Arquivo de Agosto de 2007

No Chile, trabalhadores exigem mudança da política econômica

Protesto critica presidente Michelle Bachelet e pede demissão do ministro da Fazenda; polícia reprime manifestação com violência, mais de 700 detidos

30/08/2007
da redação

Servidores públicos, professores, médicos, trabalhadores e estudantes protagonizaram nesta quarta-feira (29) um protesto massivo no Chile que paralisou a capital Santiago. O objetivo foi se opor à política econômica neoliberal da presidente Michelle Bachelet. O governo reprimiu com violência a manifestação e mais de 700 pessoas foram detidas.

Em alguns setores da cidade, a mobilização durou até a madrugada. Os manifestantes acusaram Bachelet de manter as políticas da ditadura de Augusto Pinochet e reivindicaram maior justiça social e condições de trabalho.

As marchas foram lideradas por dirigentes sindicais da Central Unitária de Trabalhadores (CUT) com o lema “conquistar um Estado social, democrático e solidário”. A maior organização sindical do país acusa a presidente chilena de não cumprir suas promessas de campanha. Uma das reivindicações era a renúncia do ministro da Fazenda, Andrés Velasco.

A mobilização teve ampla acolhida. Em Santiago, reuniu cerca de 4 mil pessoas, de acordo com a polícia de Bachelet. Houve atos nas principais cidades como Rancagua, Valparaíso e Concepción, e na província de Arauco, com bloqueios de rodovias, segundo o dirigente da CUT Arturo Martínez. “Os trabalhadores deram uma mostra de dignidade. O povo do Chile está orgulhoso de ter trabalhadores conscientes, que saíram à rua para reclamar seus direitos”, disse ao La Jornada.

O sindicalista avaliou que a mobilização iniciou um processo de mudança no país. A mobilização teve como símbolo uma vaca que “está cansada de ser ordenhada em benefício de uns poucos”, segundo o dirigente. A central recorreu a essa analogia para descrever a situação dos trabalhadores chilenos, desprestigiados no atual modelo econômico do país. Este ano, a economia vai se expandir 6%. Mas o desemprego segue elevado, na faixa dos 7%.

“Há um descontentamento no movimento dos trabalhadores. Não se reajustam nossos salários e as pessoas estão esgotadas. Estamos aqui por isso, não nos faltam motivos para protestar”, afirmou à BBC Mundo Loreto Pérez, presidente de um sindicato de trabalhadores de farmácias. Juan Luis Castro, representante dos médicos, declarou à mesma rede de notícias: “Não há acesso igualitário à saúde. Há que se esperar dias ou meses para um atendimento e temos um elevado déficit de especialistas. Esses são problemas reais que não estão sendo abordados”.

“Não mudaram a matriz da ditadura que entende a educação como um privilégio para quem pode pagar. Nós cremos na unidade do povo”, afirmou Jorge Pávez, representante do sindicato dos professores.

Repressão

Os enfrentamentos com a polícia ocorreram durante todo o dia, com uso de violência por parte dos soldados. Para evitar que o protesto avançasse até a sede do governo, o Palácio de La Moneda, os policiais usaram a cavalaria e gases lacrimogênio. Os manifestantes responderam com pedras e bombas caseiras. O senador socialista Alejandro Navarro foi golpeado na cabeça por um cacetete. O prêmio Nobel de Literatura Raúl Zurita foi um dos feridos.

De acordo com o defensor de direitos humanos Hugo Gutiérrez, a polícia colocou em prática um novo sistema de contenção de multidões ao deter logo cedo os dirigentes das colunas de manifestantes em formação e, assim, desarticulá-las. Em meio ao protesto, a presidente Bachelet discursou pedindo diálogo. “Quero que entendam bem: é necessário disposição para acordos, e não de violência, porque a democracia não necessita nem de desordem”, afirmou.

Em paralelo aos protestos, a Câmara dos Deputados aprovou em primeiro turno uma reforma para a fracassada seguridade social. Além disso, sancionou pela primeira vez o “conselho da igualdade”, constituído por Bachelet com o objetivo de elaborar propostas nos temas de trabalho, competitividade e salário “ético”, superior ao mínimo atual equivalente a 274 dólares.

Jornal Brasil de Fato
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O abandono da política

O mundo do coletivo está em declínio. Nós seguimos à deriva do abandono da política. Mas há arquipélagos de resistência nesse oceano de devastação e poluição abstencionista.

Lula Miranda

“Eu detesto política” – quem nunca escutou essa frase que atire a primeira pedra. É, existem pessoas que pensam assim. Pode não ser o meu caso – ao contrário! Tampouco, certamente, o seu, prezado leitor. Mas essa é uma frase assim mesmo, curta e grossa e, sem dúvida, ouve-se bastante por aí – curta e grossa, principalmente, se aquilatamos a pobreza de sentido de tudo que lhe é subjacente e imanente. E tem gente que fala isso até com certa empáfia/jactância, como se estivesse falando a coisa mais sensata e inteligente do mundo.

Muitas pessoas falam sem pensar e algumas agem sem pensar – outras (muitas) até vivem sem exercer essa atividade tão singular e própria aos de nossa espécie. Se refletissem perceberiam que, como já dizia Bertolt Brecht no poema “*O* *Analfabeto Político*” [aliás, nunca é demais recomendar a leitura desse autor: leiam-no, assistam suas peças, sempre que possível], o analfabeto político é aquele que “não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos./Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,/ do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio/dependem de decisões políticas. (…) que da sua ignorância política nasce a prostituta/ o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista”.

Abandonamos a política. De modo geral, muito pouco, quase nada, lemos, refletimos, falamos ou debatemos sobre questões importantes da política nacional. Muito pouco, quase nada, participamos da pulsante vida política do país. Do resto do mundo então, nem pensar. Talvez estejamos demasiado aferrados ao nosso mundo – num âmbito, por assim dizer… umbilical. E o resto …

Não participamos das assembléias em nossos sindicatos e demais associações de classe – muitas delas, sejamos honestos, muito mal conduzidas e, muitas vezes, palco de disputas comezinhas de correntes políticas (por vezes dentro de um mesmo partido, numa espécie de autofagia ou de briga entre irmãos). Mas isso não pode servir como pretexto/desculpa para não freqüentarmos o nosso sindicato e procurarmos desenvolver em nós a solidariedade e o espírito de corpo (não confundir com espírito de porco ou com o corporativismo mesquinho).

Num âmbito mais “doméstico”, não participamos sequer das reuniões de condomínio em nosso prédio – nas quais, muitas vezes, decidem-se coisas que vão influir diretamente em nosso cotidiano ou mexer com as nossas finanças ou patrimônio. Nós não queremos nem saber dessa “chatice” toda. Não é mesmo?

Praticamente já não saímos às ruas a empunhar bandeiras – sejam de partidos ou de ideologias. Participamos muito pouco de fóruns de debates – observe que nas seções de cartas/comentários em sites e por toda a blogosfera predomina, muitas vezes, o pensamento conservador, de direita. A direita começa a perder a vergonha, a colocar as “manguinhas” de fora, e já principia, despudoradamente, a ocupar largos espaços.

Sim, votamos. Decerto. Porém, exercemos de forma limitada e precária nossa cidadania. Pois, na maioria das vezes, no dia da eleição, saímos de casa rumo a sessão eleitoral sem sequer saber em que deputado ou vereador votar. E, após votar, passado poucos meses do pleito, sequer nos lembramos em quem votamos e, quando lembramos, não nos preocupamos em acompanhar o desempenho do parlamentar nas câmaras municipais, nas Assembléias Legislativas ou no Congresso Nacional.

Ou seja, abandonamos a política. Entregamos o espaço do exercício da política àqueles com “senso de oportunidade”, àqueles que tiverem tempo e disposição (na verdade, interesse) em ocupá-lo. Daí que, diante do abandono da política, ela tenha sido de imediato acolhida e “instrumentalizada” por alguns oportunistas e salafrários que a utilizam, não para seu fim primeiro (o debate pluralista de idéias, a defesa de interesses da coletividade etc), mas em benefício próprio e de seus interesses ou de seu grupo. São pessoas, não exatamente vocacionadas para o nobre ofício da Política; são arrivistas espertalhões que dotados de senso de oportunidade, uma boa lábia e muita cara de pau, ocupam com impressionante desenvoltura esse vácuo por nós deixado.

Como uma deletéria conseqüência disso, os partidos praticamente não têm inserção na sociedade e a sociedade não se sente representada pelos políticos, ou pelos partidos. Culpa dos políticos, dos partidos? Muitos dos sindicatos funcionam como meros cartórios para expedição de documentos e homologações, e perdem pouco a pouco a necessária representatividade que os legitimam. Culpa dos sindicatos, dos sindicalistas?

Portanto, se abandonamos o terreno da Política, depois não podemos reclamar que ali, naquele terreno (hoje “baldio”), só nasceu mato e erva daninha – ou seja, que no Parlamento só tem lobista, beócio, picareta e aproveitador, e que nos sindicatos só tem pelegos e gente despreparada.

Assim, não podemos reclamar da eleição (com estrondosa votação, inclusive) de parlamentares como Enéas (que Deus o tenha), Clodovil e Frank Aguiar – para citar os mais “inofensivos”, mas não menos emblemáticos da falência e indigência atual do nosso sistema político. Sem falar no que “rouba, mas faz”; nos verdugos da ditadura, nos capitães de chacinas, no da serra elétrica (já defenestrado), nos mercadores de mandatos e legendas, nos “sanguessugas”, nos “anões” do orçamento (e da moral), e por aí vai.

É de fato surpreendente, um milagre até, que nesse ambiente de abandono sobrevivam, no Congresso, pessoas devotadas e ilibadas como Aldo Rebelo e Inácio Arruda (PC do B), José Eduardo Cardoso, Maurício Rands e Ideli Salvatti (PT), Ana Arraes e Ciro Gomes (PSB) Pedro Simon (PMDB), Jefferson Peres e Cristovam Buarque (PDT), dentre outros poucos. Sim, nem só de urtigas é feita essa nossa “lavoura” já tão devastada; também existem flores, que insistem em brotar em meio ao lodo – isso, claro, para não dizer que não falei de flores.

É preciso que retomemos o interesse pelo exercício da política, que lutemos pela dignidade na política [ler Hannah Arendt, em “A Dignidade da Política”]. É necessário prestigiar os bons parlamentares e os homens públicos dedicados, e incentivar vocações autênticas, aquelas balizadas pelo verdadeiro espírito republicano de servir ao povo e à coisa pública. Antes que seja tarde demais. Antes que o exercício da política seja de uma vez dominado pelos que defendem apenas inconfessáveis interesses privados – quando não, pura e simplesmente, criminosos.

Lula Miranda é poeta, cronista e colabora semanalmente com a Carta Maior. É Secretário de Formação para a Cidadania do Sindicato de Trabalhadores em Editoras de Livros de São Paulo.

Carta Maior
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Uma Disputa Emocional

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O Capitão Rodrigo Cambará (personagem de Érico Veríssimo em O Continente) dizia que é divertido ser contra o Governo. Talvez seja por isso que JK tenha decidido assinar o projeto de lei de transferência da capital federal para o Planalto Central em uma cidade do interior de Goiás. Projetos polêmicos costumam ter disputas que raiam para o emocional.

