Arquivo de Setembro de 2007

Enviem as forças de paz

Diplomacia e um acordo de paz, e não a intervenção militar, proporcionam a melhor esperança para a resolução da crise de Darfur

Alex de Waal*

A “responsabilidade de proteger” é a doutrina segundo a qual as vítimas de uma guerra civil ou de um desastre humanitário têm direito a auxílio internacional e, em caso extremo, à proteção de tropas estrangeiras, caso o seu próprio governo, por incapacidade ou malícia, não os ampare. O princípio da responsabilidade de proteger - ou “R2P” no jargão diplomático - foi adotado unanimemente pela Assembléia Geral da ONU em setembro de 2005.

A R2P é um conceito nobre, um exemplo de progresso nos padrões morais globais. Mas ele não é pragmático, exceto naqueles casos que envolvem as mais minúsculas das nações não funcionais, como Serra Leoa, Kosovo e Timor Leste, e mesmo assim com grande dificuldade. Em um país de tamanho médio, os percalços e os riscos superariam a capacidade de uma superpotência.

Desde o início de 2004, colunistas e defensores dos direitos humanos têm solicitado uma intervenção armada para “salvar” Darfur do “genocídio”. Gareth Evans, ex-ministro australiano das Relações Exteriores e presidente do Grupo de Crise Internacional, nomeou Darfur o caso-experimental para a R2P. Embora seja simpático à intervenção militar direta, Evans tem se concentrado naquilo que é conhecido nas negociações comerciais como “proteção coerciva” - uma força de paz da ONU que seja capaz de impor a sua vontade com a autorização da ONU e que conte com suficiente poder de fogo.

Esse conceito procura demarcar a diferença entre a força de paz tradicional e a intervenção militar absoluta. Mas enquanto Evans e os seus colegas de retórica davam declarações belicosas sobre Darfur, ficava claro que o conselho sensato dos mantenedores profissionais da paz estava certo o tempo todo: não existe um ponto intermediário.

As políticas internacionais em relação a Darfur fracassaram. O mundo não conteve as imensas ofensivas do exército Janjaweed em 2003 e 2004, que mataram dezenas de milhares de pessoas, e talvez mais 150 mil devido à fome e às doenças, além de ter deslocado dois milhões de indivíduos de suas casas e regiões. Não existe nenhum acordo de paz que esteja produzindo resultados, e centenas de pessoas são mortas todos os meses em conflitos locais. Uma força da ONU de 26 mil soldados com um mandato limitado para proteção (os militares podem usar a força para proteger civis) só agora está a caminho, e estará operando no início do ano que vem. O roteiro aceito é: culpem a falta de vontade política dos líderes mundiais pela incapacidade de fazer frente aos projetos malignos de Cartum.

Mas existe uma visão alternativa que é a seguinte: a situação de Darfur é uma guerra civil africana complexa e típica, e pode ser resolvida com os alinhamentos políticos corretos e uma boa diplomacia, e com um acordo de paz que possa permitir a inclusão de uma força de paz. As negociações com o objetivo de pôr um fim à guerra são desorganizadas e envolvem compromissos desagradáveis com líderes que têm sangue nas mãos. Mas a R2P descartou essas opções menos ruins e abraçou um ideal fantástico.

Desde que a crise de Darfur irrompeu, a atenção internacional focou-se sobremaneira no envio de forças militares, e não nas negociações de paz. Todo funcionário experiente do Departamento de Operações de Paz da ONU e todo diplomata britânico ou norte-americano que esteve envolvido nas bem-sucedidas negociações para o término da guerra norte-sul no Sudão posicionaram-se contra essa mudança de prioridade. No ponto crítico das negociações de paz para Darfur em março de 2006, o Grupo de Crise Internacional publicou um relatório, “Para Salvar Darfur”, que dedicava um espaço sete vezes maior às tropas da ONU do que ao processo de paz. Os principais elaboradores de políticas para o Sudão em Washington, D.C. e em Nova York dizem que dividiram o seu tempo igualmente entre as duas abordagens. A promoção da paz era dirigida pelas necessidades da manutenção da paz, e não o contrário. Não é de se surpreender que ambas as iniciativas tenham fracassado.

Os líderes rebeldes de Darfur são um grupo desorganizado cujos erros de cálculo, imprudência política e alianças oportunistas impediram a busca de soluções. Abdel Wahid al-Nur, presidente fundador do maior grupo, o Movimento de Liberação do Sudão, é um ingênuo político, alçado ao palco internacional e lisonjeado pelo seu status instantâneo de celebridade.

De forma única entre os líderes das frentes de liberação, ele colocou a intervenção internacional no topo da sua agenda. Na última sessão das conversações de paz, em maio de 2006, Abdel Wahid exigiu que os Estados Unidos fornecessem garantias “como na Bósnia”. Ele desejava uma intervenção, e não assinaria o acordo sem que esta ocorresse.

Foi um acordo imperfeito, mas com a assinatura de Abdel Wahid ele representaria o início de uma solução. Quando Abdel Wahid recusou-se a assinar, o acordo ficou condenado, e o conflito recomeçou.

Enquanto isso, os moderados e pragmáticos de Cartum perdiam a sua pequena dose de confiança em Washington. O acordo de paz norte-sul de 2005 foi possível porque os Estados Unidos prometeram normalizar as relações diplomáticas e cancelar as sanções assim que a paz fosse alcançada. Os líderes sudaneses compreenderam que esses petiscos continuarão no freezer até que haja paz em Darfur. Mas a recente tendência à concentração em tropas militares fez ressurgir a antiga suspeita de que Washington realmente deseja promover uma mudança de regime. Quando lideranças democratas dos Estados Unidos - incluindo o ex-assessor de Segurança Nacional, Anthony Lake, e a ex-secretária assistente de Estado para a África, Susan Rice - pediram uma ação militar no estilo de Kosovo em Darfur, em uma coluna de opinião no “Washington Post”, em outubro de 2006, esses temores aumentaram.

O governo do Sudão possui um histórico terrível na área dos crimes de guerra, mas também no da perfídia. É por isso que é tão importante para as metas internacionais que se cultive a transparência e a constância, e não o aumento de demandas e ameaças que se tornaram a marca registrada da política dos Estados Unidos para o Sudão.

Gareth Evans é um político suficientemente inteligente para saber que a transformação de Darfur no laboratório de testes da R2P foi um exagero nocivo. Nos últimos meses, o seu Grupo de Crise Internacional vêm discretamente diluindo as suas recomendações e revertendo as suas políticas, de forma que agora se opõe a uma zona de proibição de vôos, e (talvez muito tarde) enfatiza a necessidade das negociações no velho estilo.

Quando a paz e a segurança retornarem a Darfur, isso ocorrerá devido à antiga diplomacia e a uma operação de paz de apoio a um acordo bem costurado. Será necessário reconhecer o talento de alguns diplomatas experientes que conseguem fazer com que os rebeldes de Darfur negociem com um adversário odiado, e que exercem pressões sobre Cartum para a implementação das prometidas eleições livres. Se Gordon Brown for capaz de garantir que essas negociações sejam protegidas do ardor das celebridades ativistas que exigem soluções instantâneas, ele terá prestado um verdadeiro serviço ao povo de Darfur, que sofre há tanto tempo.

* Alex de Waal foi assessor na mediação da União Africana em Darfur

Tradução: UOL

Prospect

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Lula fala da FSA

Segue o link com o discurso do Lula sobre a Fundação Santo André. As imagens estão no youtube.

Lula falando sobre a greve da Fundação Santo André
06:11 - 1 day ago

Ricardo Alvarez

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A necessidade de uma nova imprensa

Cabe ao campo democrático-popular não alimentar ilusões. Se os meios de comunicação são fatores centrais de uma nova esfera pública em formação, não se deve esperar conversões éticas de uma imprensa cuja estruturação está umbilicalmente ligada ao destino de conhecidas oligarquias. A análise é de Gilson Caroni Filho.

Gilson Caroni Filho

O deputado federal Ciro Gomes (PSB) foi certeiro ao definir a importância do holofote no comportamento político da oposição, em entrevista concedida à revista Imprensa, em dezembro de 2005. Em meio a crises que pareciam anunciar novos retrocessos político-institucionais, o então ministro da Integração Nacional diagnosticou com precisão: “eu participo da vida pública brasileira há 30 anos e é a primeira crise pautada por garotos alucinados por aparecer na televisão. E eles estão tocando a República! Eu acompanho a CPI, vejo parlamentares que olham para a câmera e dizem: “senhor presidente, senhores deputados, senhores depoentes e senhores telespectadores”! O que é isso? Os excessos são mais prováveis, pois há uma sensação de que as informações são descartáveis. Só que não é bem assim, há valores imateriais fundamentais em jogo e eu gostaria de ressaltar aqui a importância da linguagem”.

Dois anos se passaram, os atores fizeram novas oficinas, ensaiaram textos no plenário, armazenaram informações, mas, a julgar pelos resultados, a teatralização da política não logrou os resultados esperados. A construção de representações sociais dominantes não obteve o êxito habitual. A velha mídia não descobriu o novo público. E foi aí que começou a história de sua coleção de derrotas.

Alguma fratura travou o espetáculo. Ao contrário das últimas décadas, produções como o ” Mensalão”, ” Aloprados” e ” Apagão Aéreo” se tornaram, passado o impacto inicial, fracassos de crítica e de público. Organizaçôes Globo, Civitas, Mesquitas e outros barões da imprensa brasileira parecem não ter acertado a mão, e o resultado são melancólicos folhetins sem qualquer vestígio de arte. Farsas baratas para produções que exigiram vultuosas somas e transformismos colossais.

Péssima direção e elenco de baixíssimo nível? Certamente, mas isso não é tudo. Nem sempre basta a imagem como critério da história. Às vezes, a trama, por mais recurso visuais que disponha, requer retórica convincente. Sem ela, inexiste a legitimação que precede o êxtase, e o plano que oculta o golpismo latente das elites se torna se torna visível demais.

A crença em um desmesurado poder manipulatório da mídia revela indigência de análise. O espetáculo só é possível porque a produção simbólica não se esgota em seu campo. Como destaca Silverstone, a circulação de significados, sua rica intertextualidade, não faz do senso comum um alvo passivo de versões deliberadamente distorcidas. Ele também produz, significa a partir de mediações da sua própria vida concreta. Não auscultar seu cambiante sistema simbólico custa caro aos pretensos “formadores de opinião”.

Em suma, o êxito de qualquer projeto ideológico depende de profunda afinidade eletiva entre produtores-consumidores e consumidores-produtores de bens simbólicos. Sem troca não há fluxo eficaz. O que a grande imprensa ignorou - e parece continuar ignorando - é a crescente organização da sociedade civil. Sua capacidade de não só recusar a narrativa oferecida, como construir uma eficiente articulação contra-hegemônica. A mídia se perdeu de si mesma quando acreditou que seus estatutos de verdade eram imunes a qualquer alteração substantiva da formação social onde pretende interferir.

