Subúrbios chegam ao centro de Paris
O governo anuncia medidas contra os bandos de jovens que vão à capital demonstrar sua revolta
J. M. Martí Font
Em Paris
Em breve fará dois anos a rebelião das periferias, quando durante semanas os bairros mais deprimidos das grandes cidades francesas se incendiaram. Um episódio que pôs em evidência as fraturas que atravessam a sociedade, mas que paradoxalmente foi sofrido pelos próprios habitantes desses bairros e, com raras exceções, poupou os centros urbanos e as áreas abastadas.
Agora os bandos das periferias do departamento de Seine-Saint-Denis, os jovens descontrolados dos subúrbios, chegaram ao centro de Paris. Desde meados do verão os bandos dos bairros vizinhos manifestam sua revolta na capital. E não só eles. Dos próprios bairros parisienses saem grupos aparentemente organizados, com nomes que lembram os bandos dos guetos das cidades americanas, e que se encontram em lugares centrais como a Praça Pigalle, que abriga o famoso cabaré Moulin Rouge, para fazer baderna.
Christophe Simon/AFP - 5.nov.2005
Policial observa carro incendiado por manifestantes na França
A ministra do Interior, Michèle Alliot-Marie, interveio rapidamente. Na quinta-feira reuniu os prefeitos de polícia de todos os departamentos da região de Île de France, que inclui Paris e toda a sua coroa, para analisar os casos e adotar medidas. Os serviços de informação da polícia, conhecidos pelas iniciais RG, detectaram que no primeiro semestre deste ano ocorreram 129 delitos relacionados aos bandos juvenis, um aumento de 29% em relação ao mesmo período do ano passado.
Esse documento, revelado na quarta-feira pelo jornal “Le Monde”, afirma que “assiste-se a uma volta perceptível do fenômeno dos bandos étnicos, compostos na maioria por indivíduos de origem subsaariana, que se atribuem nomes, códigos ou sinais de vestimenta inspirados nos grupos negros americanos”. Os serviços policiais temem que esteja ocorrendo a conjunção de dois fenômenos diferentes: o fechamento das comunidades de origem imigrante em torno de si mesmas e a reativação dos tradicionais bandos de delinqüentes que atuam nas periferias.
Os confrontos entre bandos, destaca o relatório, estão estreitamente ligados às rivalidades territoriais e à criminalidade, como o controle de uma área propícia ao tráfico de drogas. A polícia também assinala sua preocupação pela emergência de uma “violência tribal sem concessões”. “É um fenômeno que conhecemos há tempo, mas que retomou força”, disse Alliot-Marie, tranqüilizadora. A ministra do Interior anunciou a criação de uma célula especial da polícia concentrada na violência juvenil e explicou que as forças da ordem estudarão em conjunto os vídeos de vigilância das estações de trens próximas e das parisienses para identificar os membros dos bandos.
Laurent Le Mesle, o procurador-geral de Paris, anunciou ontem que serão realizados “controles de identidade” não só nas estações de chegada, no centro, como nas estações de saída, “selecionadas e em lugares precisos”. Le Mesle revelou que parte do problema é que o controle exercido sobre os jovens que fazem parte desses bandos corresponde aos prefeitos de cada departamento, e que desaparece quando sai de sua alçada. As sanções, segundo ele, não serão apenas mais duras como serão “imediatas”.
Para isso, os indivíduos que forem acusados serão julgados pelo tribunal de Paris e não pelo de seu domicílio. Os sociólogos haviam anunciado há tempo que isso aconteceria. Para surpresa de muitos, a rebelião no outono de 2005 não chegou a Paris. “As linhas de periferia deixaram os Campos Elíseos a apenas dez minutos dos subúrbios”, indicou um jovem entrevistado por uma emissora de rádio. Mas a verdadeira pista de aterrissagem é a Gare du Nord, que além disso se situa em pleno 9º distrito, ao lado de Pigalle, que é onde está ocorrendo a maioria dos incidentes.
Mas alguns depoimentos de jovens que admitem fazer parte desses bandos desmentem esse quadro tão extremo. Ontem no jornal “Le Parisien” um jovem de Chénay, en Seine-Saint-Denis, reconheceu sua afiliação a um dos bandos em questão, mas negou que tivesse alguma intenção de matar. “Não saímos para matar, só para ferir”, ele disse. No entanto, as agressões com armas brancas começam a ser comuns.
Para o sociólogo Marwan Mohamed, os bandos sempre existiram em Paris. “Nos anos 60 eram os blusões pretos; nos 90, os zulus; e a Gare du Nord sempre foi um território sob tensão”, explicou. Na opinião dele, o componente étnico dos bandos reflete simplesmente “a cor dos bairros de onde procedem e não constitui um elemento especial de coesão”.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
El País
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