Situação semelhante estamos vivendo com relação à transposição de águas do São Francisco para abastecer o Nordeste Setentrional. O assunto foi ventilado pela primeira vez na corte de D. João VI, no Rio de Janeiro, antes da independência do Brasil. D. Pedro II, em visita ao Nordeste, resolveu executá-lo, mas a guerra do Paraguai atrapalhou seus planos. A República resolveu tomar medidas localizadas, criando açudes e cisternas, que não resolveram o problema. Agora que o modelo de medidas localizadas se exauriu, conclui-se que a medida mais eficaz é retornar ao projeto da época do Brasil Reino: a integração da bacia do São Francisco com as bacias do Nordeste Setentrional.

Tratando-se de um projeto exclusivamente técnico, o ideal seria que fosse discutido por técnicos. Entretanto, a Lei 9.433/1997, estabelece que os comitês das bacias hidrográficas sejam a primeira instância a julgar o pedido de autorização para retirada de água dos rios.

Como a água é um bem coletivo, tradicionalmente objeto de disputas, a decisão dos membros do Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF) não foi diferente do que sói ocorrer em casos como esse: negou-se a concessão, obrigando o Governo a recorrer da decisão.

Com isso, o assunto passou a ser discutido de forma exclusivamente emocional. Dezenas de artigos foram publicados, contendo os argumentos mais variados, com as mais diversas razões, reais ou fictícias, para condenar a transposição. E, como era de se esperar, os principais críticos do projeto são habitantes da bacia doadora.

Em Minas Gerais, há um grupo disposto a impedir a transposição a todo custo. A alegação é que, com a destruição da mata ciliar, a vazão do rio diminuiu e, assim, não sobrará água para a transposição. Cometem um erro hidrológico básico: a água de um rio vem das chuvas na bacia e sua quantidade independe de haver ou não matas. O que ocorre com a destruição das matas ciliares é a modificação do regime de vazão do rio, que passa a ter picos maiores, como a enchente que se observou neste ano, e vazões menores durante o período de estiagem. As vazões menores não afetam o Velho Chico, hoje com reservatórios em quase todo o seu curso. O art. 2º da Deliberação CBHSF 008/2004 reconhece que a vazão firme, a jusante de Sobradinho, é de 1.815 m3/s. O que se pede para a transposição, que será feita a jusante de Sobradinho, é apenas 26 m3/s.

Alagoas é outro estado em que é forte o movimento contra a transposição. Apenas a título de esclarecimento, a vazão mínima na foz do São Francisco, no litoral alagoano, é de 1.860 m3/s, calculada por métodos estatísticos para um período de retorno de 20 anos. Essa vazão é suficiente para irrigar todas as culturas dos alagoanos, bem como para permitir a navegação no Baixo São Francisco. Não há motivo para um movimento tão indignado no estado. Por outro lado, há o problema das enchentes que, neste ano, de acordo com notícias do site do CBHSF, já mataram cinco pessoas e desabrigaram milhares de ribeirinhos. Essas enchentes, cuja causa principal é a destruição das matas ciliares, somente serão contidas quando as matas forem restauradas. Mas há uma maneira de amenizá-las com o projeto de transposição, que terá capacidade para bombear até 127 m3/s. Enviando para o Nordeste Setentrional a água que mata e destrói nas barrancas do São Francisco, principalmente no Estado de Alagoas, estarão sendo amenizadas as enchentes que ele provoca. Por isso, a transposição trará grandes benefícios ao estado, não havendo justificação para a forte oposição ao projeto que ocorre entre os alagoenses.

O apoio que setores do Estado de Sergipe dão aos movimentos contrários à transposição chega a ser cômico. Sergipe, que faz parte do polígono das secas, foi a primeira unidade da federação a se beneficiar com um projeto de transposição de águas do São Francisco. Situando-se na bacia do Rio Sergipe, à medida que Aracaju e sua área metropolitana foram crescendo, mais se acentuava o problema da falta de água. A solução foi integrar a bacia do Rio Sergipe à bacia do Velho Chico, passando o São Francisco a suprir cerca de 70% da demanda de água de Aracaju. Quando alguns sergipanos combatem a execução de uma nova transposição, lembramo-nos daquela fábula em que o macaco se senta no próprio rabo para criticar os rabos dos outros macacos.

O governador da Bahia é francamente favorável à transposição, mas a boa terra é o estado onde é mais forte a resistência ao projeto. Basta lembrar que foi na cidade de Barra que o bispo local chegou a fazer greve de fome contra o projeto. No entanto, os baianos deveriam prestar mais atenção à distribuição das vazões alocáveis do São Francisco, da qual são os grandes beneficiários. Apenas para citar um exemplo, o projeto de irrigação do Baixio do Irecê foi aquinhoado com uma outorga inicial de 10 m3/s. Até aí, nada demais, porque há outras outorgas maiores. A questão é que o projeto ainda não havia se iniciado e já havia sido aprovada uma segunda outorga, para ser usada em uma futura ampliação. Total da segunda outorga: 50 m3/s. Portanto, dos 360 m3/s alocáveis, a irrigação de uma parte do sul da Bahia já abiscoitou 60 m3/s. O CBHSF editou a Deliberação nº 09/2004 para rever situações como essa, mas nunca é demais lembrar que a vazão requerida para o projeto de transposição é de 26 m3/s.

De todas as críticas ao projeto de transposição, a que me pareceu mais coerente foi a feita por pernambucanos. Há habitantes da bacia do São Francisco em Pernambuco reagem de forma veemente ao projeto de transposição. Enviei um e-mail para esse grupo, apresentando as razões pelas quais estranhava que pernambucanos fossem contra o projeto: Pernambuco é o estado com o mais baixo potencial hídrico do Brasil (cerca de 1.320 m3/hab.ano). A transposição vai levar água para o semi-árido pernambucano, fixando o homem do campo em sua terra. Como resposta, disseram-me o seguinte: a transposição vai levar água também para o Ceará, que poderá se tornar o maior produtor de frutas do Nordeste, tomando a posição que hoje é de Pernambuco.

Se os pernambucanos não usam subterfúgios para se declararem opositores ao projeto de transposição, surpreende que haja cearenses contrários a esse projeto. O Ceará não faz parte da bacia do São Francisco e, portanto, é apenas receptor. Contudo, existe um movimento dentro do Ceará contrário à transposição. É verdade que isso provocou reação da maioria silenciosa, a começar do arcebispo de Fortaleza, que deu entrevista declarando-se favorável ao projeto. No entanto, não deixa de surpreender a existência de movimento contrário à transposição num estado em que falharam todos os métodos localizados para impedir que os efeitos da seca forçassem a migração de boa parte de sua população.

Pelo que foi exposto, a conclusão é apenas uma: a polêmica em torno do projeto de transposição é uma disputa por água e os argumentos são muito mais emocionais que técnicos. O Ministério da Integração Nacional relacionou uma série de perguntas que lhe são feitas e que mostram a desinformação que a população tem em relação ao projeto. Parte dessa desinformação resulta dos argumentos emocionais que são publicados na imprensa e que lançam mais confusão em torno do projeto. Diante de toda essa celeuma, devemos lembrar a letra da canção de Caetano Veloso chamada O Ciúme, que se encaixa exatamente nesse particular:

O ciúme
Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia
Tudo esbarra embriagado de seu lume
Dorme ponte, Pernambuco, Rio, Bahia
Só vigia um ponto negro: o meu ciúme

O ciúme lançou sua flecha preta
E se viu ferido justo na garganta
Que nem alegre nem triste nem poeta
Entre Petrolina e Juazeiro canta

Velho Chico vens de Minas
De onde o oculto do mistério se escondeu
Sei que o levas todo em ti, não me ensinas
E eu sou só, eu só, eu só, eu

Juazeiro, nem te lembras dessa tarde
Petrolina, nem chegaste a perceber
Mas, na voz que canta tudo ainda arde
Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê

Tanta gente canta, tanta gente cala
Tantas almas esticadas no curtume
Sobre toda estrada, sobre toda sala
Paira, monstruosa, a sombra do ciúme
(Caetano Veloso)

Faço minhas as palavras de Caetano. A polêmica em torno do projeto de transposição é apenas uma questão de ciúme das águas do Velho Chico.

Paulo Afonso da Mata Machado


Fotos do autor

Especial para o Blog Controvérsia (em contraposição ao artigo: http://blog.controversia.com.br/2007/08/13/rio-sao-francisco-incertezas-da-transposicao/)

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Viagem ao mundo dos amaldiçoados do Katrina

Luis Lema
Enviado especial a Nova Orleans

Na avenida Caffin, o sinal passa para o verde. Depois para o vermelho, e então de novo para o verde. Sozinho, ele imprime o ritmo na paisagem a centenas de metros a seu redor. Não há praticamente nenhuma casa sequer, nenhum carro, nenhuma alma viva que venha perturbar a sua cadência regular. E não longe dali, lê-se o seguinte pedido de ajuda, colocado no topo de quatro degraus cor-de-rosa que não conduzem para lugar algum: “Eis o que sobrou da minha casa”, anuncia o letreiro. “Tudo o que eu quero é retornar à minha vida normal e sair desta caravana que está me matando. Please help me!”. O sinal voltou novamente para o vermelho. Bem-vindo ao bairro do Lower Ninth Ward, em Nova Orleans.

Desde sempre, Ninth Ward tem sido um símbolo. Nos Estados Unidos, foi o primeiro bairro onde os negros tiveram acesso à propriedade. Era ali que os desfiles das bandas que se seguiam à missa incentivavam o desabrochar dos talentos das crianças que brincavam debaixo dos pórticos; foi ali que a cultura negra americana fincou suas raízes. Dois anos depois do furacão Katrina, aquilo que agora não passa mais de um gigantesco terreno baldio permanece um símbolo: aquele da incúria das autoridades e dos obstáculos que ainda estão por ser superados para reconstruir uma Nova Orleans fiel à sua lenda.

À primeira vista, contudo, a lenda permanece viva. No distrito do Vieux Carré, o álcool corre à vontade dos dois lados da bem chamada Bourbon Street. Poupado pelas águas, o bairro francês segue irradiando a sua desenvoltura, na sombra dos terraços coloniais de ferro maciço. Mas, mesmo aqui, as fachadas deixam aparecer rachaduras. Dias atrás, em previsão do aniversário da desgraça, os trompetes permaneceram mudos. O que se viu foi um extenso cortejo triste e silencioso nesta cidade do barulho e da excitação. Os turistas tardam a reaparecer. Os músicos não agüentam mais de fome. Falta fôlego.

De volta ao Ninth Ward, o bairro devastado, do outro lado do canal. Aqui, a batalha, desde então, foi longa. Logo nos dias que se seguiram ao Katrina, os poderes locais já criticavam este capricho do Mississipi, formado pelo seu limo abaixo do nível do mar. A solução que elas sugeriram? As máquinas escavadeiras. Demolir o que restava do bairro para apagar todo e qualquer sinal dos erros do passado. Para esquecer o fato de que não foi o furacão que destruiu a cidade, e sim as barragens de proteção mal projetadas que acabaram cedendo. Para evitar, também, que um desastre tão grande possa se reproduzir.

