Viagem ao mundo dos amaldiçoados do Katrina

Luis Lema
Enviado especial a Nova Orleans

Na avenida Caffin, o sinal passa para o verde. Depois para o vermelho, e então de novo para o verde. Sozinho, ele imprime o ritmo na paisagem a centenas de metros a seu redor. Não há praticamente nenhuma casa sequer, nenhum carro, nenhuma alma viva que venha perturbar a sua cadência regular. E não longe dali, lê-se o seguinte pedido de ajuda, colocado no topo de quatro degraus cor-de-rosa que não conduzem para lugar algum: “Eis o que sobrou da minha casa”, anuncia o letreiro. “Tudo o que eu quero é retornar à minha vida normal e sair desta caravana que está me matando. Please help me!”. O sinal voltou novamente para o vermelho. Bem-vindo ao bairro do Lower Ninth Ward, em Nova Orleans.

Desde sempre, Ninth Ward tem sido um símbolo. Nos Estados Unidos, foi o primeiro bairro onde os negros tiveram acesso à propriedade. Era ali que os desfiles das bandas que se seguiam à missa incentivavam o desabrochar dos talentos das crianças que brincavam debaixo dos pórticos; foi ali que a cultura negra americana fincou suas raízes. Dois anos depois do furacão Katrina, aquilo que agora não passa mais de um gigantesco terreno baldio permanece um símbolo: aquele da incúria das autoridades e dos obstáculos que ainda estão por ser superados para reconstruir uma Nova Orleans fiel à sua lenda.

À primeira vista, contudo, a lenda permanece viva. No distrito do Vieux Carré, o álcool corre à vontade dos dois lados da bem chamada Bourbon Street. Poupado pelas águas, o bairro francês segue irradiando a sua desenvoltura, na sombra dos terraços coloniais de ferro maciço. Mas, mesmo aqui, as fachadas deixam aparecer rachaduras. Dias atrás, em previsão do aniversário da desgraça, os trompetes permaneceram mudos. O que se viu foi um extenso cortejo triste e silencioso nesta cidade do barulho e da excitação. Os turistas tardam a reaparecer. Os músicos não agüentam mais de fome. Falta fôlego.

De volta ao Ninth Ward, o bairro devastado, do outro lado do canal. Aqui, a batalha, desde então, foi longa. Logo nos dias que se seguiram ao Katrina, os poderes locais já criticavam este capricho do Mississipi, formado pelo seu limo abaixo do nível do mar. A solução que elas sugeriram? As máquinas escavadeiras. Demolir o que restava do bairro para apagar todo e qualquer sinal dos erros do passado. Para esquecer o fato de que não foi o furacão que destruiu a cidade, e sim as barragens de proteção mal projetadas que acabaram cedendo. Para evitar, também, que um desastre tão grande possa se reproduzir.

A sua presidência permanece assombrada pela falência do governo federal e pela imagem que ele deixou, a de um homem que ficou acompanhando o desastre no conforto da sua fazenda do Texas e que tardou a interromper as suas férias. Além disso, o Estado federal e o próprio Bush estão sendo acusados agora de não fazerem o suficiente, e com uma rapidez insuficiente, para a reconstrução. Aliás, para interpelar o presidente americano, um jornal local publicou, nesta quarta-feira, um editorial intitulado: “Trate-nos com eqüidade, senhor presidente”.

Por ocasião do segundo aniversário do desastre, a prefeitura organizou em 29 de agosto concertos, atos religiosos e vigílias à luz de velas. Ela prevê também inaugurar um Memorial no qual serão sepultados os restos de uma centena de anônimos.
Mas, em meio a outras, a organização Acorn mobilizou-se: “O objetivo das autoridades continua sendo de desestimular por todos os meios os habitantes de retornarem. Mas, é ali mesmo que as pessoas querem viver. Vocês pretendem mesmo menosprezar a sua vontade?”, se insurge Ouled Frenvilla, uma responsável da associação.

Dois anos depois, no conjunto da cidade de Nova Orleans, 160.000 pessoas ainda não retornaram, quase uma em cada duas, disseminadas pelos quatro cantos dos Estados Unidos. E, diferentemente daquilo que os defensores do bairro de Ninth Ward fingem acreditar, muitas delas não voltarão, provavelmente nunca mais.

Garrett Hamilton faz os pregos saltitarem na sua mão, assim como um músico tocaria um blues triste com violão. No dia do ciclone, ele havia viajado para Seattle, para se encontrar com os seus dois filhos, sem sequer levar roupas para se trocar. Lá, ele permaneceu por um ano. E ele também está ficando louco neste parque de caravanas onde ele foi instalado desde então pela Fema, o serviço geral de emergência. Garrett não precisa ler as estatísticas. Elas falam, entretanto, da taxa de suicídios, dez vezes superior à média, dos estragos causados pela cocaína e o crack, do ressurgimento das gangues, do crescimento incessante da criminalidade. Os serviços de assistência social, que se encontram eles mesmos em plena convalescença, enfrentam dificuldades para ajudar aqueles que vão se atolando já faz dois anos no trauma pós-tempestade. E o final do verão está aí: a temporada dos furacões está de volta. Enquanto isso, as feridas ainda não cicatrizaram.

