Arquivo de Outubro de 2007

A Escola e a Sala de Aula

FLORESTAN FERNANDES

Em vista da próxima elaboração da nova lei de diretrizes e bases de educação nacional, é fundamental que se revejam as práticas imperantes em nosso ensino, especialmente no primeiro e segundo graus. Começamos por importar idéias francesas e alemãs, no fim do século passado; tentamos depois, também, “reproduzir” o que nos pareceu ser o ensino primário norte-americano e o enciclopedismo iluminista de segundo grau francês. Em ambas imitações falhamos. As instituições importadas não podem ser redefinidas, em seu significado, estruturas e funções fora do seu contexto psicossocial e cultural. Empobrecemos as instituições, as práticas que elas engendram e o seu rendimento pedagógico. O meio brasileiro revelou-se muito árido, a mentalidade reinante demasiado tosca – autoritária ao extremo -, reduzindo o professor aos papéis mínimos de transmissor passivo de “saber” importado e os alunos àquilo que os filósofos e os educadores críticos chamaram, negando-a, a célebre “página em branco”. Em alguns estados e em certas cidades, conseguiu-se um padrão de qualidade sofrível, mas às custas de uma relação repressiva entre professores e alunos que deformava ambos. Afastava-se a sala de aula do núcleo de grande experiência pedagógica. Aproximava-se a escola mais das instituições punitivas e carcerárias, que do cerne elementar de uma pedagogia do aprender fazendo. No grupo escolar em que estudei, por três anos, antes do fim da década de 30, a vice-diretora ficou uma vez com a orelha de um aluno nas próprias mãos. Não previra que suas unhas compridas faziam um corte de navalha… Em outros lugares, nem essa violência repressiva de uma escolarização pobre, autoritária e fundada em uma hierarquia de idade e de classe devastadora, mas só o crescimento da ignorância e da brutalidade que privava as gerações ascendentes da aprendizagem sistemática.

Ocorreram mudanças. Mas foram poucas. O que esperar do ensino em uma sociedade na qual a imensa maioria era excluída da educação escolarizada, na qual a mãe de um aluno procura o diretor, como fez dona Maria Fernandes, para recomendar: “Senhor, faça dele um homem e castigue-o como se fosse o seu pai”? depois de mais de cinqüenta anos, as coisas se alteraram. Mas a “revolução na escola e pela escola” ficou nas utopias dos pioneiros da escola nova e dos pedagogos que os sucederam. A escola – e por meio dela a sala de aula – continuaram presas a uma concepção predatória da pessoa que é mandada. A burocratização criou ardis e abismos imprevisíveis e permanecemos com a carência de uma filosofia de educação democrática, que floresça de baixo para cima (da sala de aula para a escola e desta para a sociedade e para as terríveis “autoridades do ensino”), e de dentro para fora (da sala de aula e da escola para a comunidade e para a sociedade civil como um todo).

O importante, hoje, não é o que a nova lei poderá fazer para acabar com os vestígios de uma pedagogia às avessas, pervertida. É o que ela poderá ser para gerar, a partir de nossos dias, uma educação escolarizada fincada na escola e nucleada na sala de aula. Não basta remover os “excessos” de centralização, que substituem a relação pedagógica pela relação de poder. É preciso construir uma escola auto-suficiente e autônoma, capaz de crescer por seus próprios dinamismos. Conferir à sala de aula a capacidade de operar como o experimentum crucis da prática escolar humanizada, de liberação do oprimido, de descolonização das mentes e corações dos professores e alunos, de integração de todos nas correntes críticas de vitalização da comunidade escolar e de transformação do meio social ambiente.

A nossa pedagogia ficou presa ao pseudolegalismo de uma educação subcapitalista. A lei deu continuidade à dominação férrea das elites dos senhores de escravos – mais tarde, dos fazendeiros burgueses, dos comerciantes dos grandes negócios de exportação… Ora, essa não é a função necessária da lei. A hegemonia pré-burguesa na escola passou pela instrumentalização dos bacharéis, pela burocratização que chegou até a incluir o presidente da República na nomeação de “reitores eleitos” (Safa!) e pela redução dos docentes à condição de servos do poder, de agentes da dominação de classe verdadeiramente cega dos de cima.

A lei, se a sociedade civil se civiliza e se democratiza, tem por fim concorrer para a extinção do servilismo, dos privilégios e do clientelismo bárbaro, que não reconhece nem respeita limites. Até o voto converteu-se, em muitos lugares, em mercadoria! O “dono” do poder compra o voto e com ele elabora a democracia à sua imagem.

Por isso, a sala de aula fica na raiz da revolução social democrática: ou ela forma o homem livre ou ficaremos entregues, de forma mistificadora, a um antigo regime que possui artes para readaptar-se continuamente às transformações da economia, da sociedade e da cultura. Dissociar a sala de aula de seu empobrecimento e deterioração brutais á a saída para gerar a escola de novo tipo que, por sua vez, desencadeará e aprofundará a renovação de mentalidade que carecem os de baixo e os de cima.

Deu-se muita importância ao tope, aos organismos do aparato do Estado (o ministério e as secretarias de educação; os conselhos federal e estaduais de educação etc.), ignorando-se que esse Estado se punha a serviço de causas estreitas, mais empenhado na “defesa da ordem” (e dos privilégios que ela atribuiu a ralas minorias), que com a educação. Devemos dar um giro de 360 graus e situarmos o foco vital onde ele deverá estar: na sala de aula, nas relações entre professores e alunos e no influxo que tal situação provocará sobre a transformação da sociedade para a escola (e vice-versa).

Revista Espaço Acadêmico
http://www.espacoacademico.com.br/

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Freud e a felicidade impossível

Voltaire Schilling

Num ensaio sombrio sobre os destinos da humanidade, intitulado O mal-estar na cultura, aparecido em 1929, Freud teceu várias considerações sobre sua percepção do significado da cultura para a humanidade. Entendeu-a como uma prodigiosa sublimação na medida em que ela era produto da impossibilidade da realização dos desejos inconscientes mais profundos de todos nós como também uma eficaz barreira para impedir o afloramento das tendências agressivas dos seres humanos.
Mesmo a civilização que nos cercava, aparentando ser sólida, via-se constantemente à beira de uma desintegração devido a hostilidade primordial que provoca um perpétuo conflito entre os homens. O mundo caótico, primitivo e bárbaro dos instintos, tinha assim que ser domado e canalizado por uma força cultural que submetesse o homem a um convívio social mais pacífico e produtivo.

O prêmio Goethe

Por maior que fosse a fama do doutor Freud no mundo de então, ele não era bem visto nem na sua Áustria natal nem na Alemanha. Os nacionalistas germanistas acusavam-no de difundir uma “ciência judaica” - a psicanálise - que nada tinha a haver com a cultura autenticamente alemã. Os sacerdotes e pastores viam-no como a materialização de uma heresia secular que retirava da religião qualquer evidencia de divindade, além de claramente abolir com a idéia do pecado, peça central de toda a ética religiosa. Mesmo seus colegas psiquiatras duvidavam da eficácia do “tratamento do divã”, das sucessivas sessões de terapia, para alcançar a cura das neuroses e outras psicopatias. Todavia o sucesso dele era enorme.

Quando o mundo racionalista-positivista da Europa do século XIX desabou no transcorrer da Grande Guerra, de 1914-18, o prestígio dele começou a ascender de um modo inevitável. A confiança que a elite européia tinha na eficácia dos seus valores e dos seus preceitos éticos havia sido fortemente abalada pelo morticínio da guerra das trincheiras e pelo assombroso número de vítimas que causou. Os velhos impérios abalados foram soterrados por transformações bruscas ou violentas revoluções (as principias dinastias reinantes na Alemanha, Áustria, Hungria e Rússia, haviam sido derrubadas). Repetindo-se Marshall Bergman “tudo que era sólido desmanchou-se no ar”. Até a corrente dos artistas surrealistas acusou a forte influência do pensamento dele.

Um tanto como para compensá-lo pela desatenção e até hostilidade do mundo científico austro-alemão, um influente grupo de escritores e intelectuais lançou-se numa aberta campanha para que ele recebesse o Premio Nobel de 1928, mesmo que fosse o de Literatura. Entre eles estavam Alfred Döblin*, Jacob Wassermann, Bertrand Russell, A.S. Neill, Lytton Strachey, Julian Huxley, Knut Hamsun e Thomas Mann. Os acadêmicos suecos, entretanto, preferiram entregar o prêmio a uma obscura escritora norueguesa, Sigrid Undset (1882-1949), especialista em sagas medievais escandinavas. Sem desanimar, foram à forra, indicando Freud para obter o maior galardão das letras e das ciências germânicas: o Prêmio Goethe, recém estipulado pela prefeitura da cidade de Frankfurt, berço do grande poeta.

Finalmente, em agosto de 1930, deu-se a cerimônia da premiação. Por motivo de saúde, afinal ele já estava com 74 anos de idade, se fez representar por sua filha Anna Freud que teve como missão ler o discurso de agradecimento. Evidentemente que o velho sábio sentiu-se particularmente honrado com aquilo, pois foi o quarto grande nome da cultura alemã a receber aqueles louros. E, como a historia posterior iria demonstrar, o mais universalmente reconhecido entre todos.

*O romancista Alfred Döblin, famoso autor de “Berlin Alexanderplast”, o principal mentor de Freud nesta questão do premio, num artigo da época, assinalou que tanto Goethe como Freud tinham em comum a intenção de conseguir harmonizar o “caótico Dionísio” com a grandeza apolínea, tendo ambos maneiras muito similares de entender a existência humana. Concluiu prevendo que o impacto de Freud na sua época seria idêntico ao de Goethe nos seus anos de Weimar.

Freud, um outro Fausto?

Havia um laço profundamente afetivo naquela cerimônia ligando Freud a Goethe. Como confessou certa vez, a decisão dele em vir a ser um cientista, um estudioso da natureza, surgiu-lhe ainda muito jovem ao conhecer o ensaio do poeta intitulado A Natureza, publicado em 1780, na qual Goethe pregava a necessidade da total imersão do pesquisador no objeto a ser estudado e não o distanciamento objetivo: “Natureza! Nós estamos cercados e abraçados por ela, impotentes em nos separarmos dela, e por igual impotentes em penetrar mais profundamente além dela” - trecho de Aforismos sobre a natureza). Recomendava seguir a intuição, associando-a a observação, pois somente desse modo o homem poderia ambicionar penetrar nos mistérios da Natureza.

Portanto, Goethe foi o primordial mentor intelectual de Freud, e durante toda a sua vida pautou suas reflexões ou conclusões referindo-se a uma ou outra passagem de uma das tantas obras do poeta. A tal ponto que muitos admiradores da prosa de Freud consideram-no como o mais lídimo sucessor de Goethe dentro da cultura alemã (herança que Thomas Mann pretendia para si), seguidor fiel do compromisso do poeta com a A verdade, a ciência e a razão, sem esquecer-se de mencionar o apreço que ambos tinham pela Itália.