Cabe ao campo democrático-popular não alimentar ilusões. Se os meios de comunicação são fatores centrais e constitutivos de uma nova esfera pública em formação, não se deve esperar conversões éticas de uma imprensa cuja estruturação está umbilicalmente ligada ao destino de conhecidas oligarquias. Trabalhar com contradições internas do campo comunicativo existente é uma aposta fadada ao fracasso. Com a experiência acumulada em veículos como Carta Maior, Caros Amigos e Brasil de Fato, entre tantos outros, talvez tenha chegado a hora de investir em um grande jornal de esquerda. Como viabilizá-lo operacionalmente não cabe no espaço desse artigo, mas com a massa crítica acumulada já passou da hora. Essa é a questão central da democracia brasileira. Precisamos inventar a imprensa democrática.

Gilson Caroni Filho
é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, e colaborador do Jornal do Brasil e Observatório da Imprensa.

Carta Maior
http://www.agenciacartamaior.com.br/

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‘Transposição do Velho Chico será um fracasso’, diz especialista

Júlia Moura, Agência JB

RIO - Fundador do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco e
coordenador do projeto Manuelzão da Universidade Federal de Minas
Gerais (UFMG), Apolo Heringer Lisboa vem desde 1997 lutando para
conscientizar a população sobre assuntos ligados ao “Velho Chico”.
Apolo, que trabalha para promover a revitalização da bacia, diz que “o
maior fracasso da história do Brasil foi a Transamazônica e com a
transposição do rio São Francisco será a mesma coisa”. Em entrevista
concedida ao JB Online, o médico fala porque não defende a
transposição do rio São Francisco.

O projeto de Integração do Rio São Francisco com as Bacias
Hidrográficas do Nordeste Setentrional é um empreendimento do Governo
Federal, sob a responsabilidade do Ministério da Integração Nacional,
e está causando muita polêmica entre as comunidades ribeirinhas,
professores e especialistas. O governo assegura que, em 2025, após 20
anos de obras, cerca de 12 milhões de habitantes do semi-árido
nordestino contarão com a água. Hoje são 120 mil habitantes
abastecidos por açudes de particulares de grande e pequeno porte,
segundo dados do projeto Manuelzão.

Pensando nisso, Apolo Heringer apoiou a Caravana contra a transposição
que já passou pelos Estados de Minas Gerais, Rio, São Paulo, Rio
Grande do Norte, Ceará, Paraíba, Sergipe, Bahia, Pernambuco, além do
Distrito Federal. O grupo defende que se leve água ao semi-árido por
meio de adutoras e não pela obra da transposição do Rio.

Heringer afirma ainda que no Nordeste não há falta d’água e sim um
grave problema de gestão. Que a possível transposição do rio São
Francisco só serve para beneficiar a indústria do agronegócio.

JB Online: Por que a Caravana é contra a transposição?

Apolo Heringer Lisboa: É uma questão história. A Caravana é contra
porque a região da transposição é uma região que não precisa de água
do São Francisco. O problema da seca no Nordeste e no Semi- árido
brasileiro, que envolve toda a Bacia do São Francisco com
aproximadamente 1 milhão de metros quadrados, é a concentração de água
das chuvas e a falta de distribuição das mesmas. A transposição irá
tirar água um semi-árido para outro semi-árido, ou seja, do baixo São
Francisco para Ceará e Paraíba.

O Ceará tem a metade da capacidade de água do que eu chamo de
semi-árido setentrional (corresponde a Ceará, Paraíba, parte de
Pernambuco, parte do Piauí, Rio grande do Norte e Ceará) com muitos
açudes - são 70 mil açudes pequenos e 400 grandes - o que é
equivalente, a capacidade de água, de 12 Baias da Guanabara. Essas
águas estão paradas, sem distribuição.

O problema da seca no Nordeste, em todo semi-árido brasileiro – e
estou falando inclusive do Jequitinhonha e do Vale do São Francisco -
não é por falta d’água, é por concentração de água.

JB Online: Qual seria a melhor maneira de se distribuir água para o
povo nordestino?

A. H. Lisboa: A melhor maneira e a mais barata de levar água para quem
realmente precisa no Nordeste é distribuindo as águas dos açudes, das
chuvas e construindo poços artesianos. Só é possível atender a
população espalhada pelo Sertão construindo poços.

JB Online: Porque o Governo Federal adotou a projeto de transposição
do rio São Francisco?

A. H. Lisboa: Existem duas lógicas perversas. A primeira é da
indústria da seca que aproveita a miséria do povo. Nunca construíram
um poço cartesiano, se o fizesse o povo ficaria independente. A
indústria da seca ganha com a venda de água pelo caminhão pipa. Quando
construíram os açudes achava-se que os açudes iam resolver o problema
da seca no Nordeste. Pelo contrario, apenas resolveu os problemas dos
proprietários de terras e dos políticos que fizeram açudes com
dinheiro federal, em suas próprias terras.

A segunda lógica perversa é a das Multinacionais exportadoras de
frutas e criador de camarão que consomem um grande volume de água. Por
sua vez, o semi-árido esta adotando uma política econômica de uso
intensivo de água doce. Mentiram para o povo brasileiro. Falaram que a
água é para matar a sede do coitado do povo do sertão e na verdade nós
descobrimos que quase toda ela é para o agronegócio que está
desmatando quase todo o Cerrado.

O agronegócio vai piorar a situação da região, a indústria joga
agrotóxico nos rios e o povo não pode chegar perto desse açude.
Durante a viagem nos recebemos denúncias de moradores da Chapada do
Apodi que relatavam que não tem acesso a água.

JB Online: A revitalização da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco
irá resultar realmente no desenvolvimento sustentável da população
local?

A. H. Lisboa: Não. Será subsídio cruzado, a população vai pagar mais
caro pela água. O projeto trará para estados que não serão
beneficiados com a transposição o subsídio cruzado. Ou seja, vai
aumentar o preço da água mesmo em cidades que não fazem parte do
projeto, porque alguém vai ter que custear o valor final que a água
atingirá, cerca de R$ 0,11 pelo metro cúbico em alguns municípios.

JB Online: O senhor acredita que a transposição do Rio São Francisco
não vai ser finalizada?

A. H. Lisboa: Esse projeto é perverso em todos sentidos, é como dizer
que vai acabar com a fome do povo construindo um grande supermercado.
Esses grandes canais da transposição não vão chegar a população pobre.
A melhor solução vem do próprio Governo Federal, com uma proposta de
fazer 530 obras com um custo de 3,6 bilhões de reais para atender do
semi-árido brasileiro beneficiando 34 milhões de pessoas, em 9
estados. Não vai precisar da transposição, o projeto visa otimizar as
águas das chuvas. Por isso, nós acreditamos que a Transposição do rio
São Francisco não vai acontecer.

Tirando a água do rio eles vão impedir a produção de energia elétrica
e agora, 6 anos depois da ameaça do apagão elétrico, o governo quer
drenar 127 metros cúbicos, dizendo que tem água demais. Eles são
loucos! Nunca vi a elite nordestina lutar tanto pelo oprimido. Eles
são malandros!

A transposição não vai até o fim. O maior fracasso da historia do
Brasil foi a Transamazônica, a transposição do rio São Francisco será
também.

Jornal do Brasil

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A alquimia financeira de hoje

Workers World [*]

Alquimistas. Séculos atrás, os reis e as suas cortes viviam para além dos seus meios. Para compensar, efectuavam infindáveis campanhas militares, saqueando recursos e terra. A guerra era cara e os fracassos esvaziavam logo os tesouros reais.

Entre as elites reais avançava a ideia de que a riqueza podia ser criada pela transformação de metais ordinários em ouro. Ao longo de toda a Idade Média, exércitos de alquimistas trabalharam incansavelmente a fim de alcançar este objectivo, mas em vão.

Aos alquimistas de hoje foi assinalada uma tarefa impossível: converter milhões de milhões de IOUs [1] e dívidas em complexos instrumentos financeiros a fim de criar riqueza e lucros para os mestres da Wall Street. Economistas, matemáticos e físicos de universidades prestigiosas criam incompreensíveis modelos computacionais e cozinham cocktails de instrumentos financeiros. Os mercados financeiros e as agências de classificação não podem medir o seu valor ou estimar um preço confiável.

A falta de transparência confundiu e levou ao pânico o mercado de acções. Milhares de milhões foram perdidos nos últimos meses. Hordas de investidores, banqueiros e corretores correram para as laterais agarrando a sua riqueza de papel a fim de protegê-la dos turvos mercados financeiros.

A crise começou com empréstimos sub-prime empacotados por prestamistas hipotecários, comprados pelos bancos e outras instituições financeiras e vendidos a investidores. Estas obrigações de dívida colaterizadas, divididas em grupos mais pequenos chamados tranches, foram distribuídas amplamente nos EUA e no exterior. Aos prestamistas elas proporcionaram taxas de juros de dois dígitos e comissões exorbitantes. Dez mil hedge funds compraram os modelos computacionais – fundos quantitativos (”quant funds”) – através de dinheiro emprestado.

Agora o colapso das hipotecas sub-prime pôs em retirada, com perdas pesadas, estes investidores financeiros.

Em 18 de Setembro o Federal Reserve Board deu ao mercado de acções aquilo que ele queria — um colossal corte de meio ponto na taxa de juros prime, de 5,25 para 4,75 por cento. Isto desencadeou uma inundação de dólares baratos a fim de proporcionar liquidez e elevação do crédito livre — e o mercado de acções respondeu imediatamente disparando à taxa mais rápida dos últimos quatro anos. O frenesim e o medo que haviam dominado as instituições financeiras foi apaziguado, apesar de muitos analistas continuarem a não estarem seguros sobre se a resposta do Fed não fora demasiado pouca e demasiado tardia. São aqueles que acreditam que um colapso das instituições financeiras ainda está na forja.

O Federal Reserve Board, o banco dos banqueiros, actuou como a torneira do dinheiro de último recurso. Este banco é uma parte integral do mercado de acções e trabalha com os chefes dos maiores bancos, o líderes de outras bolsas e agências governamentais tais como a Securities and Exchange Commission. Ele é o principal catalizador na protecção do mercado de acções — o generalizador e barómetro intimamente conectado aos fundos de pensão, bancos, uniões de crédito, companhias de seguros e correctores de hipotecas. A Wall Street descansa mais tranquilamente — por enquanto.

O salvamento do mercado de acções pelo Fed conduzirá a uma maré inflacionária, a qual diluirá os padrões de vidas dos trabalhadores e dos oprimidos. O valor do seu trabalho, expresso em dólares baratos, tornará mais difícil para eles comprar o que produzem, num momento em que são afligidos pelo custo crescente de alimentos, energia, abrigo, educação e cuidados de saúde, além de estarem afogados em dívidas dos cartões de crédito e em arrestos.

O desemprego está em ascensão

Os trabalhadores e os oprimidos enfrentam inflação e estagnação. Temos actualmente o que parece ser uma retomada das condições que levaram ao crash do mercado de acções em Outubro de 1987, mas agora mais profundo e global. O mergulho do dólar desestabilizará os mercados globais de commodities, intensificará as tensões entre parceiros comerciais e desfará até mesmo acordos comerciais.

