Arquivo de Outubro de 2007

A Escola e a Sala de Aula

FLORESTAN FERNANDES

Em vista da próxima elaboração da nova lei de diretrizes e bases de educação nacional, é fundamental que se revejam as práticas imperantes em nosso ensino, especialmente no primeiro e segundo graus. Começamos por importar idéias francesas e alemãs, no fim do século passado; tentamos depois, também, “reproduzir” o que nos pareceu ser o ensino primário norte-americano e o enciclopedismo iluminista de segundo grau francês. Em ambas imitações falhamos. As instituições importadas não podem ser redefinidas, em seu significado, estruturas e funções fora do seu contexto psicossocial e cultural. Empobrecemos as instituições, as práticas que elas engendram e o seu rendimento pedagógico. O meio brasileiro revelou-se muito árido, a mentalidade reinante demasiado tosca – autoritária ao extremo -, reduzindo o professor aos papéis mínimos de transmissor passivo de “saber” importado e os alunos àquilo que os filósofos e os educadores críticos chamaram, negando-a, a célebre “página em branco”. Em alguns estados e em certas cidades, conseguiu-se um padrão de qualidade sofrível, mas às custas de uma relação repressiva entre professores e alunos que deformava ambos. Afastava-se a sala de aula do núcleo de grande experiência pedagógica. Aproximava-se a escola mais das instituições punitivas e carcerárias, que do cerne elementar de uma pedagogia do aprender fazendo. No grupo escolar em que estudei, por três anos, antes do fim da década de 30, a vice-diretora ficou uma vez com a orelha de um aluno nas próprias mãos. Não previra que suas unhas compridas faziam um corte de navalha… Em outros lugares, nem essa violência repressiva de uma escolarização pobre, autoritária e fundada em uma hierarquia de idade e de classe devastadora, mas só o crescimento da ignorância e da brutalidade que privava as gerações ascendentes da aprendizagem sistemática.

Ocorreram mudanças. Mas foram poucas. O que esperar do ensino em uma sociedade na qual a imensa maioria era excluída da educação escolarizada, na qual a mãe de um aluno procura o diretor, como fez dona Maria Fernandes, para recomendar: “Senhor, faça dele um homem e castigue-o como se fosse o seu pai”? depois de mais de cinqüenta anos, as coisas se alteraram. Mas a “revolução na escola e pela escola” ficou nas utopias dos pioneiros da escola nova e dos pedagogos que os sucederam. A escola – e por meio dela a sala de aula – continuaram presas a uma concepção predatória da pessoa que é mandada. A burocratização criou ardis e abismos imprevisíveis e permanecemos com a carência de uma filosofia de educação democrática, que floresça de baixo para cima (da sala de aula para a escola e desta para a sociedade e para as terríveis “autoridades do ensino”), e de dentro para fora (da sala de aula e da escola para a comunidade e para a sociedade civil como um todo).

O importante, hoje, não é o que a nova lei poderá fazer para acabar com os vestígios de uma pedagogia às avessas, pervertida. É o que ela poderá ser para gerar, a partir de nossos dias, uma educação escolarizada fincada na escola e nucleada na sala de aula. Não basta remover os “excessos” de centralização, que substituem a relação pedagógica pela relação de poder. É preciso construir uma escola auto-suficiente e autônoma, capaz de crescer por seus próprios dinamismos. Conferir à sala de aula a capacidade de operar como o experimentum crucis da prática escolar humanizada, de liberação do oprimido, de descolonização das mentes e corações dos professores e alunos, de integração de todos nas correntes críticas de vitalização da comunidade escolar e de transformação do meio social ambiente.

A nossa pedagogia ficou presa ao pseudolegalismo de uma educação subcapitalista. A lei deu continuidade à dominação férrea das elites dos senhores de escravos – mais tarde, dos fazendeiros burgueses, dos comerciantes dos grandes negócios de exportação… Ora, essa não é a função necessária da lei. A hegemonia pré-burguesa na escola passou pela instrumentalização dos bacharéis, pela burocratização que chegou até a incluir o presidente da República na nomeação de “reitores eleitos” (Safa!) e pela redução dos docentes à condição de servos do poder, de agentes da dominação de classe verdadeiramente cega dos de cima.

A lei, se a sociedade civil se civiliza e se democratiza, tem por fim concorrer para a extinção do servilismo, dos privilégios e do clientelismo bárbaro, que não reconhece nem respeita limites. Até o voto converteu-se, em muitos lugares, em mercadoria! O “dono” do poder compra o voto e com ele elabora a democracia à sua imagem.

Por isso, a sala de aula fica na raiz da revolução social democrática: ou ela forma o homem livre ou ficaremos entregues, de forma mistificadora, a um antigo regime que possui artes para readaptar-se continuamente às transformações da economia, da sociedade e da cultura. Dissociar a sala de aula de seu empobrecimento e deterioração brutais á a saída para gerar a escola de novo tipo que, por sua vez, desencadeará e aprofundará a renovação de mentalidade que carecem os de baixo e os de cima.

Deu-se muita importância ao tope, aos organismos do aparato do Estado (o ministério e as secretarias de educação; os conselhos federal e estaduais de educação etc.), ignorando-se que esse Estado se punha a serviço de causas estreitas, mais empenhado na “defesa da ordem” (e dos privilégios que ela atribuiu a ralas minorias), que com a educação. Devemos dar um giro de 360 graus e situarmos o foco vital onde ele deverá estar: na sala de aula, nas relações entre professores e alunos e no influxo que tal situação provocará sobre a transformação da sociedade para a escola (e vice-versa).

Revista Espaço Acadêmico
http://www.espacoacademico.com.br/

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Freud e a felicidade impossível

Voltaire Schilling

Num ensaio sombrio sobre os destinos da humanidade, intitulado O mal-estar na cultura, aparecido em 1929, Freud teceu várias considerações sobre sua percepção do significado da cultura para a humanidade. Entendeu-a como uma prodigiosa sublimação na medida em que ela era produto da impossibilidade da realização dos desejos inconscientes mais profundos de todos nós como também uma eficaz barreira para impedir o afloramento das tendências agressivas dos seres humanos.
Mesmo a civilização que nos cercava, aparentando ser sólida, via-se constantemente à beira de uma desintegração devido a hostilidade primordial que provoca um perpétuo conflito entre os homens. O mundo caótico, primitivo e bárbaro dos instintos, tinha assim que ser domado e canalizado por uma força cultural que submetesse o homem a um convívio social mais pacífico e produtivo.

O prêmio Goethe

Por maior que fosse a fama do doutor Freud no mundo de então, ele não era bem visto nem na sua Áustria natal nem na Alemanha. Os nacionalistas germanistas acusavam-no de difundir uma “ciência judaica” - a psicanálise - que nada tinha a haver com a cultura autenticamente alemã. Os sacerdotes e pastores viam-no como a materialização de uma heresia secular que retirava da religião qualquer evidencia de divindade, além de claramente abolir com a idéia do pecado, peça central de toda a ética religiosa. Mesmo seus colegas psiquiatras duvidavam da eficácia do “tratamento do divã”, das sucessivas sessões de terapia, para alcançar a cura das neuroses e outras psicopatias. Todavia o sucesso dele era enorme.

Quando o mundo racionalista-positivista da Europa do século XIX desabou no transcorrer da Grande Guerra, de 1914-18, o prestígio dele começou a ascender de um modo inevitável. A confiança que a elite européia tinha na eficácia dos seus valores e dos seus preceitos éticos havia sido fortemente abalada pelo morticínio da guerra das trincheiras e pelo assombroso número de vítimas que causou. Os velhos impérios abalados foram soterrados por transformações bruscas ou violentas revoluções (as principias dinastias reinantes na Alemanha, Áustria, Hungria e Rússia, haviam sido derrubadas). Repetindo-se Marshall Bergman “tudo que era sólido desmanchou-se no ar”. Até a corrente dos artistas surrealistas acusou a forte influência do pensamento dele.

Um tanto como para compensá-lo pela desatenção e até hostilidade do mundo científico austro-alemão, um influente grupo de escritores e intelectuais lançou-se numa aberta campanha para que ele recebesse o Premio Nobel de 1928, mesmo que fosse o de Literatura. Entre eles estavam Alfred Döblin*, Jacob Wassermann, Bertrand Russell, A.S. Neill, Lytton Strachey, Julian Huxley, Knut Hamsun e Thomas Mann. Os acadêmicos suecos, entretanto, preferiram entregar o prêmio a uma obscura escritora norueguesa, Sigrid Undset (1882-1949), especialista em sagas medievais escandinavas. Sem desanimar, foram à forra, indicando Freud para obter o maior galardão das letras e das ciências germânicas: o Prêmio Goethe, recém estipulado pela prefeitura da cidade de Frankfurt, berço do grande poeta.

Finalmente, em agosto de 1930, deu-se a cerimônia da premiação. Por motivo de saúde, afinal ele já estava com 74 anos de idade, se fez representar por sua filha Anna Freud que teve como missão ler o discurso de agradecimento. Evidentemente que o velho sábio sentiu-se particularmente honrado com aquilo, pois foi o quarto grande nome da cultura alemã a receber aqueles louros. E, como a historia posterior iria demonstrar, o mais universalmente reconhecido entre todos.

*O romancista Alfred Döblin, famoso autor de “Berlin Alexanderplast”, o principal mentor de Freud nesta questão do premio, num artigo da época, assinalou que tanto Goethe como Freud tinham em comum a intenção de conseguir harmonizar o “caótico Dionísio” com a grandeza apolínea, tendo ambos maneiras muito similares de entender a existência humana. Concluiu prevendo que o impacto de Freud na sua época seria idêntico ao de Goethe nos seus anos de Weimar.

Freud, um outro Fausto?

Havia um laço profundamente afetivo naquela cerimônia ligando Freud a Goethe. Como confessou certa vez, a decisão dele em vir a ser um cientista, um estudioso da natureza, surgiu-lhe ainda muito jovem ao conhecer o ensaio do poeta intitulado A Natureza, publicado em 1780, na qual Goethe pregava a necessidade da total imersão do pesquisador no objeto a ser estudado e não o distanciamento objetivo: “Natureza! Nós estamos cercados e abraçados por ela, impotentes em nos separarmos dela, e por igual impotentes em penetrar mais profundamente além dela” - trecho de Aforismos sobre a natureza). Recomendava seguir a intuição, associando-a a observação, pois somente desse modo o homem poderia ambicionar penetrar nos mistérios da Natureza.

Portanto, Goethe foi o primordial mentor intelectual de Freud, e durante toda a sua vida pautou suas reflexões ou conclusões referindo-se a uma ou outra passagem de uma das tantas obras do poeta. A tal ponto que muitos admiradores da prosa de Freud consideram-no como o mais lídimo sucessor de Goethe dentro da cultura alemã (herança que Thomas Mann pretendia para si), seguidor fiel do compromisso do poeta com a A verdade, a ciência e a razão, sem esquecer-se de mencionar o apreço que ambos tinham pela Itália.

Aliás, quando Freud esteve de passagem por Veneza, conforme escreveu a seu confidente, o doutor Fliess, em carta de 3 de outubro de 1897, lembrou-se de que Goethe, quando também andara por lá em 1786, encontrara ao acaso uma cabeça de carneiro o que veio a inspira-lo num estudo de anatomia, Freud queixou-se ao amigo que não encontrara “nenhuma cabeça de carneiro” que provocasse nele efeito similar, um salto que lhe permitisse a descoberta de algo científico que o celebrizasse. Sentiu-se isso sim um “cabeça-de-carneiro”, um “cabeça-dura”, que nada tirara proveito da incursão.

Todavia, nada custa especular que de fato a maior influencia sobre o psicanalista não teria sido propriamente Goethe, mas sim o mais famoso personagem criado pelo poeta, o Doutor Fausto. Quem melhor poderia servir-lhe como modelo senão que aquele estranho alquimista e homem de ciência? Alguém que, insatisfeito com os estudos até então realizados ao longo de uma vida trancada em laboratório, cede à tentação de, pelas mãos de Mefistófeles, seguir atrás das pegadas de outro mundo: regido pelas forças irracionais e sensoriais, arredio aos costumes, um continente embaçado, oculto aos olhos das vistas e mesmo da consciência humana, dominado pelas forças primais dos instintos e das assombrações.

O fracasso do Princípio do prazer

Um pouco antes de publicar O mal-estar na cultura, Freud seguindo a tradição iluminista e científica do seu tempo, havia investido contra religião num famoso ensaio intitulado O futuro de uma ilusão, aparecido em 1927, onde reiterou sua crítica à atitude infantil da humanidade, pondo-se voluntariamente submissa a um Pai Bondoso que lá do Céu vigiaria o bem-estar e a bem-aventurança dos seus filhos na Terra.

Irritava-o o fato de verificar que a grande maioria não conseguia superar aquela situação de total dependência a um patriarca “grandiosamente exaltado”, que nem sequer tinha um plano de fazer o homem feliz. Foi exatamente sobre isso, sobre a questão da felicidade, que ele veio a concentrar sua atenção no ensaio seguinte, o já citado O mal-estar da cultura.

Freud procura afastar qualquer expectativa de que o Princípio do prazer, mola impulsionadora do comportamento humano, possa vir a trazer a felicidade. Ao contrário, a idéia que podemos ser felizes tinha pela frente contra si a própria realidade circundante que, ao contrário do que podia se ambicionar, somente nos conduzia ao sofrimento.

A começar pelo corpo, condenado desde sempre a uma inapelável decadência e à aniquilação, na maioria dos casos ele somente provoca dor e angústia.

O mundo exterior também foi alvo. Como imaginar almejar alegrias em meio a tantas desgraças naturais, ao deslocamento de forças onipotentes e implacáveis que esmagam cidades, afundam navios, sufocam os homens?

Mas o pior disso tudo, desse elenco de impedimentos para se vir a atingir a felicidade, são os outros. Como aqueles que são próximos fazem sofrer! Quantos infringem humilhações, quantos deles frustram esperanças mais triviais, quantos traem ou enganam?

Exatamente em vista dessa impossibilidade de encontrar a satisfação determinada pelo Princípio do prazer, é que faz a humanidade procurar derivativos, uma desatinada busca de independência do Mundo Exterior. Fosse como fosse, o projeto existencial de cada um nós - a busca da felicidade - conduzia a um inapelável fracasso.

Estratégias de fuga da realidade

Se o “princípio da realidade” é brutal, bloqueando o Princípio do prazer, isso não evita que se procurem alternativas que levam a contornar o problema, a uma espécie de fuga da realidade. Alguns tentam a arte como uma “técnica de vida”. Mas ela não passa de uma “ligeira narcose”, um “refugio fugaz” frente aos dissabores da vida e evidentemente não faz esquecer a miséria real.
Mesmo que busque a beleza (em formas ou gesto humanos), que se deixem levar por uma orientação estética, isso pouco pode proteger dos sofrimentos iminentes, pois não passa de um estratagema “ligeiramente embriagador”, que na maioria dos casos somente gera narcisismo.

Outros optam por uma existência de eremita, criando um mundo somente seu, mas cujo recolhimento e afastamento de tudo geralmente provocam uma espécie de demência ou acentuada paranóia que faz com que substituam a quimera pela realidade. É certo que muitos ainda preferem uma solução coletiva que os proteja da dor e do sofrimento aderindo à idéia de uma “transformação delirante da realidade” (que pode dar-se pela adesão a uma religião como a uma ideologia), que não diferente do demais está por igual condenada ao fracasso.

Por último resta o amor como a grande válvula de escape à arredia realidade, uma fantasia sensual que provocaria um êxtase de grande prazer. Todavia, como alguém pode esperar encontrar a felicidade justamente com o menos confiável dos deuses que é Eros, responsável pelos transtornos de juízo dos deuses e dos homens?

Pois não advém justamente do amor o maior número de tristezas e desatinos que se abatem sobre todos? Por conseguinte, tentar alcançar a felicidade é algo inatingível, é um propósito irrealizável.

O que é possível ser modestamente atingido é uma “felicidade minguada”, que termina dependendo da “economia libidinosa” de cada um. Freud concluiu suas observações afirmando que mesmo sabendo-se disso tudo, da inviabilidade dos objetivos do Princípio do prazer, não se deve e nem pode abandonar os esforços em vir a concretizá-los.

De algum modo todos devem se empenhar para que ocorra a sua realização. Na sentença final, que encerra o ensaio, concluiu que: “Nossos contemporâneos chegaram a tal ponto no domínio das forças elementares que, com sua ajuda, seria fácil exterminarem-se mutuamente até o último homem. Tanto sabem que aí reside boa parte da sua agitação e infelicidade e angústia. Só nos resta esperar que outra das potências celestes, o eterno Eros, mobilize suas forças para vencer a luta contra seu não menos imortal adversário (o demônio da autodestruição). Mas quem pode prever o desenlace final?”

Bibliografia

Freud, Sigmund - Elemente der Psychoanalyse. in Werkausgabe in Zwei Banden, Band 1 . Frankfurt: Fischer Verlag GmbH, 1978.

Freud, Sigmund - El Malestar en la Cultura. Obras Completas, vol XIX. Buenos Aires: Santiago Rueda Editor, 1955.

Freud, Sigmund - A Correspondência completa para Wilhelm Fliess. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1986.

Gay, Peter - Freud, uma vida para o nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

Terra Educação - Voltaire Schilling
http://educaterra.terra.com.br/voltaire/

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De onde vem a areia das praias

Elementos químicos radioativos recontam a história da formação do litoral sudeste

Giovana Girardi

Quem vê uma montanha de areia em frente a um prédio em construção não imagina que ela esconde segredos de uma época em que as praias começavam a ser formadas por sedimentos arrastados ao sabor da flutuação do nível do mar. É a composição da areia que conta o enredo e o tempo dessa história, como vem descobrindo o físico Roberto Meigikos dos Anjos, da Universidade Federal Fluminense (UFF). Paulistano formado em todos os estágios de graduação na Universidade de São Paulo (USP), Meigikos trocou os laboratórios da capital paulista pela praia fluminense. Em Niterói, seu trabalho começou com a medição da radioatividade natural da areia das praias e avaliação do risco de se usar essa areia na construção civil. Mais recentemente ele e sua equipe passaram a escrever uma espécie de história da formação do litoral brasileiro.

Algumas partes da costa norte do Rio apresentam uma concentração de elementos químicos radioativos que podem expor a população a uma dose de radiação natural de três a cinco vezes superior à média mundial, efeito que os pesquisadores costumam chamar de anomalia. O contato ocasional com essa radiação não chega a ser prejudicial para quem freqüenta a praia, mas se essa areia for usada em grande quantidade na construção de uma casa, por exemplo, pode trazer problemas de saúde para seus moradores. É que as pessoas ficam expostas permanentemente à radiação emitida pelos elementos enclausurados nas paredes. Intrigado com o nível de radiação detectado na areia de praias como Guaxindiba, no município de São Francisco de Itabapoana, Meigikos resolveu analisar outros pontos do litoral. Em diversas excursões, muitas vezes usando o seu próprio carro, ele e seus alunos recolheram amostras de areia de 50 praias de um trecho da costa que vai do norte do Espírito Santo ao sul de São Paulo. O alvo então já não eram mais as anomalias propriamente ditas, mas descobrir as origens daqueles sedimentos e os mecanismos que os transportaram até ali.

Estudando as correlações entre os elementos químicos radioativos tório, urânio e potássio, os pesquisadores conseguem traçar as propriedades mineralógicas da areia da praia, estimar o tipo de formação rochosa que a originou e dizer se esses sedimentos chegaram ali por ação dos ventos, dos rios ou arrastados pelas águas do oceano. Também permite avaliar se os sedimentos que hoje se depositam na orla marítima permaneceram muito tempo em ambientes terrestres ou ficaram submersos em águas profundas ou rasas. É uma informação relevante, uma vez que, no caso brasileiro, as flutuações do nível do mar foram importantes para moldar as planícies costeiras. Aqui as praias começaram a se formar nos últimos 18 mil anos – durante o período geológico Quaternário – e ainda hoje continuam em transformação. Durante esse período houve uma drástica variação no nível do mar, que ora expôs grandes áreas da plataforma continental, ora as deixou submersas. “Esse sobe-e-desce fez o oceano funcionar como um filtro, reprocessando os sedimentos que originam a areia das praias”, conta Meigikos.

De modo geral, a areia contém minerais leves, que se espalham nas águas mais superficiais, e pesados, que se concentram no fundo do oceano. As ondas e as correntes marítimas, porém, se encarregaram de reunir em algumas de nossas praias os minerais mais pesados – e também mais interessantes economicamente –, como ilmenita e rutilo, usados para a produção de pigmentos; o zircônio, que abastece a indústria siderúrgica; e a monazita, empregada na confecção de catalisadores. Esses minerais mais pesados contêm altas concentrações de tório e urânio, ao passo que os mais leves, como o quartzo e o feldspato, apresentam alto nível de potássio.
Na praia, todos esses minérios estão misturados. A cor da areia costuma ajudar a identificá-los – as mais escuras, num tom entre o vermelho e o preto, sinalizam maior presença de elementos pesados, enquanto a areia clarinha representa elementos mais leves. Só que dizer o que veio de onde não é tão simples assim. É aí que a técnica de radiometria de Meigikos entra em ação porque a identificação dos elementos radioativos ajuda a determinar o tipo de rocha que originou esses sedimentos.

Depois de analisar a areia de 50 praias, o grupo da UFF calculou a razão entre as concentrações dos elementos tório e urânio e entre tório e potássio das amostras. A primeira proporção ajuda a estimar os principais meios de transporte e o tempo que os sedimentos passaram debaixo d’água. Isso porque uma parte do urânio sofre oxidação e assume uma forma mais solúvel em contato com o ar – portanto, o sedimento que fica muito tempo exposto à atmosfera apresenta menor concentração de urânio –, ao passo que o tório é bastante estável.