Aliás, quando Freud esteve de passagem por Veneza, conforme escreveu a seu confidente, o doutor Fliess, em carta de 3 de outubro de 1897, lembrou-se de que Goethe, quando também andara por lá em 1786, encontrara ao acaso uma cabeça de carneiro o que veio a inspira-lo num estudo de anatomia, Freud queixou-se ao amigo que não encontrara “nenhuma cabeça de carneiro” que provocasse nele efeito similar, um salto que lhe permitisse a descoberta de algo científico que o celebrizasse. Sentiu-se isso sim um “cabeça-de-carneiro”, um “cabeça-dura”, que nada tirara proveito da incursão.

Todavia, nada custa especular que de fato a maior influencia sobre o psicanalista não teria sido propriamente Goethe, mas sim o mais famoso personagem criado pelo poeta, o Doutor Fausto. Quem melhor poderia servir-lhe como modelo senão que aquele estranho alquimista e homem de ciência? Alguém que, insatisfeito com os estudos até então realizados ao longo de uma vida trancada em laboratório, cede à tentação de, pelas mãos de Mefistófeles, seguir atrás das pegadas de outro mundo: regido pelas forças irracionais e sensoriais, arredio aos costumes, um continente embaçado, oculto aos olhos das vistas e mesmo da consciência humana, dominado pelas forças primais dos instintos e das assombrações.

O fracasso do Princípio do prazer

Um pouco antes de publicar O mal-estar na cultura, Freud seguindo a tradição iluminista e científica do seu tempo, havia investido contra religião num famoso ensaio intitulado O futuro de uma ilusão, aparecido em 1927, onde reiterou sua crítica à atitude infantil da humanidade, pondo-se voluntariamente submissa a um Pai Bondoso que lá do Céu vigiaria o bem-estar e a bem-aventurança dos seus filhos na Terra.

Irritava-o o fato de verificar que a grande maioria não conseguia superar aquela situação de total dependência a um patriarca “grandiosamente exaltado”, que nem sequer tinha um plano de fazer o homem feliz. Foi exatamente sobre isso, sobre a questão da felicidade, que ele veio a concentrar sua atenção no ensaio seguinte, o já citado O mal-estar da cultura.

Freud procura afastar qualquer expectativa de que o Princípio do prazer, mola impulsionadora do comportamento humano, possa vir a trazer a felicidade. Ao contrário, a idéia que podemos ser felizes tinha pela frente contra si a própria realidade circundante que, ao contrário do que podia se ambicionar, somente nos conduzia ao sofrimento.

A começar pelo corpo, condenado desde sempre a uma inapelável decadência e à aniquilação, na maioria dos casos ele somente provoca dor e angústia.

O mundo exterior também foi alvo. Como imaginar almejar alegrias em meio a tantas desgraças naturais, ao deslocamento de forças onipotentes e implacáveis que esmagam cidades, afundam navios, sufocam os homens?

Mas o pior disso tudo, desse elenco de impedimentos para se vir a atingir a felicidade, são os outros. Como aqueles que são próximos fazem sofrer! Quantos infringem humilhações, quantos deles frustram esperanças mais triviais, quantos traem ou enganam?

Exatamente em vista dessa impossibilidade de encontrar a satisfação determinada pelo Princípio do prazer, é que faz a humanidade procurar derivativos, uma desatinada busca de independência do Mundo Exterior. Fosse como fosse, o projeto existencial de cada um nós - a busca da felicidade - conduzia a um inapelável fracasso.

Estratégias de fuga da realidade

Se o “princípio da realidade” é brutal, bloqueando o Princípio do prazer, isso não evita que se procurem alternativas que levam a contornar o problema, a uma espécie de fuga da realidade. Alguns tentam a arte como uma “técnica de vida”. Mas ela não passa de uma “ligeira narcose”, um “refugio fugaz” frente aos dissabores da vida e evidentemente não faz esquecer a miséria real.
Mesmo que busque a beleza (em formas ou gesto humanos), que se deixem levar por uma orientação estética, isso pouco pode proteger dos sofrimentos iminentes, pois não passa de um estratagema “ligeiramente embriagador”, que na maioria dos casos somente gera narcisismo.

Outros optam por uma existência de eremita, criando um mundo somente seu, mas cujo recolhimento e afastamento de tudo geralmente provocam uma espécie de demência ou acentuada paranóia que faz com que substituam a quimera pela realidade. É certo que muitos ainda preferem uma solução coletiva que os proteja da dor e do sofrimento aderindo à idéia de uma “transformação delirante da realidade” (que pode dar-se pela adesão a uma religião como a uma ideologia), que não diferente do demais está por igual condenada ao fracasso.

Por último resta o amor como a grande válvula de escape à arredia realidade, uma fantasia sensual que provocaria um êxtase de grande prazer. Todavia, como alguém pode esperar encontrar a felicidade justamente com o menos confiável dos deuses que é Eros, responsável pelos transtornos de juízo dos deuses e dos homens?

Pois não advém justamente do amor o maior número de tristezas e desatinos que se abatem sobre todos? Por conseguinte, tentar alcançar a felicidade é algo inatingível, é um propósito irrealizável.

O que é possível ser modestamente atingido é uma “felicidade minguada”, que termina dependendo da “economia libidinosa” de cada um. Freud concluiu suas observações afirmando que mesmo sabendo-se disso tudo, da inviabilidade dos objetivos do Princípio do prazer, não se deve e nem pode abandonar os esforços em vir a concretizá-los.

De algum modo todos devem se empenhar para que ocorra a sua realização. Na sentença final, que encerra o ensaio, concluiu que: “Nossos contemporâneos chegaram a tal ponto no domínio das forças elementares que, com sua ajuda, seria fácil exterminarem-se mutuamente até o último homem. Tanto sabem que aí reside boa parte da sua agitação e infelicidade e angústia. Só nos resta esperar que outra das potências celestes, o eterno Eros, mobilize suas forças para vencer a luta contra seu não menos imortal adversário (o demônio da autodestruição). Mas quem pode prever o desenlace final?”

Bibliografia

Freud, Sigmund - Elemente der Psychoanalyse. in Werkausgabe in Zwei Banden, Band 1 . Frankfurt: Fischer Verlag GmbH, 1978.

Freud, Sigmund - El Malestar en la Cultura. Obras Completas, vol XIX. Buenos Aires: Santiago Rueda Editor, 1955.

Freud, Sigmund - A Correspondência completa para Wilhelm Fliess. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1986.

Gay, Peter - Freud, uma vida para o nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

Terra Educação - Voltaire Schilling
http://educaterra.terra.com.br/voltaire/

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De onde vem a areia das praias

Elementos químicos radioativos recontam a história da formação do litoral sudeste

Giovana Girardi

Quem vê uma montanha de areia em frente a um prédio em construção não imagina que ela esconde segredos de uma época em que as praias começavam a ser formadas por sedimentos arrastados ao sabor da flutuação do nível do mar. É a composição da areia que conta o enredo e o tempo dessa história, como vem descobrindo o físico Roberto Meigikos dos Anjos, da Universidade Federal Fluminense (UFF). Paulistano formado em todos os estágios de graduação na Universidade de São Paulo (USP), Meigikos trocou os laboratórios da capital paulista pela praia fluminense. Em Niterói, seu trabalho começou com a medição da radioatividade natural da areia das praias e avaliação do risco de se usar essa areia na construção civil. Mais recentemente ele e sua equipe passaram a escrever uma espécie de história da formação do litoral brasileiro.

Algumas partes da costa norte do Rio apresentam uma concentração de elementos químicos radioativos que podem expor a população a uma dose de radiação natural de três a cinco vezes superior à média mundial, efeito que os pesquisadores costumam chamar de anomalia. O contato ocasional com essa radiação não chega a ser prejudicial para quem freqüenta a praia, mas se essa areia for usada em grande quantidade na construção de uma casa, por exemplo, pode trazer problemas de saúde para seus moradores. É que as pessoas ficam expostas permanentemente à radiação emitida pelos elementos enclausurados nas paredes. Intrigado com o nível de radiação detectado na areia de praias como Guaxindiba, no município de São Francisco de Itabapoana, Meigikos resolveu analisar outros pontos do litoral. Em diversas excursões, muitas vezes usando o seu próprio carro, ele e seus alunos recolheram amostras de areia de 50 praias de um trecho da costa que vai do norte do Espírito Santo ao sul de São Paulo. O alvo então já não eram mais as anomalias propriamente ditas, mas descobrir as origens daqueles sedimentos e os mecanismos que os transportaram até ali.

Estudando as correlações entre os elementos químicos radioativos tório, urânio e potássio, os pesquisadores conseguem traçar as propriedades mineralógicas da areia da praia, estimar o tipo de formação rochosa que a originou e dizer se esses sedimentos chegaram ali por ação dos ventos, dos rios ou arrastados pelas águas do oceano. Também permite avaliar se os sedimentos que hoje se depositam na orla marítima permaneceram muito tempo em ambientes terrestres ou ficaram submersos em águas profundas ou rasas. É uma informação relevante, uma vez que, no caso brasileiro, as flutuações do nível do mar foram importantes para moldar as planícies costeiras. Aqui as praias começaram a se formar nos últimos 18 mil anos – durante o período geológico Quaternário – e ainda hoje continuam em transformação. Durante esse período houve uma drástica variação no nível do mar, que ora expôs grandes áreas da plataforma continental, ora as deixou submersas. “Esse sobe-e-desce fez o oceano funcionar como um filtro, reprocessando os sedimentos que originam a areia das praias”, conta Meigikos.

De modo geral, a areia contém minerais leves, que se espalham nas águas mais superficiais, e pesados, que se concentram no fundo do oceano. As ondas e as correntes marítimas, porém, se encarregaram de reunir em algumas de nossas praias os minerais mais pesados – e também mais interessantes economicamente –, como ilmenita e rutilo, usados para a produção de pigmentos; o zircônio, que abastece a indústria siderúrgica; e a monazita, empregada na confecção de catalisadores. Esses minerais mais pesados contêm altas concentrações de tório e urânio, ao passo que os mais leves, como o quartzo e o feldspato, apresentam alto nível de potássio.
Na praia, todos esses minérios estão misturados. A cor da areia costuma ajudar a identificá-los – as mais escuras, num tom entre o vermelho e o preto, sinalizam maior presença de elementos pesados, enquanto a areia clarinha representa elementos mais leves. Só que dizer o que veio de onde não é tão simples assim. É aí que a técnica de radiometria de Meigikos entra em ação porque a identificação dos elementos radioativos ajuda a determinar o tipo de rocha que originou esses sedimentos.

Depois de analisar a areia de 50 praias, o grupo da UFF calculou a razão entre as concentrações dos elementos tório e urânio e entre tório e potássio das amostras. A primeira proporção ajuda a estimar os principais meios de transporte e o tempo que os sedimentos passaram debaixo d’água. Isso porque uma parte do urânio sofre oxidação e assume uma forma mais solúvel em contato com o ar – portanto, o sedimento que fica muito tempo exposto à atmosfera apresenta menor concentração de urânio –, ao passo que o tório é bastante estável.

