Arquivo de 1 de Outubro de 2007

“Um menino canta o porvir”

(releitura de um poema que fiz em 1999)

Dirão apocalípticos estes dias de angústia,
desesperança, berrando nos cantos,
mãos arranhando o limo do não.
Porque é de nós morrer um pouco a morte do outro.
O sofrimento, no entanto, abre janelas em nós.

Assim:
aclamaremos a luz, mesmo que fosca,
que se enreda no homem, desde que nasce,

sorveremos a esperança, esta face do sempre possível,
servida nas taças do champanha humano.

brindaremos o sim, límpido e positivo,
virando as costas ao nunca e ao nada,

e abraçaremos a verdade de cada dia
bordada nas mãos que sempre acolhem.

Nós caminharemos entre amados e amigos
semeando nosso pensamento libertado.

E louvaremos, enfim, a vida, esta semente,
que medra onde querem solo gasto.

Marinho
(Nesta primavera de 2007; pra ser lembrada).

Comentários

“Superioridade americana é fenômeno temporário”, diz Eric Hobsbawm

SYLVIA COLOMBO
Enviada especial da Folha de S.Paulo a Londres

Desde a queda do Muro de Berlim, em 1989, Eric Hobsbawm tem sido questionado por continuar a defender uma utopia transformada em ruínas. A longa vida do pensador marxista, que completou 90 anos em junho, foi, até aqui, suficiente para que acompanhasse o nascimento de um sonho e sua gradativa revelação como pesadelo.

Mas nem só de desilusões ideológicas vive o calejado historiador, certamente o mais importante ainda em atuação. Agora, Hobsbawm parece mesmo satisfeito ao vaticinar, em seu novo livro de ensaios sobre temas contemporâneos, “Globalisation, Democracy and Terrorism”, que a experiência do imperialismo norte-americano também está com seus dias contados. “O mundo hoje é muito complicado para que apenas um país o domine”, diz. “A única certeza que podemos ter sobre a atual superioridade norte-americana é que ela será, para a história, apenas um fenômeno temporário, como foram todos os impérios.”

Foi para falar de suas convicções ‘indestrutíveis’ que o aparentemente frágil Hobsbawm recebeu a reportagem da Folha em sua casa, em Hampstead, bairro nobre no norte de Londres, na última quarta-feira. Ele e a mulher, Marlene, tinham acabado de voltar de uma temporada no País de Gales, onde têm uma casa. Viajante inveterado toda a vida, Hobsbawm diz que tem saído menos. “Hoje em dia pedem para que a gente vá falar em todo lugar, é muita palestra, muito festival de livros. Gosto de viajar, mas tenho me cansado”, diz o historiador, que contou também estar se tratando de uma “leve leucemia”.

Na sala onde recebe as visitas, aponta para sua poltrona favorita, “eu costumo me sentar aqui”, e acomoda-se, esperando aplicadamente as perguntas. Fala devagar, mas com firmeza. Gesticula, e procura os olhos do interlocutor ao final de cada afirmação, como que buscando saber se foi compreendido mesmo.

Momentos depois de iniciada a entrevista, entra Marlene com um pedaço de papel nas mãos. “Estão ligando do Times, querem saber se você pode comentar a fala do Miliband sobre Gaza.” Hobsbawm diz que agora não pode, talvez depois. David Miliband, novo ministro das Relações Exteriores do Reino Unido, é um jovem político tido como talentoso e agressivo, que está cobrando uma nova posição do país com relação à ocupação do Iraque.

“Toda hora estou fazendo pequenas coisas, falando ou escrevendo para jornais sobre assuntos do momento. Eles vivem me pedindo comentários disso ou daquilo.” Cotidiano de trabalho? “Não tenho. Depende do que há ou aparece para fazer, sem rotina.”

Leia, abaixo, a entrevista que o historiador concedeu à Folha.

FOLHA - Na introdução de ‘A Era das Revoluções’, o sr. fez uma descrição de como era o mundo na década de 1780 –como as pessoas viviam, quanto demoravam para viajar, quanto tempo uma mensagem levava para chegar de um canto da Europa para outro, que tipo de idéia do mundo as pessoas comuns podiam ter. Se o sr. fosse fazer a mesma análise do mundo hoje, que aspectos seriam mais relevantes?

ERIC HOBSBAWM - Eu tentaria começar a descrevê-lo a partir do que se pode ver dele do espaço. No começo de era das revoluções, o único resultado da ação do homem na Terra que podia ser visto do alto era a Grande Muralha da China. Agora podemos ver muito mais. A partir dos foguetes, se percebe o declínio das florestas, o tamanho e a luz das grandes metrópoles, certas instalações gigantes como os grandes aeroportos, o reflexo das guerras e das catástrofes. Isso diz muito sobre o que é o mundo hoje porque, se no século 18 sequer podíamos ter uma visão global, agora podemos até mesmo estar no espaço para conferi-la.

Em segundo lugar eu diria que uma das grandes dificuldades do século 18, a de como ir de um lugar para o outro, passou por uma revolução sem precedentes. O tempo e a distância são valores diferentes. Não só porque podemos falar imediatamente com alguém do outro lado do mundo pelo celular ou por e-mail, mas porque se transportam coisas e pessoas como nunca. A quantidade de bilhetes aéreos emitidos, de pessoas voando neste momento, por exemplo, não tem precedentes.

Também chamaria a atenção para o que justamente não se pode ver do espaço, a revolução sem precedentes que é a internet. E outros temas como o fim do campesinato e o novo lugar das mulheres.

Mas estou muito velho pra um esforço desses…

FOLHA - Também em ‘A Era das Revoluções’, o sr. mostrou como a palavra ‘liberdade’, que até a Revolução Francesa significava apenas o oposto de ’servidão’, ganhou uma conotação política e se tornou um valor que parecia valer a pena ser exportado. Em seu novo livro, ao criticar a ação dos EUA no Iraque, o sr. diz que a democracia e os valores ocidentais não podem ser simplesmente apresentados a outros países como ‘importações tecnológicas cujos benefícios são imediatamente óbvios’. Em que momento o que era um sonho virou um pesadelo?

HOBSBAWM - Sempre foi um pesadelo quando se fez uso de poder militar para exportar valores. As idéias podem viajar, mas não a bordo de tanques. Os ideais da Revolução Francesa se espalharam pela Espanha e pela América Latina e causaram grandes transformações políticas nesses lugares. Mas, no momento em que a França quis exportar também as suas instituições para outros países, usando a força, não teve sucesso. Quando uma intervenção não conta com certo consenso local, tende a fracassar. A idéia por trás de certo imperialismo dos direitos humanos era de que regimes tirânicos seriam tão imunes a influências externas que precisariam ser removidos pela força. Mas trata-se de uma concepção antiga, de um mundo pré-1989, pré-redemocratização de regiões como a América Latina. Essa premissa não faz mais sentido. Hoje só se pode pensar que idéias de fora influenciem efetivamente um certo país se este tiver, internamente, um contexto que as receba bem e permita adaptações locais. Mas nada disso pode acontecer por meio de imposições militares.

FOLHA O sr. diz que, ao longo de sua vida, viu muito poucas vezes a história adiantar-se por meio de atalhos, e que estes costumam fracassar. Pode dar um exemplo?

HOBSBAWM - Uma das mais importantes tentativas de se buscar um atalho para pular fases da história foi a Revolução Russa. E, como vimos, ela falhou. O modo como os americanos querem exportar a democracia, com a certeza de que as coisas podem mudar de hoje para amanhã, também está destinado ao fracasso.

FOLHA - O sr. diz que seu objetivo ao escrever ‘Globalisation, Democracy and Terrorism’ era ajudar os jovens a enfrentar o século 21 com o pessimismo necessário. Por quê?

HOBSBAWM - Não gostaria que isso fosse tomado como apenas a impressão de um velho homem. O fato é que as perspectivas simplesmente não são boas. Não me refiro apenas à política internacional, mas também aos assuntos relacionados ao ambiente. Hoje já não se pode dizer tão seguramente, como se podia ao longo dos séculos 19 e 20, que estamos num caminho de progresso e que as coisas só vão melhorar. Questões como crise de energia e falta de água são reais. Outro processo que não vai parar é o da globalização, e talvez o preparo que se exija dos jovens é para que saibam como vão lidar com essa aceleração dramática. Como o otimismo é uma característica tão natural na juventude, é preciso que reflitam sobre como direcioná-lo a alvos certos.

FOLHA - O sr. disse que não é mais um comunista porque o comunismo já não está mais na agenda política do mundo. Mas que continuará se posicionando firmemente contra o que chama de ‘tentativa sistemática’ e internacional de transformá-lo numa ‘patologia’ ou num ‘pecado’. Por que acha que o anticomunismo esteja tomando formas tão agressivas?

HOBSBAWM - Não é exatamente assim. Na verdade, o comunismo como movimento que conglomera muita gente já não existe. Em número de militantes, é hoje nulo. Não se trata mais de uma alternativa no Ocidente. Tampouco é considerado mais como inimigo para os EUA.

Durante a Guerra Fria, sim, era uma ameaça ideológica contra o governo norte-americano. Por isso houve não só satanização das idéias e propostas comunistas como uma perseguição real aos que o defendiam.

A partir de 1989, passou a ser diferente. Com relação à China, por exemplo. O que quer que esteja acontecendo de errado lá não tem nada que ver com o comunismo. Também não acho que os trabalhadores que assinaram manifestos pelo comunismo no passado pensem que acreditaram num Deus que falhou. Apenas quiseram fazer uma opção, que não deu certo. E depois vieram outras.

Hoje, achar que o comunismo é um mal concreto é algo que está limitado ao meio intelectual, aos que escrevem história ou artigos para jornais. Mais especificamente, a intelectuais de países em que o comunismo foi muito influente no debate político. Então chegou um momento em que essas pessoas quiseram reagir contra, como se estivessem pedindo desculpas pelo próprio passado, estabelecendo uma linha. Foi como se dissessem: ‘Eu costumava acreditar, mas agora…’. Por exemplo, François Furet [historiador francês, autor de ‘Pensando a Revolução Francesa’], quando o conheci, ele não era apenas um comunista, mas um enfático militante stalinista. E depois virou-se completamente.

