), só nasceu mato e erva daninha – ou seja, que no Parlamento só tem lobista, beócio, picareta e aproveitador, e que nos sindicatos só tem pelegos e gente despreparada.

Assim, não podemos reclamar da eleição (com estrondosa votação, inclusive) de parlamentares como Enéas (que Deus o tenha), Clodovil e Frank Aguiar – para citar os mais “inofensivos”, mas não menos emblemáticos da falência e indigência atual do nosso sistema político. Sem falar no que “rouba, mas faz”; nos verdugos da ditadura, nos capitães de chacinas, no da serra elétrica (já defenestrado), nos mercadores de mandatos e legendas, nos “sanguessugas”, nos “anões” do orçamento (e da moral), e por aí vai.

É de fato surpreendente, um milagre até, que nesse ambiente de abandono sobrevivam, no Congresso, pessoas devotadas e ilibadas como Aldo Rebelo e Inácio Arruda (PC do B), José Eduardo Cardoso, Maurício Rands e Ideli Salvatti (PT), Ana Arraes e Ciro Gomes (PSB) Pedro Simon (PMDB), Jefferson Peres e Cristovam Buarque (PDT), dentre outros poucos. Sim, nem só de urtigas é feita essa nossa “lavoura” já tão devastada; também existem flores, que insistem em brotar em meio ao lodo – isso, claro, para não dizer que não falei de flores.

É preciso que retomemos o interesse pelo exercício da política, que lutemos pela dignidade na política [ler Hannah Arendt, em “A Dignidade da Política”]. É necessário prestigiar os bons parlamentares e os homens públicos dedicados, e incentivar vocações autênticas, aquelas balizadas pelo verdadeiro espírito republicano de servir ao povo e à coisa pública. Antes que seja tarde demais. Antes que o exercício da política seja de uma vez dominado pelos que defendem apenas inconfessáveis interesses privados – quando não, pura e simplesmente, criminosos.

Lula Miranda é poeta, cronista e colabora semanalmente com a Carta Maior. É Secretário de Formação para a Cidadania do Sindicato de Trabalhadores em Editoras de Livros de São Paulo.

Carta Maior
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Uma Disputa Emocional

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O Capitão Rodrigo Cambará (personagem de Érico Veríssimo em O Continente) dizia que é divertido ser contra o Governo. Talvez seja por isso que JK tenha decidido assinar o projeto de lei de transferência da capital federal para o Planalto Central em uma cidade do interior de Goiás. Projetos polêmicos costumam ter disputas que raiam para o emocional.

Situação semelhante estamos vivendo com relação à transposição de águas do São Francisco para abastecer o Nordeste Setentrional. O assunto foi ventilado pela primeira vez na corte de D. João VI, no Rio de Janeiro, antes da independência do Brasil. D. Pedro II, em visita ao Nordeste, resolveu executá-lo, mas a guerra do Paraguai atrapalhou seus planos. A República resolveu tomar medidas localizadas, criando açudes e cisternas, que não resolveram o problema. Agora que o modelo de medidas localizadas se exauriu, conclui-se que a medida mais eficaz é retornar ao projeto da época do Brasil Reino: a integração da bacia do São Francisco com as bacias do Nordeste Setentrional.

Tratando-se de um projeto exclusivamente técnico, o ideal seria que fosse discutido por técnicos. Entretanto, a Lei 9.433/1997, estabelece que os comitês das bacias hidrográficas sejam a primeira instância a julgar o pedido de autorização para retirada de água dos rios.

Como a água é um bem coletivo, tradicionalmente objeto de disputas, a decisão dos membros do Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF) não foi diferente do que sói ocorrer em casos como esse: negou-se a concessão, obrigando o Governo a recorrer da decisão.

Com isso, o assunto passou a ser discutido de forma exclusivamente emocional. Dezenas de artigos foram publicados, contendo os argumentos mais variados, com as mais diversas razões, reais ou fictícias, para condenar a transposição. E, como era de se esperar, os principais críticos do projeto são habitantes da bacia doadora.

Em Minas Gerais, há um grupo disposto a impedir a transposição a todo custo. A alegação é que, com a destruição da mata ciliar, a vazão do rio diminuiu e, assim, não sobrará água para a transposição. Cometem um erro hidrológico básico: a água de um rio vem das chuvas na bacia e sua quantidade independe de haver ou não matas. O que ocorre com a destruição das matas ciliares é a modificação do regime de vazão do rio, que passa a ter picos maiores, como a enchente que se observou neste ano, e vazões menores durante o período de estiagem. As vazões menores não afetam o Velho Chico, hoje com reservatórios em quase todo o seu curso. O art. 2º da Deliberação CBHSF 008/2004 reconhece que a vazão firme, a jusante de Sobradinho, é de 1.815 m3/s. O que se pede para a transposição, que será feita a jusante de Sobradinho, é apenas 26 m3/s.

Alagoas é outro estado em que é forte o movimento contra a transposição. Apenas a título de esclarecimento, a vazão mínima na foz do São Francisco, no litoral alagoano, é de 1.860 m3/s, calculada por métodos estatísticos para um período de retorno de 20 anos. Essa vazão é suficiente para irrigar todas as culturas dos alagoanos, bem como para permitir a navegação no Baixo São Francisco. Não há motivo para um movimento tão indignado no estado. Por outro lado, há o problema das enchentes que, neste ano, de acordo com notícias do site do CBHSF, já mataram cinco pessoas e desabrigaram milhares de ribeirinhos. Essas enchentes, cuja causa principal é a destruição das matas ciliares, somente serão contidas quando as matas forem restauradas. Mas há uma maneira de amenizá-las com o projeto de transposição, que terá capacidade para bombear até 127 m3/s. Enviando para o Nordeste Setentrional a água que mata e destrói nas barrancas do São Francisco, principalmente no Estado de Alagoas, estarão sendo amenizadas as enchentes que ele provoca. Por isso, a transposição trará grandes benefícios ao estado, não havendo justificação para a forte oposição ao projeto que ocorre entre os alagoenses.

O apoio que setores do Estado de Sergipe dão aos movimentos contrários à transposição chega a ser cômico. Sergipe, que faz parte do polígono das secas, foi a primeira unidade da federação a se beneficiar com um projeto de transposição de águas do São Francisco. Situando-se na bacia do Rio Sergipe, à medida que Aracaju e sua área metropolitana foram crescendo, mais se acentuava o problema da falta de água. A solução foi integrar a bacia do Rio Sergipe à bacia do Velho Chico, passando o São Francisco a suprir cerca de 70% da demanda de água de Aracaju. Quando alguns sergipanos combatem a execução de uma nova transposição, lembramo-nos daquela fábula em que o macaco se senta no próprio rabo para criticar os rabos dos outros macacos.

O governador da Bahia é francamente favorável à transposição, mas a boa terra é o estado onde é mais forte a resistência ao projeto. Basta lembrar que foi na cidade de Barra que o bispo local chegou a fazer greve de fome contra o projeto. No entanto, os baianos deveriam prestar mais atenção à distribuição das vazões alocáveis do São Francisco, da qual são os grandes beneficiários. Apenas para citar um exemplo, o projeto de irrigação do Baixio do Irecê foi aquinhoado com uma outorga inicial de 10 m3/s. Até aí, nada demais, porque há outras outorgas maiores. A questão é que o projeto ainda não havia se iniciado e já havia sido aprovada uma segunda outorga, para ser usada em uma futura ampliação. Total da segunda outorga: 50 m3/s. Portanto, dos 360 m3/s alocáveis, a irrigação de uma parte do sul da Bahia já abiscoitou 60 m3/s. O CBHSF editou a Deliberação nº 09/2004 para rever situações como essa, mas nunca é demais lembrar que a vazão requerida para o projeto de transposição é de 26 m3/s.

De todas as críticas ao projeto de transposição, a que me pareceu mais coerente foi a feita por pernambucanos. Há habitantes da bacia do São Francisco em Pernambuco reagem de forma veemente ao projeto de transposição. Enviei um e-mail para esse grupo, apresentando as razões pelas quais estranhava que pernambucanos fossem contra o projeto: Pernambuco é o estado com o mais baixo potencial hídrico do Brasil (cerca de 1.320 m3/hab.ano). A transposição vai levar água para o semi-árido pernambucano, fixando o homem do campo em sua terra. Como resposta, disseram-me o seguinte: a transposição vai levar água também para o Ceará, que poderá se tornar o maior produtor de frutas do Nordeste, tomando a posição que hoje é de Pernambuco.

Se os pernambucanos não usam subterfúgios para se declararem opositores ao projeto de transposição, surpreende que haja cearenses contrários a esse projeto. O Ceará não faz parte da bacia do São Francisco e, portanto, é apenas receptor. Contudo, existe um movimento dentro do Ceará contrário à transposição. É verdade que isso provocou reação da maioria silenciosa, a começar do arcebispo de Fortaleza, que deu entrevista declarando-se favorável ao projeto. No entanto, não deixa de surpreender a existência de movimento contrário à transposição num estado em que falharam todos os métodos localizados para impedir que os efeitos da seca forçassem a migração de boa parte de sua população.

Pelo que foi exposto, a conclusão é apenas uma: a polêmica em torno do projeto de transposição é uma disputa por água e os argumentos são muito mais emocionais que técnicos. O Ministério da Integração Nacional relacionou uma série de perguntas que lhe são feitas e que mostram a desinformação que a população tem em relação ao projeto. Parte dessa desinformação resulta dos argumentos emocionais que são publicados na imprensa e que lançam mais confusão em torno do projeto. Diante de toda essa celeuma, devemos lembrar a letra da canção de Caetano Veloso chamada O Ciúme, que se encaixa exatamente nesse particular:

O ciúme
Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia
Tudo esbarra embriagado de seu lume
Dorme ponte, Pernambuco, Rio, Bahia
Só vigia um ponto negro: o meu ciúme

O ciúme lançou sua flecha preta
E se viu ferido justo na garganta
Que nem alegre nem triste nem poeta
Entre Petrolina e Juazeiro canta

Velho Chico vens de Minas
De onde o oculto do mistério se escondeu
Sei que o levas todo em ti, não me ensinas
E eu sou só, eu só, eu só, eu

Juazeiro, nem te lembras dessa tarde
Petrolina, nem chegaste a perceber
Mas, na voz que canta tudo ainda arde
Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê

Tanta gente canta, tanta gente cala
Tantas almas esticadas no curtume
Sobre toda estrada, sobre toda sala
Paira, monstruosa, a sombra do ciúme
(Caetano Veloso)

Faço minhas as palavras de Caetano. A polêmica em torno do projeto de transposição é apenas uma questão de ciúme das águas do Velho Chico.

Paulo Afonso da Mata Machado


Fotos do autor

Especial para o Blog Controvérsia (em contraposição ao artigo: http://blog.controversia.com.br/2007/08/13/rio-sao-francisco-incertezas-da-transposicao/)

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Viagem ao mundo dos amaldiçoados do Katrina

Luis Lema
Enviado especial a Nova Orleans

Na avenida Caffin, o sinal passa para o verde. Depois para o vermelho, e então de novo para o verde. Sozinho, ele imprime o ritmo na paisagem a centenas de metros a seu redor. Não há praticamente nenhuma casa sequer, nenhum carro, nenhuma alma viva que venha perturbar a sua cadência regular. E não longe dali, lê-se o seguinte pedido de ajuda, colocado no topo de quatro degraus cor-de-rosa que não conduzem para lugar algum: “Eis o que sobrou da minha casa”, anuncia o letreiro. “Tudo o que eu quero é retornar à minha vida normal e sair desta caravana que está me matando. Please help me!”. O sinal voltou novamente para o vermelho. Bem-vindo ao bairro do Lower Ninth Ward, em Nova Orleans.

Desde sempre, Ninth Ward tem sido um símbolo. Nos Estados Unidos, foi o primeiro bairro onde os negros tiveram acesso à propriedade. Era ali que os desfiles das bandas que se seguiam à missa incentivavam o desabrochar dos talentos das crianças que brincavam debaixo dos pórticos; foi ali que a cultura negra americana fincou suas raízes. Dois anos depois do furacão Katrina, aquilo que agora não passa mais de um gigantesco terreno baldio permanece um símbolo: aquele da incúria das autoridades e dos obstáculos que ainda estão por ser superados para reconstruir uma Nova Orleans fiel à sua lenda.

À primeira vista, contudo, a lenda permanece viva. No distrito do Vieux Carré, o álcool corre à vontade dos dois lados da bem chamada Bourbon Street. Poupado pelas águas, o bairro francês segue irradiando a sua desenvoltura, na sombra dos terraços coloniais de ferro maciço. Mas, mesmo aqui, as fachadas deixam aparecer rachaduras. Dias atrás, em previsão do aniversário da desgraça, os trompetes permaneceram mudos. O que se viu foi um extenso cortejo triste e silencioso nesta cidade do barulho e da excitação. Os turistas tardam a reaparecer. Os músicos não agüentam mais de fome. Falta fôlego.

De volta ao Ninth Ward, o bairro devastado, do outro lado do canal. Aqui, a batalha, desde então, foi longa. Logo nos dias que se seguiram ao Katrina, os poderes locais já criticavam este capricho do Mississipi, formado pelo seu limo abaixo do nível do mar. A solução que elas sugeriram? As máquinas escavadeiras. Demolir o que restava do bairro para apagar todo e qualquer sinal dos erros do passado. Para esquecer o fato de que não foi o furacão que destruiu a cidade, e sim as barragens de proteção mal projetadas que acabaram cedendo. Para evitar, também, que um desastre tão grande possa se reproduzir.

A sua presidência permanece assombrada pela falência do governo federal e pela imagem que ele deixou, a de um homem que ficou acompanhando o desastre no conforto da sua fazenda do Texas e que tardou a interromper as suas férias. Além disso, o Estado federal e o próprio Bush estão sendo acusados agora de não fazerem o suficiente, e com uma rapidez insuficiente, para a reconstrução. Aliás, para interpelar o presidente americano, um jornal local publicou, nesta quarta-feira, um editorial intitulado: “Trate-nos com eqüidade, senhor presidente”.

Por ocasião do segundo aniversário do desastre, a prefeitura organizou em 29 de agosto concertos, atos religiosos e vigílias à luz de velas. Ela prevê também inaugurar um Memorial no qual serão sepultados os restos de uma centena de anônimos.
Mas, em meio a outras, a organização Acorn mobilizou-se: “O objetivo das autoridades continua sendo de desestimular por todos os meios os habitantes de retornarem. Mas, é ali mesmo que as pessoas querem viver. Vocês pretendem mesmo menosprezar a sua vontade?”, se insurge Ouled Frenvilla, uma responsável da associação.

Dois anos depois, no conjunto da cidade de Nova Orleans, 160.000 pessoas ainda não retornaram, quase uma em cada duas, disseminadas pelos quatro cantos dos Estados Unidos. E, diferentemente daquilo que os defensores do bairro de Ninth Ward fingem acreditar, muitas delas não voltarão, provavelmente nunca mais.

Garrett Hamilton faz os pregos saltitarem na sua mão, assim como um músico tocaria um blues triste com violão. No dia do ciclone, ele havia viajado para Seattle, para se encontrar com os seus dois filhos, sem sequer levar roupas para se trocar. Lá, ele permaneceu por um ano. E ele também está ficando louco neste parque de caravanas onde ele foi instalado desde então pela Fema, o serviço geral de emergência. Garrett não precisa ler as estatísticas. Elas falam, entretanto, da taxa de suicídios, dez vezes superior à média, dos estragos causados pela cocaína e o crack, do ressurgimento das gangues, do crescimento incessante da criminalidade. Os serviços de assistência social, que se encontram eles mesmos em plena convalescença, enfrentam dificuldades para ajudar aqueles que vão se atolando já faz dois anos no trauma pós-tempestade. E o final do verão está aí: a temporada dos furacões está de volta. Enquanto isso, as feridas ainda não cicatrizaram.

Alguns dias atrás, um dos primos de Garrett foi morto em plena rua, no meio de um tiroteio. O homem recita a sua raiva com pausas marcadas e com uma suavidade que esconde mal a sua determinação: “Aqui, no sul, a nossa história é uma história de sofrimentos. Nós sofremos um bocado, meu irmão, e estamos acostumados com isso. Eu estou de volta para que todos aqueles que me precederam não tenham agüentado tudo isso por nada”.

Por falta de dinheiro para recuperar a sua casa devastada pela metade, Garrett resolveu iniciar a obra por conta própria, contando com a ajuda de alguns voluntários, dos seus vizinhos, e, sobretudo, com a benevolência de Deus. Nesta área do Ninth Ward, uma quantidade maior de casas permaneceu de pé: a imensa onda que foi liberada pelos diques já havia perdido um pouco do seu furor. Mas, ainda é uma cidade fantasma, repleta de casas abaladas, semeada de amontoados de ruínas. “Todo mundo continua firme no pedaço”, sorri Garrett. “A polícia, a guarda nacional, a CIA, o FBI. Mas eles só aparecem para encher o meu saco a respeito da minha licença para construir, e eles não fazem nada quando saqueadores levam embora uma televisão sobre um carrinho de mão diante dos olhos de todos…”

O modo de ver dos perdedores do ciclone é truncado, é claro. Mas, do outro lado da cidade, nos arranha-céus da “Uptown” que permaneceram intactos, até mesmo os ganhadores o compartilham em parte. Charles Rainey pode ser considerado um deles: se o Katrina não tivesse acontecido, ele provavelmente não teria aceitado a sua contratação por este grande banco onde ele acabara de pleitear uma vaga. Da mesma forma que ela carece de braços, Nova Orleans passou a carecer também de trabalhadores de colarinho branco. Para Charles, o furacão foi uma sorte. Contudo, no seu escritório onde comparecem aqueles que querem obter créditos para uma nova moradia ou para reabrir o seu comércio, o jovem banqueiro simpático já começou a se dar conta do tamanho dos estragos causados pela má-gestão.

“Durante esses dois anos, não faltaram aqueles que passaram o seu tempo tentando apontar um culpado, de modo a tentar ocultar a sua própria incompetência”, acusa. A governadora Kathleen Blanco? Ela desistiu por iniciativa própria de se candidatar novamente, de tanto que o seu nome hoje cheira a enxofre. O prefeito Ray Nagin? Mal ele foi reeleito, iniciou uma nova campanha visando a obter um posto no escalão federal. Há também um senador envolvido num escândalo sexual, e outros responsáveis ainda que estão vinculados a casos de corrupção…

“Vejam o que está acontecendo do lado do Mississipi”, aponta o banqueiro, fazendo referência ao Estado vizinho, onde as obras de reconstrução há muito foram concluídas, mostrando um grau de competência bem diferente. “Lá, todo mundo tomou iniciativas e lutou para defender os interesses do Estado em Washington. Os Estados Unidos são um país imenso. Se nós não formarmos um bloco para reclamar os nossos direitos, eles acabarão se esquecendo de nós a valer”.

O desânimo está à espreita. Até mesmo o prodigioso movimento que se formou em torno das Igrejas, e proporcionou a colaboração de grupos de professores de escola, de engenheiros e de voluntários de toda estirpe está prestes a perder o fôlego. Há alguns meses, Brad Grundmeyer implantou uma organização com o objetivo de coordenar as atividades daqueles que, na sua cidade, também queriam prestar todo tipo de ajuda para as vítimas. “As pessoas preocupam-se com a sua própria vida. Eles mostram ter cada vez mais dificuldades para imaginar aquilo que continua se passando fora do seu bairro”, constata hoje Grundmeyer.

Será que o Ninth Ward está perto do fim? Assim como muitos dos habitantes, este nova-orleanense empreendedor e loquaz se diz confiante, apesar de tudo. Ele prefere dar a volta por cima: “Ainda existe uma quantidade de energia fabulosa por aqui. Todo dia de manhã, ao despertar, digo a mim mesmo que eu amo esta cidade”. Então, como se fosse para tentar motivar a si mesmo, ele acrescenta: “Eu nunca conseguirei me conformar em ver outra coisa quando abro as minhas janelas”.

Tradução: Jean-Yves de Neufville.

Jornal Le Monde
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Crise nos EUA atualiza debate sobre a regulação dos fluxos de capital

Os problemas no mercado imobiliário dos EUA repõem o tema da regulação dos fluxos de capitais, diz o economista Ricardo Carneiro. Para ele, o que está ocorrendo agora é mais complexo e profundo do que ocorreu em crises anteriores.

Marco Aurélio Weissheimer
- Carta Maior

PORTO ALEGRE - A nova crise que afetou o sistema financeiro global, detonada por problemas no mercado imobiliário dos Estados Unidos, é diferente de outras crises que ocorreram em um passado recente. Boa parte destas crises eclodiu na periferia do sistema financeiro – no México, na Ásia, na Rússia e na Argentina. As que ocorreram no centro do sistema tiveram um caráter episódico, constituindo-se basicamente em crises de liquidez. A crise atual, além de ocorrer no centro do sistema, é mais profunda, pois coloca em dúvida a qualidade dos créditos do sistema imobiliário dos EUA. A avaliação é de Ricardo Carneiro, economista e professor do Instituto de Economia da Unicamp, que prevê uma mudança no cenário econômico internacional favorável dos últimos anos. Os dias de dinheiro farto e barato muito provavelmente chegaram ao fim, pelo menos nos próximos três ou quatro anos, disse o economista à Carta Maior.

