Arquivo de 2 de Outubro de 2007

Assembléia da Fundação

Liora Mindrisz (liora@abcdmaior.com.br)

Alunos querem pressionar governo municipal

A assembléia realizada nesta terça-feira (02/10) no pátio entre os prédios da Fafil (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras) e Faeco (Faculdade de Economia) resolveu qual será a agenda dos alunos grevistas da Fundação Santo André. Foi decidido que haverá, na quinta-feira (04/10), uma passeata em direção à avenida Prestes Maia onde os alunos irão se reunir em uma manifestação, parando a via. Os alunos reclamam da abestenção dos governantes na decisão da deposição do reitor da Fundação, Odair Bermelho. “Para pressionar o governo iniciamos uma série de movimentos fora do campus. A primeira será quinta para paralizar a avenida e chamar a atenção do João Avamileno, do PT e do reitor”, explica o estudante José Dalmo Viana Duarte, representante dos alunos no Conselho Diretor.

Além desta atividade, os alunos decidiram que na sexta-feira (05/10) haverá uma apresentação de grupos culturais do MST (Movimento Sem Terra) a partir das 19h e depois uma aula pública. No sábado acontece uma passeata a partir das 13h que sai da Fundação e caminha até a Prefeitura e Câmara de Santo André. “A principal resolução da assembléia de hoje foi política. Nós queremos uma posição clara sobre o afastamento do reitor, mas a resposta que obtivemos do governo foi de abstenção. Queremos exigir, tanto do Avamileno como do PT uma posição clara. Só uma declaração de que está de saco cheio não é o suficiente para nós”, explicou o aluno.

Já aderiram à greve todos os cursos da Fafil, o curso de relações internacionais e algumas salas dos cursos de economia e administração. A reclamação é de que, como os professores da Faeco e Faeng (Faculdade de Engenharia) não aderiram à greve, os alunos se sintam pressionados à continuar as aulas para não perder notas e ficar com faltas.

ABCD Maior

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Equatorianos votam por um Estado forte

Vitória do presidente Correa, que diz rejeitar o modelo chavista venezuelano

Fernando Gualdoni

Em Quito

A vitória do movimento do presidente Rafael Correa foi esmagadora. Na última hora de segunda-feira, o partido governante havia conseguido 72 dos 130 lugares da Assembléia Constituinte, com 88% dos votos apurados na confiável contagem eletrônica da Participación Ciudadana. Ao mesmo tempo, os primeiros resultados oficiais confirmavam a tendência do governo à maioria absoluta.

Os equatorianos apoiaram a proposta de criar um Estado forte através de uma profunda reforma política e econômica, de acordo com os princípios do socialismo do século 21 que Correa defende: solidariedade, eqüidade e ética. A pedra fundamental do projeto é a nova Carta Magna que a Assembléia eleita domingo terá de redigir em um prazo máximo de oito meses. Nasceu o “correísmo” no Equador.

Em um muro próximo ao Palácio de Carondelet, sede do Executivo equatoriano, podia-se ler há alguns dias: “Está chegando o ‘correaço’ final”. Na segunda-feira haviam acrescentado outra frase: “Já chegou”. Correa não pode estar mais exultante. O controle da Assembléia que redigirá uma nova Constituição era o que lhe faltava para dar o pontapé final em seu projeto de “refundar” o Equador. Em um ano, desde que ganhou a presidência em novembro de 2006, Correa erradicou a oposição, conseguiu o apoio popular para fazer uma nova lei fundamental e agora não só a tem, como também a fará na sua medida. Quer um Estado forte e com uma grande presença na economia. “Ganhamos a mãe de todas as batalhas”, afirmou o presidente.

Assim que soube da vitória, Correa mostrou-se disposto a dialogar com outras forças políticas, com os empresários e com todos os setores que pretende atrair, que são quase todos. Mas nega-se a conversar com os outros dois partidos mais votados no domingo: o Prian, do magnata das bananas e ex-candidato presidencial Álvaro Noboa, e a Sociedade Patriótica, do ex-presidente golpista e destituído Lucio Gutiérrez. “Só vou dialogar com aqueles interessados no bem-estar da população, no progresso da pátria. … Para que vou falar com Gutiérrez, alguém que só pensa em defender seus interesses? … Com Noboa, para quê, se ele se diz um grande empresário e não paga impostos ao Estado porque diz que suas empresas não obtêm lucros suficientes?”, disse Correa.

Tanto nas comemorações de domingo como na segunda-feira o presidente insistiu na idéia de afastar dois dos maiores temores de muitos equatorianos, inclusive daqueles que votaram em seu projeto: a influência do chavismo venezuelano e seu caráter autoritário. “Chega de tentar satanizar [este governo], chega de tentar imobilizar o país por meio do medo. Aqui ninguém quer projetos totalitários, muito menos projetos estrangeiros”, declarou Correa em seu discurso de vitória.

Além disso, ontem, diante da mídia estrangeira, ele se estendeu sobre como será sua política em relação às empresas estrangeiras, especialmente as do setor energético. Disse que “absolutamente” não é contra o investimento estrangeiro em seu país. “A única condição é que seja respeitada a Constituição vigente, que diz que os recursos do subsolo são do Estado, entre eles o petróleo e as minas. … Aqui não é preciso nacionalizar como na Bolívia; aqui os recursos já são públicos.”

“Os contratos de petróleo estão sendo revisados, alguns são muito prejudiciais para o Estado”, explicou. “Mas a negociação é amigável. Já estamos conversando com quatro petroleiras, não lembro se entre elas está a Repsol. Elas sabem perfeitamente os ganhos extraordinários que estão obtendo com um recurso que é do Estado”, acrescentou. E, falando concretamente das empresas espanholas, Correa disse que são “das boas”.

“Com a Telefónica será preciso negociar as concessões de telefonia celular. … Quero lhes dizer sinceramente que a Movistar foi muito mais cumpridora do que a outra grande transnacional que temos aqui. A Movistar tem um terço de um mercado dominado pela companhia Porta e paga três vezes mais impostos”, explicou.

Correa salientou que seu governo é “pragmático”, que há “dez economistas no gabinete” que sabem o que fazem. “O investimento estrangeiro é bem-vindo, com todo o entusiasmo. Aquele que cumpre com seus trabalhadores, com seus clientes, com o Estado, pagando impostos, com o meio ambiente. Mas o investimento estrangeiro que ainda nos considera uma colônia, que infringe os princípios legais, não é bem-vindo e terá uma resposta clara de um país soberano e de um governo soberano”, enfatizou. Correa também disse que abrirá o setor bancário ao investimento estrangeiro. “Há setores que precisam de proteção, como o agrícola, e outros que se devem abrir à concorrência, como os bancos”, disse.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

El País
http://www.elpais.com/

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O golpe montado pela CIA

Não se pode compreender o Irã atual sem recuar até o golpe de Estado de 1953. Fomentado pelas multinacionais do petróleo, ele abortou as reformas em curso, fortaleceu a ditadura do xá e abriu caminho para a revolução islâmica de 1978-1979

Mark Gasiorowski

O mundo refém das finanças
Por que o estouro da bolha imobiliária dos EUA é uma ameaça à economia internacional. Quais as novas formas de especulação nos mercados financeiros, e de que modo elas podem propagar a crise. Como os grandes bancos e fundos de investimento transferem a conta de sua irresponsabilidade para os Estados e sociedades

Guerra fria sobre o Ártico
O hasteamento da bandeira russa nas profundezas do oceano gelado escancara uma disputa infame. Um conjunto de Estados vê no aquecimento global um caminho para transformar o Pólo Norte numa enorme bacia petrolífera e numa rota marítima internacional

Da Antártida às estrelas
A região em torno do Pólo Sul também é alvo de disputa entre potências. Lá, não se trata de explorar o subsolo ou rotas marítimas — mas de simular as condições em que poderá se dar a colonização do espaço

A bordo do “Marrakech Express”
Reportagem sobre um dos choque culturais emblemáticos de nosso tempo. Quarenta horas a bordo do navio que faz a travessia do Mediterrâneo abarrotado, levando ao Marrocos milhares de migrantes que foram tentar a sorte na Europa e regressam a seu país em viagem de férias