Como conseqüência do comportamento distinto desses elementos, se a divisão de tório por urânio resultar em um número alto, é sinal de que o urânio passou muito tempo fora d’água e sofreu um intenso processo de oxidação. Meigikos avalia essa relação por meio de uma escala que vai de 0 a 7. Quando o resultado é maior que 7, significa que o sedimento passou muito tempo fora d’água, ou seja, o urânio se oxidou bastante. Entre 2 e 7, passou muito tempo em ambientes de águas rasas, como rios ou lagoas. Resultado menor que 2 indica que o sedimento passou a maior parte do tempo em águas profundas, onde o nível de oxigenação é menor.

A relação entre tório e potássio, por sua vez, permite contar outra parte da história. Quase todos os sedimentos que formam a areia da praia provêm da decomposição e da erosão das rochas ao longo de milhares de anos. O enigma, no entanto, é saber como eles chegaram à praia. Podem ter sido carregados por ventos e depositados diretamente na praia ou levados por rios até o mar, onde passaram um tempo sendo arrastados de um lado para o outro até se fixarem na praia. Os pesquisadores perceberam que, se a areia contém grande quantidade de potássio, esse sedimento provavelmente veio direto da rocha para a orla. Já se a quantidade de potássio é baixa, passou por várias outras etapas que levaram à decomposição desse elemento químico.

Praias com faixa de areia mais estreita, como as da região entre Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo, e Angra dos Reis, no sul do Rio de Janeiro, possuem nível de potássio comparável ao de rochas graníticas. Para Meigikos, é um sinal de que a areia dessa região originou-se principalmente na serra do Mar – cadeia de rochas graníticas muito antigas, formadas há mais de 500 milhões de anos – e foi carregada para a costa pelo vento. Mas há exceções. Em Caraguatatuba e Ubatuba a areia foi arrastada pelos rios e passou muito tempo submersa em águas profundas antes de se depositar nas praias.

Em áreas com faixa de areia mais larga, comuns ao norte do Rio e no Espírito Santo, o nível de potássio é consideravelmente mais baixo. A explicação é que a areia dali veio de vastos depósitos de sedimentos que se acumularam entre 65 milhões e 2 milhões de anos atrás a alguns quilômetros do litoral. Rios como o Paraíba do Sul e o Doce transportam esses sedimentos até o oceano, onde permanecem longos períodos antes de chegarem às praias.

Mais do que esclarecer pontos da história geológica, a compreensão de como se formaram as praias pode resolver dúvidas sobre como se deu sua ocupação do litoral pelos primeiros brasileiros. Compreender a variação dos níveis do mar pode ajudar a entender as condições que propiciaram ou dificultaram a instalação humana do litoral muito antes da chegada dos europeus.

Os principais registros arqueológicos da presença de gente na região são os sambaquis, montes de até 30 metros de altura formados por conchas e areia ou terra, construídos ao longo da costa pelos primeiros povos nômades a habitarem o local. Datações feitas nos sambaquis indicam que a região teria sido ocupada há no máximo 6 mil anos, a data mais aceita por arqueólogos e antropólogos. Mas estudos recentes sugerem que os sambaquis podem ter até 8 mil anos.

Os críticos alegam que ao menos duas dessas datações são questionáveis. A mais antiga atribui ao sambaqui da praia de Camboinhas, em Niterói, a idade de aproximadamente 8 mil anos. Os geomorfologistas que discordam desses números afirmam que essa região de restinga, extensa faixa de areia que avança sobre o mar, formou-se mais tarde, há 5 mil anos. A técnica de radiometria de Meigikos pode contribuir com dados que corroborem a datação de Camboinhas.

O físico também pretende reunir elementos para confirmar a idade do sambaqui de Algodão, na baía de Ribeira, em Angra dos Reis. Datações feitas em 2002 por Meigikos e Kita Macário, também da UFF, e pela arqueóloga Tania Andrade Lima, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sugerem que esse sambaqui tenha sido construído há cerca de 7,8 mil anos. A partir da análise dos elementos radioativos encontrados na areia de Ribeira, os pesquisadores esperam descobrir se a região estava ou não submersa naquele período – e, portanto, se era viável construir sambaquis ali. “Vamos usar a correlação entre tório e urânio. Se o resultado for entre 2 e 7 ou superior a 7, é possível que houvesse gente vivendo ali naquela época”, explica o físico. Caso os sedimentos sejam provenientes principalmente de águas profundas, é quase impossível que o local tenha sido ocupado por grupos humanos.

Em parceria com a arqueóloga Ângela Buarque, da UFRJ, Meigikos tenta encontrar uma resposta para outro enigma: por que algumas regiões da costa fluminense não apresentam nenhum sambaqui. “A região dos Lagos é uma das mais ricas nesses montes de conchas, comuns em Búzios, Cabo Frio, Arraial do Cabo, Saquarema. Mas não existe nenhum sambaqui em Araruama”, diz Meigikos. “Os estudiosos sempre se perguntaram por quê. Meu palpite é que essa região, por alguma condição específica da natureza, ficou muito abaixo do nível do mar durante o período em que ocorreu esse tipo de ocupação, o que pretendemos responder analisando o teor de tório e urânio das areias de lá.” Em última instância, esse estudo pode fortalecer a idéia de que o litoral centro-sul brasileiro foi colonizado muito antes do que se acredita.

Revista da FAPESP
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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Os males de sempre da América Latina

Por Daniela Estrada, da IPS

Santiago, 26/10/2007 – A pobreza em áreas urbanas que crescem sem
planejamento, a perda de biodiversidade, a degradação marinha e a
contaminação da água e do ar são alguns males que continuam afetando
a América Latina e o Caribe, segundo o Informe GEO 4. “Na América do
Sul há muito trabalho a ser feito. Temos problemas de contaminação em
cidades, disponibilidade de recursos hídricos, espécies ameaçadas,
superexploraçao de recursos marinhos e aumento das doenças
(especialmente câncer de pele) provocadas pelo desaparecimento da
camada de ozônio, que afeta muito o extremo sul” do continente, disse
à IPS o engenheiro químico chileno Héctor Jorquera.

Jorquera é um dos autores do capítulo 2, dedicado à atmosfera, do
quarto Informe Perspectivas do Meio Ambiente Mundial (GEO 4),
divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente
(Pnuma). Elabrado por 390 especialistas e revisado por outros mil em
todo o mundo, o GEO 4 descreve as mudanças produzidas desde 1987,
avalia o estado atual da atmosfera, a terra, a água e a diversidade
biológica e identifica prioridades de ação

Um problema transversal na América Latina e no Caribe, também
presente na sub-região sul-americana, é a pobreza em que se encontra
a população majoritariamente urbana, ressaltou o acadêmico da
Universidade Católica do Chile, que participou da apresentação do
informe realizada ontem em Santiago. A América Latina e o Caribe são
a região mais urbanizada do mundo em desenvolvimento. Entre 1987 e
2005 a população urbana passou de 69% para 77% do total de
habitantes. Este número chega a 87% no caso do Cone Sul. Quase 40%
das famílias urbanas estão abaixo da linha da pobreza, ou seja, vivem
com menos de US$ 2 por dia.

A condição de pobreza, que implica pior acesso à saúde, e a serviços
sanitários, como água potável, deixa a população vulnerável a todo
tipo de eventos como inundações, ondas de calor, secas, aumento da
contaminação atmosférica e transmissão de doenças infecciosas
presentes nos esgotos, disse Jorquera. O informe, cujo lema é “Meio
ambiente para o Desenvolvimento”, afirma que são coletados 81% dos
resíduos sólidos gerados nos municípios, mas apenas 23% deles recebem
tratamento adequado. Não é melhor a situação dos esgotos: apenas 14%
são tratados.

A degradação do solo afeta 15% de toda a região, 26% na Mesoamérica e
14% na América do Sul. A América Latina abriga a maior diversidade de
espécies do mundo e possui várias das maiores bacias hídricas. Seis
países – Brasil, Colômbia, Equador, México, Peru e Venezuela – são
considerados megadiversos. As ameaças a diversidade são perda de
habitat, degradação da terra, mudança de uso desta, desmatamento e
contaminação do mar, afirma o documento. Cerca de 66% da perda de
cobertura florestal mundial entre 2000 e 2005 ocorreu nesta região.

“A situação não melhorou muito em relação ao que foi diagnosticado há
vários anos. Os problemas persistem e não há uma resposta mais firme
por parte das diferentes sociedades e governos no sentido de
enfrentar a raiz dos problemas”, disse Jorquera. “Outro aspecto que
precisa ser muito reforçado na região é a disponibilidade de
informação mais detalhada sobre o que está ocorrendo, porque em
muitos lugares não sabemos o que acontece simplesmente por não
dispormos de dados”, acrescentou.

De todo modo, o informe identifica alguns progressos, como a
crescente extensão de zonas protegidas, que cobrem 10,5% de todo o
território da América Latina e do Caribe, com maior proporção na
América do Sul (10,6%). Jorquera também destaca que melhorou a
qualidade de alguns combustíveis e sistemas de transporte e que
existe maior conscientização quanto à agenda ambiental na opinião
pública. “Os problemas continuam sendo recorrentes na América Latina:
erosão do solo (o câncer de nossa terra), desmatamento e contaminação
da água e do ar”, complementou Nicolo Gligo, acadêmico da
Universidade do Chile e responsável pela Informe sobre o Estado do
Meio Ambiente no Chile.

“Qualifico os progressos em função dos números, e não há nenhum
indicando que melhoramos (nessas áreas), salvo a redução dos
contaminantes que afetam a camada de ozônio”, acrescentou Gligo.
Outro aspecto abordado no informe é a vulnerabilidade regional diante
da mudança climática. Segundo a exposição de Jorquera, nos últimos
anos foi constatado aumento de precipitações no sudeste do Brasil, no
Paraguai, Uruguai e nos pampas argentinos, bem como aumento de
inundações na Bolívia e menos chuvas no sul do Chile, sudoeste da
Argentina, sul do Peru e oeste da América Central.

Também há uma importante redução da superfície das geleiras andinas e
da Patagônia chilena e argentina. A dimensão da geleira Antisan do
Equador diminuiu oito vezes mais rápido nos anos 90 do que em décadas
anteriores, e na Bolívia a geleira Chacaltava perdeu mais da metade
de sua área desde 1990, diz o informe. As previsões, segundo
Jorquera, indicam mais redução de geleiras e reservas de água e
degradação de solos e desertificação no centro do Chile e na
Argentina. O aumento do nível domar ameaça a bacia do rio da Prata e
se espera aumento nos casos de câncer de pele no extremo sul do
continente.

Também se prevê menor disponibilidade de água e perda entre 20% e 45%
de espécies de árvores no Brasil até o fim deste século. A falta de
acompanhamento, capital humano e instituições dedicadas à mudança
climática dificulta a capacidade de minimização e adaptação a este
fenômeno, disse o especialista chileno. Qual é a mensagem do informe
aos governos da região? “Que coloquem a agenda ambiental acima de
suas prioridades e que se coordenem para poderem negociar com os
países e grupos de interesses mais poderosos que vão se opor a
maiores melhorias da qualidade ambiental”, disse Jorquera.