Alguns dias atrás, um dos primos de Garrett foi morto em plena rua, no meio de um tiroteio. O homem recita a sua raiva com pausas marcadas e com uma suavidade que esconde mal a sua determinação: “Aqui, no sul, a nossa história é uma história de sofrimentos. Nós sofremos um bocado, meu irmão, e estamos acostumados com isso. Eu estou de volta para que todos aqueles que me precederam não tenham agüentado tudo isso por nada”.

Por falta de dinheiro para recuperar a sua casa devastada pela metade, Garrett resolveu iniciar a obra por conta própria, contando com a ajuda de alguns voluntários, dos seus vizinhos, e, sobretudo, com a benevolência de Deus. Nesta área do Ninth Ward, uma quantidade maior de casas permaneceu de pé: a imensa onda que foi liberada pelos diques já havia perdido um pouco do seu furor. Mas, ainda é uma cidade fantasma, repleta de casas abaladas, semeada de amontoados de ruínas. “Todo mundo continua firme no pedaço”, sorri Garrett. “A polícia, a guarda nacional, a CIA, o FBI. Mas eles só aparecem para encher o meu saco a respeito da minha licença para construir, e eles não fazem nada quando saqueadores levam embora uma televisão sobre um carrinho de mão diante dos olhos de todos…”

O modo de ver dos perdedores do ciclone é truncado, é claro. Mas, do outro lado da cidade, nos arranha-céus da “Uptown” que permaneceram intactos, até mesmo os ganhadores o compartilham em parte. Charles Rainey pode ser considerado um deles: se o Katrina não tivesse acontecido, ele provavelmente não teria aceitado a sua contratação por este grande banco onde ele acabara de pleitear uma vaga. Da mesma forma que ela carece de braços, Nova Orleans passou a carecer também de trabalhadores de colarinho branco. Para Charles, o furacão foi uma sorte. Contudo, no seu escritório onde comparecem aqueles que querem obter créditos para uma nova moradia ou para reabrir o seu comércio, o jovem banqueiro simpático já começou a se dar conta do tamanho dos estragos causados pela má-gestão.

“Durante esses dois anos, não faltaram aqueles que passaram o seu tempo tentando apontar um culpado, de modo a tentar ocultar a sua própria incompetência”, acusa. A governadora Kathleen Blanco? Ela desistiu por iniciativa própria de se candidatar novamente, de tanto que o seu nome hoje cheira a enxofre. O prefeito Ray Nagin? Mal ele foi reeleito, iniciou uma nova campanha visando a obter um posto no escalão federal. Há também um senador envolvido num escândalo sexual, e outros responsáveis ainda que estão vinculados a casos de corrupção…

“Vejam o que está acontecendo do lado do Mississipi”, aponta o banqueiro, fazendo referência ao Estado vizinho, onde as obras de reconstrução há muito foram concluídas, mostrando um grau de competência bem diferente. “Lá, todo mundo tomou iniciativas e lutou para defender os interesses do Estado em Washington. Os Estados Unidos são um país imenso. Se nós não formarmos um bloco para reclamar os nossos direitos, eles acabarão se esquecendo de nós a valer”.

O desânimo está à espreita. Até mesmo o prodigioso movimento que se formou em torno das Igrejas, e proporcionou a colaboração de grupos de professores de escola, de engenheiros e de voluntários de toda estirpe está prestes a perder o fôlego. Há alguns meses, Brad Grundmeyer implantou uma organização com o objetivo de coordenar as atividades daqueles que, na sua cidade, também queriam prestar todo tipo de ajuda para as vítimas. “As pessoas preocupam-se com a sua própria vida. Eles mostram ter cada vez mais dificuldades para imaginar aquilo que continua se passando fora do seu bairro”, constata hoje Grundmeyer.

Será que o Ninth Ward está perto do fim? Assim como muitos dos habitantes, este nova-orleanense empreendedor e loquaz se diz confiante, apesar de tudo. Ele prefere dar a volta por cima: “Ainda existe uma quantidade de energia fabulosa por aqui. Todo dia de manhã, ao despertar, digo a mim mesmo que eu amo esta cidade”. Então, como se fosse para tentar motivar a si mesmo, ele acrescenta: “Eu nunca conseguirei me conformar em ver outra coisa quando abro as minhas janelas”.

Tradução: Jean-Yves de Neufville.

Jornal Le Monde
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