A força dos que vivem longe
Os dois milhões de marroquinos radicados na Europa remetem a seu país o equivalente a 60% do déficit comercial e movimentam rotas marítimas que fazem, só a partir da França, 200 mil viagens por ano

Kiarostami e Erice
A exposição itinerante ”Correspondências” propõe um diálogo entre as obras cinematográficas de Víctor Erice e Abbas Kiarostami. Por meio da troca de “cartas filmadas”, cada qual lança seu olhar sobre a obra do outro

“As crianças me ensinaram”
Abbas Kiarostami propõe: “Se elas não podem nos compreender, é porque temos um ponto fraco: não conseguimos produzir um pensamento simples. E quando o cinema assume um tom sentencioso, amargo, é porque não consegue se exprimir”

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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Tropa da Elite

Espelhado no “pet business” americano, o mercado brasileiro para animais de estimação deve movimentar neste ano a cifra recorde de US$ 3,3 bilhões

Roberto de Oliveira

A genda cheia a da Dani. Uma vez por semana, ela deixa a cama cedo. Faz um desjejum à base de barras de cereais e biscoitinhos de tomate seco. Escova os dentes, leva umas borrifadas de perfume francês (a fragrância depende do clima) e corre para o banco traseiro do carro, que será conduzido pelo motorista particular à meca do luxo paulistano, o shopping Iguatemi.

Lá, submerge num banho de hidratação, faz as unhas e chapinha progressiva. Não resiste às vitrines e sempre sai com um presentinho. Semana passada, foi uma gargantilha de cristal com patuá de prata e vidro de Murano.

Dani não perde em nada para os viciados nas benesses do consumo. Não fosse pelo detalhe de que não é uma moça, mas sim uma cachorra -não no sentido Bebel da palavra- , da raça schnauzer gigante. A cadela é um retrato fiel de mais uma revolução por que passa o prolífico mercado pet brasileiro.

No lugar do fenômeno de expansão que chegou a alardear um número maior de pet shops do que de padarias em São Paulo no início dos anos 00, o setor passa agora por uma fase de profissionalização, espelhada no bilionário mercado norte-americano.

Por aqui, rações especialíssimas, medicina veterinária especializada, salão de beleza pet, roupas e acessórios inspirados em grandes grifes, jóias e serviços especiais pautam o mercado.

Neste ano, o “pet business” -negócios envolvendo animais de estimação e produtos destinados a eles- deve movimentar uma cifra recorde no Brasil: US$ 3,3 bilhões (cerca de R$ 6 bilhões), com um crescimento de 17% em relação ao faturamento de 2006, segundo José Edson Galvão de França, 58, diretor da Anfal Pet (Associação Nacional dos Fabricantes de Alimentos para Animais de Estimação), entidade que concentra os números do setor.

Para efeito de comparação, a indústria nacional de brinquedos deve faturar R$ 1,1 bilhão neste ano, informa a Abrinq (Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos). Quase seis vezes menos do que o mercado pet.

Nesse assunto, os EUA continuam soberanos, com faturamento de US$ 41 bilhões (cerca de

R$ 80 bilhões) previsto para 2007, mais do que o PIB de 64 países do mundo e o dobro do que se gastava uma década atrás. O mercado pet americano, com uma taxa de crescimento de 6% ao ano, é o segundo do país em vendas -só perde para o consumo de eletrônicos. Em dois anos, o mundo pet “made in USA” deve movimentar US$ 52 bilhões, prevê a American Pet Products Manufactures Association.

Chapinha neles
Semana passada, São Paulo -onde o Centro de Controle de Zoonoses calcula um cão para cada sete habitantes e um gato para cada 46 paulistanos, a maior concentração demográfica de bichos de estimação do país- se transformou numa vitrine de referência para o setor.

A maior feira do gênero da América Latina, a 6ª Pet South America 2007, lançou, em apenas três dias, 200 novos produtos e serviços para uma platéia de 21 mil pessoas.

Até alimento úmido, para cães e gatos em convalescência, foi apresentado, sem falar nos petiscos especiais, boa parte importada, que vão de anchovas desidratadas a biscoitinhos de lagosta para gatos.

Na área da estética, uma das mais poderosas, até secador especial para pêlo de cachorro e prancha para chapinha chegaram ao mercado nacional.

Mas o frufru não é destinado apenas aos peludos. O mercado já despertou para o frenesi dos donos, que querem materializar e exibir seu amor pelo animal. A idéia é levar o bichinho por onde for em pulseiras, brincos, diamantes vazados, relógios, camisetas, moletons, aventais de cozinha, almofadas e até jóias em ouro e pedras preciosas feitas sob medida no formato do seu cão ou gato.

Paralelamente à feira, aconteceu o principal congresso veterinário do país, com a participação de 2.500 profissionais (inclusive estrangeiros). O Hospital Veterinário Sena Madureira, por exemplo, apresentou um aparelho norte-americano que monitora a glicose do animal por meio de ondas sonoras emitidas por um chip.

O equipamento, que nem existe em hospitais brasileiros de humanos, evita que o veterinário fique picando a todo o momento o bicho. É importante no controle de doenças endócrinas, estados críticos na UTI, cirurgias e diabetes. Todo o monitoramento é feito por computador. Um exame nesse aparelho custa entre R$ 280 e R$ 400.

Elite pet
Centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, além do interior paulista, concentram uma parcela rica de animais domésticos classificada como elite pet, à qual a cadela Dani do início deste texto pertence.

A schnauzer gigante freqüenta pet shops de luxo, como o Filhotes & Fricotes, do Iguatemi, vizinho de megagrifes como Hugo Boss, Dolce & Gabana e Empório Armani, onde existem cerca de 5.000 itens à venda e consumidores AAA gastam, no mínimo, R$ 1.000/mês com cada animalzinho de estimação -a grande maioria tem mais de um bicho.

Essa elite animal responde por 4% de todo o mercado pet nacional. Parece pouco, mas é o setor de maior valor agregado -leia-se lucrativo- e que concentra os principais lançamentos.

Nos EUA, esse número sobe para 70%. No Japão, chega a 90%. Os japoneses são hoje os principais importadores de produtos pet do mundo.

No Brasil, economia em expansão, aumento de renda e dólar estável são alguns dos fatores que ajudariam a explicar o consumismo no mundo pet. Mas não é só isso.

“Não basta alimentar o bicho. Tem que tratá-lo com comida diferenciada. Além de tosar, o banho é feito com xampus, cremes e perfumes especiais. Para passear, usam-se os acessórios que estão na moda, em sintonia com o que o dono usa”, diz Ligia Amorim, diretora-geral da Nielsen Business Media, organizadora da feira pet. “Estamos falando como se [o animal] fosse uma criança.”

É mais ou menos assim que o bicho é encarado por essa parcela grã-fina de consumidores -e também pela classe média. Antes, o cão era simplesmente um cão. “A partir da metade dos anos 90, passou a integrante da família e, atualmente, é encarado como se fosse um filho”, afirma o diretor da Anfal Pet, José Edson.

É notório que o papel dos animais domésticos na sociedade mudou. E muito (veja texto na pág. 13). Daí a achar que o bicho virou gente é outra história.

Para Elizabeth MacGregor, da WSPA (World Society for the Protection of Animals, uma das principais ONGs internacionais de defesa dos animais), a mudança de comportamento dos donos em relação aos animais domésticos se tornou paradoxal. O fator positivo, diz ela, é que o pet deixou de ser objeto útil para determinadas funções, como a caça, para ser tratado como um integrante da família, um ser senciente, que tem dor, raiva, prazer, estresse.

Por interesses econômicos, porém, há o risco de os donos se esquecerem da natureza de seus bichos. “Muitos pets são vistos como objeto de consumo. Os donos não querem um cachorro com cheiro ou que lata. Preferem um bichinho minúsculo que, se possível, nem pareça um animal de verdade”, acha Elizabeth.

No afã da moda ou induzidos pelas manobras do mercado, os donos muitas vezes não deixam o bicho agir como bicho e erguem o animal ao status de bibelô.

O colar, a roupinha e a chapinha, se não vierem acompanhados de bom senso humano, podem aniquilar a identidade do animal. Que então se torna híbrido, fronteiriço. Nem humano, nem bicho.