Apenas nos ex-países comunistas do Leste Europeu o anticomunismo assumiu a forma de uma revolta real contra um determinado sistema. O anticomunismo de hoje é forte apenas no plano da discussão intelectual, geralmente em países que tiveram muitos militantes comunistas no passado.

Fora desse círculo, já não se trata mais de um perigo real, não é sequer uma alternativa. Simplesmente deixou de ser um assunto importante.

FOLHA - No prefácio de ‘Globalisation, Democracy and Terrorism’, o sr. diz que suas convicções políticas são indestrutíveis.

HOBSBAWM - Sim, minha convicção de ser de esquerda continua. Me posiciono fortemente contra o imperialismo. Contra as forças que acham que estão fazendo um bem para outros países ao invadi-los, e contra a tendência de pessoas que pelo fato de serem brancas acham que são superiores. Essas certezas eu não abandono. Mas algumas das minhas convicções mudaram. Não acredito mais que o comunismo como foi aplicado poderia ainda dar certo. E não sou mais um revolucionário. A revolução tampouco está hoje na agenda. Porém, não acho que tenha sido mau para mim e para minha geração termos sido revolucionários. Cresci na Alemanha de Hitler, sempre odiarei totalitarismos. A idade e a experiência me fizeram menos revolucionário. Mas não acho que foi ruim tê-lo sido. Ao contrário, foi essencial.

FOLHA - Ao longo vários de seus livros, como ‘Mundos do Trabalho’ e outros, esteve sempre presente a admiração que o sr. sentia pelas virtudes da classe trabalhadora. O sr. sempre elogiou aspectos como sua coragem, seu senso de camaradagem e como estes tiveram impacto na história. O que acha das classes trabalhadoras do século 21? Ainda carregam o mesmo papel histórico?

HOBSBAWM - A situação é outra. A classe trabalhadora como se formou nos séculos 18, 19 e 20 já não existe, até porque o tipo de fábrica e de produção daqueles tempos também acabaram.

O movimento trabalhista teve força quando havia condições de desenvolvimento, quando sindicatos e partidos podiam levar suas reivindicações a Estados capazes de fazer concessões. Tudo isso terminou por conta da transformação nos modelos de produção. Como foram reduzidos em número, também passou a ser menor a sua ação política.

Há uma diferença também no tipo da população trabalhadora, por causa, especialmente, dos progressos da educação em massa. Uma das coisas que eram características do movimento operário no passado era a boa qualidade de seus líderes, que eram cultivados e mantidos pelos sindicatos. Hoje, os mais inteligentes vão para a universidade sem compromisso de voltar, e viram outras coisas. Podem continuar a ser de esquerda, mas já não são mais operários. Isso faz diferença.

Ainda assim, existe um papel, que era exercido pela classe operária e que precisa ser adaptado. Uma coisa importante que a esquerda deve ter em mente é manter o direito de organização dos sindicatos, que estão sendo destruídos pelo mercado livre global neoliberal.

FOLHA - O sr. diz no livro que uma chave para entender o que há de diferente no império norte-americano é que os outros grandes impérios do passado sabiam que não eram os únicos, no tempo em que exerceram o poder, e nenhum ambicionou uma dominação global. O que essa diferença revela, em termos de perspectivas?*

HOBSBAWM - Não acho que exista hoje, como nunca existiu, espaço para um único império no planeta. Mesmo o Império Romano, à sua época, não era o único e sabia disso. Havia o persa, o chinês. Brevemente, no século 19, pode ter parecido possível, por razões tecnológicas, que parte do mundo respondesse a um país, como foi o caso do Reino Unido. Mas a Inglaterra nunca quis tentar exercer todo esse poder. A política do Império Britânico era apenas a de seguir a lógica e os interesses de sua própria economia. Por um breve momento, realmente controlou boa parte do planeta. Mas tampouco houve um grande inimigo, uma grande ameaça.

Acho que o mundo continuará a ser plural, com algumas unidades políticas que serão mais poderosas que as outras. Porém, não haverá um único império.

FOLHA - Mas o sr. acredita que a supremacia norte-americana esteja em vias de se dissolver?

HOBSBAWM - A Guerra do Iraque está demonstrando que exercer influência no mundo todo não será possível. Ela está demonstrando que mesmo uma grande concentração de poder militar não pode controlar um Estado relativamente fraco sem certa aprovação ou consenso deste.

Há quem discuta a idéia de impérios informais, baseados nas corporações econômicas transnacionais. Mas esse é um tipo de poder frágil, fácil de explodir. O papel dos governos e Estados Nacionais diminuiu muito nos últimos 20, 30 anos. E o do capitalismo internacional aumentou. Mas não o suficiente para substituí-lo.

O mundo ainda se apóia muito numa simbiose entre Estados e infra-estruturas nacionais. Acredito que o que vai permanecer é um sistema internacional em que diferentes unidades vão operar juntas. A influência regional seguirá sendo possível e exercida por potências locais.

Quanto ao projeto norte-americano especificamente, defendo neste livro que está falindo. Isso que não significa que os EUA se tornarão um país mais fraco, ou que esteja em declínio ou colapso. Mesmo que perca todos os seus soldados, continuarão sendo uma nação populosa, importante econômica e politicamente.

FOLHA - Mas onde estão os indícios dessa falência, além do fracasso da intervenção militar no Iraque?

HOBSBAWM - O império norte-americano não permanecerá, entre outras razões, por questões internas. A maior parte dos norte-americanos não quer saber de imperialismo e sim de sua economia interna, que tem demonstrado fragilidades. O capitalismo tem passado por uma crise desde o final dos anos 90. O governo norte-americano não tem lidado bem com isso. Logo os projetos de dominação mundial terão de dar lugar a preocupações econômicas. E os outros países, se não podem conter os EUA, têm de acreditar que é possível tentar reeducá-los.

FOLHA - O sr. tem defendido que a reação à Al Qaeda é mais perigosa do que os atentados promovidos pelo grupo. Por que?

HOBSBAWM - O projeto político da Al Qaeda, até onde entendo, é o de recriar a área do califado muçulmano, da Pérsia até a Espanha. Isso é algo completamente fora de questão, uma utopia. Tão utópico quanto a idéia de que a Igreja Católica possa converter o mundo inteiro.

O modo como a Al Qaeda se desenvolveu, em pequenos grupos ativos, é muito mais eficiente do que os do terrorismo de outros tempos, muito por conta do elemento do homem-bomba. O homem-bomba não é apenas eficaz do ponto de vista objetivo, ele é também mais assustador, porque emocionalmente as pessoas acham difícil entendê-lo, justificá-lo.

Por outro lado, se olharmos para o número de pessoas mortas não só pela Al Qaeda, mas por todos os terroristas e homens-bomba até hoje, em termos absolutos, é algo muito pequeno. Em termos militares, então, é negativo.

É um erro achar que a Al Qaeda é uma ameaça ao mundo.

A reação a Al Qaeda, essa sim, tem sido muito mais perigosa. Não só porque está produzindo uma enorme intervenção militar em lugares em que não deveria haver nenhuma intervenção militar. Mas também porque está sendo responsável pela diminuição séria do respeito aos direitos humanos no Ocidente.

É claro que seria ridículo não levar Al Qaeda a sério. Mas bombardear países não é o modo de lidar com esse tipo de problema. Nunca foi. A questão deve ser resolvida pelos meios tradicionais aplicados no passado, contra o IRA (Exército Republicano Irlandês) e outros grupos terroristas. Por meio de estratégias de investigação policial, da infiltração, de ações localizadas. Trata-se de um problema policial, não militar.

FOLHA - Quando conversamos, em 2002, por ocasião do lançamento de sua biografia, ‘Tempos Interessantes’, o sr. disse que considerava a América Latina um ‘fantástico laboratório de transformações históricas’. Ainda pensa assim? O que tem observado nele, recentemente?

HOBSBAWM - Sim, ainda acho que se trata de um continente em que é possível acompanhar desde o momento em que a natureza foi dominada e as pessoas se estabeleceram até a rápida modernização, industrial e da sociedade, ao mesmo tempo. Algo que em outros lugares levariam gerações, na América Latina se passa de modo muito acelerado. Visitei o Brasil pela primeira vez há 40 anos. E hoje observo que o país mudou dramaticamente.

FOLHA - Para o bem?*

*HOBSBAWM - Deixando de lado juízos de valor… O mais impressionante para mim hoje é perceber que antes eu considerava 40 anos um tempo muito longo na história, e agora sei que cabe numa vida humana. Para um historiador, a América Latina, o Brasil, são lugares onde você pode acompanhar um processo inteiro. Como foi importante para Darwin com relação à biologia, acontece da mesma forma para a história. É um continente incrível. Mas o que continua sendo um mistério para mim é por que, apesar de seu grande potencial, a América Latina tenha permanecido às margens da história ocidental e aí continua. E é desse modo, também, que está entrando no século 21.

FOLHA - Mas o sr. não vê perspectivas?

HOBSBAWM - Não para a América Latina como um todo, possivelmente para o Brasil.

FOLHA - O sr. segue otimista com o governo Lula?

HOBSBAWM - Não tenho acompanhado de forma pontual, mas no geral o Brasil está claramente melhor. A economia, o padrão de vida das pessoas. Em outros aspectos, segue uma bagunça. É interessante notar que, no que diz respeito às diferenças sociais, o país não está mais sozinho. O resto do mundo também ficou socialmente mais polarizado.