As ocupações do Iraque e do Afeganistão estão a deixar um rastro de morte, destruição e défices enormes. Sem considerar as suas dimensões, a crise do capitalismo fortalecerá a luta da classe trabalhadora e dos oprimidos e mudará o carácter da situação internacional.
23/Setembro/2007
[1] IOUs: Acordos escritos para a devolução de dívidas.

Articles copyright 1995-2007 Workers World. Verbatim copying and distribution of this entire article is permitted in any medium without royalty provided this notice is preserved.

O original encontra-se em http://www.workers.org/2007/editorials/economy-0927/

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http://resistir.info/

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Relatórios divulgados nos EUA e na Europa abalam confiança na economia

Katrin Benhold
Em Paris

Temores de que haja uma desaceleração global do crescimento econômico aumentaram na quarta-feira (26/07), depois que relatórios recentes somaram-se aos sinais de que a crise nos mercados de crédito está prejudicando a economia real dos dois lados do Oceano Atlântico.

Nos Estados Unidos, onde a crise no mercado imobiliário já teve um reflexo negativo sobre os gastos dos consumidores, o Departamento do Comércio anunciou que as encomendas de bens duráveis - englobando tudo, de aeronaves comerciais a eletrodomésticos - caíram 4.9% em agosto, indicando que o setor de investimentos pode ser incapaz de compensar essa deficiência.

E os ânimos estão igualmente abatidos na Europa. Uma pesquisa indica que a confiança dos consumidores da Alemanha, a maior economia européia, caiu para o patamar mais baixo dos últimos cinco meses. E duas outras pesquisas revelaram que os industriais franceses e italianos têm se mostrado cada vez mais pessimistas quanto à situação, após um drástico declínio da confiança empresarial alemã, registrado na última terça-feira.

Os últimos dados representam mais um golpe sobre as esperanças européias de que o continente possa suportar a desaceleração econômica nos Estados Unidos. Os políticos europeus têm procurado minimizar o risco de um contágio, simulando coragem enquanto os economistas reduzem gradualmente as suas previsões de crescimento para a região. Alguns ainda insistem que o colapso no mercado imobiliário de risco dos Estados Unidos não causará impacto nenhum sobre eles.

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, por exemplo, sustenta a sua previsão de crescimento de 2% a 2,5% para este ano e o ano que vem, ainda que os bancos e instituições internacionais sejam quase unânimes em prever um crescimento inferior a 2%.

E a Europa tornou-se menos dependente do crescimento norte-americano. As exportações para os Estados Unidos representam menos de 3% da economia da zona do euro, fazendo com que surgisse a teoria de um desvinculamento entre a dinâmica econômica européia e a norte-americana. Mas os analistas afirmam que essa dissociação não protege as companhias e os consumidores europeus do recente aumento dos custos dos empréstimos.

O coro de vozes alarmistas fica cada vez mais alto. No último domingo o governo alemão admitiu pela primeira vez que os problemas nos Estados Unidos poderão ter repercussões negativas sobre a economia alemã.

“O vínculo estreito entre os mercados financeiros significa que as mudanças econômicas globais estão se fazendo sentir na nossa economia doméstica de forma mais intensa e precoce do que costumava ocorrer”, declarou o ministro alemão da Economia, Michael Glos, ao jornal “Frankfurter Allgemeine Zeitung”.

Em países como Espanha e Irlanda, nos quais o mercado imobiliário tem sido um grande fator de contribuição para o crescimento, os efeitos da crise do mercado de crédito poderão ser os mais imediatos. Mas por toda a região, os bancos mostram-se nervosos na hora de emprestarem uns aos outros, e os índices de empréstimos desabaram.

Para aumentar as preocupações o barril de petróleo subiu recentemente para mais de US$ 80, e o euro continua batendo recordes de valorização em relação ao dólar. Os altos preços da energia provocaram o aumento dos custos das companhias, enquanto o euro forte tornou as exportações européias mais caras.

O fator-chave para determinar a dimensão dos danos que poderão ser causados à economia européia consiste em determinar se a economia norte-americana mergulhará ou não em uma recessão, afirmam os analistas. Os temores quanto a uma recessão diminuíram depois que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) reduziu as taxas de juros em meio ponto percentual neste mês, mas os mercados continuam nervosos. Depois que o Departamento do Comércio divulgou o seu relatório sobre bens duráveis, os economistas do Morgan Stanley reduziram a sua previsão de crescimento no terceiro trimestre nos Estados Unidos de uma taxa anual de 2,4% para 2,2%.

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Paulson Jr., disse esperar que o crescimento norte-americano acelere-se na segunda metade de 2007, disse o ministro das Finanças da Índia, Palaniappan Chidambaram, à Bloomberg News, após uma reunião com Paulson na quarta-feira.

Uma súbita desaceleração econômica na Europa poderia minar a capacidade das maiores economias do continente de conter os déficits orçamentários e implementar as urgentes reformas econômicas, alertam os analistas. Depois que a Alemanha reformulou o seu mercado de trabalho, as esperanças voltaram-se para a França, a segunda maior economia na zona do euro.

Desde o verão, Sarkozy acelerou a sua agenda a fim de implementar uma ambiciosa plataforma de reavivamento da economia, mas um crescimento mais lento poderia complicar essa tarefa, deixando-o com pouca margem de manobra para agradar aos eleitores com medidas que poderiam suavizar o impacto das mudanças de políticas.

Na quarta-feira, ele revelou o seu primeiro orçamento, prometendo aumentar o crescimento econômico com um pacote de investimentos de 272 bilhões de euros (cerca de R$ 770 bilhões) - uma semana após o seu primeiro-ministro advertir que o país está “falido”. Sarkozy está promovendo uma redução nos impostos equivalente a US$ 9 bilhões, a fim de estimular os gastos dos consumidores.

Sarkozy irritou Bruxelas ao adiar a promessa do seu antecessor de equilibrar o orçamento da França entre 2010 e 2012. As propostas feitas na quarta-feira antecipam apenas um modesto declínio do déficit, de cerca de 2,4% do produto interno bruto neste ano para 2,3% em 2008.

Mas, conforme observam os economistas, até mesmo essa queda modesta dá a impressão de ser ambiciosa tendo em vista que o financiamento do orçamento se baseia em uma previsão otimista de crescimento que foi feita antes das recentes turbulências nos mercados financeiros.

Tradução: UOL

International Herald Tribune

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Ucranianos vão às urnas para eleger novo parlamento

Os ucranianos vão às urnas neste domingo para as terceiras eleições nacionais em três anos.

Mais de 37 milhões de eleitores estão registrados para participar do pleito, convocado pelo presidente pró-Ocidente Viktor Yushchenko numa tentativa de resolver meses de impasse com o primeiro-ministro pró-Rússia Viktor Yanukovich.

Mas a correspondente da BBC na capital Kiev Helen Fawkes diz que nenhum partido deve conseguir uma maioria clara, o que pode significar meses de negociações pela frente para a formação de uma coalizão no país.

Todos os principais partidos alegam que haverá tentativas de fraudar as eleições e há grandes chances de que os resultados, que devem ser divulgados nesta segunda-feira, sejam contestados.

Tanto partidários pró-Ocidente quanto pró-Rússia já se preparam para eventuais protestos nas ruas, ações na Justiça e mais disputas políticas.

Rivalidade

O presidente pró-Ocidente Viktor Yushchenko dissolveu o parlamento ucraniano em abril este ano, alegando que o primeiro-ministro Viktor Yanukovych, que defende a aproximação com a Rússia, estava tentando usurpar o poder.

Depois de dois meses de protestos nas ruas e de enfrentamento entre os dois Viktors, foi acertado que as eleições seriam realizadas em 30 de setembro.

Yushchenko se tornou presidente da Ucrânia em janeiro de 2005 depois do movimento pró-democracia batizado de “Revolução Laranja”, que conseguiu anular um pleito fraudado que havia levado à vitória de Yanukovych.

Mas Yushchenko teve de aceitar que o rival se tornasse primeiro-ministro depois que os aliados do presidente não conseguiram a maioria nas eleições parlamentares de março do ano passado.

BBC Brasil
http://www.bbc.co.uk/portuguese/

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Os problemas e os desastres históricos do Haiti

Direto de Porto Príncipe, Emir Sader relata as dificuldades vividas pelo povo haitiano. “Qualquer que seja o diagnóstico que se faça da história recente do Haiti, o certo é que, depois da catástrofe da ditadura do clã Duvalier, o desastre mais recente foi o fracasso do governo de Aristide”.

Emir Sader

Não é fácil chegar ao Haiti. Em primeiro lugar pelos vôos. Não apenas para nós, que temos que ir ao Panamá e trocar de avião, depois de uma espera de quatro horas. Mas mesmo paises do Caribe – como Cuba ou Porto Rico – ou próximos, como o México, devem ir até o Panamá ou tirar o visto e os sapatos no aeroporto de Miami. Um vôo que seria de uma hora e quarenta, desde o Porto Rico ou Cuba, termina levando sete horas. O trecho entre o Panamá e o Haiti é curto, de cerca de duas horas, para que se veja que não fica tão longe, mas também a este nivel o Haiti é vitima de discriminação.

A outra dificuldade também é resultado da discriminação. Quando se diz a alguém que se vai ao Haiti, produz preocupação, muitas vezes seguido da recomendação. “O Haiti! Cuidado!”, como se fôssemos ao Iraque ou ao Afeganistão.

A primeira vista, ainda do avião, é de uma ilha tipicamente caribenha, poderia se estar chegando a Cuba, não fosse uma vegetação mais rala e terrenos bastante menos explorados pela agricultura. No aeroporto – chamado Toussaint L`Ouverture – encontra-se de imediato essa característica de alguns países do continente: população nativa negra, entre pobres, classe média e elite.

Porto Príncipe não apresenta uma paisagem social pior que, por exemplo, Tegucigalpa ou El Alto – cidade da periferia de La Paz. A capital tem um milhão de habitantes, outros oito milhões vivem no campo e um milhão mais no exílio – nos EUA ,na Republica Dominicana. Tanto estes dados, como os índices sociais – 40% de analfabetos ou de mortalidade infantil, por exemplo – são aproximados, ninguém sabe quantos haitianos foram, legal ou ilegamente aos EUA ou à vizinha Republica Dominicana, onde mesmo filhos de terceira geração de haitianos não são reconhecidos legalmente e não existem diante da lei e das estatísticas.

No centro da cidade, uma grande quantidade de gente ociosa, certamente desempregada, enquanto os que têm atividade estão, na sua grande maioria, no serviço de rua, vendendo coisas ou prestando serviços, com grande quantidade de engraxates. Isolado por cercas, o monumental Palácio Presidencial, aparentemente alheio ao entorno. Como em quase todos os países do continente, mesmo os países pobres, como o Haiti ou o Paraguai, o poder se exige na sua monumentalidade mediante palácios que poderiam ser transferidos para qualquer outro país, nada diz deles que são sede do governo daquele país, eleito por aquela massa de gente que circula, alheia ao Palácio, a pé ou em ônibus pequenos de transporte, repletos de gente a qualquer hora do dia, todos muito coloridos e com frases pintadas, a maioria delas religiosas.