Como conseqüência do comportamento distinto desses elementos, se a divisão de tório por urânio resultar em um número alto, é sinal de que o urânio passou muito tempo fora d’água e sofreu um intenso processo de oxidação. Meigikos avalia essa relação por meio de uma escala que vai de 0 a 7. Quando o resultado é maior que 7, significa que o sedimento passou muito tempo fora d’água, ou seja, o urânio se oxidou bastante. Entre 2 e 7, passou muito tempo em ambientes de águas rasas, como rios ou lagoas. Resultado menor que 2 indica que o sedimento passou a maior parte do tempo em águas profundas, onde o nível de oxigenação é menor.

A relação entre tório e potássio, por sua vez, permite contar outra parte da história. Quase todos os sedimentos que formam a areia da praia provêm da decomposição e da erosão das rochas ao longo de milhares de anos. O enigma, no entanto, é saber como eles chegaram à praia. Podem ter sido carregados por ventos e depositados diretamente na praia ou levados por rios até o mar, onde passaram um tempo sendo arrastados de um lado para o outro até se fixarem na praia. Os pesquisadores perceberam que, se a areia contém grande quantidade de potássio, esse sedimento provavelmente veio direto da rocha para a orla. Já se a quantidade de potássio é baixa, passou por várias outras etapas que levaram à decomposição desse elemento químico.

Praias com faixa de areia mais estreita, como as da região entre Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo, e Angra dos Reis, no sul do Rio de Janeiro, possuem nível de potássio comparável ao de rochas graníticas. Para Meigikos, é um sinal de que a areia dessa região originou-se principalmente na serra do Mar – cadeia de rochas graníticas muito antigas, formadas há mais de 500 milhões de anos – e foi carregada para a costa pelo vento. Mas há exceções. Em Caraguatatuba e Ubatuba a areia foi arrastada pelos rios e passou muito tempo submersa em águas profundas antes de se depositar nas praias.

Em áreas com faixa de areia mais larga, comuns ao norte do Rio e no Espírito Santo, o nível de potássio é consideravelmente mais baixo. A explicação é que a areia dali veio de vastos depósitos de sedimentos que se acumularam entre 65 milhões e 2 milhões de anos atrás a alguns quilômetros do litoral. Rios como o Paraíba do Sul e o Doce transportam esses sedimentos até o oceano, onde permanecem longos períodos antes de chegarem às praias.

Mais do que esclarecer pontos da história geológica, a compreensão de como se formaram as praias pode resolver dúvidas sobre como se deu sua ocupação do litoral pelos primeiros brasileiros. Compreender a variação dos níveis do mar pode ajudar a entender as condições que propiciaram ou dificultaram a instalação humana do litoral muito antes da chegada dos europeus.

Os principais registros arqueológicos da presença de gente na região são os sambaquis, montes de até 30 metros de altura formados por conchas e areia ou terra, construídos ao longo da costa pelos primeiros povos nômades a habitarem o local. Datações feitas nos sambaquis indicam que a região teria sido ocupada há no máximo 6 mil anos, a data mais aceita por arqueólogos e antropólogos. Mas estudos recentes sugerem que os sambaquis podem ter até 8 mil anos.

Os críticos alegam que ao menos duas dessas datações são questionáveis. A mais antiga atribui ao sambaqui da praia de Camboinhas, em Niterói, a idade de aproximadamente 8 mil anos. Os geomorfologistas que discordam desses números afirmam que essa região de restinga, extensa faixa de areia que avança sobre o mar, formou-se mais tarde, há 5 mil anos. A técnica de radiometria de Meigikos pode contribuir com dados que corroborem a datação de Camboinhas.

O físico também pretende reunir elementos para confirmar a idade do sambaqui de Algodão, na baía de Ribeira, em Angra dos Reis. Datações feitas em 2002 por Meigikos e Kita Macário, também da UFF, e pela arqueóloga Tania Andrade Lima, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sugerem que esse sambaqui tenha sido construído há cerca de 7,8 mil anos. A partir da análise dos elementos radioativos encontrados na areia de Ribeira, os pesquisadores esperam descobrir se a região estava ou não submersa naquele período – e, portanto, se era viável construir sambaquis ali. “Vamos usar a correlação entre tório e urânio. Se o resultado for entre 2 e 7 ou superior a 7, é possível que houvesse gente vivendo ali naquela época”, explica o físico. Caso os sedimentos sejam provenientes principalmente de águas profundas, é quase impossível que o local tenha sido ocupado por grupos humanos.

Em parceria com a arqueóloga Ângela Buarque, da UFRJ, Meigikos tenta encontrar uma resposta para outro enigma: por que algumas regiões da costa fluminense não apresentam nenhum sambaqui. “A região dos Lagos é uma das mais ricas nesses montes de conchas, comuns em Búzios, Cabo Frio, Arraial do Cabo, Saquarema. Mas não existe nenhum sambaqui em Araruama”, diz Meigikos. “Os estudiosos sempre se perguntaram por quê. Meu palpite é que essa região, por alguma condição específica da natureza, ficou muito abaixo do nível do mar durante o período em que ocorreu esse tipo de ocupação, o que pretendemos responder analisando o teor de tório e urânio das areias de lá.” Em última instância, esse estudo pode fortalecer a idéia de que o litoral centro-sul brasileiro foi colonizado muito antes do que se acredita.

Revista da FAPESP
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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Os males de sempre da América Latina

Por Daniela Estrada, da IPS

Santiago, 26/10/2007 – A pobreza em áreas urbanas que crescem sem
planejamento, a perda de biodiversidade, a degradação marinha e a
contaminação da água e do ar são alguns males que continuam afetando
a América Latina e o Caribe, segundo o Informe GEO 4. “Na América do
Sul há muito trabalho a ser feito. Temos problemas de contaminação em
cidades, disponibilidade de recursos hídricos, espécies ameaçadas,
superexploraçao de recursos marinhos e aumento das doenças
(especialmente câncer de pele) provocadas pelo desaparecimento da
camada de ozônio, que afeta muito o extremo sul” do continente, disse
à IPS o engenheiro químico chileno Héctor Jorquera.

Jorquera é um dos autores do capítulo 2, dedicado à atmosfera, do
quarto Informe Perspectivas do Meio Ambiente Mundial (GEO 4),
divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente
(Pnuma). Elabrado por 390 especialistas e revisado por outros mil em
todo o mundo, o GEO 4 descreve as mudanças produzidas desde 1987,
avalia o estado atual da atmosfera, a terra, a água e a diversidade
biológica e identifica prioridades de ação

Um problema transversal na América Latina e no Caribe, também
presente na sub-região sul-americana, é a pobreza em que se encontra
a população majoritariamente urbana, ressaltou o acadêmico da
Universidade Católica do Chile, que participou da apresentação do
informe realizada ontem em Santiago. A América Latina e o Caribe são
a região mais urbanizada do mundo em desenvolvimento. Entre 1987 e
2005 a população urbana passou de 69% para 77% do total de
habitantes. Este número chega a 87% no caso do Cone Sul. Quase 40%
das famílias urbanas estão abaixo da linha da pobreza, ou seja, vivem
com menos de US$ 2 por dia.

A condição de pobreza, que implica pior acesso à saúde, e a serviços
sanitários, como água potável, deixa a população vulnerável a todo
tipo de eventos como inundações, ondas de calor, secas, aumento da
contaminação atmosférica e transmissão de doenças infecciosas
presentes nos esgotos, disse Jorquera. O informe, cujo lema é “Meio
ambiente para o Desenvolvimento”, afirma que são coletados 81% dos
resíduos sólidos gerados nos municípios, mas apenas 23% deles recebem
tratamento adequado. Não é melhor a situação dos esgotos: apenas 14%
são tratados.

A degradação do solo afeta 15% de toda a região, 26% na Mesoamérica e
14% na América do Sul. A América Latina abriga a maior diversidade de
espécies do mundo e possui várias das maiores bacias hídricas. Seis
países – Brasil, Colômbia, Equador, México, Peru e Venezuela – são
considerados megadiversos. As ameaças a diversidade são perda de
habitat, degradação da terra, mudança de uso desta, desmatamento e
contaminação do mar, afirma o documento. Cerca de 66% da perda de
cobertura florestal mundial entre 2000 e 2005 ocorreu nesta região.

“A situação não melhorou muito em relação ao que foi diagnosticado há
vários anos. Os problemas persistem e não há uma resposta mais firme
por parte das diferentes sociedades e governos no sentido de
enfrentar a raiz dos problemas”, disse Jorquera. “Outro aspecto que
precisa ser muito reforçado na região é a disponibilidade de
informação mais detalhada sobre o que está ocorrendo, porque em
muitos lugares não sabemos o que acontece simplesmente por não
dispormos de dados”, acrescentou.

De todo modo, o informe identifica alguns progressos, como a
crescente extensão de zonas protegidas, que cobrem 10,5% de todo o
território da América Latina e do Caribe, com maior proporção na
América do Sul (10,6%). Jorquera também destaca que melhorou a
qualidade de alguns combustíveis e sistemas de transporte e que
existe maior conscientização quanto à agenda ambiental na opinião
pública. “Os problemas continuam sendo recorrentes na América Latina:
erosão do solo (o câncer de nossa terra), desmatamento e contaminação
da água e do ar”, complementou Nicolo Gligo, acadêmico da
Universidade do Chile e responsável pela Informe sobre o Estado do
Meio Ambiente no Chile.

“Qualifico os progressos em função dos números, e não há nenhum
indicando que melhoramos (nessas áreas), salvo a redução dos
contaminantes que afetam a camada de ozônio”, acrescentou Gligo.
Outro aspecto abordado no informe é a vulnerabilidade regional diante
da mudança climática. Segundo a exposição de Jorquera, nos últimos
anos foi constatado aumento de precipitações no sudeste do Brasil, no
Paraguai, Uruguai e nos pampas argentinos, bem como aumento de
inundações na Bolívia e menos chuvas no sul do Chile, sudoeste da
Argentina, sul do Peru e oeste da América Central.

Também há uma importante redução da superfície das geleiras andinas e
da Patagônia chilena e argentina. A dimensão da geleira Antisan do
Equador diminuiu oito vezes mais rápido nos anos 90 do que em décadas
anteriores, e na Bolívia a geleira Chacaltava perdeu mais da metade
de sua área desde 1990, diz o informe. As previsões, segundo
Jorquera, indicam mais redução de geleiras e reservas de água e
degradação de solos e desertificação no centro do Chile e na
Argentina. O aumento do nível domar ameaça a bacia do rio da Prata e
se espera aumento nos casos de câncer de pele no extremo sul do
continente.

Também se prevê menor disponibilidade de água e perda entre 20% e 45%
de espécies de árvores no Brasil até o fim deste século. A falta de
acompanhamento, capital humano e instituições dedicadas à mudança
climática dificulta a capacidade de minimização e adaptação a este
fenômeno, disse o especialista chileno. Qual é a mensagem do informe
aos governos da região? “Que coloquem a agenda ambiental acima de
suas prioridades e que se coordenem para poderem negociar com os
países e grupos de interesses mais poderosos que vão se opor a
maiores melhorias da qualidade ambiental”, disse Jorquera.

Isso passa, “necessariamente, pela exigência de que contaminar tem
preço e que o responsável assuma seus custos e reverta a situação.
Para issoao, é preciso fortaleza institucional e apoio da sociedade”,
concluiu Jorquera. O informe também exorta a resgatar o conhecimento
tradicional de mais de 400 povos indígenas que habitam a região e se
destacam pelo manejo sustentável de seus recursos naturais.

(Envolverde/ IPS)

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As 10 maiores descobertas do Hubble

Enquanto esperam pela última manutenção no telescópio espacial, os astrônomos refletem sobre suas descobertas nos últimos 16 anos

Mario Livio

Na primeira missão de reparo do Hubble, em dezembro de 1993, os astronautas Story Musgrave (no braço mecânico), Jeffrey Hoffman (no compartimento de carga) e outros consertaram o notório defeito no espelho e abriram caminho para muitas descobertas.

Poucos telescópios na história tiveram um efeito tão profundo na pesquisa astronômica como o Telescópio Espacial Hubble. Ainda assim, sua influência não é a que a maioria das pessoas imagina. Em geral, ele não fez descobertas singulares mas transformou antigas suspeitas e pistas obtidas em observações de solo em certezas. O Hubble funcionou em parceria com outros observatórios para construir uma visão multifacetada do Cosmos. Forçou físicos teóricos a substituir teorias grosseiras por outras que explicassem os fenômenos astronômicos com muito mais detalhe. Em suma, o Hubble não foi extremamente influente por se distanciar de outros instrumentos e técnicas, mas por se integrar intensamente com eles.

Em abril, o telescópio completou seu 16o aniversário no espaço. Seus feitos, tanto o de fornecer detalhes sem precedentes aos astrônomos quanto o de proporcionar um vislumbre das maravilhas do Universo a lares espalhados pelo mundo, foram de certo modo ofuscados recentemente pelo debate sobre seu futuro. Enquanto a Nasa luta para retomar os vôos dos ônibus espaciais, o Hubble continua se deteriorando. A menos que astronautas possam ir até lá e reformá-lo, o telescópio pode atingir o fim de sua vida útil já em meados de 2008. A chegada a essa encruzilhada me levou a avaliar a última década e meia do Hubble - e da astronomia - que muitos pesquisadores consideram a época áurea de seu campo.

Apresento abaixo minha seleção (confessamente tendenciosa) das dez contribuições mais significativas do Hubble, de suas revelações sobre objetos pequenos como planetas, até galáxias e o Universo como um todo. É extremamente difícil fazer justiça num curto artigo a contribuições tão abundantes. No momento em que escrevo, seu arquivo de dados contém mais de 27 terabytes e cresce a um ritmo de 390 gigabytes por mês. Essas informações foram a base para 6.200 artigos científicos. Além disso, o telescópio continua a produzir ciência de surpreendente qualidade. Em parceria com outros observatórios nos últimos meses, ele descobriu dois novos possíveis satélites de Plutão, uma inesperada (e paradoxal) galáxia de grande massa no Universo primordial e um companheiro de massa planetária de uma anã marrom - estrela pouco mais pesada que um planeta. Somos afortunados por viver numa era em que pela primeira vez estão sendo reveladas características do Universo que, até recentemente, a humanidade conseguia sondar apenas com a imaginação.

1. A Grande Colisão de Cometas
Da perspectiva cósmica, o impacto do cometa Shoemaker-Levy 9 com Júpiter era irrelevante: a superfície dos planetas e satélites já indicava que o Sistema Solar era uma galeria de tiro. Da perspectiva humana, no entanto, a colisão foi um evento singular: acredita-se que um cometa se choque com um planeta apenas uma vez a cada mil anos, em média.

Um ano antes do fim trágico do Shoemaker-Levy 9, as imagens do Hubble revelaram que ele havia se quebrado em mais de 20 fragmentos, um “colar de pérolas”. O primeiro fragmento mergulhou na atmosfera de Júpiter em 16 de julho de 1994, seguido pelos demais durante a semana seguinte. As imagens mostravam saliências parecidas com cogumelos nucleares no horizonte de Júpiter, se alastrando e despencando nos dez minutos subseqüentes ao impacto. As marcas resultantes persistiram por meses.
A raridade dessas imagens já as torna valiosas. As fotos levantaram uma dúvida intrigante sobre a composição do gigante gasoso.

Em um local, as ondas se propagaram a 450 metros por segundo. A explicação mais aceita é a de que elas são ondas de gravidade, em que a força restauradora é a flutuação, como acontece quando se tenta forçar um pedaço de madeira para dentro d\\’água e ele vibra para cima e para baixo. Se é esse o caso, as propriedades das ondas indicam que a proporção de oxigênio para hidrogênio na camada da atmosfera joviana onde se propagaram é dez vezes maior que no Sol. Porém, se Júpiter se formou do colapso gravitacional de um disco de gás e poeira primordial, como algumas teorias postulam, ele deveria ter a mesma composição do resto do disco - portanto similar à do Sol. O mistério segue sem solução.

2 Planetas Extra-solares
Em 2001, a Sociedade Astronômica Americana pediu que astrônomos planetários votassem no que consideravam ser a maior descoberta da década anterior. Eles elegeram a detecção de planetas fora do nosso Sistema Solar. Hoje, conhecem-se cerca de 180 deles. A maioria foi localizada por telescópios em terra ao observar o pequeno vaivém causado pelo puxão gravitacional de um planeta girando em torno de sua estrela-mãe. Porém, essas observações oferecem pouquíssima informação: só o tamanho e a elipticidade da órbita do planeta, além de um limite mínimo para sua massa.

O Hubble deu seguimento a essas descobertas, concentrando-se em planetas cujos planos orbitais estão alinhados com nossa linha de visão, o que faz com que passem periodicamente na frente de suas estrelas e reduzam seu brilho - em evento conhecido como trânsito. Ele observou o primeiro planeta desse tipo descoberto, companheiro da estrela HD 209458, e obteve as informações mais detalhadas sobre um planeta fora do nosso Sistema Solar. O planeta é 30% mais leve que Júpiter, ainda que 30% maior em diâmetro, provavelmente porque a intensa radiação de sua estrela-mãe o fez inchar. Os dados do Hubble são tão precisos que seriam capazes de revelar anéis largos ou satélites grandes ao redor do planeta se eles existissem. O mais impressionante é que o Hubble conseguiu as primeiras medições da composição de um mundo ao redor de outra estrela. A atmosfera do planeta contém sódio, carbono e oxigênio, e o hidrogênio está evaporando para o espaço para criar uma cauda semelhante à dos cometas. Essas observações servem como base para buscas por sinais químicos de vida em outras partes da galáxia.

3 Espasmos Estelares
A física estelar prevê que uma estrela com massa entre oito e 20 vezes a do Sol termine seus dias numa explosão de supernova. Quando seu combustível se exaure, abruptamente ela perde a longa luta para segurar seu próprio peso. Seu núcleo entra em colapso para formar uma estrela de nêutrons - um corpo inerte e hiperdenso - e as camadas exteriores de gás são ejetadas a 5% da velocidade da luz.

Entretanto, tem sido difícil testar essa teoria, pois desde 1680 nenhuma supernova ocorreu em nossa galáxia. Porém, em 23 de fevereiro de 1987 os astrônomos presenciaram um evento quase ideal: uma supernova em uma das galáxias-satélite da Via Láctea, a Grande Nuvem de Magalhães.

O Hubble foi lançado só três anos depois, mas a partir daí ele pôde acompanhar a evolução da explosão. Ele não tardou a descobrir um sistema com três anéis ao redor da estrela moribunda. O anel central parece ser a cintura estreita de uma emissão de gás em forma de ampulheta, e os anéis maiores são as bordas dos dois lóbulos em forma de gota, evidentemente criados pela estrela algumas dezenas de milhares de anos antes de explodir. Em 1994, o Hubble começou a ver uma seqüência de pontos iluminados ao longo do anel central: eram as ejeções da supernova que atingiam esse anel.

Ao contrário das estrelas de alta massa, astros como o Sol têm morte mais serena: eles ejetam suas camadas exteriores de gás em um processo não-explosivo que leva cerca de 10 mil anos. Ao ser gradualmente exposto, o núcleo central quente da estrela emite radiação que ioniza o gás ejetado, criando nele um feérico brilho esverdeado (emitido por oxigênio ionizado) e avermelhado (hidrogênio ionizado). Por razões históricas, o resultado é erroneamente chamado de nebulosa planetária. Conhecem-se cerca de 2 mil delas atualmente. O Hubble revelou algumas extraordinariamente complexas, com detalhes sem precedentes.
Algumas dessas nebulosas exibem um conjunto de anéis concêntricos que lembram um olho-de-boi, e possivelmente indicam que o processo de ejeção talvez não fosse contínuo, e sim episódico. Estranhamente, calcula-se o tempo transcorrido entre os episódios de ejeção em cerca de 500 anos, período longo demais para ser explicado por pulsações dinâmicas (em que a estrela contrai e expande, num conflito brando entre a gravidade e a pressão do gás) e muito curto para representar pulsações térmicas (em que a estrela é levada para fora do equilíbrio). A natureza exata dos anéis observados é, portanto, desconhecida

4 Nascimentos Estelares
Há muito tempo os astrônomos sabem que feixes estreitos e fluidos de gás são sinais típicos de formação estelar. O nascimento de uma estrela pode gerar um par de jatos colimados com vários anos-luz de extensão. Ainda não se sabe exatamente como isso acontece. A hipótese mais promissora envolve a influência de um campo magnético em larga escala sobre o disco de gás e poeira que envolve o novo objeto. As linhas do campo magnético forçam material ionizado a seguir determinado curso, como contas em um colar giratório. O Hubble reforçou essa visão teórica ao fornecer a primeira evidência direta de que esses jatos efetivamente se originam no centro do disco.

Outra expectativa, que o Hubble desmentiu, era a de que os discos circunstelares estivessem profundamente imersos em suas nuvens-mães, sendo portanto impossíveis de ver. De fato, o telescópio espacial revelou dezenas de discos protoplanetários, muitas vezes como silhuetas contra o fundo de nebulosa. Pelo menos metade das estrelas jovens observadas possui esses discos, demonstrando que a matéria-prima para a formação de planetas está disponível em todas as partes da galáxia.