A sua presidência permanece assombrada pela falência do governo federal e pela imagem que ele deixou, a de um homem que ficou acompanhando o desastre no conforto da sua fazenda do Texas e que tardou a interromper as suas férias. Além disso, o Estado federal e o próprio Bush estão sendo acusados agora de não fazerem o suficiente, e com uma rapidez insuficiente, para a reconstrução. Aliás, para interpelar o presidente americano, um jornal local publicou, nesta quarta-feira, um editorial intitulado: “Trate-nos com eqüidade, senhor presidente”.

Por ocasião do segundo aniversário do desastre, a prefeitura organizou em 29 de agosto concertos, atos religiosos e vigílias à luz de velas. Ela prevê também inaugurar um Memorial no qual serão sepultados os restos de uma centena de anônimos.
Mas, em meio a outras, a organização Acorn mobilizou-se: “O objetivo das autoridades continua sendo de desestimular por todos os meios os habitantes de retornarem. Mas, é ali mesmo que as pessoas querem viver. Vocês pretendem mesmo menosprezar a sua vontade?”, se insurge Ouled Frenvilla, uma responsável da associação.

Dois anos depois, no conjunto da cidade de Nova Orleans, 160.000 pessoas ainda não retornaram, quase uma em cada duas, disseminadas pelos quatro cantos dos Estados Unidos. E, diferentemente daquilo que os defensores do bairro de Ninth Ward fingem acreditar, muitas delas não voltarão, provavelmente nunca mais.

Garrett Hamilton faz os pregos saltitarem na sua mão, assim como um músico tocaria um blues triste com violão. No dia do ciclone, ele havia viajado para Seattle, para se encontrar com os seus dois filhos, sem sequer levar roupas para se trocar. Lá, ele permaneceu por um ano. E ele também está ficando louco neste parque de caravanas onde ele foi instalado desde então pela Fema, o serviço geral de emergência. Garrett não precisa ler as estatísticas. Elas falam, entretanto, da taxa de suicídios, dez vezes superior à média, dos estragos causados pela cocaína e o crack, do ressurgimento das gangues, do crescimento incessante da criminalidade. Os serviços de assistência social, que se encontram eles mesmos em plena convalescença, enfrentam dificuldades para ajudar aqueles que vão se atolando já faz dois anos no trauma pós-tempestade. E o final do verão está aí: a temporada dos furacões está de volta. Enquanto isso, as feridas ainda não cicatrizaram.

Alguns dias atrás, um dos primos de Garrett foi morto em plena rua, no meio de um tiroteio. O homem recita a sua raiva com pausas marcadas e com uma suavidade que esconde mal a sua determinação: “Aqui, no sul, a nossa história é uma história de sofrimentos. Nós sofremos um bocado, meu irmão, e estamos acostumados com isso. Eu estou de volta para que todos aqueles que me precederam não tenham agüentado tudo isso por nada”.

Por falta de dinheiro para recuperar a sua casa devastada pela metade, Garrett resolveu iniciar a obra por conta própria, contando com a ajuda de alguns voluntários, dos seus vizinhos, e, sobretudo, com a benevolência de Deus. Nesta área do Ninth Ward, uma quantidade maior de casas permaneceu de pé: a imensa onda que foi liberada pelos diques já havia perdido um pouco do seu furor. Mas, ainda é uma cidade fantasma, repleta de casas abaladas, semeada de amontoados de ruínas. “Todo mundo continua firme no pedaço”, sorri Garrett. “A polícia, a guarda nacional, a CIA, o FBI. Mas eles só aparecem para encher o meu saco a respeito da minha licença para construir, e eles não fazem nada quando saqueadores levam embora uma televisão sobre um carrinho de mão diante dos olhos de todos…”

O modo de ver dos perdedores do ciclone é truncado, é claro. Mas, do outro lado da cidade, nos arranha-céus da “Uptown” que permaneceram intactos, até mesmo os ganhadores o compartilham em parte. Charles Rainey pode ser considerado um deles: se o Katrina não tivesse acontecido, ele provavelmente não teria aceitado a sua contratação por este grande banco onde ele acabara de pleitear uma vaga. Da mesma forma que ela carece de braços, Nova Orleans passou a carecer também de trabalhadores de colarinho branco. Para Charles, o furacão foi uma sorte. Contudo, no seu escritório onde comparecem aqueles que querem obter créditos para uma nova moradia ou para reabrir o seu comércio, o jovem banqueiro simpático já começou a se dar conta do tamanho dos estragos causados pela má-gestão.

“Durante esses dois anos, não faltaram aqueles que passaram o seu tempo tentando apontar um culpado, de modo a tentar ocultar a sua própria incompetência”, acusa. A governadora Kathleen Blanco? Ela desistiu por iniciativa própria de se candidatar novamente, de tanto que o seu nome hoje cheira a enxofre. O prefeito Ray Nagin? Mal ele foi reeleito, iniciou uma nova campanha visando a obter um posto no escalão federal. Há também um senador envolvido num escândalo sexual, e outros responsáveis ainda que estão vinculados a casos de corrupção…

“Vejam o que está acontecendo do lado do Mississipi”, aponta o banqueiro, fazendo referência ao Estado vizinho, onde as obras de reconstrução há muito foram concluídas, mostrando um grau de competência bem diferente. “Lá, todo mundo tomou iniciativas e lutou para defender os interesses do Estado em Washington. Os Estados Unidos são um país imenso. Se nós não formarmos um bloco para reclamar os nossos direitos, eles acabarão se esquecendo de nós a valer”.

O desânimo está à espreita. Até mesmo o prodigioso movimento que se formou em torno das Igrejas, e proporcionou a colaboração de grupos de professores de escola, de engenheiros e de voluntários de toda estirpe está prestes a perder o fôlego. Há alguns meses, Brad Grundmeyer implantou uma organização com o objetivo de coordenar as atividades daqueles que, na sua cidade, também queriam prestar todo tipo de ajuda para as vítimas. “As pessoas preocupam-se com a sua própria vida. Eles mostram ter cada vez mais dificuldades para imaginar aquilo que continua se passando fora do seu bairro”, constata hoje Grundmeyer.

Será que o Ninth Ward está perto do fim? Assim como muitos dos habitantes, este nova-orleanense empreendedor e loquaz se diz confiante, apesar de tudo. Ele prefere dar a volta por cima: “Ainda existe uma quantidade de energia fabulosa por aqui. Todo dia de manhã, ao despertar, digo a mim mesmo que eu amo esta cidade”. Então, como se fosse para tentar motivar a si mesmo, ele acrescenta: “Eu nunca conseguirei me conformar em ver outra coisa quando abro as minhas janelas”.

Tradução: Jean-Yves de Neufville.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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Debate sobre educação

sábado, 01/09 - 14 horas

Assembléia Legislativa de SP, Auditório Franco Montoro
Lisete Arelaro - Faculdade de Educação da USP
Luiz Araújo - ex-Secretário de Educação de Belém
Otaviano Helene - Instituto de Física da USP

Mandatos Populares e Socialistas:
Ivan Valente - Deputado Federal - PSOL/SP -
Carlos Giannazi - Deputado Estadual - PSOL/SP
Raul Marcelo - Deputado Estadual- PSOL/SP

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Crise nos EUA atualiza debate sobre a regulação dos fluxos de capital

Os problemas no mercado imobiliário dos EUA repõem o tema da regulação dos fluxos de capitais, diz o economista Ricardo Carneiro. Para ele, o que está ocorrendo agora é mais complexo e profundo do que ocorreu em crises anteriores.

Marco Aurélio Weissheimer
- Carta Maior

PORTO ALEGRE - A nova crise que afetou o sistema financeiro global, detonada por problemas no mercado imobiliário dos Estados Unidos, é diferente de outras crises que ocorreram em um passado recente. Boa parte destas crises eclodiu na periferia do sistema financeiro – no México, na Ásia, na Rússia e na Argentina. As que ocorreram no centro do sistema tiveram um caráter episódico, constituindo-se basicamente em crises de liquidez. A crise atual, além de ocorrer no centro do sistema, é mais profunda, pois coloca em dúvida a qualidade dos créditos do sistema imobiliário dos EUA. A avaliação é de Ricardo Carneiro, economista e professor do Instituto de Economia da Unicamp, que prevê uma mudança no cenário econômico internacional favorável dos últimos anos. Os dias de dinheiro farto e barato muito provavelmente chegaram ao fim, pelo menos nos próximos três ou quatro anos, disse o economista à Carta Maior.

Nas crises passadas, explica Carneiro, não havia dúvida sobre a qualidade dos ativos envolvidos. A crise atual é mais profunda, entre outras razões, porque boa parte dos créditos concedidos a compradores de imóveis revelou-se crédito ruim. Assim, mesmo com a intervenção do Federal Reserve (o Banco Central norte-americano), que deu liquidez aos detentores dos títulos originados destes créditos podres, parte desses créditos seguirá podre e alguém terá que absorver estas perdas.

Trata-se de um problema localizado? Sim e não, responde o economista. É localizado no mercado imobiliário norte-americano que, porém, é enorme e afeta investidores em várias partes do mundo. O problema maior, diz o professor da Unicamp, é o potencial de contaminação dessa crise, uma contaminação que se propaga pelos bancos e que pode afetar diferentes setores da economia mundial.

O cenário otimista quanto aos desdobramentos da crise, acrescenta Carneiro, é aquele onde quem comprou esses títulos conseguirá realizar seu prejuízo e tudo bem. No entanto, ressalta, as coisas podem não acontecer assim. Os bancos podem ficar reticentes e reduzir a oferta de crédito, concretizando, assim, um poder real de contaminação para diversos agentes econômicos. Há a possibilidade de os bancos centrais tentarem deter esse processo, através da injeção de recursos, uma operação que pode funcionar muito pouco na medida em que os bancos absorvam esses recursos e restrinjam a oferta de crédito. O que pode atenuar a crise, prossegue o economista, é os bancos passarem o prejuízo para os bancos centrais, o que não evitará uma redução da oferta de crédito, necessariamente. “O fato é que há um conjunto de ativos de má qualidade que ocasionarão prejuízos para seus detentores”, resume.

Impacto sobre o Brasil
O enunciado dessa crise, enfatiza Ricardo Carneiro, é muito mais grave e complexo e seus desdobramentos dependerão, em larga medida, da reação dos bancos e de escolhas políticas que terão que ser feitas, em especial pelo Banco Central dos EUA. Uma das conseqüências prováveis é a redução da oferta de crédito, com impactos negativos sobre a produção e também sobre o preço dos ativos. Quanto aos impactos sobre a economia brasileira, tudo dependerá, diz o economista, da extensão do processo da crise. “Se houver uma crise mais forte, ela vai afetar o Brasil, um país periférico, de moeda fraca. Se os investidores resolverem fugir, o país será afetado”, prevê. E mesmo que a crise não tenha grande intensidade, o Brasil pode ser afetado de outros modos, em função da mudança do cenário econômico internacional.

“Pelo menos em um horizonte previsível, de 3 ou 4 anos, não teremos mais dinheiro forte e barato, como vinha ocorrendo desde 2003. Só isso já é um fator de prejuízo para a nossa economia”, diz Carneiro. Mas os impactos sobre o Brasil também dependerão, destaca, de como o Banco Central reagirá à crise. Uma alta do dólar a níveis em torno de R$ 2,50, com a perspectiva de pressões inflacionárias pode levar o BC brasileiro a elevar a taxa de juros, o que afetaria a retomada do crescimento da economia.