Nas crises passadas, explica Carneiro, não havia dúvida sobre a qualidade dos ativos envolvidos. A crise atual é mais profunda, entre outras razões, porque boa parte dos créditos concedidos a compradores de imóveis revelou-se crédito ruim. Assim, mesmo com a intervenção do Federal Reserve (o Banco Central norte-americano), que deu liquidez aos detentores dos títulos originados destes créditos podres, parte desses créditos seguirá podre e alguém terá que absorver estas perdas.

Trata-se de um problema localizado? Sim e não, responde o economista. É localizado no mercado imobiliário norte-americano que, porém, é enorme e afeta investidores em várias partes do mundo. O problema maior, diz o professor da Unicamp, é o potencial de contaminação dessa crise, uma contaminação que se propaga pelos bancos e que pode afetar diferentes setores da economia mundial.

O cenário otimista quanto aos desdobramentos da crise, acrescenta Carneiro, é aquele onde quem comprou esses títulos conseguirá realizar seu prejuízo e tudo bem. No entanto, ressalta, as coisas podem não acontecer assim. Os bancos podem ficar reticentes e reduzir a oferta de crédito, concretizando, assim, um poder real de contaminação para diversos agentes econômicos. Há a possibilidade de os bancos centrais tentarem deter esse processo, através da injeção de recursos, uma operação que pode funcionar muito pouco na medida em que os bancos absorvam esses recursos e restrinjam a oferta de crédito. O que pode atenuar a crise, prossegue o economista, é os bancos passarem o prejuízo para os bancos centrais, o que não evitará uma redução da oferta de crédito, necessariamente. “O fato é que há um conjunto de ativos de má qualidade que ocasionarão prejuízos para seus detentores”, resume.

Impacto sobre o Brasil
O enunciado dessa crise, enfatiza Ricardo Carneiro, é muito mais grave e complexo e seus desdobramentos dependerão, em larga medida, da reação dos bancos e de escolhas políticas que terão que ser feitas, em especial pelo Banco Central dos EUA. Uma das conseqüências prováveis é a redução da oferta de crédito, com impactos negativos sobre a produção e também sobre o preço dos ativos. Quanto aos impactos sobre a economia brasileira, tudo dependerá, diz o economista, da extensão do processo da crise. “Se houver uma crise mais forte, ela vai afetar o Brasil, um país periférico, de moeda fraca. Se os investidores resolverem fugir, o país será afetado”, prevê. E mesmo que a crise não tenha grande intensidade, o Brasil pode ser afetado de outros modos, em função da mudança do cenário econômico internacional.

“Pelo menos em um horizonte previsível, de 3 ou 4 anos, não teremos mais dinheiro forte e barato, como vinha ocorrendo desde 2003. Só isso já é um fator de prejuízo para a nossa economia”, diz Carneiro. Mas os impactos sobre o Brasil também dependerão, destaca, de como o Banco Central reagirá à crise. Uma alta do dólar a níveis em torno de R$ 2,50, com a perspectiva de pressões inflacionárias pode levar o BC brasileiro a elevar a taxa de juros, o que afetaria a retomada do crescimento da economia.

Esse comportamento dependerá também dos desdobramentos da crise. “As informações sobre o mercado imobiliário dos EUA não são boas. O Banco Central está recomprando títulos podres que estavam na mão do sistema financeiro, mas há um limite no que pode absorver. Se fizer compras muito generosas pode haver questionamentos sobre o próprio papel central do dólar”, adverte Carneiro.

Uma pesquisa divulgada nesta segunda-feira pela Associação Nacional de Economistas de Empresas (Nabe), dos EUA, indica que esse cenário pessimista é motivo de grande preocupação naquele país. Segundo o levantamento, a inadimplência dos chamados créditos de risco o excesso de endividamento de empresas e consumidores norte-americanos representam, combinados, uma ameaça maior ao cenário econômico de curto prazo do que aquela representada pelo medo de um novo ataque terrorista. O risco econômico representado pela soma da inadimplência com endividamento foi apontado por 35% dos economistas entrevistados como o maior risco para a economia dos EUA no curto prazo, contra 20% que mencionaram a ameaça de um novo atentado terrorista. A Nabe procurou minimizar o resultado da pesquisa, dizendo que o cenário para os próximos cinco anos ainda é otimista.

Socialismo para capitalistas
Seja qual for o desdobramento da crise, ela deixa uma lição, conclui Ricardo Carneiro. “Os economistas de mercado gostam de criticar os gastos públicos, mas na hora em que o mercado precisa ser socorrido por recursos públicos, não falam sobre isso. Essa crise repõe o tema da regulação dos fluxos de capitais e do sistema financeiro”, resume. O economista acredita que só vale a pena salvar, via recursos públicos, os mercados atingidos pela crise se for para fazer uma regulação do sistema. E lembra as palavras do economista Martin Wolf que, em artigo publicado no Financial Times, criticou a decisão de Bancos Centrais injetarem dinheiro para aumentar a liquidez nos mercados por passar a mensagem de que os investidores sempre poderão evitar perdas.

“Então o capitalismo é para os pobres, e o socialismo é para os capitalistas. Esta visão é não somente ofensiva. Ela é catastrófica”, resumiu Wolf.

Carta Maior
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Brasileiro gasta mais com cigarros do que com arroz e feijão, diz FGV

da Folha Online

O brasileiro gasta mais com cigarros do que na compra de alimentos como arroz e feijão. Pesquisa feita pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) revela que os cigarros aumentaram além da variação média do IPC (Índice de Preços ao Consumidor) e passaram a comprometer, em abril de 2007, 1,25% do orçamento familiar, enquanto o item arroz e feijão teve peso de 0,85%.

De acordo com a POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares), realizada no biênio 2002/2003, a despesa com arroz e feijão comprometia 1,30%, em média, do orçamento doméstico de famílias com renda entre 1 e 33 salários mínimos. Apontava também que o gasto com cigarro representava 1,03% do orçamento das famílias.

Segundo o levantamento da FGV, a partir de 2004, as variações anuais do arroz e feijão seguiram tendências opostas aos movimentos de preços dos cigarros. No primeiro caso, a fundação captou queda média de 20,35% nos preços no acumulado de janeiro de 2004 e abril de 2007. No segundo, alta de 29,57%. Neste mesmo período, o IPC acumulou aumento de 15,92%

Na avaliação do coordenador do índice de preços da Fundação Getúlio Vargas, André Braz, o comprometimento do salário com o cigarro pode aumentar ainda mais.

“Os índices de maio trazem os reajustes de preços de duas importantes indústrias, fato que deverá elevar os gastos”, afirmou.

Os pesos de todos os produtos e serviços que fazem parte do IPC são corrigidos com base em sua própria variação e na variação média de todos os itens.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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Brasileiro reduz despesa com alimentos e aumenta gasto com bens duráveis

da Folha Online

Os hábitos de consumo dos brasileiros tiveram uma profunda mudança nos últimos 20 anos, segundo livro elaborado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, ligado ao Ministério do Planejamento) e pela FEA/USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo).

Uma das principais mudanças apontadas pelo levantamento é a redução nos gastos com alimentação principalmente entre as classes mais baixas da sociedade, segundo dados levantados com base na POF (Pesquisa de Orçamento Familiar) do IBGE.

Segundo a POF, entre 1987/1988, os brasileiros gastavam em média 20,4% da renda com alimentação. Esse índice caiu para 18% em 1995/1996 e para 16,7% em 2002/2003.

Esse movimento se deve, principalmente, à redução dos gastos das famílias mais pobres com alimentos. Há 20 anos, a população brasileira que se encaixa entre os 50% mais pobres do país direcionava em média 36% do orçamento para este fim. Em 2002/2003, o índice caiu para 28,1%.

Por outro lado, aumentou o acesso das classes mais baixas a bens de consumo duráveis. Os gastos dos 50% mais pobres com estes produtos cresceu de 5,6% para 9,2%, entre o final da década de 80 e os anos 2002/2003.

“A pesquisa mostra que houve uma desconcetração dos gastos das famílias e uma melhora no bem estar da população, principalmente das classes mais baixas”, disse Tatiane Menezes, professora do departamento de Economia da Universidade Federal de Pernambuco e uma das organizadoras do livro “Gastos e Consumo das Famílias Brasileiras Contemporâneas”, editado pelo Ipea.

A estabilização econômica, a abertura comercial e o aumento da oferta de crédito no mercado são fatores que estão por trás da mudança de hábitos de consumo dos brasileiros, acrescentou o professor da FEA/USP, Heron do Carmo.

“Desde a implantação do Plano Real [julho de 1994], passamos por alterações fundamentais, principalmente no campo da inflação. Em 1988, por exemplo, se comprava um bem durável em no máximo três prestações, pois não havia crédito para longo prazo”, disse Heron.

Outra mudança apontada na pesquisa diz respeito aos gastos do brasileiros com serviços públicos. De 1995/1996 para 2002/2003, a representatividade das despesas com transportes dentro de serviços públicos passou de 3,8% para 3,9%, enquanto os gastos com telecomunicações aumentaram de 2,1%, para 4,2%.

Segundo o estudo, com o aumento das tarifas, o uso do ônibus vem sendo substituído por transportes alternativos, com as vans, mototáxis –em algumas regiões– e até a bicicleta, no caso da população de menor renda.

“O conhecimento de hábitos de consumo é um importante instrumento para se analisar o grau de desenvolvimento e bem estar da população, concluiu Tatiane Menezes.

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Livro “Direito à Memória e à Verdade” provoca polêmica no Brasil

A condenação oficial da repressão durante a ditadura revolta o exército

Bernardo Gutiérrez
No Rio de Janeiro

Mal-estar, indignação e até raiva. O livro “Direito à Memória e à Verdade”, uma contundente condenação oficial do governo brasileiro à ditadura, provocou irritação no exército. O livro, que foi apresentado pelo próprio presidente Lula em Salvador, foi recebido pelos militares como uma provocação. As forças armadas chegaram a acusar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de ser partidarista e de ter financiado um documento elaborado por “criminosos políticos”.

O governo Lula argumenta que o livro é fruto de 11 anos de trabalho da Secretaria de Direitos Humanos e da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, constituída em 1995 para elucidar as mortes e desaparecimentos ocorridos entre 1961 e 1988. “Direito à Memória e à Verdade”, aplaudido por partidos de esquerda, pela sociedade civil e por diversas instituições e ONGs, inclui um minucioso estudo sobre 339 mortos e desaparecidos registrados pela comissão. Além disso, lembra os 136 nomes de vítimas que o governo Fernando Henrique Cardoso já reconheceu na lei 9.140 de 1995. O livro, segundo o próprio governo Lula, é o maior esforço desde a instauração da democracia para se restaurar a memória histórica.

O atual ministro da Defesa, Nelson Jobim, acompanhou Lula na apresentação do livro. No entanto, nenhum comandante do exército estava presente. O desencontro foi tal que o comandante-em-chefe do exército, general Enzo Martins, afirmou que não enviaria representante ao ato de lançamento do livro. Os militares afirmam que o texto é partidarista e que não se ajusta à realidade, entre outras coisas porque Paulo Vannuchi, secretário de Direitos Humanos da Presidência, foi militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN), a principal organização da luta armada contra o regime militar no final da década de 70.

Vannuchi defende que as famílias das pessoas torturadas que mais tarde se suicidaram também recebam indenizações. Os militares, por sua vez, acusam os autores do documento de ter um objetivo: “Aumentar ainda mais a indústria da indenização de criminosos políticos”.

Delfim Netto, que ocupou vários ministérios durante a ditadura, afirmou que “há certas dúvidas de que seja verdade o que é publicado nele”. Em troca, Frei Betto, conhecido opositor à ditadura e ex-aliado de Lula, afirmou no jornal “Folha de S.Paulo” que “a memória histórica brasileira sofreu tentativas de apagamento” e que o livro não é “um ato de vingança, mas de justiça”.

Para Cecília Coimbra, presidente do grupo Tortura Nunca Mais, o texto “é apenas um pequeno passo para o esclarecimento do que ocorreu durante o regime militar”. Sua organização luta há anos sem sucesso pela abertura total dos arquivos militares. Essa abertura provocou uma das grandes polêmicas do país e, apesar do clamor popular e internacional, as iniciativas nesse sentido se chocaram com os militares. O governo do Rio Grande do Sul foi o único que abriu seus arquivos e inclusive realizou uma exposição sobre a repressão política em Porto Alegre.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

La Vanguardia

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Habitação responde pelo maior gasto das famílias, diz IBGE

DIANA BRITO
Colaboração para a Folha Online, no Rio

Os gastos com habitação são os que mais pesam no bolso das famílias brasileiras, segundo dados da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) 2002-2003 divulgados nesta quarta-feira pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Das 48,5 milhões de famílias pesquisadas, independentemente da composição familiar, habitação correspondeu a 35,5% dos gastos.

Das famílias cujo maior gasto foi habitação, o maior peso dentro da categoria veio do aluguel: 45%. O levantamento destaca os grupos de referência de 60 a 69 anos e de 70 anos ou mais, para os quais os aluguéis representam mais da metade do total da despesa de consumo média mensal familiar com habitação.

Na segunda maior participação nas despesas, o estudo aponta alimentação (20,75%) em todos os arranjos familiares, exceto casal sem filhos, onde transporte ocupa esta posição. A aquisição de veículo foi o item desta categoria de maior peso, acima de 33%, tanto para a área urbana como para rural.

Depois de alimentação, no geral, aparecem transporte (18,44%), assistência à saúde (6,49%) e educação (4,08%).

Ainda em relação a despesas médias mensais familiares com alimentação, os gastos mais expressivos são encontrados na área urbana (R$ 350), embora nesta área esse item de despesa tenha menos peso (23%) do que na área rural (36,5%).

Em outro item, quase 50% do total da despesa com assistência médica foi representada por remédios, com variações entre 40% e 54% na área urbana do país, detalhou a POF. Os percentuais de maior expressão no item remédios se concentraram na área rural, entre 70% e 84%, do total de gastos na categoria de saúde.

Já a despesa com educação estava entre as mais baixas. Segundo o levantamento, a participação foi de 4% em relação ao total das despesas de consumo. A área urbana seguiu esse mesmo quadro, enquanto a área rural apresentou percentuais menores. As famílias com referência de 40 a 49 anos se destacaram com os percentuais de maior significância de gastos com educação, tanto na situação urbana como na rural, pontuou a pesquisa.

Por região, Norte, Nordeste e Sul registraram percentuais abaixo de 3,5% nos gastos com educação. A região Sudeste foi a que apresentou o maior percentual de investimentos em educação: 4,7%.

De acordo com o estudo, as despesas com recreação e cultura se concentraram nas famílias dos estratos de menor faixa etária, observando-se um declínio à medida que a idade da pessoa de referência avança. A região Sudeste foi a que mais destinou gastos para recreação e cultura (2,5%), chegando a atingir quase 5% nas famílias cuja pessoa de referência estava no grupo de 10 a 19 anos.

Escolaridade

Segundo o estudo, as famílias chefiadas por uma pessoa de cor branca ganham 25% a mais do que a média nacional (R$ 1.794,32). A remuneração média das famílias lideradas por brancos é de R$ 2,262,24, contra R$ 1.245,09 de chefes negros e R$ 1.232,62 de pardos.

Pela escolaridade, as famílias chefiadas por pessoas com 11 anos ou mais de estudo tinham renda mais elevada (R$ 3.796). Nas com menos de um ano de instrução, a renda era, em média, R$ 752. leia dados completos aqui

POF 2002-2003

A pesquisa traça um perfil das despesas e rendimento de acordo com a característica da pessoa de referência, tais como a inserção no mercado de trabalho, escolaridade, idade, o sexo, a cor ou raça, e a religião, entre outras.

Esta é a quarta pesquisa realizada pelo IBGE sobre orçamentos familiares. As anteriores foram o Estudo Nacional de Despesa Familiar (ENDEF 1974-1975), com âmbito territorial nacional, à exceção da área rural da região norte e centro-oeste; POF 1987-1988 e a POF 1995-1996 –essas duas tinham como meta atender a atualização das estruturas de consumo dos índices de preços do consumidor produzidos pelo IBGE, sendo realizadas nas regiões metropolitanas do país.

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Ricos gastam dez vezes mais que os pobres, diz IBGE

DIANA BRITO
Colaboração para Folha Online, no Rio

Um estudo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgado nesta quarta-feira, com base em dados da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) 2002-2003, aponta que o rendimento médio de 10% das famílias com pessoas que recebem salários mais altos (renda a partir de R$ 3.875,78) é dez vezes maior que 40% das famílias com salários mais baixos (até R$ 758,25).

No ano de 2003, 40% de famílias com menos rendimentos possuíam, no país, uma despesa per capita de R$ 180, enquanto as 10% mais ricas tinham gastos em torno de R$ 1.800. Esse dado aponta claramente, segundo o IBGE, a desigualdade na distribuição das despesas familiares brasileiras.

Para fazer a pesquisa, o IBGE tomou como base uma tabela que destaca a renda média mensal familiar total e os rendimentos específicos associados a cinco classes de famílias.

A primeira classe é adotada para indicar a produtividade mensal de até R$ 400, que inclui as famílias sem rendimento; a segunda é para revelar rendas familiares com mais de R$ 400 a R$ 1.000; a terceira indica rendimentos de mais de R$ 1.000 a R$ 2.000; a quarta mais de R$ 2.000 a R$ 3.000; e a quinta é composta pelas famílias com produtividade superior a R$ 3.000.

Perfis

Ao comparar as despesas médias entre áreas urbanas e rurais, o levantamento mostra que a despesa urbana média per capita era 46% maior que a rural. Ele também destaca que as áreas urbanas possuíam um maior grau de desigualdade uma vez que a distância entre os mais pobres e os mais ricos era de 9,3, enquanto na área rural era de 8,3.

No Brasil, segundo a pesquisa, a maior despesa entre os mais pobres foi observada na região Sul (R$ 234) e a menor na região Nordeste (R$ 138). No Sul, a despesa é 70% maior que no Nordeste, o que mostra uma desigualdade alta mesmo entre os pobres.

Por região, a mais desigual do país é o Nordeste, onde os mais ricos gastam 11,8 vezes mais que os mais pobres no Nordeste. Na outra ponta, as menos desiguais foram as regiões Norte e Sul, com distâncias médias praticamente iguais (oito vezes).

Por perfil de gasto, segundo o IBGE, o com habitação é o que mais pesa no bolso das famílias brasileiras. Das 48,5 milhões de famílias pesquisadas, independentemente da composição familiar, habitação correspondeu a 34,8% dos gastos.

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Modelo no front

Na Europa da Segunda Guerra, a fotógrafa Lee Miller era a única mulher na cobertura das batalhas. Esse foi apenas um capítulo da vida da ex-manequim, musa dos surrealistas

Ana Paula Alfano

Lee Miller tirou o uniforme cáqui do exército, os coturnos pesados e entrou nua na banheira. Teria sido um banho como outro qualquer, não fosse a câmera do amigo (e amante) Dave Scherman, fotógrafo da revista semanal Life, que registrou o momento. A banheira não era apenas uma banheira. A casa não era apenas uma casa. E o dia não era outro qualquer.

Tratava-se do banheiro da casa onde Adolf Hitler morara durante anos, em Munique, no número 16 da rua Prinzregentenplatz. E era 30 de abril de 1945. Naquela mesma noite, a rede BBC daria a notícia de que o ditador cometera suicídio, em Berlim. Além do local e da data históricos, a imagem resume num só clique quem foi a fotógrafa americana Lee Miller: uma mulher ousada, sem pudores e à frente de seu tempo, ex-modelo, musa dos surrealistas e, no momento daquele banho, correspondente de guerra da revista Vogue sim, durante a Segunda Guerra Mundial eles não falaram apenas de moda).

Como uma modelo virou fotógrafa e foi parar no front de combate, durante a guerra? Inquieta e atrás de novidades, Lee era movida a aventuras, como conta a biógrafa Carolyn Burke no livro Lee Miller - A Life. Nascida em Poughkeepsie, estado de Nova York, viveu em Manhattan, Paris, Cairo e se mudou para Londres exatamente no dia em que a guerra contra a Alemanha foi declarada.

Não queria ser apenas espectadora. Como não podia se alistar nas forças auxiliares, por ser estrangeira, procurou a Vogue inglesa com sua máquina debaixo do braço, propondo registrar a guerra para a revista. Na época, a relação da publicação com a guerra se limitava a reportagens, por exemplo, sobre que cor de batom usar com o cáqui dos uniformes, ou como se vestir bem com o racionamento de tecidos.

Lee convenceu a editora Audrey Whiters a deixá-la ir além. “Revistas - diferentemente de livros - são essencialmente sobre o aqui e o agora. E o agora que estamos vendo é a guerra”, Whiters explicou na época.

O primeiro grande ensaio de Lee feito num front, na Normandia, foi publicado em 1944. “Eu fotografava e virava o rosto para o outro lado. Não queria encarar os feridos, com medo de que minha feição me traísse e entregasse àqueles homens o horror que eu estava sentindo”, Lee escreveu no texto, que mudaria o jeito como a Vogue até então era encarada no mercado. “Ninguém imaginava que faríamos aquele tipo de reportagem, porque éramos vistos apenas como uma revista de moda fútil.”

Lee passou um ano de front em front: foi a única correspondente mulher a acompanhar batalhas em solo europeu durante toda a guerra. Muitas fotos eram confiscadas por censores e, no meio do caminho, Lee precisou voltar para casa porque teve sua credencial cassada pelo Shaef (Supreme Headquarters Allied Expeditionary Force), comando das Forças Aliadas no norte da Europa, que proibia a presença de mulheres no front.