Revista da Folha

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Deu no Informativo da ADUSP

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Apoio ao movimento fora Odair Bermelho

Moção de Apoio do CEGE-USP
O Centro Acadêmico de Geografia da USP(CEGE), manifesta sua simpatia e total apoio ao movimento dos estudantes da Fundação Santo André em defesa da educação e contra as medidas autoritárias tomadas pela reitoria desta instituição.
Acreditamos que o que acontece agora na FSA está inserido nos novos ventos que sopram no Movimento Estudantil e que já demonstraram sua força nas ocupações e greves que ocorreram por São Paulo e em outras partes do País.
Mesmo usando o recurso da manipulação da opinião pública (através da mídia) aliado a força repressora do Estado, novamente, aqueles que concebem a educação como mera mercadoria estão perto de sofrerem uma derrota diante de estudantes, funcionários e professores.
Da mesma forma que recebemos o apoio dos companheiros da FSA durante a ocupação da Reitoria da USP no Butantã, estamos acompanhando as movimentações estudantis em Santo André para prestar o nosso apoio da melhor forma possível.

Abraços
CEGE – Centro Acadêmico de Geografia da USP
23 set 2007

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Apoio ao movimento fora Odair Bermelho

O Centro Acadêmico XI de Agosto, entidade representativa d@s estudantes da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, vem a público manifestar sua indignação e repudiar a invasão da Política Militar no campus da Fundação Santo André na madrugada do dia 14 desse mês.
É revoltante que as reivindicações estudantis sejam assim tratadas em um Estado Democrático de Direito. Tratava-se de uma ocupação pacífica e legítima, motivada por pautas mais do que justas. Recentemente a nossa faculdade também foi palco de um autoritarismo semelhante, o que eleva ainda mais nossa solidariedade à luta d@s estudantes dessa instituição de ensino superior. São atitudes violentas como a do nosso diretor João Grandino Rodas e a do reitor Odair Bermelho da FSA que atestam a intolerância política, a falta de diálogo e o desrespeito aos direitos fundamentais. Mas fatos como estes atestam, sobretudo, a necessidade de seguirmos juntos nessa importante luta por uma educação de qualidade, socialmente referenciada e para tod@s.

Gestão Fórum da Esquerda - 2007
Centro Acadêmico XI de Agosto

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Mais apoios á nossa luta na FSA

1) Aziz Ab’Saber – Geografia USP (aposentado)
2) Lincoln Secco - História USP
3) Ricardo Musse - Sociologia USP
4) Cilaine Alves Cunha - Letras USP
5) Fernando Novais - História USP / Unicamp
6) Roberto Schwarz - Letras Unicamp (aposentado)
7) Maria Célia Paoli - Sociologia USP
8) Leda Paulani - Economia USP
9) Maria Arminda do Nascimento Arruda - Sociologia USP
10) Marcos Del Roio - Ciência Política Unesp Marília
11) Paulo Eduardo Arantes - Filosofia USP
12) Marcos Silva - História USP
13) Marineide de Oliveira Gomes – Pedagogia USP Ribeirão Preto
14) Caio Navarro de Toledo – Ciência Política Unicamp
15) Selma Borghi Venco – Sociologia Unicamp
16) Franklin Leopoldo e Silva – Filosofia USP
17) Lighia Brigitta Horodynski-Matsushigue – Física USP
18) Zilda Iokoi – História USP
19) Otília Fiori Arantes – Filosofia USP
20) Mariana Fix – Design Facamp (Faculdades de Campinas)
21) Ivone Dare Rabello – Letras USP (aposentada)
22) Suzana Salem Vasconcelos – Física USP
23) Luiz Eduardo Simões de Souza – Economia Uergs (Universidade Estadual
do Rio Grande do Sul)
24) Paulo Henrique Martinez - História Unesp Assis
25) Luís Fernando Ayerbe - Relações Internacionais Unesp Araraquara
26) Jesus Ranieri - Sociologia Unicamp
27) Heloísa Fernandes - Sociologia USP e Escola Nacional Florestan
Fernandes do MST
28) Amarílio Ferreira – UFSCar (Universidade Federal de São Carlos)
29) Valério Arcary - História CEFET/SP (Centro Federal de Educação
Tecnológica de São Paulo)
30) João Francisco Tidei Lima – Unesp Bauru
31) Lidiane Soares Rodrigues – Doutoranda História USP
32) Alcir Pécora - Letras Unicamp
33) Anita Handfas – Educação UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
34) Margareth Rago - História Unicamp
35) Vera Lucia Vieira - História PUC-SP
36) Arlete Moyses Rodrigues – Geografia Unicamp
37) Antônio Miguel - Educação Unicamp
38) Ronilde Rocha - Consultora em educação e ensino de História e
professora da rede municipal de São Paulo (aposentada)
39) Francisco Foot Hardman - Letras Unicamp
40) Márcio Naves – Sociologia Unicamp
41) Élide Menezes Centofanti – Psicologia UMC (Universidade de Mogi das
Cruzes) aposentada
42) Maria Luiza Jovanovic - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
43) Paulino Cardoso - História Udesc (Universidade do Estado de Santa
Catarina)
44) Claudia Sapag Ricci - História UFMG (Universidade Federal de Minas
Gerais)
45) Olga Brites - História PUC-SP
46) Mário Fernando Bolognesi - Artes Unesp São Paulo
47) Antônio Carlos Mazzeo – Ciência Política Unesp Marília
48) Maria Victória Benevides - Educação USP
49) Adalberto Paranhos – Ciências Sociais UFU (Universidade Federal de
Uberlândia)
50) Edilson Graciolli – Ciências Sociais UFU (Universidade Federal de
Uberlândia)
51) Fernando Antonio Lourenço - Sociologia Unicamp
52) Agnaldo dos Santos – Administração Uninove (Centro Universitário Nove
de Julho)
53) Glória Anunciação Alves – Geografia USP
54) Elvio Rodrigues Martins – Geografia USP
55) Regina Helena Alves da Silva - História UFMG (Universidade Federal de
Minas Gerais)
56) João Bernardo – professor e escritor
57) Valeria de Marcos - Geografia USP
58) Pedro Arantes - Design Facamp (Faculdades de Campinas)
59) Rafael Marquese - História USP
60) Ana Fani Alessandri Carlos - Geografia USP
61) Déa Ribeiro Fenelon - História PUC-SP e Unicamp (aposentada)
62) Brás Ciro Gallota - História PUC-SP
63) Francisco Alambert - História USP
64) Vera Lúcia Santiago Araújo - Letras UECE (Universidade Estadual do Ceará)
65) Silvia Hunold Lara - História Unicamp
66) Sidney Chalhoub - História Unicamp

Por ordem de adesão.

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Aniversário da reunificação

A reunificação da Alemanha ainda é um processo, cercado de polêmicas. Há uma sensação de que na verdade não houve uma reunificação, mas uma anexação da Alemanha Oriental pela Ocidental. E que isto ocorreu na verdade sem preparo econômico, muito menos político. A análise é de Flávio Aguiar.

Flávio Aguiar - Carta Maior

Dia 3 de outubro, quarta-feira próxima, comemora-se o 17° aniversário da reunificação da Alemanha. Este hoje é o principal feriado no país. Como já é tradição, em Berlim haverá festa na rua, sem desfile militar, e um pronunciamento do Presidente da República é esperado. Especula-se na mídia e fora dela sobre o conteúdo deste pronunciamento: pode ser as dificuldades do acesso ao ensino superior, ou o desemprego. Ou ainda a solidariedade para com a África, tema que em sendo constantemente aventado na Alemanha.

Na verdade a reunificação ainda é um processo, e não sem discussões ou até polêmicas. Ninguém é contrário a ela. Ninguém manifesta saudades do antigo regime da Alemanha Oriental, a não ser por determinadas conquistas sociais que num primeiro momento, que dura até hoje, foram varridas do mapa.

Quando estive na Alemanha há onze anos, ou mesmo até há oito anos, visitei aldeias na Alemanha Oriental que se tornaram quase fantasmas, habitadas apenas por idosos e idosas que se mantinham, numa delas, vendendo doces (maravilhosos) para os visitantes. Os armazéns de fornecimento do antigo regime estavam vazios, todos os que podiam procuravam supermercados e shoppings centers nas proximidades, onde rugia o capitalismo vencedor.