5 Arqueologia Galáctica
Os astrônomos crêem que galáxias grandes como a Via Láctea ou nossa vizinha Andrômeda cresceram pela assimilação de outras menores. O registro desse passado atribulado deve ser encontrado no arranjo, idade, composição e velocidade de suas estrelas. O Hubble foi fundamental na decifração dessa história. Um exemplo disso é a observação do halo estelar de Andrômeda, a nuvem tênue e esférica de estrelas e aglomerados estelares que circunda o disco galáctico. Os astrônomos descobriram que as estrelas daquele halo têm as mais variadas idades: as mais velhas têm de 11 bilhões a 13,5 bilhões de anos, enquanto as mais novas têm de 6 bilhões a 8 bilhões de anos. Estas são como crianças num asilo. Devem provir de alguma galáxia mais jovem (como uma galáxia-satélite que foi assimilada) ou de alguma região mais jovem da própria Andrômeda (ou seja, do disco, se ele foi perturbado por uma galáxia em trânsito ou em colisão). O halo da Via Láctea não contém número significativo de estrelas comparativamente jovens. Assim, as imagens do Hubble sugerem que a Via Láctea e Andrômeda, apesar do aspecto semelhante, tiveram histórias muito diferentes.

6 Abundância de Buracos Negros Gigantes
Desde os anos 60 os astrônomos raciocinavam que os quasares e núcleos galácticos ativos - os centros violentos e brilhantes das galáxias - eram alimentados por buracos negros gigantes engolindo matéria. As observações do Hubble confirmaram essa visão geral. Quase toda galáxia observada cuidadosamente revelou um buraco negro em seu centro. Duas descobertas foram particularmente importantes. Em primeiro lugar, imagens de alta resolução de quasares revelaram que eles residem em galáxias elípticas brilhantes ou em pares de galáxias interagindo, o que sugere que uma determinada seqüência de eventos é necessária para alimentar um buraco negro central. Segundo, a massa do buraco negro gigante está estreitamente associada à massa do bojo esférico de estrelas adjacentes ao centro galáctico. Essa correlação sugere que a formação e a evolução de uma galáxia e seu buraco negro central estão intimamente ligadas.

7 As Maiores Explosões
As explosões de raios gama (GRBs, do inglês gamma ray bursts) são curtos disparos de raios gama que duram de poucos milissegundos a dezenas de minutos. Existem duas classes distintas de GRB, dependendo de sua duração ser superior ou inferior a dois segundos. As longas produzem fótons com menor energia que as curtas. Dados do Observatório Compton de Raios Gama, do satélite de raios X BeppoSAX e de observatórios em terra indicam que os disparos de longa duração resultam do colapso do núcleo de estrelas com massa grande e vida relativamente curta - em outras palavras, de um tipo de supernova. Sendo assim, seria preciso explicar por que apenas uma pequena fração das supernovas produzem GRBs.

O Hubble descobriu que apesar das supernovas ocorrerem em todas as re-giões galácticas com formação estelar, as GRBs de longa duração se concentram em poucas regiões muito brilhantes, onde as estrelas maiores se localizam. Além disso, comparadas com as galáxias que abrigam supernovas, as hospedeiras de GRBs longas são consideravelmente menos brilhantes, mais irregulares e pobres em elementos pesados. Isso é importante porque estrelas grandes deficientes em elementos pesados geram ventos estelares mais fracos do que suas equivalentes abundantes nesses elementos. No curso de sua vida, elas retêm uma proporção maior de sua massa; ao morrer, são relativamente mais pesadas. O colapso de seu núcleo tende a produzir não uma estrela de nêutrons, mas um buraco negro. De fato, os astrônomos atribuem as GRBs longas a jatos colimados gerados por buracos negros em rotação. Os fatores que determinam se um núcleo estelar emitirá uma GRBs parecem ser a massa e velocidade de rotação de uma estrela no momento de sua morte.

Identificar disparos de curta duração se mostrou mais difícil. Apenas no ano passado alguns foram finalmente detectados pelos satélites HETE 2 e Swift. O Hubble e o Observatório Chandra de Raios X revelaram que a energia total liberada por esses disparos é menor do que a das GRB de longa duração, apesar de seus fótons serem mais energéticos. As GRBs curtas também ocorrem em uma variedade maior de galáxias, incluindo as elípticas, onde a formação de estrelas cessou. Aparentemente, elas surgem da fusão entre duas estrelas de nêutrons ou entre uma estrela de nêutrons e um buraco negro.

8 O Limite do Espaço
Um dos grandes objetivos da astronomia é entender o desenvolvimento das galáxias e suas precursoras até a época mais próxima possível do Big Bang. Para ter uma idéia do que a Via Láctea foi no passado, os astrônomos obtêm imagens de galáxias em vários estágios de evolução, da infância à velhice. Para isso, o Hubble produziu, em coordenação com outros observatórios, imagens de longa exposição de pequenos pedaços do céu - o Campo Profundo do Hubble, o Campo Ultraprofundo do Hubble e o Levantamento Profundo do Céu Primordial por Grandes Observatórios - para mostrar as galáxias mais distantes (e mais antigas).

Essas imagens supersensíveis revelaram galáxias que existiam quando o Universo tinha apenas algumas centenas de milhões de anos, cerca de 5% de sua idade atual. Essas galáxias eram menores e mais irregulares que as modernas, um resultado esperado se se supõe que as galáxias atuais resultaram da união de outras menores (e não da fragmentação de galáxias maiores). Penetrar mais ainda no passado é a principal meta do sucessor do Hubble, o Telescópio Espacial James Webb, atualmente em construção.

As observações do céu profundo também revelaram a variação na taxa de formação de estrelas no Universo como um todo ao longo do tempo cósmico. Essa taxa parece ter atingido um pico 7 bilhões de anos atrás e caído para 10% do pico desde então. Surpreendentemente, quando o Universo tinha somente 1 bilhão de anos, a taxa de formação de estrelas já era alta - cerca de um terço de seu valor de pico.

9 A Idade do Universo
Observações feitas por Edwin Hubble e outros na década de 20 mostraram que vivemos num Universo em expansão. As galáxias estão se afastando umas das outras num padrão sistemático, o que implica que o próprio tecido do espaço esteja se esticando. A constante de Hubble (H0) é uma medida da taxa atual de expansão, que é o parâmetro-chave para determinar a idade do Universo. O raciocínio é simples: H0 é o ritmo em que as galáxias estão se afastando umas das outras; portanto, negligenciando qualquer aceleração ou desaceleração, o inverso de H0 estabelece o tempo transcorrido desde que elas estiveram todas reunidas. O valor de H0 também tem um papel na formação das galáxias, na produção de elementos leves (hidrogênio e hélio) e na duração de certas fases da evolução cósmica. Não deveria surpreender, portanto, que desde o início a medição precisa da constante de Hubble fosse a principal meta do telescópio espacial homônimo.

Na prática, encontrar esse valor envolvia medir corretamente a distância até galáxias próximas - uma tarefa notoriamente difícil que produziu muita controvérsia durante todo o século XX. O telescópio realizou o estudo definitivo das variáveis cefeidas - estrelas cujas pulsações peculiares revelam seu brilho intrínseco e, com isso, sua distância - em 31 galáxias. O valor resultante de H0 tem precisão de cerca de 10%. Junto com medições do fundo cósmico de microondas, o valor da constante de Hubble indica uma idade de 13,7 bilhões de anos para o Universo.

O Universo Acelerado
Em 1998, duas equipes independentes de astrônomos soltaram uma notícia bomba: a expansão do Universo está se acelerando. Os astrônomos geralmente presumiam que ela deveria estar desacelerando, porque a atração gravitacional mútua entre as galáxias deveria frear sua separação. O motivo da aceleração é considerado o maior mistério da física atualmente. Uma hipótese provisória é a de que o Universo contém um constituinte até o momento não detectado conhecido como energia escura. Uma combinação de observações do fundo de microondas, de observatórios em terra e do Hubble, sugere que essa energia escura responde por três quartos da densidade de energia total do Universo.
A aceleração começou cerca de 5 bilhões de anos atrás. Antes disso a expansão do Universo estava desacelerando. Em 2004, o Hubble descobriu 16 supernovas distantes situadas nesse período crucial entre desaceleração e aceleração. Essas observações também impuseram restrições mais severas nas hipóteses sobre o que a energia escura poderia ser. A possibilidade mais simples (embora, de certa forma, mais misteriosa) é a de que exista uma forma de energia inerente ao próprio espaço, mesmo quando ele está vazio. No momento, nenhum outro instrumento é tão vital quanto o Hubble na busca por supernovas que possam elucidar a energia escura. Sua importância no estudo dessa hipotética energia é talvez a maior razão para os astrônomos pressionarem a Nasa a mantê-lo funcionando

Para conhecer mais:

Hubble, 15 Anos de Descobertas. documentário em DVD disponível na Loja Duetto,http://www.lojaduetto.com.br

Artigos sobre esses tópicos publicados na SCIENTIFIC AMERICAN:

1 Comet Shoemaker-Levy 9 meets Jupiter. David H. Levy, Eugene M. Shoemaker e Carolyn S. Shoemaker, vol. 273, no 2, págs. 84-91, agosto de 1995.

2 Searching for shadows of other Earths. Laurance R. Doyle, Hans-Jörg Deeg e Timothy M. Brown, vol. 283, no 3, págs. 58-65, setembro de 2000.

3 Vida Comum, Morte Extraordinária. Bruce Balick e Adam Frank, SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL, agosto de 2004.

4 Fontes da Juventude. Thomas P. Ray, SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL, edição especial ESTRELAS.

6 Um Estranho Par Galáctico. Kimberly Weaver, SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL, agosto de 2003.

7 Explosões mais Fantásticas do Universo. Neil Gehrels, Luigi Piro e Peter J. T. Leonard, SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL, janeiro de 2003.

8 Galaxies in the Young Universe. F. Duccio Macchetto e Mark Dickinson, maio de 1997.

9 The Expansion Rate and Size of the Universe. Wendy L. Freedman, novembro de 1992.

10 Da desaceleração à aceleração. Adam G. Riess e Michael S. Turner, SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL, março de 2004.

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

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Usando um crucifixo, monge escapa de Mianmar

Thomas Fuller

Um dos principais organizadores das marchas de protesto em setembro em Mianmar, Ashin Kovida, monge budista de 24 anos, fugiu para a Tailândia na semana passada com uma carteira de identidade falsa, um crucifixo e o cabelo pintado de louro.

Na quinta-feira (25/10), Ashin Kovida deu detalhes de sua fuga angustiada e explicações sobre o que ainda era uma pergunta central em relação aos protestos de setembro: quem organizou as fileiras de monges de túnicas de cor açafrão que marcharam por Yangun -e como.

Ashin Kovida cruzou a fronteira para a Tailândia ilegalmente e disse na quinta-feira que estava planejando pedir status de refugiado. Ele é procurado pelo governo militar da Mianmar, que o acusa de armazenar explosivos em seu mosteiro em Yangun, a maior cidade de Mianmar.

O monge chamou essa acusação de absurda.

Em uma entrevista de seis horas em Mae Sot, essa cidade de fronteira, ele descreveu uma organização básica, um grupo de 15 monges com 20 e poucos anos que organizaram as manifestações de setembro. Ele disse que tinha sido eleito líder do grupo e tinha sido inspirado pelos vídeos de levantes populares na Iugoslávia contra o governo de Slodoban Milosevic.

Oito dos 15 monges do comitê organizador estão desaparecidos, disse ele. Os outros seis, disse, estão escondidos em Yangun.

Sabe-se que Thin Thin Khyaing, 42, que ele descreveu como sua mãe adotiva, foi presa. Ele disse que ela foi levada de sua casa na madrugada do dia 12 de outubro. Seu motorista, Phoe Wa, também foi detido, e o carro apreendido.

Thin Thin Khaing não adotou Ashin Kovida formalmente, mas foi sua patrocinadora na vida monástica. Ashin Kovida disse que acreditava que as autoridades tinham detido Khaing para pressioná-lo a se entregar.

Hlaing Moe Than, 37, importante organizador dos estudantes nas manifestações de setembro, que também fugiu para a Tailândia, mostrou um retrato de Ashin Kovida na quinta-feira e confirmou a identidade do mais recente refugiado.

“Ele é um dos famosos líderes dos monges budistas durante os protestos”, disse Hlaing Moe Than.

Ashin Kovida liderou protestos diários em Yangun de 18 a 27 de setembro, dia seguinte às autoridades começarem a darem batidas nos mosteiros.

Uma de suas principais preocupações, disse ele, era poder alimentar os milhares de monges que vieram a Yangun de outras regiões. Ele também temia o que chamou de “monges falsos”, que ele suspeita terem sido plantados pelo governo militar.

O estopim das manifestações foram tiros de advertência da polícia contra monges no dia 5 de setembro, na cidade central de Pakokku.

“Quando ouvi a notícia pela primeira vez, fiquei mudo”, disse Ashin Kovida. “Era uma coisa inacreditável.”

Seus colegas monges ficaram revoltados e procuraram formas de reagir. Eles decidiram se afastar completamente do governo, recusando todas as doações, apoio e contatos.

Monges mais velhos e abades instaram os monges a fazerem seus protestos dentro dos mosteiros, mas Ashin Kovida disse que os mais jovens tinham desafiado essas diretrizes pensando que protestar dentro do mundo enclausurado não adiantaria nada.

Ashin Kovida procurou estudantes que conhecera durante a coleta de doações e começou a planejar as marchas de protesto por Yangun.

“Compreendemos que não havia liderança”, disse ele. “Um trem precisa de uma locomotiva.”

Ele disse que supervisionou a impressão de panfletos que seriam distribuídos aos mosteiros, intitulado “os monges sairão às ruas.”

“Havia estudantes e jovens do nosso lado”, disse Ashin Kovida. Os estudantes digitaram os panfletos em seus computadores e depois fizeram cópias.

“Tínhamos centenas deles”, disse. “Entregamos a todos os mosteiros de Yangun. Tentamos distribuir o máximo possível para outras regiões.”

No dia 18 de setembro, Kovida liderou a primeira fila de monges pelas ruas de Yangun.

No dia 19 de setembro, uma multidão de cerca de 2.000 manifestantes, inclusive 500 monges, estava sentada no chão ladrilhado dentro da Pagoda Sule, quando Ashin Kovida levantou-se e dirigiu-lhes a palavra.

“Para continuar as manifestações de uma forma pacífica, precisamos de liderança”, lembra-se. “Peço a 10 monges para se unirem a mim à frente.” Quinze monges se levantaram, disse ele, com a multidão aplaudindo.

Eles formaram o que chamaram de Sangga Kosahlal Apahwe, Grupo Representativo de Monges. Ashin Kovida foi eleito diretor e voltou a abordar a multidão, com um curto discurso.

“Neste país estamos enfrentando dificuldades atualmente”, lembra-se de ter dito Ashin Kovida. “As pessoas estão passando fome, os preços subindo. Sob este governo militar, há tantos abusos de direitos humanos. Chamo as pessoas a se unirem a nós. Vamos continuar esses protestos pacíficos todos os dias até vencermos. Quando não há direitos humanos, não há valor humano.”

Ashin Kovida disse ter liderado uma semana de protestos diários, reunindo-se com seu grupo de organizadores pela manhã e iniciando as marchas à tarde. Ele ouviu dizer no serviço birmanês da BBC que outros monges também tinham se organizado, mas nunca encontrou esses grupos.

As manifestações foram pacíficas e desimpedidas até o dia 26 de setembro, quando a polícia bloqueou o caminho dos monges, atacou-os e dispersou-os.

“A polícia arrancou as vestes dos monges e bateu neles”, lembra-se Ashin Kovida. “Tiraram os sarongues das freiras.”

Dezenas de monges foram presos; Ashin Kovida escapou escalando um muro.

No dia seguinte, 27 de setembro, com a intensificação da repressão, Ashin Kovida mudou de roupa, colocou um sarongue e camisa de manga curta. Ele viajou para uma pequena aldeia a 65 km de Yangun e, com a ajuda de amigos e parentes, escondeu-se em uma cabana de madeira abandonada.

Ele tinha tanto medo de chamar a atenção dos vizinhos que suprimiu sua tosse e nunca saiu da casa, que não tinha água corrente. Por duas semanas, viveu na cabana escura, sem banho. Ele se aliviava usando um balde plástico. Amigos deixavam comida ocasionalmente.

No dia 12 de outubro, quando sua mãe adotiva foi presa, a notícia logo chegou a ele, que fugiu à noite, descalço.

“Corri por uma estrada grande”, disse o jovem monge. “Toda vez que vinha um carro, me escondia entre os arbustos”.

Ele alcançou a casa de um amigo antes da madrugada, pegou algumas roupas emprestadas e voltou a Yangun, usando um boné de beisebol azul claro, óculos e sarongue.

Amigos em Yangun ajudaram-no a pintar seu cabelo de louro. Ele comprou um crucifixo em um mercado local e, dias depois, entrou em um ônibus para a fronteira tailandesa.

Kovida passou por cerca de oito postos policiais -não se lembra quantos exatamente - no caminho da fronteira. Ele usou uma identidade falsa e chegou à cidade fronteiriça de Myawadi no dia 17 de outubro. Na manhã seguinte, cruzou o rio Moei para a Tailândia de barco.

O monge enfrentará prisão quase certa se voltar a Mianmar. Na edição do dia 18 de outubro do jornal estatal “The New Light of Myanmar”, ele foi acusado de esconder “48 cartuchos de TNT amarelados altamente explosivos”, em seu mosteiro.

“Eles simplesmente querem associar os monges com a violência e o terrorismo”, disse Ashin Kovida. “Estou na vida monástica desde tão jovem”, disse ele. “Toda minha vida só estudei budismo e coisas pacíficas.”

O pai de Ashin Kovida é carpinteiro e a mãe tem uma pequena barraca de cebola e pimenta no mercado. Ambos moram no Estado de Rakhine, no nordeste de Mianmar, perto de Bangladesh.

Muitos birmaneses não conseguirão perdoar o governo pela repressão aos monges, disse Kovida. “É uma mácula na história do país. Em Mianmar hoje, muitos estudantes e pessoas estão organizando o próximo passo contra a SPDC”, das iniciais do governo militar.

“Acho que será ao mesmo tempo das Olimpíadas na China”, disse ele, referindo-se aos jogos de 2008 em Pequim. “Essa é a a minha opinião”.

Herald Tribune
http://www.iht.com/pages/index.php

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Professores da FSA aprovam carta ao Conselho Diretor

Redação

Documento a favor da saída do reitor também será enviado ao promotor
Airton Grazioli

Os professores da Fundação realizaram nesta terça-feira (30/10) assembléia
onde reafirmam sua reivindicação de que o reitor da universidade, Odair
Bermelho, seja afastado do cargo. A reunião, convocada pelo Simpro
(Sindicato dos Professores do ABC) deliberou que será entregue aos 15
membros do conselho Diretor da Fundação uma carta em que afirmam estar
dispostos a repor todas as aulas que deixaram de ser ministradas desde o
início da greve, que já dura 48 dias.

A carta também será entregue ao promotor Airton Grazioli, curador das
fundações do Fórum João Mendes na Capital, onde será realizada a reunião
do Conselho Diretor, na quinta-feira (01/10). Na assembléia também se
confirmou a posição dos professores de que o reitor Odair Bermelho deve
ser afastado do cargo para que tenha fim a crise que atinge a Fundação.

Como o prefeito de Santo André, João Avamileno, que nomeia quatro dos 15
conselheiros, exigiu que além da saída de Bermelho também se discuta o
afastamento do vice-reitor, Oduvaldo Cacalano, os professores firmaram
posição de que se os dois forem afastados também sejam destituídos os
pró-reitores, todos indicados por Odair Bermelho. O vice-reitor Cacalano
se manteve ao lado de estudantes e professores na crise da Fundação, se
opondo às atitudes do reitor.

Junto com a carta também será apresentado ao Conselho Diretor e ao
promotor Grazioli um abaixo-assinado de 350 professores universitários do
Brasil e de outros países, favoráveis à destituição de Odair Bermelho pelo
seu envolvimento com a ação repressiva que resultou no espancamento e
prisão de estudantes que ocupavam a reitoria da universidade, em 13 de
setembro. Assinam o documento acadêmicos como o geógrafo Aziz Ab’ Saber,
além de professores de universidade de todo o Brasil, França, Portugal,
Canadá e Espanha.

Para a reunião do Conselho Diretor, na quinta-feira, alunos e professores
da Fundação organizam caravana com ônibus até a praça João Mendes, na
Capital. Em caso de afastamento de toda a reitoria da Fundação Santo
André, estudantes e professores já decidiram em assembléias a necessidade
de se indicar uma Comissão Provisória que encaminhe em 45 dias o processo
eleitoral para a escolha da nova reitoria da universidade.

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Reitoria mudou Fundação sem aval

Bruno Ribeiro
Do Diário do Grande ABC

A alteração jurídica que o reitor Odair Bermelho promoveu na Fundação
Santo André teria ocorrido à revelia do poder público andreense.
Prefeitura e Câmara Municipal não teriam permitido que a entidade deixasse
de ser um organismo municipal para se tornar uma “fundação mantida com
recursos privados” no cadastro do Ministério da Fazenda.

A mudança resultou em uma dívida de R$ 50 milhões com a Receita Federal.
Além disso, a alteração permitiu que a faculdade contraísse dívidas no
sistema financeiro. O resultado está no orçamento 2008 da Fundação:
previsão de R$ 2 milhões em gastos com a amortização de empréstimos.

“Antes de Bermelho, dificilmente a Fundação pedia empréstimos. Agora,
virou carne de vaca: só se paga o 13º salário se pedir . E banco não é
entidade filantrópica. Cobra juros”, diz o professor Ricardo Alvarez,
integrante do grupo contrário ao reitor.

Pública - O consentimento do poder público para que se faça uma mudança
dessa natureza é considerado necessário por quem entende do assunto.

O professor Odair Sá Gomes, da Unicamp (Universidade Estadual de
Campinas), também docente na Fundação, defendeu tese de mestrado mostrando
que fundações municipais de ensino superior precisam de autorização da
Câmara Municipal e da Prefeitura para alterações que envolvam os bens da
instituição – uma vez que são de propriedade pública.

Mas a alteração do caráter da pessoa jurídica da faculdade ocorreu por
meio de manobra administrativa. Nem mesmo o Conselho Diretor da Fundação
aprovou a mudança. Ela sequer foi discutida.