Isso passa, “necessariamente, pela exigência de que contaminar tem
preço e que o responsável assuma seus custos e reverta a situação.
Para issoao, é preciso fortaleza institucional e apoio da sociedade”,
concluiu Jorquera. O informe também exorta a resgatar o conhecimento
tradicional de mais de 400 povos indígenas que habitam a região e se
destacam pelo manejo sustentável de seus recursos naturais.

(Envolverde/ IPS)

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As 10 maiores descobertas do Hubble

Enquanto esperam pela última manutenção no telescópio espacial, os astrônomos refletem sobre suas descobertas nos últimos 16 anos

Mario Livio

Na primeira missão de reparo do Hubble, em dezembro de 1993, os astronautas Story Musgrave (no braço mecânico), Jeffrey Hoffman (no compartimento de carga) e outros consertaram o notório defeito no espelho e abriram caminho para muitas descobertas.

Poucos telescópios na história tiveram um efeito tão profundo na pesquisa astronômica como o Telescópio Espacial Hubble. Ainda assim, sua influência não é a que a maioria das pessoas imagina. Em geral, ele não fez descobertas singulares mas transformou antigas suspeitas e pistas obtidas em observações de solo em certezas. O Hubble funcionou em parceria com outros observatórios para construir uma visão multifacetada do Cosmos. Forçou físicos teóricos a substituir teorias grosseiras por outras que explicassem os fenômenos astronômicos com muito mais detalhe. Em suma, o Hubble não foi extremamente influente por se distanciar de outros instrumentos e técnicas, mas por se integrar intensamente com eles.

Em abril, o telescópio completou seu 16o aniversário no espaço. Seus feitos, tanto o de fornecer detalhes sem precedentes aos astrônomos quanto o de proporcionar um vislumbre das maravilhas do Universo a lares espalhados pelo mundo, foram de certo modo ofuscados recentemente pelo debate sobre seu futuro. Enquanto a Nasa luta para retomar os vôos dos ônibus espaciais, o Hubble continua se deteriorando. A menos que astronautas possam ir até lá e reformá-lo, o telescópio pode atingir o fim de sua vida útil já em meados de 2008. A chegada a essa encruzilhada me levou a avaliar a última década e meia do Hubble - e da astronomia - que muitos pesquisadores consideram a época áurea de seu campo.

Apresento abaixo minha seleção (confessamente tendenciosa) das dez contribuições mais significativas do Hubble, de suas revelações sobre objetos pequenos como planetas, até galáxias e o Universo como um todo. É extremamente difícil fazer justiça num curto artigo a contribuições tão abundantes. No momento em que escrevo, seu arquivo de dados contém mais de 27 terabytes e cresce a um ritmo de 390 gigabytes por mês. Essas informações foram a base para 6.200 artigos científicos. Além disso, o telescópio continua a produzir ciência de surpreendente qualidade. Em parceria com outros observatórios nos últimos meses, ele descobriu dois novos possíveis satélites de Plutão, uma inesperada (e paradoxal) galáxia de grande massa no Universo primordial e um companheiro de massa planetária de uma anã marrom - estrela pouco mais pesada que um planeta. Somos afortunados por viver numa era em que pela primeira vez estão sendo reveladas características do Universo que, até recentemente, a humanidade conseguia sondar apenas com a imaginação.

1. A Grande Colisão de Cometas
Da perspectiva cósmica, o impacto do cometa Shoemaker-Levy 9 com Júpiter era irrelevante: a superfície dos planetas e satélites já indicava que o Sistema Solar era uma galeria de tiro. Da perspectiva humana, no entanto, a colisão foi um evento singular: acredita-se que um cometa se choque com um planeta apenas uma vez a cada mil anos, em média.

Um ano antes do fim trágico do Shoemaker-Levy 9, as imagens do Hubble revelaram que ele havia se quebrado em mais de 20 fragmentos, um “colar de pérolas”. O primeiro fragmento mergulhou na atmosfera de Júpiter em 16 de julho de 1994, seguido pelos demais durante a semana seguinte. As imagens mostravam saliências parecidas com cogumelos nucleares no horizonte de Júpiter, se alastrando e despencando nos dez minutos subseqüentes ao impacto. As marcas resultantes persistiram por meses.
A raridade dessas imagens já as torna valiosas. As fotos levantaram uma dúvida intrigante sobre a composição do gigante gasoso.

Em um local, as ondas se propagaram a 450 metros por segundo. A explicação mais aceita é a de que elas são ondas de gravidade, em que a força restauradora é a flutuação, como acontece quando se tenta forçar um pedaço de madeira para dentro d\\’água e ele vibra para cima e para baixo. Se é esse o caso, as propriedades das ondas indicam que a proporção de oxigênio para hidrogênio na camada da atmosfera joviana onde se propagaram é dez vezes maior que no Sol. Porém, se Júpiter se formou do colapso gravitacional de um disco de gás e poeira primordial, como algumas teorias postulam, ele deveria ter a mesma composição do resto do disco - portanto similar à do Sol. O mistério segue sem solução.

2 Planetas Extra-solares
Em 2001, a Sociedade Astronômica Americana pediu que astrônomos planetários votassem no que consideravam ser a maior descoberta da década anterior. Eles elegeram a detecção de planetas fora do nosso Sistema Solar. Hoje, conhecem-se cerca de 180 deles. A maioria foi localizada por telescópios em terra ao observar o pequeno vaivém causado pelo puxão gravitacional de um planeta girando em torno de sua estrela-mãe. Porém, essas observações oferecem pouquíssima informação: só o tamanho e a elipticidade da órbita do planeta, além de um limite mínimo para sua massa.

O Hubble deu seguimento a essas descobertas, concentrando-se em planetas cujos planos orbitais estão alinhados com nossa linha de visão, o que faz com que passem periodicamente na frente de suas estrelas e reduzam seu brilho - em evento conhecido como trânsito. Ele observou o primeiro planeta desse tipo descoberto, companheiro da estrela HD 209458, e obteve as informações mais detalhadas sobre um planeta fora do nosso Sistema Solar. O planeta é 30% mais leve que Júpiter, ainda que 30% maior em diâmetro, provavelmente porque a intensa radiação de sua estrela-mãe o fez inchar. Os dados do Hubble são tão precisos que seriam capazes de revelar anéis largos ou satélites grandes ao redor do planeta se eles existissem. O mais impressionante é que o Hubble conseguiu as primeiras medições da composição de um mundo ao redor de outra estrela. A atmosfera do planeta contém sódio, carbono e oxigênio, e o hidrogênio está evaporando para o espaço para criar uma cauda semelhante à dos cometas. Essas observações servem como base para buscas por sinais químicos de vida em outras partes da galáxia.

3 Espasmos Estelares
A física estelar prevê que uma estrela com massa entre oito e 20 vezes a do Sol termine seus dias numa explosão de supernova. Quando seu combustível se exaure, abruptamente ela perde a longa luta para segurar seu próprio peso. Seu núcleo entra em colapso para formar uma estrela de nêutrons - um corpo inerte e hiperdenso - e as camadas exteriores de gás são ejetadas a 5% da velocidade da luz.

Entretanto, tem sido difícil testar essa teoria, pois desde 1680 nenhuma supernova ocorreu em nossa galáxia. Porém, em 23 de fevereiro de 1987 os astrônomos presenciaram um evento quase ideal: uma supernova em uma das galáxias-satélite da Via Láctea, a Grande Nuvem de Magalhães.

O Hubble foi lançado só três anos depois, mas a partir daí ele pôde acompanhar a evolução da explosão. Ele não tardou a descobrir um sistema com três anéis ao redor da estrela moribunda. O anel central parece ser a cintura estreita de uma emissão de gás em forma de ampulheta, e os anéis maiores são as bordas dos dois lóbulos em forma de gota, evidentemente criados pela estrela algumas dezenas de milhares de anos antes de explodir. Em 1994, o Hubble começou a ver uma seqüência de pontos iluminados ao longo do anel central: eram as ejeções da supernova que atingiam esse anel.

Ao contrário das estrelas de alta massa, astros como o Sol têm morte mais serena: eles ejetam suas camadas exteriores de gás em um processo não-explosivo que leva cerca de 10 mil anos. Ao ser gradualmente exposto, o núcleo central quente da estrela emite radiação que ioniza o gás ejetado, criando nele um feérico brilho esverdeado (emitido por oxigênio ionizado) e avermelhado (hidrogênio ionizado). Por razões históricas, o resultado é erroneamente chamado de nebulosa planetária. Conhecem-se cerca de 2 mil delas atualmente. O Hubble revelou algumas extraordinariamente complexas, com detalhes sem precedentes.
Algumas dessas nebulosas exibem um conjunto de anéis concêntricos que lembram um olho-de-boi, e possivelmente indicam que o processo de ejeção talvez não fosse contínuo, e sim episódico. Estranhamente, calcula-se o tempo transcorrido entre os episódios de ejeção em cerca de 500 anos, período longo demais para ser explicado por pulsações dinâmicas (em que a estrela contrai e expande, num conflito brando entre a gravidade e a pressão do gás) e muito curto para representar pulsações térmicas (em que a estrela é levada para fora do equilíbrio). A natureza exata dos anéis observados é, portanto, desconhecida

4 Nascimentos Estelares
Há muito tempo os astrônomos sabem que feixes estreitos e fluidos de gás são sinais típicos de formação estelar. O nascimento de uma estrela pode gerar um par de jatos colimados com vários anos-luz de extensão. Ainda não se sabe exatamente como isso acontece. A hipótese mais promissora envolve a influência de um campo magnético em larga escala sobre o disco de gás e poeira que envolve o novo objeto. As linhas do campo magnético forçam material ionizado a seguir determinado curso, como contas em um colar giratório. O Hubble reforçou essa visão teórica ao fornecer a primeira evidência direta de que esses jatos efetivamente se originam no centro do disco.

Outra expectativa, que o Hubble desmentiu, era a de que os discos circunstelares estivessem profundamente imersos em suas nuvens-mães, sendo portanto impossíveis de ver. De fato, o telescópio espacial revelou dezenas de discos protoplanetários, muitas vezes como silhuetas contra o fundo de nebulosa. Pelo menos metade das estrelas jovens observadas possui esses discos, demonstrando que a matéria-prima para a formação de planetas está disponível em todas as partes da galáxia.

5 Arqueologia Galáctica
Os astrônomos crêem que galáxias grandes como a Via Láctea ou nossa vizinha Andrômeda cresceram pela assimilação de outras menores. O registro desse passado atribulado deve ser encontrado no arranjo, idade, composição e velocidade de suas estrelas. O Hubble foi fundamental na decifração dessa história. Um exemplo disso é a observação do halo estelar de Andrômeda, a nuvem tênue e esférica de estrelas e aglomerados estelares que circunda o disco galáctico. Os astrônomos descobriram que as estrelas daquele halo têm as mais variadas idades: as mais velhas têm de 11 bilhões a 13,5 bilhões de anos, enquanto as mais novas têm de 6 bilhões a 8 bilhões de anos. Estas são como crianças num asilo. Devem provir de alguma galáxia mais jovem (como uma galáxia-satélite que foi assimilada) ou de alguma região mais jovem da própria Andrômeda (ou seja, do disco, se ele foi perturbado por uma galáxia em trânsito ou em colisão). O halo da Via Láctea não contém número significativo de estrelas comparativamente jovens. Assim, as imagens do Hubble sugerem que a Via Láctea e Andrômeda, apesar do aspecto semelhante, tiveram histórias muito diferentes.