Há uma sensação de que na verdade não houve uma reunificação, mas uma anexação da Alemanha Oriental pela Ocidental. E que isto ocorreu na verdade sem preparo econômico, muito menos político. É claro que um acontecimento desses e seus desdobramentos não podem ser previstos, ainda mais do modo dramático como tudo se deu, a partir da queda do muro de Berlim em novembro de 1989. Houve pagamentos e impostos compensatórios de uma Alemanha para a outra, mas no conjunto as duas populações se viram frente a frente sem estarem suficientemente “misturadas” do ponto de vista econômico e político.

Também o passado é polêmico. Continuam a sair pesquisas e trabalhos surpreendentes sobre as Alemanhas. Recentemente lançado, o livro “BND contra o Exército Soviético”, de Armin Wagner e Matthias Uhl, levanta a tese de que havia mais espiões no Leste a serviço do Oeste do que ao contrário, embora os daquele lado fossem mais eficientes do que os deste.
Segundo o livro, o Oeste dispunha de dez mil pessoas fazendo serviço de espionagem no Leste, enquanto os espiões deste no outro lado não passavem de seis mil. Já em 1955 o Oeste teria 5 mil espiões. Quem eram?

Em geral, ex-militares que faziam o trabalho por uma espécie de “camaradagem” de arma para com seus colegas do lado ocidental. Ou então familiares que visitavam seus parentes (e estes também) do outro lado do muro. Havia também os anti-comunistas e os aventureiros. Raros seriam os motivados por razões financeiras. Quando era o caso, os espiões juntavam dinheiro numa conta no Oeste, na esperança de um dia viverem deste lado da Cortina de Ferro.

Uma das revelações mais curiosas do livro é a de que em 1961, alguns meses antes da construção do muro de Berlim acontecer, a informação de que isso aconteceria foi passada para o Oeste. Mas deste lado ninguém a levou a sério, tão inusitada a idéia parecia.

Uma das razões apontadas para a maior eficiência dos espiões do Leste no Oeste foi a de que aquele lado conseguiu infiltrar agentes no alto escalão do governo deste lado, sem que o contrário acontecesse.
Enquanto isso levantou-se também na imprensa a permanência do drama das “crianças russas” na Alemanha de hoje. Essas “crianças”na verdade hoje têm sessenta anos ou mais. São filhos e filhas de soldados russos com mães alemãs, de logo da ocupação militar do território germânico pelo Exército Vermelho. Algumas foram fruto de um estupro, malefício comum nas guerras. Outras, até de raros casos de paixão. Todas foram vítimas de cruéis preconceitos e atitudes de perseguição, como seria de esperar num caso desses.

Várias dessas “crianças” continuam buscando seus pais no lado russo.
Uma coisa é certa: apesar da presença militar da Alemanha no Afeganistão, bastante polêmica, se há um país no mundo que parece pouco inclinado hoje a uma aventura militar, qualquer que seja, esse país é a Alemanha. O sucesso e o desastre nazistas, em que pesem os surtos não raros de episódios de racismo genérico, ou de anti-semitismo, parecem ter vacinado a maioria dos alemães contra taus aventuras extremas. Esperemos que a vacina seja duradoura.

Carta Maior
http://www.agenciacartamaior.com.br/

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Cérebros loucos por comida

Neuroimageamento revela uma forte relação entre chocolatria e uso de drogas

Kristin Leutwyler Ozelli

Nora Volkow é diretora do National Institute of Drug Abuse. Antes de assumir esse cargo em 2004, ela ocupou vários postos no Brookhaven National Laboratory e foi também professora de psiquiatria e professora-associada na faculdade de medicina de Stony Brook University. Nas suas pesquisas, ela foi a primeira a usar a tecnologia de imageamento para investigar mudanças neuroquímicas associadas ao vício
Inúmeras evidências mostram que o comer compulsivo e consumo de drogas envolvem alguns circuitos cerebrais que atuam de formas semelhantes, trazendo uma nova visão para a compreensão e o tratamento da obesidade, explica a Dra. Nora D. Volkow, diretora do National Institute on Drug Abuse e pioneira no estudo de viciados, numa entrevista para a Scientific American.

Que circuitos do cérebro são igualmente ativados pelo consumo de alimentos e pelas drogas?
O sistema neural ativado tanto pela ingestão compulsiva de alimentos quando consumo de drogas é basicamente o circuito que evoluiu para recompensar comportamentos essenciais à sobrevivência. Em geral, as pessoas, são atraídas pelos alimentos porque isso é recompensador e produz prazer. Quando experimentamos prazer, nosso cérebro aprende a associar essa sensação com as condições que o predispõem a isso. Em outras palavras, o cérebro lembra não apenas do sabor da comida, mas também da sensação de prazer em si, assim como das sugestões ou comportamentos que o precederam.

Essa memória fica mais forte à medida que o ciclo de predição, busca e obtenção do prazer torna-se mais confiável. Em termos científicos, chamamos esse processo de condicionamento.

As drogas são particularmente eficientes como estímulos condicionantes, primeiramente em virtude de suas propriedades químicas. Estímulos naturais como comida ou sexo, levam mais tempo para ativar o circuito da recompensa. O condicionamento que é igualmente importante para esses dois estímulos, estabelece um elo entre a memória e não somente a um estímulo, mas também ao ambiente onde se encontra e a outras ofertas disponíveis. É exatamente isso que a natureza pretende: se a ação necessária para atingir uma experiência prazerosa for disparada exclusivamente pelo estímulo em questão, a resposta condicionada será muito ineficiente.

Sugestões condicionadas ou memórias são muito poderosas e podem afetar profundamente nosso comportamento. E quando o condicionamento ocorre para um estímulo positivo, como um alimento, há uma maior probabilidade de repetição de uma ação particular para obtê-lo. Drogas são particularmente eficazes como estímulo condicionador, principalmente em virtude de suas propriedades químicas. Elas podem estimular diretamente as áreas do cérebro envolvidas no prazer, de forma que são mais eficientes do que reforçadores naturais, como alimento ou sexo. É possível obter uma resposta exagerada (suprafisiológica) em parte porque a droga pode chegar rapidamente ao cérebro, em questão de segundos. Com os reforçadores naturais, o processo de ativação do caminho da recompensa é mais prolongado. De forma importante, o condicionamento que ocorre associa o comportamento não apenas ao estímulo em si, mas ao ambiente e outras sugestões que podem estar apenas perifericamente associados a ele.

Isto é exatamente o que a natureza pretendia: se o comportamento necessário para buscar uma experiência agradável fosse ativado exclusivamente pelo objeto, a resposta condicionada seria na verdade bastante ineficaz; pense na necessidade de encontrar alimento para sobreviver, por exemplo: digamos que somos criaturas primitivas na selva e apenas por acaso provamos uma banana. O sabor da banana é bom, mas se estivéssemos condicionados a lembrar apenas que o sabor é bom – e não do cheiro, forma, cor ou a localização da banana – a capacidade de encontrá-la de novo ficaria prejudicada.

Uma vez criada a memória condicionada, ela se comporta exatamente como os cães de Pavlov: a resposta torna-se um reflexo. Esta resposta condicionada está implícita no uso abusivo de drogas e ingestão compulsiva de alimentos.

Por esta razão alimentos altamente calóricos – particularmente alimentos com alto teor de açúcar ou gorduras – são mais propícios a desencadear um desejo compulsivo por comida. Como os caçadores, nem sempre somos bem sucedidos em obter uma presa e alimentos tão calóricos, com grandes quantidades de energia, contêm um apelo maior: a sobrevivência. Nessas circunstâncias somos compelidos a consumir a maior quantidade de comida que pudermos encontrar. Por isso esses estímulos servem de reforço. Mas, agora, quando abrimos a geladeira, temos 100% de certeza de que vamos encontrar alguma coisa para comer. Nossos genes mudaram pouco, mas em nosso entorno estamos sempre cercados de alimentos com altos teores de açúcar e de gordura, que contribuem para o aumento da obesidade.