Procurada, a reitoria da Fundação informou que esperaria algum eventual
contato da Câmara ou da Prefeitura para se manifestar sobre o assunto.

Depois de uma entrevista coletiva ocorrida em 20 de setembro, Odair
Bermelho se recusou a comentar os desdobramentos do movimento grevista e
as denúncias contra ele publicadas pelo Diário. São 41 dias de silêncio.

Votação - A reunião do Conselho Diretor que votará a cassação do reitor
Odair Bermelho será nesta quinta-feira, às 14h, no Fórum João Mendes, na
Capital.

Diário do Grande ABC
http://home.dgabc.com.br/

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Fundação Santo André: decisão fica para quinta

ANDERSON AMARAL
PARA O DIARIO REGIONAL

O reitor da Fundação Santo André, Odair Bermelho, mudou para quinta-feira
(01) a reunião extraordinária do Conselho Diretor que vai debater seu
impeachment e do vice, Oduvaldo Cacalano. O reitor não só modificou a
data, como também o local - a assembléia será realizada no Fórum João
Mendes, na Capital, às 14 horas, e não mais na Câmara de Santo André, como
era o desejo do prefeito João Avamileno.
A mudança é interpretada como a manobra derradeira de Bermelho contra sua
exoneração. “O reitor está tentando esticar ao máximo sua permanência,
mas, felizmente, este foi o último suspiro do déspota”, afirmou Ricardo
Alvarez, professor de geografia da universidade e ex-vereador de Santo
André. Para o docente, já há dez votos - de um total de 15 no conselho -
necessários para exonerar Bermelho, dos quais quatro serão os da
prefeitura. “O Avamileno sentiu o desgaste de ver a Fundação nas páginas
policiais após mais de 50 dias de greve”, disse.
Em reunião realizada na semana passada, o prefeito defendeu o afastamento
de Bermelho e Cacalano como forma de encerrar a crise iniciada com a
ocupação da reitoria pelos alunos da Faculdade de Filosofia e Letras no
dia 13 de setembro, respondida violentamente pela Polícia Militar.

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Crise na Fundação agora ocupa páginas policiais

Seria cômica se não fosse infeliz a convocação da Tropa de Choque da
Policia Militar para desocupar, na madrugada da última quinta-feira, o
prédio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Fundação Santo
André. Estudantes e professores foram retirados sob pressão de policiais
fortemente armados, com cara de poucos amigos. Felizmente não houve
resistência e nem excessos por parte da força policial.
Nem mesmo quando estudantes invadiram a reitoria da Universidade de São
Paulo e lá permaneceram por várias semanas, praticando inclusive atos de
vandalismo, houve quem ousasse usar da policia para resolver o impasse.
Mas em Santo André o apego do reitor Odair Bermelho ao cargo e a aparente
autonomia que dispõe para tomar suas decisões, de vez que até mesmo o
prefeito João Avamileno (PT) desistiu de tratar do caso, leva a crise da
Fundação ao extremo de transformar o desentendimento interno numa batalha
que agora ocupa as páginas policiais da imprensa.
Até parece que os futuros filósofos e professores ameaçavam a ordem
pública e a segurança da sociedade com seu protesto, restrito ao prédio da
Fundação. Também parece que a criminalidade diminuiu e a população pode
dormir tranqüila enquanto o aparato policial é deslocado para o confronto
com os alunos que, afinal, não houve.
Não se pode condenar a atuação da Tropa de Choque porque ela não agiu por
iniciativa própria, mas foi convocada por decisão judicial. O que é de
visível mau gosto e demonstra falta de sensibilidade e total perda do
controle da situação é a intransigência do reitor que destrói,
progressivamente, a honrada reputação que construiu ao longo de toda uma
vida dedicada ao magistério.
Há momentos na vida em que recuar não significa necessariamente perder. Se
existe um expressivo número de alunos e professores insatisfeitos com sua
administração haverá o reitor de colocar a mão na consciência e
consultá-la se vale a pena tamanho desgaste.

ABC Repórter

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Vereadores apóiam destituição de Bermelho

Liora Mindrisz (liora@abcdmaior.com.br)

O que antes era apenas um afastamento se tornou uma saraivada de críticas

Depois dos estudantes e professores da FSA (Fundação Santo André), agora
são os vereadores da cidade que defendem a destituição do reitor Odair
Bermelho. O que antes era apenas um afastamento se tornou uma saraivada de
críticas ao reitor durante a sessão da Câmara desta terça-feira (30/10).

O primeiro a tocar no assunto foi Marcos Medeiros (PSDB), que pediu para
que o voto do representante da Câmara no Conselho Diretor seja contra o
reitor. “Nada mais consciente do que retirar um reitor que tem sido
inoperante, não tem atendido as necessidades daquela instituição. Pelo
menos com o voto do representante da Câmara Municipal nós podemos contar
com a saída do reitor”, disse.

Os vereadores Jurandir Gallo (PT), Cláudio Malatesta (PT), José Montoro
Filho (PT), o Montorinho, Donizeti Pereira (PV) e Dr. Aidan Ravin (PTB)
também falaram sobre a reunião do Conselho Diretor, que decidirá se o
reitor sai ou não nesta quinta-feira (01/11). Todos apóiam a saída de
Bermelho.

“Se há uma briga política lá dentro, e isso todos nós sabemos que há, não
podemos admitir o desmando e que um reitor como aquele continue na
Fundação. Essa Casa já fez um requerimento pedindo o afastamento,
infelizmente não temos poder para essa decisão, mas de qualquer forma está
clara qual é a intenção dos vereadores. Gostaria que o Conselho Diretor
tivesse a hombridade de colocar ordem naquela Casa”, disse Gallo, líder da
bancada petista.

O vereador Donizeti, que indicou o representante da Câmara para o Conselho
Diretor (seu assessor Orivaldo Oliveira Lopes), acha que a votação pela
saída do reitor Bermelho e do vice Cacalano tem que ser feitas
separadamente.

“O fato da Câmara ter aprovado um requerimento pedindo o afastamento do
Odair, deixa claro que temos um entendimento que a presença dele na
Fundação é prejudicial pra entidade. Mas eu e alguns outros vereadores
estamos indignados com essa questão de colocar o vice-reitor no meio, me
parece uma jogada política de alguém, no sentido de afastar o vice-reitor,
que é oposição, para assumir alguém ligado ao Odair”, disse o vereador.

O Conselho Diretor, presidido pelo reitor Odair Bermelho, se reunirá na
quinta-feira às 16h no Fórum da praça João Mendes, na Capital, para
decidir o futuro da reitoria da Fundação Santo André.

ABCD Maior

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Ilha passa por transição silenciosa

NEWTON CARLOS

O “El País”, de Madri, fala de uma “transição invisível” em Cuba. O diretor de “Temas”, publicação do establishment comunista com incursões críticas, chamou atenção para o fato de que o uso da palavra transição em Cuba tem efeitos negativos. Os cubanos a encaram como expressão da política americana e dos que tentam produzir mudanças a partir de bases no exterior. Mas Rafael Hernandéz admite que a sociedade de seu país mudou “e é claro que o socialismo de Cuba deve também mudar”.
“Temas”, que é trimestral, abriu grande espaço em seu último número para um debate, descrito como simpósio, sobre “transição socialista”. De imediato, é possível constatar que o aparato de poder em Havana começou a se mexer. Estaria em discussão a busca de transformações “dentro do socialismo” e não troca de sistema. Uma das intervenções de peso, e grande significado, foi a de Carlos Lage Cordomiu, presidente da Federação Estudantil Universitária e filho do vice-presidente com o mesmo nome.
Ele disse que as novas gerações estão comprometidas com a revolução. Não faltou um “mas”, no entanto, com forte dose de pragmatismo. Ele disse que “nós ainda não sabemos onde a revolução está indo”. E completou - “Chamamos isso de socialismo, embora o socialismo, na descrição clássica dos marxistas, nunca tenha existido”. Para que a revolução continue, segundo Carlos Lage filho, “é preciso que sejam satisfeitas as necessidades básicas e diárias da população”.

Batalha das idéias
Tem pouco a ver com a “revolução cultural” lançada por Fidel Castro em novembro de 2005. Ou a chamada “batalha das idéias”, que faria de Cuba uma “sociedade do conhecimento, da cultura e não do consumo”. Fidel recomendou inclusive “ampla” volta atrás nas permissões para negócios privados, adotadas como meio de enfrentar dificuldades criadas pelo esgotamento dos subsídios soviéticos.
A referência-chave dos debates que parecem tomar conta de setores de maior influência em Cuba é o discurso de Raúl Castro de 26 de julho. Não há como negar “ineficiências absurdas”, especialmente na produção agrícola, e a necessidade de abrir a economia a investimentos. Negócios são negócios. Foi como se expressou o vice-ministro do Comércio Exterior cubano, Eduardo Scandell, em reunião dedicada a Cuba pela Câmara de Indústria e Comércio da Baviera. Chamou atenção a compra de 183 carros BMW para as embaixadas de Cuba, que procura impor-se como um parceiro confiável.
A “transição invisível” já teria indícios na transformação, com Raúl Castro, de um poder unipessoal num poder mais compartilhado -o que ocorreria em nome de uma “continuidade” e não de uma “transição”.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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Fascismo à polaca

Dirigida por fundamentalistas cristãos, a Polônia promove uma caça aos ex-comunistas e aos homossexuais, além de provocar os judeus. O governo é um dos aliados de Bush, em seu esforço pra militarizar o espaço…

Ignacio Ramonet

Chamam-na lei da lustração [1]. Ou seja, segundo o dicionário: purificação ritual. Não deixa de ter, num país, onde o catolicismo está entrelaçado à história, um forte sentido de arrependidmento e penitência. Setecentos mil poloneses deverão, em virtude dessa lei, aprovada em outubro de 2006 e em vigor desde 15 de março de 2007, confessar se colaboraram com os comunistas, entre 1945 e 1989. Todos: altos funcionários, professores, advogados, diretores de escolas e jornalistas nascidos antes de agosto de 1972 têm até o dia 15 de maio para confessar seu “erro”.

Têm de preencher um formulário e responder à pergunta: “Colaborou secreta e conscientemente com os antigos serviços de segurança comunistas?”. Deverão remeter o formulário ao seu superior hierárquico, o qual o enviará ao Instituto da Memória, em Varsóvia. Esse verificará os arquivos e emitirá um certificado de pureza política. Em caso de colaboração comprovada, os jornalistas que trabalham nos serviços públicos serão automaticamente demitidos. Os que se recusarem a responder, ou que mentirem comprovadamente, estarão sujeitos à pena de não poder exercer sua profissão durante dez anos.

Essa lei delirante escandaliza a União Européia. Comparativamente, reduz o macartismo americano dos anos 1950 a um anticomunismo amador. É o dispositivo principal de uma furiosa caça às bruxas, iniciada depois da chegada ao poder, em outubro de 2005, do presidente conservador Lech Kaczynski e seu irmão gêmeo Jaroslav (primeiro-ministro), na Polônia. Muitos poloneses consideram a norma anticonstitucional porque constrange os cidadãos a “provar que não fizeram o que não fizeram”. Poderá ser invalidada pela Corte Constitucional, que pronunciará seu veredito no começo de maio.

Fundamentalismo cristão: a volta reacionária à “ordem moral”
A coalizão de direita, católica e nacional que governa a Polônia é formada por três partidos: Lei e Justiça (dos irmãos Kaczynski), Autodefesa (dos meios agrários) e a Liga das Famílias Polonesas. Têm uma inquietante política de volta à ordem moral. Com esse espírito, Roman Giertych, vice-primeiro-ministro, ministro da educação e chefe da Liga das Famílias Polonesas, apresentou um projeto de lei homófoba. Ela suscita comoção internacional e protestos de organizaçòes de defesa dos direitos humanos. Segundo o projeto, que pode ficar pronto em um mês, toda pessoa que revelar sua homossexualidade ou “qualquer outro desvio de caráter sexual” [2] em um estabelecimento escolar ou universitário, expõe-se a uma multa, demissão ou pena de prisão.

O deputado no Parlamento Europeu (pela Liga das Famílias) Maciej Giertych (pai de Roman Giertych) já havia desencadeado uma tempestade de condenações por ter publicado uma brochura anti-semita. Essa afirmava, por exemplo, que “os próprios judeus criam seus guetos” e que “o anti-semitismo não é racismo” [3]. O documento foi divulgado às custas do Parlamento Europeu e usou seu logotipo.

Essas decisões de depuração anticomunista, assim como as tentativas de retorno a uma ordem moral autoritária escondem, tanto na Polônia quanto na Ucrânia, Lituânia e outros países do Leste Europeu [4], uma espécie de nostalgia dos tempos anteriores à guerra, quando o racismo se apresentava ostensivamente. Tomados pelo revisionismo ambiente, alguns não hesitam em glorificar a colaboração com o III Reich hitlerista contra a União Soviética, hoje oficialmente execrada.

É com esse espírito, e considerando, como muitos dos meios de comunicação, que a Rússia de Vladimir Putin não passa do prolongamento disfarçado da antiga URSS, que Varsóvia declarou-se favorável à instalação, em seu território, do escudo anti-mísseis [5], ao concebido pelo Pentágono para proteger os EUA. Sequer dignou-se a consultar seus parceiros da União Européia, nem mesmo os da OTAN. Isso mostra que em política, a paranóia pode levar não apenas à atrofia espiritual mas também a uma certa forma de traição.

_________________________________________________________

[1] Segundo o dicionário Houaiss, Lustração: qualquer ritual de lavagem, comum em várias religiões, com finalidade de purificação ou iniciação; sacrifício; batismo (N.T.).

[2] El País, Madrid, 20 de março de 2007.

[3] Le Figaro, Paris, 17 de fevereiro de 2007.

[4] Uma lei de lustração promulgada em 1995, na República Checa, vem sendo prorrogada há dez anos e só em junho do ano passado levou à emissão de mais de cem certificados negativos. Na Romênia, nenhuma lei de lustração passou porque os antigos comunistas estão no poder (N.T.).

[5] O chamado “escudo anti-mísseis” é um sistema que permitirá aos EUA, em teoria, abater qualquer míssil inimigo e os transformará novamente, portanto, em potência nuclear única. Os críticos ao projeto lembram que ele levará a uma nova corrida bélica, já que as demais potências nucleares não assistirão ao movimento norte-americano de braços cruzados (Nota da edição brasileira)

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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Mahatma Gandhi

Churchill costumava chamá-lo de “faquir despido”. Einstein era um de seus maiores admiradores. Martin Luther King inspirou-se nele. Mahatma Gandhi é um dos grandes homens do século XX.

Mohandas Karamchand Gandhi, conhecido por seu povo como “Mahatma”, ou “a grande alma”, é sem dúvida um dos indianos que mais influência tiveram em nossos dias.

Gandhi foi um pacifista e sempre pregou uma doutrina de não-violência. Desejava que a paz reinasse entre hindus e muçulmanos; entre indianos e ingleses.

O domínio colonial britânico durou mais de duzentos anos. Os indianos eram considerados cidadãos de segunda classe.

Em 1930, Gandhi viaja a Londres para pedir que a Inglaterra conceda independência à Índia. Lá, visita bairros operários.

“Sei que guardarei para sempre, em meu coração, a lembrança da acolhida que recebi do povo pobre de East London”, diz Gandhi.

Ao retornar à Índia, é recebido em triunfo por milhares de pessoas, ainda que nada de muito significativo tenha resultado da viagem.

Gandhi anuncia à multidão que pretende continuar em sua campanha pela desobediência civil, para obrigar a Inglaterra a dar a independência à Índia. Os britânicos, outra vez, o mandam para a prisão.

1942. O governo inglês manda para Nova Delhi Sir Stafford Cripps, com a missão de negociar com Gandhi. As propostas que Sir Cripps traz são inaceitáveis para Gandhi, que deseja independência total. Gandhi retoma a campanha pela desobediência civil. Desta vez é preso e condenado a dois anos de cadeia.

Quando Lord Louis Mountbatten torna-se vice-rei, aproxima-se de Gandhi e nasce, entre Gandhi, Lord e Lady Mountbatten, uma grande amizade.

No verão de 1947, a hostilidade entre hindus e muçulmanos atinge o auge do fanatismo. Nas ruas há milhares de cadáveres. Os muçulmanos reivindicam um Estado independente, o Paquistão. Gandhi tenta restabelecer a paz dando início a uma décima-quinta greve de fome. O sacrifício pessoal de Gandhi e sua firmeza conseguem o que nem os políticos nem o exército conseguira: a Índia conquista sua independência e é criado o Estado muçulmano do Paquistão.

Em 30 de janeiro de 1948, Gandhi morre assassinado por um hindu. Estava com 78 anos. Lord e Lady Mountbatten, ao lado de um milhão de indianos, comparecem ao funeral. Suas cinzas são lançadas às águas sagradas do Rio Jumna.

“Mahatma” Gandhi permanecerá, para sempre, como símbolo da resistência pela não-violência.

Alô Escola TV Cultura
http://www.tvcultura.com.br/aloescola/index.asp

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Coral de Ano Novo para a pátria em trevas

“Eu quero a minha pátria para os meus, quero a luz igual sobre a cabeleira de minha pátria acesa,
quero o amor do dia e do arado,
quero apagar a linha que com o ódio fazem para apartar o pão do povo,
e ao que desviou a linha da pátria até entregá-la como carcereiro,
atada, aos que pagam para feri-la,
eu não vou cantá-lo nem calá-lo,
vou deixar seu número e seu nome,
cravados na parede da desonra.”

Pablo Neruda

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A internacional

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Retrato da batalha no Rio de Janeiro

Um filme polêmico sobre uma operação policial contra os traficantes de drogas se transforma no mais assistido da história no Brasil


Juan Arias

Gisela reconhece perfeitamente a sensação que está causando em boa parte dos brasileiros o filme “Tropa de Elite”, um sucesso cinematográfico que está batendo recordes de bilheteria e causando um debate nacional. “Meu filho, quando você vê chegar os blindados da tropa de elite, treme dos pés à cabeça”, diz essa motorista de táxi, que, junto com seu marido e três filhos, vive em uma das favelas mais violentas do Rio de Janeiro.

O filme “Tropa de Elite”, dirigido por José Padilha, retrata com crueza a violência das favelas, tanto a exercida pelos narcotraficantes como pela polícia. Transformou-se em um fenômeno social que desencadeou uma forte polêmica pública. As filas para ver o filme são quilométricas diante dos cinemas. Vinte milhões de pessoas dizem tê-lo visto ou que o verão, e outros 12 milhões o piratearam. A popular revista “Veja”, que lhe dedicou uma reportagem de 17 páginas, diz que se trata “de uma obra de ficção que explica com uma fidelidade nunca vista como a criminalidade degradou o Brasil”.

O que “Tropa de Elite” mostra é como funciona o corpo especial da polícia brasileira de combate ao narcotráfico, o Batalhão de Operações Policiais Especiais, conhecido como Bope. Recria a história verdadeira da Operação Santidade, realizada por esse corpo em uma favela próxima ao arcebispado do Rio nos dias anteriores à visita do papa João Paulo 2º em 1997. Na operação de quatro meses morreram mais de 30 pessoas e várias dezenas foram detidas.

O livro escrito por um ex-agente do Bope que participou dessa operação, Rodrigo Pimentel, foi o que inspirou o filme. O Bope, que nasceu como um corpo incorruptível de 160 policiais, hoje tem mais de 400 efetivos e sua integridade é mais que questionada. A única coisa sobre a qual muitos brasileiros concordam é a brutalidade do órgão.

O longa-metragem não deixa ninguém indiferente. Há os que o aplaudem de pé e os que se revoltam com as cruas cenas de tortura, mas ninguém fica impassível. Além disso, representa uma bofetada contra a classe média que consome drogas: vem dizer sem meias palavras que cada cigarro de maconha ou cada grama de cocaína que se compra contribui para que surjam mais traficantes, mais violência e mais morte.

A polícia aparece como é, corrupta, às vezes mancomunada com os traficantes, aos quais vende até suas armas; mas também imprescindível para combater o tráfico. Os traficantes aparecem sem romantismos, terrivelmente violentos e dispostos a semear o terror e a morte para manter o controle do mercado. Na pesquisa feita por “Veja”, 79% da população consideram que o filme retrata a polícia como ela é, e 72% pensam que os traficantes são tratados no filme com a crueldade que merecem.

El País
http://www.elpais.com/

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Um banco pelos direitos humanos?

Em meio à crise do FMI e do Banco Mundial, países latino-americanos preparam-se para lançar o Banco do Sul. Seu caráter ainda não está definido, mas algumas propostas farão dele, se aprovadas, uma instituição revolucionária

Eric Toussaint, Damien Millet

Punido! Como poderia o todo-poderoso Banco Mundial aceitar, em 2005, que o jovem ministro equatoriano da economia, Rafael Correa, tomasse a decisão de revisar a utilização dos recursos petroleiros, reduzir o ritmo do reembolso da dívida e aumentar as despesas sociais, sob pretexto de que o país estava passando por uma crise político-social de extrema gravidade? O banco suspendeu imediatamente um empréstimo de 100 milhões de dólares prometido ao Equador e, com a ajuda de alguns amigos, ocupou-se seriamente da carreira do ministro em questão. “Os donos do petróleo, os Estados Unidos, o Fundo Monetário Internacional [FMI], o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento [BID] pressionaram o presidente [Carlos Mesa]”, contaria Rafael Correa mais tarde. “Eu perdi a sua confiança, seu apoio [1]”. Ao se ver desautorizado, o jovem economista optou então por se demitir.