6 Abundância de Buracos Negros Gigantes
Desde os anos 60 os astrônomos raciocinavam que os quasares e núcleos galácticos ativos - os centros violentos e brilhantes das galáxias - eram alimentados por buracos negros gigantes engolindo matéria. As observações do Hubble confirmaram essa visão geral. Quase toda galáxia observada cuidadosamente revelou um buraco negro em seu centro. Duas descobertas foram particularmente importantes. Em primeiro lugar, imagens de alta resolução de quasares revelaram que eles residem em galáxias elípticas brilhantes ou em pares de galáxias interagindo, o que sugere que uma determinada seqüência de eventos é necessária para alimentar um buraco negro central. Segundo, a massa do buraco negro gigante está estreitamente associada à massa do bojo esférico de estrelas adjacentes ao centro galáctico. Essa correlação sugere que a formação e a evolução de uma galáxia e seu buraco negro central estão intimamente ligadas.

7 As Maiores Explosões
As explosões de raios gama (GRBs, do inglês gamma ray bursts) são curtos disparos de raios gama que duram de poucos milissegundos a dezenas de minutos. Existem duas classes distintas de GRB, dependendo de sua duração ser superior ou inferior a dois segundos. As longas produzem fótons com menor energia que as curtas. Dados do Observatório Compton de Raios Gama, do satélite de raios X BeppoSAX e de observatórios em terra indicam que os disparos de longa duração resultam do colapso do núcleo de estrelas com massa grande e vida relativamente curta - em outras palavras, de um tipo de supernova. Sendo assim, seria preciso explicar por que apenas uma pequena fração das supernovas produzem GRBs.

O Hubble descobriu que apesar das supernovas ocorrerem em todas as re-giões galácticas com formação estelar, as GRBs de longa duração se concentram em poucas regiões muito brilhantes, onde as estrelas maiores se localizam. Além disso, comparadas com as galáxias que abrigam supernovas, as hospedeiras de GRBs longas são consideravelmente menos brilhantes, mais irregulares e pobres em elementos pesados. Isso é importante porque estrelas grandes deficientes em elementos pesados geram ventos estelares mais fracos do que suas equivalentes abundantes nesses elementos. No curso de sua vida, elas retêm uma proporção maior de sua massa; ao morrer, são relativamente mais pesadas. O colapso de seu núcleo tende a produzir não uma estrela de nêutrons, mas um buraco negro. De fato, os astrônomos atribuem as GRBs longas a jatos colimados gerados por buracos negros em rotação. Os fatores que determinam se um núcleo estelar emitirá uma GRBs parecem ser a massa e velocidade de rotação de uma estrela no momento de sua morte.

Identificar disparos de curta duração se mostrou mais difícil. Apenas no ano passado alguns foram finalmente detectados pelos satélites HETE 2 e Swift. O Hubble e o Observatório Chandra de Raios X revelaram que a energia total liberada por esses disparos é menor do que a das GRB de longa duração, apesar de seus fótons serem mais energéticos. As GRBs curtas também ocorrem em uma variedade maior de galáxias, incluindo as elípticas, onde a formação de estrelas cessou. Aparentemente, elas surgem da fusão entre duas estrelas de nêutrons ou entre uma estrela de nêutrons e um buraco negro.

8 O Limite do Espaço
Um dos grandes objetivos da astronomia é entender o desenvolvimento das galáxias e suas precursoras até a época mais próxima possível do Big Bang. Para ter uma idéia do que a Via Láctea foi no passado, os astrônomos obtêm imagens de galáxias em vários estágios de evolução, da infância à velhice. Para isso, o Hubble produziu, em coordenação com outros observatórios, imagens de longa exposição de pequenos pedaços do céu - o Campo Profundo do Hubble, o Campo Ultraprofundo do Hubble e o Levantamento Profundo do Céu Primordial por Grandes Observatórios - para mostrar as galáxias mais distantes (e mais antigas).

Essas imagens supersensíveis revelaram galáxias que existiam quando o Universo tinha apenas algumas centenas de milhões de anos, cerca de 5% de sua idade atual. Essas galáxias eram menores e mais irregulares que as modernas, um resultado esperado se se supõe que as galáxias atuais resultaram da união de outras menores (e não da fragmentação de galáxias maiores). Penetrar mais ainda no passado é a principal meta do sucessor do Hubble, o Telescópio Espacial James Webb, atualmente em construção.

As observações do céu profundo também revelaram a variação na taxa de formação de estrelas no Universo como um todo ao longo do tempo cósmico. Essa taxa parece ter atingido um pico 7 bilhões de anos atrás e caído para 10% do pico desde então. Surpreendentemente, quando o Universo tinha somente 1 bilhão de anos, a taxa de formação de estrelas já era alta - cerca de um terço de seu valor de pico.

9 A Idade do Universo
Observações feitas por Edwin Hubble e outros na década de 20 mostraram que vivemos num Universo em expansão. As galáxias estão se afastando umas das outras num padrão sistemático, o que implica que o próprio tecido do espaço esteja se esticando. A constante de Hubble (H0) é uma medida da taxa atual de expansão, que é o parâmetro-chave para determinar a idade do Universo. O raciocínio é simples: H0 é o ritmo em que as galáxias estão se afastando umas das outras; portanto, negligenciando qualquer aceleração ou desaceleração, o inverso de H0 estabelece o tempo transcorrido desde que elas estiveram todas reunidas. O valor de H0 também tem um papel na formação das galáxias, na produção de elementos leves (hidrogênio e hélio) e na duração de certas fases da evolução cósmica. Não deveria surpreender, portanto, que desde o início a medição precisa da constante de Hubble fosse a principal meta do telescópio espacial homônimo.

Na prática, encontrar esse valor envolvia medir corretamente a distância até galáxias próximas - uma tarefa notoriamente difícil que produziu muita controvérsia durante todo o século XX. O telescópio realizou o estudo definitivo das variáveis cefeidas - estrelas cujas pulsações peculiares revelam seu brilho intrínseco e, com isso, sua distância - em 31 galáxias. O valor resultante de H0 tem precisão de cerca de 10%. Junto com medições do fundo cósmico de microondas, o valor da constante de Hubble indica uma idade de 13,7 bilhões de anos para o Universo.

O Universo Acelerado
Em 1998, duas equipes independentes de astrônomos soltaram uma notícia bomba: a expansão do Universo está se acelerando. Os astrônomos geralmente presumiam que ela deveria estar desacelerando, porque a atração gravitacional mútua entre as galáxias deveria frear sua separação. O motivo da aceleração é considerado o maior mistério da física atualmente. Uma hipótese provisória é a de que o Universo contém um constituinte até o momento não detectado conhecido como energia escura. Uma combinação de observações do fundo de microondas, de observatórios em terra e do Hubble, sugere que essa energia escura responde por três quartos da densidade de energia total do Universo.
A aceleração começou cerca de 5 bilhões de anos atrás. Antes disso a expansão do Universo estava desacelerando. Em 2004, o Hubble descobriu 16 supernovas distantes situadas nesse período crucial entre desaceleração e aceleração. Essas observações também impuseram restrições mais severas nas hipóteses sobre o que a energia escura poderia ser. A possibilidade mais simples (embora, de certa forma, mais misteriosa) é a de que exista uma forma de energia inerente ao próprio espaço, mesmo quando ele está vazio. No momento, nenhum outro instrumento é tão vital quanto o Hubble na busca por supernovas que possam elucidar a energia escura. Sua importância no estudo dessa hipotética energia é talvez a maior razão para os astrônomos pressionarem a Nasa a mantê-lo funcionando

Para conhecer mais:

Hubble, 15 Anos de Descobertas. documentário em DVD disponível na Loja Duetto,http://www.lojaduetto.com.br

Artigos sobre esses tópicos publicados na SCIENTIFIC AMERICAN:

1 Comet Shoemaker-Levy 9 meets Jupiter. David H. Levy, Eugene M. Shoemaker e Carolyn S. Shoemaker, vol. 273, no 2, págs. 84-91, agosto de 1995.

2 Searching for shadows of other Earths. Laurance R. Doyle, Hans-Jörg Deeg e Timothy M. Brown, vol. 283, no 3, págs. 58-65, setembro de 2000.

3 Vida Comum, Morte Extraordinária. Bruce Balick e Adam Frank, SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL, agosto de 2004.

4 Fontes da Juventude. Thomas P. Ray, SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL, edição especial ESTRELAS.

6 Um Estranho Par Galáctico. Kimberly Weaver, SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL, agosto de 2003.

7 Explosões mais Fantásticas do Universo. Neil Gehrels, Luigi Piro e Peter J. T. Leonard, SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL, janeiro de 2003.

8 Galaxies in the Young Universe. F. Duccio Macchetto e Mark Dickinson, maio de 1997.

9 The Expansion Rate and Size of the Universe. Wendy L. Freedman, novembro de 1992.

10 Da desaceleração à aceleração. Adam G. Riess e Michael S. Turner, SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL, março de 2004.

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

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Usando um crucifixo, monge escapa de Mianmar

Thomas Fuller

Um dos principais organizadores das marchas de protesto em setembro em Mianmar, Ashin Kovida, monge budista de 24 anos, fugiu para a Tailândia na semana passada com uma carteira de identidade falsa, um crucifixo e o cabelo pintado de louro.

Na quinta-feira (25/10), Ashin Kovida deu detalhes de sua fuga angustiada e explicações sobre o que ainda era uma pergunta central em relação aos protestos de setembro: quem organizou as fileiras de monges de túnicas de cor açafrão que marcharam por Yangun -e como.

Ashin Kovida cruzou a fronteira para a Tailândia ilegalmente e disse na quinta-feira que estava planejando pedir status de refugiado. Ele é procurado pelo governo militar da Mianmar, que o acusa de armazenar explosivos em seu mosteiro em Yangun, a maior cidade de Mianmar.

O monge chamou essa acusação de absurda.

Em uma entrevista de seis horas em Mae Sot, essa cidade de fronteira, ele descreveu uma organização básica, um grupo de 15 monges com 20 e poucos anos que organizaram as manifestações de setembro. Ele disse que tinha sido eleito líder do grupo e tinha sido inspirado pelos vídeos de levantes populares na Iugoslávia contra o governo de Slodoban Milosevic.

Oito dos 15 monges do comitê organizador estão desaparecidos, disse ele. Os outros seis, disse, estão escondidos em Yangun.

Sabe-se que Thin Thin Khyaing, 42, que ele descreveu como sua mãe adotiva, foi presa. Ele disse que ela foi levada de sua casa na madrugada do dia 12 de outubro. Seu motorista, Phoe Wa, também foi detido, e o carro apreendido.

Thin Thin Khaing não adotou Ashin Kovida formalmente, mas foi sua patrocinadora na vida monástica. Ashin Kovida disse que acreditava que as autoridades tinham detido Khaing para pressioná-lo a se entregar.