Esse comportamento dependerá também dos desdobramentos da crise. “As informações sobre o mercado imobiliário dos EUA não são boas. O Banco Central está recomprando títulos podres que estavam na mão do sistema financeiro, mas há um limite no que pode absorver. Se fizer compras muito generosas pode haver questionamentos sobre o próprio papel central do dólar”, adverte Carneiro.

Uma pesquisa divulgada nesta segunda-feira pela Associação Nacional de Economistas de Empresas (Nabe), dos EUA, indica que esse cenário pessimista é motivo de grande preocupação naquele país. Segundo o levantamento, a inadimplência dos chamados créditos de risco o excesso de endividamento de empresas e consumidores norte-americanos representam, combinados, uma ameaça maior ao cenário econômico de curto prazo do que aquela representada pelo medo de um novo ataque terrorista. O risco econômico representado pela soma da inadimplência com endividamento foi apontado por 35% dos economistas entrevistados como o maior risco para a economia dos EUA no curto prazo, contra 20% que mencionaram a ameaça de um novo atentado terrorista. A Nabe procurou minimizar o resultado da pesquisa, dizendo que o cenário para os próximos cinco anos ainda é otimista.

Socialismo para capitalistas
Seja qual for o desdobramento da crise, ela deixa uma lição, conclui Ricardo Carneiro. “Os economistas de mercado gostam de criticar os gastos públicos, mas na hora em que o mercado precisa ser socorrido por recursos públicos, não falam sobre isso. Essa crise repõe o tema da regulação dos fluxos de capitais e do sistema financeiro”, resume. O economista acredita que só vale a pena salvar, via recursos públicos, os mercados atingidos pela crise se for para fazer uma regulação do sistema. E lembra as palavras do economista Martin Wolf que, em artigo publicado no Financial Times, criticou a decisão de Bancos Centrais injetarem dinheiro para aumentar a liquidez nos mercados por passar a mensagem de que os investidores sempre poderão evitar perdas.

“Então o capitalismo é para os pobres, e o socialismo é para os capitalistas. Esta visão é não somente ofensiva. Ela é catastrófica”, resumiu Wolf.

Carta Maior
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Brasileiro gasta mais com cigarros do que com arroz e feijão, diz FGV

da Folha Online

O brasileiro gasta mais com cigarros do que na compra de alimentos como arroz e feijão. Pesquisa feita pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) revela que os cigarros aumentaram além da variação média do IPC (Índice de Preços ao Consumidor) e passaram a comprometer, em abril de 2007, 1,25% do orçamento familiar, enquanto o item arroz e feijão teve peso de 0,85%.

De acordo com a POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares), realizada no biênio 2002/2003, a despesa com arroz e feijão comprometia 1,30%, em média, do orçamento doméstico de famílias com renda entre 1 e 33 salários mínimos. Apontava também que o gasto com cigarro representava 1,03% do orçamento das famílias.

Segundo o levantamento da FGV, a partir de 2004, as variações anuais do arroz e feijão seguiram tendências opostas aos movimentos de preços dos cigarros. No primeiro caso, a fundação captou queda média de 20,35% nos preços no acumulado de janeiro de 2004 e abril de 2007. No segundo, alta de 29,57%. Neste mesmo período, o IPC acumulou aumento de 15,92%

Na avaliação do coordenador do índice de preços da Fundação Getúlio Vargas, André Braz, o comprometimento do salário com o cigarro pode aumentar ainda mais.

“Os índices de maio trazem os reajustes de preços de duas importantes indústrias, fato que deverá elevar os gastos”, afirmou.

Os pesos de todos os produtos e serviços que fazem parte do IPC são corrigidos com base em sua própria variação e na variação média de todos os itens.

Jornal Folha de S. Paulo
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Brasileiro reduz despesa com alimentos e aumenta gasto com bens duráveis

da Folha Online

Os hábitos de consumo dos brasileiros tiveram uma profunda mudança nos últimos 20 anos, segundo livro elaborado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, ligado ao Ministério do Planejamento) e pela FEA/USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo).

Uma das principais mudanças apontadas pelo levantamento é a redução nos gastos com alimentação principalmente entre as classes mais baixas da sociedade, segundo dados levantados com base na POF (Pesquisa de Orçamento Familiar) do IBGE.

Segundo a POF, entre 1987/1988, os brasileiros gastavam em média 20,4% da renda com alimentação. Esse índice caiu para 18% em 1995/1996 e para 16,7% em 2002/2003.

Esse movimento se deve, principalmente, à redução dos gastos das famílias mais pobres com alimentos. Há 20 anos, a população brasileira que se encaixa entre os 50% mais pobres do país direcionava em média 36% do orçamento para este fim. Em 2002/2003, o índice caiu para 28,1%.

Por outro lado, aumentou o acesso das classes mais baixas a bens de consumo duráveis. Os gastos dos 50% mais pobres com estes produtos cresceu de 5,6% para 9,2%, entre o final da década de 80 e os anos 2002/2003.

“A pesquisa mostra que houve uma desconcetração dos gastos das famílias e uma melhora no bem estar da população, principalmente das classes mais baixas”, disse Tatiane Menezes, professora do departamento de Economia da Universidade Federal de Pernambuco e uma das organizadoras do livro “Gastos e Consumo das Famílias Brasileiras Contemporâneas”, editado pelo Ipea.

A estabilização econômica, a abertura comercial e o aumento da oferta de crédito no mercado são fatores que estão por trás da mudança de hábitos de consumo dos brasileiros, acrescentou o professor da FEA/USP, Heron do Carmo.

“Desde a implantação do Plano Real [julho de 1994], passamos por alterações fundamentais, principalmente no campo da inflação. Em 1988, por exemplo, se comprava um bem durável em no máximo três prestações, pois não havia crédito para longo prazo”, disse Heron.

Outra mudança apontada na pesquisa diz respeito aos gastos do brasileiros com serviços públicos. De 1995/1996 para 2002/2003, a representatividade das despesas com transportes dentro de serviços públicos passou de 3,8% para 3,9%, enquanto os gastos com telecomunicações aumentaram de 2,1%, para 4,2%.

Segundo o estudo, com o aumento das tarifas, o uso do ônibus vem sendo substituído por transportes alternativos, com as vans, mototáxis –em algumas regiões– e até a bicicleta, no caso da população de menor renda.

“O conhecimento de hábitos de consumo é um importante instrumento para se analisar o grau de desenvolvimento e bem estar da população, concluiu Tatiane Menezes.

Jornal Folha de S. Paulo
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Livro “Direito à Memória e à Verdade” provoca polêmica no Brasil

A condenação oficial da repressão durante a ditadura revolta o exército

Bernardo Gutiérrez
No Rio de Janeiro

Mal-estar, indignação e até raiva. O livro “Direito à Memória e à Verdade”, uma contundente condenação oficial do governo brasileiro à ditadura, provocou irritação no exército. O livro, que foi apresentado pelo próprio presidente Lula em Salvador, foi recebido pelos militares como uma provocação. As forças armadas chegaram a acusar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de ser partidarista e de ter financiado um documento elaborado por “criminosos políticos”.

O governo Lula argumenta que o livro é fruto de 11 anos de trabalho da Secretaria de Direitos Humanos e da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, constituída em 1995 para elucidar as mortes e desaparecimentos ocorridos entre 1961 e 1988. “Direito à Memória e à Verdade”, aplaudido por partidos de esquerda, pela sociedade civil e por diversas instituições e ONGs, inclui um minucioso estudo sobre 339 mortos e desaparecidos registrados pela comissão. Além disso, lembra os 136 nomes de vítimas que o governo Fernando Henrique Cardoso já reconheceu na lei 9.140 de 1995. O livro, segundo o próprio governo Lula, é o maior esforço desde a instauração da democracia para se restaurar a memória histórica.

O atual ministro da Defesa, Nelson Jobim, acompanhou Lula na apresentação do livro. No entanto, nenhum comandante do exército estava presente. O desencontro foi tal que o comandante-em-chefe do exército, general Enzo Martins, afirmou que não enviaria representante ao ato de lançamento do livro. Os militares afirmam que o texto é partidarista e que não se ajusta à realidade, entre outras coisas porque Paulo Vannuchi, secretário de Direitos Humanos da Presidência, foi militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN), a principal organização da luta armada contra o regime militar no final da década de 70.

Vannuchi defende que as famílias das pessoas torturadas que mais tarde se suicidaram também recebam indenizações. Os militares, por sua vez, acusam os autores do documento de ter um objetivo: “Aumentar ainda mais a indústria da indenização de criminosos políticos”.

Delfim Netto, que ocupou vários ministérios durante a ditadura, afirmou que “há certas dúvidas de que seja verdade o que é publicado nele”. Em troca, Frei Betto, conhecido opositor à ditadura e ex-aliado de Lula, afirmou no jornal “Folha de S.Paulo” que “a memória histórica brasileira sofreu tentativas de apagamento” e que o livro não é “um ato de vingança, mas de justiça”.

Para Cecília Coimbra, presidente do grupo Tortura Nunca Mais, o texto “é apenas um pequeno passo para o esclarecimento do que ocorreu durante o regime militar”. Sua organização luta há anos sem sucesso pela abertura total dos arquivos militares. Essa abertura provocou uma das grandes polêmicas do país e, apesar do clamor popular e internacional, as iniciativas nesse sentido se chocaram com os militares. O governo do Rio Grande do Sul foi o único que abriu seus arquivos e inclusive realizou uma exposição sobre a repressão política em Porto Alegre.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

La Vanguardia

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Habitação responde pelo maior gasto das famílias, diz IBGE

DIANA BRITO
Colaboração para a Folha Online, no Rio

Os gastos com habitação são os que mais pesam no bolso das famílias brasileiras, segundo dados da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) 2002-2003 divulgados nesta quarta-feira pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Das 48,5 milhões de famílias pesquisadas, independentemente da composição familiar, habitação correspondeu a 35,5% dos gastos.

Das famílias cujo maior gasto foi habitação, o maior peso dentro da categoria veio do aluguel: 45%. O levantamento destaca os grupos de referência de 60 a 69 anos e de 70 anos ou mais, para os quais os aluguéis representam mais da metade do total da despesa de consumo média mensal familiar com habitação.

Na segunda maior participação nas despesas, o estudo aponta alimentação (20,75%) em todos os arranjos familiares, exceto casal sem filhos, onde transporte ocupa esta posição. A aquisição de veículo foi o item desta categoria de maior peso, acima de 33%, tanto para a área urbana como para rural.

Depois de alimentação, no geral, aparecem transporte (18,44%), assistência à saúde (6,49%) e educação (4,08%).

Ainda em relação a despesas médias mensais familiares com alimentação, os gastos mais expressivos são encontrados na área urbana (R$ 350), embora nesta área esse item de despesa tenha menos peso (23%) do que na área rural (36,5%).

Em outro item, quase 50% do total da despesa com assistência médica foi representada por remédios, com variações entre 40% e 54% na área urbana do país, detalhou a POF. Os percentuais de maior expressão no item remédios se concentraram na área rural, entre 70% e 84%, do total de gastos na categoria de saúde.