Creio que o Brasil tem uma chance hoje de, como a Argentina em certo momento do século 19, desenvolver-se economicamente muito rápido a partir da exportação de produtos primários. Há uma crise de produtos naturais no mundo e o Brasil tem um potencial ilimitado com relação à produção de alimentos. Está numa posição de exportar para países que estão se industrializando rapidamente, como a China. Os termos do comércio favorecem o Brasil. É claro que o país possui também uma boa indústria. Mas, no momento, pode se fortalecer apenas exportando matérias-primas.

FOLHA - O que o sr. acha de Hugo Chávez?

HOBSBAWM - É uma figura simpática, tem senso humor, não é um intelectual, economista, teórico, mas se transformou em mais do que mais um militar latino-americano que tomou o poder. Ele teve sucesso ao se transformar num símbolo genuíno de liderança para a América Latina. Ele continua, mas supera o que simbolizou Fidel Castro. E tem muita sorte de ter tanto petróleo por trás.

FOLHA - E Fidel Castro? O que ficará da Revolução Cubana?

HOBSBAWM - Cuba já vive a fase de transição pós-Castro. Castro será lembrado como uma lenda, uma tocha da emancipação da América Latina com relação aos EUA, uma expressão dramatizada de sua aspiração por independência, um símbolo antiimperialista. Vai ser lembrado por conquistas sociais que nenhum outro país latino-americano alcançou. Acho que não foi suficientemente dito ainda o quanto melhorou a qualidade e a expectativa de vida dos cubanos.

Porém, fundamentalmente, o projeto cubano não pode ser considerado um sucesso. Economicamente, foi um desastre até, assim como a tentativa de revolucionar o resto da América Latina não teve sucesso.

Fidel vai sobreviver como Che Guevara. Uma imagem, um símbolo.

FOLHA - O sr. acredita que a Rússia esteja tentando retomar seu papel político no cenário mundial?

HOBSBAWM - Os russos estão certos de tentar restabelecer seu papel internacional. O que quer que aconteça com a Rússia é relevante. Trata-se de uma grande área, com intermináveis fontes, e a idéia de que poderia ser reduzida a zero politicamente é ridícula. Putin está restabelecendo a Rússia como Estado. Por isso está se transformando num dos políticos populares mais consistentes no mundo hoje. É um pensamento atrasado por parte dos EUA e da Europa acharem que devem olhar a Rússia como inimiga. Os russos têm limitada ambição quanto a se tornarem de novo uma potência. Não acho que queiram voltar a exercer o poder do passado. Mas seguem tendo um papel político internacional importante. O que o governo Putin deveria estar fazendo com mais ênfase é uma tentativa de democratizar mais o país, melhorar as leis e acabar com a corrupção. Ele tem potencial para fazer isso, mas não é algo que me parece que esteja acontecendo.

FOLHA - E a China?

HOBSBAWM - A China sempre cresceu e nunca parou. Sabe que está num momento de crescimento acelerado, mas não tem pretensão de ser um poder único, nem de exportar seu modelo. Ainda que sempre tenha achado que tem uma importância central no mundo. Mas não acho que entrará em conflito com os EUA por outra questão que não seja Taiwan. É o único tema que pode levar a uma guerra entre os dois países. Deve-se, porém, prestar atenção ao que acontece no interior do país, pois essa rapidez de crescimento e de inserção no mundo capitalista pode trazer instabilidade, o grau de desigualdade social tende a aumentar. E não sei se o governo chinês sabe o que fazer com esse problema.

FOLHA - Em ‘Tempos Interessantes’, o sr. escreveu sobre o primeiro congresso sobre história após a Segunda Guerra Mundial, em 1950, em Paris, em que assistiu a uma de suas primeiras palestras sobre história social. De lá até aqui, a historiografia mudou muito, e a história social e cultural ganhou importância. Como vê os desdobramentos desse processo hoje?

HOBSBAWM - Tem havido um revival da história política recentemente e isso é bom. Trabalhos como os de Ian Kershaw [autor da biografia ‘Hitler’] sobre a Segunda Guerra, que trata das circunstâncias em que decisões cruciais do conflito foram tomadas, e outros de história cultural menos setorizada têm atraído a minha atenção.

O que acho que atingiu seu pico recentemente e que, ainda bem, tende agora a ser deixada um pouco de lado é uma certa tendência a reagir contra a idéia de se escrever qualquer tipo de história. Uma tendência pós-moderna de acreditar que não dá pra saber exatamente o que aconteceu, então devemos apenas discutir os conceitos que ficaram. Esse tipo de coisa não trouxe nenhum avanço para a história. Desse modo, investigava-se a história com menos questões, mas com a intenção de resgatar a experiência, os sentimentos. Tenho até certa simpatia por isso, porque uma das coisas fascinantes sobre estudar o passado é tentar saber quão diferente ele era, como agiam as pessoas, etc.

Só que uma história que não tenha questões não pode ser boa, cedo ou tarde é necessário perguntar de onde se veio e para onde se vai.

Sinto que está havendo um revival das análises socio-econômicas mais amplas. E seria proveitoso que esse revival deixasse de ver a história de modo eurocêntrico, que orientasse sua investigação para algo mais global.

FOLHA - Mas o sr. não acha que o sistema universitário esteja fazendo com que os historiadores sejam cada vez mais especialistas?

HOBSBAWM - Sim, os historiadores, para passar pelo crivo da academia, têm de se especializar. Mas depois podem fazer análises mais amplas, e é bom que só o façam após. As universidades treinam pessoas para serem acadêmicas. Mas os historiadores deveriam ver nisso um ponto de partida. Depois de conseguir seu PhD, tentar entender melhor o mundo em que vivem.

*FOLHA - No ensaio ‘Nations and Nationalism in the New Century’, o sr. lamenta o fato de que as seleções de futebol nacionais estejam perdendo força para os chamados superclubes internacionais. Seria o fim do ‘último refúgio de emoções de um mundo antigo’. Mas o sr. não acha que o nível do esporte tenha, por conta disso, tenha melhorado?

HOBSBAWM - O futebol hoje sintetiza muito bem a dialética entre identidade nacional, globalização e xenofobia dos dias de hoje. Os clubes viraram entidades transnacionais, empreendimentos globais. Mas, paradoxalmente, o que faz do futebol popular continua sendo, antes de tudo, a fidelidade local de um grupo de torcedores para com uma equipe. E, ainda, o que faz dos campeonatos mundiais algo interessante é o fato de que podemos ver países em competição. Por isso acho que o futebol carrega o conflito essencial da globalização.

Os clubes querem ter os jogadores em tempo integral, mas também precisam que eles joguem por suas seleções para legitimá-los como heróis nacionais. Enquanto isso, clubes de países da África ou da América Latina vão virando centros de recrutamento e perdendo o encanto local de seus encontros, como acontece com os times do Brasil e da Argentina. É um paradoxo interessante para pensar sobre a globalização.

FOLHA - O sr. tem escrito? Está trabalhando em algum novo livro?

HOBSBAWM - Estou sempre trabalhando em pequenas coisas. Não tenho planos para um livro maior agora, mas quero revisitar algumas idéias antigas, minhas primeiras reflexões sobre história social, os ensaios sobre rebeldia. Também estou escrevendo um pequeno artigo sobre arte e Revolução Russa.

Jornal Folha de S. Paulo
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Mais peso na base da pirâmide social

Até recentemente se acreditava que nos países em desenvolvimento, como o Brasil, obesidade seria característica típica da elite socioeconômica. Estudos refutam essa interpretação.

Wolney Lisboa Conde e Carlos Augusto Monteiro

Estudos sobre a relação entre nível socioeconômico dos indivíduos e presença de obesidade são bastante comuns nos países desenvolvidos. A revisão sistemática dessas pesquisas indica que, nesses países, a obesidade tende a ser mais freqüente nos estratos da população com menor renda, menor escolaridade e com ocupações de menor prestígio social, sendo essa tendência particularmente evidente entre mulheres adultas. Há até pouco tempo, admitia-se situação oposta nos países em desenvolvimento, onde a obesidade seria característica da elite socioeconômica. Estudos mais recentes demonstram, no entanto, grande heterogeneidade na relação entre nível socioeconômico e obesidade no mundo em desenvolvimento e evidências sugestivas de “migração” do sobrepeso do ápice para a base da pirâmide social nos países cujo Produto Interno Bruto (PIB) ultrapassa US$ 2.500 per capita.

Outra maneira de analisar a relação entre nível socioeconômico e obesidade é estudar a evolução da enfermidade ao longo do tempo em um mesmo país ou região, o que fazemos a seguir para o Brasil no período entre 1975 e 2003, empregando como marcador da condição social o nível de escolaridade alcançado pelos indivíduos.

Tendência ao Aumento de Peso

A tendência secular da obesidade no conjunto da população adulta brasileira, e em estratos dessa população constituídos com base na escolaridade alcançada pelos indivíduos, pode ser conhecida a partir de três inquéritos domiciliares probabilísticos realizados no país em 1975, 1989 e 2003 (Figura 1).

No sexo masculino, a prevalência global da obesidade aumenta uniforme e intensamente ao longo dos inquéritos: 89% no primeiro período de 14 anos (1975-1989) e 73% no segundo período de também 14 anos (1989-2003). No sexo feminino, a obesidade também apresenta importante crescimento no primeiro período (aumento relativo de 68%), mas quase não se altera no segundo (aumento relativo de somente 5%). Como resultado, ao longo dos três inquéritos o excesso de obesidade na população feminina, em relação à masculina, declina de quase três vezes (1975) para aproximadamente uma vez e meia (2003).

Entre homens, observa-se aumento generalizado na prevalência da obesidade em todos os estratos de escolaridade ao longo dos dois períodos analisados. No caso das mulheres o aumento generalizado da obesidade ocorre apenas no primeiro período. No segundo período, a obesidade ainda tende a aumentar entre mulheres do quarto inferior de escolaridade (essencialmente mulheres sem escolaridade), porém se estabiliza ou mesmo declina nos demais estratos.