Hlaing Moe Than, 37, importante organizador dos estudantes nas manifestações de setembro, que também fugiu para a Tailândia, mostrou um retrato de Ashin Kovida na quinta-feira e confirmou a identidade do mais recente refugiado.

“Ele é um dos famosos líderes dos monges budistas durante os protestos”, disse Hlaing Moe Than.

Ashin Kovida liderou protestos diários em Yangun de 18 a 27 de setembro, dia seguinte às autoridades começarem a darem batidas nos mosteiros.

Uma de suas principais preocupações, disse ele, era poder alimentar os milhares de monges que vieram a Yangun de outras regiões. Ele também temia o que chamou de “monges falsos”, que ele suspeita terem sido plantados pelo governo militar.

O estopim das manifestações foram tiros de advertência da polícia contra monges no dia 5 de setembro, na cidade central de Pakokku.

“Quando ouvi a notícia pela primeira vez, fiquei mudo”, disse Ashin Kovida. “Era uma coisa inacreditável.”

Seus colegas monges ficaram revoltados e procuraram formas de reagir. Eles decidiram se afastar completamente do governo, recusando todas as doações, apoio e contatos.

Monges mais velhos e abades instaram os monges a fazerem seus protestos dentro dos mosteiros, mas Ashin Kovida disse que os mais jovens tinham desafiado essas diretrizes pensando que protestar dentro do mundo enclausurado não adiantaria nada.

Ashin Kovida procurou estudantes que conhecera durante a coleta de doações e começou a planejar as marchas de protesto por Yangun.

“Compreendemos que não havia liderança”, disse ele. “Um trem precisa de uma locomotiva.”

Ele disse que supervisionou a impressão de panfletos que seriam distribuídos aos mosteiros, intitulado “os monges sairão às ruas.”

“Havia estudantes e jovens do nosso lado”, disse Ashin Kovida. Os estudantes digitaram os panfletos em seus computadores e depois fizeram cópias.

“Tínhamos centenas deles”, disse. “Entregamos a todos os mosteiros de Yangun. Tentamos distribuir o máximo possível para outras regiões.”

No dia 18 de setembro, Kovida liderou a primeira fila de monges pelas ruas de Yangun.

No dia 19 de setembro, uma multidão de cerca de 2.000 manifestantes, inclusive 500 monges, estava sentada no chão ladrilhado dentro da Pagoda Sule, quando Ashin Kovida levantou-se e dirigiu-lhes a palavra.

“Para continuar as manifestações de uma forma pacífica, precisamos de liderança”, lembra-se. “Peço a 10 monges para se unirem a mim à frente.” Quinze monges se levantaram, disse ele, com a multidão aplaudindo.

Eles formaram o que chamaram de Sangga Kosahlal Apahwe, Grupo Representativo de Monges. Ashin Kovida foi eleito diretor e voltou a abordar a multidão, com um curto discurso.

“Neste país estamos enfrentando dificuldades atualmente”, lembra-se de ter dito Ashin Kovida. “As pessoas estão passando fome, os preços subindo. Sob este governo militar, há tantos abusos de direitos humanos. Chamo as pessoas a se unirem a nós. Vamos continuar esses protestos pacíficos todos os dias até vencermos. Quando não há direitos humanos, não há valor humano.”

Ashin Kovida disse ter liderado uma semana de protestos diários, reunindo-se com seu grupo de organizadores pela manhã e iniciando as marchas à tarde. Ele ouviu dizer no serviço birmanês da BBC que outros monges também tinham se organizado, mas nunca encontrou esses grupos.

As manifestações foram pacíficas e desimpedidas até o dia 26 de setembro, quando a polícia bloqueou o caminho dos monges, atacou-os e dispersou-os.

“A polícia arrancou as vestes dos monges e bateu neles”, lembra-se Ashin Kovida. “Tiraram os sarongues das freiras.”

Dezenas de monges foram presos; Ashin Kovida escapou escalando um muro.

No dia seguinte, 27 de setembro, com a intensificação da repressão, Ashin Kovida mudou de roupa, colocou um sarongue e camisa de manga curta. Ele viajou para uma pequena aldeia a 65 km de Yangun e, com a ajuda de amigos e parentes, escondeu-se em uma cabana de madeira abandonada.

Ele tinha tanto medo de chamar a atenção dos vizinhos que suprimiu sua tosse e nunca saiu da casa, que não tinha água corrente. Por duas semanas, viveu na cabana escura, sem banho. Ele se aliviava usando um balde plástico. Amigos deixavam comida ocasionalmente.

No dia 12 de outubro, quando sua mãe adotiva foi presa, a notícia logo chegou a ele, que fugiu à noite, descalço.

“Corri por uma estrada grande”, disse o jovem monge. “Toda vez que vinha um carro, me escondia entre os arbustos”.

Ele alcançou a casa de um amigo antes da madrugada, pegou algumas roupas emprestadas e voltou a Yangun, usando um boné de beisebol azul claro, óculos e sarongue.

Amigos em Yangun ajudaram-no a pintar seu cabelo de louro. Ele comprou um crucifixo em um mercado local e, dias depois, entrou em um ônibus para a fronteira tailandesa.

Kovida passou por cerca de oito postos policiais -não se lembra quantos exatamente - no caminho da fronteira. Ele usou uma identidade falsa e chegou à cidade fronteiriça de Myawadi no dia 17 de outubro. Na manhã seguinte, cruzou o rio Moei para a Tailândia de barco.

O monge enfrentará prisão quase certa se voltar a Mianmar. Na edição do dia 18 de outubro do jornal estatal “The New Light of Myanmar”, ele foi acusado de esconder “48 cartuchos de TNT amarelados altamente explosivos”, em seu mosteiro.

“Eles simplesmente querem associar os monges com a violência e o terrorismo”, disse Ashin Kovida. “Estou na vida monástica desde tão jovem”, disse ele. “Toda minha vida só estudei budismo e coisas pacíficas.”

O pai de Ashin Kovida é carpinteiro e a mãe tem uma pequena barraca de cebola e pimenta no mercado. Ambos moram no Estado de Rakhine, no nordeste de Mianmar, perto de Bangladesh.

Muitos birmaneses não conseguirão perdoar o governo pela repressão aos monges, disse Kovida. “É uma mácula na história do país. Em Mianmar hoje, muitos estudantes e pessoas estão organizando o próximo passo contra a SPDC”, das iniciais do governo militar.

“Acho que será ao mesmo tempo das Olimpíadas na China”, disse ele, referindo-se aos jogos de 2008 em Pequim. “Essa é a a minha opinião”.

Herald Tribune
http://www.iht.com/pages/index.php

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Professores da FSA aprovam carta ao Conselho Diretor

Redação

Documento a favor da saída do reitor também será enviado ao promotor
Airton Grazioli

Os professores da Fundação realizaram nesta terça-feira (30/10) assembléia
onde reafirmam sua reivindicação de que o reitor da universidade, Odair
Bermelho, seja afastado do cargo. A reunião, convocada pelo Simpro
(Sindicato dos Professores do ABC) deliberou que será entregue aos 15
membros do conselho Diretor da Fundação uma carta em que afirmam estar
dispostos a repor todas as aulas que deixaram de ser ministradas desde o
início da greve, que já dura 48 dias.

A carta também será entregue ao promotor Airton Grazioli, curador das
fundações do Fórum João Mendes na Capital, onde será realizada a reunião
do Conselho Diretor, na quinta-feira (01/10). Na assembléia também se
confirmou a posição dos professores de que o reitor Odair Bermelho deve
ser afastado do cargo para que tenha fim a crise que atinge a Fundação.

Como o prefeito de Santo André, João Avamileno, que nomeia quatro dos 15
conselheiros, exigiu que além da saída de Bermelho também se discuta o
afastamento do vice-reitor, Oduvaldo Cacalano, os professores firmaram
posição de que se os dois forem afastados também sejam destituídos os
pró-reitores, todos indicados por Odair Bermelho. O vice-reitor Cacalano
se manteve ao lado de estudantes e professores na crise da Fundação, se
opondo às atitudes do reitor.

Junto com a carta também será apresentado ao Conselho Diretor e ao
promotor Grazioli um abaixo-assinado de 350 professores universitários do
Brasil e de outros países, favoráveis à destituição de Odair Bermelho pelo
seu envolvimento com a ação repressiva que resultou no espancamento e
prisão de estudantes que ocupavam a reitoria da universidade, em 13 de
setembro. Assinam o documento acadêmicos como o geógrafo Aziz Ab’ Saber,
além de professores de universidade de todo o Brasil, França, Portugal,
Canadá e Espanha.

Para a reunião do Conselho Diretor, na quinta-feira, alunos e professores
da Fundação organizam caravana com ônibus até a praça João Mendes, na
Capital. Em caso de afastamento de toda a reitoria da Fundação Santo
André, estudantes e professores já decidiram em assembléias a necessidade
de se indicar uma Comissão Provisória que encaminhe em 45 dias o processo
eleitoral para a escolha da nova reitoria da universidade.

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Reitoria mudou Fundação sem aval

Bruno Ribeiro
Do Diário do Grande ABC

A alteração jurídica que o reitor Odair Bermelho promoveu na Fundação
Santo André teria ocorrido à revelia do poder público andreense.
Prefeitura e Câmara Municipal não teriam permitido que a entidade deixasse
de ser um organismo municipal para se tornar uma “fundação mantida com
recursos privados” no cadastro do Ministério da Fazenda.

A mudança resultou em uma dívida de R$ 50 milhões com a Receita Federal.
Além disso, a alteração permitiu que a faculdade contraísse dívidas no
sistema financeiro. O resultado está no orçamento 2008 da Fundação:
previsão de R$ 2 milhões em gastos com a amortização de empréstimos.

“Antes de Bermelho, dificilmente a Fundação pedia empréstimos. Agora,
virou carne de vaca: só se paga o 13º salário se pedir . E banco não é
entidade filantrópica. Cobra juros”, diz o professor Ricardo Alvarez,
integrante do grupo contrário ao reitor.

Pública - O consentimento do poder público para que se faça uma mudança
dessa natureza é considerado necessário por quem entende do assunto.

O professor Odair Sá Gomes, da Unicamp (Universidade Estadual de
Campinas), também docente na Fundação, defendeu tese de mestrado mostrando
que fundações municipais de ensino superior precisam de autorização da
Câmara Municipal e da Prefeitura para alterações que envolvam os bens da
instituição – uma vez que são de propriedade pública.

Mas a alteração do caráter da pessoa jurídica da faculdade ocorreu por
meio de manobra administrativa. Nem mesmo o Conselho Diretor da Fundação
aprovou a mudança. Ela sequer foi discutida.

Procurada, a reitoria da Fundação informou que esperaria algum eventual
contato da Câmara ou da Prefeitura para se manifestar sobre o assunto.

Depois de uma entrevista coletiva ocorrida em 20 de setembro, Odair
Bermelho se recusou a comentar os desdobramentos do movimento grevista e
as denúncias contra ele publicadas pelo Diário. São 41 dias de silêncio.

Votação - A reunião do Conselho Diretor que votará a cassação do reitor
Odair Bermelho será nesta quinta-feira, às 14h, no Fórum João Mendes, na
Capital.