Eleito presidente da República, em 3 de dezembro de 2006, Correa ainda mantém vivo o episódio, na memória, nos seus mínimos detalhes — inclusive as atitudes de desprezo com a soberania do país. Em 20 de abril de 2007, num gesto espetacular, ele mandou declarar persona non grata no Equador o representante do Banco Mundial, Eduardo Somensatto. Além disso, confrontado com uma dívida pública de US$ 10,5 bilhões, decidiu que a parte do orçamento dedicada ao seu reembolso cairá de 38%, em 2006, para 11,8% em 2010. Alguns dias depois, a Venezuela anunciou que está deixando o FMI e o Banco Mundial. Já a Bolívia divulgou que não reconhece mais a autoridade do Centro Internacional para a Solução dos Litígios relativos aos Investimentos (Cirdi), um dos instrumentos do Banco Mundial.

Desde os anos 1950, as intervenções do Banco Mundial e do FMI na América Latina têm sido influenciadas pelas prioridades da política externa de Washington. As instituições de Bretton Woods proporcionaram sustentação ao ditador nicaragüense Anastásio Somoza durante cerca de trinta anos, até a sua derrubada em 1979 [2]. Na Guatemala, em 1954, essas instituições boicotaram o governo progressista de Jacobo Arbenz, e se apressaram a apoiar a junta militar que o derrubou.

FMI e Banco Mundial: um currículo de saque e apoio a ditaduras
Na América do Sul, as determinações de Bretton Woods sabotam os regimes democráticos que empreendem reformas destinadas a reduzir as desigualdades. No Brasil, a partir de 1958, fizeram oposição ao presidente Juscelino Kubitschek, que recusou as condições determinadas pelo FMI, e boicotaram o seu sucessor, João Goulart, quando esse anunciou uma reforma agrária e a nacionalização do petróleo, em 1963. Em contrapartida, a partir da instalação do governo militar, em abril de 1964, o FMI e o Banco Mundial apoiaram o governo. Fizeram o mesmo no Chile, em setembro de 1973, depois da derrubada e da morte de Salvador Allende. Em março de 1976, na Argentina, o FMI ofereceu ajuda à ditadura do general Jorge Videla. Em 2002, o Fundo foi a primeira instituição (junto com os Estados Unidos e a Espanha, então governada por José Maria Aznar) a oferecer seus serviços ao breve governo que assumiu o poder em decorrência da derrubada do presidente venezuelano Hugo Chávez.

Em toda parte, as classes dominantes locais encontraram nas instituições de Bretton Woods um apoio à sua resistência às reformas. Vale acrescentar que o Chile de Pinochet e a Argentina de Videla funcionaram como verdadeiros laboratórios para as políticas neoliberais que, sob formas adaptadas, seriam aplicadas mais tarde nos países mais industrializados — começando pela Grã-Bretanha de Margaret Thatcher, a partir de 1979, seguida pelos Estados Unidos de Ronald Reagan, depois de 1981.

O Banco Mundial e o FMI incentivaram deliberadamente a América Latina a se endividar. Entre 1970 e 1982, o conjunto da dívida externa pública da região passou de US$ 16 bilhões para US$ 178 bilhões [3]. Em 1982, quando a crise da dívida tomou conta da região, as duas instituições utilizaram a arma do super-endividamento para impor as políticas que seriam codificadas mais tarde no âmbito do Consenso de Washington: ajustes estruturais, privatizações, abertura econômica, abandono dos controles sobre o câmbios e os movimentos de capitais, redução das despesas sociais, aumento das taxas de juros locais etc. Os capitais que haviam afluído para a região, sob a forma de empréstimos, voltaram a migrar rumo aos países industrializados como reembolso da dívida e fuga de capitais.

Numa nova conjuntura, espaço para posturas independentes
Ao tomarem o lugar das juntas militares, a partir da segunda metade da década de 1980, os governos democráticos aplicaram docilmente as instruções neoliberais. O resultado dessa política é devastador. Da revolta popular de abril de 1984, na República Dominicana, ao “argentinazo” de dezembro de 2001 contra o governo de Fernando de la Rua, passando pelo “caracazo” de 27 de fevereiro de 1989, contra o presidente venezuelano Carlos Andrés Pérez, os motins se multiplicam. A rejeição do Consenso de Washington e dos seus instrumentos acabou provocando uma guinada para a esquerda a partir da eleição de Hugo Chávez à presidência da Venezuela, em 1998.

Depois da derrubada do presidente Fernando de la Rua, em dezembro de 2001, as autoridades argentinas, sob a pressão do descontentamento popular, desafiaram abertamente o FMI e o Banco Mundial ao suspenderem, até março de 2005, o pagamento da dívida pública externa junto aos credores privados e ao Clube de Paris. Embora os sucessivos governos peronistas de Rodríguez Saa, Eduardo Duhalde e Nestor Kirchner evitem a ruptura direta com as instituições de Bretton Woods (que seguem recebendo os seus pagamentos…), também contribuem para enfraquecê-las. Demonstram que é possível suspender o pagamento da dívida, dar um novo impulso ao crescimento econômico, e impor um acordo aos credores. Estes aceitaram, numa proporção de 76%, uma redução de mais da metade das quantias reclamadas.

A partir de 2005, uma mudança conjuntural da situação econômica mundial alterou, de maneira favorável, as relações da maioria dos países em desenvolvimento com seus credores. As cotações das matérias-primas e de certos produtos agrícolas tendem a subir, enquanto as taxas de juros e os prêmios de risco pagos para obter empréstimos sofrem uma queda histórica. Na América Latina e Caribe, o aumento das exportações permite ampliar as reservas em dólares e outras divisas: entre 2002 e 2007, elas passaram de US$ 157 bilhões para mais de US$ 350 bilhões. Vários governos -– Argentina, Brasil, México, Uruguai, Venezuela, além da Tailândia, Indonésia e Coréia do Su — tiraram proveito da situação para saldar as suas pendências com o FMI.

Alguns dos movimentos favoráveis ao cancelamento da dívida criticam os governos, afirmando que esta atitude “legitima” a diva e desperdiça capitais que seriam úteis para conduzir políticas sociais. Os governantes rebatem, afirmando que tais reembolsos lhes permitem recuperar liberdade em relação a uma instituição que impõe políticas impopulares.

O risco: esterilizar as reservas, emprestando dinheiro aos ricos
O que os governos têm feito, até agora, na sua maioria, com as suas reservas de câmbio? Depois de utilizar uma parte para reembolsar certos organismos internacionais, aplicam o restante sob a forma de bônus do Tesouro norte-americanos, ou depósitos em bancos dos Estados Unidos (e, marginalmente, de outros países industrializados). Emprestam, portanto, o dinheiro público do Sul para potências do Norte, em particular para o principal país que os domina.

Além disso, a aplicação das reservas sob forma de bônus do Tesouro, sejam norte-americanos ou de outros países, pode se combinar, surpreendentemente, com a captação de novos empréstimos no mercado interno ou internacional. A remuneração das reservas aplicadas em bônus dos Tesouros estrangeiros ou em bancos privados é sempre inferior aos juros pagos sobre os novos empréstimos. O desfalque amplia-se porque os Estados Unidos os reembolsam as aplicações em dólares, moeda que tem sofrido uma desvalorização constante, ao longo dos últimos anos.

Deter reservas importantes em divisas fortes desencadeia outro mecanismo perverso: os bancos centrais dos países que se encontram nesta situação compram os dólares obtidos pelos exportadores, oferecendo em troca títulos da dívida pública. E remuneram estes papéis com altas taxas de juros, o que representa um custo suplementar para o Tesouro público [4].

Longa costura política leva a Assução, onde surgirá o novo banco
A relativa abundância de reservas à disposição dos governos da América Latina trouxe mais água para o moinho do presidente Chávez, que vem propondo, há alguns anos, a criação de um fundo humanitário internacional e, desde 2006, a fundação de um Banco do Sul. Ao anunciarem, em fevereiro de 2007, o nascimento dessa instituição, a Argentina e a Venezuela deram um passo decisivo para a sua viabilização. Sem demora, a Bolívia, o Equador e o Paraguai associaram-se à iniciativa. O Brasil, que se manteve hesitante durante três meses, acabou assinando a declaração de Quito de 3 de maio, por ocasião de uma reunião de cúpula dos ministros das Finanças da Argentina, da Bolívia, do Brasil, do Equador, do Paraguai e da Venezuela. Uma cúpula que reunirá os ministros da Economia desses países, a ser realizada em Assunção, em 28 e 29 de junho, deverá marcar oficialmente o lançamento do Banco do Sul.

Várias opções ainda são tema de discussões, mas um consenso parece ter se desenhado em relação a vários pontos. Esse organismo financeiro reunirá, ao menos, esses seis países da América do Sul (a porta permanecerá aberta para os outros) e terá por função financiar o desenvolvimento da região. Existe, também, vontade de criar um fundo monetário de estabilização [5]. Já existe um Fundo Latino-Americano de Reserva (FLAR), do qual fazem parte cinco países andinos (Bolívia, Peru, Colômbia, Equador, Venezuela) e um país da América Central, a Costa Rica. Essa entidade poderia ser transformada ou, caso isso se revele impossível, um novo fundo poderá surgir. Seu objetivo seria de fazer frente a ataques especulativos e a outros choques externos por meio de um caixa comum, no qual os países-membros compartilhariam uma parte das suas reservas de câmbio.

Trata-se, portanto, de dispensar os serviços do FMI, com uma ambição suplementar: implantar uma unidade de conta que poderia, um dia, desembocar numa moeda comum. Ou seja, criar uma divisa equivalente ao que era o ECU europeu antes da criação do euro. Atualmente, as operações comerciais entre países da América do Sul são pagas em dólares. Mas Argentina e Brasil acabam de afirmar a intenção de pagar suas transações mútuas — um valor anual de US$ 15 bilhões — em pesos argentinos e em reais.

As propostas que podem significar grande inovação
Durante a reunião de Quito, a delegação do Equador apresentou uma concepção revolucionária do Banco do Sul (e do Fundo). Segundo seus autores, a instituição deveria funcionar a partir de uma base democrática, diferentemente dos modos de funcionamento do Banco Mundial, do FMI e do BID. Seria um instrumento encarregado, entre outros, de zelar pela aplicação dos tratados internacionais relativos aos direitos humanos, sociais e culturais, ao passo que o Banco Mundial considera não ter obrigação nenhuma em relação a esses tratados. O Banco do Sul deverá financiar projetos públicos, enquanto as instituições existentes privilegiam o setor privado.

Além do mais, se os chefes de Estado chegarem a um acordo a esse respeito, o Banco do Sul deverá estar fundamentado no princípio de “um país, um voto”. Atualmente, no Banco Mundial, FMI e BID, o direito de voto dos países depende da sua contribuição financeira inicial. Os Estados Unidos são detentores, por si só, de mais de 15% dos votos, o que lhes confere um direito de veto de fato. Além disso, os dirigentes e funcionários do Banco do Sul seriam responsáveis perante a Justiça, diferentemente dos do Banco Mundial, protegidos por imunidade total, suspensa apenas se a instituição o desejar. Os arquivos pertenceriam ao domínio público (a regra contrária está em vigor no FMI e no Banco Mundial). Por fim, o novo estabelecimento financeiro não se endividaria no mercado dos capitais. O seu capital seria formado pelos países-membros, que o financiariam por meio de uma contribuição inicial, de empréstimos, e ainda por meio de tributos – por exemplo, sobre transações com capital especulativo, do tipo Tobin. [6]

Ainda é cedo para conhecer o destino que a proposta terá. Os governos brasileiro e argentino mostram-se mais interessados em criar um banco que venha reforçar suas grandes empresas privadas ou de economia mista, no âmbito de um bloco econômico e político a ser construído segundo o modelo de uma União Européia dominada pela lógica capitalista. Mas o debate ainda não foi concluído. De qualquer forma, não há como negar: na América Latina, o FMI e o Banco Mundial não ditam mais a lei.

_________________________________________________________

[1] Maurice Lemoine, “Nos bastidores da vitória de Rafael Correa”, Le Monde Diplomatique-Brasil, janeiro de 2007.

[2] Para uma apresentação detalhada do apoio do Banco Mundial e do FMI às ditaduras, ler Eric Toussaint, Banco Mundial: o Golpe de Estado permanente. A agenda oculta do Consenso de Washington, CADTM-Syllepse, Liège-Paris, 2006.

[3] Banco Mundial, Global Development Finance, Washington D.C., 2006.

[4] Ibid.

[5] A adesão da Venezuela não está garantida porque, inicialmente, Hugo Chávez queria que o Banco do Sul acumulasse as funções de banco de desenvolvimento e de fundo monetário de estabilização.

[6] Este tributo incidiria sobre as transações envolvendo câmbio, efetuadas nos seis países

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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Alunos e professores já discutem eleição na Fundação

Liora Mindrisz (liora@abcdmaior.com.br)

Assembléia decide por comissão isenta para escolher nova direção

Alunos e professores da Fundação Santo André começaram a discutir nesta
segunda-feira (29/10) o processo para substituir o reitor da universidade,
Odair Bermelho, foco da crise que atinge a escola. Em greve há 46 dias,
eles decidiram em assembléia geral que defenderão o vice-reitor Oduvaldo
Cacalano na reunião do Conselho Diretor.

Apesar disso, se for necessária a saída do vice-reitor para que o reitor
Odair Bermelho seja destituído, o voto dos alunos no conselho será para a
renovação na reitoria seja total, inclusive com a saída dos pró-reitores,
indicados por Bermelho. Os alunos querem formar uma comissão, composta de
alunos, funcionários sem cargos de confiança, para conduzir as eleições da
nova reitoria em caso de renovação da direção.

A destituição de Cacalano foi incluída na pauta da reunião do Conselho
Diretor, que acontecerá na quinta-feira (01/10) na praça João Mendes, na
Capital. Inicialmente, o reitor Odair Bermelho havia acertado com o pelo
prefeito de Santo André, João Avamileno (PT), que o encontro seria na
própria cidade, nesta segunda-feira (29/10).Mas Bermelho acabou alterando
a data (quinta, 1º de novembro) como o local (Capital). O prefeito havia
pedido para que além de Bermelho, fosse também discutida a saída do
vice-reitor Cacalano.

O vice-reitor, que agora pode perder o cargo, apóia a greve dos alunos
desde o início e não faz parte de nenhuma das acusações contra Bermelho.
José Dalmo Vieira Duarte, representante dos alunos no Conselho Diretor
acredita que essa foi a melhor decisão. “Ela vai ao encontro das nossas
propostas. Nós temos uma hierarquia: primeiro é a defesa do estatuto,
segundo é o esforço pela permanência do Cacalano para que as eleições da
nova reitora aconteçam conforme manda o estatuto. A maior
responsabilidade na reunião de quinta-feira é do prefeito pois ele detém
oito votos na decisão”, explica.

Manifestação - Os alunos estão organizando a saída de ônibus para
manifestar na praça João Mendes, onde o Conselho Diretor decidirá o futuro
da instituição. Em reunião, os professores da Fafil (Faculdade de
Filosofia) também decidiram fechar o cerco contra o Bermelho, e combinaram
uma visita à Câmara de Santo André na terça-feira, para conversar com os
vereadores e para que eles conduzam o voto do representante.

“O Cacalano não está envolvido nessa maracutaia da reitoria. Com ele ou
sem ele, as eleições para uma nova reitoria tem que acontecer. Os
professores estão pedindo eleições, independente de quem a conduza, porque
aí sim o reitor escolhido será legítimo no cargo. Os pró-reitores são a
personificação do Bermelho pois são cargos de confiança dele”, afirmou
Lúcia Rodrigues, professora da Fundação.

Os professores também votaram na formação de uma comissão para acompanhar
as eleições que, para eles, tem que acontecer em 45 dias após a
destituição do reitor. Alunos e professores também exigem que o processo
aberto contra 29 professores e 21 alunos que pedia a reintegração de posse
do prédio da Fafil (Faculdade de Filosofia) seja retirado sem qualquer
punição aos grevistas.

ABCD Maior

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São Paulo avalia 18 estatais para reiniciar privatização

Vanessa Adachi
27/09/2007

O governo do Estado de São Paulo quer avaliar o preço de 18 empresas estatais para estudar sua privatização ou venda de participação minoritária. Fazem parte da lista a elétrica Cesp, o banco Nossa Caixa, a companhia de saneamento Sabesp, o Metrô, a Dersa, que administra rodovias, e até o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Seria a retomada das privatizações paulistas, que haviam sido interrompidas, com exceção da empresa de transmissão de energia Cteep, vendida no ano passado.

Cálculos preliminares indicam que essas empresas, reunidas, poderiam valer mais de R$ 30 bilhões - mas o governo não detém 100% das ações em todas elas. Não é certo quais empresas serão efetivamente vendidas. O mais provável, na avaliação de executivos do mercado financeiro, é que o governo privatize apenas parte delas.

Na última segunda-feira, os bancos interessados em trabalhar como assessores financeiros do governo entregaram envelopes contendo suas propostas e a indicação da comissão que pretendem cobrar. Na próxima semana deve ser anunciado o nome do vencedor. JPMorgan, Morgan Stanley, UBS, Banco Espírito Santo, Citi e Fator são alguns dos bancos que fizeram suas ofertas ao governo. O processo está a cargo da Secretaria da Fazenda, sob o comando de Mauro Ricardo Costa. Procurada, a Secretaria informou que não comentaria o assunto.

As 18 empresas foram reunidas em três grupos. O primeiro é formado por Cesp, Nossa Caixa e Sabesp. O segundo tem seis companhias: Metrô, CDHU (desenvolvimento habitacional e urbano), CPTM (trens metropolitanos), Dersa, Emae (água e energia) e Cosesp (seguros). O terceiro grupo é composto por nove empresas: CPP (parcerias), Cetesb (saneamento), Prodesp (processamento de dados), Imprensa Oficial, EMTU (transportes), CPOS (obras e serviços), IPT, Codasp (desenvolvimento agrícola) e Emplasa (planejamento).

Segundo as regras do edital de licitação para contratação do serviço de avaliação, o governo poderia, no limite, vender seis companhias por ano nos próximos três anos: uma do grupo 1, duas do 2 e três do 3. Em comunicado divulgado há um mês, a Secretaria da Fazenda anunciou o início da licitação para avaliar seus ativos, mas não mencionou a intenção de vendê-los.

Cesp e Caixa despertam interesse

Na lista de 18 estatais que o governo paulista estuda privatizar, duas empresas se destacam como o filé. Na avaliação de executivos de bancos que fizeram propostas para assessorar o governo na avaliação das empresas, a geradora Cia. Energética de São Paulo (Cesp) e o banco Nossa Caixa são os ativos que despertariam mais interesse de grupos privados.

Para as demais companhias, ainda não está claro se haveria mercado ou arcabouço legal para a privatização completa, na avaliação dos executivos. Em alguns setores, está expressamente definido que o controle deve ser estatal. Nesses casos, seria necessária uma alteração da legislação para que a privatização fosse levada a acabo. Isso se aplica, por exemplo, à Sabesp.

Apenas Nossa Caixa, Sabesp e Cesp, juntas, valem quase R$ 25 bilhões atualmente na bolsa de valores. As outras companhias da lista, sem ações na bolsa, ainda têm valor indeterminado, mas é possível estimar que o valor do conjunto das 18 empresas superaria facilmente os R$ 30 bilhões. Mas nem todo esse dinheiro é do governo.

A Cesp, por exemplo, vale R$ 10,1 bilhões atualmente. A participação do governo, entretanto, estaria ao redor de R$ 4 bilhões - sem levar em conta um eventual prêmio de controle. A Secretaria da Fazenda é dona de 93,68% das ações ordinárias (com direito a voto) e 3,22% das preferenciais. O Metrô detém 1,61% de ONs e 7,79% de PNs. Em sua edição de 19 de abril, o Valor antecipou que a privatização da Cesp estava voltando à pauta do governo de José Serra.

A Nossa Caixa tem uma capitalização de mercado de R$ 3,2 bilhões, sendo que o governo detém 71,25% do capital total do banco, o equivalente a R$ 2,28 bilhões. Na Sabesp, o governo já vendeu todas as ações que excediam o controle acionário. Atualmente, a Secretaria da Fazenda é dona, diretamente, de 50,26% do capital da companhia de saneamento, cujo valor de mercado é de R$ 10,9 bilhões.

Dada a magnitude do negócio, espera-se uma concorrência feroz entre os bancos para levar o mandato. As comissões devem ficar bastante reduzidas.

Valor Econômico

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O Movimento Estudantil

Solange Martins

Agosto de 1992. Com a força da contestação, os estudantes secundaristas ultrapassam os limites da sala de aula e saem às ruas para pedir o impeachment do Presidente Fernando Collor de Mello. Insatisfeitos com os rumos do governo, eles fazem ecoar seus direitos de cidadãos e exigem a ética na política. Ficam conhecidos como os “caras pintadas”.

Os movimentos estudantis no Brasil têm uma longa história de lutas que passa pela libertação dos escravos e pela proclamação da República. Mas foi a partir da criação da UNE - UNIÃO NACIONAL DOS ESTUDANTES -, no dia 13 de agosto de 1937, que os estudantes universitários se organizam para lutar pela construção da democracia e justiça social no Brasil.

A UNE participa de movimentos importantes: manifesta-se contra o regime nazi-fascista que se instaurava no país com o Estado Novo; exige uma posição do Brasil contra o Eixo durante a II Guerra Mundial; e luta pelo fim da ditadura Vargas.

Em 1947, com o ideal nacionalista, os estudantes aderem à campanha “O Petróleo é Nosso”. Nos anos 60, a UNE, somada às UEEs, representações estaduais de estudantes universitários, coloca-se ao lado dos movimentos populares.

O país atravessa um processo de transformações sociais, com movimentos trabalhistas e sindicais apoiados pelos partidos de esquerda. Cresce a instabilidade política quando Jânio Quadros renuncia e sobe ao poder o petebista João Goulart.
Jango, como fica conhecido, propõe reformas de base para o desenvolvimento do país com justiça social.