Sem se dar por vencida, ela conseguiu uma autorização de trabalho da Força Aérea, que, ao contrário do Exército, dava a homens e mulheres o mesmo direito de cobrir a guerra. Os dois sexos tinham também condições iguais no dia-a-dia do front. Ela se lavava com água de chuva que juntava em seu próprio capacete e comia a mesma ração distribuída aos soldados.

Além de bombardeios, clicava a rotina dos oficias, as ruínas e os corpos putrefatos e ouvia histórias de sobreviventes, o que a transformou numa inimiga ferrenha dos nazistas. No início de 1945, quando a Alemanha já tinha praticamente perdido a guerra, Lee se dedicou a fotografar oficiais alemães mortos.

Todo o trabalho de guerra de Lee Miller foi publicado em junho de 1945, num número histórico da Vogue inglesa, até hoje cobiçado por colecionadores, que foi batizado de “edição da vitória”.

O começo de tudo
Lee deu os primeiros passos na fotografia com o pai, Theodore, com quem mantinha uma relação de adoração quase doentia - a ponto de, já adulta, posar nua para ele, muitas vezes na companhia de outras amigas. Apesar de ter crescido numa cidade do interior, ela tinha uma cabeça de metrópole.

A primeira viagem à Europa foi aos 18 anos, com uma professora de dança polonesa. Chegou a Paris e ficou hospedada num hotel que servia de bordel. “Foi ali que senti, pela primeira vez, tudo se abrindo para mim”, revelaria a fotógrafa, 50 anos mais tarde. Ela levava vida de artista, com pouco dinheiro e muita boemia.

Estudava cenografia na revolucionária L’Ecole Medgyès e também era amante do dono do curso, bem mais velho que ela. Era 1925 e os dadaístas estavam reinventando a si mesmos como surrealistas, liderados por André Breton. Jean Cocteau, Pablo Picasso, Gertrude Stein e Ernest Hemingway fervilhavam. Um ano mais tarde, de volta a Nova York, Lee decidiu se dedicar melhor à dança e entrou para o corpo de baile da companhia George White’s Scandals.

O dinheiro era curto e a vida em Manhattan cara demais - para ganhar um extra, arranjou emprego de modelo de lingerie da marca Stewart & Company, na Quinta Avenida. Não tinha a intenção de transformer aquilo em carreira, até cruzar com o poderoso Condé Nast, dono de um império editorial que incluía a famosa revista de moda Vogue. Ele a parou no meio da rua e a convidou para visitar seu escritório e trabalhar na Vogue.

Edna Chase, editora da revista, já estava acostumada a ter na redação protegidas do senhor Nast, mocinhas lindas e incompetentes. Mas se surpreendeu com Lee, que resumia sua nova linha editorial, direcionada a mulheres modernas e independentes. Lee foi a capa da edição de março de 1927, virou a preferida dos fotógrafos de moda e, incentivada por eles, voltou a fotografar.

Apaixonada pelo assunto, ficou sabendo do trabalho revolucionário de Man Ray, na França. Fez as malas e, em 1929, foi atrás do fotógrafo. Seguiu para o estúdio de Ray, no bairro de Montparnasse, e se apresentou como sua mais nova aluna. “Não tenho alunos e vou passar todo o verão fora de Paris”, o fotógrafo respondeu. “Eu vou junto”, ela retrucou.

E assim foi. Apaixonado pelo lado ousado de Lee, Ray, 17 anos mais velho, transformou-a em pupila, assistente e amante. Os dois viveram juntos por três anos. Foi uma escola importantíssima para a carreira da fotógrafa. Além de aprender a técnica, Lee convivia com os amigos do namorado, os maiores artistas da época.

O crash da bolsa de Nova York, em 1929, afetou o movimento do estúdio de Man Ray. Sem dinheiro, Lee procurou a Vogue francesa. A revista era a única que não tinha sido abalada pelos problemas econômicos do mundo e abastecia as Vogue americana e britânica com ensaios de moda.

Lee virou modelo de vários deles. George Hoyningen-Huene, chefe do estúdio da Vogue na França, logo entrou para a lista de fãs da jovem Lee e a nomeou sua assistente. Man Ray morria de ciúmes da namorada. Incentivava seu trabalho, mas não conseguia conviver com seu espírito moderno e livre. Sufocada e apaixonada por outro homem, o aristocrata egípcio Aziz Eloui Bey, que viria a se tornar seu primeiro marido, Lee terminou o romance com Ray.

O fanatismo de Man Ray pela americana era tão grande que, arrasado, ele fez na época um auto-retrato - a foto o mostrava ao lado de uma arma e com uma corda em volta do pescoço. Lee retornou a Nova York já famosa, símbolo maior da mulher moderna, e dona de seu próprio estúdio.

Ensaios da Vogue a colocavam na posição de ícone de elegância. A carreira estava ótima - Lee clicava campanhas de marcas como Saks Fifth Avenue, Macy’s, Helena Rubinstein e Elizabeth Arden. Cada vez mais enfocada em fotografia de moda, se distanciava do experimentalismo de Man Ray. Mas, em 1934, mesmo eleita pela revista Vanity Fair um dos sete fotógrafos ainda vivos mais brilhantes do mundo, Lee não estava satisfeita. Não achava moda o assunto mais interessante do mundo.

Então casada com Aziz, decidiu largar tudo para morar com ele no Cairo. O começo da vida de Lee no Egito foi um período distante de tudo - da família, dos amigos e, principalmente, dela mesma. A fotógrafa queria negar o que tinha sido até ali. O marido, engenheiro formado na universidade inglesa de Liverpool, era 16 anos mais velho e

dono de uma mente aberta. Durante dois anos a fotógrafa não exerceu seu ofício.
Quando a monotonia finalmente começou a incomodar Lee, a camera voltou a ser sua maior companheira. Um capítulo importante de sua obra são os ensaios que fez em expedições pelo Oriente Médio, naquela época. Se, durante seu primeiro casamento, Lee se enquadrou às regras e ao padrão esperado na época, o mesmo não pode ser dito do segundo.

O relacionamento com o pintor e poeta inglês Roland Penrose, bissexual, com quem Lee viveu até morrer, de câncer, em 1977, começou numa festa, em 1937. Naquela noite, Roland estava com os cabelos verdes, a mão direita pintada de azul e calças com cores do arco-íris. Um dos maiores responsáveis por lever o surrealismo para a Inglaterra, depois de organizar no país a primeira exposição do gênero, na New Burlington Galleries, Roland tinha o que Lee mais apreciara durante toda a sua vida: era, como ela, uma pessoa guiada pela vanguarda.

Aventuras na História
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Nordeste é a região mais desigual do país, aponta IBGE

DIANA BRITO
Colaboração para a Folha Online, no Rio

A região mais desigual do país, na comparação entre gastos de ricos e pobres, é o Nordeste. Segundo dados da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) 2002-2003, divulgados nesta quarta IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os mais ricos gastam 11,8 vezes mais que os pobres no Nordeste.

No Nordeste, os mais ricos tiveram gasto per capita de R$ 1.600, enquanto os mais pobres gastaram R$ 138. Na outra ponta, as menos desiguais foram as regiões Norte e Sul, com distâncias médias praticamente iguais (oito vezes).

O Norte apresentou a menor despesa entre os ricos (R$ 1.244), enquanto os pobres gastaram cerca de R$ 160. O Centro-oeste, por sua vez, teve o maior gasto dos ricos (R$ 1.960). Já o Sul teve a maior despesa entre os pobres (R$ 234), enquanto os ricos gastaram cerca de R$ 1.800, segundo o estudo.

Por Estado, segundo o levantamento, entre os mais pobres, o Maranhão possuía a menor despesa per capita, de R$ 116, e o Distrito Federal a maior, de R$ 280. Já entre os ricos, a menor despesa ficou com o Amapá, R$ 913, e a maior com o Rio de Janeiro, R$ 2.339. Esse resultado mostra uma grande desigualdade entre regiões.

Outro ponto que chama atenção é o fato do Amapá ter mostrado o menor nível de desigualdade (5,3), com a menor diferença de gastos per capita entre os mais ricos (R$ 913) e os mais pobres (R$ 180), demonstrando uma relação mais eqüitativa nas despesas das famílias.

A pesquisa também destaca que apesar de o Maranhão ter apresentado, em 2003, a menor despesa per capita, Alagoas ficou com o maior nível de desigualdade (15,6 vezes).

No geral, o estudo do IBGE aponta que o rendimento médio dos mais ricos é dez vezes maior que o de dos mais pobres. No ano de 2003, 40% de famílias com menos rendimentos possuíam, no país, uma despesa per capita de R$ 180, enquanto as 10% mais ricas tinham gastos em torno de R$ 1.800. (leia mais aqui)

Por perfil de gasto, segundo o IBGE, o com habitação é o que mais pesa no bolso das famílias brasileiras. Das 48,5 milhões de famílias pesquisadas, independentemente da composição familiar, habitação correspondeu a 34,8% dos gastos. (leia mais aqui)

Perfil dos rendimentos

A Pesquisa traça um perfil das despesas e rendimento de acordo com a característica da pessoa de referência, tais como a inserção no mercado de trabalho, escolaridade, idade, o sexo, a cor ou raça e a religião, entre outras.

Esta é a quarta pesquisa realizada pelo IBGE sobre orçamentos familiares. As anteriores foram o Estudo Nacional de Despesa Familiar ENDEF 1974-1975, com âmbito territorial nacional, à exceção da área rural da região norte e centro-oeste, POF 1987-1988 e a POF 1995-1996, essas duas tinham como meta atender a atualização das estruturas de consumo dos índices de preços do consumidor produzidos pelo IBGE, sendo realizadas nas regiões metropolitanas do país.

O IBGE diz que a crescente necessidade de conhecimentos do perfil socioeconômico da população brasileira é uma das principais justificativas para a retomada deste estudo, que passou a incluir, por necessidade de informações detalhadas sobre as condições de vida a partir do consumo (especialmente das famílias de menor rendimento), as áreas rurais.

Além das investigações tradicionais, são levantadas as aquisições não-monetárias, que correspondem a tudo que é produzido, pescado, caçado, coletado ou recebido em bens (troca, doação, retirada do negócio e salário em bens).

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Elvis, a explosão do rock

Seu primeiro disco, de 1954, foi o marco inicial de uma revolução chamada rock’n’roll. Elvis morreu em 1977 (a despeito do que acreditam seus fãs), mas as mudanças que ele iniciou continuam influenciando os jovens do mundo todo

André Barcisnky

Em julho de 1954, o telefone tocou numa casa simples da periferia de Memphis, Tennessee, no sul dos Estados Unidos. Gladys, uma senhora na casa dos 40 anos, atendeu e ouviu a voz de um homem, que se apresentou como Scotty e perguntou por seu filho. “Elvis não está. Quer deixar recado?”

O “Scotty” era Scotty Moore, um guitarrista local de algum sucesso que procurava um cantor para sua banda e recebeu de um amigo, Sam Phillips, a dica sobre o tal Elvis.

Phillips, que tinha a fama de descobrir novos talentos, era dono de uma pequena gravadora em Memphis, a Sun Records, e oferecia a qualquer interessado a chance de gravar um disco por 4 dólares. Foi atrás dessa chance que em meados de 1953 Elvis Presley, então com 18 anos, entrou nos estúdios da Sun. Ele gravou duas faixas. Em janeiro do ano seguinte voltou e gravou mais duas. Sam não ficou muito impressionado com ele, mas anotou seu nome e telefone.

Na época, Elvis ganhava a vida dirigindo caminhão, mas não abandonara o sonho de ser cantor. Elvis Aaron Presley nasceu em 8 de janeiro de 1935 em Tupelo, Mississípi. Sua mãe deu à luz gêmeos, mas o primeiro, Jesse, nasceu morto. Os Presley eram pobres. O pai, Vernon, trabalhou como leiteiro, carpinteiro e motorista e chegou a passar oito meses preso por falsificar cheques.

Elvis adorava música desde pequeno, gostava dos cultos da Igreja Pentecostal, onde sempre havia cantorias, e, aos 10 anos de idade, recebeu um prêmio num concurso de canto. Em 1946 ganhou sua primeira guitarra, presente de dona Gladys. Em 1948, a família se mudou para Memphis. Elvis foi matriculado numa escola para brancos, mas costumava freqüentar os bairros negros para ouvir seus bluesmen favoritos, como Furry Lewis e B.B. King. Passava as noites ouvindo no rádio música country, blues, gospel e até música clássica.

Quando Elvis respondeu ao telefonema de Scotty Moore, sabia que aquela poderia ser a chance pela qual esperava. Na sessão que hoje é considerada o marco zero do rock, Elvis Presley produziu um clássico: “That’s All Right”, versão de um antigo blues de Arthur “Big Boy” Crudup, que ele acelerou até torná-lo um autêntico rock’n'roll. “Quando Sam Phillips ouviu aquilo não acreditou. Era o que vinha buscando havia anos: um branco que pudesse cantar como um negro”, afirma Peter Guralnick em sua biografia de Elvis, Last Train to Memphis (”O Último Trem para Memphis”, inédito em português).

Preto no branco
A questão racial esteve presente na carreira de Elvis desde o início. Ele era um garoto branco apaixonado por música negra, fosse ela gospel, rhythm’n'blues ou country. Sua fama abriu espaço para um sem-número de roqueiros negros, como Little Richard, Chuck Berry e BoDiddley. E ele nunca fez segredo sobre as origens de sua música: “Os negros vêm cantando dessa forma há muitos anos”, dizia. “Mas ninguém prestava atenção neles, até que eu apareci. Eu aprendi tudo com eles.”

Falar uma coisa dessas nos anos 50 era um ato de coragem. No sul dos Estados Unidos, as escolas eram segregadas. Havia lojas de brancos e lojas para “pessoas de cor”, emissoras de rádios de “música branca” e de “música negra”. Mas Elvis queria ser ouvido por todos.

E logo passou a ser. Dois dias depois da histórica gravação em Memphis, o disc-jóquei Dewey Phillips tocou “-That’sAll Right” em seu programa Red Hot and Blue, e Elvis tornou-se uma sensação local. Vieram os primeiros shows e sua fama começou a se espalhar depois que ele descobriu o que fazia as meninas gritarem tanto. Após uma apresentação, perguntou a Scotty Moore: “Por que elas gritam tanto?” O guitarrista respondeu: “É sua perna”, disse. “É o jeito como você mexe a perna.”

Nos conservadores anos 50, o estilo explosivo e sensual de Elvis o diferenciava dos crooners bem comportados, estáticos atrás dos microfones, entoando músicas de amor com suas vozes perfeitas. Elvis sacudia os quadris, grunhia e soltava longos suspiros no meio das músicas. Era uma revolução, pelo menos para o público branco, que não tinha visto gente como Little Richard e Chuck Berry em ação.

Em 1955, Elvis conheceu o coronel Tom Parker, um misterioso imigrante holandês que havia tentado a sorte no circo e em várias esferas do show business, até tornar-se um respeitado agente musical. Parker passou a gerenciar a carreira de Elvis e seu apurado tino para negócios ajudou a tornar o cantor um astro. Parker convenceu a gravadora RCA a comprar o passe do cantor à Sun, pela enorme (para a época) quantia de 40 mil dólares. A RCA era uma gravadora grande, porém pouco ousada. Os principais nomes de seu cast eram cantores românticos como Perry Como e Harry Belafonte. Elvis era um peixe fora da água na RCA.

Mas logo virou um tubarão. Em 1956 ele se tornou uma celebridade, gravando um sucesso atrás do outro, entre eles “Heartbreak Hotel”, “Blue Suede Shoes”, “Don’t Be Cruel” e “Love me Tender”. Estreou no cinema no filme Love me Tender e lançou seu primeiro LP, Elvis Presley. Na lista dos compactos mais vendidos do ano, ficou com os dois primeiros lugares, desbancando gente famosa como Frank Sinatra, Dean Martin e Pat Boone.

Rei do pop
O sucesso atraiu as críticas. Os mais conservadores desprezavam Elvis e consideravam sua música um lixo. Era difícil aceitar que um caipira rebolador pudesse vender mais discos que cantores consagrados como Sinatra e Belafonte. Em janeiro de 1957, Elvis apareceu no programa de TV de Ed Sullivan, um dos mais populares do país. Mas só quem esteve lá pôde vê-lo de corpo inteiro. A emissora, preocupada em não chocar os telespectadores, filmou Elvis só da cintura para cima. Na época, ele ganhou oapelido de “Elvis, the Pelvis”. Estava acesa a chama sob o caldeirão do rock, onde ferveria toda uma geração de jovens. Ninguém mais poderia detê-los.

Nem o Exército. Em 1958, Elvis foi convocado e, numa jogada publicitária, Parker incentivou-o a ir. Antes, porém, fez com que o cantor deixasse gravados vários compactos. Parker recusou qualquer tipo de tratamento especial a Elvis, com a certeza de que isso seria ótimo para a imagem do cantor. E foi.

Depois de passar pelo treinamento no Texas, Elvis foi para uma base militar na Alemanha, onde ficou 18 meses.Lá, cumpriu funções normais dos soldados, como fazer exercícios e montar guarda nos portões da base. Durante esse tempo, não cantou em público, mas participou de dezenas de sessões de fotos para mostrar como era sua vida de militar. No auge da Guerra Fria,Elvis foi o melhor garoto-propaganda com que o Exército americano poderia ter sonhado. O afastamento não diminuiu o interesse por suas músicas, pelo contrário. Mesmo com ele ausente, a RCA lançou vários compactos de sucesso, como “Wear my Ring Around your Neck”, “Hard Headed Woman”, “One Night” e “A Big Hunk o’Love”.

No quartel, Elvis conheceu as drogas. Introduzido por um sargento que recomendava pílulas de anfetaminas aos soldados para mantê-los atentos e eficientes nos exercícios, ele iniciou uma longa dependência química, que viria a ter resultados trágicos. No final de sua temporada na Europa, Elvis conheceu a adolescente Priscila Beaulieu, com quem iniciou um romance.

Em março de 1960, Elvis deu baixa. A volta para casa foi problemática. E triste. Sem a mãe por perto (dona Gladys morrera em 1958), sua vida entrou numa espiral descendente. Profissionalmente, sua carreira passava por uma grande mudança. Saem as excursões e shows, entramos filmes. Durante toda a década, a única maneira de os fãs verem seu ídolo era comprando ingressos para o cinema. Mas mesmo longe dos palcos, os discos de Elvis - quase todos gravações da trilha sonora dos filmes - continuavam vendendo bem, embora a concorrência estivesse muito mais forte. O rock já dava pinta de que viraria uma fábrica de ídolos, com o surgimento de grupos como os Beatles e os Rolling Stones. Elvis parecia descontente com a direção de sua carreira, e reclamava com o coronel Parker da qualidade dos filmes que estava fazendo, pérolas como O Seresteiro de Acapulco, Meu Tesouro É Você e Garotas, Garotas e Garotas. O ritmo de trabalho era massacrante: entre 1956 e 1969, ele estrelou nada menos que 31 longas-metragens.

Em casa, a coisa ia ainda pior. Elvis não fazia segredo do vício em anfetaminas e começou a recomendar as pílulas para amigos e músicos de sua banda. Cada vez mais rico e drogado, Elvis aos poucos foi se tornando um recluso em sua mansão, Graceland. Lá, cercou-se de um grupo de empregados e amigos, que ficou conhecido como a “Máfia de Memphis”. Em 1961, Priscila se mudou para Graceland. Seis anos depois, eles se casariam e teriam Lisa-Marie, única filha do casal.

Elvis estava estranhamente obcecado. Colecionava armas e distintivos policiais. Passou a dar declarações de que sua missão era “ajudar os Estados Unidos a acabar com o risco das drogas e do comunismo” e, numa cena hoje lendária, visitou a Casa Branca para pedir ao presidente Richard Nixon que lhe outorgasse uma credencial do FBI. A foto de Nixon e Elvis apertando as mãos é uma das imagens mais bizarras e emblemáticas dos anos 70. Elvis, o antigo rebelde, cumprimentando o homem que, provavelmente, estava entre os que chamavam sua música de “lixo”, nos anos 50. Foi o início do fim de Elvis Presley.

A década de 70 foi um pesadelo interminável para Elvis. Ele havia se tornado um “prisioneiro” em Graceland, tomando anfetaminas, barbitúricos e tranqüilizantes e sendo vigiado por guarda-costas brutamontes. Embora suas turnês em Las Vegas batessem recordes de arrecadação, sua música caiu de qualidade. Ele engordou muito e chegou a ter um colapso antes de um show na Flórida, que teve de ser cancelado.

No fim de 1971, Priscila o abandonou, levando a filha Lisa-Marie. Amigos do cantor disseram que isso era o que faltava para o colapso emocional e físico de Elvis. Nos cinco anos seguintes, os dias alegres tornaram-se cada vez mais raros. Embora a adoração do público nunca tivesse diminuído e os shows estivessem sempre lotados (o especial de TV Aloha from Hawaii foi visto por 1 bilhão de pessoas), Elvis vivia infeliz. Sua saúde estava se deteriorando e as internações em clínicas de reabilitação e hospitais tornaram-se rotina.

A curta vida de Elvis Presley chegou ao fim em 16 de agosto de 1977. Por volta de 13h30, sua namorada, Ginger Alden, encontrou-o sem vida, deitado no chão do banheiro, em sua mansão. O rei estava morto.

