Arquivo de 3 de Outubro de 2007

Falta motivação a professores, afirmam alunos

DA REPORTAGEM LOCAL

Classes cheias, falta de livros ou biblioteca da escola fechada. Todos esses problemas ficam menores se comparados com a falta de motivação dos professores na sala de aula, afirmam alunos da rede estadual.
“O professor parece uma máquina. Só faz um esquema simples na lousa, não aceita intervenção”, disse Helson Teixeira, 19, formado em 2005 em uma escola da Pompéia (zona oeste de SP). “O cara ganha mal, não tem nem estímulo nem tempo para preparar uma aula.”
Helson conta que chegou a se assustar quando soube que em seu histórico escolar constava nota A em física. “É uma farsa total, não sabia nada de física.”
“Você só pega algumas idéias vagas nas aulas”, afirmou Felipe Dias, 19, que estudava na mesma escola que Helson. Para isso, andava 40 minutos de ônibus desde a sua casa, em Perus.
“A escola tem uma boa fama. Mesmo assim, é ruim.” Ambos agora estão num cursinho popular.
Professor de química em três escolas da região de Santo Amaro (zona sul de SP), Roberto (nome fictício) dá razão para as reclamações dos alunos. Ele leciona de manhã, tarde e noite. “Tenho 26 turmas. Não dá nem para lembrar os nomes dos alunos. E só sobra tempo para preparar aulas aos sábados.”
Segundo ele, o que os dados do Saeb mostraram, que muitos alunos do ensino médio têm conhecimento equivalente ao fundamental, é percebido na prática. “Tenho formando que nem sabe fazer regra de três.”

Reflexão
Para a coordenadora da ONG Ação Educativa, Vera Masagão, os professores têm de ganhar mais para não precisar fazer até três jornadas. “Por outro lado, acho que cabe uma reflexão por parte dos professores que desistiram de tentar ensinar.”
Professores e funcionários do Estado estão em campanha salarial e ameaçam greve. Eles reivindicam reajuste de 35,7%. O piso hoje é de R$ 915 (24 h semanais).
O governo Serra alega que a pauta elevaria a folha de pagamento dos atuais R$ 8,3 bilhões para R$ 14,4 bilhões, valor maior do que o Orçamento da secretaria, de R$ 12 bilhões. (FT)

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Melhores do Congresso

Vote nos parlamentares do PSOL

O sítio de notícias “Congresso em Foco” iniciou na última terça-feira (18/9) a votação que definirá os melhores congressistas do país deste ano. Até 18 de novembro o internauta poderá votar. Na primeira etapa votaram 188 jornalistas que cobrem o Congresso Nacional, que selecionaram 25 deputados e 16 senadores. Todos os parlamentares do PSOL – Ivan Valente, Chico Alencar, Luciana Genro e o senador José Nery - ficaram entre os 15 primeiros.

Meus votos são:

Ivan Valente (Deputado Federal Psol SP)
José Nery (Senador Psol PA)

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Maconha é ‘maior produto agrícola’ dos EUA, diz acadêmico

Com produção e cultivo da droga estimado em US$ 36 bi anuais, país está se tornando importante produtor

Luis Fajardo, da BBC

CALIFÓRNIA - Nem o milho nem o trigo: em valor comercial, o principal cultivo dos Estados Unidos é hoje a maconha, segundo um estudo apresentado pelo acadêmico e ativista Jon Gettman, PhD em Política Pública da George Mason University, na Virgínia do Norte, e líder da Coalizão para Reclassificação da Cannabis.

Segundo ele, a produção do cultivo de maconha no país é estimada em US$ 36 bilhões anuais e o país está deixando de ser um consumidor da droga para se converter em um importante produtor.

Apenas na Califórnia, o principal Estado produtor de maconha, o valor comercial das plantações erradicadas chegou a US$ 6,7 bilhões em 2006, segundo cifras passadas pelo Departamento de Justiça da Califórnia à BBC.

Para ter uma idéia da importância comercial dos cultivos americanos da erva, basta destacar que um relatório do Serviço de Investigações do Congresso americano estimou que a contribuição do narcotráfico para a economia da Colômbia chega a 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) daquele país, ou cerca de US$ 2,5 bilhões - uma cifra equivalente a menos da metade do valor estimado da plantação californiana de maconha.

Entretanto, o baixo valor monetário do narcotráfico colombiano se explica pelo fato de que a cocaína produzida na Colômbia adquire a maior parte de seu valor agregado após ser exportada.

Até chegarem ao consumidor final americano, o valor comercial final das drogas produzidas na Colômbia será substancialmente maior.

Mesmo assim, as cifras sugerem que os Estados Unidos são uma potência crescente em cultivos ilícitos, e que seu papel na indústria global do narcotráfico não se reduz ao de simples consumidor.