Alguns tipos de alimentos provocam um reforço maior que outros?
Sim, absolutamente.Alimentos altamente calóricos – particularmente aqueles ricos em gordura ou açúcar – apresentam maior probabilidade de provocarem alimentação compulsiva. Novamente, isto faz sentido do ponto de vista da natureza. Como caçadores, nem sempre tínhamos sucesso em encontrar algo para comer, de forma que alimentos altamente calóricos, que contêm muita energia, ofereciam uma vantagem de sobrevivência. Nesse ambiente, era do nosso maior interesse consumir o máximo possível deste tipo de alimento quando o encontrávamos. Eles são bastante reforçadores. Mas atualmente, quando abrimos nossos refrigeradores, temos 100% de chance de sucesso em encontrar comida.

Nossos genes mudaram pouco, mas em nosso ambiente estamos cercados por alimentos ricos em gordura, ricos em açúcar. E essa abundância sem dúvida é um fator que contribui para o aumento da obesidade. As respostas condicionadas são incrivelmente poderosas com alimentos: quando passo por uma máquina que vende chocolates, que eu gosto muito, eu desejo chocolate mesmo não estando com fome. Mas se aqueles chocolates não estivessem lá, seria a última coisa que passaria pela minha cabeça.

O que acontece no cérebro durante as crises de desejo?
Se Pavlov pudesse ver dentro do cérebro dos cães que utilizava em seus experimentos provavelmente teria notado um aumento na dopamina, sempre que os animais viam a luz que ele tinha associado à oferta de carne. A dopamina nos informa sobre o que é importante: pequenos indícios de informação inesperada que precisamos estar atentos para podermos sobreviver — alertas sobre sexo, alimentos e prazer, assim como perigo e sofrimento. Você pode verificar isso, ao mostrar certos alimentos a pessoas previamente condicionadas. Há um aumento de dopamina no striatum, uma região do cérebro envolvida nos processos de recompensa e motivação comportamental.

Mas observe que esse aumento de dopamina só ocorre quando os participantes do estudo cheiram e olham para o alimento, já que eles foram avisados de que não poderiam come-lo. E esta é exatamente a mesma resposta neuroquímica que surge quando viciados em drogas assistem a um vídeo de outras pessoas consumindo drogas ou qualquer outra imagem relacionada com as drogas que costuma utilizar. A mensagem recebida quando a dopamina é liberada no striatum é que você precisa agir para obter uma certa meta. É um motivador poderoso. Superar esses impulsos somente com a força de vontade é extremamente difícil.

Geralmente, nos cérebros de viciados em drogas e em pessoas obesas, quando comparados com não usuários de drogas e pessoas com peso normal, também encontramos um número reduzido dos chamados receptores dopamina D2 no striatum.

Talvez essas descobertas revelem que o cérebro está tentando, de alguma forma, compensar repetidas ondas de dopamina provocadas por estímulos contínuos de drogas e alimentos. Outra possibilidade é que, de início, essas pessoas podem possuir naturalmente baixos números de receptores, o que pode predispô-las a aumentos crescentes de doenças em geral, causadas pelo vício. É interessante notar que encontramos uma correlação negativa entre a disponibilidade de receptores D2 em indivíduos obesos e seu índice de massa corpórea (ou IMC), em outras palavras: quanto mais obesa a pessoa, menos receptores ela possui.

O uso crônico de drogas – a estimulação repetida de dopamina e outros sistemas– acaba levando a uma ruptura da função nas áreas corticais frontais envolvidas nos comportamentos inibidores e emoções. Também é possível que este circuito seja mais fraco desde o início em pessoas que são viciadas em drogas, mas ainda não sabemos isto. Mas na obesidade, não temos evidência, pelo que sei, de que o córtex frontal é igualmente afetado. O que existe documentado é que o anseio por comida é tão poderoso que supera qualquer habilidade de exercer controle inibidor.

Será que algumas pessoas estão mais predispostas ao uso de drogas ou a comer demais?
Pelo estudo com gêmeos sabemos que aproximadamente 50% do risco para as duas predisposições é genético. Mas os genes envolvidos começam a atuar em níveis muito diferentes – desde diferenças na eficiência com que metabolizamos certas drogas ou alimentos, até diferenças na predisposição de correr riscos ou nos engajarmos em comportamentos exploratórios para correr riscos mais específicos, como a sensibilidade que sustenta o sistema de recompensas. Na obesidade, algumas pessoas podem correr maior risco ao comer compulsivamente porque elas podem ser excessivamente sensíveis à recompensa por alimentos. Um estudo mostrou que a atividade cerebral de alguns obesos aumentava em resposta a sensações nos lábios, boca e língua. Por outro lado, algumas pessoas respondem com muito menos eficiência ao registrar ou responder a sinais internos de saciedade, sendo assim provavelmente muito mais vulneráveis aos desejos desencadeados pelas ofertas de alimentos do ambiente.

Por exemplo, em um estudo recente observamos pessoas obesas que tinham um Estimulador Gástrico Implantável (IGS), que ativa eletricamente o nervo vago e faz o estômago expandir e ter a sensação de saciedade. Mas mesmo com esse implante, estas pessoas só conseguiam perder cerca de 5% de seu peso corpóreo. Em um nível mais elevado, elas apresentam respostas condicionadas poderosas, que aparentemente podem sobrepujar outros sinais reguladores.

As semelhanças no comportamento de viciados e obesos poderiam revelar algumas novas metas de tratamento?
Há intervenções farmacológicas ainda não exploradas, como a medicação que aumenta a resposta da dopamina no cérebro. O Rimonabant, que eleva os níveis de dopamina deprimindo o sistema endocanabinóide, mostrou ser promissor na ajuda a pessoas que são obesas e fumantes. Um desenvolvimento animador é a síntese recente e testes preliminares de uma droga administrada oralmente que bloqueia a orexina um peptídeo que reforça o nível “alto” associado à ingestão de bebidas alcoólicas e acredita-se que regule sua ingestão. Essa droga poderia ser extremamente útil no tratamento do consumo abusivo de alimentos e drogas. Além disso, devido ao estigma social, tanto a obesidade quando o consumo de drogas pode levar o indivíduo a um profundo estado de isolamento, que é muito estressante e nesse caso, a terapia de grupo pode ajudar.

Uma outra área muito promissora é o uso de imagens de ressonância magnética funcional (fMRI do inglês) em tempo real para treinar as pessoas a exercitar partes especificas de seus cérebros, como se faz com os músculos. Por esse método, Sean Mackey da Universidade de Stanford, o neurocientista Christopher De Charms da Omneuron [em San Francisco] e seus colaboradores treinaram pessoas saudáveis e pacientes com dores crônicas, para controlar sua atividade cerebral e modular suas experiências com a dor. Dessa forma estamos explorando a possibilidade de que você possa usar esse tipo de técnica para treinar pessoas a controlarem a região do cérebro chamada de ínsula, associada ao desejo compulsivo por alimentos e drogas. Os fumantes que tiveram uma lesão na ínsula depois de um derrame cerebral parecem perder a vontade de fumar.

Outro obstáculo para recuperar os comilões compulsivos é o fato óbvio de que você precisa comer para sobreviver, enquanto, se for usuário de drogas, pelo fato de esse comportamento ser ilícito, você está de certa forma protegido porque a droga não estará disponível em qualquer lugar como a comida. Uma das intervenções terapêuticas para usuários de drogas é ensiná-los a evitar locais onde seus hábitos são praticados livremente. Mas como você pode fazer isso com comida? É praticamente impossível. Isso causa um sofrimento adicional aos obesos. Em ratos, verificou-se que se lhes for oferecida uma dieta rica em açúcar e depois for administrado um antagonista opióide chamado de naloxone, pode haver o desencadeamento de carência alimentar semelhante à que ocorre com animais que receberam naloxone depois de repetidas injeções de morfina. Esse resultado indica que a exposição crônica de ratos a dietas com altos níveis de açúcar, produzem neles uma dependência física. No caso de humanos, ocorre um processo análogo. Dessa forma, verifica-se que intervenções que objetivem a mitigação dos sintomas da retração podem ser benéficas para aqueles submetidos a dietas rigorosas.