Aventuras na História
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A China e o equilíbrio do terror financeiro

Alejandro Nadal

Durante o apogeu da guerra fria, a doutrina da destruição mútua assegurada era fundamental: os Estados Unidos e a União Soviética mantinham seus arsenais em estado de alerta permanente e ambas as super-potências sabiam que não podiam pretender aniquilar todas as armas nucleares da outra num ataque surpresa. O arsenal sobrevivente seria suficiente para infligir danos intoleráveis ao atacante. A garantia da destruição mútua assegurada tinha em inglês a sugestiva sigla de MAD (mutual assured destruction). Como indica o acrónimo, era baseada numa loucura.

Hoje uma estrutura parecida rege o destino da economia mundial. Os Estados Unidos e a China estão atados por um dilema semelhante ao equilíbrio do terror nuclear, mas desta vez aplicado às finanças internacionais: o primeiro é o maior devedor do mundo, ao passo que o segundo é o seu credor mais importante.

O défice estado-unidense em conta corrente aumenta a cada mês em velocidade vertiginosa. Isso faz com que cresçam os temores quanto ao valor do dólar ou, para sermos mais precisos, sobre a duração da calma antes da tormenta. Com efeito, um cenário no qual se produza a fuga frente ao dólar e todo o mundo queira trocá-los por outro tipo de activos ou divisas não é impensável. Nesse contexto, surge a grande pergunta: estaria a China interessada em detonar esse processo?

A China tem reservas de 1,2 mil milhões de dólares. Desse montante, aproximadamente 900 mi milhões encontram-se numa mistura de títulos e bónus do Tesouro dos EUA. Qualquer movimento no sentido de se desfazer desta massa de recursos denominados em dólares provocaria a derrubada da divisa verde, uma alta nas taxas de juros no Estados Unidos e provocaria uma recessão severa nesse país. A própria estabilidade da economia mundial estaria em jogo.

Na semana passada funcionários do governo chinês utilizaram a metáfora da “opção nuclear” ao insinuar que o seu país poderia utilizar suas reservas em bónus do Tesouro estado-unidense como arma de negociação, em resposta à imposição de sanções comerciais por parte de Washington.

A ameaça foi recebida com mal estar nos Estados Unidos. Mas também com incredulidade por se considerar que se a China provocasse a derrubada do dólar sofreria perdas enormes uma vez que 70 por cento das suas reservas estão em activos denominados em dólares. Pior ainda, afectaria negativamente a economia estado-unidense e isso não lhe convém porque esse país está entre os seus principais clientes.

Mas os EUA continuam obcecados com a ideia de que o incremento do seu défice comercial com a China é devido à sub-avaliação do renminbi (que embaratece mais as exportações chinesas). Todos os políticos da Casa Branca, desde Bush até Obama e Hillary, repetem esta ideia: haverá que impor sanções comerciais aos chineses se não tratarem de reavaliar o renminbi a fim de eliminar esta fonte desleal de competitividade. Esta colocação ignora que nos últimos dois anos o renminbi valorizou-se uns 10 por cento contra o dólar, mas isso não travou o incremento no superávite comercial chinês, que em Junho último atingiu os 27 mil milhões de dólares.

Nesta era de volatilidade, reestruturação de mercados de crédito e intervenções da autoridades monetárias para acalmar borbulhas especulativas, ressurge o medo de uma crise financeira global. O equilíbrio do terror que liga a China e os Estados Unidos é a peça chave do tecido económico internacional e o nervosismo dos credores (detentores de dólares) aumenta.

Na economia planetária os seus agentes sabem que estão contados (se é que já não se acabaram) os dias em que o dólar estado-unidense era a moeda de reserva internacional por excelência. Mas ainda se mantém uma situação na qual a maior parte das reservas dos bancos centrais está denominada nessa divisa.

Paradoxalmente, na medida em que a China conserva uma parte significativa das suas reservas em dólares, contribui para manter o papel dessa divisa como moeda de referência à escala mundial. Mas se o equilíbrio do terror repousa num paradoxo, isso torna-o especialmente instável. A presença do euro vem complicar as coisas, porque o jogo entre três aumenta a probabilidade de desestabilização do balanço do terror e nos aproxima de um cenário de conflito aberto.

A China poderia iniciar uma mudança gradual na composição das suas reservas, digamos com 40 por cento em dólares, outros 40 por cento em euros, e uns 20 por cento em yenes. Isto levaria a uma apreciação do renminbi, que é o que Washington diz procurar. Também estaria mais de acordo com a diversificação geográfica do comércio chinês. Mas, ainda que isso pudesse permitir escapar ao dilema da destruição mútua assegurada, a ironia é que Washington não vê com bons olhos esta solução porque contribui para minar o papel do dólar a nível mundial. Os Estados Unidos insistem em jogar o tudo ou nada. Não é boa estratégia.

22/Agosto/2007

O original encontra-se em http://www.jornada.unam.mx/2007/08/22/index.php?section=opinion&article=024a1eco

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Meio século do “pé na estrada”

Obra de Kerouac se tornou indiscutivelmente o livro que os jovens de 1957 precisavam, mas o rolo esparso e despretensioso, versão original sem interferência dos editores, é a versão viva para nosso tempo

Luc Sante

Em 1951, Jack Kerouac golpeou febrilmente o primeiro rascunho de “On the Road” [ no Brasil, traduzido para “Pé na estrada”], em três semanas, em um único e enorme rolo de papel.

Esse fato – acredite se quiser - garantiu seu lugar na lista heróica de combustões literárias espontâneas. Stendhal, para escrever “A Cartuxa de Parma”, levou 52 dias, por exemplo. Também se põe ao lado da imagem de Jackson Pollock — na série de fotografias tiradas por Hans Namuth apenas alguns meses antes do cerco de Kerouac à máquina de datilografia — derrubando e arremessando tinta sobre uma tela horizontal, manchando-a, lutando e dançando com sua obra em direção à existência.

Escrever não é visto usualmente como algo excessivamente físico. Por isso, alguns escritores sentem a necessidade de compensar com corridas de touros, ou com o que quer que seja, mas alimentar aquele rolo de papel de 36 metros com a máquina de datilografia parece um exercício de força. A maioria dos escritores simplesmente produz obras fracas em papel, pode-se dizer, mas Kerouac foi e lutou contra a árvore em si.

Ao contrário da lenda, o pergaminho não era um rolo de papel para telex, mas uma série de grandes folhas de papel manteiga que Kerouac cortou para servirem na máquina e juntou com fita, e o texto não está sem pontuação — mas simplesmente sem parágrafos, o que acarreta uma certa demanda física para o leitor, que é privado das pausas para descanso usuais.

Também contrário às idéias correntes, Kerouac, em admissão própria, abasteceu seu trabalho com nada mais que café. O rolo é um pouco mais longo que o romance como foi finalmente publicado em 1957, depois de três rascunhos subseqüentes convencionalmente formatados.

A diferença mais imediata entre o primeiro rascunho e o produto final, no entanto, é que, enquanto conhecemos “On the road” como um romance — o grande romance da geração beat — o rolo é essencialmente não ficção, uma memória que usa nomes reais e é muito menos autoconsciente literariamente. É uma peça escrita fascinante por suas bordas ásperas, e, despida de afetações que no romance, algumas vezes, beiram o ridículo, bem como de pontuação gratuita fornecida por editores mais devotados a regras que à música, ela parece muito mais imediata e mesmo contemporânea.

Em alguns aspectos, as diferenças são mínimas. “On the Road”, em todas suas versões, é a história de uma série de passeios através dos Estados Unidos feitos por Kerouac entre 1948 e 1950 — “passeios”, mais que “viagens”, porque se trata mais de “cobrir terreno”, seja de carona, em ônibus ou em carros roubados.

Os pontos cardeais são Nova York, Denver e San Francisco, com escalas em Nova Orleans, Vale de San Joaquin e, finalmente, no México. Os passeios, algumas vezes, são movidos a impaciência — se ao menos as Rochosas começassem no final do túnel Lincoln! —, mas, na maioria das vezes, Kerouac revela velozmente um meio extático, uma maneira de concentrar tanta experiência e tantos altos estéticos e espirituais quanto possível em uma semana ou menos.

Essencial à empreitada inteira é a relação de Kerouac com Neal Cassady (chamado Dean Moriarty no romance), que é uma das maiores personagens da literatura americana, sem necessidade de reparos imaginativos por parte do autor.

Um escritor especialmente sintonizado com uma idéia pode achar todos os meios necessários para sua concretização caídos pela rua. Kerouac, um garoto franco-canadense de Massachusetts, da classe trabalhadora, que ganhou uma bolsa para jogar futebol americano para a Universidade Columbia, mas decidiu antes de tudo que estava menos interessado em esportes que em escrever, tinha dado evidências de sua obsessão pela estrada tão cedo quanto 1940.

Encontrar Neal Cassady, no entanto, tornou possível para que ele escrevesse a resposta da metade do século XX a “Huckleberry Finn”.

Cassady, com sua necessidade de se mover, seu vasto entusiasmo e sua inclinação priápica insaciável, poderia ter saído da lenda do Velho Oeste. Que ele roubasse carros compulsivamente em vez de guiar carruagens e atingisse a iluminação em clubes de bebop em vez de em cabanas se deu meramente em função da história. Mas ele não era um primitivo, e era muito mais que um achado. Ele lia livros, escrevia cartas, às vezes, espetaculares e estava mais no topo do zeitgeist que seus admiradores da cidade grande. Ele nasceu um grande herói e amante eufórico do mundo e deu aos beats sua alma, salvando-os — mesmo que por pouco — de se engasgarem com seu próprio misticismo.

Em “On the Road”, ele é o objeto de amor, à medida que Kerouac o persegue de costa a costa. Ele é a maior voz do livro, um assunto muito mais aparente no rolo, no qual a voz tem permissão para gemer, arremeter e ecoar sem as vírgulas que a amarram no romance. Por exemplo [leitor, sem pontuação]: “Jack quando eu estava trabalhando para a Lavanderia New Era em Los Angeles em 1945 fiz uma viagem para Indianápolis em Indiana com o propósito expresso de ver as corridas do Memorial Day pegando carona de dia e roubando carros à noite para ganhar tempo. Eu estava chegando a uma dessas cidadezinhas nós passamos com um monte de placas de carro sob minha camisa quando um xerife me pegou desconfiado”.

Pode não ser imediatamente aparente a partir de um breve excerto fora de contexto como a falta de pontuação imita a voz que fala — a pressa frenética de semicolcheias que serão pontuadas na metade da página por um estrondoso “Sim!” ou “Siiim!”. Não só os editores do romance adicionaram seis vírgulas desnecessárias, mas o próprio Kerouac pode ser acusado de ter interpolado uma frase, duas expressões e um adjetivo que arrumam e domesticam tanto a personagem como seu jazz (o xerife é “intrometido”, ele “abordou” Moriarty “na avenida principal”, e as placas estão destinadas, de algum modo, a um uso lícito).

Além de trocar todos os nomes (discutivelmente por razões legais) e cortar ou velar as descrições de sexo (bem necessário em 1957), Kerouac alterou o rolo para torná-lo um romance, guarnecendo-o de enfeites e chuviscos literários.

Uma das mais famosas passagens do romance aparece no rolo — as elipses são de Kerouac — como “as únicas pessoas que me interessam são as loucas, as que são loucas por viver, loucas por falar, desejosas de tudo ao mesmo tempo, as que nunca bocejam ou dizem uma coisa do senso comum … mas queimam, queimam, queimam como rojões através da noite”.

No romance, ele insere “loucas por serem salvas”, enquanto os rojões se tornam “fabulosos” e estão “explodindo como aranhas pelas estrelas e no meio você vê o brilho azul estourar e todo mundo diz ‘Ahhh!’”

Preocupado quanto ao fato de que a dose possa ter sido pequena demais, Kerouac depois adiciona “como eles chamavam esses jovens na Alemanha de Goethe?” Nada desse tipo de poetização ansiosa se acumula no rolo, que apenas mantém sua cabeça baixa e corre e, por isso, é muito mais autêntico literariamente.

No rolo, o uso da palavra “sagrado” deve ser 80% menor que no romance, e as referências salmódicas da geração singular do autor estão reduzidas em, ao menos, dois terços; usos da palavra “beat”[que pode significar fatigado], nesse aspecto, claramente favorecem o exausto sobre o beato. Mesmo que tais coisas não auxiliem a lenda ou a marca Kerouac, elas ajudam, sem medida, o livro. O rolo esclarece a conexão deste com o passado — com Mark Twain e histórias de andarilhos e com Woody Guthrie e sagas de caubóis — e sublinha as características que ele comparte com seu parente cultural contemporâneo mais próximo, o grande livro de estrada fotográfico “The Americans”, de Robert Frank.

“On the Road” se tornou indiscutivelmente o livro de que os jovens de 1957 precisavam, mas o rolo esparso e despretensioso é a versão viva para nosso tempo.

Luc Sante O livro mais recente de Luc Sant é “Kill All Your Darlings: Pieces 1990-2005”; ele editou e traduziu para o inglês “Nouvelles en Trois Lignes”, de Félix Féneon.

Veja também os textos “Kerouac também era tradicional” e “O mito da liberdade”. E ainda. Os arquivos em pdf originais de 1957 do New York Times Reviews de “On the Road”: Gilbert Millstein | David Dempsey

EntreLivros

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Em caso de aprofundamento da crise externa, ‘Brasil será um dos primeiros a cair’

Mateus Alves e Valéria Nader
24-Ago-2007

Para ampliar o debate acerca da crise do mercado global, detonado pelas turbulências no mercado imobiliário norte-americano, o Correio da Cidadania conversa com o economista Reinaldo Gonçalves, professor titular da UFRJ.

Para Gonçalves, caso a crise tenha impactos mais profundos na economia mundial, o Brasil será “um dos primeiros a cair”.

Diferentemente do que vem sido anunciado por grande parte dos analistas financeiros e também pelo governo, que ressaltam sólidos fundamentos econômicos internos - baseados em variáveis macroeconômicas tais como o volume de nossas reservas externas, a relação entre essas reservas e a dívida externa, os resultados da balança comercial e os do balanço de pagamento – para concluírem pela invulnerabilidade de nossa economia, Delgado enxerga-a profundamente vulnerável.

Mas como justificar uma conclusão em rota de profunda colisão com o mainstream? Basta para isso aprofundar o olhar sobre o que sejam “os sólidos fundamentos econômicos”. E é justamente o que faz Gonçalves ao se ater a uma análise que leva em conta o modelo de produção e de desenvolvimento que está em jogo. Em sua visão, através de uma política externa equivocada e atrasada, o Brasil depende crescentemente da exportação de produtos primários, como o minério de ferro, a soja e o etanol. Ao mesmo tempo, aprofunda a sua vulnerabilidade externa com a liberalização na esfera comercial, na esfera produtiva real, na esfera tecnológica e na esfera financeira.

O resultado inelutável não poderia assim ser outro que não “um modelo de produção retrógrado, que conduz a uma inserção internacional passiva para o país, mantém uma brutal concentração de renda e reforça a dominação financeira, evidente com o grande lucro dos bancos”.

Confira abaixo a entrevista e leia também o artigo de Jurandyr O. Negrão sobre a crise financeira.

Correio da Cidadania: Qual será o impacto na economia real da crise vivenciada pelos mercados mundiais nas últimas semanas?

Reinaldo Gonçalves: O impacto irá depender da forma com que o governo vai reagir. Até agora, estão esperando para ver se de fato haverá operações grandes na conjuntura internacional. Não estão querendo tomar nenhuma decisão precipitada; é um pouco o estilo do governo, de “esperar para ver como é que fica”.

Estamos com um quadro claro de forte risco e de forte incerteza. Se nós reproduzirmos o padrão recente, é bem provável que ocorra uma certa contenção das políticas macroeconômicas, ou seja, o grau de restrição dessas políticas - tanto a monetária quanto a fiscal, podendo também ser inclusa aí a política creditícia - poderá aumentar. Já há uma pressão no sentido de interromper a trajetória recente da queda dos juros, de segurar os gastos públicos e, eventualmente, poderá haver pressão sobre a expansão do crédito.

Isso irá repercutir, certamente, na taxa de crescimento da economia brasileira. Enquanto há um mês atrás todas as revisões do crescimento nacional eram para cima, chegando até em 5%, agora já se coloca revisões de 4%. Há uma mudança de expectativa; o céu já não está tão de brigadeiro como estava até julho. Mudam também as perspectivas no crescimento de investimentos e na geração de renda.

CC: A economia brasileira, então, não estaria tão blindada como vem sendo alardeado pelo governo federal?

RG: Exatamente. Os analistas mais cuidadosos dizem que o Brasil continua extremamente vulnerável. Um grande indicador disso é que, nos últimos anos, o Brasil continua entre os cinco países com mais alto grau de risco do mundo. O país não se moveu desse grupo.

A vulnerabilidade externa continua muito alta. O argumento de que o Brasil tem mais reservas hoje é um argumento fraco, pois todos os países também têm mais reservas. Em termos relativos, continuamos numa posição tão frágil quanto antes, e o mundo sabe disso.

Não é por outra razão que analistas daqui e de fora, com a crise, alertaram para o fato de que, caso haja uma transmissão mais significativa de seus efeitos, o Brasil será um dos primeiros a tombar.

CC: Há alguma novidade na gestão de Guido Mantega frente ao Ministério da Fazenda em comparação aos tempos de Antonio Palocci?

RG: Tanto a Fazenda quanto o Banco Central continuam apostando em políticas ortodoxas. Quando a água começar a subir, vão reagir elevando a taxa de juros, vão segurar os gastos e os créditos. Não tenho a menor dúvida quanto a isso.

CC: O anúncio do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) não seria um indicativo de política desenvolvimentista, em contraste com a ortodoxia observada durante o primeiro mandato de Lula?

RG: O PAC possui um conjunto de deficiências enorme, é um programa feito de maneira provisória, com mais efeito de marketing político do que outra coisa. O governo insiste em uma taxa de juros elevada, e tem embutido em si uma menor capacidade de expandir a massa de salários no Brasil via controle do crescimento do salário mínimo e dos gastos da Previdência. Por isso, não vejo o anúncio do PAC como um grande indicador de coordenação, e está longe de ser um plano de desenvolvimento. Está mais para uma lista desarticulada de projetos.

CC: A crise infra-estrutural que temos observado no país nos últimos meses pode ser considerada o principal gargalo da economia brasileira, como alguns analistas dizem?

RG: Eu acredito que não. Na realidade, a própria diretriz da economia brasileira é o seu grande gargalo. É a concentração de um modelo liberal periférico, é “para onde” o Brasil está indo, e não “como” está indo. O problema não é o fato de o barco estar com buracos e remendos, mas sim o seu rumo, que consolida um modelo de produção retrógrado, que conduz a uma inserção internacional passiva para o país, mantém uma brutal concentração de renda e reforça a dominação financeira, evidente com o grande lucro dos bancos.

Tudo isso gera mais subdesenvolvimento no Brasil, e parte desse subdesenvolvimento envolve não só uma infra-estrutura decadente, mas instituições deterioradas, uma governança degradada e perspectivas desfavoráveis.

CC: A aposta do governo na exportação de commodities trabalha ainda mais para o aprofundamento desse modelo?

RG: Sem dúvida alguma, pois é um erro estratégico gravíssimo. Através de uma política externa equivocada, atrasada e errada, o Brasil depende crescentemente da exportação de produtos primários, como o minério de ferro, a soja e o etanol. Ao mesmo tempo, aprofunda a sua vulnerabilidade externa com a liberalização na esfera comercial, na esfera produtiva real, na esfera tecnológica e na esfera financeira. Lula continua tomando medidas que avançam um processo de liberalização e, portanto, de vulnerabilidade.

Isso se mostra como verdade quando o governo estimula e foca as negociações internacionais em produtos agrícolas. O ministério de Relações Exteriores é um fracasso total. Estimulam parcerias público-privadas, tanto na infra-estrutura quanto em outras áreas, quando não há nenhum controle sobre a entrada de capital estrangeiro. A liberalização cambial e financeira também está sendo promovida; por exemplo, cada vez mais brasileiros mandam dinheiro para fora do país.

Correio da Cidadania
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Uma Disputa Emocional

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O Capitão Rodrigo Cambará (personagem de Érico Veríssimo em O Continente) dizia que é divertido ser contra o Governo. Talvez seja por isso que JK tenha decidido assinar o projeto de lei de transferência da capital federal para o Planalto Central em uma cidade do interior de Goiás. Projetos polêmicos costumam ter disputas que raiam para o emocional.

Situação semelhante estamos vivendo com relação à transposição de águas do São Francisco para abastecer o Nordeste Setentrional. O assunto foi ventilado pela primeira vez na corte de D. João VI, no Rio de Janeiro, antes da independência do Brasil. D. Pedro II, em visita ao Nordeste, resolveu executá-lo, mas a guerra do Paraguai atrapalhou seus planos. A República resolveu tomar medidas localizadas, criando açudes e cisternas, que não resolveram o problema. Agora que o modelo de medidas localizadas se exauriu, conclui-se que a medida mais eficaz é retornar ao projeto da época do Brasil Reino: a integração da bacia do São Francisco com as bacias do Nordeste Setentrional.

Tratando-se de um projeto exclusivamente técnico, o ideal seria que fosse discutido por técnicos. Entretanto, a Lei 9.433/1997, estabelece que os comitês das bacias hidrográficas sejam a primeira instância a julgar o pedido de autorização para retirada de água dos rios.