A comparação da variação proporcional na prevalência da obesidade nos períodos 1975-1989 e 1989-2003 está registrada na figura 2. Nesta etapa da análise foram controladas variações em fatores que poderiam distorcer o efeito da escolaridade sobre a obesidade, como idade, região e área de residência.

Nos dois períodos, e em ambos os sexos, observa-se que a velocidade de expansão da obesidade é maior nos estratos de menor escolaridade. No segundo período há nítida relação linear inversa entre porcentagem de expansão da obesidade e escolaridade nos dois gêneros, ainda que em patamares distintos. A relação entre crescimento da obesidade e posição relativa na escala de escolaridade passa a apresentar um claro efeito “dose-resposta” no segundo período, efeito não observado no primeiro. No caso da população feminina é possível notar variação negativa de 1989-2003. Nesse intervalo, o único estrato de mulheres a apresentar variação positiva mais significativa na freqüência de obesidade é o de menor escolaridade, com variação de 10,4%.

A Relação com o Nível Socioeconômico

As razões apontadas por diferentes autores para a relação direta entre nível socioeconômico e obesidade nos países em desenvolvimento são relativamente simples e se referem à proteção natural contra a enfermidade que caracterizaria os estratos sociais menos favorecidos com escassa disponibilidade de alimentos e perfil de intensa atividade física. A relação inversa, comumente observada nos países desenvolvidos, aparenta ser mais complexa e envolveria maior conhecimento a respeito das conseqüências da obesidade e das formas para preveni-la que teriam os estratos sociais mais privilegiados e, ainda, o fato de serem maiores as pressões sociais e familiares sobre esses estratos para manter uma imagem corporal delgada, consistente com os valores estéticos atualmente dominantes nas sociedades de países desenvolvidos.

Desvantagens relacionadas ao ambiente, incluindo menor disponibilidade de oferta de alimentos de menor densidade energética, como frutas frescas, verduras e hortaliças, e acesso limitado a espaços urbanos mais propícios para a prática de atividades físicas no lazer poderiam igualmente justificar o maior risco de obesidade encontrado nos estratos sociais menos privilegiados das sociedades desenvolvidas. Aventa-se ainda como possível explicação para a relação inversa entre nível socioeconômico e obesidade a hipótese da mobilidade social, segundo a qual indivíduos obesos, particularmente adolescentes do sexo feminino, teriam mais dificuldades em prosseguir seus estudos e galgar níveis superiores de escolaridade.

Estudos sobre os mecanismos subjacentes à relação inversa entre nível socioeconômico e obesidade em países em desenvolvimento ainda não estão disponíveis na literatura e, desde já, são relevantes prioridades para a pesquisa populacional. De qualquer maneira, independentemente das razões que vêm determinando que os estratos sociais menos favorecidos da população brasileira percam sua proteção contra a obesidade (homens) ou sofram intensificação de sua maior exposição à doença (mulheres), a constatação desses fatos acarreta implicações importantes que serão a seguir comentadas.

A primeira implicação é que, mantida a tendência de concentração da obesidade nos estratos sociais menos favorecidos, serão enormes as repercussões futuras sobre a distribuição social da carga total de doenças no Brasil. Além de a obesidade ser em si uma enfermidade, estudos prospectivos têm demonstrado que sua ocorrência aumenta de forma significativa a morbimortalidade por diversas doenças não transmissíveis, incluindo em particular diabetes, hpertensão arterial, doença coronariana isquêmica, doença da vesícula biliar, complicações do aparelho locomotor e cânceres de cólon, mama, endométrio e próstata.

Tendo em conta a inevitável ascensão da exposição a essas enfermidades, decorrente do simples envelhecimento da população, e a observada diminuição em nosso meio da incidência da maioria das doenças infecciosas e carenciais, é razoável considerar que a obesidade poderá brevemente se constituir, possivelmente ao lado do tabagismo, em um dos fatores singulares mais importantes para a geração de desigualdades sociais em saúde no Brasil.

A segunda implicação é que a tendência de evolução da obesidade no Brasil mais e mais dependerá da evolução da enfermidade nos estratos sociais menos favorecidos da população, motivo pelo qual esses estratos devem merecer maior atenção das políticas públicas e programas destinados à prevenção e controle da enfermidade.

A terceira implicação diz respeito à importância de investigar os mecanismos principais que têm determinado a progressão acelerada da obesidade nos estratos menos favorecidos da população brasileira. Um melhor conhecimento desses mecanismos certamente contribuirá para aumentar a efetividade das políticas e programas de controle à obesidade em nosso país.

CONCEITOS-CHAVE
- Os resultados deste estudo confirmam a hipótese de “migração” da obesidade do ápice para a base da pirâmide social nos países em desenvolvimento.
- Mantida essa tendência, a obesidade poderá brevemente constituir, ao lado do tabagismo, um dos fatores mais importantes para a geração de desigualdades sociais em saúde no Brasil.
- Com a evolução da obesidade no Brasil nos estratos sociais menos favorecidos da população, eles devem merecer maior atenção das políticas públicas e programas destinados à prevenção e controle da enfermidade.
– Os Editores.

PESO AUMENTA COM BAIXA ESCOLARIDADE
Validade dos resultados.

Alguns fatores falam a favor da validade interna dos resultados aqui apresentados:

1) o caráter probabilístico e as semelhanças quanto ao processo de amostragem empregado pelos três inquéritos;
2) o diagnóstico da obesidade feito a partir do exame antropométrico dos indivíduos (e não de informações recordadas, como ocorre com alguma freqüência em estudos sobre tendência secular da obesidade);
3) a confiabilidade que tradicionalmente caracteriza as informações sobre o nível de escolaridade dos indivíduos;
4) o controle de variações temporais em variáveis que poderiam influenciar a evolução da ocorrência da obesidade nos diferentes estratos de escolaridade (idade, região e área de residência).

Os resultados deste estudo confirmam, em essência, a hipótese de “migração” da obesidade do ápice para a base da pirâmide social nos países em desenvolvimento que alcançaram um mínimo de crescimento econômico.

METODOLOGIA DO ESTUDO

Os três inquéritos domiciliares analisados neste estudo são o Estudo Nacional sobre Despesa Familiar (Endef), realizado de agosto de 1974 a agosto de 1975, a Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição (PNSN), de junho a setembro de 1989, e a Pesquisa Orçamento Familiar (POF), de julho de 2002 a julho de 2003, todos executados pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Procedimentos similares foram empregados nos três inquéritos para a constituição das amostras de domicílios representativas do país, envolvendo estratificação socioeconômica prévia dos setores censitários de cada região, sorteio sistemático de setores censitários e sorteio sistemático de unidades domiciliares dentro de cada setor. O total de domicílios sorteados em 1974/75, 1989 e 2002/03 foi de, respectivamente, 53.311, 14.455 e 46.611, excluídos aqueles da área rural da região Norte, estudados apenas em 2002/03. O presente estudo se restringe à amostra de adultos com idade igual ou superior a 20 anos, excluídas as gestantes, 124.274 em 1974/75, 32.651 em 1989 e 106.809 em 2002/03.

Nos três inquéritos os procedimentos para coleta dos dados analisados neste estudo foram similares. Equipes treinadas tomaram medidas de peso usando balanças portáteis calibradas, com os indivíduos estudados descalços e vestidos com roupas leves. A altura foi medida com fitas inextensíveis com os indivíduos descalços e com a cabeça corretamente posicionada. A idade foi calculada com base na certidão de nascimento ou documento equivalente. Homens e mulheres foram classificados como obesos quando seu Índice de Massa Corporal (IMC, calculado pelo peso em kg dividido pela altura em metros ao quadrado) era igual ou maior que 30 kg/m2.

A escolaridade foi classificada segundo quartos crescentes de anos de estudo em cada inquérito, ou seja, em cada pesquisa os indivíduos foram agrupados em quatro grupos de tamanho semelhante, o primeiro reunindo os 25% da população com menos anos de estudo, o segundo reunindo os seguintes 25%, o terceiro reunindo os seguintes 25% e o quarto reunindo os 25% da população com mais anos de estudo. Outras variáveis levadas em conta neste estudo foram: faixa etária (20-24, 25-34, 35-44, 45-54, 55-64 e 65 ou mais anos), macrorregião de residência (Norte, Nordeste, Sudeste, Sul ou Centro-Oeste) e situação do domicílio (urbana ou rural).

A proporção de obesos foi calculada, em cada inquérito, para cada um dos estratos de escolaridade considerados neste estudo. A seguir, os bancos de dados dos três inquéritos foram compatibilizados e combinados de modo a obter um banco reunindo as amostras dos inquéritos realizados em 1974/75 e 1989, e outro reunindo as amostras dos inquéritos realizados em 1989 e 1997, acrescendo-se nos dois bancos criados uma variável “dummy” (0 ou 1) correspondente ao ano de realização do inquérito. A partir desses dois arquivos, foram então calculadas, para cada estrato de escolaridade, razões de prevalência (RP) relativas a mudanças na freqüência de indivíduos obesos entre 1974/75 e 1989 e entre 1989 e 2002/03.

As razões de prevalência já consideram o efeito sobre a freqüência da obesidade de eventuais variações entre os inquéritos quanto à distribuição de variáveis que podem influenciar a proporção de obesos como faixa etária, região e área de residência. O percentual de variação no período foi calculado como o logaritmo da RP ajustada. Neste caso a proporção de variação é bidirecional e pode ser lida em qualquer sentido. Todas as análises deste estudo levam em conta ponderações decorrentes da diferente probabilidade de seleção dos domicílios estudados em cada inquérito e a influência dos desenhos amostrais no cálculo das estimativas de variância.

PARA SABER MAIS
Socioeconomic status and obesity in adult populations in developing countries: a review. C. A. Monteiro, E. C. Moura, W. L. Conde e B. M. Popkin, em Bulletin of World Health Organization, 82(12), págs. 940-946, 2004.

Obesity and inequities in health in developing world. C. A. Monteiro, W. L. Conde, Lu B. e B. M. Popkin, em International Journal of Obesity, 82(12), págs. 940-946, 2004.