O Haiti goza, pelo menos, do privilégio do atraso. A capital é pouco globalizada, porque não representa mercado de interesse da grande maioria das transnacionais. (Até aqui, não vi nenhum McDonalds.) Poucos outdoors, em geral pequenos, a publicidade está mais presente em faixas de pano, escritas em francês, quando se trata da oferta de algum produto voltado para o consumo das altas esferas do consumo, em creole – o idioma local, uma versão popular do frances, que escreve as palavras francesas conforme soam, se se trata de produtos de consumo popular.

Não soubéssemos a situação política do país, pareceria um país pobre a mais no continente. O sintoma dessa situação política estava presente no aeroporto, quando os soldados traziam o emblema da ONU em um braço e a bandeira chilena no outro – membros da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, conhecida como Minustah, cujo término do mandato atual termina dia 15 de outubro próximo.

Consenso geral é que a presença dessas tropas foi a responsável pelos avanços na situação de segurança pública, pelo menos nos espaços centrais de Porto Príncipe, até há pouco intransitáveis, pelos riscos de segurança. A eleição de um presidente com grande votação - René Preval, que havia sido presidente do Haiti anteriormente e que recebeu inclusive o apoio tácito do ex-presidente Aristide -, somado à ação das tropas estrangeiras, gerou uma certa estabilidade institucional.

Os problemas do Haiti se dão em um plano muito mais profundo. As décadas de governo do clã Duvalier, somados ao fracasso do governo de Aristide, tiveram como efeito, entre outros, uma inexistência real do Estado. Há ministérios, mas muito poucos serviços publicos, estruturas muito debilitadas. Além de que Aristide decidiu a extinção do Exército, sem colocar nenhuma outra estrutura no seu lugar, mantendo-se apenas a Polícia Federal como força armada.

Qualquer que seja o diagnóstico que se faça da história recente do Haiti, o certo é que, depois da catástrofe que significou para o Haiti a ditadura do clã Duvalier, o desastre mais recente, que ajuda a entender a grave situação em que se encontra o país, foi o fracasso do governo de Aristide. Ele tinha as melhores condições para dar inicio à reconstrução democrática do país, pela liderança popular que tinha como padre da teologia da libertação, da oposição democrática, contando também com apoio internacional.

O regime duvalierista foi derrubado em 1986, Aristide foi eleito em 1990. Nem bem tinha começado seu governo, aos 7 meses, foi derrubado por militares remanescentes do duvalierismo. Se exilou nos EUA e retornou, reconduzido pelo governo de Bill Clinton, em 1994, para o que se chama de “segundo Aristide”. Depois de um mandato de Preval, ele passou a implementar uma política econömica neoliberal, se chocou e se distanciou do partido – Lavalas – que o havia eleito e passou a ser acusado de vínculos com o narcotráfico, de corrupção e de organização de bandas armadas que passaram a atacar grupos de oposição, movimentos sociais, intelectuais e lideres da oposiçáo.

Aristide foi perdendo o controle do país, mobilizações populares contra ele foram crescendo. Ao longo do segundo semestre de 2003, ele continuava a dispor de grupos populares armados por ele. A falta de recursos externos foi levando o país a um processo de desintegração acelerada, sem serviços públicos, sem forças de segurança, com grupos de-ex-militares armados cruzando a fronteira para atacar o governo.

Foi nesse contexto de véspera de guerra civil, que os governos dos EUA e da França se reivindicaram o direito de intevir, derrubando o governo de Aristide. Alegando que os governos da região preferiam a presença de tropas latino-americanas, o Brasil, a Argentina, o Uruguai e o Chile, substituíram esse contingente com suas tropas.

Aí começa o período contemporâneo do Haiti, com um presidente eleito, René Preval, grandes dificuldades econômicas e sociais, instabilidade institucional, presença de tropas estrangeiras. O seminário que organizamos, Clacso, junto com a Fundação Gerard-Pierre Chareles – o intelectual mais importante do Haiti, grande amigo de Florestan Fernandes, morto há três anos – permite ter visões diversas do quadro atual do Haiti. No próximo texto tratarei de resumir-lhes essas visões.

Porto Principe, 28 de setembro de 2007

Carta Maior
http://www.agenciacartamaior.com.br/

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Rádio elege Marx filósofo mais importante da história

EFE, em Londres

Karl Marx (1818-1883) foi eleito pelos ouvintes da Radio 4, da emissora britânica BBC, “o filósofo mais importante da história” .

O autor de “O Capital” pode ter perdido espaço no leste europeu e seu nome pode ter desaparecido de praças e ruas, mas seu prestígio parece ter sobrevivido à queda do muro de Berlim, pelo menos no Reino Unido, anunicou a rádio.

Marx recebeu 28% dos 30.000 votos dos ouvintes, ficando muito à frente do segundo lugar, o escocês David Hume.

Os jornalistas da revista “The Economist” tentaram, em vão, fazer uma campanha entre seus leitores para angariar votos a favor de Hume, grande representante do empirismo e defensor de um ceticismo moderado.

Hume, pensador anti-dogmático que influenciou na filosofia moral e nos trabalhos econômicos do amigo Adam Smith, o maior dos economistas clássicos, obteve apenas 12,7% dos votos.

Outros meios britânicos apoiaram diferentes filósofos. O jornal “The Guardian”, de centro-esquerda, apadrinhou outro alemão, Immanuel Kant, que ficou em sexto.

Com certo esnobismo, um jornal mais a esquerda, “The Independent”, inclinou-se pelo austríaco Ludwig Wittgenstein, iniciador da chamada Filosofia Analítica do século 20, e que ficou em terceiro da lista.

Vários famosos pediram voto para filósofos como o imperador romano Marco Aurelio, Friedrich Nietzsche e o dinamarquês Soren Kierkegaard. Platão, considerado por muitos o maior pensador de todos os tempos, ficou em quinto lugar com 5,65%, imediatamente atrás de Nietzsche (6,49%).

Nietzsche recebeu mais votos do que Kant, que obteve 5,61% e ficou em sexto; que São Tomás de Aquino (4,82%); e que os gregos Sócrates (4,82%) e Aristóteles (4,52%). Karl Popper foi o menos votado dos dez filósofos (4,20%), muito abaixo de seu compatriota e antigo rival de Oxford, Wittgenstein.

Marx

O filósofo votado pelos ouvintes como o maior de todos os tempos esteve por certo muito vinculado ao Reino Unido, onde foi jornalista, pesquisou o fenômeno da era industrial e foi durante anos assíduo visitante do Museu Britânico.

Seu túmulo, enfeitado com seu busto e que recebe homenagem dos partidos comunistas de todos os países, está no cemitério de Highgate, no norte da capital.

A popularidade de Marx é explicada pelo historiador marxista Eric Hobsbawm pelo fato de que, com o fim do comunismo, o autor de “O Manifesto Comunista” tenha sido libertado da deformação de seu pensamento nos antigos países do chamado socialismo real.

A feminista americana Camille Paglia se queixa de que na lista da BBC apareçam só filósofos homens, e propõe uma formada exclusivamente por pensadoras, que inclui Simone de Beauvoir, Hannah Arendt, Mary Wollstonecraft e a neo-platônica Hipátia, de Alexandria, que viveu entre os anos 370 e 415 de nossa era e foi matemática e astrônoma.

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CONTRA A REPRESSÃO NA FSA

Nós, professores universitários, vimos a público manifestar nosso repúdio
à atitude arbitrária da Reitoria do Centro Universitário Fundação Santo
André, que apelou para a Força Tática da PM para expulsar de forma violenta os
estudantes que a ocuparam em protesto contra o aumento abusivo das
mensalidades.
Repudiamos também a presença da PM no campus universitário.
Relembramos ainda à Reitoria da Fundação Santo André de que o tempo do
arbítrio, quando questões sociais eram tratadas como caso de polícia, já
passou.
Todo apoio à luta dos professores e estudantes e contra qualquer punição
aos universitários e docentes.

Caio Navarro de Toledo
Prof. da UNICAMP

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Cidade holandesa de 18 mil tem 19 igrejas

Stephen Castle
Em Urk, Holanda

Apesar de sua população não chegar a 18 mil, a cidade holandesa de Urk já conta com mais igrejas protestantes do que muitas cidades pequenas.

Mas, para esta comunidade pesqueira remota e tradicional, os 19 templos existentes não são suficientes, de forma que planos estão em andamento para construção de mais dois.

A uma hora de carro de Amsterdã, onde maconha é vendida abertamente em cafés e a prostituição é legal, Urk é um dos locais mais tementes a Deus na Europa.

Milhares aqui desprezam a televisão, teatro, cinema e dança. Muitos se vestem de preto e assistem três horas de culto aos domingos. E alguns se recusam a imunizar seus filhos ou a comprar seguro, pois acreditam que isto interfere com a vontade de Deus.

O assassinato de dois críticos do Islã, Pim Fortuyn, um político gay e oponente da imigração, e Theo Van Gogh, um cineasta, causou convulsões na Holanda, provocando um forte debate sobre a identidade nacional e a assimilação das minorias nas cidades holandesas.

Mas Urk faz parte de uma Holanda diferente, o coração da direita cristã do país que conta com dois partidos políticos -um deles ocupa o posto de vice-primeiro-ministro na coalizão de governo.

Se esta cidade ilustra algo da famosa tolerância dos holandeses -uma nação multicultural de 16 milhões de habitantes, mais de 3 milhões de origem estrangeira- é o fato dela se basear mais na coexistência do que em um desejo de integração social.

Enquanto a freqüência à igreja está em declínio por toda a Europa, em Urk a religião permanece um pilar da sociedade e os pastores estimam que 97% da cidade freqüente o culto dominical. Por haver tantos fiéis, as diferenças teológicas importam o suficiente para provocar divisões notáveis da fé protestante.

Na Holanda em geral, sete entre dez pessoas raramente assistem a um serviço religioso, segundo estatísticas de 2003. Um motivo para Urk desafiar as tendências modernas, seculares, está no fato de ter sido uma ilha além da costa até 1939, quando a terra foi resgatada do mar.

A cidade conta com um dialeto distinto e expressões únicas freqüentemente derivadas da marinhagem. Um antigo ditado de Urk diz: “Não se pode confiar em vento contrário e em mulheres que procuram prazeres”. De um lado os cidadãos de Urk estão ligados ao continente por terra recuperada, enquanto o porto da cidade, antes marítimo, margeia um grande lago de água doce chamado IJsselmeer. Os pescadores de Urk agora viajar por terra para chegar aos barcos ancorados em outros portos.

Socialmente conservadora, Urk é predominantemente branca (as estimativas do número de imigrantes varia de 20 a 60, incluindo um punhado de muçulmanos). Coabitação antes do casamento é quase desconhecida, as mulheres se casam jovens e as famílias freqüentemente são grandes. Um casal em Urk tem 18 filhos.

A cidade não têm igreja católica romana, sinagoga ou mesquita. Mas seguindo pela rua De Noord é possível contar sete igrejas protestantes em três quadras.