Cultivo crescente

Armado com um fuzil automático, o capitão Kevin Mayer não é o típico guarda florestal de aparência inofensiva e sorriso amável para os turistas que patrulha os parques naturais dos Estados Unidos.

Mayer passa os seus dias percorrendo o Bosque Nacional da Serra, uma reserva natural de mais de um milhão de hectares a meio caminho entre as cidades de Los Angeles e San Francisco.

Apenas na Califórnia, o número de plantas de maconha destruídas passou de 313.776 em 2001 para 1.675.681 no ano passado.

O relatório anual antinarcórticos do Departamento de Estado afirmou que os Estados Unidos cultivavam 10 mil toneladas de maconha em 2005, frente a 5 mil importadas do México e do Canadá.

“Creio que (as plantações de maconha) continuarão aumentando, se expandindo em direção ao leste e ao longo dos Estados Unidos, e ao norte em direção à fronteira com o Canadá”, ele disse à BBC. “Há muitos lucros no negócio.”

O problema descrito por Mayer foi recentemente analisado pelo acadêmico americano Jon Gettman, para quem a maconha é, em termos de valor de sua colheita anual, o maior cultivo dos Estados Unidos, superando o milho e o trigo combinados.

Conhecido estudioso e ativista a favor da reforma das leis antidrogas, Gettman utiliza o argumento econômico na principal campanha da Coalizão para Reclassificação da Cannabis, um grupo defensor do uso terapêutico da maconha.

Prós e contras

Assim como alguns justificam a existência de cultivos de coca nos países andinos por sua importância para as tradições locais, na Califórnia não falta quem diga que a maconha é parte da cultura da região, especialmente desde os anos 60.

E uma parte do eleitorado do Estado tolera o cultivo, desde que em certas condições. Depois de um referendo em 1996, as autoridades californianas legalizaram o consumo e o cultivo da erva em pequenas quantidades para fins terapêuticos.

Mas em outros setores da população, especialmente em comunidades rurais e conservadores, a oposição ao cultivo continua sendo radical.

Um porta-voz da Agência Antidrogas dos EUA (DEA) disse que não poderia confirmar a escala da colheita nacional de maconha. Estima-se que apenas 10% dela sirva a propósitos medicinais.

Como ocorre em países andinos, como Colômbia, Peru e Bolívia, um dos maiores focos do crescimento ilícito na Califórnia tem lugar em parques e reservas naturais, onde o isolamento físico e o caráter de espaço público dificultam a perseguição dos responsáveis.

As autoridades da Califórnia disseram à BBC que não empregam fumigação aérea contra as plantações, por considerá-las nocivas às condições ambientais nesses parques naturais.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

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O COMBOIO DO LUCRO ESTÁ EM MARCHA

De Serviço Público a Global Player e Objecto dos Investidores

Robert Kurz

Quando em 1994 os caminhos de ferro federais (ex-Bundesbahn) passaram a sociedade anónima de capitais exclusivamente públicos (Bahn AG), não apenas se conseguiu os requisitos formais para uma privatização, mas também a forma de gestão foi radicalmente reorientada: foram postas de lado as tarefas básicas própria da prestação dum serviço público e caminhou-se para a maximização do lucro numa “empresa da mobilidade” virada para o mercado. Foi uma opção política na senda da economificação neoliberal de todas as áreas da vida. O Presidente dos Caminhos de Ferro, Mehdorn, sonha com a entrada em Bolsa, qual Junkie pós-moderno antes de uma grande competição. “Transformar os caminhos de ferro numa Global Player”, assim reza a auto-apresentação numa campanha publicitária. Desde 2002 que a Bahn AG dá cartas no poker das fusões e aquisições de empresas. Depois do grupo de logística Schenker, absorveu outras empresas, quer de transportes aéreos, quer marítimos. A liberalização jurídica do transporte de mercadorias por via férrea, em vigor desde início de 2007 na UE, veio permitir a absorção de parte dos transportes ferroviários de mercadorias ingleses e espanhóis. Mehdorn galga em via larga rumo aos seus grandes objectivos de expansão, como se de um campeonato mundial de mobilidade “para a Alemanha” se tratasse.

A outra face da moeda: enquanto que nos últimos anos o volume de negócios duplicou para 30 mil milhões de Euros, disparando o lucro, a redução drástica de pessoal foi ainda mais rápida; apesar da expansão, o número de empregados foi reduzido em mais de 50.000. A pressão no trabalho aumentou drasticamente, na mesma proporção em que os serviços se deterioraram. A consequente falta de segurança é um risco calculado e assumido. Simultaneamente, as linhas dos caminhos-de-ferro alemães, que têm vindo a ser desmanteladas desde há muito, foram ainda reduzidas em mais 5.000 Kilometros, ou seja, em mais de 10%. Acresce que as infraestruturas das linhas férreas cronicamente sub-financiadas estão sobrecarregadas até ao limite dos limites, o que inevitavelmente conduz a mais falhas e problemas de segurança. Muito parecido, de resto, com os postes de electricidade dos grupos privados de fornecimento de energia que, por falta de investimento em infraestrutras, “produziram” diversos Black-Outs por essa Europa fora.