Como a água é um bem coletivo, tradicionalmente objeto de disputas, a decisão dos membros do Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF) não foi diferente do que sói ocorrer em casos como esse: negou-se a concessão, obrigando o Governo a recorrer da decisão.

Com isso, o assunto passou a ser discutido de forma exclusivamente emocional. Dezenas de artigos foram publicados, contendo os argumentos mais variados, com as mais diversas razões, reais ou fictícias, para condenar a transposição. E, como era de se esperar, os principais críticos do projeto são habitantes da bacia doadora.

Em Minas Gerais, há um grupo disposto a impedir a transposição a todo custo. A alegação é que, com a destruição da mata ciliar, a vazão do rio diminuiu e, assim, não sobrará água para a transposição. Cometem um erro hidrológico básico: a água de um rio vem das chuvas na bacia e sua quantidade independe de haver ou não matas. O que ocorre com a destruição das matas ciliares é a modificação do regime de vazão do rio, que passa a ter picos maiores, como a enchente que se observou neste ano, e vazões menores durante o período de estiagem. As vazões menores não afetam o Velho Chico, hoje com reservatórios em quase todo o seu curso. O art. 2º da Deliberação CBHSF 008/2004 reconhece que a vazão firme, a jusante de Sobradinho, é de 1.815 m3/s. O que se pede para a transposição, que será feita a jusante de Sobradinho, é apenas 26 m3/s.

Alagoas é outro estado em que é forte o movimento contra a transposição. Apenas a título de esclarecimento, a vazão mínima na foz do São Francisco, no litoral alagoano, é de 1.860 m3/s, calculada por métodos estatísticos para um período de retorno de 20 anos. Essa vazão é suficiente para irrigar todas as culturas dos alagoanos, bem como para permitir a navegação no Baixo São Francisco. Não há motivo para um movimento tão indignado no estado. Por outro lado, há o problema das enchentes que, neste ano, de acordo com notícias do site do CBHSF, já mataram cinco pessoas e desabrigaram milhares de ribeirinhos. Essas enchentes, cuja causa principal é a destruição das matas ciliares, somente serão contidas quando as matas forem restauradas. Mas há uma maneira de amenizá-las com o projeto de transposição, que terá capacidade para bombear até 127 m3/s. Enviando para o Nordeste Setentrional a água que mata e destrói nas barrancas do São Francisco, principalmente no Estado de Alagoas, estarão sendo amenizadas as enchentes que ele provoca. Por isso, a transposição trará grandes benefícios ao estado, não havendo justificação para a forte oposição ao projeto que ocorre entre os alagoenses.

O apoio que setores do Estado de Sergipe dão aos movimentos contrários à transposição chega a ser cômico. Sergipe, que faz parte do polígono das secas, foi a primeira unidade da federação a se beneficiar com um projeto de transposição de águas do São Francisco. Situando-se na bacia do Rio Sergipe, à medida que Aracaju e sua área metropolitana foram crescendo, mais se acentuava o problema da falta de água. A solução foi integrar a bacia do Rio Sergipe à bacia do Velho Chico, passando o São Francisco a suprir cerca de 70% da demanda de água de Aracaju. Quando alguns sergipanos combatem a execução de uma nova transposição, lembramo-nos daquela fábula em que o macaco se senta no próprio rabo para criticar os rabos dos outros macacos.

O governador da Bahia é francamente favorável à transposição, mas a boa terra é o estado onde é mais forte a resistência ao projeto. Basta lembrar que foi na cidade de Barra que o bispo local chegou a fazer greve de fome contra o projeto. No entanto, os baianos deveriam prestar mais atenção à distribuição das vazões alocáveis do São Francisco, da qual são os grandes beneficiários. Apenas para citar um exemplo, o projeto de irrigação do Baixio do Irecê foi aquinhoado com uma outorga inicial de 10 m3/s. Até aí, nada demais, porque há outras outorgas maiores. A questão é que o projeto ainda não havia se iniciado e já havia sido aprovada uma segunda outorga, para ser usada em uma futura ampliação. Total da segunda outorga: 50 m3/s. Portanto, dos 360 m3/s alocáveis, a irrigação de uma parte do sul da Bahia já abiscoitou 60 m3/s. O CBHSF editou a Deliberação nº 09/2004 para rever situações como essa, mas nunca é demais lembrar que a vazão requerida para o projeto de transposição é de 26 m3/s.

De todas as críticas ao projeto de transposição, a que me pareceu mais coerente foi a feita por pernambucanos. Há habitantes da bacia do São Francisco em Pernambuco reagem de forma veemente ao projeto de transposição. Enviei um e-mail para esse grupo, apresentando as razões pelas quais estranhava que pernambucanos fossem contra o projeto: Pernambuco é o estado com o mais baixo potencial hídrico do Brasil (cerca de 1.320 m3/hab.ano). A transposição vai levar água para o semi-árido pernambucano, fixando o homem do campo em sua terra. Como resposta, disseram-me o seguinte: a transposição vai levar água também para o Ceará, que poderá se tornar o maior produtor de frutas do Nordeste, tomando a posição que hoje é de Pernambuco.

Se os pernambucanos não usam subterfúgios para se declararem opositores ao projeto de transposição, surpreende que haja cearenses contrários a esse projeto. O Ceará não faz parte da bacia do São Francisco e, portanto, é apenas receptor. Contudo, existe um movimento dentro do Ceará contrário à transposição. É verdade que isso provocou reação da maioria silenciosa, a começar do arcebispo de Fortaleza, que deu entrevista declarando-se favorável ao projeto. No entanto, não deixa de surpreender a existência de movimento contrário à transposição num estado em que falharam todos os métodos localizados para impedir que os efeitos da seca forçassem a migração de boa parte de sua população.

Pelo que foi exposto, a conclusão é apenas uma: a polêmica em torno do projeto de transposição é uma disputa por água e os argumentos são muito mais emocionais que técnicos. O Ministério da Integração Nacional relacionou uma série de perguntas que lhe são feitas e que mostram a desinformação que a população tem em relação ao projeto. Parte dessa desinformação resulta dos argumentos emocionais que são publicados na imprensa e que lançam mais confusão em torno do projeto. Diante de toda essa celeuma, devemos lembrar a letra da canção de Caetano Veloso chamada O Ciúme, que se encaixa exatamente nesse particular:

O ciúme
Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia
Tudo esbarra embriagado de seu lume
Dorme ponte, Pernambuco, Rio, Bahia
Só vigia um ponto negro: o meu ciúme

O ciúme lançou sua flecha preta
E se viu ferido justo na garganta
Que nem alegre nem triste nem poeta
Entre Petrolina e Juazeiro canta

Velho Chico vens de Minas
De onde o oculto do mistério se escondeu
Sei que o levas todo em ti, não me ensinas
E eu sou só, eu só, eu só, eu

Juazeiro, nem te lembras dessa tarde
Petrolina, nem chegaste a perceber
Mas, na voz que canta tudo ainda arde
Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê

Tanta gente canta, tanta gente cala
Tantas almas esticadas no curtume
Sobre toda estrada, sobre toda sala
Paira, monstruosa, a sombra do ciúme
(Caetano Veloso)

Faço minhas as palavras de Caetano. A polêmica em torno do projeto de transposição é apenas uma questão de ciúme das águas do Velho Chico.

Paulo Afonso da Mata Machado


Fotos do autor

Especial para o Blog Controvérsia (em contraposição ao artigo: http://blog.controversia.com.br/2007/08/13/rio-sao-francisco-incertezas-da-transposicao/)

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Os latifúndios que se alimentam

A imersão conservadora da imprensa brasileira produziu subtextos dignos de figurar como peças pobres de realismo mágico. Na Macondo imaginária desse jornalismo o país é personagem de uma ficção travestida de discurso objetivo.

Gilson Caroni Filho

“Toda vez que um justo grita
um carrasco o vem calar.
Quem não presta fica vivo,
quem é bom mandam matar.”
Cecília Meirelles

Nada como um mergulho no passado recente para mostrar a importância de uma nova mídia como contraponto fundamental a qualquer projeto contra-hegemônico. A imersão conservadora da imprensa brasileira produziu, nos últimos anos, subtextos dignos de figurar como peças pobres do realismo mágico. Não pela magnitude estética, mas pelo mergulho no absurdo. Sem a grandiosidade estilística de um Gabriel García Márquez, a Macondo do jornalismo brasileiro é uma ficção pobre, travestida de discurso objetivo. Não se propõe a contar a história de qualquer cidade mítica, mas a ocultar os interesses de Arcádios Buendía, que impõem seus desmandos há mais de três séculos de solidão.

Foi o que ocorreu há quase 4 anos.O período transcorrido não esmaece significados precisos.Enquanto 600 delegados de 70 países participavam, em Valencia (Espanha) entre 4 e 8 de dezembro [4-8/12/2004], do Fórum Mundial de Reforma Agrária (FMRA), os jornais brasileiros preferiram ignorar o evento ou a ele dedicar apenas breves registros anódinos. Fingiram não ver o ato inaugural de uma nova articulação expressiva. Pela lógica editorial predominante, os debates em plenárias e as oficinas sobre mazelas e limites do modelo agrário hegemônico não foram dignos de figurar em folhas que só avalizam as chamadas “reformas agrárias de mercado”.

Do ponto de vista jornalístico, o silêncio sobre o Fórum não encontrou qualquer justificativa que não esbarrasse nos surrados critérios classistas do que deve ser notícia. Afinal, lá estavam Miguel Rosseto, então ministro do Desenvolvimento Agrário, e representantes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrárias (Incra) – duas entidades governamentais responsáveis pela promoção de uma nova ordem fundiária.

Relevância política doméstica era o que não faltava. A grande ausente, tanto nas editorias de política quanto nas de economia, era disposição para confrontar reflexões de matizes distintas daquilo que é reiterado dia após dia, na batida monocórdia do pensamento único.

Como destacou o semanário Brasil de Fato, reproduzindo avaliação do reitor da Universidade Politécnica de Valencia (UPV), Javier Sanz “pela primeira vez na história, representantes de movimentos sociais, organizações não-governamentais, governos e especialistas acadêmicos reúnem-se em um encontro dessa amplitude para debater os desafios que envolvem as lutas por reforma agrária em todo o mundo”.

Do ponto de vista político, quando o camponês reafirma sua existência como sujeito de direito , denunciando o modelo de monocultura voltado à exportação, toca em questão sensível para veículos que não cansam de incensar as virtudes do latifúndio redimido: o agronegócio, que estaria alavancando indicadores macroeconômicos, seria, na verdade, expressão do atraso imposto pelos centros hegemônicos aos países periféricos.

Naquele momento, mais uma vez, os veículos da grande imprensa mostraram, além do DNA, sua proverbial funcionalidade: existem como isolamento acústico para demandas que venham a contrariar interesses secularmente consolidados.

Como conseqüências da perda de soberania nacional face às imposições dos organismos multilaterais de crédito, teríamos a privatização de recursos naturais, a degradação ambiental, a concentração de propriedades e a extinção da agricultura camponesa e familiar que privilegia o mercado interno.

De acordo com as organizações presentes em Valencia, o resgate soberano exigiria, ainda, que a alimentação e agricultura saíssem das discussões travadas no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC) e fossem tratadas como direitos de todos. O documento final não deixa dúvidas de que estamos em meio a um processo contra-hegemônico de grande vulto.

A inter-relação entre os interesses campesinos e os demais setores da sociedade demonstra a superação corporativa que marca as fases embrionárias dos movimentos sociais. Vejamos um trecho publicado na edição de 9 de dezembro de 2004, de Carta Maior.

“Reafirmar o acesso à terra como direito de toda a humanidade e retirar as questões relativas à alimentação e à agricultura das discussões travadas no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC) e dos acordos comerciais bi e multilaterais. Esta foi a principal resolução política definida na declaração final do 1º Fórum Mundial sobre a Reforma Agrária, que terminou nesta quarta-feira (8/12/2004) em Valencia. Após quatro dias de intensa discussão, com a participação de representantes de organizações de mais de 70 países, a mais importante contribuição desse FMRA foi apontar para a unificação de uma agenda de mobilizações que coloque a luta pela reforma agrária como parte integrante da luta estrutural contra as políticas neoliberais que contribuem para aumentar a miséria dos trabalhadores, seja no campo ou na cidade, em todo o mundo.”

A observação do representante dos camponeses da Catalunha, Xávi Caetán, era, e é, importante demais para não ser registrada nesse pequeno artigo:

“Os governantes e a elite européia devem mudar sua postura. Não adianta ficarmos aqui discutindo a soberania alimentar nos países menos desenvolvidos enquanto nossas grandes empresas continuam adquirindo gigantescos pedaços de terra no Sul apenas para transformá-los em pastos.”

Mas não é esta uma das denúncias mais graves feitas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST)? A de que o processo de desnacionalização no campo é crescente? Imaginem que pauta isso não daria se o compromisso da imprensa brasileira fosse com uma sociedade efetivamente republicana?

E como ignorar o impacto internacional das declarações do delegado palestino, Jadeh Jamal, quando, àquela época, afirmava que “camponeses da Palestina, Iraque e Afeganistão estão morrendo de fome por conta da política de força exercida por Estados Unidos e Israel?” Como deixar de refletir sobre mais essa constatação feita pela mesma liderança?

“Atualmente, por falta de alternativas de produção dignas, os camponeses do Afeganistão são responsáveis pela produção de 80% da heroína que é vendida na Europa. Não podemos ter medo de, ao lutar pela reforma agrária, denunciarmos nossos verdadeiros inimigos.”

Como vemos, a questão agrária é de enorme centralidade se pensamos em democracia, justiça social e Estado de Direito. E é aí que reside o pecado capital da nossa grande imprensa: a falta de compromisso com qualquer um dos três itens. Assim, quando publica estudo da Unicef apontando a existência de 27 milhões de crianças vivendo abaixo da linha de pobreza e não faz qualquer menção à concentração fundiária, mais despolitiza do que informa.

Por que recuamos a 2004 se exemplos recentes não faltam? Pelo caráter emblemático que a cobertura deste Fórum representou? Impossível pensar em atuação política no interior da estrutura midiática visando à exploração de contradições e ocupação de espaço. Esse erro antigo parece ter sido abandonado pelos movimentos sociais. A blindagem é por demais bem-feita para que se possa escapar da filtragem editorial. Afinal desde quando aquário existe para assegurar a liberdade de peixe?

A importância de contar com veículos próprios para a luta ideológica tem levado várias organizações a repensar a questão de estabelecer uma ordem informativa horizontalizada, capaz de transpor suas demandas específicas e atingir um público amplo. A mobilização social requer inventividade nas formas de comunicação política. E, por certo, no interior da própria luta a práxis encontrará os melhores caminhos.

O Fórum Mundial de Reforma Agrária não mereceu ser notícia em um país em que coexistem grandes extensões de terra nas mãos uma minoria e pouquíssimas famílias concentrando grandes extensões do campo comunicativo. Mantidas as especificidades, um latifúndio ajuda ao outro.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, e colaborador do Jornal do Brasil e Observatório da Imprensa.

Carta Maior
http://agenciacartamaior.uol.com.br/

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Debate sobre educação

sábado, 01/09 - 14 horas

Assembléia Legislativa de SP, Auditório Franco Montoro
Lisete Arelaro - Faculdade de Educação da USP
Luiz Araújo - ex-Secretário de Educação de Belém
Otaviano Helene - Instituto de Física da USP

Mandatos Populares e Socialistas:
Ivan Valente - Deputado Federal - PSOL/SP -
Carlos Giannazi - Deputado Estadual - PSOL/SP
Raul Marcelo - Deputado Estadual- PSOL/SP

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Plebiscito da Vale do Rio Doce em SP: entrevista coletiva

As entidades da sociedade civil e movimentos sociais concedem entrevista coletiva sobre plebiscito a respeito da anulação da privatização da Vale do Rio Doce, entre 1º e 7 de setembro em todo o país, e o lançamento do Grito dos Excluídos. A conferência de imprensa acontece na quinta-feira (30/8), às 14h, na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - Regional, em São Paulo (SP).

Participam da entrevista coletiva o jurista e professor titular da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, Fábio Konder Comparato; o integrante da coordenação nacional do Movimento Sem Terra (MST), João Paulo Rodrigues; o membro da comissão Episcopal para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz da CNBB, o bispo de Jales D. Demétrio Valentini; além de integrantes de outras entidades que organizam a consulta popular.

A campanha pela retomada da Vale, realizada por mais de 60 entidades, acontece em conjunto com o 13º Grito dos Excluídos, que tem como lema neste ano “Isto não Vale: Queremos Participação no Destino da Nação”. Em pesquisa do Instituto GPP, realizada em junho deste ano, 50,3% da população se colocou a favor da retomada da Vale, enquanto 28,2% foram contrários e, 21,5%, não souberam responder.

As entidades pretendem superar o número de pessoas do plebiscito sobre a implementação da Área de Livre Comércio para as Américas (Alca), que teve a participação de 10 milhões de votantes. A pergunta do plebiscito popular e informal será a seguinte: “Em 1997, a Companhia Vale do Rio Doce – patrimônio construído pelo povo brasileiro – foi fraudulentamente privatizada, ação que o governo e o Poder Judiciário podem anular. A Vale deve continuar nas mãos do capital privado?”.

Em dezembro de 2005, depois de dez anos de tramitação de mais de 90 processos que contestam a venda, o plenário do Tribunal Regional da Justiça Federal, em Brasília, considerou o leilão fraudulento e determinou a sua anulação. “O plebiscito promove o exercício legítimo e legal de decisão sobre temas importantes, como o uso e destino de nossas reservas minerais, e pode ser um indicativo para que os poderes executivo, legislativo e judiciário, a partir dessa decisão judicial, respeitem também a vontade do povo”, afirma João Paulo, do MST.

Os movimentos sociais têm denunciado a fraude histórica na privatização da Vale, que promoveu a venda de uma empresa estatal estratégica para o desenvolvimento do país, realizada em 1997 pelo governo FHC. A companhia foi vendida ao capital privado por R$ 3,3 bilhões, tendo um patrimônio estimado no mercado à época em R$ 10 bilhões.

A Campanha “A Vale é nossa” produziu um documentário sobre o processo de privatização da Companhia Vale do Rio Doce, que está dividido em três partes e disponível na internet nos seguintes endereços:

http://br.youtube.com/watch?v=LM6oph1muCI
http://br.youtube.com/watch?v=qBEK1Wup0dw&mode=related&search=/
http://br.youtube.com/watch?v=GfwlYZeVjF4&mode=related&search=/

Endereço da coletiva:

CNBB Regional - Rua Sebastião Soares de Farias, 57 (5.º andar, Bela Vista - São Paulo)

Informações à imprensa:

Grito dos Excluídos - 11-2272-0627 / gritonacional@ig.com.brEste endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email

MST - 11-3361-3866 (Igor Felippe Santos)

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Ricos gastam dez vezes mais que pobres no Brasil

Pesquisa realizada pelo IBGE traça perfil das despesas e rendimentos da população brasileira

RIO - A fatia mais rica da população brasileira tem despesas dez vezes maiores que a parcela mais pobre. É o que mostra o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em dados selecionados da Pesquisa de Orçamentos Familiares 2002-2003.

Segundo perfil de despesas e rendimento traçado pelo instituto, 40% das famílias com menos rendimentos (até R$ 758,25) possuíam, em 2003, uma despesa per capita de aproximadamente R$ 180,00, enquanto as 10% mais ricas (igual ou maior que R$ 3.875,78) tinham despesa por pessoa de R$ 1.800,00. A pesquisa mostra ainda que, independentemente da composição familiar, habitação teve o maior peso entre as despesas, com 35,5% do gasto com consumo das 48,5 milhões de famílias estimadas na POF.

Em segundo lugar aparecem as despesas com alimentação, destino de 20,75% do orçamento familiar. Neste item, a pesquisa mostra uma peculiaridade: a aquisição de alimentos por pessoa é maior para quem mora sozinho. Essas pessoas adquiriram, em 2003, mais alimentos per capita do que qualquer outra classe de famílias, somando 560,68 kg. Em segundo lugar vêm os casais sem filhos, com 509,04 kg. Os números indicam que pessoas que moram sozinhas tendem a adquirir mais alimentos do que o necessário. Isso provavelmente provoca perdas, por exemplo, no caso de produtos com vida mais curta, impondo novas aquisições para reposição com maior rapidez do que em outros arranjos familiares.

Educação

A educação determina um aumento da renda. De acordo com a pesquisa, famílias com responsáveis de onze ou mais anos de estudo apresentavam renda mais elevada (R$ 3.796,00), enquanto com menos de um ano de instrução recebiam cinco vezes menos (R$ 752,00).

As despesas de consumo, que eram em média 82,1% do total das despesas, apresentavam valores bem diferentes à medida que se consideravam os anos de estudo. Nas famílias com pessoa de referência de menos de um ano de instrução, os gastos em reais foram de R$ 700,23. Já na faixa entre um e três anos foram de R$ 883, 34, enquanto na de quatro a sete, R$ 1.150,05 e, na de oito a dez, R$ 1.400,96. Somente o estrato das famílias que possuíam pessoa de referência com 11 anos ou mais de estudo ficou acima da média brasileira, R$ 1.473,29, apresentando uma despesa de consumo mensal de R$ 2.834,34.