Já a despesa com educação estava entre as mais baixas. Segundo o levantamento, a participação foi de 4% em relação ao total das despesas de consumo. A área urbana seguiu esse mesmo quadro, enquanto a área rural apresentou percentuais menores. As famílias com referência de 40 a 49 anos se destacaram com os percentuais de maior significância de gastos com educação, tanto na situação urbana como na rural, pontuou a pesquisa.

Por região, Norte, Nordeste e Sul registraram percentuais abaixo de 3,5% nos gastos com educação. A região Sudeste foi a que apresentou o maior percentual de investimentos em educação: 4,7%.

De acordo com o estudo, as despesas com recreação e cultura se concentraram nas famílias dos estratos de menor faixa etária, observando-se um declínio à medida que a idade da pessoa de referência avança. A região Sudeste foi a que mais destinou gastos para recreação e cultura (2,5%), chegando a atingir quase 5% nas famílias cuja pessoa de referência estava no grupo de 10 a 19 anos.

Escolaridade

Segundo o estudo, as famílias chefiadas por uma pessoa de cor branca ganham 25% a mais do que a média nacional (R$ 1.794,32). A remuneração média das famílias lideradas por brancos é de R$ 2,262,24, contra R$ 1.245,09 de chefes negros e R$ 1.232,62 de pardos.

Pela escolaridade, as famílias chefiadas por pessoas com 11 anos ou mais de estudo tinham renda mais elevada (R$ 3.796). Nas com menos de um ano de instrução, a renda era, em média, R$ 752. leia dados completos aqui

POF 2002-2003

A pesquisa traça um perfil das despesas e rendimento de acordo com a característica da pessoa de referência, tais como a inserção no mercado de trabalho, escolaridade, idade, o sexo, a cor ou raça, e a religião, entre outras.

Esta é a quarta pesquisa realizada pelo IBGE sobre orçamentos familiares. As anteriores foram o Estudo Nacional de Despesa Familiar (ENDEF 1974-1975), com âmbito territorial nacional, à exceção da área rural da região norte e centro-oeste; POF 1987-1988 e a POF 1995-1996 –essas duas tinham como meta atender a atualização das estruturas de consumo dos índices de preços do consumidor produzidos pelo IBGE, sendo realizadas nas regiões metropolitanas do país.

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Ricos gastam dez vezes mais que os pobres, diz IBGE

DIANA BRITO
Colaboração para Folha Online, no Rio

Um estudo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgado nesta quarta-feira, com base em dados da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) 2002-2003, aponta que o rendimento médio de 10% das famílias com pessoas que recebem salários mais altos (renda a partir de R$ 3.875,78) é dez vezes maior que 40% das famílias com salários mais baixos (até R$ 758,25).

No ano de 2003, 40% de famílias com menos rendimentos possuíam, no país, uma despesa per capita de R$ 180, enquanto as 10% mais ricas tinham gastos em torno de R$ 1.800. Esse dado aponta claramente, segundo o IBGE, a desigualdade na distribuição das despesas familiares brasileiras.

Para fazer a pesquisa, o IBGE tomou como base uma tabela que destaca a renda média mensal familiar total e os rendimentos específicos associados a cinco classes de famílias.

A primeira classe é adotada para indicar a produtividade mensal de até R$ 400, que inclui as famílias sem rendimento; a segunda é para revelar rendas familiares com mais de R$ 400 a R$ 1.000; a terceira indica rendimentos de mais de R$ 1.000 a R$ 2.000; a quarta mais de R$ 2.000 a R$ 3.000; e a quinta é composta pelas famílias com produtividade superior a R$ 3.000.

Perfis

Ao comparar as despesas médias entre áreas urbanas e rurais, o levantamento mostra que a despesa urbana média per capita era 46% maior que a rural. Ele também destaca que as áreas urbanas possuíam um maior grau de desigualdade uma vez que a distância entre os mais pobres e os mais ricos era de 9,3, enquanto na área rural era de 8,3.

No Brasil, segundo a pesquisa, a maior despesa entre os mais pobres foi observada na região Sul (R$ 234) e a menor na região Nordeste (R$ 138). No Sul, a despesa é 70% maior que no Nordeste, o que mostra uma desigualdade alta mesmo entre os pobres.

Por região, a mais desigual do país é o Nordeste, onde os mais ricos gastam 11,8 vezes mais que os mais pobres no Nordeste. Na outra ponta, as menos desiguais foram as regiões Norte e Sul, com distâncias médias praticamente iguais (oito vezes).

Por perfil de gasto, segundo o IBGE, o com habitação é o que mais pesa no bolso das famílias brasileiras. Das 48,5 milhões de famílias pesquisadas, independentemente da composição familiar, habitação correspondeu a 34,8% dos gastos.

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Modelo no front

Na Europa da Segunda Guerra, a fotógrafa Lee Miller era a única mulher na cobertura das batalhas. Esse foi apenas um capítulo da vida da ex-manequim, musa dos surrealistas

Ana Paula Alfano

Lee Miller tirou o uniforme cáqui do exército, os coturnos pesados e entrou nua na banheira. Teria sido um banho como outro qualquer, não fosse a câmera do amigo (e amante) Dave Scherman, fotógrafo da revista semanal Life, que registrou o momento. A banheira não era apenas uma banheira. A casa não era apenas uma casa. E o dia não era outro qualquer.

Tratava-se do banheiro da casa onde Adolf Hitler morara durante anos, em Munique, no número 16 da rua Prinzregentenplatz. E era 30 de abril de 1945. Naquela mesma noite, a rede BBC daria a notícia de que o ditador cometera suicídio, em Berlim. Além do local e da data históricos, a imagem resume num só clique quem foi a fotógrafa americana Lee Miller: uma mulher ousada, sem pudores e à frente de seu tempo, ex-modelo, musa dos surrealistas e, no momento daquele banho, correspondente de guerra da revista Vogue sim, durante a Segunda Guerra Mundial eles não falaram apenas de moda).

Como uma modelo virou fotógrafa e foi parar no front de combate, durante a guerra? Inquieta e atrás de novidades, Lee era movida a aventuras, como conta a biógrafa Carolyn Burke no livro Lee Miller - A Life. Nascida em Poughkeepsie, estado de Nova York, viveu em Manhattan, Paris, Cairo e se mudou para Londres exatamente no dia em que a guerra contra a Alemanha foi declarada.

Não queria ser apenas espectadora. Como não podia se alistar nas forças auxiliares, por ser estrangeira, procurou a Vogue inglesa com sua máquina debaixo do braço, propondo registrar a guerra para a revista. Na época, a relação da publicação com a guerra se limitava a reportagens, por exemplo, sobre que cor de batom usar com o cáqui dos uniformes, ou como se vestir bem com o racionamento de tecidos.

Lee convenceu a editora Audrey Whiters a deixá-la ir além. “Revistas - diferentemente de livros - são essencialmente sobre o aqui e o agora. E o agora que estamos vendo é a guerra”, Whiters explicou na época.

O primeiro grande ensaio de Lee feito num front, na Normandia, foi publicado em 1944. “Eu fotografava e virava o rosto para o outro lado. Não queria encarar os feridos, com medo de que minha feição me traísse e entregasse àqueles homens o horror que eu estava sentindo”, Lee escreveu no texto, que mudaria o jeito como a Vogue até então era encarada no mercado. “Ninguém imaginava que faríamos aquele tipo de reportagem, porque éramos vistos apenas como uma revista de moda fútil.”

Lee passou um ano de front em front: foi a única correspondente mulher a acompanhar batalhas em solo europeu durante toda a guerra. Muitas fotos eram confiscadas por censores e, no meio do caminho, Lee precisou voltar para casa porque teve sua credencial cassada pelo Shaef (Supreme Headquarters Allied Expeditionary Force), comando das Forças Aliadas no norte da Europa, que proibia a presença de mulheres no front.

Sem se dar por vencida, ela conseguiu uma autorização de trabalho da Força Aérea, que, ao contrário do Exército, dava a homens e mulheres o mesmo direito de cobrir a guerra. Os dois sexos tinham também condições iguais no dia-a-dia do front. Ela se lavava com água de chuva que juntava em seu próprio capacete e comia a mesma ração distribuída aos soldados.

Além de bombardeios, clicava a rotina dos oficias, as ruínas e os corpos putrefatos e ouvia histórias de sobreviventes, o que a transformou numa inimiga ferrenha dos nazistas. No início de 1945, quando a Alemanha já tinha praticamente perdido a guerra, Lee se dedicou a fotografar oficiais alemães mortos.

Todo o trabalho de guerra de Lee Miller foi publicado em junho de 1945, num número histórico da Vogue inglesa, até hoje cobiçado por colecionadores, que foi batizado de “edição da vitória”.

O começo de tudo
Lee deu os primeiros passos na fotografia com o pai, Theodore, com quem mantinha uma relação de adoração quase doentia - a ponto de, já adulta, posar nua para ele, muitas vezes na companhia de outras amigas. Apesar de ter crescido numa cidade do interior, ela tinha uma cabeça de metrópole.

A primeira viagem à Europa foi aos 18 anos, com uma professora de dança polonesa. Chegou a Paris e ficou hospedada num hotel que servia de bordel. “Foi ali que senti, pela primeira vez, tudo se abrindo para mim”, revelaria a fotógrafa, 50 anos mais tarde. Ela levava vida de artista, com pouco dinheiro e muita boemia.

Estudava cenografia na revolucionária L’Ecole Medgyès e também era amante do dono do curso, bem mais velho que ela. Era 1925 e os dadaístas estavam reinventando a si mesmos como surrealistas, liderados por André Breton. Jean Cocteau, Pablo Picasso, Gertrude Stein e Ernest Hemingway fervilhavam. Um ano mais tarde, de volta a Nova York, Lee decidiu se dedicar melhor à dança e entrou para o corpo de baile da companhia George White’s Scandals.

O dinheiro era curto e a vida em Manhattan cara demais - para ganhar um extra, arranjou emprego de modelo de lingerie da marca Stewart & Company, na Quinta Avenida. Não tinha a intenção de transformer aquilo em carreira, até cruzar com o poderoso Condé Nast, dono de um império editorial que incluía a famosa revista de moda Vogue. Ele a parou no meio da rua e a convidou para visitar seu escritório e trabalhar na Vogue.

Edna Chase, editora da revista, já estava acostumada a ter na redação protegidas do senhor Nast, mocinhas lindas e incompetentes. Mas se surpreendeu com Lee, que resumia sua nova linha editorial, direcionada a mulheres modernas e independentes. Lee foi a capa da edição de março de 1927, virou a preferida dos fotógrafos de moda e, incentivada por eles, voltou a fotografar.

Apaixonada pelo assunto, ficou sabendo do trabalho revolucionário de Man Ray, na França. Fez as malas e, em 1929, foi atrás do fotógrafo. Seguiu para o estúdio de Ray, no bairro de Montparnasse, e se apresentou como sua mais nova aluna. “Não tenho alunos e vou passar todo o verão fora de Paris”, o fotógrafo respondeu. “Eu vou junto”, ela retrucou.

E assim foi. Apaixonado pelo lado ousado de Lee, Ray, 17 anos mais velho, transformou-a em pupila, assistente e amante. Os dois viveram juntos por três anos. Foi uma escola importantíssima para a carreira da fotógrafa. Além de aprender a técnica, Lee convivia com os amigos do namorado, os maiores artistas da época.