O vício não é uma opção. É uma resposta de reflexo. Você acha que os cães de Pavlov tinham alguma opção além de salivar quando ouviam o som ao qual foram condicionados em relação à carne? Eles não tinham, e se fosse possível olhar dentro dos cérebros deles, provavelmente seria observado que o som disparou aumentos de dopamina no striatum que sinalizam a expectativa da recompensa da carne. A mensagem que você recebe quando a dopamina é liberada no striatum – neste caso, o striatum dorsal – é que precisa entrar em ação para atingir uma certa meta. Trata-se de um motivador poderoso. É extremamente difícil superar esses impulsos apenas com força de vontade.

CONCEITOS-CHAVE
- Alimentos e drogas ilícitas disparam circuitos cerebrais envolvidos com recompensa e o prazer. Eles criam respostas condicionadas que são posteriormente evocadas pela simples visão da comida ou das drogas ou pelo ambiente onde essas substâncias são consumidas.

- Essas repostas se encontram no nível neurofisiológico mais básico. O obeso ou o drogado pode estar tentando compensar uma ausência de dopamina (o neurotransmissor que regula o comportamento para obtenção de recompensa) predeterminada geneticamente. O déficit pode fazer com que eles administrem a si mesmos doses contínuas de alimentos e drogas.

- É necessário uma estratégia multifacetada para tratar o vicio: fármacos, biofeedback e terapia de grupo, cada um por seu turno. Comedores compulsivos enfrentam um desafio que os viciados não enfrentam: a comida, ao contrário da heroína ou cocaína, é necessária para a sobrevivência do organismo. – Os Editores.

Kristin Leutwyler Ozelli é escritora e vive em Londres.

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

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PSOL sugere investigação do 2º processo contra Renan antes de paralisar o caso

GABRIELA GUERREIRO
da Folha Online, em Brasília

O senador José Nery (PSOL-PA) apresentou nesta terça-feira requerimento ao Conselho de Ética do Senado para sugerir a paralisação da leitura do relatório feito por João Pedro (PT-AM) até que o conselho investigue as denúncias do segundo processo contra o senador Renan Calheiros (PMDB-AL). Neste segundo processo, Renan é acusado de reverter dívida de R$ 100 milhões da Schincariol depois que a empresa comprou uma fábrica de seu irmão, o deputado Olavo Calheiros (PMDB-AL), por preço acima do mercado.

Nery disse que o PSOL acata a sugestão do relator do processo, senador João Pedro (PT-AM), para o “sobrestamento” (paralisação) das investigações até que a Câmara dos Deputados conclua se a denúncia tem fundamento –uma vez que o irmão de Renan seria peça fundamental nas acusações.

“Em relação à representação de número dois, não houve exatamente a investigação. Nesse sentido, protocolo junto à Mesa um requerimento solicitando que a análise do voto do relator seja sobrestada. Requer-se ainda que sejam perpetuadas todas diligências que o relator considere necessárias”, disse Nery.

João Pedro vai apresentar nesta terça-feira seu relatório ao plenário do conselho, no qual sugere o “sobrestamento” das investigações. O Conselho de Ética da Câmara apura o envolvimento de Olavo Calheiros nas irregularidades, o que, na opinião do relator, deve motivar o Senado a esperar a conclusão das investigações na outra Casa Legislativa para retomar o caso.

O senador Wellington Salgado (PMDB-MG) já adiantou que vai apresentar um voto em separado para sugerir o arquivamento do segundo processo contra Renan, apesar de o relator ter declarado que vai sugerir o sobrestamento.

Aliados do presidente do Senado consideram que não há indícios de quebra do decoro parlamentar no processo, por isso são contrários a esperar a conclusão das investigações na Câmara –querem o arquivamento imediato do caso.

Câmara

O presidente do Conselho de Ética da Câmara, Ricardo Izar (PTB-SP), disse hoje que as investigações que envolvem o deputado Calheiros estão avançadas. Na próxima semana, o Conselho de Ética da Câmara marcou o depoimento do presidente do grupo Schincariol, Fernando Terni. A idéia é ouvi-lo para detalhar as investigações.

Segundo Izar, o conselho da Câmara já recebeu informações minuciosas sobre o faturamento da empresa adquirida por Olavo Calheiros, quanto foi pago pelo negócio e outros dados sobre a compra e venda da fábrica.

De acordo com o presidente do conselho, em 45 dias, no máximo, será concluído o processo.

Jornal Folha de S. Paulo
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Estudantes acampam na Fundação

Bruno Ribeiro
Do Diário do Grande ABC

Um grupo de alunos em greve na Fafil (Faculdade de Filosofia, Ciências e
Letras), da Fundação Santo André, decidiu ontem acampar no meio do prédio
da faculdade. É mais uma forma de protesto contra o reitor do Centro
Universitário, Odair Bermelho.

Foram montadas 20 barracas. Cerca de 40 alunos acampados garantem que
permanecerão na instituição até a saída do reitor.

Um grupo menor, com cinco barracas, já acampava na faculdade desde o
primeiro fim de semana após a invasão da reitoria. Eles estavam em uma das
quadras externas nos fundos da Fundação.

Neste fim de semana, o movimento ganhou mais adeptos e os acampados
decidiram pela mudança, que ocorreu ontem às 18h. Discretamente, o grupo
foi tomando posição no centro do pátio.

Os alunos acampados pretendem servir como ponte entre as turmas do
matutino e do noturno da Fafil, transmitindo informações e mantendo a
mobilização. Querem também vigiar a movimentação para impedir que ocorram
aulas no prédio e oferecer oficinas culturais aos alunos.

JÚRI - Os professores pretendem convocar autoridades e figuras públicas
para fazer um “julgamento” do reitor. Querem formar um júri popular que
condene ou absolva a postura de Bermelho desde a tomada da reitoria pelos
alunos.

Diário do Grande ABC

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SP tem 1% dos homicídios do mundo, diz ONU

Sozinha, a cidade de São Paulo responde por 1% de todos os homicídios do planeta - apesar de ter apenas 0,17% da população mundial, afirma um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgado nesta segunda-feira.

A estatística faz parte de um documento da agência da ONU para os assentamentos humanos, UN-Habitat, que marca o Dia Mundial do Habitat, neste 1º de outubro.

O relatório utiliza o caso de São Paulo para ilustrar como a expansão caótica das cidades colabora para a elevação das taxas de criminalidade nos centros urbanos.

De acordo com a ONU, a capital paulista se expandiu à impressionante taxa de 5% entre 1870 e 2000, quando bateu os 18 milhões de habitantes.

Apenas entre 1940 e 1960, a população da capital cresceu 171%. No mesmo período, a migração do campo para a cidade fez a periferia metropolitana inchar 364%.

Incapazes de lidar com as demandas por serviços urbanos e justiça, as instituições civis foram “esmagadas pelo ritmo e o tamanho do crescimento populacional”, diz o estudo.

Em 1999, São Paulo registrava um número recorde de 11.455 assassinatos, uma estatística mais de 17 vezes superior à de Nova York, que no mesmo ano contava 667 crimes deste tipo.

Juntas, São Paulo e Rio respondem por metade dos assassinatos no Brasil, disse o estudo.

A capital fluminense registrava em 2001 uma taxa de homicídios de 45 para cada cem mil habitantes, bem acima da média latino-americana de 25/100 mil.

Jornal Folha de S. Paulo
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A origem de Zuzu

Crânio do Piauí reforça idéia de que grupos humanos fisicamente distintos ocuparam a América do Sul há 10 mil anos

Reinaldo José Lopes

A saga de Zuzu, um esqueleto humano de 10 mil anos de idade considerado um dos mais importantes da pré-história brasileira, pode sofrer uma reviravolta se uma nova análise de suas características morfológicas estiver correta. Anos atrás um estudo indicou que Zuzu era uma mulher – daí o apelido. Mas detalhes do crânio e da pelve sugerem que, na verdade, se trata de um homem. Mais importante: um homem com traços intrigantes. Embora tenha morrido entre os 35 e os 45 anos de idade onde hoje é o Piauí, ele se encaixaria com perfeição entre o povo que viveu há milhares de anos na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais – uma gente com traços físicos muito distintos dos apresentados pelos índios modernos e próximos aos dos aborígenes da Austrália.