Entre essas famílias, os cinco grupos que pesaram mais foram habitação (29,0%), alimentação (16,9%), transporte (15,1%), outras despesas correntes (11,2%) e assistência à saúde (5,7%). Famílias em que nenhum dos integrantes possuía nível superior tiveram uma despesa total média mensal de R$ 1.240,70. As com uma pessoa graduada, de R$ 3.644,48 e nas com mais de uma, R$ 6.591,94.

Composição da família

A pesquisa mostrou ainda que homens ganham mais que mulheres. De acordo com dos dados da POF, famílias com homens como pessoa de referência obtiveram um rendimento mensal 21% maior do que aquelas com mulheres na condição de responsáveis. Nas despesas com alimentação, transporte, recreação, cultura e fumo, o sexo masculino como referência da família superou o feminino em todas as regiões. Em relação à despesa total média mensal, as famílias com pessoas de referência homens também superaram as com mulheres.

Em transporte e alimentação, por exemplo, a Região Sudeste apresentou as maiores variações, com diferenças de 65,65% e 26,83%, respectivamente. Em recreação e cultura, a maior disparidade entre os sexos ficou no Norte (19,09%), e em relação ao fumo, esta variação chegou a 20,02%. O inverso ocorreu com “higiene e cuidados pessoais”, item no qual os gastos dos chefes de família mulheres foi maior do que o dos homens.

Saúde

Os gastos com assistência à saúde mantiveram-se entre 4% e 6% no total das despesas das famílias, demonstrando que as decisões sobre esse grupo não tiveram lugar destacado. Nas famílias mais pobres, o os medicamentos comprometeram 76% dos gastos com saúde, enquanto entre os mais ricos esse porcentual é de 23,7%. Em contrapartida, as despesas com planos ou seguros de saúde entre as famílias mais pobres representaram 7%, subindo com a renda das famílias até chegar a 37,19% nas com rendimento acima de R$ 6.000,00.

Doações de evangélicos são maiores

O maior rendimento médio mensal familiar foi registrado quando a pessoa de referência era espírita (R$ 3.796,00), enquanto nas pertencentes à evangélica pentecostal era o menor (R$ 1.271,00). Entre católicos apostólicos romanos, o rendimento correspondia a R$ 1.790,56. Apesar de ganharem menos, de acordo com a pesquisa, são os evangélicos que gastam mais com doações - que incluem, entre outros itens, dízimo e outras contribuições às igrejas. O total de gasto variou entre R$ 22,79 e R$ 59,16.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

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O velho pirata

O cartunista Laerte, 56, lança dois livros ligados a seu passado, prepara uma animação dos “Piratas do Tietê” e se diz em “crise”

MARCO AURÉLIO CANÔNICO
DA REPORTAGEM LOCAL

Laerte Coutinho tem olhado para trás nos últimos tempos. Com dois livros ligados a seu passado chegando às livrarias, o cartunista, colaborador da Folha, diz se sentir velho, aos 56 anos. Os lançamentos são “Laertevisão”, uma coletânea dos cartuns que publica aos sábados na Ilustrada, baseados nas memórias de sua infância, e o primeiro dos três volumes de “Piratas do Tietê - A Saga Completa”, que reeditam sua criação mais célebre.
Mas Laerte tem mirado o futuro também. Quem o vê falar dos projetos em que está envolvido -uma animação dos Piratas, um filme da personagem Suriá, um desenho dos Tres Amigos para a TV, um livro inédito- fica intrigado com a fase de crise que diz atravessar.
A verdade é que a vida do cartunista tem passado por drásticas mudanças. Foi para ouvi-lo sobre tudo isso que a Folha foi até sua casa, em São Paulo. Veja a seguir o resultado.

FOLHA - Nos últimos anos suas tirinhas mudaram radicalmente.
LAERTE - É, porque eu perdi o jeito de um monte de coisas, de modos de fazer humor que eu tinha, de usar personagens. Tudo isso ficou esquisito, então passei a outros procedimentos. Em busca disso, passei dois anos fazendo uma tira absolutamente sem norte.

FOLHA - E por que você perdeu o jeito, como diz?
LAERTE - Cansou, por um monte de motivos, ficou… [pausa] Bom, é uma explicação que tem de passar pela morte do meu filho também [em um acidente de carro, em 2005], isso foi um divisor. Passei a ver e pensar as coisas de outro jeito, uma série de procedimentos começou a perder o sentido ou ganhar outros. Muito do que consistia a natureza das minhas tiras era um tipo de prestação de contas, como se eu as estivesse fazendo para algum juiz, era um modo extenuante de trabalhar. Passei a não achar mais graça no tipo de humor que fazia, não me identificava mais com aquele modo de fazer, então resolvi deixar de lado os personagens.

FOLHA - Para sempre?
LAERTE - Não, não quer dizer que eu os matei, só que fui atrás de outra coisa, fui buscar um modo de fazer que eu tinha aos 17 anos, algo bastante livre, indagativo, experimental, porra-louca. Fui atrás desse espírito.

FOLHA - Porque nessa fase você ainda não tinha o tal “juiz”, é isso?
LAERTE - Sim, claramente foi começar a trabalhar que desenvolveu isso. Quando eu comecei a desenhar, não tinha muito claro que seria humorista, desenhista. Eu queria ser músico, jogador de futebol, fazer teatro, tudo isso de uma maneira muito aberta e sem expectativa. Eu tentei ir atrás disso, trabalhar a linguagem de tiras em outro contexto, fazer pequenos contos, cada tira sendo uma peça autônoma. Abandonei padrões gráficos, procedimentos humorísticos que eu tinha e parti em busca de outras narrativas.

FOLHA - Tornou-se mais fácil, então, criar as tiras?
LAERTE - Não, não facilitou. Abriu possibilidades, mas era muito mais complicado, eu demorava mais para fazer as tirinhas. Aí, no fim do ano passado, cansei, fiquei sem rumo novamente e passei a republicar o material do Classifolha, os cartuns livres, achei que dava para tirar um ano sabático. Não que isso seja livre de trabalho, eu pego as tiras e reorganizo num tamanho diferente, o que às vezes implica em construções diferentes.

FOLHA - Por que esse novo estalo?
LAERTE - Porque até essa linguagem nova chegou a um ponto em que eu não sabia bem o que fazer. A isso, somou-se meu acerto com a editora Desiderata para produzir uma história longa, de 96 páginas, e inédita. Passei seis meses fazendo um roteiro e concluí que ele não funcionava, voltei à estaca zero, vamos ver se um dia frutifica.

FOLHA - Em que fase você está atualmente?
LAERTE - Estou “Laerte em crise”. Mas não é o fim do mundo, é um momento. Estou trabalhando nesse roteiro, acho que o resultado dele vai ser informativo para mim. Talvez eu volte a fazer as tiras como eu fazia, dentro do conceito aberto de pequenos contos.

FOLHA - Você já teve uma crise anterior, quando largou um casamento, um emprego formal e foi fazer quadrinhos. Elas se assemelham?
LAERTE - Sim. Na verdade, um pouco antes do acidente com meu filho, eu já estava mudando de rumo, já apontava o esgotamento da linguagem. Nesses momentos, é muito legal estar num jornal como a Folha, dois outros deixaram de publicar a tira porque ela ficou estranha, não tiveram paciência.

FOLHA - Alguns leitores reclamaram da mudança de estilo.
LAERTE - Teve desde a perplexidade positiva, uma curiosidade com vontade de ver mais, até gente que achou que não era mais a praia deles, além de leitores que se revoltaram contra algumas tiras específicas, como a que o personagem jogava golfe com a cabeça de um poodle.

FOLHA - Com essa mudança de foco, você passou a se importar menos com o julgamento dos leitores?
LAERTE - Sim, um pouco menos. Não tenho nenhum desprezo pelo leitor, mas passou a ter um peso diferente. É uma opinião, não quer ler, não quer renovar o contrato, tudo bem, acontece.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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Shopping não é lugar de compras

Pesquisa da UnB feita com 44 mil pessoas mostra que apenas 14,8% das que olham as vitrines entram nas lojas

André Ribeiro/UnB Agência

(Agência UnB) – Paquerar, ir ao banco, encontrar os amigos, almoçar, levar as crianças para brincar. São tantas as opções de lazer e serviços dentro dos shoppings centers, que o estudioso do mestrado em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB) Hugo Sandall levantou a dúvida: e as compras, como vão? Na observação feita com pouco mais de 44 mil pessoas em um shopping do Distrito Federal, uma média de apenas 14,8% dos clientes que olham as vitrines entraram nas lojas. “Pode ser que os shoppings não sejam mais procurados para a compra nas lojas, o que seria o motivo primeiro de ele existirem, passando a ser pontos de entretenimento e serviços”, sugere o pesquisador.

Sandall estudou o comportamento do consumidor diante de lojas de dois seguimentos bastante visados, o da moda jovem e o da feminina. A idéia era entender a relação entre o fato de olhar para a vitrine e entrar na loja. Ao contrário do que muitos possam supor, os resultados mostraram que as lojas cujas vitrines chamam mais atenção dos consumidores não são as que mais recebem clientes. Os clientes olharam mais para as lojas femininas e entraram mais nas de moda jovem.

Segundo o especialista, que defendeu sua dissertação de mestrado em maio de 2007, apenas um novo estudo explicaria as razões desse comportamento, mas ele arrisca algumas hipóteses. “O ato de entrar ou não na loja é influenciado por muitas variáveis: se a porta é ampla, se a vitrine é vazada, o tipo de atendimento, e assim por diante”, explica.

Outro dado curioso da pesquisa “Comportamentos precorrentes de aproximação de lojas: Efeitos do nível de diferenciação de marca e localização sobre taxas de conversão em um shopping center”, orientada pelo professor Jorge de Oliveira Castro, é que lojas mais próximas das âncoras (aquelas que ocupam um espaço grande na área do shopping e são pontos de referência e atrativos de clientes) não são necessariamente as que vendem mais. “Por estarem mais próximas às lojas âncora, mais pessoas passam na frente delas. Mas a análise mostrou que nem sempre são nessas que os clientes entram mais”, analisa o psicólogo.

Sua pesquisa também mostrou que os comportamentos analisados — de passar na frente da loja, olhar rapidamente a vitrine (entrever), parar para olhar a vitrine e entrar na loja – apresentam um pico nos horários de 15h e 17h. Foi registrada uma média de 54,14 comportamentos de passar, 23,16 de entrever, 13,24 de olhar e 1,54 de entrar. Pela lógica, segundo Sandall, esses comportamentos deveriam estar escalonadas, ou seja, quem passa entrevê, quem entrevê olha e quem olha pode ser que entre. Mas, de acordo com a pesquisa, a primeira relação tem uma probabilidade de 52,5%, a segunda de 58,7% e a terceira de 14,8%.

BANCO DE DADOS – Essa é a primeira vez que o grupo Consuma da UnB, ao qual Sandall pertence, observa o comportamento do consumidor em um shopping center. Por isso, o psicólogo também se preocupou em criar um banco de dados para futuras pesquisas da equipe. Ele filmou o comportamento dos passantes diante das lojas. As gravações totalizam seis períodos de dez minutos, no total uma hora em cada loja. Ao todo, as 44.444 pessoas observadas realizaram 51.290 comportamentos estudados. As análises dos registros em vídeo foram feitas no laboratório de aprendizagem humana da UnB, de junho de 2006 a janeiro de 2007. “Temos um rico material de imagens registradas. São 25 DVDs contendo 5.165 arquivos ou 83Gb, o que corresponde aproximadamente a 1.158 horas armazenadas”, contabiliza.

Mente e Cérebro

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Campanha da Vale se espalha pelo Brasil

De 1º a 7 de setembro, o povo será consultado sobre a validade do leilão da Cia Vale do Rio Doce realizado em 1997

Pedro Carrano
de Curitiba (PR)

Nos sindicatos, nos locais de trabalho, nas associações de moradores de bairro, nos salões paroquiais, a campanha A Vale é Nossa, pela nulidade do leilão da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), está se espalhando e construindo o plebiscito popular programado para os dias 1º a 7 de setembro.

O objetivo do plebiscito popular parte de um fato concreto: a possibilidade de reverter na justiça o leilão da Vale do Rio Doce - datado de 1997, em uma venda marcada por irregularidades - para então fazer um trabalho pedagógico com os trabalhadores, a partir das quatro questões do plebiscito (ver quadro), que inclui a retomada da Vale, dívida pública, tarifa de energia e reforma da Previdência.

Os meses de junho e julho foram marcados pela consolidação dos comitês da campanha em cada Estado, compostos por diferentes organizações. A tarefa dos comitês estaduais é a de formar lideranças para a criação de comitês locais, em bairros, sindicatos, em cada comunidade.

Rio de Janeiro

O comitê da cidade de Volta Redonda (RJ), por exemplo, tem como objetivo instalar urnas em quatro centros comerciais da cidade, também em praças e na prefeitura, durante a semana do plebiscito. Conta ainda com duas “urnas volantes”, uma outra possibilidade de votação, quando os militantes devem percorrer a cidade de carro para incentivar a participação popular.

Cidade marcada pela história da luta dos trabalhadores da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), a fábrica é um dos alvos para discutir com a população a retomada da Vale.

“Panfletamos na porta da usina a partir das quatro perguntas do plebiscito”, relata Maria das Dores Pereira, do comitê estadual. As organizações em Volta Redonda ainda guardam 400 modelos de urnas que tinham sido elaborados na época do plebiscito sobre a Alca (2002), para eles uma referência para a organização do plebiscito em 2007.

Paraná

No Paraná, o comitê estadual incentivou a criação de comitês em 17 cidades, que a partir daí organizam suas atividades, com a tarefa de multiplicar a campanha nos municípios vizinhos. Na região de Maringá, a multiplicação de lideranças tem sido feita a partir das paróquias, assentamentos e acampamentos dos movimentos do campo e demais movimentos sociais.

Para João Aparecido da Silva, da cidade de Sarandi, o objetivo é que a campanha ganhe capilaridade entre as associações de moradores da região. Silva reclama da falta de mobilização das massas atualmente. Pensa, porém, que a formação de espaços e a articulação de diferentes organizações é uma contribuição da atual campanha.

“Não conseguimos espaço na mídia, mas o que vai ficar de articulação para depois do plebiscito é algo inédito, qualquer outra atividade vai colher o resultado positivo dessa articulação. As perguntas do plebiscito são um bom tema para aglutinar a militância”, antecipa. Informes de atividades chegam de Norte a Sul do país. No Mato Grosso, o plebiscito foi divulgado durante atividade da jornada nacional em defesa da educação pública.

Objetivos

A campanha A Vale é Nossa continua após o plebiscito popular. Será feita uma apuração dos votos, realizada primeiro pelo comitê de cada Estado, coletando os resultados fornecidos pelos comitês locais e enviando para a secretaria nacional da Campanha. Os resultados das quatro perguntas do plebiscito serão entregues para o poder Executivo, Legislativo e Judiciário, como mecanismo de pressão pela nulidade do leilão da Vale.

A entrega será feita por uma representação ampla das organizações que construíram o plebiscito. Atos de rua nos Estados devem marcar a entrega. “A entrega, no dia 24 e 25 de setembro, será seguida de atos de rua para dar mais força na entrega do resultado do plebiscito. Enquanto uma comissão se mobiliza para entregar os resultados, as pessoas se mobilizam nos seus Estados”, comenta Carlos Renato Monteiro, da secretaria nacional da Campanha. Na mesma data, as organizações irão se reunir para uma avaliação do plebiscito e para definir os próximos passos da campanha.

“A volta da luta”

Os comitês organizam atos de rua e panfletagem junto à população, nesta reta final antes do plebiscito. Na cidade de Volta Redonda, por exemplo, onde se encontra a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), a crítica às privatizações é forte, afinal a CSN foi a primeira companhia a ser privatizada (1993), além de, quatro anos mais tarde, formar o consórcio comprador da Vale na época do leilão.

O trabalho de conscientização parte do fato de que as organizações locais começaram a se organizar a partir da greve dos trabalhadores da CSN ocorrida neste ano, depois de 14 anos de silêncio. A partir de então, criou-se então um fórum que envolve de metalúrgicos ao movimento estudantil. “Com a greve da CSN rearticulamos as entidades e criamos o fórum ‘A volta da luta’, e a campanha está dentro deste fórum”, comenta Maria das Dores Pereira.

Correio da Cidadania
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O Irã e a bomba

IMMANUEL WALLERSTEIN

Boa parte da discussão em torno do programa nuclear iraniano é pura e simplesmente histérica. Haja visto a declaração feita neste mês pelo senador John McCain: “Só existe uma coisa pior do que a ação militar: um Irã dotado de arma nuclear”.
Sentimo-nos tentados a responder citando o título de uma peça de Shakespeare, “Muito Barulho por Nada”, exceto que está sendo feito realmente muito barulho e que algumas pessoas em altos escalões parecem estar falando sério quando mencionam a possibilidade de recorrer à ação militar para impedir o Irã de obter armas nucleares. Então, precisamos perguntar por que isso é tão importante, e para quem?
Para começar, por que deveríamos achar que será uma catástrofe se, amanhã, o Irã passar a dispor de armas nucleares? Hoje existem nove países que, sabidamente, as possuem -os EUA, o Reino Unido, a Rússia, a França, a China, Israel, a Índia, o Paquistão e a Coréia do Norte. O que mudaria se o Irã se tornasse o décimo? Quem seria ameaçado pelo Irã? Que país Teerã poderia bombardear?
No momento presente, não existe nenhum tipo de indicativo de que o Irã seja ou pretenda tornar-se militarmente agressivo. É verdade que o presidente iraniano atual, Mahmoud Ahmadinejad, fez declarações muito hostis em relação a Israel. Mas será que alguém imagina que ele tem a intenção de bombardear Israel ou que o Irã possui a capacidade militar de fazê-lo com eficácia em qualquer momento do futuro próximo? Discursos e intenções são duas coisas diferentes.
Entretanto, se o Irã não pretende utilizar a bomba, por que quereria tê-la? Existem algumas razões óbvias. Dos nove países que possuem a bomba, todos menos um podem alcançar o Irã com suas armas. O governo iraniano teria de ser muito ingênuo para não se preocupar com isso. Ademais, baseado na política norte-americana dos últimos cinco anos, ele pode facilmente deduzir que os EUA invadiram o Iraque, mas não a Coréia do Norte, e que uma das maiores diferenças entre os dois países era que o Iraque não possuía armas nucleares, enquanto a Coréia do Norte, sim.
Uma segunda razão evidente é o nacionalismo iraniano. Precisamos lembrar que as aspirações do Irã de tornar-se uma potência nuclear não começaram com o presidente atual. Elas datam de desde antes da Revolução Islâmica, da época do xá do Irã. É evidente que, hoje, uma potência “média” das dimensões do Irã se fortaleceria geopoliticamente se fosse membro do clube nuclear. O Irã tem seus interesses nacionais próprios, como têm outros Estados também, e está claro que deseja desempenhar papel de destaque em sua região.
Mas será que esse fato, por si só, representa uma ameaça ao mundo ou à região? Quando a União Soviética promoveu sua primeira explosão nuclear, em 1949, o mundo ocidental lamentou em voz alta. Em retrospectiva, porém, fica claro que o fator isolado que mais contribuiu para a não-ocorrência de uma guerra americano-soviética, desde 1949 até a dissolução da União Soviética, em 1991, foi o fato de ambas as potências possuírem armas nucleares. Foi o temor da destruição mútua que garantiu que nenhuma das duas fizesse uso de suas armas nucleares, apesar de todas as tensões agudas sofridas, desde o bloqueio de Berlim, até a chamada crise dos mísseis em Cuba e, mais tarde, a guerra no Afeganistão. O fato de tanto a Índia quanto o Paquistão possuírem a bomba vem funcionado como fator muito forte de contenção no conflito dos dois países em torno da Caxemira.
Por que o equilíbrio de terror não poderia operar igualmente bem no Oriente Médio? Por que a posse de uma arma nuclear pelo Irã não poderia constituir um fator pacificador do Oriente Médio, em lugar do contrário?
A única resposta é que o governo iraniano não é suficientemente “racional” para abster-se de usar a bomba. Mas está claro que isso é bobagem -bobagem racista, devemos acrescentar. O regime iraniano é ao menos tão politicamente sofisticado quanto o governo George W. Bush, além de ter um discurso bem menos militarista do que este.
Então, por que todos vêm fazendo tanto alarde? Henry Kissinger apresentou a explicação há mais de um ano, e mais recentemente Thomas Friedman a repetiu no “New York Times”. Está muito claro que, a partir do momento em que o Irã possuir armas nucleares, a barreira terá sido rompida, e outros dez a 15 países vão trabalhar rapidamente para fazer o mesmo. Existem alguns candidatos óbvios: a Coréia do Sul, o Japão, Taiwan, a Indonésia, o Egito, o Iraque (sim, o Iraque), a África do Sul, o Brasil, a Argentina e muitos países europeus. Em 2015, pode haver 25 potências nucleares no mundo.
Isso é perigoso? É claro que sim, na medida em que sempre existem grupos e indivíduos desvairados que podem ganhar acesso aos botões que precisarem ser apertados. Mas essas pessoas e esses grupos desvairados já existem nos nove países nucleares atuais, e eu não acredito que existam mais deles nos próximos 15 países. O desarmamento nuclear é um objetivo que é urgente, mas não o desarmamento nuclear de apenas uma parte do mundo -o desarmamento nuclear de todos.
A razão pela qual os EUA, em especial, vêem com tanto temor o potencial armamento nuclear do Irã é que a difusão das armas nucleares para os chamados países médios reduz claramente a força militar de Washington.
Mas isso não significa que ela ameace a paz do mundo. Devemos, então, nos preocupar com a possibilidade de uma invasão do Irã pelos EUA ou de um ataque israelense? Não realmente, pois os EUA não possuem, neste momento, a força militar necessária para empreender tal ataque, o regime iraquiano não o suportaria e Israel não pode empreendê-lo sozinho. Logo, o que se está fazendo atualmente é muito barulho por nada.