Velhos e novos males da saúde no Brasil: a evolução do país e de suas doenças. C. A. Monteiro. Hucitec/Nupens-USP, 1995.

Wolney Lisboa Conde e Carlos Augusto Monteiro: Wolney Lisboa Conde é professor-doutor do Departamento de Nutrição e do Programa de Pós-Graduação em Nutrição em Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública da USP.
Carlos Augusto Monteiro é professor-titular do Departamento de Nutrição e do Programa de Pós-Graduação em Nutrição em Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública da USP, onde coordena o Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens/USP).

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

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Igreja Ortodoxa está de volta ao currículo escolar na Rússia

Aulas de religião na rede pública acirram debate sobre o que significa ser russo na era pós-comunista

Clifford J. Levy
, The New York Times

Um dos debates mais polêmicos na sociedade russa vem ocorrendo em escolas públicas como as de Kolomna, cidade a 90 quilômetros de Moscou, onde outro dia a professora Irina Donshina pôs de lado os livros escolares e, dirigindo-se a seus alunos do segundo ano, como se falasse de um púlpito, perguntou:

‘”’Com quem devemos aprender a fazer o bem?”'’

‘”’Com Deus”'’, responderam os alunos.

‘”’Correto”'’, disse Irina. ‘”’Porque ele foi crucificado pelas pessoas que criou. Mas vocês acham que ele as acusa, amaldiçoa ou odeia? Claro que não! Ele continua a amar e ser piedoso com elas, embora pudesse ter eliminado todos nós, e o mundo inteiro, numa fração de segundo.”'’

Quase duas décadas após o colapso da União Soviética e o retorno da religião à vida pública, muitas cidades russas estão decretando que, para terem um ensino adequado nas escolas, as crianças devem familiarizar-se com a Igreja Ortodoxa Russa, incluindo suas tradições, sua liturgia e suas figuras históricas.

As aulas vêm sendo incluídas no currículo por insistência de líderes da Igreja, para quem o ateísmo imposto pelo comunismo deixou os russos distantes de uma fé que, outrora, era parte integrante de sua identidade.

O novo currículo escolar reflete a luta do país para definir o que significa ser russo na era pós-comunista e qual o papel que a religião deve desempenhar, depois de ser brutalmente suprimida durante o regime soviético. Mas esse empenho de uma Igreja revitalizada para que seus princípios sejam inseridos no sistema educacional tem provocado uma violenta reação - e não só dos remanescentes do Partido Comunista.

Os oponentes argumentam que os líderes da Igreja Ortodoxa, ao fazer proselitismo nas escolas, estão debilitando a separação entre Igreja e Estado, como determina a Constituição. Como a Rússia é uma nação pluralista e multiétnica, corre-se o risco de atrair a antipatia da grande minoria muçulmana se a Igreja Ortodoxa se tornar a religião estatal.

A Igreja diz que essas alegações são infundadas, sustentando que os cursos são culturais, e não religiosos. Na aula da professora Irina Donshina, pelo menos, as crianças parecem ter seu próprio entendimento de um tema básico do curso. ‘”’Devemos amar a Deus”'’, disse Kristina Posobilova. ‘”’Devemos acreditar apenas em Deus.”'’

CARTA DE PROTESTO

A disputa chegou a um ponto crítico recentemente, quando dez importantes cientistas russos, incluindo dois laureados com o Prêmio Nobel, enviaram uma carta ao presidente Vladimir Putin protestando contra o que chamaram de ‘”’crescente predomínio do clero”'’ na sociedade russa. Além de criticar o ensino religioso nas escolas públicas, eles atacaram os esforços da Igreja para conseguir o reconhecimento dos cursos de teologia e a presença de capelães ortodoxos no Exército.

As autoridades locais colocaram em prática a política educacional sob a supervisão de Moscou, mas desfrutam de uma certa liberdade. Algumas cidades exigem a presença dos alunos nas aulas de religião cristã ortodoxa, enquanto outras permitem que as crianças não assistam às aulas quando os pais forem contra, embora isso raramente aconteça. Outras regiões não adotaram os cursos.

Putin, embora nunca hesite em anular decisões de autoridades locais, contornou esse assunto. No início de setembro, declarou preferir que as crianças tivessem um aprendizado de religião em geral, especialmente das quatro religiões com vínculos antigos com a Rússia - a cristã ortodoxa russa, a islâmica, a judaica e a budista. Mas o presidente, que já foi fotografado usando um crucifixo e às vezes assiste aos ofícios religiosos e outros eventos da Igreja, não disse que as práticas correntes devem ser abolidas.

‘”’Precisamos encontrar uma forma que seja aceitável para toda a sociedade”'’, disse. ‘”’Vamos refletir juntos a respeito.”'’

As pesquisas mostram que grande parte dos russos - entre metade e dois terços - se considera cristã ortodoxa, o que significa um forte aumento desde o colapso da União Soviética, em 1991. Membros do clero participam com freqüência de eventos governamentais, mas a Rússia ainda é um país profundamente secular e muitos cidadãos dizem que nunca entraram numa igreja.

Entre 10% e 15% dos russos são muçulmanos e muitos vivem no sul do país, embora Moscou e outras grandes cidades tenham uma grande população islâmica. A população judaica encolheu com a emigração e assimilação, caindo de 140 milhões para algumas centenas de milhares de pessoas. Líderes judeus e muçulmanos no geral foram contrários às aulas de religião cristã ortodoxa. Mas alguns dizem que as escolas podem ser autorizadas a oferecer os cursos, desde que como atividade extracurricular.

‘”’Não queremos que as crianças muçulmanas sejam obrigadas a estudar outras religiões”'’, disse Marat Khazrat Murtazin, reitor da Universidade Islâmica de Moscou. ‘”’Os muçulmanos devem estudar sua própria religião.”'’

Durante a Rússia imperial, a Igreja Ortodoxa Russa exerceu uma enorme influência como religião oficial e praticamente todas as crianças freqüentaram um curso de religião cristã ortodoxa, conhecida como Lei de Deus. Um dos cientistas que assinaram a carta a Putin, Zhores I. Alferov, Prêmio Nobel de Física em 2000, disse temer que o país retorne aos velhos tempos. Lembrou que seu próprio pai teve de estudar a Lei de Deus durante o governo do último czar da Rússia, Nicolau II.

O patriarca Alexis II de Moscou, líder da Igreja, afirmou diversas vezes que, para apreciar as artes, a literatura, a herança e a história da Rússia, as crianças precisam conhecer a religião cristã ortodoxa russa. E qualificou a carta dos cientistas a Putin como ‘”’eco da propaganda ateísta do passado”'’.

Há cinco anos, Kolomna foi uma das primeiras cidades a adotar o currículo. ‘”’O objetivo é garantir que as pessoas, as crianças, conheçam sua história e suas raízes”'’, disse o padre Vladimir Pakhachev, líder da Igreja em Kolomna que ajudou a supervisionar o currículo.

Para Pakhachev, seria absurdo estudar a língua russa sem conhecer São Cirilo e São Methodius, os dois irmãos do século 9º que teriam ajudado a criar o cirílico - o alfabeto russo. ‘”’Os irmãos eram monges e figuras religiosas importantes e esse aspecto de suas vidas não pode ser ignorado”'’, assinalou o padre.

Na Escola Pública 3, em Kolomna, os cursos são de comparecimento voluntário, dados uma vez por semana durante o horário escolar e ministrados por professores regulares. Num deles, a professora Irina Donshina recita com os alunos os Dez Mandamentos, apontando depois para uma pequena árvore diante da sala, com ramos, mas sem folhas. ‘”’A fé em Deus é tão importante para todo ser humano como é a raiz para uma árvore”'’, diz ela. ‘”’Mas a nossa árvore infelizmente morreu, da mesma maneira que uma alma pode morrer sem ter feito o bem. É o que acontece com pessoas que não fazem coisas boas e não seguem as leis de Deus.”'’

A professora termina a aula falando sobre os santos russos. ‘”’Eles nos mostraram como devemos viver para ficar próximos de Deus”'’, afirma Irina. Depois disso, ela se despede da classe, oferecendo um pedaço de chocolate a cada criança.

Jornal Estado de S. Paulo
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Sputnik: 50 anos de corrida espacial

Em outubro de 1957, a União Soviética lançava o primeiro satélite artificial, dando início a uma nova era tecnológica

Cristina Amorim

Em 4 de outubro de 1957, a União Soviética lançou sem alarde o Sputnik 1 e deu início oficialmente à corrida com os Estados Unidos pela supremacia espacial. O primeiro satélite artificial era apenas uma esfera de metal, pouco maior do que uma bola de basquete, com antenas que transmitiam sinais de rádio. Mas carregava com ela 40 anos de pesquisa aeroespacial soviética e as primeiras linhas de um novo capítulo da história da humanidade.

O feito teve repercussão em todo o mundo, inclusive no Brasil. A população seguiu atentamente notícias e análises veiculadas pela imprensa durante a missão. Radioamadores acompanharam o bip bip emitido pelo satélite por 22 dias, tempo que durou sua bateria.

Em território americano, o Sputnik provocou o medo de que uma guerra real fosse deflagrada. Nas Nações Unidas, um tenso jogo de poderio tecnológico e militar era travado em discursos com múltiplos sentidos e demonstrações de poder - a que serviu o Sputnik. Em locais opostos do mundo, cientistas começaram a acelerar o passo.

Em questão estava a conquista do espaço.

A segunda jogada foi dada também pelos soviéticos. Menos de um mês depois, o Sputnik 2 - maior e mais pesado - chegou ao espaço. E, num golpe de mestre, com a cadela Laika a bordo.

Em 1957, apenas Estados Unidos e União Soviética detinham a tecnologia espacial, parte dela desenvolvida ao longo da Segunda Guerra Mundial. Havia boa parcela de descrédito sobre ser possível vencer a gravidade e a atmosfera, inclusive entre cientistas. Imaginava-se que o homem demoraria ainda décadas para chegar ao espaço.