Agora, como passo seguinte, o governo Federal, pela pena do Ministro do SPD, Tiefensee, promulgou o Projecto de Lei para a privatização parcial da empresa ferroviária até finais de 2008. 49 % das acções são para repartir por investidores como Blackstone ou o Deutsche Bank. Aqui, o problema chave é o facto de a rede ferroviária ser, por Lei Constitucional, artigo 87-e, propriedade do Estado Federal. Tiefensee quer contornar este “handicap” com uma construção aventureira: a rede ferroviária deverá ficar formalmente propriedade do Estado, contudo, ao mesmo tempo, a Bahn AG ficará com administração e orçamento autónomos durante os próximos 15 anos, sendo que os critérios para manter a qualidade não são claros. O fracasso estrondoso da privatização dos caminhos-de-ferro britânicos manda cumprimentos: aqui, a empresa Railtrack, cotada na bolsa, deixou que a rede ferroviária se deteriorasse de tal modo que provocou inúmeros acidentes, com casos mortais a lamentar. Esta empresa faliu entretanto. A segurança de Tiefensee neste aspecto deixa muito a desejar: enquanto que o Estado continua a desembolsar anualmente 2,5 mil milhões de Euros para a conservação das ferrovias, só ao fim dos citados 15 anos é que se decide se a Bahn AG terá tido o cuidado de atingir os níveis necessários para uma rede de caminhos de ferro com qualidade. Mesmo em caso negativo, o Estado terá de pagar a esse grupo, pela reversão, 8 mil milhões de euros a título de compensação, ou seja, como agradecimento pela sua incompetência.

Não é pois de admirar que um investment-banker tenha afirmado, em artigo no “Wirtschaftswoche [Semanário Económico]”, que os investimentos nos Caminhos de Ferro alemães podem ser muito rentáveis para “investidores astutos”. Por outro lado, os investidores minoritários nos caminhos de ferro gritam que não se desactivam em número suficiente as “linhas não rentáveis”. A “Handelsblatt [Folha Comercial]” reclama contra todas aquelas “pretensões” políticas, sindicais e ecológicas, que reivindicam uma ligação ferroviária para cada “aldeiazinha, por mais remota que seja”. Sob esta perspectiva, a empresa ferroviária seria “tão imprópria para entrar na bolsa como a Caritas”. Se é possível exercer uma pressão tão descarada, tal deve-se aos próprios procedimentos políticos: a privatização ou é total ou não existe, e as premissas para tal já há muito foram elaboradas. As lamentações dos políticos Verdes sobre a auto-expropriação do Estado merecem pouco crédito, uma vez que foi o governo Verde-Vermelho que preparou a actual situação. Não é por acaso também que um Ministro SPD é o responsável número um pela liquidação dos caminhos-de-ferro. A liquidação dos serviços públicos está programada. Enquanto sobem de tom as críticas contra o sindicato dos maquinistas, os quais apesar das reivindicações separatistas, ao contrário da Transnet, lutam contra os baixos salários e a demasiada pressão no trabalho, a “empresarialização rentável” dá-se à custa de limitações à mobilidade da população. Afinal o que representa uma simples greve de maquinistas face à entrada em bolsa dos Caminhos de Ferro? O último passo seria a privatização total, e depois a sociedade anónima ferroviária, player de fusões e aquisições, seria ela própria absorvida e desmantelada.

Original DIE PROFITBAHN ROLLT em http://www.exit-online.org. Publicado em Freitag, 03.08.2007

http://obeco.planetaclix.pt/

http://www.exit-online.org/

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Responsáveis pela violência devem ser punidos.

MOÇÃO

Na madrugada de 14/09/07, a Força Tática da Polícia Militar
invadiu a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Centro
Universitário Fundação Santo André, a mando do reitor Odair
Bermelho, para desalojar os estudantes que protestavam contra
o aumento das mensalidades.

A violência policial resultou em lesões físicas a inúmeros
participantes do movimento estudantil. Violou a autonomia
universitária.

A Fundação Santo André é uma fundação pública de direito
privado. O terreno de sua construção pertence à Prefeitura de
Santo André. Assim foi constituída com o objetivo de permitir
acesso a estudantes trabalhadores. No entanto, o aumento
constante das mensalidades reflete a mercantilização.