Na sala de estar de sua casa, William Middelkoop desenhou um diagrama com 12 linhas entrelaçadas para descrever a evolução das igrejas de Urk, que se dividiram desde os anos 60 devido a uma série de disputas teológicas.

No momento as 19 igrejas possuem prédios e, das três sem endereço permanente, duas estão planejando construir -incluindo a igreja Ichtus da qual Middelkoop é pastor.

Sua congregação de 800 se reúne em um ginásio esportivo, mas acabou de receber a permissão para reformar um prédio em igreja. O projeto custará 4 milhões de euros e deverá ser concluída em meados de 2009.

Middelkoop, 42 anos e nascido em Roterdã, lamenta a divisão das igrejas devido a disputas em torno da interpretação das escrituras.

“Satã ri quando vê isto”, disse Middelkoop. A questão, ele acrescentou, é: “É possível fazer parte de uma igreja que dá espaço para pastores não bíblicos?”

Uma das rixas teológicas mais significativas de meados do século 20 na Holanda foi sobre se a história de Adão e Eva devia ser aceita literalmente -em particular sobre se a serpente de fato falou.

Mas apesar das Igrejas Reformada e Cristã Reformada de Urk terem sobrevivido a este debate relativamente unidas, elas se dividiram desde os anos 60 em torno de quanto pensamento livre e teologia liberal é possível tolerar.

A Ichtus surgiu de uma aliança de igrejas que permitem que os fiéis duvidem das palavras literais das escrituras. Uma igreja não rígida segundo os padrões de Urk, sua congregação pode assistir televisão e dirigir no domingo.

Mas Middelkoop alerta seus fiéis a resistirem à tentação. “Você tem a lei do Senhor”, ele argumenta. “É preciso assistir a TV com os 10 Mandamentos do Senhor em sua mente, olhos e ouvidos. Quando você está com o controle remoto em sua mão, você não deve pensar ‘uau’, mas que tipo de decisão Jesus Cristo tomaria?”

O pastor da igreja mais rígida de Urk, a Jachin Boaz, se recusou a comentar, mas um ex-membro da congregação, falando sob a condição de anonimato por temer ofender a hierarquia da igreja, lembrou que “na infância não tínhamos TV, nem música popular e nem filmes. Nós vestíamos roupas pretas no domingo”.

Mas esta é uma comunidade unida e na qual as pessoas apóiam umas às outras, onde as pessoas conhecem seus vizinhos. “Eu tive uma boa infância”, ele disse. “Se você não tem TV, você lê um livro ou conversa com seu irmão ou irmã, seu marido ou sua esposa. Se você tem TV, você apenas olha para a TV.”

Como Urk conseguiu permanecer em outra era estando tão próxima das grandes cidades e centros de tentação da Holanda?

A resposta é que não conseguiu. Mesmo nos anos 60 a igreja mais rígida, a Jachin Boaz, foi sacudida por um escândalo quando foi descoberto que seu pastor tinha um filho fora do casamento, segundo um ex-morador que pediu que seu nome não fosse mencionado.

Ao receber um Mercedes de sua congregação, o mesmo pastor bateu seu carro, mas seus fiéis o substituíram após arrecadarem mais dinheiro. Posteriormente foi descoberto que o pastor tinha segurado o carro -contra o código da igreja- e resgatado o prêmio.

Com uma alta taxa de natalidade e uma grande população jovem, Urk tem um problema documentado com álcool e drogas, um que se torna mais evidente nas sextas e sábados, quando os pescadores voltam para casa.

Jaap Bakker, um ex-ancião da igreja Bethelkerk e um assistente social aposentado, aponta para o senso de comunidade, para a boa qualidade de vida familiar e para o retrospecto de filantropia da cidade.

Mas ele reconhece que, sob o exterior temente a Deus de Urk, se encontra uma realidade perturbadora. “Muitos jovens estão bebendo demais, as pessoas estão usando drogas. O que acontece em Amsterdã também acontece em Urk”, ele disse sentado no terraço da casa de seu filho.

No museu da cidade, o curador Hans Besselink disse que uma das coisas que torna Urk diferente é que aqueles que se comportam mal em uma noite de sábado invariavelmente estarão na igreja na manhã seguinte. Fortemente independentes, os fiéis de Urk não querem que lhes digam como orar, mas “se você estiver descontente com uma disputa teológica, ninguém se importa se iniciar uma nova denominação”.

Os fiéis de Urk, disse Besselink, não tentam converter pessoas e “são muito tolerantes em relação a culturas de fora” desde que possam proteger seu próprio modo de vida. A tolerância é uma virtude, ele acrescentou, mas “também pode significar falta de interesse”.

Tradução: George El Khouri Andolfato

International Herald Tribune

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Sob tensão crescente, Taiwan testa mísseis que visam China

NEW YORK TIMES

Ante a expansão militar de Pequim -que a considera uma Província rebelde- e em meio a declarações independentistas cada vez mais incisivas, Taiwan está levando adiante um plano para desenvolver mísseis que possam atingir a China continental, segundo especialistas em defesa e segurança.
De acordo com esses analistas, Taipé já testou, com sucesso, seu primeiro míssil de cruzeiro com alcance de 1000 km - o suficiente para atingir Xangai. Membros do partido governista confirmam a existência dos planos, que vêem como “essenciais” diante do aumento dos gastos militares chineses.
Pequim tem hoje 800 mísseis apontados para Taiwan, os quais ameaça disparar caso a ilha leve adiante uma tentativa de independência.
A tensão no estreito de Taiwan tem se elevado nos últimos meses com a defesa, pelo governo taiwanês, de um referendo para que a Província entre na ONU sob o nome de Taiwan. A entidade internacional, desde 1971, reconhece a política de “China única” e dá assento somente a Pequim.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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DA OBSERVAÇÃO

Não te irrites, por mais que te fizerem…
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio…

Mário Quintana

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Dez mil alemães orientais espionaram para o Ocidente

Siobhán Dowling

E você que pensava que os alemães orientais espionavam muito. Um novo estudo mostra que os alemães ocidentais tinham 10.000 agentes espionando seus vizinhos comunistas. E sabiam sobre o Muro de Berlim antes dele subir.

É um fato sabido que a Alemanha Oriental tinha agentes por toda parte na Alemanha Ocidental durante a Guerra Fria. Até 6.000 deles, alguns em cargos altos, transmitiam informações regularmente para o leste pelo muro.

De acordo com um novo estudo publicado na sexta-feira (29/9), porém, os alemães ocidentais eram ainda melhores no recrutamento de espiões. Um total de 10.000 cidadãos da metade comunista da Alemanha estavam espionando para Bonn. Não só isso, mas a agência de inteligência da Alemanha Ocidental, Bundesnachrichtendienst (BND), tinha uma boa idéia dos planos de construir o Muro de Berlim, mas seus patrões em Bonn simplesmente não quiseram acreditar.

Os historiadores alemães Armin Wagner e Matthias Uhl estudaram os arquivos divulgados pela agência de inteligência exterior alemã (BND) cobrindo o período entre a formação da República comunista Democrática Alemã (RDA), em 1949, e a queda do muro de Berlim, em 1989. Em seu livro “BND Against the Soviet Army” (BND contra o exército soviético), eles revelam que a agência conseguiu recrutar milhares de pessoas de todas as camadas da sociedade alemã oriental para fazerem espionagem militar.

Justo antes do Muro de Berlim ser construído, no dia 13 de agosto de 1961, essa rede de espiões informou aos alemães ocidentais que algo grande estava sendo planejado. “A BND sabia que algo ia acontecer em julho e agosto”, disse Wagner ao Spiegel Online. A agência também sabia que um muro era um cenário realista e disse aos políticos em Bonn. “Mas eles não queriam aceitar a idéia”. A BND não soube precisar quando Berlim Ocidental seria selada. “Até uma semana antes da construção do muro, somente cerca de 60 pessoas sabiam que ia acontecer”, disse Wagner.

A espionagem militar na Alemanha Oriental era vital ao Ocidente no alto da Guerra Fria. De acordo com Wagner, a força de 400.000 soldados soviéticos na Alemanha Oriental era a divisão mais forte do Exército Vermelho em todo o bloco oriental. O Ocidente temia que um ataque pudesse ser lançado da RDA contra a Alemanha Ocidental e a Otan. “Eles precisavam de (missões de) reconhecimento”, diz ele.

Foi aí que os espiões entraram. A agência alemã ocidental recrutou milhares de alemães do outro lado para mantê-la informada de qualquer movimentação militar.

A motivação dos espiões alemães orientais variava enormemente. Para muitos, a decisão de espionar era provocada por um profundo anticomunismo. Mas outros o faziam por aventura, ou devido a laços de família ou, simplesmente, como favor para antigos amigos do exército antes da guerra. Também houve compensação financeira, apesar dos autores do estudo acreditarem que isso era menos importante como motivação, particularmente porque era impossível gastar o dinheiro da Alemanha Ocidental do outro lado. “Contas bancárias algumas vezes eram abertas em seus nomes. Assim, se jamais deixassem a RDA, teriam um capital inicial”, diz Wagner.

A Alemanha Oriental era melhor no jogo de espionagem
Antes de 1961, era relativamente fácil recrutar espiões e acessar as informações que reuniam. De acordo com Uhl, a BND já tinha recrutado 5.000 alemães orientais em 1955, a maior parte deles das fileiras do exército alemão derrotado. Apesar de as coisas ficarem mais difíceis após o muro subir, uma rede já tinha sido estabelecida; novos espiões já haviam sido recrutados, por exemplo, por professores universitários conservadores ou jornalistas. A BND também aumentou sua dependência das informações passadas por turistas alemães ocidentais na GDR.

O mesmo jogo, é claro, também estava sendo jogado do outro lado. Wagner salienta que “havia muitos na Alemanha Ocidental, particularmente na geração de 68, que eram atraídos pela ideologia comunista e estavam prontos a ajudar a RDA”.

E apesar da Alemanha Ocidental ter 4.000 espiões a mais do que a Alemanha Oriental, os agentes da RDA eram significativamente mais bem sucedidos no jogo de espionagem. A inteligência alemã ocidental, por exemplo, nunca conseguiu colocar agentes no alto do governo da Alemanha Oriental, enquanto Bonn estava cheia de agentes. O mais famoso foi Günter Guillaume, que se tornou assessor do chanceler Willy Brandt. Ele foi descoberto em 1974, o que levou à renúncia de Brandt.

O que mais surpreendeu os autores do estudo, entretanto, foi como a espionagem se tornou parte do cotidiano. Não eram agentes profissionais, mas pessoas comuns, “donas de casa e estudantes”.

“As Alemanhas Ocidental e Oriental têm que ser consideradas juntas”, conclui Wagner. “Apesar da divisão em dois Estados, a espionagem dos dois lados mostra como as pessoas estavam conectadas.”