Essa análise é um dos primeiros frutos da colaboração entre o grupo coordenado pela arqueóloga Niède Guidon, da Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), sediada no Piauí, e o do bioantropólogo Walter Neves, do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da Universidade de São Paulo (USP). Depois de vários anos com visões conflitantes sobre como e quando os seres humanos modernos teriam chegado à América, ambos os grupos resolveram deixar de lado certa animosidade e explorar as possíveis intersecções entre suas linhas de pesquisa.

Zuzu é justamente um desses pontos em comum. Encontrado em 1997 pela equipe de Niède no rico complexo pré-histórico do Parque Nacional Serra da Capivara, o esqueleto é um dos mais antigos da América do Sul, mais velho inclusive que a grande maioria das dezenas de crânios e outros ossos humanos encontrados em Lagoa Santa. Nas últimas décadas, Neves e seus colegas têm se dedicado a mostrar que esses primeiros habitantes da América do Sul, os paleoíndios, tinham aparência física muito distinta daquela dos indígenas modernos. Com seus crânios longos e estreitos, além da mandíbula e de outros ossos da face mais projetados para a frente, os paleoíndios de Lagoa Santa lembram os atuais povos africanos ou os nativos da Austrália e da Melanésia, enquanto os indígenas modernos têm claras semelhanças com os povos originários do nordeste asiático, também conhecidos como mongolóides.

Neves e seus colaboradores já mostraram que mais de 80 crânios de Lagoa Santa, com idade entre 12 mil e 8 mil anos, enquadram-se na chamada morfologia australomelanésia. Essa gente representaria, para os pesquisadores brasileiros, a primeira leva de imigrantes a chegar às Américas. Para mostrar que a população antiga dessa região mineira não é uma mera idiossincrasia gerada pelo isolamento, crítica feita por outros especialistas em pré-história das Américas, a equipe da USP partiu para a investigação de crânios de outras partes do Brasil e das Américas. “Declaramos guerra contra quem duvidava da ocupação da América do Sul por povos com morfologia australomelanésia”, resume Neves. “Essa estratégia de pegar amostras de vários lugares é uma forma de cercar a questão, para que não se possa mais usar o argumento de que a população de Lagoa Santa é aberrante.”

Desde então, além de um trabalho independente feito pelo antropólogo argentino Rolando González-José, que achou a mesma morfologia de Lagoa Santa entre índios mexicanos do século XVI, a equipe da USP identificou esses traços no Chile, na Colômbia, no Vale do Ribeira, interior de São Paulo, e entre os índios botocudos, que ocuparam o Brasil Central no período colonial. Faltava, no entanto, saber onde se encaixava a importante população do Piauí, cujo representante mais antigo com crânio preservado é Zuzu.

É aí que entra o convite de Niède para que Neves e seus colaboradores examinassem o crânio. A dúvida sobre o sexo de Zuzu já pairava havia algum tempo. Embora uma análise de DNA feita em 2002 pendesse para o lado feminino, os artefatos achados com o esqueleto causavam certa dúvida. “O sepultamento incluía uma série de artefatos de pedra, entre eles duas pontas de lança”, conta Mark Hubbe, ex-aluno de Neves e hoje pesquisador da Universidade Católica do Norte e do Museu Arqueológico de San Pedro de Atacama, no Chile. “Esses artefatos, teoricamente, favorecem a idéia de que seja um esqueleto de homem”, diz Hubbe, co-autor da análise apresentada num artigo a ser publicado no American Journal of Physical Anthropology.

Além dos artefatos que, acredita-se, fossem de uso exclusivo masculino, uma análise antropológica anterior já havia sugerido que Zuzu poderia ser apenas um homem de ossatura pouco robusta. No trabalho atual, Hubbe e Neves revisaram detalhes – principalmente do crânio e da pelve – que ajudam a determinar o sexo. Também compararam as semelhanças entre o crânio piauiense e o de nativos dos cinco continentes. Os resultados mostraram uma associação estreita do crânio de Zuzu com o dos paleoíndios da Colômbia e de Lagoa Santa, que apresentam traços classificados como negróides, semelhantes ao dos africanos, aborígenes australianos e nativos da ilha de Páscoa.

Niède não se surpreendeu com o resultado da análise, que atribui a Zuzu traços aborígenes semelhantes ao do povo de Lagoa Santa. “Lagoa Santa não está tão longe assim do norte de Minas Gerais e do rio São Francisco. Como esses grupos viviam da caça e da coleta de alimentos, facilmente poderiam se espalhar pelo território”, diz a arqueóloga. “Com esses trabalhos, praticamente esgotamos a investigação dos esqueletos disponíveis de paleoíndios da América do Sul. Finalmente estamos progredindo em convencer a comunidade científica internacional de que dois grupos com características físicas distintas devem ter entrado no continente”, comenta Hubbe. E, do ponto de vista morfológico, o esqueleto parece realmente pertencer ao sexo masculino.

Neves elogia a disposição de seus colegas do Piauí para trabalhar em conjunto. “Niède foi extremamente aberta à cooperação”, diz Neves. Para a pesquisadora da Fumdham, ainda é preciso definir se será feita uma nova análise de DNA em Zuzu para eliminar de uma vez por todas a dúvida sobre se era homem ou mulher, informação importante para se descobrir se havia diferenças rituais no enterro de homens e mulheres. “Essa é uma discussão que está no campo dos antropólogos físicos”, comenta Niède. “Se acharem necessário, faremos a análise.”

Revista da FAPESP
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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A maioridade do Brasil

A vinda da família real portuguesa é tema de 1808, livro que mostra como o País deixou de ser colônia

Ubiratan Brasil

Se a certidão de nascimento do Brasil é datada de 22 de abril de 1500, a de formatura poderia trazer grafada 7 de março de 1808, quando a esquadra do príncipe real, d. João, aportou na Baía de Guanabara. Afinal, foi a vinda da realeza portuguesa, transferindo para o Brasil a sede da monarquia, que provocou uma profunda e decisiva transformação na colônia, preparando-a para se transformar em um país independente. Eis a principal conclusão a que chegou o escritor e jornalista Laurentino Gomes, autor de 1808 (408 páginas, R$ 40), livro que a editora Planeta lançou na semana passada, iniciando a maratona de eventos que vai comemorar, nos próximos meses, os 200 anos da chegada da família real.

“Esse foi o mais importante período da história brasileira: durante os 13 anos em que d. João aqui permaneceu, sendo inclusive aclamado rei de Portugal depois da morte de sua mãe, d. Maria I, mudanças drásticas permitiram ao Brasil ganhar seu atual contorno”, comenta Gomes, que pesquisou durante dez anos todos os detalhes dessa permanência, oferecendo, em 1808, o raro retrato de um período normalmente apresentado sob uma linguagem acadêmica, nem sempre acessível ao público médio.

De fato, se estimulou o mecanismo das caixinhas, a distribuição de títulos de nobreza em troca de favores, o uso indevido do Banco do Brasil e a displicência com o déficit público, entre outras mazelas, a vinda do príncipe que se tornaria rei provocou a abertura dos portos nacionais para todas as nações, permitiu a instalação da imprensa com a vinda de máquinas tipográficas, enriqueceu a cultura com a permanência da Real Biblioteca, que incluía a primeira edição de Os Lusíadas, de Camões, antigas cópias manuscritas da Bíblia e mapas ainda em pergaminho, entre outras jóias.

Gomes oferece, logo no início da obra, uma interessante discussão sobre a terminologia que caracteriza a viagem: seria uma transladação? Ou propriamente uma fuga? O autor prefere cravar nesta última, a partir dos fatos históricos. Em 1807, Napoleão Bonaparte conquistava o apogeu de sua brilhante carreira política, derrubando monarquias européias e estendendo o território francês. A maior resistência estava na Inglaterra, cuja esquadra marítima impunha respeito. E, no meio do caminho, estava Portugal, pressionado por Napoleão a aderir ao bloqueio comercial contra os ingleses, com quem mantinha aliança.

Com a instabilidade intelectual da rainha (atormentada por distúrbios mentais, d. Maria tinha a alcunha de a “louca”), d. João governava o país. Homem intensamente indeciso e medroso, ele adiava a decisão sobre qual lado apoiar até receber o ultimato de Napoleão, que anunciou invadir Portugal. Assim, protegido por uma escolta inglesa, o príncipe deixou Lisboa em 29 de novembro de 1807, quando as tropas francesas já se aproximavam da capital.