Immanuel Wallerstein, pesquisador sênior na Universidade Yale, é autor de “O Declínio do Poder Americano”. Copyright Immanuel Wallerstein, distribuído por Agence Global.

Jornal Folha de S. Paulo
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Aula de sobrevivência

Conflitos armados ao redor do mundo fazem, todos os dias, 39 milhões de vítimas. É esse o número de crianças que deixam de freqüentar a escola por conta das guerras

Cristina Charão, da Agência Repórter Social

Todos os dias, o mundo conta milhões de vítimas dos diversos conflitos armados que se espalham pelo mundo, fundados ora na disputa pelo poder político, ora na intolerância religiosa, ora na desigualdade social que distingue etnias vivendo em um mesmo território, ora em tudo isso ao mesmo tempo. A essa deprimente conta é preciso somar outros 39 milhões de vítimas: é esse o número de crianças que, diariamente, deixam de freqüentar a escola nos países afetados por conflitos, guerras, guerrilhas e ocupações. Esse contingente representa mais de 50% do total de 77 milhões de meninos e meninas que se estima estarem fora do sistema formal de ensino em todo o mundo.

Como mostram relatórios de ONGs e organismos internacionais e também o relato de educadores que trabalham nesses países, são diversas as formas como o contexto de guerra afeta o dia-a-dia da educação, seja em zonas de conflito atuais ou em regiões que tentam se reconstruir após anos de guerra. A soma de insegurança e empobrecimento da população ao comprometimento da infra-estrutura escolar e a vitimização direta de estudantes e professores compõe a matriz de um dado estatístico aterrorizante: uma em cada três crianças em países afetados por conflitos está fora da escola.

Com medo

Nesses lugares, quando meninos e meninas conseguem acesso ao ensino formal, a qualidade da educação que recebem está longe do ideal por razões tão prosaicas quanto o horário de funcionamento das escolas. “Todos vivem sob o medo de serem atacados fisicamente ou roubados. Por essa razão, as escolas abrem sempre muito tarde. Nunca no horário oficial, que é 7h30, mas quase sempre às 10h. E, de novo, por medo de serem emboscadas por guerrilheiros ou rebeldes, as crianças têm de voltar antes das 15h. Então, as escolas fecham às 14h30″, relata Joseph Okurut, professor e coordenador de um programa de apoio à educação mantido em conjunto pelas igrejas católica e luterana em Uganda.

A ineficiência de um sistema que tem de funcionar em condições como essa é atestada pela taxa de abandono escolar, em torno de 30% ao ano. Apenas 10% das crianças completam o primário. “Abandonam para fazer outras coisas, principalmente trabalhar”, diz o professor ugandense.

A pobreza não é a única razão para que meninos e meninas deixem de lado a oportunidade educacional. Há também o medo de que algo ocorra dentro da escola ou a caminho dela.

Escolas e seus arredores são os territórios preferidos dos exércitos, oficiais e não-oficiais, para recrutar forçadamente crianças, meninos em especial. Relatório do Representante Especial da Secretaria-Geral da ONU para Infância e Conflitos Armados registra que, em 2005, 250 mil crianças eram usadas como soldados e que o recrutamento seguia acontecendo em países como Burundi, Chade, República Democrática do Congo, Colômbia, Mianmar, Nepal, Somália, Sudão e Uganda.

Desafios para o professor

Violência e insegurança afastam também os professores das escolas. Para ficar no exemplo latino-americano, a Federação Colombiana de Educadores (Fecode) registra que, só em 2006, 29 professores do interior do país buscaram abrigo em Bogotá após seguidas ameaças das guerrilhas de inspiração comunista ou das milícias de direita. Todos são considerados perseguidos políticos. Em muitos países (leia texto na pág. 46), os professores são identificados como lideranças locais que podem criar alguma resistência nas comunidades que se tenta controlar, e, por essa razão, são pressionados a deixar suas casas ou escolas.

No Sudão, mesmo as regiões pacificadas ainda sofrem com o problema. “No sul do Sudão (região mais afetada pelos conflitos, onde se concentra o maior número de campos de refugiados e ainda há focos de combates), não temos o número suficiente de professores, porque aqueles que foram treinados antes da guerra buscaram trabalhos melhores em ONGs, ou foram forçados a fugir para outros países”, descreve Margaret Ayite, funcionária do Ministério da Educação para o Sul do Sudão. “A capacidade docente, portanto, é muito baixa. Temos de recrutar pessoas que ainda estão no nível primário para serem professores do nível primário.”

Trabalhando no Timor Leste como coordenadora do Projeto ProFormação, do Ministério da Educação, Wandelci Peres enfrenta diariamente o desafio de capacitar os professores que não puderam ser formados durante os quase 25 anos de ocupação do país pela Indonésia. A falta de recursos humanos é apontada pela docente brasileira como a principal razão para que o país asiático não avance rumo ao objetivo expresso do governo de ter educação pública para todos. “Simplesmente, não houve tempo ainda para se formar professores em número suficiente”, diz Wandelci.

Uma vez em sala de aula, os desafios multiplicam-se. Por exemplo, pensar no quê, afinal, ensinar para crianças cujo maior desafio é, simplesmente, sobreviver. Em tal cenário, o relato de Joseph Okurut sobre o desinteresse de alunos, pais e também dos docentes de Uganda nos conteúdos e formas tradicionais de ensino faz todo o sentido. “Na escola, não há tempo suficiente para dar conta do currículo. Assim como as crianças e os pais, os professores não ligam para isso. Os pais nem olham para os resultados dos filhos, afinal eles precisam pensar se estão seguros e se têm o que comer.”

A opção, segundo Okurut, tem sido criar currículos colaborativos, em que as crianças opinam sobre o que querem ou precisam aprender. O que também é difícil: meninos e meninas imersos em realidades muitas vezes subumanas não costumam agir de forma participativa ou independente. Quando superam essa etapa, as demandas que apresentam aos professores incluem habilidades de sobrevivência, que vão dos temas diretamente ligados aos conflitos, como proteção pessoal e contra a epidemia de HIV, à necessidade de ganhos econômicos. “Estamos tentando trabalhar com agricultura orgânica. Com essas habilidades, elas podem obter alguma renda e contribuir para o desenvolvimento da educação. Podem passar a pagar as taxas escolares dos irmãos e irmãs, ou mesmo para seus filhos no futuro”, conta.

Em regiões pacificadas, muitas vezes o trabalho é reverter os anos de afastamento da população de qualquer tipo de sistema escolar. Fatma Abdilahi, coordenadora do Education Program, da ONG Save the Children UK em Somaliland (a porção nordeste da Somália, considerada território soberano dentro do país), diz que o primeiro grande desafio pós-trégua (no ano 2000) foi identificar os diferentes grupos de crianças e por que não iam à escola. Descobriu-se que muitas não freqüentavam as aulas por conta das atividades pastoris, fonte de sustento de 75% da população somali. “Criamos as escolas pastoras, que acompanham o grupo para onde eles estiverem se dirigindo. Normalmente se instalam em uma vila por cerca de seis meses. Depois desse tempo, viajam de lugar em lugar. Oferecemos tendas para que a escola possa ir com eles”, relata.

Etnias e religiões

Outro desafio bastante presente é o de dar conta das divisões étnicas ou religiosas que, muitas vezes, estão ou estiveram no centro dos conflitos. Tais divisões marcam tanto a forma como a educação se organiza, como o funcionamento das salas de aula mesmo no pós-conflito.

No Sudão, os antigos conflitos entre o norte, de maioria muçulmana, e o sul, onde minorias de confissão cristã dividem espaço com os povos de tradição islâmica, dividiram também o currículo escolar. “Durante a guerra, as áreas sob controle do governo implementaram o currículo do norte, enquanto as pessoas e as escolas do sul tomavam emprestado o currículo dos países vizinhos”, explica Margaret Ayite. Além de criar tensões religiosas, uma vez que muito da estrutura oficial tinha orientação muçulmana, reproduziu-se também nas escolas o problema de identidade nacional.

O trabalho de unificação curricular começou em 1994, mas ao chegar ao ministério, dois anos atrás, Margaret percebeu que tinha muito a fazer. “Ainda havia diferenças. Deixar para trás o sistema arábico leva tempo. Há muçulmanos no sul, portanto tem de se manter algumas coisas, mas não queremos encorajar o ensino islâmico em todas as escolas.”

Mudar certas regras pode significar enfrentar conceitos e preconceitos arraigados, defendidos por boa parte da população. Por exemplo, a solução para os anos de ditadura talebã no Afeganistão e, parcialmente, do conflito armado instaurado pela ocupação estadunidense não resolveu automaticamente o problema enfrentado pelas meninas e mulheres afegãs para freqüentar a escola, porque a interpretação da religião muçulmana feita pelos talebãs continua sendo pertinente para uma significativa parcela da população. Dirigentes educacionais e professores que defendem e trabalham em escolas para meninas são, freqüentemente, assassinados.

Quando a escola finalmente volta a ser espaço de convivência, nem sempre tudo são flores, como aponta a experiência da brasileira Wandelci no Timor Leste. “No seio da escola, vêem-se muitos problemas relacionados a diferenças étnicas. Criaram-se pequenos grupos, que disputam entre si, dividindo as pessoas das escolas em grupos rivais, prejudicando as relações entre professores e alunos.”

O problema estrutural

Se a natureza dos conflitos cria tantos problemas diferentes, pelo menos um é unanimidade nos relatos de educadores trabalhando em países afetados por guerras: em todos eles, a infra-estrutura educacional foi dizimada. “As escolas foram destruídas”, diz Wandelci sobre o Timor. “A infra-estrutura estava arrasada”, fala Fatma, sobre a Somália pós-guerra civil.

Mas de tal forma parecem acostumados com o fato de que escola não é sinônimo de sala de aula, quadro, giz, livros, mesas e cadeiras que são poucas as citações ao que se poderia considerar situação inusitada. Margaret Ayite lembra que, nos enormes campos de refugiados no sul do Sudão, escola pode ser uma tenda ou uma árvore. E pode variar, de acordo com o lugar onde o professor se abriga naquele dia.

O abalo estrutural, entretanto, não se limita aos prédios escolares. Nesses lugares, o Estado não tem condições básicas para estabelecer políticas educacionais fortes e perenes.

De um lado, há a questão econômica. Nesses países, ou é “preciso” gastar mais com a guerra em andamento, ou simplesmente a economia demolida pelos conflitos não resulta em arrecadação suficiente para os governos. Exemplo dessa matemática triste é citado por Joseph Okurut, de Uganda: “O Departamento Distrital de Educação de Soroti tem um orçamento equivalente a mais ou menos US$ 100. Para o ano todo!”

Do outro lado, há a falta de pessoas capacitadas para as funções administrativas. “As pessoas desconhecem formas administrativas, de organização de projetos e uso de recursos. A maior parte dos funcionários dos ministérios não entende de administração, não fala português ou inglês, nem possui formação superior”, relata outra brasileira no Timor Leste, Fabiana Ribas.Isso sem falar na corrupção.

Dinheiro que não vem

Esse cenário favorável ao “desperdício” tem sido usado como justificativa para uma conta que não fecha: os países afetados por conflitos, justamente os que concentram a maior parte da população infanto-juvenil fora da escola, recebem a menor parcela dos recursos internacionais disponíveis para a educação. Levantamento feito pela Save the Children mostra que apenas 18% do montante da ajuda internacional é destinado a essas nações, enquanto 49% do total doado pelos países mais ricos é investido em países em desenvolvimento, com renda mediana. Os outros 33% seguem para as nações mais pobres, porém pacificadas.

Para a ONG, é possível criar me­canismos de financiamentos e programas específicos que driblem os problemas. Da mesma forma que, todos os dias, professores e alunos driblam a guerra e seus horrores para seguir ensinando e aprendendo.

Alvo privilegiado

Ataques a escolas, universidades e educadores muitas vezes são deliberados

Levantamentos sobre ataques terroristas mostram que, cada vez mais, escolas e universidades tornam-se alvo preferencial. Uma das fontes usadas para compor o estudo “Education under Attack” (Educação sob Ataque), publicado pela Unesco em abril deste ano, aponta que forças terroristas internacionais levaram a cabo 314 ataques contra escolas. Foram registrados casos na Bósnia, Chechênia, Israel, Malásia, Holanda, Timor Leste, Afeganistão, Filipinas e Turquia. O mais marcante segue sendo o ataque à escola em Beslan, na Rússia, em 2002, quando rebeldes chechenos mantiveram mais de 700 pessoas reféns. Cerca de 300 pes­soas, entre alunos, pais e professores, morreram, vítimas dos terroristas ou alvejadas em meio ao fogo cruzado da operação de resgate.

Uma razão óbvia para essa preferência por escolas e universidades como alvos seria o grande número de pessoas circulando. Mas não é só. O valor simbólico da educação muitas vezes determina o destino de educadores, estudantes e das escolas dentro dos conflitos.

No Iraque, por exemplo, as ameaças, os atentados e assassinatos seletivos de professores universitários fazem parte de estratégias de controle político do país. Tanto os grupos sunitas como os xiitas, duas das etnias que disputam o poder no país, parecem acreditar que diminuir a força intelectual do opositor facilitará a chegada ao controle do governo após a retirada das tropas norte-americanas.

Nos territórios ocupados da Palestina, a destruição sistemática de escolas fazia parte dos planos militares da famosa Operação Escudo de Defesa, perpetrada pelo governo israelense no ano de 2002. As escolas foram consideradas como infra-estrutura importante em uma possível resistência à ocupação.

Os tipos de ataques sofridos por membros da comunidade escolar ou pelas instituições educacionais variam de acordo com a natureza dos conflitos. Em vários países da África, marcados pelas disputas entre grupos étnicos ou religiosos rivais, ataques-surpresa e o incêndio criminoso dos prédios são usados como técnicas para espalhar pânico. As disputas políticas envolvendo governos e grupos armados com inspiração política ou separatista, como ocorre na Colômbia, Nepal e Tailândia, incluem nesse menu de horrores as ameaças, seqüestros, assassinatos, prisões arbitrárias e tortura de educadores, em geral sob acusação de que fazem parte ou apóiam o grupo opositor.

Um documentário brasileiro finalizado neste ano ilustra bem o problema: em Grassroots, o diretor brasileiro André Ferezini mostra como o regime do Khmer Vermelho dizimou professores e intelectuais do Camboja nos anos 70, criando um país acéfalo.

Leia também:
A ROTINA DO TRÁFICO
No Rio de Janeiro, horário de escolas é condicionado pelo medo

Portal da Educação

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Venda da Vale: um golpe no Brasil

FHC mentiu para privatizar empresa e a justiça fez vistas grossas à irregularidade do processo.

Passada mais de uma década da privatização da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), podemos comprovar que muitas inverdades foram ditas: as reservas minerais da Vale foram avaliadas abaixo de seu valor real; outras sequer foram computadas, assim como a infra-estrutura ferroviária e portuária; e o preço da venda mal atinge dois meses do lucro que a empresa tem hoje.

Em 8 de maio de 1995, a Vale informou à Securities and Exchange Comission (SEC), organismo que fiscaliza o mercado acionário nos Estados Unidos, que suas reservas lavráveis de minério de ferro no Sistema Sul (grosso modo, Minas Gerais) contabilizavam 7,918 bilhões de toneladas. Só que, na hora de fazer o edital da venda, em 1997, constavam menos de sete vezes esse montante, aproximadamente, 1,4 bilhão de toneladas.

No Sistema Norte (Serra de Carajás, no Pará), a operação efetuada foi semelhante. De acordo com o apresentado à SEC em 1995, as reservas de minério de ferro totalizavam 4,97 bilhões de toneladas. Já no edital de privatização: 1,4 bilhão de toneladas.

Além disso, outras reservas nem foram consideradas. De acordo com uma pesquisa da Coordenação de Programas de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe- UFRJ), ficaram de fora as reservas de titânio, calcário, dolomito, fosfato, estanho, cassiterita, granito, zinco, grafita e nióbio.

E não foram apenas minérios que foram “esquecidos” na privatização. Ficaram de fora as contas de 54 empresas em que a Vale operava diretamente, como coligada ou controladora. Dentre elas estão a Açominas, a Companhia Siderúrgica Nacional, a Usiminas e a Companhia Siderúrgica de Tubarão. Duas ferrovias (a Belo Horizonte-Espírito Santo e a Carajás-São Luiz, totalizando 9 mil quilômetros de extensão) e terminais portuários ficaram de fora do valor que foi a leilão, assim como o capital tecnológico e intelectual da Docegeo (uma empresa de exploração mineral).

Ameaças à soberania

A privatização inclusive atenta contra a Constituição Federal. Reservas de urânio (matéria-prima para a energia e armas nucleares) são de propriedade exclusiva da União e não poderiam ter sido vendidas. Já a exploração mineral na faixa de fronteira não pode ser realizada sem uma aprovação do Congresso Nacional – que não ocorreu.

A venda da Vale também compromete a soberania do Brasil ao transferir para acionistas estrangeiros 26 milhões de hectares de terra. De acordo com o Código Penal Militar, é proibido a não-brasileiros possuir mais de dois mil hectares de terra, sem a aprovação do Senado e das Forças Armadas, o que também não aconteceu.

Maior da América Latina

Ironicamente, não há ninguém melhor para resumir as falcatruas que envolveram a privatização da Vale do que Fábio Barbosa, atual diretor executivo de finanças da Companhia. Em março de 2005, ele foi à imprensa comemorar um feito: a Vale se tornava a maior empresa da América Latina, com um patrimônio estimado em 40 bilhões de dólares (R$ 75 bilhões).

Essa quantia é 12 vezes mais do que o arrecadado pela venda, em dólares, e 23 vezes superior quando tomamos o valor da privatização em reais. À época, a União arrecadou R$ 3,3 bilhões (era a mesma quantia em dólares, já que as moedas se equivaliam em 1997).

Para chegar a esse número fantasioso, o artifício empregado pelo governo foi calcular o lance mínimo para o leilão com base no preço da ação no mercado multiplicado pelo número total das ações colocadas à venda. Todo o restante do patrimônio (incalculável – estudos independentes estimam que possa chegar a R$ 1 trilhão, valor semelhante a toda a dívida pública brasileira) ficou de fora.

As mentiras da privatização

A nação brasileira passou 55 anos construindo o patrimônio da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). Foi então que, em 1997, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) resolveu atender, mais uma vez, às exigências do capital e vender a Vale.

A cúpula tucana tinha na ponta da língua uma justificativa baseada naquilo que veio a ser um programa de governo: as privatizações como política fiscal. Qual era o raciocínio? A dívida pública do Brasil – interna e externa – estava muito elevada e isso reduzia a capacidade de o Estado investir. Logo, disseram os tucanos, a solução era leiloar as estatais e, com a verba arrecadada, amortizar algumas parcelas dessa dívida.

Além disso, dizia o governo FHC, essas empresas eram muito onerosas para o Estado. O discurso era, mais ou menos, assim: se as vendermos, terão uma gestão mais eficiente – a qual só pode ser feita sob o comando privado – e, assim, vamos reduzir gastos e,conseqüentemente, impostos.

No entanto, em que pese a ingenuidade de acreditar nessas palavras, a distância entre a fantasiado discurso e a frieza dos números se mostrou um abismo. O Programa Nacional de Desestatização (PND), durante o governo FHC, conseguiu vender 70% das estatais brasileiras e arrecadou aproximadamente R$ 60 bilhões. Esse valor correspondia a mais da metade da dívida pública interna no início do governo de Fernando Henrique, R$ 108 bilhões. Mas, ao final do segundo mandato tucano, o dinheiro arrecadado com os leilões não passava de um décimo da dívida interna, a qual disparou para R$ 687 bilhões. Com o endividamento externo, a situação foi parecida. De 148,2 bilhões de dólares em 1995, a dívida passou a ser de 227,6 bilhões de dólares em 2002.

Justiça pode anular leilão

A grande quantidade de irregularidades da privatização da Vale do Rio Doce despertou uma forte reação da sociedade. Antonio Carlos Spis, que era da direção da Federação Única dos Petroleiros (FUP), recorda o dia da privatização. “Conseguimos uma liminar impedindo a realização do leilão, enquanto as bombas já eram remetidas contra os manifestantes. Só que, na hora de entregá-la ao juiz de plantão, nossos advogados não conseguiram encontrá-lo. Houve tanta malandragem que o próprio Judiciário participou da quadrilha que entregou a Vale. O juiz só apareceu depois do leilão”, protesta.

No entanto, além das ações judiciais que tentavam impedir a realização do leilão, outras 104 questionam a privatização. Pode parecer algo distante, mas a possibilidade jurídica de anular o leilão é real. Dessas 104, o Judiciário reabriu, em 2005, 69. A decisão veio do Tribunal Regional da Primeira Região, em Brasília (TRF-1), que considerou que haviam sido julgadas sem mérito essas 69 ações populares questionando o edital do leilão e a venda da Vale.