O crash da bolsa de Nova York, em 1929, afetou o movimento do estúdio de Man Ray. Sem dinheiro, Lee procurou a Vogue francesa. A revista era a única que não tinha sido abalada pelos problemas econômicos do mundo e abastecia as Vogue americana e britânica com ensaios de moda.

Lee virou modelo de vários deles. George Hoyningen-Huene, chefe do estúdio da Vogue na França, logo entrou para a lista de fãs da jovem Lee e a nomeou sua assistente. Man Ray morria de ciúmes da namorada. Incentivava seu trabalho, mas não conseguia conviver com seu espírito moderno e livre. Sufocada e apaixonada por outro homem, o aristocrata egípcio Aziz Eloui Bey, que viria a se tornar seu primeiro marido, Lee terminou o romance com Ray.

O fanatismo de Man Ray pela americana era tão grande que, arrasado, ele fez na época um auto-retrato - a foto o mostrava ao lado de uma arma e com uma corda em volta do pescoço. Lee retornou a Nova York já famosa, símbolo maior da mulher moderna, e dona de seu próprio estúdio.

Ensaios da Vogue a colocavam na posição de ícone de elegância. A carreira estava ótima - Lee clicava campanhas de marcas como Saks Fifth Avenue, Macy’s, Helena Rubinstein e Elizabeth Arden. Cada vez mais enfocada em fotografia de moda, se distanciava do experimentalismo de Man Ray. Mas, em 1934, mesmo eleita pela revista Vanity Fair um dos sete fotógrafos ainda vivos mais brilhantes do mundo, Lee não estava satisfeita. Não achava moda o assunto mais interessante do mundo.

Então casada com Aziz, decidiu largar tudo para morar com ele no Cairo. O começo da vida de Lee no Egito foi um período distante de tudo - da família, dos amigos e, principalmente, dela mesma. A fotógrafa queria negar o que tinha sido até ali. O marido, engenheiro formado na universidade inglesa de Liverpool, era 16 anos mais velho e

dono de uma mente aberta. Durante dois anos a fotógrafa não exerceu seu ofício.
Quando a monotonia finalmente começou a incomodar Lee, a camera voltou a ser sua maior companheira. Um capítulo importante de sua obra são os ensaios que fez em expedições pelo Oriente Médio, naquela época. Se, durante seu primeiro casamento, Lee se enquadrou às regras e ao padrão esperado na época, o mesmo não pode ser dito do segundo.

O relacionamento com o pintor e poeta inglês Roland Penrose, bissexual, com quem Lee viveu até morrer, de câncer, em 1977, começou numa festa, em 1937. Naquela noite, Roland estava com os cabelos verdes, a mão direita pintada de azul e calças com cores do arco-íris. Um dos maiores responsáveis por lever o surrealismo para a Inglaterra, depois de organizar no país a primeira exposição do gênero, na New Burlington Galleries, Roland tinha o que Lee mais apreciara durante toda a sua vida: era, como ela, uma pessoa guiada pela vanguarda.

Aventuras na História
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Nordeste é a região mais desigual do país, aponta IBGE

DIANA BRITO
Colaboração para a Folha Online, no Rio

A região mais desigual do país, na comparação entre gastos de ricos e pobres, é o Nordeste. Segundo dados da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) 2002-2003, divulgados nesta quarta IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os mais ricos gastam 11,8 vezes mais que os pobres no Nordeste.

No Nordeste, os mais ricos tiveram gasto per capita de R$ 1.600, enquanto os mais pobres gastaram R$ 138. Na outra ponta, as menos desiguais foram as regiões Norte e Sul, com distâncias médias praticamente iguais (oito vezes).

O Norte apresentou a menor despesa entre os ricos (R$ 1.244), enquanto os pobres gastaram cerca de R$ 160. O Centro-oeste, por sua vez, teve o maior gasto dos ricos (R$ 1.960). Já o Sul teve a maior despesa entre os pobres (R$ 234), enquanto os ricos gastaram cerca de R$ 1.800, segundo o estudo.

Por Estado, segundo o levantamento, entre os mais pobres, o Maranhão possuía a menor despesa per capita, de R$ 116, e o Distrito Federal a maior, de R$ 280. Já entre os ricos, a menor despesa ficou com o Amapá, R$ 913, e a maior com o Rio de Janeiro, R$ 2.339. Esse resultado mostra uma grande desigualdade entre regiões.

Outro ponto que chama atenção é o fato do Amapá ter mostrado o menor nível de desigualdade (5,3), com a menor diferença de gastos per capita entre os mais ricos (R$ 913) e os mais pobres (R$ 180), demonstrando uma relação mais eqüitativa nas despesas das famílias.

A pesquisa também destaca que apesar de o Maranhão ter apresentado, em 2003, a menor despesa per capita, Alagoas ficou com o maior nível de desigualdade (15,6 vezes).

No geral, o estudo do IBGE aponta que o rendimento médio dos mais ricos é dez vezes maior que o de dos mais pobres. No ano de 2003, 40% de famílias com menos rendimentos possuíam, no país, uma despesa per capita de R$ 180, enquanto as 10% mais ricas tinham gastos em torno de R$ 1.800. (leia mais aqui)

Por perfil de gasto, segundo o IBGE, o com habitação é o que mais pesa no bolso das famílias brasileiras. Das 48,5 milhões de famílias pesquisadas, independentemente da composição familiar, habitação correspondeu a 34,8% dos gastos. (leia mais aqui)

Perfil dos rendimentos

A Pesquisa traça um perfil das despesas e rendimento de acordo com a característica da pessoa de referência, tais como a inserção no mercado de trabalho, escolaridade, idade, o sexo, a cor ou raça e a religião, entre outras.

Esta é a quarta pesquisa realizada pelo IBGE sobre orçamentos familiares. As anteriores foram o Estudo Nacional de Despesa Familiar ENDEF 1974-1975, com âmbito territorial nacional, à exceção da área rural da região norte e centro-oeste, POF 1987-1988 e a POF 1995-1996, essas duas tinham como meta atender a atualização das estruturas de consumo dos índices de preços do consumidor produzidos pelo IBGE, sendo realizadas nas regiões metropolitanas do país.

O IBGE diz que a crescente necessidade de conhecimentos do perfil socioeconômico da população brasileira é uma das principais justificativas para a retomada deste estudo, que passou a incluir, por necessidade de informações detalhadas sobre as condições de vida a partir do consumo (especialmente das famílias de menor rendimento), as áreas rurais.

Além das investigações tradicionais, são levantadas as aquisições não-monetárias, que correspondem a tudo que é produzido, pescado, caçado, coletado ou recebido em bens (troca, doação, retirada do negócio e salário em bens).

Jornal Folha de S. Paulo
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Elvis, a explosão do rock

Seu primeiro disco, de 1954, foi o marco inicial de uma revolução chamada rock’n’roll. Elvis morreu em 1977 (a despeito do que acreditam seus fãs), mas as mudanças que ele iniciou continuam influenciando os jovens do mundo todo

André Barcisnky

Em julho de 1954, o telefone tocou numa casa simples da periferia de Memphis, Tennessee, no sul dos Estados Unidos. Gladys, uma senhora na casa dos 40 anos, atendeu e ouviu a voz de um homem, que se apresentou como Scotty e perguntou por seu filho. “Elvis não está. Quer deixar recado?”

O “Scotty” era Scotty Moore, um guitarrista local de algum sucesso que procurava um cantor para sua banda e recebeu de um amigo, Sam Phillips, a dica sobre o tal Elvis.

Phillips, que tinha a fama de descobrir novos talentos, era dono de uma pequena gravadora em Memphis, a Sun Records, e oferecia a qualquer interessado a chance de gravar um disco por 4 dólares. Foi atrás dessa chance que em meados de 1953 Elvis Presley, então com 18 anos, entrou nos estúdios da Sun. Ele gravou duas faixas. Em janeiro do ano seguinte voltou e gravou mais duas. Sam não ficou muito impressionado com ele, mas anotou seu nome e telefone.

Na época, Elvis ganhava a vida dirigindo caminhão, mas não abandonara o sonho de ser cantor. Elvis Aaron Presley nasceu em 8 de janeiro de 1935 em Tupelo, Mississípi. Sua mãe deu à luz gêmeos, mas o primeiro, Jesse, nasceu morto. Os Presley eram pobres. O pai, Vernon, trabalhou como leiteiro, carpinteiro e motorista e chegou a passar oito meses preso por falsificar cheques.

Elvis adorava música desde pequeno, gostava dos cultos da Igreja Pentecostal, onde sempre havia cantorias, e, aos 10 anos de idade, recebeu um prêmio num concurso de canto. Em 1946 ganhou sua primeira guitarra, presente de dona Gladys. Em 1948, a família se mudou para Memphis. Elvis foi matriculado numa escola para brancos, mas costumava freqüentar os bairros negros para ouvir seus bluesmen favoritos, como Furry Lewis e B.B. King. Passava as noites ouvindo no rádio música country, blues, gospel e até música clássica.

Quando Elvis respondeu ao telefonema de Scotty Moore, sabia que aquela poderia ser a chance pela qual esperava. Na sessão que hoje é considerada o marco zero do rock, Elvis Presley produziu um clássico: “That’s All Right”, versão de um antigo blues de Arthur “Big Boy” Crudup, que ele acelerou até torná-lo um autêntico rock’n'roll. “Quando Sam Phillips ouviu aquilo não acreditou. Era o que vinha buscando havia anos: um branco que pudesse cantar como um negro”, afirma Peter Guralnick em sua biografia de Elvis, Last Train to Memphis (”O Último Trem para Memphis”, inédito em português).

Preto no branco
A questão racial esteve presente na carreira de Elvis desde o início. Ele era um garoto branco apaixonado por música negra, fosse ela gospel, rhythm’n'blues ou country. Sua fama abriu espaço para um sem-número de roqueiros negros, como Little Richard, Chuck Berry e BoDiddley. E ele nunca fez segredo sobre as origens de sua música: “Os negros vêm cantando dessa forma há muitos anos”, dizia. “Mas ninguém prestava atenção neles, até que eu apareci. Eu aprendi tudo com eles.”

Falar uma coisa dessas nos anos 50 era um ato de coragem. No sul dos Estados Unidos, as escolas eram segregadas. Havia lojas de brancos e lojas para “pessoas de cor”, emissoras de rádios de “música branca” e de “música negra”. Mas Elvis queria ser ouvido por todos.

E logo passou a ser. Dois dias depois da histórica gravação em Memphis, o disc-jóquei Dewey Phillips tocou “-That’sAll Right” em seu programa Red Hot and Blue, e Elvis tornou-se uma sensação local. Vieram os primeiros shows e sua fama começou a se espalhar depois que ele descobriu o que fazia as meninas gritarem tanto. Após uma apresentação, perguntou a Scotty Moore: “Por que elas gritam tanto?” O guitarrista respondeu: “É sua perna”, disse. “É o jeito como você mexe a perna.”

Nos conservadores anos 50, o estilo explosivo e sensual de Elvis o diferenciava dos crooners bem comportados, estáticos atrás dos microfones, entoando músicas de amor com suas vozes perfeitas. Elvis sacudia os quadris, grunhia e soltava longos suspiros no meio das músicas. Era uma revolução, pelo menos para o público branco, que não tinha visto gente como Little Richard e Chuck Berry em ação.