A Guerra Fria e o estabelecimento do Ano Geofísico Internacional, entre 1957 e 1958, impulsionaram a pesquisa. A União Soviética saiu na frente pela tradição na área, que começou com o trabalho pioneiro do professor K. E. Tsiolkovsky (1857-1935). Ele propôs os princípios da viagem espacial e desenhou foguetes com estágios múltiplos, estratégia utilizada até hoje.

Os americanos só alcançaram os soviéticos em fevereiro de 1958, quando colocaram o satélite Explorer 1 em órbita e fizeram a primeira descoberta científica a partir do espaço: a medição de um cinturão de radiação em volta da Terra. Porém, foi a conquista da Lua que colocou os Estados Unidos na liderança espacial, pavimentada pelo fim da Guerra Fria e a queda do comunismo soviético.

Entre 1957 e 1971 mais de 1.200 satélites e sondas espaciais foram lançados pelos dois países. Desde então, o conhecimento espacial se disseminou. Porém, até hoje é um campo caro, que demanda planejamento, investimento de longo prazo e formação de corpo especializado. A humanidade começa a viver a era da exploração espacial, mas poucos têm dinheiro e comprometimento para dar as cartas.

Jornal Estado de S. Paulo
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Violência testa segurança nos campi americanos

Mindy Sink

Tão logo as autoridades da universidade souberam que dois estudantes tinham sido baleados na Universidade Estadual de Delaware, em 21 de setembro, elas agiram rapidamente para limitar o acesso ao campus e notificar os estudantes a permanecerem em suas salas e dormitórios.

“O que mais aprendemos com a Virginia Tech é quando algo acontece, não espere”, disse Carlos Holmes, diretor do serviço de notícias da universidade, em Dover, Delaware. “E foi exatamente o que fizemos.”

Faculdades e universidades de todo o país revisaram suas políticas de segurança desde que Seung-Hui Cho, um estudante do Instituto Politécnico da Virgínia, atirou em 32 pessoas e então se matou, no campos em Blacksburg, Virgínia, em 16 de abril.

Na semana passada, na Universidade de Saint John, em Queens, Nova York, as autoridades usaram um sistema de mensagem de texto para informar estudantes e professores da presença de um atirador no campus. O atirador -identificado como um calouro de 22 anos- foi rapidamente preso. Não houve feridos, mas a universidade fechou o campus por três horas.

As autoridades da universidade disseram que pelos menos 10 mil estudantes estavam no campus no momento do incidente, mas que graças ao sistema de mensagem de texto os seguranças conseguiram direcioná-los para locais seguros de forma ordenada.

No primeiro dia de aula na Universidade do Colorado, em Boulder, em agosto, um alerta por mensagem de texto foi enviado pelas autoridades da
universidade: “Esfaqueamento no CMU/suspeito sob custódia/terraço fechado”.

Michael Knorps, um calouro de 18 anos de lá, estava conversando com os amigos no terraço do Centro Memorial da Universidade quando, disseram as autoridades, um ex-funcionário do café o agarrou e cortou sua garganta, antes de se apunhalar várias vezes. Knorps foi tratado no hospital local e recebeu alta no mesmo dia.

Naquele primeiro dia de aula, apenas 1.300 pessoas tinham se registrado no novo sistema de alerta por mensagens de texto da universidade, que possui mais de 28 mil estudantes matriculados. Em cinco dias, quase 8 mil se registraram.

“Todos reconhecem que a tragédia da Virginia Tech foi um despertar para faculdades e universidade de todo o país”, disse W. Roger Webb, presidente da Universidade Central de Oklahoma, em Edmond. “Infelizmente, os gastos em segurança tinham menor prioridade. Eu acho que isto fez com que todos olhassem mais seriamente qual é nossa primeira obrigação, que é proteger nossos estudantes.”

“O que a Virginia Tech mostrou foi semelhante ao que Columbine nos mostrou, que é que você está vulnerável independente de onde esteja”, disse Alison Kiss, diretora de programa do Segurança no Campus, um grupo sem fins lucrativos em King of Prussia, Pensilvânia. “É preciso levar a segurança muito a sério independente de onde você esteja, e ter planos apropriados implementados.”

Durante as férias de verão, faculdades e universidade de todo o país revisaram as políticas para combate à violência no campus, promoveram treinamento adicional de saúde mental, instalaram e ativaram novos sistemas de alerta e até mesmo encomendaram rifles de longo alcance.

The New York Times
http://www.nytimes.com/

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A farsa da avaliação de desempenho

CARLOS GIANNAZI

O governo precisa é valorizar o magistério, garantindo de fato evolução funcional e salário condizente com a importância do cargo

O ARTIGO publicado neste espaço no último dia 21 pelo secretário de Estado de Gestão Pública de São Paulo, Sidney Beraldo, anuncia a intenção do governador José Serra de implantar no funcionalismo público a alardeada avaliação e remuneração por desempenho, concebida por alguns governos como a grande panacéia que solucionará a crise que há muito vem prejudicando a população usuária dos serviços públicos e de seus servidores no Brasil.

Crise representada pela falta de investimento na valorização salarial e na formação continuada, nas precárias condições de trabalho, de infra-estrutura material e humana e, ainda, na constante tentativa de governantes e setores da elite econômica de eleger sempre os servidores públicos como o “bode expiatório” da falência do Estado e da crise fiscal.

O secretário, adepto e influenciado por uma visão empresarial, de mercado e neocolonial, tenta justificar a “nova” metodologia pelo receituário neoliberal, até querendo, equivocadamente, comparar a realidade brasileira com a de países anglo-saxões.

A cobaia da experimentação será a área da educação, em que os professores recebem salário-base médio de R$ 680 e trabalham em condições extremamente precárias, com superlotação de salas de aula, falta de material pedagógico e humano, excessivas e longas jornadas de trabalho, adoecimento, desgaste emocional e, somando a tudo isso, uma vertiginosa violência a massacrar todos no ambiente escolar que, por princípio, deveria ser o lugar da construção da civilidade.

As políticas salariais de bônus e gratificações adotadas nos últimos anos pelo próprio governo tucano não só fracassaram como também destruíram a carreira do magistério paulista, tendo como conseqüência o que revelou a última avaliação do MEC, classificando a rede estadual de São Paulo como uma das seis piores do Brasil.

Como exigir melhor desempenho dos professores em condições aviltantes de trabalho? Sabemos muito bem o que está por trás da proposta de remuneração por desempenho: não dar reajuste para os servidores, legitimar o desrespeito à data-base, que já venceu em 1º de março, fortalecer o controle e a punição e ainda culpar os professores pelo fracasso escolar.

O governo precisa é valorizar a carreira do magistério, garantindo de fato evolução funcional e salários condizentes com a importância do cargo, a fim de estimular os atuais professores e atrair outros que gostam e querem sobreviver da docência. Para tanto, perdoem-me o necessário trocadilho, é preciso ter decência.

Por isso, faz-se necessária, sim, uma avaliação, mas do desempenho deprimente e inócuo das políticas salariais adotadas para os servidores públicos, em especial os da rede estadual de ensino, já que serão eles as primeiras vítimas do experimento tecnocrático que trata os educadores como trabalhadores de uma empresa, de um banco e/ou aqueles que labutam por produção.

O trabalho com educação é absolutamente distinto e obedece a outra lógica, muito diferente da empresarial, fabril, de linha de montagem. Educação é um processo contínuo, permanente e interativo, no qual, além de conteúdos, são trabalhados valores éticos, habilidades, visão de mundo, competências, formação da cidadania crítica, respeito ao bem social comum, solidariedade humana etc. Isso não se mede ou se afere com estatísticas lineares, índices mercadológicos ou métodos da “qualidade total”.

A sanha avaliativa -representada por avaliações externas, como Saresp, Prova Brasil, Saeb, Enem (o ex-Provão) e as novas Provinha Brasil, criada pelo PED, e a Prova São Paulo, da Prefeitura de São Paulo- fornecerá os critérios para premiar professores e escolas que atingirem as metas requentadas anunciadas recentemente pela Secretaria Estadual de Educação.

Uma delas é a implantação do ensino fundamental de nove anos, que não é meta do governo estadual, e sim obrigação constitucional já incorporada pela Lei de Diretrizes e Bases. Só para citar mais uma, a implantação da recuperação, que já existe, é inerente ao processo ensino-aprendizagem e também figura na LDB.

Chega de avaliações. A educação já está com overdose delas. O que ela precisa, com os professores, é de mais investimento. Para isso, o governador José Serra poderia oferecer um bom exemplo de desempenho e um interesse em solucionar a grave crise que assola a educação estadual orientando a sua base governista na Assembléia Legislativa para derrubar os vetos do seu próprio partido às emendas que aumentam os recursos para as escolas públicas do Estado de São Paulo.

CARLOS GIANNAZI, 45, mestre em educação pela USP e diretor (licenciado) de escola pública, é deputado estadual (PSOL), membro da Comissão de Educação da Assembléia Legislativa de São Paulo.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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Maior festival de música brasileira completa 40 anos

Festival de 1967 reuniu Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Edu Lobo, entre outros

Fred Melo Paiva, do Estadão

SÃO PAULO - A platéia que lotava o teatro tinha se tornado personagem à parte, armada até os dentes de assobios e faixas. Queria impor no berro a sua escolha. Os artistas, isolados em seus camarins, sentiam-se prontos para enfrentar os leões. Na noite da grande final, vaias e aplausos se misturavam. Uns mais vaiados do que aplaudidos, outros mais aplaudidos do que vaiados.

Mas, quando chegou a minha vez, a vaia foi unânime. Não tinha jeito de cantar. Por causa do barulho, era impossível ouvir o acompanhamento. Me senti acuado e resolvi reagir. Disse uns desaforos, que depois a censura cortou do vídeo.