Portanto, receberiam uma nova apreciação, baseada em perícia. Neste exato momento, as ações aguardam análise do Superior Tribunal de Justiça (STJ), em um embate jurídico que foi retomado e que não pode ficar sem a pressão popular para conseguir seu êxito.

Um bom negócio para os ricos

A Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) sempre foi lucrativa. Estimativas indicam que, antes da privatização, seus dividendos giravam em torno de R$ 1 bilhão. Sendo assim, nos três anos após à venda da Companhia, seus novos controladores conseguiram recuperar o dinheiro investido na aquisição (R$ 3,3 bilhões) e ainda tiveram uma sobra de R$ 1,1 bilhão. Entre 1998 e 2000, os lucros da Vale totalizaram R$ 4,413 bilhões.

A partir dessa década, os lucros da Vale deram saltos. Paulo Passarinho, coordenador geral do Sindicato dos Economistas do Estado do Rio de Janeiro (Sindecon), explica isso ocorreu em função da elevação dos preços do minério de ferro no mercado internacional. Dessa forma, entre 1998 e o primeiro semestre de 2007 os lucros da Vale somaram R$ 50,456 bilhões, sem contar a inflação.

Considerando que, antes da privatização, a União possuía cerca de 20% do capital total da empresa, isso significa que o Estado brasileiro deixou de arrecadar R$ 10,091 bilhões apenas com os lucros da Companhia.

O que o povo perdeu

Se a privatização não tivesse sido feita, veja o que o governo poderia fazer com os R$ 10,091 bilhões a que teria direito sobre o lucro da Companhia Vale do Rio Doce:

*167 hospitais Similares ao de Cidade Tiradentes, em São Paulo, com 27 mil metros quadrados e capacidade para atender 25 mil pessoas por mês

* 202 mil casas populares - Moradia de baixo custo orçada em R$ 50 mil

1.627.580 assentamentos rurais - De acordo com o Plano Nacional de Reforma Agrária

* 68 universidades - Orçamento da Universidade Federal do ABC (região metropolitana de São Paulo), que atenderá a 17 mil alunos e empregará 272 professores.

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Uma Disputa Emocional

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O Capitão Rodrigo Cambará (personagem de Érico Veríssimo em O Continente) dizia que é divertido ser contra o Governo. Talvez seja por isso que JK tenha decidido assinar o projeto de lei de transferência da capital federal para o Planalto Central em uma cidade do interior de Goiás. Projetos polêmicos costumam ter disputas que raiam para o emocional.

Situação semelhante estamos vivendo com relação à transposição de águas do São Francisco para abastecer o Nordeste Setentrional. O assunto foi ventilado pela primeira vez na corte de D. João VI, no Rio de Janeiro, antes da independência do Brasil. D. Pedro II, em visita ao Nordeste, resolveu executá-lo, mas a guerra do Paraguai atrapalhou seus planos. A República resolveu tomar medidas localizadas, criando açudes e cisternas, que não resolveram o problema. Agora que o modelo de medidas localizadas se exauriu, conclui-se que a medida mais eficaz é retornar ao projeto da época do Brasil Reino: a integração da bacia do São Francisco com as bacias do Nordeste Setentrional.

Tratando-se de um projeto exclusivamente técnico, o ideal seria que fosse discutido por técnicos. Entretanto, a Lei 9.433/1997, estabelece que os comitês das bacias hidrográficas sejam a primeira instância a julgar o pedido de autorização para retirada de água dos rios.

Como a água é um bem coletivo, tradicionalmente objeto de disputas, a decisão dos membros do Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF) não foi diferente do que sói ocorrer em casos como esse: negou-se a concessão, obrigando o Governo a recorrer da decisão.

Com isso, o assunto passou a ser discutido de forma exclusivamente emocional. Dezenas de artigos foram publicados, contendo os argumentos mais variados, com as mais diversas razões, reais ou fictícias, para condenar a transposição. E, como era de se esperar, os principais críticos do projeto são habitantes da bacia doadora.

Em Minas Gerais, há um grupo disposto a impedir a transposição a todo custo. A alegação é que, com a destruição da mata ciliar, a vazão do rio diminuiu e, assim, não sobrará água para a transposição. Cometem um erro hidrológico básico: a água de um rio vem das chuvas na bacia e sua quantidade independe de haver ou não matas. O que ocorre com a destruição das matas ciliares é a modificação do regime de vazão do rio, que passa a ter picos maiores, como a enchente que se observou neste ano, e vazões menores durante o período de estiagem. As vazões menores não afetam o Velho Chico, hoje com reservatórios em quase todo o seu curso. O art. 2º da Deliberação CBHSF 008/2004 reconhece que a vazão firme, a jusante de Sobradinho, é de 1.815 m3/s. O que se pede para a transposição, que será feita a jusante de Sobradinho, é apenas 26 m3/s.

Alagoas é outro estado em que é forte o movimento contra a transposição. Apenas a título de esclarecimento, a vazão mínima na foz do São Francisco, no litoral alagoano, é de 1.860 m3/s, calculada por métodos estatísticos para um período de retorno de 20 anos. Essa vazão é suficiente para irrigar todas as culturas dos alagoanos, bem como para permitir a navegação no Baixo São Francisco. Não há motivo para um movimento tão indignado no estado. Por outro lado, há o problema das enchentes que, neste ano, de acordo com notícias do site do CBHSF, já mataram cinco pessoas e desabrigaram milhares de ribeirinhos. Essas enchentes, cuja causa principal é a destruição das matas ciliares, somente serão contidas quando as matas forem restauradas. Mas há uma maneira de amenizá-las com o projeto de transposição, que terá capacidade para bombear até 127 m3/s. Enviando para o Nordeste Setentrional a água que mata e destrói nas barrancas do São Francisco, principalmente no Estado de Alagoas, estarão sendo amenizadas as enchentes que ele provoca. Por isso, a transposição trará grandes benefícios ao estado, não havendo justificação para a forte oposição ao projeto que ocorre entre os alagoenses.

O apoio que setores do Estado de Sergipe dão aos movimentos contrários à transposição chega a ser cômico. Sergipe, que faz parte do polígono das secas, foi a primeira unidade da federação a se beneficiar com um projeto de transposição de águas do São Francisco. Situando-se na bacia do Rio Sergipe, à medida que Aracaju e sua área metropolitana foram crescendo, mais se acentuava o problema da falta de água. A solução foi integrar a bacia do Rio Sergipe à bacia do Velho Chico, passando o São Francisco a suprir cerca de 70% da demanda de água de Aracaju. Quando alguns sergipanos combatem a execução de uma nova transposição, lembramo-nos daquela fábula em que o macaco se senta no próprio rabo para criticar os rabos dos outros macacos.

O governador da Bahia é francamente favorável à transposição, mas a boa terra é o estado onde é mais forte a resistência ao projeto. Basta lembrar que foi na cidade de Barra que o bispo local chegou a fazer greve de fome contra o projeto. No entanto, os baianos deveriam prestar mais atenção à distribuição das vazões alocáveis do São Francisco, da qual são os grandes beneficiários. Apenas para citar um exemplo, o projeto de irrigação do Baixio do Irecê foi aquinhoado com uma outorga inicial de 10 m3/s. Até aí, nada demais, porque há outras outorgas maiores. A questão é que o projeto ainda não havia se iniciado e já havia sido aprovada uma segunda outorga, para ser usada em uma futura ampliação. Total da segunda outorga: 50 m3/s. Portanto, dos 360 m3/s alocáveis, a irrigação de uma parte do sul da Bahia já abiscoitou 60 m3/s. O CBHSF editou a Deliberação nº 09/2004 para rever situações como essa, mas nunca é demais lembrar que a vazão requerida para o projeto de transposição é de 26 m3/s.

De todas as críticas ao projeto de transposição, a que me pareceu mais coerente foi a feita por pernambucanos. Há habitantes da bacia do São Francisco em Pernambuco reagem de forma veemente ao projeto de transposição. Enviei um e-mail para esse grupo, apresentando as razões pelas quais estranhava que pernambucanos fossem contra o projeto: Pernambuco é o estado com o mais baixo potencial hídrico do Brasil (cerca de 1.320 m3/hab.ano). A transposição vai levar água para o semi-árido pernambucano, fixando o homem do campo em sua terra. Como resposta, disseram-me o seguinte: a transposição vai levar água também para o Ceará, que poderá se tornar o maior produtor de frutas do Nordeste, tomando a posição que hoje é de Pernambuco.

Se os pernambucanos não usam subterfúgios para se declararem opositores ao projeto de transposição, surpreende que haja cearenses contrários a esse projeto. O Ceará não faz parte da bacia do São Francisco e, portanto, é apenas receptor. Contudo, existe um movimento dentro do Ceará contrário à transposição. É verdade que isso provocou reação da maioria silenciosa, a começar do arcebispo de Fortaleza, que deu entrevista declarando-se favorável ao projeto. No entanto, não deixa de surpreender a existência de movimento contrário à transposição num estado em que falharam todos os métodos localizados para impedir que os efeitos da seca forçassem a migração de boa parte de sua população.

Pelo que foi exposto, a conclusão é apenas uma: a polêmica em torno do projeto de transposição é uma disputa por água e os argumentos são muito mais emocionais que técnicos. O Ministério da Integração Nacional relacionou uma série de perguntas que lhe são feitas e que mostram a desinformação que a população tem em relação ao projeto. Parte dessa desinformação resulta dos argumentos emocionais que são publicados na imprensa e que lançam mais confusão em torno do projeto. Diante de toda essa celeuma, devemos lembrar a letra da canção de Caetano Veloso chamada O Ciúme, que se encaixa exatamente nesse particular:

O ciúme
Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia
Tudo esbarra embriagado de seu lume
Dorme ponte, Pernambuco, Rio, Bahia
Só vigia um ponto negro: o meu ciúme

O ciúme lançou sua flecha preta
E se viu ferido justo na garganta
Que nem alegre nem triste nem poeta
Entre Petrolina e Juazeiro canta

Velho Chico vens de Minas
De onde o oculto do mistério se escondeu
Sei que o levas todo em ti, não me ensinas
E eu sou só, eu só, eu só, eu

Juazeiro, nem te lembras dessa tarde
Petrolina, nem chegaste a perceber
Mas, na voz que canta tudo ainda arde
Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê

Tanta gente canta, tanta gente cala
Tantas almas esticadas no curtume
Sobre toda estrada, sobre toda sala
Paira, monstruosa, a sombra do ciúme
(Caetano Veloso)

Faço minhas as palavras de Caetano. A polêmica em torno do projeto de transposição é apenas uma questão de ciúme das águas do Velho Chico.

Paulo Afonso da Mata Machado


Fotos do autor

Especial para o Blog Controvérsia (em contraposição ao artigo: http://blog.controversia.com.br/2007/08/13/rio-sao-francisco-incertezas-da-transposicao/)

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Por 16 votos a 15, MP-SP mantém promotor Schoedl no cargo

Rosanne D’Agostino

O Órgão Especial do MP-SP (Ministério Público de São Paulo) decidiu, por 16 votos a 15, manter a decisão do Conselho Superior da instituição que já havia garantido, em março, o vitaliciamento do promotor Thales Ferri Schoedl, acusado de matar um rapaz e ferir outro na Riviera de São Lourenço, litoral de São Paulo.

Com a decisão, que revoltou os familiares, ele mantém o cargo e o salário de promotor substituto e terá direito a foro privilegiado, não sendo levado a júri popular em Bertioga pelo crime.

O advogado de Schoedl, Ovídio Rocha Barros Sandoval, afirmou que o promotor comemorou a decisão “como se fosse uma parada”. “Não se poderia jamais, em um processo administrativo, examinar questões criminais. Seria um absurdo”, defendeu. Segundo ele, Thales volta a trabalhar em breve.

O outro defensor, Rodrigo Marzagão, voltou a afirmar que seu cliente agiu em legítima defesa. “Esperamos que o Órgão Especial do Tribunal de Justiça entenda desta maneira.”

Última Instância

Indignação
Minutos após o término da sessão, os parentes foram chamados até o 9º andar do MP-SP, onde ocorria o julgamento, para serem informados do resultado. De volta ao térreo, não agüentaram o choro.

“Para o Ministério Público, vale tudo. Pena que não vim com nariz de palhaço”, disse a mãe do jovem assassinado, Sônia Modanez, aos prantos junto do marido, Fábio.

“Legítima defesa com 12 tiros?”, questionou a mãe de Diego. “Armação de novo? Que nem o último?” completou o pai do jovem. “Quem votou a favor dele vai mostrar para a imprensa porque votou?”

Até o advogado das famílias demonstrou revolta aos jornalistas: “Isso dói em mim, já está selado, é difícil de reverter”, afirmou Pedro Lazarini. “O caso emociona porque estamos lutando contra uma Leviatã, um Estado escondido.”

O advogado afirma que pretende transformar a denúncia feita à OEA (Organização dos Estados Americanos) em uma representação. “Me sinto impotente. Um caso julgado a portas fechadas é inaceitável”, argumentou.

“Cada qual vota com a convicção que tem. Eu não acredito que houve Justiça, eu votei pela expulsão, estou profundamente decepcionado”, afirmou o procurador José Roberto Garcia Duran, que presidiu a sessão. “É uma situação desagradável para o MP. Causa desgaste”, admitiu.

O procurador-geral de Justiça de São Paulo, Rodrigo Pinho, também lamentou a permanência. “Nós discordamos, é lamentável. Ele não tem condições de permanecer na carreira, demonstrou que não tem capacidade para trabalhar como promotor de Justiça”, criticou Pinho.

Falhas
No último dia 15, uma falha administrativa fez com que o Órgão Especial adiasse o julgamento. Segundo o procurador José Roberto Garcia Duran, que presidiria a sessão, o julgamento não pôde ser realizado porque não foram entregues aos procuradores peças do processo que contém novas alegações.

No dia 20 de março deste ano, por maioria de votos, ficou decidido que o promotor não perderia a vitaliciedade, ou seja, sua permanência vitalícia no cargo de promotor, concedida a partir do segundo ano de exercício. Quando o crime ocorreu, Schoedl exercia a função de promotor de Justiça substituto, em Iguape (litoral de São Paulo), havia um ano e três meses.

No Conselho Superior, de um total de nove votos, cinco foram pelo não-vitaliciamento. Mas como é preciso a maioria absoluta dos membros do Conselho para efetivar a expulsão, a proposta foi rejeitada nos termos do parágrafo 2º, do artigo 130, da Lei Orgânica do MP-SP.

Schoedl chegou a ser exonerado, em agosto de 2005, mas conseguiu recuperar o cargo no Tribunal de Justiça de São Paulo e, posteriormente, no Órgão Especial do TJ-SP, que anulou decisão do Conselho Superior. Isso porque um dos votantes do conselho estaria impedido. O promotor também voltou a receber os salários e vantagens, mas sem exercer funções. Com a decisão, Schoedl passaria por outro processo administrativo no MP, que acontece agora.

Crime
Schoedl é acusado de matar a tiros Diego Mendes Modanez, 20 anos, e de ter ferido Felipe Siqueira Cunha de Souza, 21 anos, durante uma discussão, no dia 30 de dezembro de 2004, na Riviera de São Lourenço, em Bertioga, no litoral norte de São Paulo.

Na saída de um luau, as vítimas teriam mexido com a namorada de Schoedl. O promotor afirmou que foi cercado após uma discussão e que teria disparado contra o chão com o objetivo de dispersar os rapazes, que teriam imaginado que as balas eram de festim. Acuado, ele atirou na direção dos jovens. Preso logo depois do crime, o promotor alegou legítima defesa.

Diego Mendes, que era jogador de basquete, morreu. Felipe, hoje com 23 anos, foi internado em estado grave na época, mas passa bem. Ele vive com uma bala alojada no fígado. O promotor teria disparado um total de 12 tiros.

Quarta-feira, 29 de agosto de 2007

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De Saigon a Bagdá

Quanto mais procura justificativas para a injustificada invasão do Iraque, mais se enreda o presidente estadunidense em mentiras e falsidades. Seu último lance foi a distorção da História apresentada em discurso para veteranos de guerra no dia 22 de agosto, em que a luta contra os japoneses na II Guerra Mundial, a Guerra do Vietnã e a Operação “Liberdade para o Iraque” foram apresentadas como uma mesma luta: a luta ideológica entre os defensores da liberdade (os estadunidenses e seus aliados, é claro) e os inimigos da liberdade (os outros). O raciocínio de Bush vai além: para ele, foi a saída prematura das tropas estadunidenses do Vietnã que desencadeou a violência que se seguiu, tanto naquele país como no Camboja.

Embora incorretas, as comparações do líder estadunidense servem a algumas considerações importantes. Primeiramente, há de se considerar uma diferença básica entre os “malvados militaristas japoneses” e os malvados comunistas ou terroristas islâmicos: o Japão iniciou a construção de um Império na década de 1930, invadindo e ocupando os países vizinhos, e efetivamente agrediu os Estados Unidos no bombardeio a Pearl Harbor, que levou o gigante norte-americano a entrar na Segunda Guerra Mundial. Quanto aos comunistas do Vietnã, ou os “fascistas islâmicos” que habitam o Iraque (e certamente o Irã, a Síria, a Palestina…), a realidade é que nunca apresentaram ameaça concreta aos Estados Unidos – mesmo se considerarmos válida a versão oficial dos eventos de 11 de setembro de 2001, o que implicaria a Al-Qaeda mas não Saddam Hussein nos atentados.

Outras diferenças saltam aos olhos ao se comparar a luta contra os japoneses e a luta contra os vietcongs ou iraquianos: no primeiro caso: tratava-se de fazer regredir o Império que se havia expandido por todo o sudeste asiático e estendia suas garras pelo Oceano Pacífico, ameaçando a América. No caso do Vietnã e do Iraque, trata-se de tentar impor um regime de ocupação que dê sustentação a um governo títere local que de outra forma não teria forças de se manter. Assim, bastou a retirada dos militares estadunidenses de Saigon para o governo sul-vietnamita ruir diante do ímpeto da guerrilha comunista dos vietcongs. E bastará uma eventual retirada estadunidense do Iraque para que imediatamente colapse o governo instalado em Badgá (que de forma alguma tem o controle sobre todo o país). Para sintetizar, pode-se dizer que a grande diferença é que, no caso do Japão, os Estados Unidos lutaram contra uma potência imperialista militarista em expansão; no caso do Vietnã e do Iraque, são os Estados Unidos a potência imperialista militarista a invadir outras regiões visando dar vazão a seus interesses estratégicos e econômicos.

Se a guerra contra o Japão, pelos motivos apontados, não serve como parâmetro de comparação, o Vietnã devia ensinar muito ao presidente em final de mandato – que acredita, segundo palavras do discurso aos veteranos, que teria sido melhor ficar mais alguns anos no Vietnã, o que faria certamente que o muro de granito com os nomes dos soldados estadunidenses mortos já estivesse cercando a cidade de Washington.

No Vietnã e no Iraque, ao contrário do que afirma Bush, foi a presença das forças armadas estadunidenses (e sua violência, seu desrespeito, seus preconceitos) que intensificou o grau de violência. Pode-se razoavelmente supor que a ausência de apoio francês e depois estadunidense ao governo de Saigon levaria uma rápida vitória dos vietcongs, levando o Vietnã do Sul a unir-se ao já comunista Vietnã do Norte sem maiores traumas (e evitando a radicalização no Camboja, iniciada após os arrasadores bombardeios estadunidenses). Quanto ao Iraque, as próprias agências de segurança e informação dos Estados Unidos constataram, em relatório de setembro de 2006, que o radicalismo islâmico, mais do que diminuir, vem aumentando e espalhando-se pelo globo, e que a Guerra do Iraque é uma das razões para a difusão da “ideologia jihadista”, tornando o problema do terrorismo muito pior.

Em ambos os casos, a principal lição histórica a se considerar é a impossibilidade de se vencer uma guerra de ocupação, por mais poderoso que seja o poder ocupante e suas forças armadas. Que o digam os ingleses ou russos que tentaram no século XIX e XX ocupar o Afeganistão; os franceses, que com toda superioridade militar foram expulsos da Indochina e da Argélia; os israelenses, que conseguem destruir, mas não ocupar toda a Palestina; os próprios japoneses, que no alvorecer da década de 1940 pareciam imbatíveis no sudeste asiático.

As guerras de ocupação – como é a “Guerra ao Terror” empreendida por Bush Júnior, por enquanto tendo como alvos Afeganistão e Iraque, e em breve Irã e Síria – têm um diferencial em relação à “guerra tradicional”, opondo dois ou mais países e suas forças armadas: as forças de ocupação lutam contra toda a população, não distinguindo combatentes de civis. O saldo, por pior que possa ser para o poder ocupante, é catastrófico para o país ocupado e sua população. Oremos pelo Iraque e pelos iraquianos.

André Gattaz, Doutor em História pela Universidade de São Paulo; autor de “A Guerra da Palestina: da criação do Estado de Israel à Nova Intifada” (São Paulo, Usina do Livro, 2003).

Icárabe

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Debate sobre educação

sábado, 01/09 - 14 horas

Assembléia Legislativa de SP, Auditório Franco Montoro
Lisete Arelaro - Faculdade de Educação da USP
Luiz Araújo - ex-Secretário de Educação de Belém
Otaviano Helene - Instituto de Física da USP

Mandatos Populares e Socialistas:
Ivan Valente - Deputado Federal - PSOL/SP -
Carlos Giannazi - Deputado Estadual - PSOL/SP
Raul Marcelo - Deputado Estadual- PSOL/SP

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