Sintonizada com a idéia de mudanças, a UNE cria os Centros Populares de Cultura e leva as discussões dos problemas sociais brasileiros, por meio do teatro, cinema e da música, para pontos distantes do país.

Na greve geral de 1962, a União Nacional dos Estudantes se une a Jango na luta pela reforma educacional. Eles reivindicam a ampliação do ensino gratuito e a democratização da estrutura universitária.

31 de março de 1964: Insatisfeitos com os rumos do governo Jango, os militares, apoiados por setores sociais conservadores, dão o golpe de Estado que leva o Brasil para uma longa ditadura militar.

No dia 1° de abril, a sede da UNE é incendiada no Rio de Janeiro.Os estudantes tentam resistir ao golpe militar. Mesmo sem sede a UNE continua ativa, na clandestinidade, criticando a intervenção norte-americana na educação brasileira, estabelecida no acordo MEC/USAID.

1968: enquanto o Brasil vive tempos de violenta repressão, explodem em vários países as manifestações estudantis. Apesar das questões específicas nacionais, há outras que são comuns a todos como a guerra, a justiça social, a liberdade de expressão…

No Brasil, o movimento estudantil também se intensifica. Mesmo sob forte repressão, líderes estudantis atendem a convocação da clandestina UNE para o seu 30° Congresso, realizado em Ibiúna, interior de São Paulo. O encontro é interrompido com a invasão da polícia, que prende centenas de estudantes.

Com a decretação do Ato Institucional número 5, os cidadãos brasileiros vivem a violência: direitos políticos cassados, intelectuais demitidos do serviço público, presos políticos torturados e desaparecidos.
Com o AI-5 em vigor, os movimentos estudantis de massa desaparecem para voltar no final da década de 70. Desta vez, para lutar pela anistia e pela volta ao regime democrático. A UNE volta à legalidade em 1985. Ressurgem grêmios e centros estudantis.

Em 1992, os estudantes de todo o país manifestam-se a favor do impeachment do Presidente Fernando Collor de Mello. Os jovens secundaristas pintam o rosto e se juntam a outros setores sociais na luta contra a corrupção e pela ética na política.

Alô Escola TV Cultura
http://www.tvcultura.com.br/aloescola/index.asp

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Professores querem comissão para nova eleição na faculdade

Bruno Ribeiro
Do Diário do Grande ABC

Os professores em greve da Fafil (Faculdade de Filosofia, Ciências e
Letras) da Fundação elaboraram uma pauta de negociação para depois da
queda do reitor.

Eles querem que uma comissão independente seja encarregada de organizar
novas eleições para reitor e vice-reitor do campus – embora prefiram que o
vice-reitor não perca seu posto. Uma comissão ficará encarregada também de
cuidar do vestibular da faculdade.

Além disso, os docentes exigem a interrupção do processo que apura
responsabilidades pela ocupação do prédio da Fafil, ação que causou a
reintegração de posse do edifício pela Tropa de Choque da Polícia Militar.

Os professores também desejam a abertura total das contas da faculdade
para investigar a gestão de Bermelho e para que se saiba em quanto a
Fundação está individada, com bancos e com a Receita Federal.

Só para a Receita, confome publicado pelo Diário, a dívida da Fundação
gira em torno de R$ 50 milhões, valor equivalente a um ano de
mensalidades.

Diário do Grande ABC
http://home.dgabc.com.br/

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Alunos já contam com Bermelho fora

Bruno Ribeiro
Do Diário do Grande ABC

Os alunos em greve da Fundação Santo André já contam com o reitor Odair
Bermelho fora da universidade. Ontem, a assembléia dos estudantes começou
a discutir os passos seguintes do movimento: eles querem a convocação de
eleições diretas em até 45 dias após o impeachment.

A assembléia foi uma das mais confusas de toda a greve (que dura 46 dias).
Muitos dos estudantes estão descontentes com a provável saída também do
vice-reitor da Fundação, Oduvaldo Cacalano – que é membro do movimento
grevista.

A convocação do Conselho Diretor da faculdade decidirá pela saída dos dois.

Caso a única forma de Bermelho cair seja com a saída de Cacalano junto, os
estudantes decidiram que apoiarão a decisão. Mas esperam que as votações
de impeachment ocorram em separado.

“Pretendemos lutar pela permanência do vice-reitor”, disse o estudante
José Dalmo, que é o indicado dos alunos no Conselho Diretor da Fundação

O temor dos estudantes é que, com a saída de Bermelho e também de
Cacalano, algum membro da reitoria indicado pelo atual reitor ocupe o
cargo máximo da instituição. Dessa forma, as irregularidades que os
grevistas denunciam se perpetuariam até a próxima gestão.

Um grupo de estudantes e professores pretende ir hoje à Câmara Municipal
para tentar apoio dos vereadores para que a votação da saída de Bermelho e
Cacalano ocorram em separado.

REUNIÃO
Os estudantes combinaram que acompanhar a reunião do Conselho Diretor, que
ocorre depois de amanhã no Fórum João Mendes, na Capital.

A outra reunião do Conselho, que também ocorreu em São Paulo, contou com
cerca de 300 alunos do movimento grevista.

Diário do Grande ABC
http://home.dgabc.com.br/

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García quer capitanear anti-Alba

NEWTON CARLOS

O presidente peruano, Alan García, nega. Mas publicações com forte inserção na América Latina, como o “Latin American Newsletter”, de Londres, tratam como “contraponto” à Alternativa Bolivariana para as Américas, a Alba, de Hugo Chávez, o lançamento de novo bloco político e econômico batizado de “Arco Pacífico”.
A idéia partiu de García e foi desenvolvida junto com a presidente do Chile, Michelle Bachelet, quando os dois participavam da cúpula da Apec (Fórum Econômico Ásia-Pacífico). Embora Peru e Chile ainda guardem ressentimentos originários de uma guerra no século 19, Bachelet e García aparentemente se entenderam.
A presidente chilena fala de iniciativa com o objetivo de desenvolver políticas econômicas e sociais de “modo coordenado”. Ao Peru e Chile se juntariam México, Panamá e Canadá. O Arco Pacífico seria um meio de “proteção unificada” diante da Ásia, encarada como dona do futuro em termos de comércio e investimento.
Até aí nada com Chávez. Mas García foi além, colocando em circulação o que chama de “modelo social moderno”. Seus “instrumentos de combate às desigualdades sociais” serão o livre comércio e investimentos. Algo que a “Latin American Newsletter” considera “diametralmente oposto” à Alba.
Em declarações a “El Comércio”, decano da imprensa conservadora de Lima, García disse que o “internacional-messianismo” não é parte da política peruana. Descartou buscas de liderança ou de exportações de idéias. Defendeu acordos de livre comércio com os EUA envolvendo países que acreditam que investimentos e comércio sejam essenciais para o combate à pobreza. Aposta mais nisso do que “em modelos alternativos movidos a ideologias” - retórica claramente anti-Chávez.
Mas não está sem obstáculos o caminho que o Arco Pacífico terá de percorrer até se tornar realidade. Sentimentos de rejeição ao Chile continuam fortes no Peru, cuja capital chegou a ser ocupada pelos chilenos. As Forças Armadas do Chile têm feito manobras militares junto à fronteira, provocando reações iradas em Lima.
Quanto ao México, seu novo governo “preocupa” a direita americana, que por ora tem assento na Casa Branca. Reaproxima-se de Cuba e pode estender-se até a Venezuela.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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A memória e a tradição dos oprimidos

Che Guevara não foi apenas um guerrilheiro heróico, um combatente que deu a vida pela libertação dos povos da América Latina, um dirigente revolucionário que - feito sem precedentes na história - deixou todos os seus cargos para voltar a pegar na espingarda contra o imperialismo. Foi também um pensador, um homem de reflexão, que nunca deixou de ler e de escrever, aproveitando qualquer pausa entre duas batalhas para pegar na caneta e no papel. O seu pensamento torna-o um dos mais importantes renovadores do marxismo na América Latina, talvez o mais importante depois de José Carlos Mariátegui.

Michael Löwy

Che Guevara não foi apenas um guerrilheiro heróico, um combatente que deu a vida pela libertação dos povos da América Latina, um dirigente revolucionário que - feito sem precedentes na história - deixou todos os seus cargos para voltar a pegar na espingarda contra o imperialismo. Foi também um pensador, um homem de reflexão, que nunca deixou de ler e de escrever, aproveitando qualquer pausa entre duas batalhas para pegar na caneta e no papel. O seu pensamento torna-o um dos mais importantes renovadores do marxismo na América Latina, talvez o mais importante depois de José Carlos Mariátegui.

Por Michael Löwy, prólogo ao livro de Ernesto Che Guevara: El sujeto y el poder de Néstor Kohan

Curiosamente, a maioria das biografias do Che recentemente publicadas não dão conta deste aspecto essencial da sua personalidade. Até os autores que manifestam simpatia pela sua figura não entendem ou menosprezam a sua obra marxista. Por exemplo, no belo livro de Paço Ignacio Taibo II, os escritos do Che por ocasião da discussão sobre a lei do valor são postos de lado como “um labirinto de citações” inspirado por um “marxismo bíblico”. Quanto ao jornalista francês Pierre Kalfon, considera o apaixonante ensaio “O Socialismo e o Homem em Cuba” como “um monte de fórmulas”, inspiradas por “um dogmatismo de outras épocas”, quer dizer, pela “logomaquia marxista tradicional”!

Ora se se ignora ou se despreza o pensamento de Che, as suas ideias, os seus valores, a sua teoria revolucionária, o seu marxismo crítico, como se pode entender a coerência da sua vida, os motivos essenciais da sua acção, a inspiração político-moral da sua prática, o fogo sagrado que o movia?

Guevara não chegou ao marxismo pela experiência da própria revolução; pelo contrário, tentou muito cedo decifrar essa revolução recorrendo a referências marxistas, e assim foi o primeiro a captar plenamente o significado histórico-social da revolução cubana, proclamando, em Julho de 1960, que esta “descobriu também, pelos seus próprios métodos, os caminhos que assinalou Marx”. (1) Mas muito antes, em Abril de 1959, ele já previa o rumo que ia tomar o processo cubano, depois da queda da ditadura de Batista: trata-se, dizia o Che numa entrevista com um jornalista chinês, de “um desenvolvimento ininterrupto da revolução”, até abolir “o sistema social existente” e os seus “fundamentos económicos”. (2)

De 1959, até à sua morte, o marxismo do Che evoluiu. Ele afasta-se cada vez mais das ilusões iniciais acerca do método soviético de socialismo e do estilo soviético - quer dizer, estalinista - do marxismo. Nos seus escritos percebe-se de maneira cada vez mais explícita, sobretudo a partir de 1963, a busca de um modelo alternativo, a tentativa de formular outra via para o socialismo, diferente dos paradigmas oficiais do “socialismo realmente existente”. O seu assassinato pelos agentes da CIA e os seus sócios bolivianos em Outubro de 1967 vai interromper um processo de maturação política e de desenvolvimento intelectual autónomo. A sua obra não é um sistema fechado, um discurso acabado que tem resposta para tudo. Sobre muitas questões - a democracia na planificação, a luta contra a burocracia - a sua reflexão é incompleta.

O marxismo de Che distingue-se das variantes dominantes na sua época. É um marxismo antidogmático, ético, pluralista, humanista, revolucionário. Alguns exemplos permitem ilustrar estas características.

Antidogmático: Marx, para o Che, não era um Papa favorecido com o dom da infalibilidade. Nas suas “Notas para o estudo da ideologia da Revolução cubana” (1960), ele sublinha: mesmo sendo um gigante do pensamento, o autor de O Capital tinha cometido erros que se podem e devem criticar. Por exemplo, em relação à América Latina, a sua interpretação de Bolívar, ou a análise do México que ele faz com Engels “dando por estabelecidas inclusive certas teorias das raças ou das nacionalidades inadmissíveis hoje”. (3)

Mais grave que os erros de Marx são os fenómenos de dogmatização burocrática do marxismo no século XX: em várias ocasiões Guevara queixa-se da “escolástica que travou o desenvolvimento da filosofia marxista” - uma evidente referência ao estalinismo - e que inclusive impediu sistematicamente o estudo do período de construção do socialismo. (4)

Ético: A acção revolucionária é inseparável de certos valores éticos. Um dos exemplos é o tratamento aos prisioneiros de uma guerrilha: “Uma clemência o mais absoluta possível com os soldados que vão combater cumprindo, o pensando cumprir, o seu dever militar. (…) Os sobreviventes devem ser deixados em liberdade. Os feridos devem ser cuidados com todos os recursos possíveis”(5). Um incidente da batalha de Santa Clara ilustra ocomportamento do Che: a um companheiro que propõe que se execute um tenente do exército feito prisioneiro, o comandante Guevara responde: “Pensas que somos como eles?”(6)

A construção do socialismo é inseparável de certos valores éticos, contrariamente ao que defendem as concepções economicistas - de Stálin a Charles Bettelheim - que só consideram “o desenvolvimento das forças produtivas”. Na famosa entrevista com o jornalista Jean Daniel (Julho de 1963) o Che dizia, no que já era uma crítica implícita ao “socialismo real”: “O socialismo económico sem a moral comunista não me interessa. Lutamos contra a miséria, mas ao mesmo tempo contra a alienação. (…) Se o comunismo passa por alto os fatos da consciência, poderá ser um método de repartição, mas já não é uma moral revolucionária”.(7)

Pluralista: Mesmo que o Che nunca tenha chegado a formular uma concepção acabada da democracia socialista, defendia a liberdade de discussão no campo revolucionário e o respeito à pluralidade de opiniões. O exemplo mais taxativo é a sua resposta - num relatório de 1964 aos seus companheiros do Ministério da Indústria - à crítica de “trotskismo” que lhe lançaram os soviéticos: “A este respeito, creio que ou temos a capacidade de destruir com argumentos a opinião contrária, ou devemos deixá-la expressar-se… Não é possível destruir uma opinião com a força, porque isso bloqueia todo o desenvolvimento livre da inteligência. Também do pensamento de Trotsky podemos tomar uma série de coisas, mesmo se, como penso, se tenha enganado nos seus conceitos fundamentais, e se a sua ação ulterior tenha sido errada…”(8)

Revolucionário: Durante anos e décadas, o marxismo serviu na América Latina de justificação a uma política reformista de subordinação do movimento operário a uma aliança com a suposta “burguesia nacional”, com vista a uma suposta “revolução democrática”, nacional e antifeudal”. Na sua “Mensagem à Tricontinental” (1966) Guevara cortou o nó górdio que atava os explorados de mãos e pés: “Não há mais mudanças a fazer: ou revolução socialista ou caricatura de revolução”.(9)

Humanista: A leitura de Marx por Che é totalmente diferente da vulgata estruturalista, “anti-humanista teórica”, althusseriana, que tanto se difundiu na América Latina nos anos 60 e 70. A crítica do capitalismo - sociedade na qual “o homem é o lobo do homem” - a reflexão sobre a transição para o socialismo, a utopia comunista de um homem novo: todos os temas centrais da obra marxista do Che têm o seu fundamento no humanismo revolucionário. Na sua conversa com os jovens comunistas em 1962, Guevara insistiu que o revolucionário deve “colocar sempre os grandes problemas da humanidade como problemas próprios”, quer dizer, “sentir-se angustiado quando se assassina um homem em qualquer canto do mundo e para sentir-se entusiasmado quando nalgum canto doo mundo se levanta uma nova bandeira de liberdade”. Mais além dos erros tácticos ou mesmo estratégicos, o compromisso pessoal do Che com a revolução no Congo e na Bolívia, com o risco da sua vida, é a tradução nos factos destas palavras.

O mundo - e a América Latina - mudaram muitíssimo nestes últimos 30 anos. Não se trata de voltar atrás e procurar nos escritos de Che a resposta a todos os nossos problemas atuais. Mas a verdade é que os povos continuam, hoje como ontem, sob o domínio do imperialismo; que o capitalismo, na sua forma neoliberal, continua a produzir os mesmos efeitos: injustiça social, opressão, desemprego, pobreza, mercantilização dos espíritos. Pior: nunca no passado o grande capital financeiro multinacional exerceu um poder tão esmagador sobre o conjunto do planeta. Nunca, como agora, conseguiu o capitalismo afogar todos os sentimentos humanos nas “águas glaciais do cálculo egoísta”. Por isso precisamos, hoje mais do que nunca, do marxismo do Che, de um marxismo antidogmático, ético, pluralista, revolucionário, humanista.

No século XXI, quando já estiverem esquecidos os ideólogos neoliberais que hoje ocupam a cena política e cultural, as novas gerações lembrar-se-ão ainda do Che, do seu combate e das suas ideias.

II

Segundo Walter Benjamin, na sua tese Sobre o Conceito de História (1940), as forças da rebelião dos oprimidos têm as suas raízes na memória dos vencidos, dos ancestrais caídos na luta. A América Latina é um exemplo impressionante desta regra: as revoltas e as insurreições populares durante o século XX e até hoje inspiraram-se nas figuras de José Marti, Emiliano Zapata, Augusto Sandino, Ernesto Che Guevara. Lutadores vencidos, que caíram com as armas nas mãos e se transformaram, para sempre, em grãos de futuro semeados na terra latino-americana, estrelas no céu da esperança popular.

Este livro de Nestor Kohan é muito mais que uma homenagem a Ernesto Guevara: é uma importante contribuição ao debate marxista na América Latina, a partir de uma leitura humanista e revolucionária dos escritos do médico-guerrilheiro argentino. Não se trata de uma obra sistemática, mas sim de uma coleção de ensaios, conferências, entrevistas, que abordam múltiplos aspectos do pensamento do Che e da sua herança no movimento revolucionário latino-americano (Robi Santucho, Miguel Enríquez). Esta diversidade, esta pluralidade de posições e de temas, é precisamente o que faz o interesse do livro, a sua riqueza, a sua vitalidade.

Ao mesmo tempo, é evidente a unidade, a coerência deste conjunto de trabalhos: todos têm por fio condutor a filosofia da praxis, o marxismo humanista, a perspectiva revolucionário-socialista de Guevara. E em vários discute-se o que é, creio, uma das suas contribuições mais importantes: a formulação de uma via nova para o socialismo, que não seja “decalque e cópia” (para retomar a fórmula de Mariátegui) da experiência soviética. A sua concepção - combatida como “utópica e perigosa” pelo partidário Estaline (e de Althusser) Charles Bettelheim, mas sustentada por Ernest Mandel, o principal teórico e dirigente da Quarta Internacional - acerca da contradição entre o plano e o mercado é inseparável, como muito bem defende Néstor, do seu humanismo teórico, do seu desejo de libertar os indivíduos da alienação e da “jaula invisível” das leis económicas mercantis.

Analisando vários escritos económicos do Che recentemente publicados, e dialogando com Orlando Borrego, Néstor permite-nos conhecer melhor a evolução do seu pensamento nos últimos anos (1964-67), o seu interesse pelas posições da Oposição de Esquerda (Preobrajensky, Trotsky), a sua rejeição dos “Manuais” soviéticos, a sua busca de novas soluções, a sua intuição segundo a qual a URSS ia acabar por restaurar o capitalismo.

No título do seu livro (10), e num dos ensaios, Néstor defende a atualidade das ideias - e do combate - internacionalista radical do Che para o “movimento dos movimentos” nascido em Seattle em 1999: mais além do capitalismo e do brutal domínio imperialista, “um outro mundo é possível”, baseado nos valores da solidariedade, da igualdade e da liberdade que constituem o socialismo.

O que dá todo o valor singular a este livro é a sua maneira de associar o compromisso militante com a herança revolucionária e marxista do Che, e uma reflexão teórica profunda sobre questões como a filosofia da práxis, o conceito de alienação, o estruturalismo, o determinismo, o pós-modernismo.

Podemos criticar uma ou outra formulação de Néstor, ou estar em desacordo com uma ou outra posição - por exemplo, sobre a relação entre democracia e socialismo em Cuba - mas são livros como este que nos ajudam a implementar a tarefa que Walter Benjamin destinava ao pensamento revolucionário: salvar a tradição dos oprimidos do conformismo que tenta apoderar-se dela.

Paris, 6 de Abril de 2005

1″Ao Primeiro Congresso Latino-americano de Juventudes”, discurso de 28 de Julho de 1960, em Ernesto Che Guevara, Obras 1957-1967, La Habana, Casa de las Américas, 1970, vol. 2, p. 392. Citaremos adiante esta edição como Casa.
2 E.Guevara, Selected Works, Cambridge, MIT Press, 1970, p. 372.
3 Casa, vol. 2, p.416.
4 Casa, vol. 2, pp. 416, 190. Num discurso de Abril de 1962 sobre Escalante e a sua tentativa de estalinização do partido revolucionário cubano, Guevara sublinha a relação íntima entre afastamento das massas, burocratismo, sectarismo e dogmatismo. Em Ernesto Guevara, Obra revolucionaria, México, Era, 1967, p.333.
5 Che Guevara, “La guerra de guerrillas”, Casa, vol. 1, p. 46.
6 Citado em Paco Ignacio Taibo II, Ernesto Guevara, connu aussi comme le Che, Paris, Payot, 1997, p.299.
7 Em L’Express, 25 de Julho de 1963, p.9.
8 Che Guevara, “Il piano i gli uomini”, Il Manifesto n° 7, deciembre del 1969, p.37.
9 Casa vol. 2, p. 589. É impressionante o paralelo com a tese de José Carlos Maraitegui em 1929: “À América do Norte, plutocrática, imperialista, só é possível opor eficazmente uma América Latina o Ibérica, socialista. (…) O destino destes países, dentro da ordem capitalista, é o de simples colónias”. (J.C.Mariategui, El proletariado y su organización, México, Grijalbo, 1970, pp. 119-121)
10 Na sua primeira edição impressa, este livro apareceu com o título com o título Ernesto Che Guevara: Otro mundo es posible. A esse título faz referência no seu prólogo Michael Löwy. [Nota de N.K.]