Em 1955, Elvis conheceu o coronel Tom Parker, um misterioso imigrante holandês que havia tentado a sorte no circo e em várias esferas do show business, até tornar-se um respeitado agente musical. Parker passou a gerenciar a carreira de Elvis e seu apurado tino para negócios ajudou a tornar o cantor um astro. Parker convenceu a gravadora RCA a comprar o passe do cantor à Sun, pela enorme (para a época) quantia de 40 mil dólares. A RCA era uma gravadora grande, porém pouco ousada. Os principais nomes de seu cast eram cantores românticos como Perry Como e Harry Belafonte. Elvis era um peixe fora da água na RCA.

Mas logo virou um tubarão. Em 1956 ele se tornou uma celebridade, gravando um sucesso atrás do outro, entre eles “Heartbreak Hotel”, “Blue Suede Shoes”, “Don’t Be Cruel” e “Love me Tender”. Estreou no cinema no filme Love me Tender e lançou seu primeiro LP, Elvis Presley. Na lista dos compactos mais vendidos do ano, ficou com os dois primeiros lugares, desbancando gente famosa como Frank Sinatra, Dean Martin e Pat Boone.

Rei do pop
O sucesso atraiu as críticas. Os mais conservadores desprezavam Elvis e consideravam sua música um lixo. Era difícil aceitar que um caipira rebolador pudesse vender mais discos que cantores consagrados como Sinatra e Belafonte. Em janeiro de 1957, Elvis apareceu no programa de TV de Ed Sullivan, um dos mais populares do país. Mas só quem esteve lá pôde vê-lo de corpo inteiro. A emissora, preocupada em não chocar os telespectadores, filmou Elvis só da cintura para cima. Na época, ele ganhou oapelido de “Elvis, the Pelvis”. Estava acesa a chama sob o caldeirão do rock, onde ferveria toda uma geração de jovens. Ninguém mais poderia detê-los.

Nem o Exército. Em 1958, Elvis foi convocado e, numa jogada publicitária, Parker incentivou-o a ir. Antes, porém, fez com que o cantor deixasse gravados vários compactos. Parker recusou qualquer tipo de tratamento especial a Elvis, com a certeza de que isso seria ótimo para a imagem do cantor. E foi.

Depois de passar pelo treinamento no Texas, Elvis foi para uma base militar na Alemanha, onde ficou 18 meses.Lá, cumpriu funções normais dos soldados, como fazer exercícios e montar guarda nos portões da base. Durante esse tempo, não cantou em público, mas participou de dezenas de sessões de fotos para mostrar como era sua vida de militar. No auge da Guerra Fria,Elvis foi o melhor garoto-propaganda com que o Exército americano poderia ter sonhado. O afastamento não diminuiu o interesse por suas músicas, pelo contrário. Mesmo com ele ausente, a RCA lançou vários compactos de sucesso, como “Wear my Ring Around your Neck”, “Hard Headed Woman”, “One Night” e “A Big Hunk o’Love”.

No quartel, Elvis conheceu as drogas. Introduzido por um sargento que recomendava pílulas de anfetaminas aos soldados para mantê-los atentos e eficientes nos exercícios, ele iniciou uma longa dependência química, que viria a ter resultados trágicos. No final de sua temporada na Europa, Elvis conheceu a adolescente Priscila Beaulieu, com quem iniciou um romance.

Em março de 1960, Elvis deu baixa. A volta para casa foi problemática. E triste. Sem a mãe por perto (dona Gladys morrera em 1958), sua vida entrou numa espiral descendente. Profissionalmente, sua carreira passava por uma grande mudança. Saem as excursões e shows, entramos filmes. Durante toda a década, a única maneira de os fãs verem seu ídolo era comprando ingressos para o cinema. Mas mesmo longe dos palcos, os discos de Elvis - quase todos gravações da trilha sonora dos filmes - continuavam vendendo bem, embora a concorrência estivesse muito mais forte. O rock já dava pinta de que viraria uma fábrica de ídolos, com o surgimento de grupos como os Beatles e os Rolling Stones. Elvis parecia descontente com a direção de sua carreira, e reclamava com o coronel Parker da qualidade dos filmes que estava fazendo, pérolas como O Seresteiro de Acapulco, Meu Tesouro É Você e Garotas, Garotas e Garotas. O ritmo de trabalho era massacrante: entre 1956 e 1969, ele estrelou nada menos que 31 longas-metragens.

Em casa, a coisa ia ainda pior. Elvis não fazia segredo do vício em anfetaminas e começou a recomendar as pílulas para amigos e músicos de sua banda. Cada vez mais rico e drogado, Elvis aos poucos foi se tornando um recluso em sua mansão, Graceland. Lá, cercou-se de um grupo de empregados e amigos, que ficou conhecido como a “Máfia de Memphis”. Em 1961, Priscila se mudou para Graceland. Seis anos depois, eles se casariam e teriam Lisa-Marie, única filha do casal.

Elvis estava estranhamente obcecado. Colecionava armas e distintivos policiais. Passou a dar declarações de que sua missão era “ajudar os Estados Unidos a acabar com o risco das drogas e do comunismo” e, numa cena hoje lendária, visitou a Casa Branca para pedir ao presidente Richard Nixon que lhe outorgasse uma credencial do FBI. A foto de Nixon e Elvis apertando as mãos é uma das imagens mais bizarras e emblemáticas dos anos 70. Elvis, o antigo rebelde, cumprimentando o homem que, provavelmente, estava entre os que chamavam sua música de “lixo”, nos anos 50. Foi o início do fim de Elvis Presley.

A década de 70 foi um pesadelo interminável para Elvis. Ele havia se tornado um “prisioneiro” em Graceland, tomando anfetaminas, barbitúricos e tranqüilizantes e sendo vigiado por guarda-costas brutamontes. Embora suas turnês em Las Vegas batessem recordes de arrecadação, sua música caiu de qualidade. Ele engordou muito e chegou a ter um colapso antes de um show na Flórida, que teve de ser cancelado.

No fim de 1971, Priscila o abandonou, levando a filha Lisa-Marie. Amigos do cantor disseram que isso era o que faltava para o colapso emocional e físico de Elvis. Nos cinco anos seguintes, os dias alegres tornaram-se cada vez mais raros. Embora a adoração do público nunca tivesse diminuído e os shows estivessem sempre lotados (o especial de TV Aloha from Hawaii foi visto por 1 bilhão de pessoas), Elvis vivia infeliz. Sua saúde estava se deteriorando e as internações em clínicas de reabilitação e hospitais tornaram-se rotina.

A curta vida de Elvis Presley chegou ao fim em 16 de agosto de 1977. Por volta de 13h30, sua namorada, Ginger Alden, encontrou-o sem vida, deitado no chão do banheiro, em sua mansão. O rei estava morto.

Aventuras na História
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A China e o equilíbrio do terror financeiro

Alejandro Nadal

Durante o apogeu da guerra fria, a doutrina da destruição mútua assegurada era fundamental: os Estados Unidos e a União Soviética mantinham seus arsenais em estado de alerta permanente e ambas as super-potências sabiam que não podiam pretender aniquilar todas as armas nucleares da outra num ataque surpresa. O arsenal sobrevivente seria suficiente para infligir danos intoleráveis ao atacante. A garantia da destruição mútua assegurada tinha em inglês a sugestiva sigla de MAD (mutual assured destruction). Como indica o acrónimo, era baseada numa loucura.

Hoje uma estrutura parecida rege o destino da economia mundial. Os Estados Unidos e a China estão atados por um dilema semelhante ao equilíbrio do terror nuclear, mas desta vez aplicado às finanças internacionais: o primeiro é o maior devedor do mundo, ao passo que o segundo é o seu credor mais importante.

O défice estado-unidense em conta corrente aumenta a cada mês em velocidade vertiginosa. Isso faz com que cresçam os temores quanto ao valor do dólar ou, para sermos mais precisos, sobre a duração da calma antes da tormenta. Com efeito, um cenário no qual se produza a fuga frente ao dólar e todo o mundo queira trocá-los por outro tipo de activos ou divisas não é impensável. Nesse contexto, surge a grande pergunta: estaria a China interessada em detonar esse processo?

A China tem reservas de 1,2 mil milhões de dólares. Desse montante, aproximadamente 900 mi milhões encontram-se numa mistura de títulos e bónus do Tesouro dos EUA. Qualquer movimento no sentido de se desfazer desta massa de recursos denominados em dólares provocaria a derrubada da divisa verde, uma alta nas taxas de juros no Estados Unidos e provocaria uma recessão severa nesse país. A própria estabilidade da economia mundial estaria em jogo.

Na semana passada funcionários do governo chinês utilizaram a metáfora da “opção nuclear” ao insinuar que o seu país poderia utilizar suas reservas em bónus do Tesouro estado-unidense como arma de negociação, em resposta à imposição de sanções comerciais por parte de Washington.

A ameaça foi recebida com mal estar nos Estados Unidos. Mas também com incredulidade por se considerar que se a China provocasse a derrubada do dólar sofreria perdas enormes uma vez que 70 por cento das suas reservas estão em activos denominados em dólares. Pior ainda, afectaria negativamente a economia estado-unidense e isso não lhe convém porque esse país está entre os seus principais clientes.

Mas os EUA continuam obcecados com a ideia de que o incremento do seu défice comercial com a China é devido à sub-avaliação do renminbi (que embaratece mais as exportações chinesas). Todos os políticos da Casa Branca, desde Bush até Obama e Hillary, repetem esta ideia: haverá que impor sanções comerciais aos chineses se não tratarem de reavaliar o renminbi a fim de eliminar esta fonte desleal de competitividade. Esta colocação ignora que nos últimos dois anos o renminbi valorizou-se uns 10 por cento contra o dólar, mas isso não travou o incremento no superávite comercial chinês, que em Junho último atingiu os 27 mil milhões de dólares.

Nesta era de volatilidade, reestruturação de mercados de crédito e intervenções da autoridades monetárias para acalmar borbulhas especulativas, ressurge o medo de uma crise financeira global. O equilíbrio do terror que liga a China e os Estados Unidos é a peça chave do tecido económico internacional e o nervosismo dos credores (detentores de dólares) aumenta.

Na economia planetária os seus agentes sabem que estão contados (se é que já não se acabaram) os dias em que o dólar estado-unidense era a moeda de reserva internacional por excelência. Mas ainda se mantém uma situação na qual a maior parte das reservas dos bancos centrais está denominada nessa divisa.

Paradoxalmente, na medida em que a China conserva uma parte significativa das suas reservas em dólares, contribui para manter o papel dessa divisa como moeda de referência à escala mundial. Mas se o equilíbrio do terror repousa num paradoxo, isso torna-o especialmente instável. A presença do euro vem complicar as coisas, porque o jogo entre três aumenta a probabilidade de desestabilização do balanço do terror e nos aproxima de um cenário de conflito aberto.

A China poderia iniciar uma mudança gradual na composição das suas reservas, digamos com 40 por cento em dólares, outros 40 por cento em euros, e uns 20 por cento em yenes. Isto levaria a uma apreciação do renminbi, que é o que Washington diz procurar. Também estaria mais de acordo com a diversificação geográfica do comércio chinês. Mas, ainda que isso pudesse permitir escapar ao dilema da destruição mútua assegurada, a ironia é que Washington não vê com bons olhos esta solução porque contribui para minar o papel do dólar a nível mundial. Os Estados Unidos insistem em jogar o tudo ou nada. Não é boa estratégia.