O conflito entre os estudantes e a Reitoria ocorreu justamente
por essa razão. A intervenção policial expressou o
autoritarismo. É a velha resposta destinada a esmagar pela
força o movimento social.

Frente a isso, os professores decidiram reivindicar a
destituição do reitor Odair Bermelho. Redigiram uma carta ao
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva,
denunciando o reitor e a violência policial. Um abaixo
assinado de repudio à atitude arbitrária da reitoria, que usou
sua posição para pedir a ocupação policial do campus, está
sendo divulgado nos meios universitários e intelectuais.

A APROPUC - Associação dos Professores da PUC-SP se une a
esta campanha. Chama professores, estudantes e funcionários a
divulgarem o abaixo assinado em seus locais e coletarem
assinaturas.

Todo o apoio aos estudantes e professores da Fundação Santo
André.

São Paulo, 1º de outubro de 2007.

Diretoria da APROPUC

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Em Alberta, no Canadá, a corrida do “ouro sujo”

Hervé Kempf
Enviado especial a Fort McMurray (Canadá)

O pequeno Cessna levanta vôo e toma altitude acima da pista. Ele dá uma guinada, deixando o viajante contemplar um manto ondulado de floresta verde, atravessada por um rio de curvas displicentes. Mas esta é uma visão fugaz. O cenário muda brutalmente. Agora, as árvores sumiram, a terra foi decapada, e passou a exibir vastas superfícies de solo pardo e nu que são percorridas por máquinas escavadoras e caminhões que avançam como num filme em velocidade lenta.

Surge uma imensa fábrica: um emaranhado de encanamentos e de cubos metálicos de onde emergem colunas de fumaça que sobem muito alto no céu. Pelo chão arrasado espalham-se grandes placas amarelas (são depósitos de enxofre), vastos lagos castanhos de tons avermelhados (piscinas de retenção de águas poluídas), alinhamentos de paralelepípedos brancos (são campos de trabalhadores), e então, voltam a aparecer o solo revirado, usinas, lagos sujos. Ao longe, vislumbra-se a floresta, além de outras manchas pardas que ganham terreno, como um câncer que avançaria sobre a selva.

“Este lugar é exatamente como uma laranja que alguém esmaga e cuja casca ele larga atrás dele”, resume Etienne White, o jovem piloto. Ele chegou há alguns meses a Fort McMurray, um buraco perdido e a capital canadense das areias betuminosas. Ele descreve a contradição do lugar da seguinte forma: “As pessoas vêm para cá porque aqui ganham bastante dinheiro - e eu também. Mas isso será um problema para a próxima geração, sei disso”.

Aqui, é a Arábia Saudita - perdão, Alberta. Uma província do oeste canadense que contém em seu solo 174 bilhões de barris de petróleo sob forma de areias betuminosas, o que faz do Canadá a segunda maior reserva de petróleo do mundo, atrás do reino de Riyad (260 bilhões de barris), na frente do Irã (126), do Iraque (115) e do Kuait (90).

O aumento dos preços do petróleo transformou a abóbora boreal numa carroça energética. A US$ 20 o barril, cavar toneladas de terra impregnada de betume, separar o hidrocarboneto pegajoso da areia por meio de grandes quantidades de energia e de água, transformar a mistura em petróleo por meio de inúmeros produtos químicos, apresentava um interesse econômico limitado. A partir de US$ 40, isso se tornou um bom negócio. E quando o barril supera a quantia de US$ 70, então, isso transforma um maciço de imensas florestas para as quais ninguém ligava, exceto os autóctones, numa fonte de riqueza sobre a qual se precipitam os gigantes do petróleo.

Para todos aqueles que as árvores, os castores e os grandes alces deixam indiferentes, esta corrida do ouro negro é fascinante. O seu epicentro é Fort McMurray, um antigo posto de caçadores que foi transformado num grande povoado cuja população (80.000 habitantes) duplica a cada dez anos. As cercanias da cidade são um perpétuo canteiro de obras, aonde os loteamentos vão afastando a floresta. A zona industrial poderia ser um Salão permanente de máquinas para obras públicas. Na auto-estrada que está em fase de alargamento, caminhões compridos carregados de vigas metálicas ou de troncos de árvores cruzam com camionetes e picapes, num fluxo incessante.

A mão-de-obra qualificada nunca está em número suficiente para cavar, construir, transformar, embora o Canadá inteiro tivesse afluído para cá, muita gente, proveniente principalmente das províncias pobres do leste do país. Isso não impede a presença aqui de sem-teto. “Muitos lêem no jornal que há trabalho aqui e resolvem vir para cá”, diz Sylvia Thompson, a diretora do abrigo do Exército da Salvação. A associação caritativa recusa muita gente toda noite. “Mas, para quem não tem um diploma, não há trabalho. Então alguns ficam e tentam se virar entre as drogas e o álcool. Há também um bom número de jovens mulheres que se prostituem”, acrescenta.