Tradução: Deborah Weinberg

Der Spiegel
http://www.spiegel.de/

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LA GEOPOLÍTICA DE LOS AGROCOMBUSTIBLES

Documento de posición del Sur Global sobre Soberanía Alimentaria, Soberanía Energética y la transición hacia una sociedad post-petróleo

Convocadas a la primera reunión de trabajo para discutir sobre los agrocombustibles y el reto del “desarrollo” en una sociedad post-petrolera, las organizaciones reunidas en Ecuador, latitud 0, del 27 de junio al 01 de julio de 2007, invitamos al debate desde el Sur Global en los siguientes términos:

Denominados apropiadamente por los movimientos sociales como AGROCOMBUSTIBLES, los llamados “biocombustibles” y toda la generación de energía a través de la biomasa tal como viene sido promovida por gobiernos, corporaciones, agencias de ayuda, las Naciones Unidas, las instituciones financieras internacionales y demás agentes interesados en su producción a gran escala y en su comercio internacional - NO cambian, sino que PERPETUÁN el modelo de producción y consumo de la civilización moderna, urbana y industrial.

La crisis ecológica y energética que se impone sobre todo el Planeta, junto a la urgencia ineludible de frenar el calentamiento global y dar paso a una transición hacia una sociedad y una economía post-petrolera, nos obligan a un análisis más profundo y a generar cambios políticos realmente transformadores.

Reconociendo que tenemos una tarea necesaria de buscar energías alternativas, es imprescindible plantear la estrategia global en curso de promoción febril de la agro- energía en sus términos estructurales.

Los hidrocarburos son la principal fuerza motriz de la economía globalizada, donde la extracción y control de los combustibles fósiles tiene intrínseca relación con las redes de poder que controlan el mundo a través del control de la energía. Además, podemos ratificar que en esta civilización petrolera las principales desgracias, catástrofes climáticas, guerras, hambrunas, desplazamientos forzados y la esclavitud están vinculadas precisamente al control militar del territorio y de la energía fósil.

La matriz energética/industrial basada en combustibles fósiles, que sustenta la actual civilización urbana industrial y el estado de desarrollo se encuentra en crisis. Vivimos en el momento en el que estas fuentes de energía estén agotándose, por lo que el capitalismo imperativamente busca nuevas formas de generación de energía, incluyendo los agrocombustibles. Desde nuestra perspectiva como países agroexportadores del Sur, sometidos a esta condición bajo la lógica de la deuda externa y de nuestra historia colonial, los agrocombustibles profundizan el modelo del agronegocio y de la agricultura industrial, entendida como la sumatoria de monocultivos, biotecnología, agrotóxicos y capital financiero y exportación.

Los agrocombustibles significan la instalación de una nueva geopolítica global

1. Antecedentes y ejes de resistencia: La Soberanía Alimentaria

El modelo de agricultura industrial iniciado con la Revolución Verde es petro-dependiente en energía e insumos, y el fin de uno significa el ocaso de la otra. Además, la raíz histórica de los monocultivos industriales actuales fueron las plantaciones, un invento colonial, que hoy reproduce y multiplica su racionalidad y lógica productiva correspondiente.

El control del sistema agroalimentario mundial constituye uno de los principales componentes de la globalización. Los efectos de las políticas neoliberales en el campo, la expansión de la agro biotecnología, la proliferación de los acuerdos de libre comercio, incluyendo la lucha en contra de un Acuerdo sobre Agricultura en la OMC, fueron la fuerza catalizadora de un movimiento campesino internacional (La Vía Campesina). Del mismo modo, la resistencia de los Pueblos Originarios se viene fortaleciendo frente a la privatización de recursos y ecosistemas naturales en territorios indígenas.

La propuesta política de esos movimientos es la “Defensa de la Soberanía Alimentaria”, que se expresa en el derecho de los pueblos a decidir y controlar sus políticas de producción, distribución y consumo de alimentos, y la comercialización o no de excedentes, sólo después de haber garantizado las necesidades de la población con los recursos propios de su territorio y en un patrón cultural y ambientalmente adecuado. Esta es una propuesta radical que exige la transformación de las economías agroexporadoras del Sur y en el patrón de consumo en el Norte.

En tanto la protección de recursos naturales como la tierra y el agua es inseparable de la práctica de la agricultura, las decisiones sobre su uso y manejo no pueden ser tomadas por productores individuales en función de la propiedad privada de la tierra. Por eso, la Soberanía Alimentaria como principio político propone que la autodeterminación de los pueblos sea garantizada por la decisión colectiva sobre la producción de alimentos, y actividades agrícolas, pastoriles, pesqueras o recolectoras, enfatizándola como principio fundamental.

Tomando en cuenta la riqueza del debate político colectivo desarrollado por los movimientos sociales, planteamos el tema de los agrocombustibles – que ya los definimos como una profundización del agronegocio - en los términos de la Soberanía Alimentaria.

La industrialización del agro es consustancial a la expulsión del campesinado y configura una agricultura sin agricultores, afectando desde el campo a toda la sociedad. Implica el despojo de comunidades y sus territorios, la concentración y privatización de la tierra y fuentes de agua, la erosión de la biodiversidad, la destrucción de ecosistemas naturales, y la violencia y militarización en función del control de recursos naturales.

Este proceso de marginación que se inicia en el campo agudiza el circuito insostenible de la urbanización acelerada, que da lugar a la crisis de energía, infraestructura, viviendas, alimentación, salud y otros servicios básicos, puestos de trabajo y acceso a los alimentos en las ciudades. La pobreza urbana genera violencia, conflictos y el malestar social que caracteriza a las grandes ciudades del Sur.

Éste es un proceso global, hegemónico y dialéctico, que ha conducido a una crisis ecológica y energética incuestionable. Por ello no son aceptables las respuestas tecnológicas como las semillas transgénicas, ofrecidas como una solución al “hambre”, cuando su propósito final es el control de la producción agrícola, la imposición de los derechos de propiedad intelectual, y la mercantilización de la vida y la Naturaleza. Ni los agrocombustibles, promovidos para solucionar una posible crisis energética, o como falsa solución al cambio climático, sin tener en cuenta cuestiones estructurales que han generado grandes conglomerados urbanos que son abastecidos por mercancías transportadas desde distintos lugares del planeta, y que obligan a la gente a desplazarse cada vez a distancias más grandes, lo que genera una demanda interminable de energía.

La solución tampoco puede ser a través de instrumentos mercantiles como el comercio de carbono, la venta de servicios ambientales, las certificaciones verdes, las mesas redondas “sustentables”, la inserción de las plantaciones de carbono en los proyectos del Mecanismo de Desarrollo Limpio del Protocolo de Kyoto y otras creaciones promocionadas por el ambientalismo de mercado, instrumentos que generan más problemas que los que solucionan, y a cuyas propuestas y posiciones nos oponemos radicalmente.

La ideología del “desarrollo”, elaborada después de la segunda guerra mundial como una manera de extender el colonialismo, oculta la continuidad y profundización de la lógica de saqueo. Alrededor de esta ideología se crearon prácticas, instituciones y estructuras que a nombre del desarrollo, prolongaron y diversificaron las formas de saqueo en el Sur. A finales del siglo XX, el desarrollo se vistió de verde y se acuñó el término “desarrollo sustentable”, que lo que hace en realidad es “sustentar” la dominación y el abastecimiento colonial.

Los puntos expuestos arriba son el resultado del debate mantenido durante nuestra reunión y expresan el conjunto y complejidad de las reflexiones que hicimos sobre el tema. Consideramos que estos puntos son no-negociables. Si usted comparte nuestra visión, le invitamos a continuar con la lectura.

2. La geopolítica de los agrocombustibles

El sometimiento de los sistemas agrícolas locales al modelo industrial y a una demanda energética exógena, es una cuestión política que implica relaciones de poder sobre los ecosistemas y los pueblos. Este poder se manifiesta en dos niveles bien definidos:

Primero.- La actual dependencia mundial de combustibles fósiles se satisface mediante una geopolítica de guerra.

Para garantizar el control de los recursos hidrocarburíferos, y ahora a los agrocombustibles, los países industrializados y sus corporaciones transnacionales, han desarrollado mecanismos tanto económicos y financieros como político y militar. En este sentido, se han diseñado acuerdos comerciales internacionales que permiten el libre acceso a los recursos a través de leyes del mercado. Estos tratados mercantiles, bilaterales o multilaterales, van de la mano con la expansión de proyectos de infraestructura (ductos para transportar gas, petróleo, minerales y hoy agrocombustibles como etanol o biodiesel; carreteras, hidrovías, puertos, infraestructura de procesamiento, almacenamiento y expendio de combustibles, tendidos eléctricos, etc.). Las instituciones financieras internacionales, a través de diversas estrategias y mecanismos, entrampan a los países en una espiral de dependencia y muerte, por ejemplo a través de la deuda. Cuando un gobierno o su pueblo se platea romper con esta dependencia, corre el riesgo de sufrir represalias económicas, políticas o militares. La geopolítica del petróleo está diseñada no sólo para tener acceso a los hidrocarburos, sino para controlar su distribución. Esto explica muchos de los conflictos armados en el Medio Oriente, Afganistán y el Caucazo, donde se juega control de las rutas del transporte del crudo del Caspio, por parte de empresas estadounidenses, europeas y rusas, y sus gobiernos.

Así como se configuró una nueva geopolítica para asegurar el acceso a los combustibles fósiles, de la misma manera se está configurando en torno a los agrocombustibles una nueva correlación de fuerzas a nivel mundial. El ejemplo más nítido es la alianza Lula-Bush (Brasil y Estados Unidos) para la creación de un mercado mundial de commodities agroenergéticos, que ya se traduce en un reacomodo del poder global. Es así como el anuncio efectuado por Brasil sobre el reinicio de su programa nuclear y el ciclo de enriquecimiento de uranio, no generó la oposición que han enfrentado países como Irán o Corea del Norte, pues hoy Brasil forma parte de los países que conforman el círculo de amigos de Bush y del poder de intereses estadounidense.

Aclaramos categóricamente y sin ninguna ambigüedad, que la energía nuclear es inaceptable, esta posición es no-negociable, sin importar la razón por la cual la energía nuclear sea promovida. La humanidad y el ambiente ya ha experimentado suficientes impactos y sufrimientos por sus consecuencias.

Segundo.- La geopolítica de los agrocombustibles impone un reordenamiento territorial a nivel global.

Este reordenamiento significa, en este primer momento, la desterritorialización de cultivos alimentarios para la producción de insumos energéticos, con los impactos en cadena sobre toda la economía y los costos, por la obvia competencia de precios con los alimentos (como ya se observa en la subida de precios del maíz y aceites en distintas partes del mundo, y cuyo ejemplo más paradigmático fue la guerra de las tortillas en México, a inicios de 2007).

En un nivel más amplio, y ya relacionado a la segunda generación de agrocombustibles a partir de especies no alimenticias (eucalipto, switch grass, miscanthus, entre otros) la ocupación de la tierra a escala creciente y progresiva para ‘remplazar’ al petróleo, impactará más gravemente a la población rural, generando fuertes flujos migratorios, además de una reducción drástica en la producción y oferta de especies alimenticias con la consiguiente alza en los precios y menores posibilidades de acceso a la alimentación.