22/Agosto/2007

O original encontra-se em http://www.jornada.unam.mx/2007/08/22/index.php?section=opinion&article=024a1eco

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Meio século do “pé na estrada”

Obra de Kerouac se tornou indiscutivelmente o livro que os jovens de 1957 precisavam, mas o rolo esparso e despretensioso, versão original sem interferência dos editores, é a versão viva para nosso tempo

Luc Sante

Em 1951, Jack Kerouac golpeou febrilmente o primeiro rascunho de “On the Road” [ no Brasil, traduzido para “Pé na estrada”], em três semanas, em um único e enorme rolo de papel.

Esse fato – acredite se quiser - garantiu seu lugar na lista heróica de combustões literárias espontâneas. Stendhal, para escrever “A Cartuxa de Parma”, levou 52 dias, por exemplo. Também se põe ao lado da imagem de Jackson Pollock — na série de fotografias tiradas por Hans Namuth apenas alguns meses antes do cerco de Kerouac à máquina de datilografia — derrubando e arremessando tinta sobre uma tela horizontal, manchando-a, lutando e dançando com sua obra em direção à existência.

Escrever não é visto usualmente como algo excessivamente físico. Por isso, alguns escritores sentem a necessidade de compensar com corridas de touros, ou com o que quer que seja, mas alimentar aquele rolo de papel de 36 metros com a máquina de datilografia parece um exercício de força. A maioria dos escritores simplesmente produz obras fracas em papel, pode-se dizer, mas Kerouac foi e lutou contra a árvore em si.

Ao contrário da lenda, o pergaminho não era um rolo de papel para telex, mas uma série de grandes folhas de papel manteiga que Kerouac cortou para servirem na máquina e juntou com fita, e o texto não está sem pontuação — mas simplesmente sem parágrafos, o que acarreta uma certa demanda física para o leitor, que é privado das pausas para descanso usuais.

Também contrário às idéias correntes, Kerouac, em admissão própria, abasteceu seu trabalho com nada mais que café. O rolo é um pouco mais longo que o romance como foi finalmente publicado em 1957, depois de três rascunhos subseqüentes convencionalmente formatados.

A diferença mais imediata entre o primeiro rascunho e o produto final, no entanto, é que, enquanto conhecemos “On the road” como um romance — o grande romance da geração beat — o rolo é essencialmente não ficção, uma memória que usa nomes reais e é muito menos autoconsciente literariamente. É uma peça escrita fascinante por suas bordas ásperas, e, despida de afetações que no romance, algumas vezes, beiram o ridículo, bem como de pontuação gratuita fornecida por editores mais devotados a regras que à música, ela parece muito mais imediata e mesmo contemporânea.

Em alguns aspectos, as diferenças são mínimas. “On the Road”, em todas suas versões, é a história de uma série de passeios através dos Estados Unidos feitos por Kerouac entre 1948 e 1950 — “passeios”, mais que “viagens”, porque se trata mais de “cobrir terreno”, seja de carona, em ônibus ou em carros roubados.

Os pontos cardeais são Nova York, Denver e San Francisco, com escalas em Nova Orleans, Vale de San Joaquin e, finalmente, no México. Os passeios, algumas vezes, são movidos a impaciência — se ao menos as Rochosas começassem no final do túnel Lincoln! —, mas, na maioria das vezes, Kerouac revela velozmente um meio extático, uma maneira de concentrar tanta experiência e tantos altos estéticos e espirituais quanto possível em uma semana ou menos.

Essencial à empreitada inteira é a relação de Kerouac com Neal Cassady (chamado Dean Moriarty no romance), que é uma das maiores personagens da literatura americana, sem necessidade de reparos imaginativos por parte do autor.

Um escritor especialmente sintonizado com uma idéia pode achar todos os meios necessários para sua concretização caídos pela rua. Kerouac, um garoto franco-canadense de Massachusetts, da classe trabalhadora, que ganhou uma bolsa para jogar futebol americano para a Universidade Columbia, mas decidiu antes de tudo que estava menos interessado em esportes que em escrever, tinha dado evidências de sua obsessão pela estrada tão cedo quanto 1940.

Encontrar Neal Cassady, no entanto, tornou possível para que ele escrevesse a resposta da metade do século XX a “Huckleberry Finn”.

Cassady, com sua necessidade de se mover, seu vasto entusiasmo e sua inclinação priápica insaciável, poderia ter saído da lenda do Velho Oeste. Que ele roubasse carros compulsivamente em vez de guiar carruagens e atingisse a iluminação em clubes de bebop em vez de em cabanas se deu meramente em função da história. Mas ele não era um primitivo, e era muito mais que um achado. Ele lia livros, escrevia cartas, às vezes, espetaculares e estava mais no topo do zeitgeist que seus admiradores da cidade grande. Ele nasceu um grande herói e amante eufórico do mundo e deu aos beats sua alma, salvando-os — mesmo que por pouco — de se engasgarem com seu próprio misticismo.

Em “On the Road”, ele é o objeto de amor, à medida que Kerouac o persegue de costa a costa. Ele é a maior voz do livro, um assunto muito mais aparente no rolo, no qual a voz tem permissão para gemer, arremeter e ecoar sem as vírgulas que a amarram no romance. Por exemplo [leitor, sem pontuação]: “Jack quando eu estava trabalhando para a Lavanderia New Era em Los Angeles em 1945 fiz uma viagem para Indianápolis em Indiana com o propósito expresso de ver as corridas do Memorial Day pegando carona de dia e roubando carros à noite para ganhar tempo. Eu estava chegando a uma dessas cidadezinhas nós passamos com um monte de placas de carro sob minha camisa quando um xerife me pegou desconfiado”.

Pode não ser imediatamente aparente a partir de um breve excerto fora de contexto como a falta de pontuação imita a voz que fala — a pressa frenética de semicolcheias que serão pontuadas na metade da página por um estrondoso “Sim!” ou “Siiim!”. Não só os editores do romance adicionaram seis vírgulas desnecessárias, mas o próprio Kerouac pode ser acusado de ter interpolado uma frase, duas expressões e um adjetivo que arrumam e domesticam tanto a personagem como seu jazz (o xerife é “intrometido”, ele “abordou” Moriarty “na avenida principal”, e as placas estão destinadas, de algum modo, a um uso lícito).

Além de trocar todos os nomes (discutivelmente por razões legais) e cortar ou velar as descrições de sexo (bem necessário em 1957), Kerouac alterou o rolo para torná-lo um romance, guarnecendo-o de enfeites e chuviscos literários.

Uma das mais famosas passagens do romance aparece no rolo — as elipses são de Kerouac — como “as únicas pessoas que me interessam são as loucas, as que são loucas por viver, loucas por falar, desejosas de tudo ao mesmo tempo, as que nunca bocejam ou dizem uma coisa do senso comum … mas queimam, queimam, queimam como rojões através da noite”.

No romance, ele insere “loucas por serem salvas”, enquanto os rojões se tornam “fabulosos” e estão “explodindo como aranhas pelas estrelas e no meio você vê o brilho azul estourar e todo mundo diz ‘Ahhh!’”

Preocupado quanto ao fato de que a dose possa ter sido pequena demais, Kerouac depois adiciona “como eles chamavam esses jovens na Alemanha de Goethe?” Nada desse tipo de poetização ansiosa se acumula no rolo, que apenas mantém sua cabeça baixa e corre e, por isso, é muito mais autêntico literariamente.

No rolo, o uso da palavra “sagrado” deve ser 80% menor que no romance, e as referências salmódicas da geração singular do autor estão reduzidas em, ao menos, dois terços; usos da palavra “beat”[que pode significar fatigado], nesse aspecto, claramente favorecem o exausto sobre o beato. Mesmo que tais coisas não auxiliem a lenda ou a marca Kerouac, elas ajudam, sem medida, o livro. O rolo esclarece a conexão deste com o passado — com Mark Twain e histórias de andarilhos e com Woody Guthrie e sagas de caubóis — e sublinha as características que ele comparte com seu parente cultural contemporâneo mais próximo, o grande livro de estrada fotográfico “The Americans”, de Robert Frank.

“On the Road” se tornou indiscutivelmente o livro de que os jovens de 1957 precisavam, mas o rolo esparso e despretensioso é a versão viva para nosso tempo.

Luc Sante O livro mais recente de Luc Sant é “Kill All Your Darlings: Pieces 1990-2005”; ele editou e traduziu para o inglês “Nouvelles en Trois Lignes”, de Félix Féneon.

Veja também os textos “Kerouac também era tradicional” e “O mito da liberdade”. E ainda. Os arquivos em pdf originais de 1957 do New York Times Reviews de “On the Road”: Gilbert Millstein | David Dempsey

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Em caso de aprofundamento da crise externa, ‘Brasil será um dos primeiros a cair’

Mateus Alves e Valéria Nader
24-Ago-2007

Para ampliar o debate acerca da crise do mercado global, detonado pelas turbulências no mercado imobiliário norte-americano, o Correio da Cidadania conversa com o economista Reinaldo Gonçalves, professor titular da UFRJ.

Para Gonçalves, caso a crise tenha impactos mais profundos na economia mundial, o Brasil será “um dos primeiros a cair”.

Diferentemente do que vem sido anunciado por grande parte dos analistas financeiros e também pelo governo, que ressaltam sólidos fundamentos econômicos internos - baseados em variáveis macroeconômicas tais como o volume de nossas reservas externas, a relação entre essas reservas e a dívida externa, os resultados da balança comercial e os do balanço de pagamento – para concluírem pela invulnerabilidade de nossa economia, Delgado enxerga-a profundamente vulnerável.

Mas como justificar uma conclusão em rota de profunda colisão com o mainstream? Basta para isso aprofundar o olhar sobre o que sejam “os sólidos fundamentos econômicos”. E é justamente o que faz Gonçalves ao se ater a uma análise que leva em conta o modelo de produção e de desenvolvimento que está em jogo. Em sua visão, através de uma política externa equivocada e atrasada, o Brasil depende crescentemente da exportação de produtos primários, como o minério de ferro, a soja e o etanol. Ao mesmo tempo, aprofunda a sua vulnerabilidade externa com a liberalização na esfera comercial, na esfera produtiva real, na esfera tecnológica e na esfera financeira.

O resultado inelutável não poderia assim ser outro que não “um modelo de produção retrógrado, que conduz a uma inserção internacional passiva para o país, mantém uma brutal concentração de renda e reforça a dominação financeira, evidente com o grande lucro dos bancos”.

Confira abaixo a entrevista e leia também o artigo de Jurandyr O. Negrão sobre a crise financeira.

Correio da Cidadania: Qual será o impacto na economia real da crise vivenciada pelos mercados mundiais nas últimas semanas?

Reinaldo Gonçalves: O impacto irá depender da forma com que o governo vai reagir. Até agora, estão esperando para ver se de fato haverá operações grandes na conjuntura internacional. Não estão querendo tomar nenhuma decisão precipitada; é um pouco o estilo do governo, de “esperar para ver como é que fica”.

Estamos com um quadro claro de forte risco e de forte incerteza. Se nós reproduzirmos o padrão recente, é bem provável que ocorra uma certa contenção das políticas macroec