Em contrapartida, a grande maioria daqueles que trabalham nas companhias que exploram as areias, vive com bons salários - e morre de tédio. No fim de semana, nesta cidade lamacenta aonde as picapes constituem uma boa metade do parque de automóveis, os homens, com o boné enfiado sobre a cabeça, vagueiam entre o cassino e o centro comercial repleto de joalherias, enquanto aguardam o principal evento cultural, apresentado pela casa noturna Cowboys, um concurso de camisetas molhadas.

“Os rapazes estão cansados”, diz Lary Matychuk, um sindicalista. “Eles vivem em muitos casos dentro de campos desconfortáveis, os transportes são demorados, e eles estão quase sempre longe de casa e da sua família”. Mas os salários são melhores do que em qualquer outro lugar: 7.000 euros (cerca de R$ 18.200) mensais para um bom carpinteiro que não se preocupa com o número de horas trabalhadas, por exemplo. O suficiente para concretizar os seus sonhos: “Em breve, eu vou me aposentar”, diz Leo Legere, o chefe de equipe de uma empresa de construção. “Vou poder retornar ao Novo Brunswick, e construir para mim um iate; é a minha paixão”.

A picape de Leo exime uma flâmula na ponta de um caule de dois metros de altura, assim como quase todas as picapes da cidade. É para ser visto ao se aproximar dos maiores caminhões do mundo quando ele vai trabalhar nas minas de areias. Os motoristas ficam empoleirados a vários metros de altura, ao volante de máquinas capazes de carrear 400 toneladas de terra. É um espetáculo e tanto: os caminhões avançam prudentemente sobre as suas enormes rodas - mais altas do que um homem de grande tamanho - após terem sido carregados por escavadoras do tamanho de um edifício de quatro andares.

As principais operadoras, tais como a Syncrude, a Suncor ou a Shell, já acreditavam na areia quando a cotação do petróleo estava perto do seu nível mais baixo. Agora, elas investem com toda a força, no que elas vêm sendo seguidas por novas companhias - a Total, a CNRL, a Petro-Canada - e investidores, como o emirado de Abu Dabi.

Concessões já foram atribuídas para uma área de cerca de 50.000 km2, o décimo da superfície da França. Entre 1995 e 2010, segundo o governo de Alberta, as companhias terão investido o equivalente a 100 bilhões de euros (R$ 260 bilhões) no desenvolvimento da exploração das areias betuminosas. A produção, que supera atualmente 1 milhão de barris por dia (1,2% da produção mundial de petróleo) poderia quadruplicar daqui até 2015. O que deverá matar boa parte da insaciável sede de petróleo do vizinho americano.

No caminho desta chuva de petróleo e de dólares que vem transtornando Alberta, há um só obstáculo. Um enorme obstáculo. A ecologia. As conseqüências deste desenvolvimento são tão graves que é possível falar num desastre ecológico de dimensão mundial. “Em minha comunidade de 1.200 pessoas está havendo uma taxa alarmante de casos de câncer, bem mais do que costuma ser registrado normalmente numa cidade desta importância”, diz Georges Poitras, o representante dos autóctones de Fort Chipewyan, a cerca de 300 km ao norte de Fort McMurray.

A principal incriminada neste caso é a água do rio Athabasca, no qual as companhias jogam efluentes mal depurados. A constituição de grandes lagos artificiais, nos quais elas se livram da água poluída proveniente dos processos industriais, constitui um outro problema. A água é tão tóxica que tiros de canhão são regularmente disparados para impedir que os pássaros migradores neles pousem - e morram por conta disso. “É um problema que não tem solução”, reconhece John McEachern, o diretor do CEMA, uma organização semi-estatal de estudos do meio-ambiente financiado pela indústria.

A quantidade de água retirada do Athabasca constitui um outro motivo de preocupação: são necessários cerca de três barris de água para produzir um barril de petróleo. Em fevereiro de 2006, um pesquisador da universidade de Alberta, David Schindler, acionou o sinal de alarme num artigo publicado na revista científica da Academia das Ciências dos Estados Unidos. Segundo ele, a conjunção do desenvolvimento da extração das areias e da mudança climática vai provocar “uma crise grave relativa à quantidade e à qualidade da água na região”.

A transformação da areia em petróleo provoca chuvas ácidas que se fazem sentir até o Québec. No que diz respeito à floresta boreal, as seqüelas são pesadas: milhares de hectares são desmatados para dar lugar à exploração. A isso, deve ser acrescentada a multiplicação das vias de acesso, dos campos de trabalhadores, das novas cidades, dos oleodutos, que destroem ou fragmentam o maciço florestal do norte de Alberta, até então intacto.