Veja também:

link Violada aos 40: ouça músicas do 3º Festival da Record som

Em seguida, quebrei o meu violão e o atirei sobre o público. Naquela hora, pouco me importava se estivesse jogando para o alto tudo o que eu tinha construído na minha carreira. A Elis Regina me abraçou, emocionada e solidária com o meu gesto. Minha música foi desclassificada pela direção da TV Record. Saí do teatro sob escolta. Uma parte da platéia queria me linchar.

O violão do Sérgio Ricardo, esse nosso Kurt Cobain, veio a esbofetear um sujeito sentado nas primeiras filas. A performance pode ser verificada no YouTube, desde o momento em que o Sérgio começa a entoar os primeiros versos de Beto Bom de Bola até o instante em que pisa na mesma, arremessando o instrumento.

Em frente ao palco, no fosso destinado às orquestras do Teatro Paramount, em São Paulo, ficavam os 15 jurados deste que é considerado o grande Festival de Música Popular Brasileira em todos os tempos. Há controvérsia a respeito de qual carcaça craniana teria sido mais perigosamente sobrevoada pela ferramenta de trabalho de Sérgio Ricardo.

“Passou bem em cima de mim”, diz o maestro Julio Medaglia. Numa posição intermediária, “alguma coisa passou zunindo” sobre a corcova do jornalista Salomão Schwartzman. Também o poeta Ferreira Gullar deve ter ouvido aquele violão, no alarido rolando por cima do seu telhado.

O júri do III Festival de Música Popular Brasileira ocupava posição das mais complicadas - e não apenas porque ficava na linha de frente, sujeito a levar uma cabongada. O problema é que em 1967 a rivalidade de estilos musicais chegou a seu ápice, fazendo surgir as torcidas organizadas. Em anos anteriores, o público que acompanhava os festivais ao vivo, de dentro do teatro, limitava-se a aplaudir canções de que gostava.

Agora havia uma clara indisposição com os “inimigos”, muitas vezes vaiados impiedosamente até o último acorde. O enfrentamento extrapolava o espaço do Paramount, antigo cine-teatro construído no final dos anos 20, hoje Teatro Abril. Palco que recebera Nat King Cole em 1959, acabou arrendado pela TV Record em 67, justamente para as transmissões do Festival.

Nas ruas, até passeatas eram empreendidas para manifestar apoio a este ou aquele compositor. O clima político ajudava a botar lenha na fogueira. Uma parte do público ainda se emocionava com a Jovem Guarda, cuja temática tinha a profundidade da Daniella Cicarelli no Video Music Brasil - sem querer ofender a Jovem Guarda. Uma outra parte só aceitava as letras que dessem na ditadura a sua violada.

Espantosa qualidade

Para embaralhar ainda mais o jogo, emergia desse caldeirão uma turma de espantosa qualidade. Entre os compositores que interpretaram suas próprias músicas, o Festival de 1967 reuniu Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Edu Lobo. Entre os cantores, Roberto Carlos, Elis Regina, Gal Costa. Até a Hebe Camargo, mas deixa isso pra lá.

Com o público fungando na retaguarda, não era raro voar sobre o júri ovos e tomates. Numa das eliminatórias, o jornalista e jurado Sérgio Cabral, pai do atual governador do Rio de Janeiro, viu o produto da feira passar “raspando no meu nariz e estourar perto do Gullar e do Chico Anysio”, outro dos que compunham o júri.

Para sair do teatro, Cabral desenvolveu a técnica do absurdo. Consistia em segurar a mulher pelo braço e atravessar o auditório repetindo o seguinte bordão: “Mas isso é um absurdo! É um absurdo! Um absurdo!”. Dessa forma, não importando a qualidade dos inconformados, o Sérgio Cabral estava sempre do lado deles.

Julio Medaglia

Escolher o júri para o Festival de 1967 foi um parto. Nenhuma tendência deveria ser privilegiada. “Tratava-se de resolver uma equação com três variáveis: o conhecimento para a avaliação, a credibilidade junto à empresa e ao meio musical, e a posição política”, conta o crítico de música Zuza Homem de Mello em A Era dos Festivais (Editora 34, esgotado).

A solução foi parir uma metade de gente de esquerda e outra de direita, misturá-las a figuras da indústria do disco, executivos da Record, maestros, jornalistas. A primeira atividade do grupo foi chafurdar centenas de fitas K-7. Para fugir do assédio, Julio Medaglia, então com 29 anos, levava o balaio e os gatos para a casa do pai dele, no bairro da Lapa, em São Paulo. “Passamos um mês ouvindo música e tomando caipirinha.”

Embora parte do corpo de jurados, Julio Medaglia podia fazer arranjo para quem ele quisesse - arranjo musical, veja bem. Chegou a colaborar com Gilberto Gil em Domingo no Parque, a música que chegaria em segundo lugar. Mas, “como Rogério Duprat tinha sido expulso da Universidade de Brasília e estava completamente duro, eu dei para ele esse espaço”.

Por sugestão do Julio Medaglia, Duprat juntaria Gil e Os Mutantes, lançando as bases do Tropicalismo. “A gente sempre foi contra o rock”, ele diz, “mas sabíamos distinguir um Jimi Hendrix, uma Janis Joplin”. Por isso foi convidado por Caetano Veloso para trabalhar no arranjo de Alegria, Alegria, cuja música seria executada pelos argentinos dos Beat Boys.

Seguro de que “o contraste já viria da mistura da banda de rock com a marcha-rancho”, acabou se autodispensando da função. Caetano tirou quarto lugar, colocando-se ao lado de Gil como a grande surpresa musical daquele ano - e contribuindo decisivamente para mudar a cara da MPB a partir de 1968, justificando, em 67, o título de “Festival da Virada”.

Julio Medaglia voltaria a trabalhar com ele em 68, assinando o arranjo de Tropicália. Há poucos meses, o Julio, que está com 69 anos, emprestou para uma exposição a partitura original da música. “Fizeram um seguro milionário”, diz. “Tomara que suma.”

‘Estética matou a minha ideologia’

Sérgio Cabral, o pai, fazia parte da “tradicional família musical”. Por isso ficou “chocado” quando soube que Gil e Caetano subiriam ao palco acompanhados de bandas de rock. “Mas a estética matou a minha ideologia em 2 minutos”.

Ainda que desprovido de ideologia, deu seu voto para Ponteio mesmo, a música de Edu Lobo que levou o primeiro lugar. O Chico Anysio não. O Chico Anysio cravou Alegria, Alegria, porque considera Caetano “o melhor letrista do Brasil, mais até do que o Chico Buarque”. Se o Chico Anysio disser isso para o Ferreira Gullar, corre o risco de tomar uma violada.

Em 1967, Gullar não teve dúvida: deu seu voto para Roda Vida, de Chico Buarque, que terminou o Festival em terceiro lugar. O Ferreira Gullar até conhecia o Caetano, que “tinha vindo tomar conta da Bethânia quando ela chegou no Teatro Opinião para fazer o Carcará”. Mas naquele tempo a esquerda ainda votava na esquerda. Salomão Schwartzman, que segundo o próprio sofreu “um expurgo stalinista” ao ser demitido recentemente da Rede Cultura, apostou em Domingo no Parque.

“Durante o Festival, todos nós tínhamos a noção de estar diante de algo maravilhoso”, lembra Sérgio Cabral. “O que não sabíamos era que aquilo nunca mais se repetiria com tanta qualidade.” Sentindo que o sucesso do Festival poderia conduzir a vaca diretamente para o brejo, Julio Medaglia procurou Paulinho Machado de Carvalho, o dono da Record.

Pediu que “não matasse a galinha dos ovos de ouro”. Sugeriu que preservasse os artistas contratados pela emissora, sob pena de transformá-los em celebridades, e de o povo se cansar de suas músicas. “Mas não adiantou nada”, ele diz. “É por isso que nos anos 70 vieram a turma das sapatonas e os seus boleros horríveis. Foi só se esboçar a abertura política, e a música brasileira acabou.”

Quarenta anos se passaram de um momento glorioso da MPB. Com exceção daqueles que na época se organizaram empresarialmente, os demais se transformaram em dinossauros. As lições que tiro do violão quebrado estão guardadas no meu coração.

Numa disputa esportiva, vence o que faz mais gols, ganha o cavalo que primeiro botar o focinho no olho mecânico. É incontestável. Qual música é inferior ou superior à outra: Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, ou Carinhoso, de Pixinguinha? Em qual você vota? Isso não existe.

Sérgio Ricardo vive hoje no Rio de Janeiro. Tem 75 anos e prepara o lançamento de um novo CD. Além de ter composto a trilha sonora de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, o Sérgio vai deixar como legado uma das mais famosas manchetes da história do jornalismo brasileiro, publicada por um jornal popular: “Violada no auditório”.

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Era espacial gerou fascínio e medo

Nem a URSS imaginava o efeito que o Sputnik causaria nos EUA. Lançamento do primeiro satélite artificial levou os americanos a uma crise de confiança; Eisenhower tentou desmerecer façanha.