Gomes lembra que não foi a primeira vez que a corte portuguesa ameaçou se transferir para o Brasil, a maior e mais rentável de suas colônias. A dependência econômica era vital, pois o ouro, o fumo e a cana-de-açúcar produzidos no Brasil constituíam o eixo da relação comercial. “O volume de bens e mercadorias importados da colônia chegou a ser quase duas vezes às exportações”, observa o autor, lembrando que, em 1736, o então embaixador português em Paris, Luiz da Cunha, escreveu um memorando secreto a d. João V em que dizia ser Portugal “uma orelha de terra” onde o rei “jamais poderia dormir em paz e segurança”. Seu conselho era mudar a corte para o Brasil, que passaria a sediar o reino.

Em 1762, diante de mais uma ameaça de invasão do território português, o então marquês de Pombal voltou a alimentar o plano de transferência. Finalmente, em 1801, quando Napoleão iniciou a ocupação européia, a estratégia ganhou senso de urgência. “A existência de tantos planos, e tão antigos, explica por que a mudança da corte para o Brasil deu certo em 1807”, afirma Gomes.

Sua pesquisa não traz nenhum dado inédito, mas permite recriar, com um sabor inigualável, o retrato do cotidiano dos brasileiros e como isso foi modificado com a vinda dos portugueses. A figura mais interessante é, por certo, d. João. Homem de escassa beleza, baixo, muito gordo, de eterna expressão fatigada, suíças castanhas escorridas pela face vermelha e de passo moroso em virtude da erisipela hereditária, era um homem sem voz ativa. “Sua maior qualidade estava em, ao reconhecer sua inabilidade política, delegar poderes aos auxiliares mais competentes”, comenta Gomes, lembrando que d. João chegou ao poder por acaso, depois que a mãe, d. Maria I, enlouqueceu e o irmão mais velho, d. José, herdeiro natural do trono, morreu de varíola. “Com seu caráter indeciso e medroso, governou Portugal em meio a um dos períodos mais turbulentos na história das monarquias européias.”

Sua vida amorosa também foi medíocre. Casou-se por obrigação com a espanhola Carlota Joaquina, com quem teve nove filhos, mas viveu pouco tempo sob o mesmo teto. No Rio de Janeiro, viviam em moradias separadas - d. João na Quinta da Boa Vista e d. Carlota, em uma chácara em Botafogo. “Mesmo assim, notei um certo carinho entre eles, especialmente nas cartas que trocaram em que, apesar das obrigações protocolares, percebia-se uma atenção.”

D. Carlota estava mais interessada, segundo Gomes, em articular a expansão dos territórios espanhóis e sua permanência no Brasil servia apenas para esse propósito - ela odiava as terras brasileiras e relutou muito em deixar Portugal. Gomes procura, por outro lado, modificar o perfil do casal apresentado no filme Carlota Joaquina, de Carla Camurati, em que d. João aparece apenas interessado em comer coxas de galinha e d. Carlota, mulher irritadiça, é dona de um grande furor sexual.

“Apesar de incompetente para o cargo, d. João conseguiu manter com rigor as largas fronteiras do Brasil, impedindo que a colônia se despedaçasse em quatro ou até cinco países menores”, conta Gomes. “Ele também adorava o Brasil, a ponto de embarcar chorando de volta a Portugal, já como o rei d. João VI, e com a exata noção das mudanças que aqui promovera. Tanto que, ao ter consciência da inevitável independência da colônia, deixou aqui seu filho, d. Pedro, como seu natural substituto.”

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

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A última fronteira

Estudos mostram que chimpanzés cooperam e sabem inferir intenções, mas perdem de crianças em habilidades sociais básicas

RICARDO BONALUME NETO

DA REPORTAGEM LOCAL

Virou moda lembrar que seres humanos e chimpanzés têm entre 96% e 98% de material genético em comum -dependendo de como se contam as letrinhas do DNA. Mas o que na fração restante do código, ou no comportamento ou na cultura, faz o ser humano ser uma espécie assim tão diferente?
O escritor e biólogo americano Jared Diamond chama o homem de “o terceiro chimpanzé” (surgido depois do chimpanzé comum e do bonobo, o “chimpanzé pigmeu”). O zoólogo britânico Desmond Morris chama o homem de “o macaco nu”. Descobertas recentes mostram que eles têm lá suas razões, mas novos estudos também jogam luz sobre a notável fração que diferencia o Homo sapiens dos seus primos próximos, os chimpanzés (Pan troglodytes e Pan paniscus), e dos primos mais distantes, o também africano gorila (Gorilla gorilla) e o asiático orangotango (Pongo pygmaeus).
“Nós comparamos as três espécies para determinar quais habilidades e aptidões são distintamente humanas”, diz Esther Herrmann, do Instituto Max Planck para Antropologia Evolutiva, de Leipzig, na Alemanha. Ela coordenou um estudo comparando aptidões sociais e físicas de crianças com as dos “grandes macacos”.
O grupo testou 105 crianças na Alemanha, 106 chimpanzés comuns na África e 32 orangotangos na Indonésia.
Todos têm capacidades parecidas quando se trata de aptidões cognitivas relacionadas a aspectos do universo físico - como noções de espaço, de quantidade, de causalidade. Mas meras criancinhas alemãs de dois anos e meio de idade já conseguem proezas cognitivas que os primos mais próximos do ser humano têm dificuldade em realizar. Quando se trata de aptidões ligadas ao aprendizado social e à comunicação, a garotada deu um banho nos seus primos peludos, todos mais velhos. Os macacos tinham idades entre 3 e 21 anos.
O estudo mostrou essa faceta intensamente social do comportamento humano, e com isso deu mais apoio à chamada hipótese da “inteligência cultural”. As crianças acertaram 74% dos testes de aptidão “sociocultural”, contra 33% de acertos entre os macacos.
Um exemplo de aprendizado de uma aptidão “social” envolveu um tubo contendo comida. Os chimpanzés e orangotangos tentam quebrar o tubo para ter acesso ao prêmio. Os bebês conseguem seguir o exemplo do adulto que controla o experimento e retirar o alimento abrindo a tampa do tubo.
As crianças foram muito melhores em entender comunicação não-verbal, em imitar soluções para problemas e entender as intenções dos outros, segundo a pesquisadora.
Na conclusão do estudo, Herrmann e colegas lembram que já foram seqüenciados os genomas do homem e do chimpanzé, e que estão em andamento os do orangotango e do bonobo. Mas eles argumentam que, para o esforço dar bons resultados, é preciso complementá-lo com estudos “em termos das reais aptidões cognitivas e comportamentais que promoveram sobrevivência e reprodução”.

Irracional, eu?
Mas ainda é cedo para deixar de lado as aptidões dos primos peludos, pois outros estudos mostram que eles possuem notáveis habilidades sociais. Justin Wood, da Universidade Harvard, trabalhou não só com chimpanzés, mas também com primatas mais distantes na escala evolutiva, como o macaco reso. E ele mostrou como esses animais tidos como “irracionais” são capazes de determinar a diferença entre ações intencionais e acidentais, avaliando o que os outros fazem e reagindo “racionalmente”.
Chimpanzés também são capazes de cooperar para atingir um objetivo de interesse comum -por exemplo, chegar a um prato de banana cortada, num arranjo em que é preciso que dois deles puxem cada um uma ponta de uma corda. Mas isso só foi observado quando os dois bichos tinham “status” semelhante. Chimpanzés com grande variação na hierarquia -um macho ou fêmea dominante e um macho jovem, por exemplo-, eram incapazes de cooperar. Ou quando agiram juntos, o dominante podia ficar com toda a comida para ele.
E para não dizer que não se falou de sexo, o comportamento muda radicalmente com os bonobos, conhecidos pela promiscuidade e dotados de um “Kama Sutra” próprio -adoram variar as posições sexuais. Quando está difícil a cooperação, o bonobo tem uma reação típica: vamos transar que a coisa se resolve.
Há diferença no genoma de 2% a 4%? Bem, há sempre bem mais que banana em uma banana split.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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