Diário do Grande ABC
http://home.dgabc.com.br/

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Fundação Santo André: decisão fica para quinta

ANDERSON AMARAL
PARA O DIARIO REGIONAL

O reitor da Fundação Santo André, Odair Bermelho, mudou para quinta-feira
(01) a reunião extraordinária do Conselho Diretor que vai debater seu
impeachment e do vice, Oduvaldo Cacalano. O reitor não só modificou a
data, como também o local - a assembléia será realizada no Fórum João
Mendes, na Capital, às 14 horas, e não mais na Câmara de Santo André, como
era o desejo do prefeito João Avamileno.
A mudança é interpretada como a manobra derradeira de Bermelho contra sua
exoneração. “O reitor está tentando esticar ao máximo sua permanência,
mas, felizmente, este foi o último suspiro do déspota”, afirmou Ricardo
Alvarez, professor de geografia da universidade e ex-vereador de Santo
André. Para o docente, já há dez votos - de um total de 15 no conselho -
necessários para exonerar Bermelho, dos quais quatro serão os da
prefeitura. “O Avamileno sentiu o desgaste de ver a Fundação nas páginas
policiais após mais de 50 dias de greve”, disse.
Em reunião realizada na semana passada, o prefeito defendeu o afastamento
de Bermelho e Cacalano como forma de encerrar a crise iniciada com a
ocupação da reitoria pelos alunos da Faculdade de Filosofia e Letras no
dia 13 de setembro, respondida violentamente pela Polícia Militar.

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Crise na Fundação agora ocupa páginas policiais

Seria cômica se não fosse infeliz a convocação da Tropa de Choque da
Policia Militar para desocupar, na madrugada da última quinta-feira, o
prédio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Fundação Santo
André. Estudantes e professores foram retirados sob pressão de policiais
fortemente armados, com cara de poucos amigos. Felizmente não houve
resistência e nem excessos por parte da força policial.
Nem mesmo quando estudantes invadiram a reitoria da Universidade de São
Paulo e lá permaneceram por várias semanas, praticando inclusive atos de
vandalismo, houve quem ousasse usar da policia para resolver o impasse.
Mas em Santo André o apego do reitor Odair Bermelho ao cargo e a aparente
autonomia que dispõe para tomar suas decisões, de vez que até mesmo o
prefeito João Avamileno (PT) desistiu de tratar do caso, leva a crise da
Fundação ao extremo de transformar o desentendimento interno numa batalha
que agora ocupa as páginas policiais da imprensa.
Até parece que os futuros filósofos e professores ameaçavam a ordem
pública e a segurança da sociedade com seu protesto, restrito ao prédio da
Fundação. Também parece que a criminalidade diminuiu e a população pode
dormir tranqüila enquanto o aparato policial é deslocado para o confronto
com os alunos que, afinal, não houve.
Não se pode condenar a atuação da Tropa de Choque porque ela não agiu por
iniciativa própria, mas foi convocada por decisão judicial. O que é de
visível mau gosto e demonstra falta de sensibilidade e total perda do
controle da situação é a intransigência do reitor que destrói,
progressivamente, a honrada reputação que construiu ao longo de toda uma
vida dedicada ao magistério.
Há momentos na vida em que recuar não significa necessariamente perder. Se
existe um expressivo número de alunos e professores insatisfeitos com sua
administração haverá o reitor de colocar a mão na consciência e
consultá-la se vale a pena tamanho desgaste.

ABC Repórter

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Vereadores apóiam destituição de Bermelho

Liora Mindrisz (liora@abcdmaior.com.br)

O que antes era apenas um afastamento se tornou uma saraivada de críticas

Depois dos estudantes e professores da FSA (Fundação Santo André), agora
são os vereadores da cidade que defendem a destituição do reitor Odair
Bermelho. O que antes era apenas um afastamento se tornou uma saraivada de
críticas ao reitor durante a sessão da Câmara desta terça-feira (30/10).

O primeiro a tocar no assunto foi Marcos Medeiros (PSDB), que pediu para
que o voto do representante da Câmara no Conselho Diretor seja contra o
reitor. “Nada mais consciente do que retirar um reitor que tem sido
inoperante, não tem atendido as necessidades daquela instituição. Pelo
menos com o voto do representante da Câmara Municipal nós podemos contar
com a saída do reitor”, disse.

Os vereadores Jurandir Gallo (PT), Cláudio Malatesta (PT), José Montoro
Filho (PT), o Montorinho, Donizeti Pereira (PV) e Dr. Aidan Ravin (PTB)
também falaram sobre a reunião do Conselho Diretor, que decidirá se o
reitor sai ou não nesta quinta-feira (01/11). Todos apóiam a saída de
Bermelho.

“Se há uma briga política lá dentro, e isso todos nós sabemos que há, não
podemos admitir o desmando e que um reitor como aquele continue na
Fundação. Essa Casa já fez um requerimento pedindo o afastamento,
infelizmente não temos poder para essa decisão, mas de qualquer forma está
clara qual é a intenção dos vereadores. Gostaria que o Conselho Diretor
tivesse a hombridade de colocar ordem naquela Casa”, disse Gallo, líder da
bancada petista.

O vereador Donizeti, que indicou o representante da Câmara para o Conselho
Diretor (seu assessor Orivaldo Oliveira Lopes), acha que a votação pela
saída do reitor Bermelho e do vice Cacalano tem que ser feitas
separadamente.

“O fato da Câmara ter aprovado um requerimento pedindo o afastamento do
Odair, deixa claro que temos um entendimento que a presença dele na
Fundação é prejudicial pra entidade. Mas eu e alguns outros vereadores
estamos indignados com essa questão de colocar o vice-reitor no meio, me
parece uma jogada política de alguém, no sentido de afastar o vice-reitor,
que é oposição, para assumir alguém ligado ao Odair”, disse o vereador.

O Conselho Diretor, presidido pelo reitor Odair Bermelho, se reunirá na
quinta-feira às 16h no Fórum da praça João Mendes, na Capital, para
decidir o futuro da reitoria da Fundação Santo André.

ABCD Maior

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Ilha passa por transição silenciosa

NEWTON CARLOS

O “El País”, de Madri, fala de uma “transição invisível” em Cuba. O diretor de “Temas”, publicação do establishment comunista com incursões críticas, chamou atenção para o fato de que o uso da palavra transição em Cuba tem efeitos negativos. Os cubanos a encaram como expressão da política americana e dos que tentam produzir mudanças a partir de bases no exterior. Mas Rafael Hernandéz admite que a sociedade de seu país mudou “e é claro que o socialismo de Cuba deve também mudar”.
“Temas”, que é trimestral, abriu grande espaço em seu último número para um debate, descrito como simpósio, sobre “transição socialista”. De imediato, é possível constatar que o aparato de poder em Havana começou a se mexer. Estaria em discussão a busca de transformações “dentro do socialismo” e não troca de sistema. Uma das intervenções de peso, e grande significado, foi a de Carlos Lage Cordomiu, presidente da Federação Estudantil Universitária e filho do vice-presidente com o mesmo nome.
Ele disse que as novas gerações estão comprometidas com a revolução. Não faltou um “mas”, no entanto, com forte dose de pragmatismo. Ele disse que “nós ainda não sabemos onde a revolução está indo”. E completou - “Chamamos isso de socialismo, embora o socialismo, na descrição clássica dos marxistas, nunca tenha existido”. Para que a revolução continue, segundo Carlos Lage filho, “é preciso que sejam satisfeitas as necessidades básicas e diárias da população”.

Batalha das idéias
Tem pouco a ver com a “revolução cultural” lançada por Fidel Castro em novembro de 2005. Ou a chamada “batalha das idéias”, que faria de Cuba uma “sociedade do conhecimento, da cultura e não do consumo”. Fidel recomendou inclusive “ampla” volta atrás nas permissões para negócios privados, adotadas como meio de enfrentar dificuldades criadas pelo esgotamento dos subsídios soviéticos.
A referência-chave dos debates que parecem tomar conta de setores de maior influência em Cuba é o discurso de Raúl Castro de 26 de julho. Não há como negar “ineficiências absurdas”, especialmente na produção agrícola, e a necessidade de abrir a economia a investimentos. Negócios são negócios. Foi como se expressou o vice-ministro do Comércio Exterior cubano, Eduardo Scandell, em reunião dedicada a Cuba pela Câmara de Indústria e Comércio da Baviera. Chamou atenção a compra de 183 carros BMW para as embaixadas de Cuba, que procura impor-se como um parceiro confiável.
A “transição invisível” já teria indícios na transformação, com Raúl Castro, de um poder unipessoal num poder mais compartilhado -o que ocorreria em nome de uma “continuidade” e não de uma “transição”.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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Fascismo à polaca

Dirigida por fundamentalistas cristãos, a Polônia promove uma caça aos ex-comunistas e aos homossexuais, além de provocar os judeus. O governo é um dos aliados de Bush, em seu esforço pra militarizar o espaço…

Ignacio Ramonet

Chamam-na lei da lustração [1]. Ou seja, segundo o dicionário: purificação ritual. Não deixa de ter, num país, onde o catolicismo está entrelaçado à história, um forte sentido de arrependidmento e penitência. Setecentos mil poloneses deverão, em virtude dessa lei, aprovada em outubro de 2006 e em vigor desde 15 de março de 2007, confessar se colaboraram com os comunistas, entre 1945 e 1989. Todos: altos funcionários, professores, advogados, diretores de escolas e jornalistas nascidos antes de agosto de 1972 têm até o dia 15 de maio para confessar seu “erro”.

Têm de preencher um formulário e responder à pergunta: “Colaborou secreta e conscientemente com os antigos serviços de segurança comunistas?”. Deverão remeter o formulário ao seu superior hierárquico, o qual o enviará ao Instituto da Memória, em Varsóvia. Esse verificará os arquivos e emitirá um certificado de pureza política. Em caso de colaboração comprovada, os jornalistas que trabalham nos serviços públicos serão automaticamente demitidos. Os que se recusarem a responder, ou que mentirem comprovadamente, estarão sujeitos à pena de não poder exercer sua profissão durante dez anos.

Essa lei delirante escandaliza a União Européia. Comparativamente, reduz o macartismo americano dos anos 1950 a um anticomunismo amador. É o dispositivo principal de uma furiosa caça às bruxas, iniciada depois da chegada ao poder, em outubro de 2005, do presidente conservador Lech Kaczynski e seu irmão gêmeo Jaroslav (primeiro-ministro), na Polônia. Muitos poloneses consideram a norma anticonstitucional porque constrange os cidadãos a “provar que não fizeram o que não fizeram”. Poderá ser invalidada pela Corte Constitucional, que pronunciará seu veredito no começo de maio.

Fundamentalismo cristão: a volta reacionária à “ordem moral”
A coalizão de direita, católica e nacional que governa a Polônia é formada por três partidos: Lei e Justiça (dos irmãos Kaczynski), Autodefesa (dos meios agrários) e a Liga das Famílias Polonesas. Têm uma inquietante política de volta à ordem moral. Com esse espírito, Roman Giertych, vice-primeiro-ministro, ministro da educação e chefe da Liga das Famílias Polonesas, apresentou um projeto de lei homófoba. Ela suscita comoção internacional e protestos de organizaçòes de defesa dos direitos humanos. Segundo o projeto, que pode ficar pronto em um mês, toda pessoa que revelar sua homossexualidade ou “qualquer outro desvio de caráter sexual” [2] em um estabelecimento escolar ou universitário, expõe-se a uma multa, demissão ou pena de prisão.