Esta presión sobre los territorios se va a acentuar, como resultado del lema repetido por sus promotores quienes sostienen que los agrocombustibles se van a asentar en las llamadas “tierras marginales” o “áridas”, que en realidad son las tierras más allá de la actual frontera agroindustrial y que son las que justamente alimentan a la gran mayoría de la población pobre y campesina, y los pueblos indígenas de África, Asia y América Latina con cultivos no comerciales como varias especies de tubérculos y hortalizas. Son en estas tierras marginales donde se intenta introducir millones de hectáreas con cultivos de Jatropha, que está siendo promovido como un cultivo milagroso en regiones áridas de la India, el Sahel y África Occidental.

En síntesis, la reproducción del capitalismo en una sociedad en transición hacia la era post petrolera depende en este momento de la incorporación y control, incluso militar, de gigantescas extensiones de territorio. Así, el eje de la resistencia es asegurar la integridad de la soberanía sobre los territorios, garantizando alimentos y energía local: construyendo la soberanía energética y alimentaria; y redefiniendo la soberanía política.

3. Las grandes rutas de los agrocombustibles

Al momento identificamos las siguientes grandes rutas centrales de flujo de agrocombustibles desde el Sur:

a. El abrazo del etanol. Brasil y Estados Unidos y el corredor de América Central.

La alianza estratégica y mediática entre Lula y Bush, los dos países lideres mundiales en la producción de etanol (caña de azúcar y maíz respectivamente) tiene un objetivo claro: definir una nueva geopolítica para América Latina (petróleo versus agrocombustibles) a través de impulsar la creación de un mercado internacional de commodities agroenergéticas con la realización de una “Conferencia Internacional sobre Biocombustibles”, auspiciada por la ONU en Brasil en julio del 2008.

En este contexto Brasil tiene como proyecto político - convertirse en el principal proveedor de agrocombustibles y de tecnología para etanol. Para eso, el presidente Lula se perfila como nuevo líder mundial y Brasil como la potencia del Sur, para lo cual se han establecido alianzas estratégicas con China, India, Sudáfrica etc., aspirando a acceder al Consejo de Seguridad de la ONU. En el plano económico, el interés de Brasil es acceder al mercado de los Estados Unidos y Europa, vía las ventajas arancelarias que tienen países de Centro América y Caribe. Por eso quiere expandir la producción de caña de azúcar y palma aceitera, y plantas de procesamiento a esos países.

El Plan Nacional de Agroenergía de Brasil estima como área potencial para expansión de cultivos energéticos la cifra de 200 millones de hectáreas, incluyendo la “recuperación de áreas degradadas, reconversión de pastos y ‘reforestación’ de la Amazonia con palma”. Para poner en marcha el Plan, se tiene que construir una red de Alcohol-ductos, plantas de acopio, procesamiento, puertos, carreteras e hidrovías, lo que incrementará el uso de hierro proveniente de las minas del Gran Carajás, la destrucción de ecosistemas naturales y del tejido social en esta región de Amazonia, además de incrementar dramáticamente la producción de cemento y concreto, una de las industrias más energívoras.

b. De granero del mundo a refinería global. La soja transgénica en Argentina y el Cono Sur.

Transformar el paisaje del campo argentino en un monocultivo de 17 millones de hectáreas de soja transgénica sólo tomó 10 años – reemplazando la producción de cereales, carne y otros alimentos por la de sólo un commodity para la exportación, concentrada en manos de las principales trasnacionales del comercio internacional. Ahora siendo el primer exportador mundial de aceites, Argentina busca convertirse el principal proveedor para la demanda europea de biodiesel, para lo cual el gobierno argentino ya solicitó aranceles preferenciales a la Unión Europea.

La apuesta del agronegocio en la exportación de agrocombustibles ha puesto funcionar un engranaje de producción de biodiesel en asociación con capitales nacionales como Vicentín, AGD-Bunge S.A y SACEIF - Louis Dreyfus, y del sector petrolero Repsol-YPF y la nacional ENARSA que participan en proyectos de entre 25 y 30 millones de dólares.

Para suplir la demanda de exportación de aceites y granos, sumada ahora a la del biodiesel de soja, y además cumplir los requerimientos internos legislados de de incorporar obligatoriamente un porcentaje de agrocombustible en los combustibles fósiles –se programa la deforestación de entre 4 y 7 millones más de hectáreas de bosques nativos para avanzar con la frontera sojera, el desplazamiento de montes frutales y de cultivo de hortalizas y los cultivos bajo riego en la Patagonia, así como la importación de 3 a 4 millones de toneladas de soja provenientes de Bolivia, Brasil, y especialmente Paraguay.

Por ello se ha acelerado la concreción de la hidrovía Paraguay-Paraná, vía de escurrimiento de los commodities producidos en territorio interior hasta el puerto de Rosario (y zona de refinamiento), proyectada en el marco de la Iniciativa para la Integración de la Infraestructura Sudamericana (IIRSA) que incluye la construcción de carreteras, hidrovías y represas, con inversiones significantes del sector privado en la extracción de recursos y la agroindustria.

Esta es la columna vertebral que consolida el proyecto político y territorial del agronegocio en el Cono Sur, que trasciende las fronteras de los Estados para establecer un área de expansión de la producción y movimiento de commodities para exportar al norte, que se consolida con la producción de agrocombustibles.

c. La amarga historia del aceite de palma. Las plantaciones de palma en ecosistemas naturales y territorios indígenas

Al momento, el 88% del comercio mundial de aceite de palma proviene de Malasia e Indonesia, lo que obedece a una expansión del área cubierta por este cultivo. En los últimos 20 años la producción se duplicó en Malasia y se triplicó en Indonesia, a costa de la desaparición de sus bosques tropicales. El crecimiento de las plantaciones de palma en Malasia e Indonesia responden a la creciente demanda de aceite de palma especialmente para el mercado europeo.

A pesar de la defensa oficial de que la industria de la palma aceitera no ha producido deforestación, el gobierno de Sarawak, en el Borneo malayo, aceptó que se ha concesionado 2,4 millones de hectáreas de bosques para la industria palmícola y de la pulpa y papel, extensión que puede llegar a 3 millones de hectáreas ha finales del 2007, que constituyen una cuarta parte del área total de Sarawak. Las plantaciones industriales de palma con frecuencia son propiedad de empresas madereras transnacionales, las que una vez que deforestan una zona para la extracción de la madera, la siembran con monocultivos de palma, transformando el bosque en aceite.

Aun cuando estos bosques son reclamados por comunidades indígenas como parte de sus territorios tradicionales, y aunque muchas de estas comunidades dependen de los recursos del bosque para su subsistencia, ni la legislación ni el gobierno han reconocido totalmente sus derecho consuetudinario; y a pesar de sus continuas protestas, las plantaciones de palma continúan extendiéndose.

El aceite de palma se perfila como la principal fuente para la producción de biodiesel a costa de ecosistemas naturales y territorios indígenas también en otros países tropicales, constituyendo el caso más preocupante el de Colombia, donde las plantaciones de palma se extienden de la mano del paramilitarismo, desplazando a poblaciones enteras.

La expansión de los cultivos de palma en Malasia, Indonesia y otros países tropicales, responden al aumento en la demanda de aceite de palma en el mercado mundial, sobre todo luego del incremento en las metas que se han impuesto en la Unión Europea para reemplazar combustibles fósiles por agrocombustibles.

d. África: en la vía hacia un mayor saqueo

Del colosal número de actores relacionados con la promoción de agrocombustibles en África, Brasil se perfila como el más estratégico y rapaz.

El Brasil se ha volcado hacia el continente africano, al que lo ve como una pieza importante en sus ambiciones de crear un mercado global para el etanol. Este país ha logrado de manera exitosa obtener el apoyo de varios países africanos, como Senegal y Benin a través de acuerdos bilaterales y trilaterales de cooperación, y se ha apuntalado en la Unión Africana, pasando por alto varias agencias de las Naciones Unidas, para asegurarse la implementación de instrumentos legales y económicos armonizados para sostener un mercado viable de agrocombustibles. A través del Foro Internacional de Biocombustibles, Brasil con sus socios China, India, Sudáfrica, los Estados Unidos y la Unión Europea, promoverán agresivamente un mercado internacional para agrocombustibles, sin importarles el resto del mundo, y así asegurar que el etanol se convierta en una commodity en el mercado internacional. Para conseguir estos objetivos, las plantaciones de caña, silenciosas y estériles proliferarán en los suelos africanos, otrora dedicados al cultivo de alimentos.

En este contexto, varias transnacionales de la energía como BP, D1 Engrasa y Petrobras han iniciado proyectos de agrocombustibles en África, para producir de manera indiscriminada ya sea combustibles fósiles o agrocombustibles, en países tan pequeños como Suazilandia o potencias petroleras como Nigeria. Estas empresas depredadoras sostendrán cualquier aventura, a cualquier costo social y ambiental, si es que esto va a contribuir a su estrategia global de prolongar el pico del petróleo. Países como Ghana, las grtandes plantaciones de Jatropha están fuertemente relacionadas con el mercado de carbono en el marco del Protocolo de Kyoto.

El escenario político en África está listo para la producción a gran escala de agrocombustibles. Mozambique ha sido elegido como el líder en el Sur de África. A través de la empresa petrolera estatal se espera tener una inversión de 55 millones de dólares para proyectos con caña de azúcar y Jatropha, y así suplir al mercado regional e internacional de etanol y biodiesel.

MANIFIESTO POR EL DES-DESARROLLO : EL CAMINO QUE PROPONEMOS DESDE EL SUR

Los agrocombustibles y toda la generación de energía a través de la biomasa tal como viene sido promovida por gobiernos, corporaciones, agencias de ayuda, las Naciones Unidas, las instituciones financieras internacionales y demás agentes interesados en su producción a gran escala y en su comercio internacional - no cambian, sino que perpetúan el modelo de producción y consumo de la civilización moderna, urbana y industrial que ha generado inequidad, guerra, destrucción ambiental.

El ocaso de la civilización petrolera y la reproducción del capitalismo

La reproducción del estado actual de la civilización occidental depredadora, cuya forma es el neoliberalismo globalizado, tiene como base material al petróleo.

Todas las fuerzas motrices detrás de la producción, circulación y comercialización global de mercancías dependen de los hidrocarburos: la industria hidrocarburífera en si misma, la industria agroalimentaria, las compañías farmacéuticas, de fibras textiles, las industrias involucradas en la producción de detergentes, cosméticos, explosivos, celuloide, plásticos en general, materiales de construcción, embalajes, electrodomésticos, etc. De la misma forma, el transporte global de personas y materiales, la movilidad y velocidad con la cual los trabajadores y los productos se mueven y son intercambiados alrededor del globo, dependen también de los combustibles fósiles, ya sea por la dependencia que se ha creado en torno al automóvil; por la manera como se han diseñado, construido y expandido las megalópolis, o por la forma de ocupación del espacio urbano y otros territorios.