“A indústria está claramente fora de controle”, resume Simon Dyer, da Pembina, uma associação que estuda atentamente há cinco anos a exploração das areias betuminosas. “É preciso suspender a ampliação das atividades, durante o tempo necessário para estudar o impacto ambiental e encontrar as soluções”.

O impacto é mundial, e não apenas regional. É preciso empenhar muita energia para separar o petróleo das areias. Segundo as previsões, as emissões anuais de gases de efeito-estufa deverão alcançar em 2011 mais de 80 milhões de toneladas de CO2, ou seja, mais do que aquilo que é produzido atualmente pelo conjunto do parque de automóveis canadense. Esta indústria das areias contribuiu amplamente para o crescimento das emissões de gases de efeito-estufa pelo Canadá nos últimos anos: + 26% desde 1990, ao passo que o país se comprometeu, ao assinar o protocolo de Kyoto, a reduzi-las para 6%. Não é um acaso se o governo Harper assumiu uma posição muito hostil a Kyoto, fragilizando este tratado essencial para lutar contra a mudança climática.

“Tudo isso está acontecendo rápido demais”, diz Ann Dort McLean, da associação ambientalista de Fort McMurray. “As pessoas trabalham, se focalizam no dinheiro. Elas se esquecem do quanto este país é bonito”.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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Líderes das duas Coréias realizam encontro histórico

Presidente sul-coreano atravessa fronteira para cúpula de paz em Pyongyang, na Coréia do Norte.

BBC Brasil

Presidente sul-coreano confessou sua “emoção” pela “calorosa” recepção
SEUL - Os líderes da Coréia do Sul e da Coréia do Norte abriram nesta terça-feira, 2, a segunda reunião de cúpula já realizada entre os dois países - e a primeira nos últimos sete anos.

O recluso líder da Coréia do Norte, Kim Jong-il, deu as boas-vindas na capital de seu país, Pyongyang, ao presidente sul-coreano, Roh Moo-hyun, que foi recebido por uma multidão nas ruas.

Imagens de TV mostraram os dois líderes apertando as mãos antes da reunião, que terá duração de três dias.

Antes de deixar Seul, Roh disse que seu objetivo é buscar um acordo de paz e crescimento econômico.

Desde a Guerra da Coréia, de 1950 a 1953, os dois lados nunca assinaram um cessar-fogo oficial e permanecem tecnicamente em guerra.

Fronteira

A comitiva sul-coreana, formada por membros do governo, empresários, artistas e religiosos, deixou Seul na manhã desta terça-feira (noite de segunda-feira pelo horário de Brasília).

Ao chegar à zona desmilitarizada entre os dois países, o comboio parou para que Roh e sua mulher, a primeira-dama Kwon Yang-sook, pudessem cruzar a fronteira a pé. Foi a primeira vez que um líder sul-coreano atravessou a fronteira a pé.

Os dois passaram por uma fita amarela na qual estavam escritas as palavras “paz” e “prosperidade”.

“Eu realmente espero que, depois da minha passagem, mais pessoas sigam o mesmo caminho”, disse o presidente sul-coreano. “Esta linha será gradualmente apagada, e a barreira vai cair.”

Paz

A primeira reunião entre líderes dos dois países ocorreu há sete anos, quando Kim Jong-il recebeu em Pyongyang o então presidente sul-coreano Kim Dae-jung.

Na época, o líder norte-coreano prometeu fazer o caminho inverso, rumo a Seul, o que acabou nunca se realizando.

Aquele encontro levou Kim a receber o Prêmio Nobel da Paz por sua política de reaproximação com o norte.

Desde então, estradas e ferrovias ligando os dois países foram reconstruídas, e famílias divididas receberam permissão para se reencontrar, mesmo que rapidamente.

Críticas

No entanto, críticos afirmam que as tentativas de aproximação e as grandes quantias de doações do Sul não conseguiram acabar com o isolamento do norte nem melhorar as condições de direitos humanos no país.

Segundo o correspondente da BBC em Seul, John Sudworth, alguns observadores duvidam que Kim Jong-il tenha planos de reconciliação.

De acordo com o jornalista, os observadores acreditam que o líder norte-coreano prefere manter sua ameaça militar para obter mais ajuda econômica e outras concessões do sul.

Os conservadores da oposição na Coréia do Sul já alertaram Roh para que não faça nenhuma concessão econômica “ingênua” apenas para obter um acordo.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

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Alunos do 3º ano têm nota de 8ª série

Em SP, no final do 2º grau, 43% dos estudantes mostram conhecimentos de leitura e escrita esperados da 8ª série. Na escola pública, a situação é ainda pior, segundo dados inéditos de um exame federal de avaliação de aprendizagem.