Michael Löwy

Site do Deputado Federal Ivan Valente - Psol SP.
http://www.ivanvalente.com.br/

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Reunião do Conselho Diretor da FSA será dia 1º

Redação

O Conselho Diretor da FSA (Fundação Santo André) reúne-se nesta quinta-feira (1° de novembro), às 14h, no Fórum João Mendes, na capital. O órgão é o único capaz de retirar o reitor Odair Bermelho da presidência da instituição.

A saída de Bermelho é uma das condições para que a greve de professores e estudantes da Fafil (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras) acabe. O encontro foi marcado inicialmente para esta segunda-feira (29), na Câmara de Santo André, mas a administração da FSA alegou que não havia sido avisada formalmente e agendou a nova data.

A instituição vive sua pior crise, deflagrada no início de setembro, com a invasão da reitoria pelos estudantes e a entrada da Tropa de Choque da Polícia Militar para retira-los. Alguns estudantes ficaram feridos durante a ação. Alunos e professores acusam Bermelho de arbitrariedade, perseguição, além de promover o sucateamento de cursos da Fafil.

Repórter Diário

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Projeto na Câmara propõe plebiscito oficial da Vale

Pedro Carrano
de Curitiba (PR)

O DEPUTADO federal Ivan Valente (PSOL-SP) não se contenta apenas com o resultado da consulta popular favorável à anulação da venda da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), privatizada em 1997. O parlamentar defende que a luta das organizações sociais deve transformar-se em um plebiscito deliberativo, de caráter oficial. No dia 4, ele apresentou um projeto de decreto legislativo na Câmara Federal para convocar o plebiscito – um mecanismo previsto no artigo 14 da Constituição de 1988. Previsto, porém pouco colocado em prática desde que a Carta Magna entrou em vigor.

Valente prevê que será necessária muita mobilização popular para que o decreto não seja barrado pela reação conservadora do Congresso – algo que ele mesmo provou, ao instalar uma urna do plebiscito no corredor da Câmara de Deputados, causando furor na classe política. O deputado ressalta também que o debate levantado pela consulta popular possibilitou a proposta do oficial.

Para Valente, é preciso ouvir a sociedade brasileira de maneira geral sobre o assunto, “porém, no caso da Vale essa audiência é urgente”. O parlamentar lembra que os recursos naturais, agora nas mãos de particulares, não são renováveis, mas são fundamentais para o desenvolvimento nacional e para a manutenção da soberania do país.

Brasil de Fato – Qual é a relação e a importância do consulta popular como acúmulo para a realização de um plebiscito oficial?

Ivan Valente – Sem dúvida o plebiscito é o principal ponto de apoio para que essa proposta tenha capacidade de emplacar. O trabalho desenvolvido por um conjunto de entidades dos movimentos sociais, mesmo com o boicote da mídia e de setores ligados ao governo, foi decisivo para recolocar nas ruas o debate sobre as privatizações. Inúmeras denúncias e processos judiciais envolvem a questão da privatização da Vale, sendo a maioria delas relativa a ilegalidades no processo de venda da empresa. Apresentada à sociedade como um passo no sentido da “modernidade”, a privatização da Vale do Rio Doce representou, na verdade, a transferência do controle sobre setores importantes da atividade econômica brasileira às mãos de grupos econômicos nacionais e transnacionais – incluindo o controle controle sobre reservas minerais estratégicas para o desenvolvimento nacional. É necessário que a sociedade brasileira seja ouvida sobre o tema de forma geral, porém, no caso da Vale do Rio Doce, essa audiência ao povo brasileiro é urgente e necessária, haja vista que esses recursos naturais que estão em mãos particulares não são renováveis e são essenciais para o crescimento do país e para a manutenção da sua soberania. Esse debate foi desenvolvido com precisão pelo plebiscito e oferece os subsídios para estender esse debate num processo oficial, que mobilizaria, evidentemente, os setores prós e contras a reestatização. Fazer esse debate às claras com o povo é decisivo. Hoje, uma parte considerável da população tem consciência de quanto o país perdeu, de como a soberania nacional foi atacada.

Qual é o mecanismo constitucional que possibilita a realização de um plebiscito oficial sobre a questão da Vale?

O plebiscito, o referendo e a iniciativa popular são previstos no artigo 14 da Constituição Federal para garantir a participação popular em questões de relevante interesse da sociedade. O plebiscito é uma das formas de exercício da soberania popular, exercido pelo voto secreto e convocado previamente à realização de ato legislativo ou administrativo. A matéria é disciplinada pela Lei nº 9.709 de 18 de novembro de 1998, que regulamentou a execução dos incisos I, II e III do artigo 14 da Constituição Federal. O referido artigo 3º determina que, na hipótese de questão de relevância nacional o plebiscito será convocado mediante legislativo, por proposta de um terço, no mínimo, dos membros que compõem qualquer das casas do Congresso Nacional. Por isso, optamos pela apresentação de um projeto de decreto legislativo na Câmara Federal, onde foram colhidas 184 assinaturas, superando a exigência mínima para a apresentação dessa iniciativa, que é de 171 assinaturas.

Existe a possibilidade do decreto legislativo ser aprovado?

O projeto tem tramitação semelhante a um projeto de lei e, para ser aprovado, precisa de maioria simples no plenário. A diferença é que o decreto legislativo, uma vez aprovado, não está sujeito a veto ou interferência de outro poder. Mas sabemos que só será possível a sua aprovação se houver uma forte pressão popular, pois não é do interesse do governo e muito menos de setores da oposição de direita, como PSDB e DEM, reabrir o debate sobre as privatizações, principalmente em relação à Vale, que talvez seja o caso mais emblemático.

De Brasília, como o senhor percebeu a reação da cúpula governista e das elites contra o plebiscito e que reações o senhor espera contra o plebiscito oficial?

Tivemos a oportunidade de travar o debate no próprio plenário da Câmara. Por iniciativa da nossa bancada uma urna foi aberta para colher os votos dos deputados e dos funcionários da Casa. Essa iniciativa recebeu críticas iradas dos partidos de direita. Primeiro, tentaram impedir a própria coleta dos votos, depois passaram a atacar o mérito do plebiscito, com argumentos do tipo: o plebiscito coloca em risco a ordem econômica no Brasil ou que o assunto já está vencido e que o povo supostamente defende as privatizações. É óbvio que um plebiscito oficial, caso venha a ser aprovado, mobilizará os setores da direita e colocará o governo Lula em uma situação de escolha. Afinal, para derrotar Alckmin atacou as privatizações e, no entanto, o seu governo também tem contornos privatistas, como no caso das Parcerias Público- Privadas (PPPs), das concessões de florestas públicas, das licitações das estradas federais, da tentativa de abrir o capital da Infraero, dos leilões das bacias petrolíferas. Quando do consulta popular, o governo Lula se apressou em dizer que a reestatização da Vale não está em questão, que a elite econômica pode dormir sossegada que ninguém mexerá nesse vespeiro. Então, um plebiscito oficial seria a hora da verdade. Acreditamos que, apesar do poder econômico e do controle dos grandes meios de comunicação que os apologistas das privatizações detêm, o debate direto com o povo permite que os setores populares desmascarem o falso discurso de que o que é privado é mais eficiente, de que o Estado é oneroso, recolocando o debate do papel do Estado como indutor do crescimento econômico, como propulsor da distribuição de renda e de mudanças estruturais que possam trazer uma vida digna ao nosso povo.

Seria a primeira vez que o artigo 14 da Constituição é colocado em prática partindo de uma reivindicação das organizações de esquerda e entidades de caráter social?

Passados 19 anos da aprovação da Constituição de 1988, os mecanismos criados de participação popular ainda não foram efetivamente testados e usados pela população. Para nós, fundamental também colocar o debate por esse aspecto. É evidente que não há interesse daqueles que controlam o jogo político no país de consultar sistematicamente a população. Seria possível aproveitar o calendário eleitoral, que no Brasil se dá de dois em dois anos, para ouvir a população sobre temas de real interesse público. Questões como a dívida pública, a reforma da Previdência e a reforma trabalhista poderiam passar pelo crivo popular e aproximar a população do debate político.

Quem é
Ivan Valente começou sua militância na década de 1960, quando foi dirigente do Centro Acadêmico da Escola de Engenharia Mauá, na Grande São Paulo. Participou da resistência à ditadura, sendo perseguido, preso, torturado e condenado pelo regime militar. Fundador do PT e membro da direção nacional do partido por 17 anos, Valente elegeu-se deputado estadual em duas ocasiões (1987 a 1990 e 1991 a 1994). Em 1995, chegou à Câmara Federal, sempre por São Paulo. No pleito seguinte, tornou-se deputado federal suplente do PT, assumindo uma cadeira durante 2001, para se eleger novamente em 2002. Em 2005, filiou-se ao PSOL, partido pelo qual foi eleito deputado federal para a legislatura 2007-2010.

Jornal Brasil de Fato
ttp://www.brasildefato.com.br/

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Apoio à nossa luta na FSA

1) Aziz Ab’Saber – Geografia USP (aposentado)
2) Lincoln Secco - História USP
3) Ricardo Musse - Sociologia USP
4) Cilaine Alves Cunha - Letras USP
5) Fernando Novais - História USP / Unicamp
6) Roberto Schwarz - Letras Unicamp (aposentado)
7) Maria Célia Paoli - Sociologia USP
8) Leda Paulani - Economia USP
9) Maria Arminda do Nascimento Arruda - Sociologia USP
10) Marcos Del Roio - Ciência Política Unesp Marília
11) Paulo Eduardo Arantes - Filosofia USP
12) Marcos Silva - História USP
13) Marineide de Oliveira Gomes – Pedagogia USP Ribeirão Preto
14) Caio Navarro de Toledo – Ciência Política Unicamp
15) Selma Borghi Venco – Sociologia Unicamp
16) Franklin Leopoldo e Silva – Filosofia USP
17) Lighia Brigitta Horodynski-Matsushigue – Física USP
18) Zilda Iokoi – História USP
19) Otília Fiori Arantes – Filosofia USP
20) Mariana Fix – Design Facamp (Faculdades de Campinas)
21) Ivone Dare Rabello – Letras USP (aposentada)
22) Suzana Salem Vasconcelos – Física USP
23) Luiz Eduardo Simões de Souza – Economia Uergs (Universidade Estadual
do Rio Grande do Sul)
24) Paulo Henrique Martinez - História Unesp Assis
25) Luís Fernando Ayerbe - Relações Internacionais Unesp Araraquara
26) Jesus Ranieri - Sociologia Unicamp
27) Heloísa Fernandes - Sociologia USP e Escola Nacional Florestan
Fernandes do MST
28) Amarílio Ferreira – UFSCar (Universidade Federal de São Carlos)
29) Valério Arcary - História CEFET/SP (Centro Federal de Educação
Tecnológica de São Paulo)
30) João Francisco Tidei Lima – Unesp Bauru
31) Lidiane Soares Rodrigues – Doutoranda História USP
32) Alcir Pécora - Letras Unicamp
33) Anita Handfas – Educação UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
34) Margareth Rago - História Unicamp
35) Vera Lucia Vieira - História PUC-SP
36) Arlete Moyses Rodrigues – Geografia Unicamp
37) Antônio Miguel - Educação Unicamp
38) Ronilde Rocha - Consultora em educação e ensino de História e
professora da rede municipal de São Paulo (aposentada)
39) Francisco Foot Hardman - Letras Unicamp
40) Márcio Naves – Sociologia Unicamp
41) Élide Menezes Centofanti – Psicologia UMC (Universidade de Mogi das
Cruzes) aposentada
42) Maria Luiza Jovanovic - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
43) Paulino Cardoso - História Udesc (Universidade do Estado de Santa
Catarina)
44) Claudia Sapag Ricci - História UFMG (Universidade Federal de Minas
Gerais)
45) Olga Brites - História PUC-SP
46) Mário Fernando Bolognesi - Artes Unesp São Paulo
47) Antônio Carlos Mazzeo – Ciência Política Unesp Marília
48) Maria Victória Benevides - Educação USP
49) Adalberto Paranhos – Ciências Sociais UFU (Universidade Federal de
Uberlândia)
50) Edilson Graciolli – Ciências Sociais UFU (Universidade Federal de
Uberlândia)
51) Fernando Antonio Lourenço - Sociologia Unicamp
52) Agnaldo dos Santos – Administração Uninove (Centro Universitário Nove
de Julho)
53) Glória Anunciação Alves – Geografia USP
54) Elvio Rodrigues Martins – Geografia USP
55) Regina Helena Alves da Silva - História UFMG (Universidade Federal de
Minas Gerais)
56) João Bernardo – professor e escritor
57) Valeria de Marcos - Geografia USP
58) Pedro Arantes - Design Facamp (Faculdades de Campinas)
59) Rafael Marquese - História USP
60) Ana Fani Alessandri Carlos - Geografia USP
61) Déa Ribeiro Fenelon - História PUC-SP e Unicamp (aposentada)
62) Brás Ciro Gallota - História PUC-SP
63) Francisco Alambert - História USP
64) Vera Lúcia Santiago Araújo - Letras UECE (Universidade Estadual do Ceará)
65) Silvia Hunold Lara - História Unicamp
66) Sidney Chalhoub - História Unicamp
67) Letícia Vidor de Souza Reis - História Unimep (Universidade Metodista
de Piracicaba)
68) Ivone Cordeiro Barbosa - História UFC (Universidade Federal do Ceará)
69) Manoela da Silva Pedroza - Doutoranda Unicamp
70) Joviniano Borges da Cunha - Universidade Anhembi-Morumbi
71) Bernardo Boris Vargaftig – Ciências Biomédicas – USP
72) Heloisa de Faria Cruz - História PUC-SP
73) Claudia Poncioni - Université Paris X - França
74) Jean-Yves Mérian - Université Rennes2 - Haute Bretagne - França
75) Roberto Romano - Filosofia Unicamp
76) Luiz Roberto Alves – Jornalismo Umesp (Universidade Metodista de São
Paulo) e ECA-USP
77) Marcos Arruda – professor visitante universidades do exterior
78) Cid Benjamin – Comunicação Social Facha (Faculdade Hélio
Alonso)
79) Laura Antunes Maciel - História UFF (Universidade Federal
Fluminense)
80) Maria Antonieta Antonacci - História PUC-SP
81) Paulo Roberto de Almeida - História UFU (Universidade Federal de
Uberlândia)
82) Bento Itamar Borges - Filosofia UFU (Universidade Federal de Uberlândia)
83) Rejane Meireles Amaral Rodrigues - História UNIMONTES/MG
84) Osvaldo Coggiola – História USP
85) Inessa Laura Salomão - Engenharia de Produção - CEFET/RJ (Centro
Federal de Educação Tecnológica)
86) Helena Hirata - Sociologia CNRS (Centre National de la Recherche
Scientifique) – França
87) Normando Rodrigues - Direito UFRJ (Universidade Federal do Rio de
Janeiro)
88) Ana Maria Silva - Turismo Fefisa (Faculdades Integradas de Santo André)
89) Luiz Carlos Pereira - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
90) Fábia C. Alegrance - Fisioterapia Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
91) Luciana Vieira de Melo Kuk - Fisioterapia Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
92) Margareth Anderáos - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
93) Nicolino Bello Júnior - Educação Fisica Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
94) Sérgio Garcia Stella - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
95) Ricardo Zanuto Pereira - Fisioterapia Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
96) Rosemarie C. Sanches - Turismo Fefisa (Faculdades Integradas de Santo
André)
97) Vinicius J. B. Martins - Fisioterapia Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
98) Sueo Hirota - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de Santo
André)
99) William S. Freitas - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
100) Marcelo Reina Siliano - Fisioterapia Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
101) Edvar Boechat Soares - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
102) Isilda M. R. Cavicchioli - Educação Física Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
103) Maria Teresa B. Martins - Educação Física Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
104) Maria Eliza M. Bernardes - Educação Física Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
105) Rosana Delfini - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
106) Evando Carlos Moreira - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
107) Fabiano João - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de Santo
André)
108) Sandra Maria Tedeschi - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
109) Albertina O. C. Misko - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
110) Gilberto de Andrade Martins – Contabilidade USP
111) José Artur Gianotti – Filosofia USP (aposentado) e pesquisador do
Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)
112) Heloisa Martins - Sociologia USP (aposentada)
113) Angelina Peralva - Sociologia Universidade de Toulouse II -
França
114) João Zanetic – Física USP e ex-presidente da Adusp (Associação dos
Docentes da USP)
115) Nadia W. Hanania Vianna - Administração USP (aposentada)
116) Francisco Luiz C. Lopreato – Economia Unicamp
117) Denis Maracci Gimenez – Economia Unicamp
118) Wilson Cano – Economia Unicamp
119) Gabriel de Santis Feltran - Doutorando Unicamp
120) Otaviano Helene – Física USP e presidente da Adusp (Associação dos
Docentes da USP)
121) Daciberg Lima Gonçalves – Matemática USP
122) Lucília Daruiz Borsari - Matemática USP
123) José Dari Krein – Economia Unicamp
124) Antonio Lázaro Sant´Ana - Unesp Ilha Solteira
125) Elmir de Almeida – Pedagogia USP Ribeirão Preto
126) Geraldo Leão - Educação UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)
127) Américo Scotti - Engenharia Mecânica UFU (Universidade Federal de
Uberlândia)
128) Estefânia Knotz C. Fraga - História PUC-SP
129) Luiz Henrique dos Santos Blume - História UESC (Universidade Estadual
de Santa Cruz - BA)
130) Alexandre Fortes - História / Economia UFRRJ (Universidade Federal
Rural do Rio de Janeiro)
131) Fernando Teixeira da Silva - História Unicamp
132) Raimundo Donato do Prado Ribeiro – coordenador de História Unimep
(Universidade Metodista de Piracicaba)
133) Ciro Teixeira Correia – Geologia USP
134) Marco A. Brinati – Engenharia Naval USP e ex-vice-presidente da Adusp
(Associação dos Docentes da USP)
135) Cláudia Pereira Vianna – Educação USP
136) Maria da Graça Setton – Educação USP
137) Elie Ghanem – Educação USP
138) Rosângela G. Prieto – Educação USP
139) César Augusto Minto - Educação USP e ex-presidente da Adusp
(Associação dos Docentes da USP)
140) Américo Sansigolo Kerr – Física USP e ex-presidente da Adusp
(Associação dos Docentes da USP)
141) Paulo Luiz Miadaira - Faculdade São Luís e Fundação Escola de
Sociologia e Política de São Paulo
142) Daniel Revah - Pedagogia Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)
143) Manoela da Silva Pedroza - Doutoranda Unicamp
144) Henrique Soares Carneiro – História USP
145) Sérgio Paulo Amaral Souto - Zootecnia USP
146) Marcus Aloízio Martinez de Aguiar - Física Unicamp
147) Artionka Capiberibe - Doutoranda UFRJ (Universidade Federal do Rio de
Janeiro)
148) Lucimara Batista Freire - Faculdade Anchieta - São Bernardo do Campo
149) Théo Lobarinhas Piñeiro - História UFF (Universidade Federal Fluminense)
150) Alexsander Lemos de Almeida Gebara - História UFF (Universidade
Federal Fluminense)
151) Theresa Beatriz Figueiredo Santos - Diretora da Faculdade de Ciências
Humanas da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba)
152) Daniel Aarão Reis - História UFF (Universidade Federal Fluminense)
153) Antonio Paulo Rezende - História - UFPE (Universidade Federal de
Pernambuco)
154) Marcos Nascimento Magalhães – Matemática USP e ex-presidente da Adusp
(Associação dos Docentes da USP)
155) Maria Clara Di Pierro – Educação USP
156) Moacir Gadotti – Educação USP
157) Lisete R. G. Arelaro – Educação USP
158) Afrânio Mendes Catani – Educação USP
159) Lúcia E. Barreto Bruno – Educação USP
160) Doris Accioly e Silva – Educação USP
161) Roberto da Silva – Educação USP
162) Rubens Barbosa de Camargo – Educação USP
163) Vânia Noeli Ferreira de Assunção - História Cogeae PUC-SP
164) Antonio Ozaí da Silva – Ciências Sociais UEM (Universidade Estadual
de Maringá)
165) Joana Aparecida Coutinho - Ciência Política - UFMA (Universidade
Federal do Maranhão)
166) Antônio José Lopes Alves – Filosofia Colégio Técnico da UFMG
(Universidade Federal de Minas Gerais)
167) Sabina Maura Silva – Filosofia Fundação Helena Antipoff – Minas Gerais
168) Maria Helena da Silva – Diretora EE Carlos Drummond de Andrade
169) Conceição Gonçalves de Toledo - vice-diretora EE Carlos Drummond de
Andrade
170) Francisco Josino da Silva - EE Carlos Drummond de Andrade
171) Roni Cleber Dias de Menezes - Educação USP
172) Everton Capri Freire – ex-professor de Jornalismo Fiam (Faculdades
Integradas Alcântara Machado)
173) Ronaldo Fabiano dos Santos Gaspar - Pedagogia Unicastelo e FAD
(Faculdade Diadema)
174) Luís Roberto de Paula – antropólogo e ex-professor da Fundação Santo
André
175) Alvaro Bianchi - Ciência Política Unicamp
176) Celia Maria Benedicto Giglio – Pedagogia Unifesp (Universidade
Federal de São Paulo)
177) Marcos Antonio de Moraes – Letras USP
178) Marcos Pereira Rufino - Antropologia Unifesp (Universidade Federal de
São Paulo)
179) Luiz Antonio Zimermann do Nascimento – São Paulo
180) Luís Esteban Dominguez – Semiótica Cogeae PUC-SP
181) Regina Maria de Souza - Educação Unicamp
182) Luci Banks Leite - Educação Unicamp
183) Pedro Tórtima – Direito UCAM (Universidade Candido Mendes) Rio de
Janeiro
184) Miguel Wady Chaia - Ciência Política PUC-SP
185) Tânia Elias Magno da Silva – Sociologia UFS (Universidade Federal de
Sergipe)
186) Henri de Carvalho - História - Unimesp (Centro Universitário
Metropolitano de São Paulo)
187) Valéria Alves Esteves Lima - História Unimep (Universidade Metodista
de Piracicaba)
188) Antonio Miguel - Educação Unicamp
189) Karen Macknow Lisboa - História Unifesp (Universidade Federal de São
Paulo)
190) Maria de Fátima Carvalho - Pedagogia Unifesp (Universidade Federal de
São Paulo)
191) Regina Cândida Ellero Gualtieri – Pedagogia Unifesp (Universidade
Federal de São Paulo)
192) Mônica Marques Pimenta de Andrade – Medicina UFU (Universidade
Federal de Uberlândia) – aposentada
193) Carlos Eduardo Albuquerque Miranda – Educação Unicamp
194) Carmen Roselaine de Oliveira Farias - Educação UFSCar (Universidade
Federal de São Carlos)
195) Vanicléia Silva Santos - Doutoranda História Social USP
196) Isabel Cristina Moroz - Doutoranda Geografia – USP
197) André Constantino Yazbek - Filosofia PUC-SP
198) Maria Goreti J. S. Frizzarini – Comunicação Social Cásper Líbero
199) Carlos Bauer - Uninove (Centro Universitário Nove
de Julho)
200) Marcos Cezar de Freitas – Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)
201) Luigi Biondi – História Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)
202) Leandro de Lajonquière - Educação USP
203) Luís Filipe Silvério Lima - História Unifesp (Universidade Federal de
São Paulo)
204) Teise de Oliveira Guaranha Garcia - Pedagogia USP Ribeirão Preto
205) Regina Maria de Souza - Educação Unicamp
206) Rinaldo Voltolini - Educação USP
207) João Quartim de Moraes – Filosofia Unicamp
208) Áurea M. Guimarães - Educação Unicamp
209) Carlos Serrano – Antropologia USP
210) Ruy Braga - Sociologia USP
211) Renato da Silva Queiroz – Antropologia USP
212) Sylvia Gemignani Garcia - Sociologia USP
213) José Guilherme C. Magnani - Antropologia USP
214) Lúcia Aparecida Valadares Sartório - Doutoranda Educação UFSCar
(Universidade Federal de São Carlos)
215) Celso Frederico – Comunicação Social ECA-USP
216) Sandra Guardini Teixeira Vasconcelos - Letras USP
217) Maria Helena Oliva Augusto - Sociologia USP
218) Maria Lucia Montes – Antropologia USP
219) Iris Kantor – História USP
220) Sylvia Leser de Mello – Psicologia USP
221) Aparecida Néri de Sousa - Educação Unicamp
222) Maria Helena P.T. Machado - História USP
223) Gildo Magalhães dos Santos - História USP
224) Emir Sader – Sociologia USP e UERJ (Universidade do Estado do Rio de
Janeiro)
225) Eduardo Pinto e Silva – UFSCar (Universidade Federal de São Carlos)
226) Jose Roberto Zan - Artes Unicamp
227) Dirce Djanira Pacheco e Zan – Educação Unicamp
228) Maria Rosa Lombardi – Fundação Carlos Chagas
229) Stela Menegel – Educação Furb (Universidade Regional de Blumenal)
Santa Catarina
230) Márcio Suzuki - Filosofia USP
231) Roberto Heloani – Educação Unicamp e FGV (Fundação Getúlio Vargas)
232) Marcia Regina Andrade – Educação Unicamp
233) Rosivaldo Pelegrini – UEL (Universidade Estadual de Londrina) Paraná
234) Agueda Bernardete Bittencourt - Educação Unicamp
235) Patrícia Vieira Trópia - PUC-Campinas
236) Marcia Leite - Educação Unicamp
237) Flavio de Campos - História USP
238) Janice Theodoro da Silva - História USP
239) Pedro Lima Vasconcellos - Teologia e Ciências da Religião PUC-SP
240) Ulpiano T.Bezerra de Meneses - História USP
241) Laurindo Lalo Leal Filho - Jornalismo ECA-USP
242) Silvia Helena Andrade de Brito - Ciências Sociais e Educação UFMS
(Universidade Federal do Mato Grosso do Sul)
243) Jorge Grespan - História USP
244) Luís César Oliva - Filosofia USP
245) Andréia Galvão - Ciência Política – Unicamp
246) Luiz Carlos Jackson - Sociologia – USP
247) Andréa Maria Z. Afonso dos Santos - Museóloga Museu de Arte Sacra de
São Paulo
248) Gislane Azevedo - Historiadora e Assessora Pedagógica
249) Márcia Regina Berbel - História USP
250) Andréa Loparic - Filosofia USP
251) Silvia Dafferner - Letras FIA (Faculdade de Interação Americana) São
Bernardo do Campo
252) Tatiana Fonseca Oliveira - Doutoranda Sociologia Unicamp
253) Gabriel S. S. Lima Rezende - Doutorando Universidad de Granada – Espanha
254) Pedro Roberto Ferreira – Ciência Política UEL (Universidade Estadual
de Londrina) Paraná
255) Maria Pileggi – Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales - Paris
– França
256) Maria de Annunciação Madureira - Ciências Sociais UEL (Universidade
Estadual de Maringá)
257) Edméia Aparecida Ribeiro – História UEL (Universidade Estadual de
Londrina)
258) Giselli Avíncula Campos – Doutoranda UFF (Universidade Federal
Fluminense)
259) Nídia Nacib Pontuschska - Educação USP
260) Heloisa Buarque de Almeida - Antropologia USP
261) Maria Ligia Coelho Prado - História USP
262) Carlos Eduardo Carvalho – Economia PUC-SP
263) Silvio Duarte Bock - Educação Unicamp
264) Sandra Maria Gomes Scaravelli – Centro de Atenção à Inclusão Social
de Diadema
265) Lucineia M. Tukuzohi - Cais Diadema
266) Miriam Mailho – Cais Diadema
267) Teófila de Araujo Silva – Cais Diadema
268) Andréa Franciulli Ferreira – Cais Diadema
269) Betina de A. Caballeria – Cais Diadema
270) Vani Duarte Tones – Cais Diadema
271) Camilo L. Barbosa – Cais Diadema
272) Angélica Maria Ferreira – Cais Diadema
273) Ana Maria F. Val – Cais Diadema
274) Tamara Soares de Melo – Cais Diadema
275) Rachele Arnoni – Cais Diadema
276) Juca Gil – Uninove (Centro Universitário Nove de Julho)
277) Maria Eloísa Mortatti – Rede Estadual de São Paulo
278) Vanessa de Paula Zagnole Baraldi- Mestranda Mackenzie
279) Carlos Alexandre Costa Correia - Ciência Política Faculdades Flamingo
280) Claudinei Cássio de Rezende - Mestrando Ciências Sociais – Unesp Marília
281) Rosangela Petuba - História UEPG (Universidade
Estadual de Ponta Grossa) Paraná
282) Osmar Fagundes de O. Junior - Educação Física Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
283) Maria Fátima de C. Castro - Educação Física - Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
284) Leonel Itaussu Almeida Mello - Ciência Política USP
285) Eleuterio F. S. Prado – Economia USP
286) Hamilton Octavio de Souza – Jornalismo PUC-SP
287) Florisvaldo Paulo Ribeiro Júnior - História UFU (Universidade Federal
de Uberlândia)
288) Maria do Rosário Cunha Peixoto - História PUC-SP
289) Peter Pál Pelbart – Filosofia e Psicologia PUC-SP
290) Sueli Nakano Takahashi – Inglês e Português EE Marechal Rondon
291) Manuela Terrasêca - Universidade do Porto - Portugal
292) Rubens Wajnsztejn - Medicina Fundação ABC
293) Keila Patricia Maurício da Silva - Rede Municipal de Diadema
294 Tânia Guizardi Plassa do Prado – Cais Diadema
295) Marilene de Souza – Cais Diadema
296) Cleusa Nilda Ramos - Coordenação Cais Diadema
297) Lucidelma do Nascimento – Cais Diadema
298) Francisca Edna da Silva Maia – Cais Diadema
299) Teresa Manco de Assis – Cais Diadema
300) Angelina Cardoso Cufaro – Cais Diadema
301) Mirtes Bueno de Freitas - Cais Diadema
302) Rosemeire Sá Freire Paulino – Cais Diadema
303) Nadir Aparecida de Souza – Cais Diadema
304) Liliane J.B. da Cruz – Cais Diadema
305) Claudia Cristina da Silva – Cais Diadema
306) Zoraia Coelho Zardi da Silva – Cais Diadema
307) Ariane Nunes – Cais Diadema
308) Fabiana Pereira Dutra – Cais Diadema
309) Luciana Maria Donadio Campos – Cais Diadema
310) Luciana Ferreira Moura Mendonça - Centro de Estudos Sociais
Universidade de Coimbra – Portugal
311) Maria Inês Ghilardi Lucena - Letras PUC Campinas
312) Alexandre Pianelly Godoy - História PUC-SP
313) Antonio Aparecido Primo - História CENPEC-SP
314) Fernando Furquim de Camargo - História Unicastelo
315) Douglas Santos - Geografia e diretor da Faculdade de Ciências Sociais
PUC-SP
316) Luís Fernando Fontoura - Geografia UFRGS (Universidade Federal do Rio
Grande do Sul)
317) Rachel Eny Arruda Bonomo Costa – Geografia ex-professora FMU/FIAM
318) Edelci Nunes da Silva - Saúde Pública USP
319) Maurício de Alcântara Marinho - Geografia USP
320) Roberta Letícia Kruger - Doutoranda Engenharia de Alimentos – UFSC
(Universidade Federal de Santa Catarina)
321) Sidnei Lima Júnior - Mestrando Química Unicamp
322) Otávio Aloísio Maldaner - Química – Unijuí (Universidade Regional do
Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul)
323) Maria do Carmo Galiazzi - Química FURG (Fundação Universidade Federal
do Rio Grande) Rio Grande do Sul
324) Julieta S. Oliveira - Química – Unifra (Centro Universitário
Franciscano) Rio Grande do Sul
325) Irene Handas - Química – UFPel (Universidade Federal de Pelotas) Rio
Grande do Sul
326) Hugo T. S. Braibante - Química UFSM (Universidade Federal de Santa
Maria) Rio Grande do Sul
327) Mara Braibante - Química UFSM (Universidade Federal de Santa
Maria)Rio grande do Sul
328) Ivete Sera Schmitz Booth – UCS (Universidade de Caxias do Sul) Rio
Grande do Sul
329) José vicente Lima Robeina - Química Ulbra (Universidade Luterana do
Brasil) Rio Grande do Sul
330) Ademar Antonio Lauxen - Química UPF (Universidade de Passo Fundo) Rio
Grande do Sul
331) Fabio Garcia Penha - Química – URI (Universidade Regional Integrada)
Rio Grande do Sul
332) Kátia Franklin Baggio - Química – URI (Universidade Regional
Integrada) Rio Grande do Sul
333) Attico Chassot - Química – Unisinos (Universidade do Vale dos Sinos)
Rio Grande do Sul
334) Neide Heroko Takata - Química Unicentro (Universidade Estadual do
Centro-Oeste) Paraná
335) Rogério Marcos Dallago - Química – URI (Universidade Regional
Integrada) Rio Grande do Sul
336) Katsuyoshi Kurata – FATEC-SP (aposentado)
337) João Mogelli Netto – Física FATEC-SP
338) Hilda Machado da Silva Leite - Química Unifieo (Centro Universitário
Fundação Instituto de Ensino para Osasco)
339) Leandro Gaffo - ex-professor da Fundação Santo André e Geografia
Unicastelo (Universidade Camilo Castelo Branco)
340) Fabiana Souza Ferreira - Geografia Unicastelo (Universidade Camilo
Castelo Branco)
341) Jutta Gutberlet – Geografia University of Victoria – Canadá
342) Anselmo de Souza Neiva – Uninove (Centro Universitário Nove de Julho)
343) Emerson Galvani – Geografia USP