O deputado no Parlamento Europeu (pela Liga das Famílias) Maciej Giertych (pai de Roman Giertych) já havia desencadeado uma tempestade de condenações por ter publicado uma brochura anti-semita. Essa afirmava, por exemplo, que “os próprios judeus criam seus guetos” e que “o anti-semitismo não é racismo” [3]. O documento foi divulgado às custas do Parlamento Europeu e usou seu logotipo.

Essas decisões de depuração anticomunista, assim como as tentativas de retorno a uma ordem moral autoritária escondem, tanto na Polônia quanto na Ucrânia, Lituânia e outros países do Leste Europeu [4], uma espécie de nostalgia dos tempos anteriores à guerra, quando o racismo se apresentava ostensivamente. Tomados pelo revisionismo ambiente, alguns não hesitam em glorificar a colaboração com o III Reich hitlerista contra a União Soviética, hoje oficialmente execrada.

É com esse espírito, e considerando, como muitos dos meios de comunicação, que a Rússia de Vladimir Putin não passa do prolongamento disfarçado da antiga URSS, que Varsóvia declarou-se favorável à instalação, em seu território, do escudo anti-mísseis [5], ao concebido pelo Pentágono para proteger os EUA. Sequer dignou-se a consultar seus parceiros da União Européia, nem mesmo os da OTAN. Isso mostra que em política, a paranóia pode levar não apenas à atrofia espiritual mas também a uma certa forma de traição.

_________________________________________________________

[1] Segundo o dicionário Houaiss, Lustração: qualquer ritual de lavagem, comum em várias religiões, com finalidade de purificação ou iniciação; sacrifício; batismo (N.T.).

[2] El País, Madrid, 20 de março de 2007.

[3] Le Figaro, Paris, 17 de fevereiro de 2007.

[4] Uma lei de lustração promulgada em 1995, na República Checa, vem sendo prorrogada há dez anos e só em junho do ano passado levou à emissão de mais de cem certificados negativos. Na Romênia, nenhuma lei de lustração passou porque os antigos comunistas estão no poder (N.T.).

[5] O chamado “escudo anti-mísseis” é um sistema que permitirá aos EUA, em teoria, abater qualquer míssil inimigo e os transformará novamente, portanto, em potência nuclear única. Os críticos ao projeto lembram que ele levará a uma nova corrida bélica, já que as demais potências nucleares não assistirão ao movimento norte-americano de braços cruzados (Nota da edição brasileira)

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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Mahatma Gandhi

Churchill costumava chamá-lo de “faquir despido”. Einstein era um de seus maiores admiradores. Martin Luther King inspirou-se nele. Mahatma Gandhi é um dos grandes homens do século XX.

Mohandas Karamchand Gandhi, conhecido por seu povo como “Mahatma”, ou “a grande alma”, é sem dúvida um dos indianos que mais influência tiveram em nossos dias.

Gandhi foi um pacifista e sempre pregou uma doutrina de não-violência. Desejava que a paz reinasse entre hindus e muçulmanos; entre indianos e ingleses.

O domínio colonial britânico durou mais de duzentos anos. Os indianos eram considerados cidadãos de segunda classe.

Em 1930, Gandhi viaja a Londres para pedir que a Inglaterra conceda independência à Índia. Lá, visita bairros operários.

“Sei que guardarei para sempre, em meu coração, a lembrança da acolhida que recebi do povo pobre de East London”, diz Gandhi.

Ao retornar à Índia, é recebido em triunfo por milhares de pessoas, ainda que nada de muito significativo tenha resultado da viagem.

Gandhi anuncia à multidão que pretende continuar em sua campanha pela desobediência civil, para obrigar a Inglaterra a dar a independência à Índia. Os britânicos, outra vez, o mandam para a prisão.

1942. O governo inglês manda para Nova Delhi Sir Stafford Cripps, com a missão de negociar com Gandhi. As propostas que Sir Cripps traz são inaceitáveis para Gandhi, que deseja independência total. Gandhi retoma a campanha pela desobediência civil. Desta vez é preso e condenado a dois anos de cadeia.

Quando Lord Louis Mountbatten torna-se vice-rei, aproxima-se de Gandhi e nasce, entre Gandhi, Lord e Lady Mountbatten, uma grande amizade.

No verão de 1947, a hostilidade entre hindus e muçulmanos atinge o auge do fanatismo. Nas ruas há milhares de cadáveres. Os muçulmanos reivindicam um Estado independente, o Paquistão. Gandhi tenta restabelecer a paz dando início a uma décima-quinta greve de fome. O sacrifício pessoal de Gandhi e sua firmeza conseguem o que nem os políticos nem o exército conseguira: a Índia conquista sua independência e é criado o Estado muçulmano do Paquistão.

Em 30 de janeiro de 1948, Gandhi morre assassinado por um hindu. Estava com 78 anos. Lord e Lady Mountbatten, ao lado de um milhão de indianos, comparecem ao funeral. Suas cinzas são lançadas às águas sagradas do Rio Jumna.

“Mahatma” Gandhi permanecerá, para sempre, como símbolo da resistência pela não-violência.

Alô Escola TV Cultura
http://www.tvcultura.com.br/aloescola/index.asp

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Coral de Ano Novo para a pátria em trevas

“Eu quero a minha pátria para os meus, quero a luz igual sobre a cabeleira de minha pátria acesa,
quero o amor do dia e do arado,
quero apagar a linha que com o ódio fazem para apartar o pão do povo,
e ao que desviou a linha da pátria até entregá-la como carcereiro,
atada, aos que pagam para feri-la,
eu não vou cantá-lo nem calá-lo,
vou deixar seu número e seu nome,
cravados na parede da desonra.”

Pablo Neruda

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A internacional

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Retrato da batalha no Rio de Janeiro

Um filme polêmico sobre uma operação policial contra os traficantes de drogas se transforma no mais assistido da história no Brasil


Juan Arias

Gisela reconhece perfeitamente a sensação que está causando em boa parte dos brasileiros o filme “Tropa de Elite”, um sucesso cinematográfico que está batendo recordes de bilheteria e causando um debate nacional. “Meu filho, quando você vê chegar os blindados da tropa de elite, treme dos pés à cabeça”, diz essa motorista de táxi, que, junto com seu marido e três filhos, vive em uma das favelas mais violentas do Rio de Janeiro.

O filme “Tropa de Elite”, dirigido por José Padilha, retrata com crueza a violência das favelas, tanto a exercida pelos narcotraficantes como pela polícia. Transformou-se em um fenômeno social que desencadeou uma forte polêmica pública. As filas para ver o filme são quilométricas diante dos cinemas. Vinte milhões de pessoas dizem tê-lo visto ou que o verão, e outros 12 milhões o piratearam. A popular revista “Veja”, que lhe dedicou uma reportagem de 17 páginas, diz que se trata “de uma obra de ficção que explica com uma fidelidade nunca vista como a criminalidade degradou o Brasil”.

O que “Tropa de Elite” mostra é como funciona o corpo especial da polícia brasileira de combate ao narcotráfico, o Batalhão de Operações Policiais Especiais, conhecido como Bope. Recria a história verdadeira da Operação Santidade, realizada por esse corpo em uma favela próxima ao arcebispado do Rio nos dias anteriores à visita do papa João Paulo 2º em 1997. Na operação de quatro meses morreram mais de 30 pessoas e várias dezenas foram detidas.

O livro escrito por um ex-agente do Bope que participou dessa operação, Rodrigo Pimentel, foi o que inspirou o filme. O Bope, que nasceu como um corpo incorruptível de 160 policiais, hoje tem mais de 400 efetivos e sua integridade é mais que questionada. A única coisa sobre a qual muitos brasileiros concordam é a brutalidade do órgão.

O longa-metragem não deixa ninguém indiferente. Há os que o aplaudem de pé e os que se revoltam com as cruas cenas de tortura, mas ninguém fica impassível. Além disso, representa uma bofetada contra a classe média que consome drogas: vem dizer sem meias palavras que cada cigarro de maconha ou cada grama de cocaína que se compra contribui para que surjam mais traficantes, mais violência e mais morte.

A polícia aparece como é, corrupta, às vezes mancomunada com os traficantes, aos quais vende até suas armas; mas também imprescindível para combater o tráfico. Os traficantes aparecem sem romantismos, terrivelmente violentos e dispostos a semear o terror e a morte para manter o controle do mercado. Na pesquisa feita por “Veja”, 79% da população consideram que o filme retrata a polícia como ela é, e 72% pensam que os traficantes são tratados no filme com a crueldade que merecem.

El País
http://www.elpais.com/

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Um banco pelos direitos humanos?

Em meio à crise do FMI e do Banco Mundial, países latino-americanos preparam-se para lançar o Banco do Sul. Seu caráter ainda não está definido, mas algumas propostas farão dele, se aprovadas, uma instituição revolucionária

Eric Toussaint, Damien Millet

Punido! Como poderia o todo-poderoso Banco Mundial aceitar, em 2005, que o jovem ministro equatoriano da economia, Rafael Correa, tomasse a decisão de revisar a utilização dos recursos petroleiros, reduzir o ritmo do reembolso da dívida e aumentar as despesas sociais, sob pretexto de que o país estava passando por uma crise político-social de extrema gravidade? O banco suspendeu imediatamente um empréstimo de 100 milhões de dólares prometido ao Equador e, com a ajuda de alguns amigos, ocupou-se seriamente da carreira do ministro em questão. “Os donos do petróleo, os Estados Unidos, o Fundo Monetário Internacional [FMI], o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento [BID] pressionaram o presidente [Carlos Mesa]”, contaria Rafael Correa mais tarde. “Eu perdi a sua confiança, seu apoio [1]”. Ao se ver desautorizado, o jovem economista optou então por se demitir.

Eleito presidente da República, em 3 de dezembro de 2006, Correa ainda mantém vivo o episódio, na memória, nos seus mínimos detalhes — inclusive as atitudes de desprezo com a soberania do país. Em 20 de abril de 2007, num gesto espetacular, ele mandou declarar persona non grata no Equador o representante do Banco Mundial, Eduardo Somensatto. Além disso, confrontado com uma dívida pública de US$ 10,5 bilhões, decidiu que a parte do orçamento dedicada ao seu reembolso cairá de 38%, em 2006, para 11,8% em 2010. Alguns dias depois, a Venezuela anunciou que está deixando o FMI e o Banco Mundial. Já a Bolívia divulgou que não reconhece mais a autoridade do Centro Internacional para a Solução dos Litígios relativos aos Investimentos (Cirdi), um dos instrumentos do Banco Mundial.

Desde os anos 1950, as intervenções do Banco Mundial e do FMI na América Latina têm sido influenciadas pelas prioridades da política externa de Washington. As instituições de Bretton Woods proporcionaram sustentação ao ditador nicaragüense Anastásio Somoza du