Espelhado no “pet business” americano, o mercado brasileiro para animais de estimação deve movimentar neste ano a cifra recorde de US$ 3,3 bilhões
Roberto de Oliveira
A genda cheia a da Dani. Uma vez por semana, ela deixa a cama cedo. Faz um desjejum à base de barras de cereais e biscoitinhos de tomate seco. Escova os dentes, leva umas borrifadas de perfume francês (a fragrância depende do clima) e corre para o banco traseiro do carro, que será conduzido pelo motorista particular à meca do luxo paulistano, o shopping Iguatemi.
Lá, submerge num banho de hidratação, faz as unhas e chapinha progressiva. Não resiste às vitrines e sempre sai com um presentinho. Semana passada, foi uma gargantilha de cristal com patuá de prata e vidro de Murano.
Dani não perde em nada para os viciados nas benesses do consumo. Não fosse pelo detalhe de que não é uma moça, mas sim uma cachorra -não no sentido Bebel da palavra- , da raça schnauzer gigante. A cadela é um retrato fiel de mais uma revolução por que passa o prolífico mercado pet brasileiro.
No lugar do fenômeno de expansão que chegou a alardear um número maior de pet shops do que de padarias em São Paulo no início dos anos 00, o setor passa agora por uma fase de profissionalização, espelhada no bilionário mercado norte-americano.
Por aqui, rações especialíssimas, medicina veterinária especializada, salão de beleza pet, roupas e acessórios inspirados em grandes grifes, jóias e serviços especiais pautam o mercado.
Neste ano, o “pet business” -negócios envolvendo animais de estimação e produtos destinados a eles- deve movimentar uma cifra recorde no Brasil: US$ 3,3 bilhões (cerca de R$ 6 bilhões), com um crescimento de 17% em relação ao faturamento de 2006, segundo José Edson Galvão de França, 58, diretor da Anfal Pet (Associação Nacional dos Fabricantes de Alimentos para Animais de Estimação), entidade que concentra os números do setor.
Para efeito de comparação, a indústria nacional de brinquedos deve faturar R$ 1,1 bilhão neste ano, informa a Abrinq (Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos). Quase seis vezes menos do que o mercado pet.
Nesse assunto, os EUA continuam soberanos, com faturamento de US$ 41 bilhões (cerca de
R$ 80 bilhões) previsto para 2007, mais do que o PIB de 64 países do mundo e o dobro do que se gastava uma década atrás. O mercado pet americano, com uma taxa de crescimento de 6% ao ano, é o segundo do país em vendas -só perde para o consumo de eletrônicos. Em dois anos, o mundo pet “made in USA” deve movimentar US$ 52 bilhões, prevê a American Pet Products Manufactures Association.
Chapinha neles
Semana passada, São Paulo -onde o Centro de Controle de Zoonoses calcula um cão para cada sete habitantes e um gato para cada 46 paulistanos, a maior concentração demográfica de bichos de estimação do país- se transformou numa vitrine de referência para o setor.
A maior feira do gênero da América Latina, a 6ª Pet South America 2007, lançou, em apenas três dias, 200 novos produtos e serviços para uma platéia de 21 mil pessoas.
Até alimento úmido, para cães e gatos em convalescência, foi apresentado, sem falar nos petiscos especiais, boa parte importada, que vão de anchovas desidratadas a biscoitinhos de lagosta para gatos.
Na área da estética, uma das mais poderosas, até secador especial para pêlo de cachorro e prancha para chapinha chegaram ao mercado nacional.
Mas o frufru não é destinado apenas aos peludos. O mercado já despertou para o frenesi dos donos, que querem materializar e exibir seu amor pelo animal. A idéia é levar o bichinho por onde for em pulseiras, brincos, diamantes vazados, relógios, camisetas, moletons, aventais de cozinha, almofadas e até jóias em ouro e pedras preciosas feitas sob medida no formato do seu cão ou gato.
Paralelamente à feira, aconteceu o principal congresso veterinário do país, com a participação de 2.500 profissionais (inclusive estrangeiros). O Hospital Veterinário Sena Madureira, por exemplo, apresentou um aparelho norte-americano que monitora a glicose do animal por meio de ondas sonoras emitidas por um chip.
O equipamento, que nem existe em hospitais brasileiros de humanos, evita que o veterinário fique picando a todo o momento o bicho. É importante no controle de doenças endócrinas, estados críticos na UTI, cirurgias e diabetes. Todo o monitoramento é feito por computador. Um exame nesse aparelho custa entre R$ 280 e R$ 400.
Elite pet
Centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, além do interior paulista, concentram uma parcela rica de animais domésticos classificada como elite pet, à qual a cadela Dani do início deste texto pertence.
A schnauzer gigante freqüenta pet shops de luxo, como o Filhotes & Fricotes, do Iguatemi, vizinho de megagrifes como Hugo Boss, Dolce & Gabana e Empório Armani, onde existem cerca de 5.000 itens à venda e consumidores AAA gastam, no mínimo, R$ 1.000/mês com cada animalzinho de estimação -a grande maioria tem mais de um bicho.
Essa elite animal responde por 4% de todo o mercado pet nacional. Parece pouco, mas é o setor de maior valor agregado -leia-se lucrativo- e que concentra os principais lançamentos.
Nos EUA, esse número sobe para 70%. No Japão, chega a 90%. Os japoneses são hoje os principais importadores de produtos pet do mundo.
No Brasil, economia em expansão, aumento de renda e dólar estável são alguns dos fatores que ajudariam a explicar o consumismo no mundo pet. Mas não é só isso.
“Não basta alimentar o bicho. Tem que tratá-lo com comida diferenciada. Além de tosar, o banho é feito com xampus, cremes e perfumes especiais. Para passear, usam-se os acessórios que estão na moda, em sintonia com o que o dono usa”, diz Ligia Amorim, diretora-geral da Nielsen Business Media, organizadora da feira pet. “Estamos falando como se [o animal] fosse uma criança.”
É mais ou menos assim que o bicho é encarado por essa parcela grã-fina de consumidores -e também pela classe média. Antes, o cão era simplesmente um cão. “A partir da metade dos anos 90, passou a integrante da família e, atualmente, é encarado como se fosse um filho”, afirma o diretor da Anfal Pet, José Edson.
É notório que o papel dos animais domésticos na sociedade mudou. E muito (veja texto na pág. 13). Daí a achar que o bicho virou gente é outra história.
Para Elizabeth MacGregor, da WSPA (World Society for the Protection of Animals, uma das principais ONGs internacionais de defesa dos animais), a mudança de comportamento dos donos em relação aos animais domésticos se tornou paradoxal. O fator positivo, diz ela, é que o pet deixou de ser objeto útil para determinadas funções, como a caça, para ser tratado como um integrante da família, um ser senciente, que tem dor, raiva, prazer, estresse.
Por interesses econômicos, porém, há o risco de os donos se esquecerem da natureza de seus bichos. “Muitos pets são vistos como objeto de consumo. Os donos não querem um cachorro com cheiro ou que lata. Preferem um bichinho minúsculo que, se possível, nem pareça um animal de verdade”, acha Elizabeth.
No afã da moda ou induzidos pelas manobras do mercado, os donos muitas vezes não deixam o bicho agir como bicho e erguem o animal ao status de bibelô.
O colar, a roupinha e a chapinha, se não vierem acompanhados de bom senso humano, podem aniquilar a identidade do animal. Que então se torna híbrido, fronteiriço. Nem humano, nem bicho.
Revista da Folha