La demanda de energía y materias primas para suprimir y mantener el patrón de vida de las sociedades del Norte, traducida cotidianamente en alimentación, vestuario, vivienda y movilidad es la que da carne y cuerpo al ideal universal de estilo de vida, bienestar y “progreso” promovidos agresivamente a través de la globalización como un patrón universal para la humanidad.

En el actual paradigma de “crecimiento” orientado hacia la integración del mercado y el comercio global, los agrocombustibles son impulsados como substitutos paulatinos del petróleo para mantener patrones ambientalmente insustentables de producción y consumo del Norte. Frente a eso, entendimos que el estilo de vida promovido por el Norte y las elites del Sur y que alcanza su máxima expresión en el llamado “American way of life” es lo que debe ser transformado. Son los principales consumidores de energía, Estados Unidos junto con Europa Occidental y a quienes se suman hoy, China y las elites minoritarias del Sur.

China, la gran fábrica del mundo, reproduce el modelo de producción y consumo creado por el Norte, al tiempo que abastece al mercado mundial, sobretodo del Norte, con todo lo que éste consume. Entendemos que el modelo de crecimiento de China no es un modelo para el Sur.

La materialidad de todo lo que hace parte de la vida cotidiana de los países “desarrollados”, promocionados al mundo como modelo universal de bienestar material, calidad de vida y progreso humano, depende enteramente de una demanda energética y ecológica irracional, construida históricamente a través del saqueo continuo de la naturaleza y los pueblos del Sur. Para el Sur del mundo este modelo “petrolero” permitió perpetuar el intercambio desigual, la dependencia tecnológica, el endeudamiento, el empobrecimiento de los pueblos, el despojo de sus territorio y la desacralización de sus lugares sagrados. Hemos experimentado, desde el SUR, que el patrón de vida que la minoría del Planeta disfruta, se mantiene con la explotación de la Naturaleza y el trabajo humano, para alimentar los flujos de mercancías y servicios que han causado históricamente los cambios climáticos, el calentamiento global y la dominación colonial del Norte sobre el Sur.

En síntesis: el impulso prioritario de los agrocombustibles como substitutos paulatinos del petróleo, es mantener la circulación global de mercancías y la demanda ambientalmente insustentable de energía y materias primas para promover como ideal universal el patrón de vida de las sociedades del Norte, en su lógica histórica de dependencia y explotación colonial sobre los ecosistemas y pueblos del Sur.

Nuestra respuesta a la falacia del balance energético positivo de los agrocombustibles es la verificación histórica de la devastación ecológica y social generada por la Revolución Verde – petrodependiente - y con los efectos imputados a la agricultura industrial, que ha resultado en la pérdida de 75% de la biodiversidad a lo largo del último siglo, según la FAO; además de haber promocionado la desarticulación de las agriculturas y mercados locales para imponer el sistema agroalimentario mundial a través de las corporaciones que controlan la cadena productiva con la mayor concentración de poder en el mundo – los agronegocios.

Entendemos que la única forma de superar la crisis climática y energética que amenaza definitivamente la continuidad de toda la Vida en el planeta es la superación del capitalismo.

La transición hacia una sociedad post-petrolera y un nuevo sentido del “desarrollo”, en la construcción de una Vía de superación del capitalismo, será sobre bases ecológicas; o no podrá ser.

La cuestión energética, así como la producción de alimentos, son los ejes concretos e indivisibles de resistencia y de construcción de otro proyecto de sociedad, y de nuevas relaciones de intercambio entre los pueblos de la humanidad, y de estos con la naturaleza; y así subvertir - de facto - la lógica colonial y de subordinación.

Acordamos que la lógica política de la nueva sociedad global en esta ruta de transición – y la estrategia de autonomía de los pueblos sobre sus territorios - deberá orientarse a partir de la premisa central de garantizar la Soberanía Energética en acuerdo y complementariedad con la defensa radical de la Soberanía Alimentaria.

Por lo tanto, el único debate consecuente sobre agrocombustibles debe enmarcarse en un nuevo paradigma de des-desarrollo que incluya una transformación estructural radical de toda la economía y de nuestro estilo de vida y el desmantelamiento del macro sistema energético que sustenta y garantiza el poder global.

Son ejes del des-desarrollo:

* des-urbanizar, para restituir la existencia de la población a escala humana, supliendo las necesidades en el mercado local y con fuentes de energía locales.
* des-globalizar el comercio y el transporte de mercancías, sobre todo agrícolas y alimentarias, para atacar la principal fuente de consumo de combustibles líquidos: los camiones refrigerados que transportan toda la cadena de carnes y lácteos, los aviones que transportan flores y frutas tropicales; los gigantescos navíos cerealeros movidos a diesel para llevar soja a Europa y a China, etc.; que generan un flagrante balance energético negativo, y que sostiene el discurso ilusorio del “crecimiento”.
* Des- tecnologizar la producción de alimentos, a partir de tomar a los sistemas productivos como agroecosistemas donde la biodiversidad y la nutrición adecuada de los suelos reemplacen a las tecnologías puntuales y contaminantes de derivadas del petróleo.
* des-petrolizar la economía, la mejor política contra el cambio climático es la eliminación de los combustibles fósiles, dejando el petróleo y el gas en el subsuelo. Eso no debe confundirse con soluciones ficticias como el “descarbonizar la economía” o sea, promocionar el mercado de carbono, los mecanismos de desarrollo limpio y la implementación conjunta que perpetúan el modelo petrolero destructivo, bajo la lógica del mercado.
* des-centralizar la generación y distribución de energía, a través de tecnologías que no recreen la dependencia, y que garanticen el abastecimiento de acuerdo a las necesidades de la población local, lo que se diferencia de promover la privatización de la energía, aun de fuentes “alternativas” bajo el argumento de “proveer acceso de energía para los pobres”. En otras palabras: recuperar y defender el principio de la energía como un servicio y no un negocio y una mercancía ofrecida en el mercado. En esta línea de argumentación debe construirse la Soberanía Energética.

Se trata de abrir esta agenda de debate en el seno de los sectores de “izquierda” en nuestras distintas regiones del globo, replanteando en estos términos radicales el entendido de una propuesta de enfrentamiento y superación del capitalismo en acuerdo con las contradicciones de la acumulación, en este momento histórico.

Por el rol estratégico de la región Latinoamericana en la promoción y instalación del modelo global de Agroenergía, y en vista a la Conferencia Internacional de Biocombustibles, auspiciada por la ONU, a ser realizada en Brasil en julio de 2008, reafirmamos nuestra tarea de cuestionar entre los gobiernos promotores del “Socialismo del Siglo XXI” cual será el modelo energético que sustentará esta propuesta, sin aceptar cooptaciones nacionales al modelo propuesto por el capital.

Para que esta visión sea el fundamento de un programa político de la era post-petrolera, los abajo firmantes nos comprometemos a replantear nuestros posicionamientos - sin concesiones – como lo impone la radicalidad de la crisis ecológica y en

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Carta del Presidente Evo Morales a los representantes miembros de la Naciones Unidas sobre el medio ambiente

Respetemos a nuestra Madre Tierra

Evo Morales Ayma

Hermanas y hermanos Presidentes y Jefes de Estado de las Naciones Unidas: El mundo tiene fiebre por el cambio climático y la enfermedad se llama modelo de desarrollo capitalista. Mientras en 10.000 años la variación de dióxido de carbono (CO2) en el planeta fue de aproximadamente un 10 por ciento, en los últimos 200 años de desarrollo industrial, el incremento en las emisiones de carbono ha sido de un 30 por ciento. Desde 1860, Europa y Norteamérica han contribuido con el 70 por ciento de las emisiones de CO2. El 2005 ha sido el año más caluroso de los últimos mil años en el planeta.

Diferentes investigaciones demuestran que de 40.170 especies vivas estudiadas, 16.119 están en peligro de extinción. Un pájaro de cada ocho puede desaparecer para siempre. Un mamífero de cada cuatro está amenazado. Un anfibio de cada tres puede dejar de existir. Ocho crustáceos de cada diez y tres insectos de cada cuatro están en riesgo de extinguirse. Vivimos la sexta crisis de extinción de especies vivas en la historia del planeta Tierra y, en esta ocasión, la tasa de extinción es 100 veces más acelerada que en los tiempos geológicos.

Ante este futuro sombrío, los intereses transnacionales proponen seguir como antes y pintar la máquina de verde, es decir, seguir con el crecimiento y el consumismo irracional y desigual generando más y más ganancias sin darse cuenta de que actualmente estamos consumiendo en un año lo que el planeta produce en un año y tres meses. Ante esta realidad, la solución no puede ser el maquillaje ambiental.

Para mitigar los impactos del cambio climático leo en informes del Banco Mundial que hay que acabar con los subsidios a los hidrocarburos, ponerle precio al agua y promover la inversión privada en los sectores de energía limpia. Nuevamente quieren aplicar las recetas de mercado y privatización para hacer negocios con la propia enfermedad que estas políticas producen. Lo mismo sucede en el caso de los biocombustibles puesto que para producir un litro de etanol se requieren 12 litros de agua. De igual forma, para procesar una tonelada de agrocombustibles se necesita, en promedio, una hectárea de tierra.

Ante esta situación, nosotros -los pueblos indígenas y los habitantes humildes y honestos de este planeta- creemos que ha llegado la hora de hacer un alto para reencontranos con nuestras raíces, con el respeto a la madre tierra; con la Pachamama como la llamamos en los Andes. Hoy, los pueblos indígenas de América Latina y del mundo estamos convocados por la historia para convertirnos en la vanguardia de la defensa de la naturaleza y de la vida.

Estoy convencido de que la Declaración de las Naciones Unidas sobre los Derechos de los Pueblos Indígenas, aprobada recientemente después de tantos años de lucha, tiene que pasar del papel a la realidad para que nuestros conocimientos y nuestra participación nos ayuden a construir un nuevo futuro de esperanza para todos. Quién sino los pueblos indígenas podemos señalar el rumbo de la humanidad para la preservación de la naturaleza, de los recursos naturales y de los territorios que habitamos ancestralmente.

Necesitamos un golpe de timón de fondo y a nivel mundial para dejar de ser los condenados de la tierra. Los países del norte tienen que reducir sus emisiones de carbono entre un 60 y un 80 por ciento si queremos evitar que la temperatura de la tierra suba más de 2 grados en lo que queda de siglo provocando que el calentamiento global alcance proporciones catastróficas para la vida y la naturaleza.

Tenemos que crear una Organización Mundial del Medioambiente con fuerza vinculante, y disciplinar a la Organización Mundial del Comercio empeñada en llevarnos a la barbarie. Ya no podemos seguir hablando de crecimiento del Producto Bruto Nacional sin tomar en cuenta la destrucción y el derroche de los recursos naturales. Tenemos que adoptar un indicador que permita considerar, de manera combinada, el Índice de Desarrollo Humano y la Huella Ecológica para medir nuestra situación medioambiental.

Hay que aplicar fuertes impuestos a la superconcentración de la riqueza y adoptar mecanismos efectivos para su redistribución equitativa. No es posible que tres familias tengan ingresos superiores al PIB conjunto de los 48 países más pobres. No podemos hablar de equidad y justicia social mientras continúe esta si