JOHN NOBLE WILFORD
DO “NEW YORK TIMES”

Cinqüenta anos atrás, antes que a maioria das pessoas que vivem hoje sequer tivessem nascido, o “bip-bip-bip” do Sputnik foi ouvido por todo o mundo. Era o som do incrível e do presságio. Nada jamais seria como aquilo -seja na política, em ciência e tecnologia ou no dia-a-dia da espécie humana.
A União Soviética tinha lançado o primeiro satélite artificial, uma nova lua, em 4 de outubro de 1957. Vencendo a gravidade terrestre, elevando-se acima da atmosfera até entrar em órbita, o Sputnik atravessou todos os limites em direção a uma nova dimensão da experiência humana. As pessoas podiam agora se ver como exploradoras espaciais.
A reação imediata, no entanto, refletiu as preocupações de um mundo imerso na Guerra Fria. Era um tempo de medo e divisão, no qual as duas superpotências, União Soviética e EUA, se encaravam com ameaças de destruição em massa. O Sputnik alterou a natureza e o alcance da Guerra Fria.
Era uma simples esfera de 58 centímetros de diâmetro e apenas 85 kg, com uma superfície polida de alumínio que refletia a luz e era visível da Terra. Dois rádios transmissores enviavam sinais em freqüências que cientistas podiam captar na Terra.
Os russos pretendiam que o Sputnik fosse uma declaração barulhenta do seu poderio tecnológico. Mas nem mesmo eles, ao que parece, tinham antecipado a reação que seu sucesso iria provocar.
Crise de autoconfiança
O lançamento do satélite levou os americanos a uma crise de autoconfiança. Seu país tinha baixado a guarda com a prosperidade? As instituições da democracia liberal estariam em pé de igualdade para competir com a autoritária sociedade comunista?
Na época do Sputnik, John F. Kennedy era um senador de Massachusetts sem nenhum interesse no espaço. Yuri Gagárin era um piloto militar russo sem distinções. Neil Armstrong testava aviões de ponta no deserto da Califórnia. Em breve suas vidas seriam mudadas, bem como as de pessoas comuns no mundo todo.
A dinâmica pós-Sputnik acabou me atingindo e me recrutando. Assim como quase todo jovem americano apto, eu havia interrompido minha vida e minha carreira para entrar no serviço militar. Na manhã seguinte ao triunfo soviético, eu estava de folga do quartel. Comprei o jornal e o abri sobre a mesa de um café. As manchetes trombeteavam a notícia. A linguagem complicada de foguetes e órbitas deu um nó na minha cabeça, mas continuei lendo. Eu não tinha nenhuma premonição de que o Sputnik tinha disparado os eventos que moldariam minha carreira. Só em 1959 que eu senti o seu efeito.
Os jornais e outros meios de comunicação, influenciados pelo Sputnik, começaram a se mexer para expandir a cobertura de ciência, medicina e tecnologia. Concordei com o editor-executivo [do “Wall Street Journal”] em tentar escrever sobre medicina. Uma coisa levou à outra, da medicina à ciência à exploração espacial, à revista “Time” e finalmente ao “The New York Times”, para cobrir a mais ambiciosa resposta americana ao Sputnik: o programa Apollo.
Depois do Sputnik, não havia mais como parar a corrida espacial. Os críticos atacaram o presidente Dwight Eisenhower, que a princípio desdenhou do Sputnik, dizendo tratar-se de um evento meramente “de interesse científico”. Logo o Departamento de Defesa acelerou o desenvolvimento de mísseis. O Congresso criou a Nasa.
Mísseis x bombardeiros
Mas a percepção de uma vantagem soviética persistiu. A necessidade havia ditado o foco russo nos mísseis. Desde a 2ª Guerra, os bombardeiros americanos haviam se tornado melhores que os soviéticos, que tampouco tinham bases aéreas a uma distância pequena o suficiente do território dos EUA que permitisse um ataque.
Uma estimativa exagerada do “gap dos mísseis” se tornou o grito de guerra da campanha presidencial de 1960 e pode ter sido crucial para a vitória de Kennedy. Pouco tempo depois de ele ter assumido, os russos marcaram outro golaço: em abril de 1961, Gagárin se tornou o primeiro homem a voar em órbita da Terra.
Depois de semanas de reuniões a portas fechadas, Kennedy foi ao Congresso em 25 de maio, e declarou: “Chegou a hora de dar passos mais largos, a hora desta nação assumir um papel claro de liderança na conquista espacial que, de muitas maneiras, pode guardar a chave para o nosso futuro na Terra.”
Ele colocou ao país o “objetivo, antes do final desta [daquela] década, de colocar um homem na Lua e trazê-lo de volta à Terra de maneira segura”.
Apenas 12 anos se passaram entre o toque de despertar da corrida espacial e a primeira caminhada na Lua.
Três viagens lunares marcam mais a memória. Os astronautas da Apollo-8, em dezembro de 1968, são os primeiros a atingir a Lua, circundando-a dez vezes. Então há a Apollo-11. Em 20 de julho de 1969, Neil Armstrong desce do módulo de alunissagem e dá “um salto gigantesco para a humanidade”. Buzz Aldrin se junta a ele na primeira caminhada na Lua.
Diferentemente dos outros marcos espaciais, desta vez o mundo está assistindo pela TV.

Última viagem
No final de 1972, o último dos 12 homens a andar na Lua fez as malas e voltou para casa, e ninguém esteve lá desde então. Ao fim daquela missão, eu pedi a alguns historiadores que avaliassem o significado desses primeiros anos no espaço. Arthur Schleisinger previu que, em 500 anos, o século 20 provavelmente seria provavelmente lembrado principalmente pelas primeiras aventuras do homem além de seu planeta. No final do século, ele não tinha mudado de opinião.
Nos anos seguintes, os russos e os americanos continuaram com os vôos espaciais, num ritmo reduzido. A maior parte do dinheiro americano foi para os ônibus espaciais, os veículos reutilizáveis que nunca cumpriram sua promessa de tornar o vôo espacial humano mais rotineiro. As imagens mais marcantes do programa para o público são a explosão da Challenger em 1986 e a desintegração do Columbia 17 anos depois.
Eu dificilmente conseguiria me imaginar fora do contexto da Guerra Fria. Sem a intensa competição soviético-americana, simbolizada pela corrida espacial, eu não teria me tornado um jornalista de ciência que escrevia sobre astronautas que iam para a Lua para “ganhar” dos russos.

JOHN NOBLE WILFORD, ganhador de dois prêmios Pulitzer, cobre espaço desde os anos 1960.

Jornal Folha de S. Paulo
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50 anos depois do Sputnik, espaço ainda vê Guerra Fria

Perspectiva de uso militar faz com que países evitem compartilhar tecnologia na área. Lançamento do primeiro satélite artificial, que faz 50 anos nesta quinta-feira, iniciou corrida espacial e mudou o rumo do século 20.

RAFAEL GARCIA
DA REPORTAGEM LOCAL

Há muitos motivos para crer que o espaço mudou pouco no último meio século, apesar de as coisas estarem diferentes aqui na Terra.
Em 4 de outubro de 1957, quando os soviéticos colocaram em órbita o primeiro satélite artificial -o Sputnik-1-, o mundo vivia sob tensão constante. Com a polarização entre EUA e União Soviética, o temor era que o planeta acabasse de um dia para o outro, destruído por armas nucleares. E a corrida espacial foi alimentada pelo medo que essas nações tinham uma da outra.
Hoje, a Guerra Fria não existe mais, mas o clima no espaço ainda está longe de refletir o ambiente de interação globalizada que mudou a economia, a política e a ciência em terra firme. A contrário do que acontece em outras áreas tecnológicas, o país que quiser lançar satélites por conta própria hoje tem de aprender sozinho.
“Os americanos não querem que a tecnologia de lançadores de satélites -que pode ser utilizada para lançar bombas- caia na mão de determinados países, mesmo que sejam amigos”, diz Fernando Ramos, assessor de cooperação internacional do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
“Mesmo quando existe um projeto envolvendo vários países, como a Estação Espacial Internacional, a colaboração se dá mais pela divisão do trabalho do que pela transferência da tecnologia entre os países.”
Reeditadas em 2006 pelo governo Bush, as diretrizes do programa espacial dos EUA deixam clara a visão do país. O documento “rejeita qualquer limitação do direito fundamental dos Estados Unidos de operar e adquirir informação no espaço”. Americanos “negarão a adversários, se preciso, o uso de capacidades no espaço hostis a interesses americanos”.
Sobrou até para o Brasil, que nem está entre os países do chamado “eixo do mal”, alvos de sanções dos EUA. O programa sino-brasileiro de satélites de observação da Terra, o CBERS, tem dificuldade de comprar material que passa pelos EUA. “Isso tem ocasionado problemas para o Brasil, sim, desde o início, mas sobretudo depois do ensaio que os chineses fizeram de destruir um satélite em órbita [em janeiro]”, diz Ramos, do Inpe, entidade que participa do CBERS.
Apesar de a cooperação ter levado ao sucesso na área de satélites de imagem, os chineses tampouco mostram disposição em ensinar aos brasileiros como fazer foguetes. O Brasil ainda tenta, com orçamento limitado, levar a cabo o programa VLS (Veículo Lançador de Satélites), na infâmia desde a explosão que matou 21 pessoas no Centro de Lançamento de Alcântara (MA), em 2003.
Hoje, apenas EUA, União Européia, Rússia, China, Índia e Japão são capazes de colocar satélites em órbita. Cada um aprendeu a fazê-lo sozinho.
O fim da Guerra Fria, afinal, também não selou uma paz espacial definitiva. “Que existe a possibilidade de uma militarização do espaço não há a menor duvida” afirma o físico e historiador Shozo Motoyama, da USP. Segundo ele, porém, a revolução das comunicações e a globalização da economia tornam o mundo menos vulnerável a uma polarização como da Guerra Fria. “Acho que isso vai impedir a hegemonia de um único país querendo militarizar o espaço.” Para o historiador da USP, o evento que desencadeou a corrida espacial mostrou sobretudo que a ciência ajuda a moldar a geopolítica.
“O Sputnik-1 foi o triunfo de uma política centralizada em direção a um determinado objetivo, e isso fez com que a URSS conseguisse uma vitória num primeiro momento”, diz Motoyama. “Enquanto isso, nos países capitalistas, tudo estava ocorrendo de maneira dispersa, também em laboratórios de pesquisa das empresas.”
Um “mutirão científico” ocidental já havia sido feito com o projeto Manhattan -que construiu a primeira bomba atômica-, mas o governo dos EUA não dera continuidade a uma política de Estado com direcionamento claro à ciência.
Ouvir os bipes da primeira máquina em órbita, em outubro de 1957, mudou o modo americano de fazer ciência. E isso mudou a cara do século 20.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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