FÁBIO TAKAHASHI

DA REPORTAGEM LOCAL

Quase a metade dos estudantes do Estado de São Paulo termina o ensino médio (antigo colegial) com conhecimentos em escrita e leitura esperados para um aluno de oitava série.
Dados inéditos extraídos do último Saeb -exame federal de avaliação de aprendizagem-, realizado em 2005, revelam que 43,1% dos alunos do terceiro ano tiveram notas inferiores a 250, patamar fixado como o mínimo para a oitava série pela secretária de Estado da Educação de São Paulo, Maria Helena Guimarães de Castro.
Ou seja, eles não conseguem, por exemplo, compreender o efeito de humor provocado por ambigüidade de palavras ou reconhecer diferentes opiniões em um mesmo texto.
Outros 15,2% dos alunos tiveram desempenho ainda pior, similar ao desejado para crianças da quarta série do ensino fundamental (antigo primário).
O quadro seria ainda mais dramático se os alunos da rede privada fossem retirados da conta, uma vez que a média dos estudantes das escolas públicas estaduais é 21,2% inferior à dos alunos das particulares.
Talita Lima de Araújo, 18, que estudou em uma escola estadual na Pompéia (zona oeste de SP), reclama da precariedade do ensino público. “Quando você termina o ensino médio, só percebe um vazio. Não temos chance no vestibular.”
Os dados no Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) comprovam a impressão de Talita. A média da oitava série da rede privada (285,8) é maior que a do terceiro ano do ensino médio da rede estadual (253,6).

Causas
Dagmar Zibas, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas e uma das maiores especialistas em ensino médio no país, diz que o péssimo desempenho é conseqüência das condições de trabalho dos educadores.
“Não é possível que um professor, que já tem formação deficiente, dê aulas em duas ou três escolas. Ele não sabe nem o nome dos alunos. Chega, faz a chamada, dá algumas instruções e já tem de correr para a próxima aula”, afirma.
Segundo a Secretaria Estadual da Educação, 70% dos professores têm emprego em outra rede -ou seja, no mínimo dobram a jornada.
O educador e filósofo Mario Sergio Cortella, secretário municipal de Educação de São Paulo entre 1991 e 1992 na gestão Luiza Erundina (então no PT), diz que o ensino médio cresce como nunca na história do país. “Nos últimos dez anos, quase triplicamos o número de alunos, muitos com atraso escolar. Se aumentamos imensamente o universo de alunos, houve inversamente uma degradação das condições de trabalho. Faltam professores”.
Cortella diz que essa “colisão” (mais alunos e menos professores) se agravou pela promoção automática nas escolas. “Estamos colhendo o que foi organizado há dez, 15 anos.”
O educador diz não ser contra a progressão continuada, mas afirma que ela foi mal implementada. Segundo ele, é necessário haver haver um sistema de recuperação eficiente, para que o aluno com dificuldade avance com as condições adequadas.
Já o professor da Faculdade de Educação da USP Romualdo Portela reclama da descontinuidade administrativa. “Apesar de o mesmo partido comandar o Estado, cada secretário teve uma agenda, o que causou uma descontinuidade”, diz.
Para Maria Helena, que assumiu a secretaria do governo José Serra (PSDB) há cerca de dois meses, presidiu o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais e ajudou a implantar o Saeb, o problema está na alfabetização deficiente, ocasionada pela má formação dos professores e por materiais didáticos de má qualidade.
Ela afirma que um pacote lançado pelo governo irá melhorar a situação.
Secretário de Educação à época da prova, durante o governo Geraldo Alckmin (PSDB), Gabriel Chalita foi procurado pela Folha, mas preferiu não se manifestar.
A prova do Saeb é aplicada em todo o país, de forma amostral, a cada dois anos, nas quartas e oitavas séries do ensino fundamental e no terceiro ano do ensino médio. O exame deste ano será realizado no mês que vem.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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O III ENE e a invasão da PUC

Laís Abramo*

Eu estava lá, naquela sala de aula da PUC, onde conseguimos finalmente
realizar o III Encontro Nacional dos Estudantes, depois das tentativas
frustradas de Belo Horizonte, em junho, e da USP alguns dias antes.
Cercados pelas tropas do então secretário de Segurança Pública do Estado
de São Paulo, coronel Erasmo Dias, com os companheiros dos outros estados
sendo perseguidos nas ruas de São Paulo, decidimos que deveríamos nos ater
ao fundamental. Deixar de lado por um momento as teses, contrateses,
discussões e mais discussões sobre o caráter da Política Educacional do
Governo, o caráter da conjuntura pela qual estávamos passando ou da luta
democrática na qual todos estávamos envolvidos. Resolvemos deixar tudo
isso de lado por um momento e nos unir em torno do que era realmente
fundamental: avançar na reorganização do movimento estudantil em nível
nacional, avançar na reconstrução da UNE (União Nacional dos Estudantes),
nossa entidade nacional destruída pela ditadura quase uma década antes.