Comentários

Outros Outubros virão

Gilberto Maringoni

MUITO JÁ SE ESCREVEU sobre a Revolução Russa e a sociedade e o mundo que ela gerou. O balanço de seus erros e acertos está longe de se consolidar. Mas poucos contrariam uma certeira apreciação do historiador inglês Eric Hobsbawm. Segundo ele, “A Revolução de Outubro teve repercussões muito mais profundas e globais que a Revolução Francesa (1789) e produziu, de longe, o mais formidável movimento revolucionário organizado na história moderna”.

Nenhum processo histórico gerou tamanho saldo organizativo, tão volumosa teoria e muito menos colocou tantos milhões de homens e mulheres em ação, em inúmeros países, dispostos a dar a até a própria vida pela transformação social.

A Revolução causou medo entre as classes dominantes, entre os ricos e os abastados de todo o planeta. O pânico gerou uma feroz reação. No plano material, desatou-se, durante décadas, uma ofensiva militar e repressiva contra tudo o que cheirasse a contestação à ordem estabelecida pelo regime do capital. Na esfera da disputa pelos corações e mentes, torrentes de mentiras fizeram brotar a indústria do anticomunismo em praticamente todos os países.

Realizada num país atrasado, em meio a um conflito bélico de largas proporções - a I Guerra Mundial - e num momento de crise do sistema imperialista mundial, a Revolução de 1917 teve repercussões em inúmeras áreas do conhecimento humano.

País atrasado

Nas condições objetivas da Rússia de 100 anos atrás, um marxista vulgar descartaria a possibilidade da eclosão de uma ruptura socialista. Aquele era, nas últimas décadas do século XIX, um imenso país agrário, com 85% de sua população vivendo no meio rural, em situação de extrema pobreza. A partir dos anos 1890, a indústria conheceu um razoável progresso, principalmente nas áreas de metalurgia, petróleo, tecelagem e carvão, graças a vultosos investimentos estrangeiros.

A atração de camponeses empobrecidos para as cidades deu origem a uma massa crescente de trabalhadores que adquiriam ao mesmo tempo qualificação técnica e consciência política.

Mesmo assim, a classe operária era largamente minoritária para nuclear um projeto de transformação social. O país que, em tese, reuniria melhores condições para uma ruptura social era a Alemanha. Majoritariamente urbana, dotada de uma indústria moderna e possuidora de uma classe operária numerosa e experiente, a Alemanha vivia também as contradições de ter uma burguesia extremamente reacionária. O quadro foi agravado no curso da I Guerra Mundial.

No entanto, as crises do sistema imperialista, um regime despótico e corrupto e uma década de rebeliões populares acabaram por fazer do país dos czares o “elo débil” do capitalismo mundial.

Mas apenas tais condições não bastariam para deflagrar a Revolução. Nesta situação, adquire relevância um dirigente marxista inovador e criativo, capaz de traçar uma tática nova, rumo à transformação social. O dirigente chamava-se Vladimir Lênin (1870-1924). Se alguém pode ser chamado de gênio na era contemporânea, este alguém é Lênin. Nenhum outro intelectual do século XX teve suas idéias tão disseminadas e apropriadas por tanta gente, como aquele russo de estatura mediana e olhar penetrante.

Qual a originalidade de suas formulações? Entre muitas, podemos apontar duas principais.

A primeira foi divulgada em março de 1902, no livro Que fazer?. Desenvolvendo as idéias de Marx e Engels, seu autor demonstra a necessidade da formulação de uma teoria revolucionária e de um “partido de novo tipo” para organizar os trabalhadores. Disciplinado, baseado no centralismo democrático e composto por células horizontais e verticais, o partido funcionaria como um “intelectual coletivo” e um exército ágil e maleável para tempos de enfrentamento.

A segunda grande contribuição de Lênin foi a resolução de um intrincado problema tático. Se a classe que formaria a vanguarda revolucionária era a operária, como ela, minoritária na Rússia, daria conta da titânica tarefa de mudar a sociedade?

Apesar de minoritária, a ela caberia o papel de força motriz no processo. Para Lênin, ela teria de se unir a outros segmentos de oprimidos e explorados. O setor principal seriam as massas camponesas oprimidas, saídas da servidão décadas antes. Lênin propõe, no livro Duas táticas da social-democracia na revolução democrática (1905), a aliança operário-camponesa. Seria uma união entre diferentes, para realizar uma tarefa comum: implodir o sistema que explorava a ambos.

Há sentido atualmente?

Qual o sentido de se debater a Revolução Russa hoje, além de se comemorar uma data redonda?

A importância está em verificar que o capitalismo continua tão ou mais agressivo que há 90 anos. Seus rastros de destruição, insegurança, aumento da miséria, instabilidade e exploração seguem gerando conflitos sangrentos mundo afora. O imperialismo atual é muito mais danoso à humanidade do que jamais foi. Seu poder é muito maior.

Outubro de 1917 continuará a fazer sentido enquanto a humanidade quiser buscar outro mundo possível. Fará sentido enquanto as palavras de Vladimir Maiakovsky ainda tocarem o coração das pessoas: “Nesta vida/ Morrer não é difícil/ O difícil/ É a vida e seu ofício”.

(Agradeço às observações de Antonio Augusto)

Artigo originalmente publicado no Portal Correio da Cidadania (22/10/07)

Gilberto Maringoni é jornalista e historiador.

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Como endireitar um esquerdista

Frei Betto *

Ser de esquerda é, desde que essa classificação surgiu na Revolução
Francesa, optar pelos pobres, indignar-se frente à exclusão social,
inconformar-se com toda forma de injustiça ou, como dizia Bobbio, considerar
aberração a desigualdade social.
Ser de direita é tolerar injustiças, considerar os imperativos do mercado
acima dos direitos humanos, encarar a pobreza como nódoa incurável, julgar
que existem pessoas e povos intrinsecamente superiores a outros.
Ser esquerdista - patologia diagnosticada por Lênin como “doença infantil
do comunismo” - é ficar contra o poder burguês até fazer parte dele. O
esquerdista é um fundamentalista em causa própria. Encarna todos os esquemas
religiosos próprios dos fundamentalistas da fé. Enche a boca de dogmas e
venera um líder. Se o líder espirra, ele aplaude; se chora, ele entristece;
se muda de opinião, ele rapidinho analisa a conjuntura para tentar
demonstrar que na atual correlação de forças…
O esquerdista adora as categorias acadêmicas da esquerda, mas iguala-se ao
general Figueiredo num ponto: não suporta cheiro de povo. Para ele, povo é
aquele substantivo abstrato que só lhe parece concreto na hora de cabalar
votos. Então o esquerdista se acerca dos pobres, não preocupado com a
situação deles, e sim com um único intuito: angariar votos para si e/ou sua
corriola. Passadas as eleições, adeus trouxas, e até o próximo pleito!
Como o esquerdista não tem princípios, apenas interesses, nada mais fácil
do que endireitá-lo. Dê-lhe um bom emprego. Não pode ser trabalho, isso que
obriga o comum dos mortais a ganhar o pão com sangue, suor e lágrimas. Tem
que ser um desses empregos que pagam bom salário e concedem mais direitos
que exige deveres. Sobretudo se for no poder público. Pode ser também na
iniciativa privada. O importante é que o esquerdista se sinta aquinhoado com
um significativo aumento de sua renda pessoal.
Isso acontece quando ele é eleito ou nomeado para uma função pública ou
assume cargo de chefia numa empresa particular. Imediatamente abaixa a
guarda. Nem faz autocrítica. Simplesmente o cheiro do dinheiro, combinado
com a função de poder, produz a imbatível alquimia capaz de virar a cabeça
do mais retórico dos revolucionários.
Bom salário, função de chefia, mordomias, eis os ingredientes para
inebriar o esquerdista em seu itinerário rumo à direita envergonhada - a que
age como tal mas não se assume. Logo, o esquerdista muda de amizades e
caprichos. Troca a cachaça pelo vinho importado, a cerveja pelo uísque
escocês, o apartamento pelo condomínio fechado, as rodas de bar pelas
recepções e festas suntuosas.
Se um companheiro dos velhos tempos o procura, ele despista, desconversa,
delega o caso à secretária, e à boca pequena se queixa do “chato”. Agora
todos os seus passos são movidos, com precisão cirúrgica, rumo à escalada do
poder. Adora conviver com gente importante, empresários, ricaços,
latifundiários. Delicia-se com seus agrados e presentes. Sua maior desgraça
seria voltar ao que era, desprovido de afagos e salamaleques, cidadão comum
em luta pela sobrevivência.
Adeus ideais, utopias, sonhos! Viva o pragmatismo, a política de
resultados, a cooptação, as maracutaias operadas com esperteza (embora
ocorram acidentes de percurso. Neste caso, o esquerdista conta com o pronto
socorro de seus pares: o silêncio obsequioso, o faz de conta de que nada
houve, hoje foi você, amanhã pode ser eu…).
Lembrei-me dessa caracterização porque, dias atrás, encontrei num evento
um antigo companheiro de movimentos populares, cúmplice na luta contra a
ditadura. Perguntou se eu ainda mexia com essa “gente da periferia”. E
pontificou: “Que burrice a sua largar o governo. Lá você poderia fazer muito
mais por esse povo.”
Tive vontade de rir diante daquele companheiro que, outrora, faria um Che
Guevara sentir-se um pequeno-burguês, tamanho o seu aguerrido fervor
revolucionário. Contive-me, para não ser indelicado com aquela figura
ridícula, cabelos engomados, trajes finos, sapatos de calçar anjos. Apenas
respondi: “Tornei-me reacionário, fiel aos meus antigos princípios. E
prefiro correr o risco de errar com os pobres do que ter a pretensão de
acertar sem eles.”

*Frei Dominicano. Escritor

Revista Adital

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