Enquanto alguns dos diretores organizavam uma reunião aberta com os
estudantes no Salão Beta da PUC, nós, os que não estávamos alocados a
outras tarefas, por exemplo, os sistemas de comunicação e informação, nos
reunimos disfarçadamente em uma das salas de aula daquela universidade
que, alguns meses antes (julho de 1977), já tinha tido a coragem e a
energia para sediar a reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da
Ciência (SBPC).

Sentados como alunos em uma das salas de aula do segundo andar do Prédio
Novo, com um companheiro da Universidade Federal do Rio Grande do Sul à
nossa frente, fingindo-se de professor (para que quem passasse pelos
corredores – e eles estavam cheios de “tiras” – pensasse que se tratava
simplesmente de uma aula qualquer), rapidamente chegamos a um consenso e
rapidamente concretizamos nossas esperanças de avançar na reorganização do
nosso movimento, criando a Comissão pró-UNE.

Depois disso – o III ENE em si, realizado nessas circunstâncias, não durou
mais de uma hora – saímos apressadamente dali. Havíamos conseguido driblar
as forças policiais que nos perseguiam desde junho em Belo Horizonte, a
sanha feroz do coronel Erasmo Dias, que, em várias ocasiões, havia
esbravejado, declarado, prometido, jurado e reiterado, impedir a
realização do III ENE.

Eu saí da PUC levando comigo dois companheiros e uma companheira – do Rio,
Minas, Rio Grande do Sul. Estava encarregada de cuidar da segurança deles
até o dia seguinte, quando iriam embarcar de volta para os seus
respectivos estados. Algum tempo depois, a realização do III ENE foi
comunicada à assembléia estudantil reunida no Salão Beta. Quando
estacionava o carro logo depois, na porta da casa dos meus pais na Lapa,
ouvimos pelo rádio que, apesar de todas as proibições, os estudantes
haviam conseguido realizar o III ENE. Imaginávamos a fúria do Erasmo ao
receber a notícia.

Entre nós o clima era de comemoração. Estávamos entusiasmados porque,
finalmente, com aquele reunião, realizada clandestinamente (ainda que numa
sala de aula da PUC, em plena luz do dia), havíamos conseguido duas coisas
muito importantes: em primeiro lugar, dar mais um passo no processo de
reorganização do movimento estudantil. Em segundo lugar, provar, uma vez
mais, que éramos capazes de nos organizar e manifestar apesar das
proibições existentes na legislação vigente, e da repressão policial. Além
dos três companheiros a que me referi, estavam nessa tarde na casa dos
meus pais minha irmã Helena, caloura da Cências Sociais da USP, mas já
engajada na nossa luta e Beatriz Tibiriçá (a Beá), que havia integrado a
primeira diretoria do DCE-Livre da USP.

Nesse clima de festa, não imaginávamos as terríveis conseqüências que a
nossa façanha teria, nessa mesma noite, algumas horas mais tarde, quando
se concretizou a invasão da PUC.

Minha mãe, teve essa clarividência. Quando chegou em casa e viu a gente
comemorando daquele jeito, caçoando do Erasmo, ficou apavorada. Mais
realista do que nós, previu o que aconteceria na PUC naquela noite (é
claro, não previu as bombas, a selvageria da repressão, mas previu que
muito provavelmente aconteceria algo grave) Ela era, na época, uma
combativa participante da Comissão de Mães pelos Direitos Humanos, que
tinha se organizado naquele ano para apoiar as mobilizações dos
estudantes.

No fim da tarde, quando ficamos sabendo que tinha sido convocado o ato de
comemoração lá na PUC, ela insistiu para que tentássemos dissuadir os
promotores do ato de realizar esse evento, que muito provavelmente seria
reprimido com violência. Dissemos que isso seria impossível porque a
realização do ato tinha sido decisão de assembléia, mas que era importante
mandar alguém para retirar da manifestação os delegados de outros estados
que porventura estivessem participando. Eu não podia ir porque tinha
estado no encontro da manhã e porque tinha que tomar conta do conjunto dos
delegados. Mário, meu irmão, também militante ativo do movimento, era uma
pessoa muito visada. Sobravam a Lena e a Beá para essa missão. Minha mãe,
com justa apreensão, não gostou nada da idéia de deixá-las assumir esse
risco (a Lena tinha só 18 anos). Mas não havia outro jeito.

O meu pai estava no hospital, recém-operado. O Mário foi levar minha mãe
pra passar a noite com ele, e, no caminho, deixou a Beá e a Lena nas
imediações da PUC. Elas chegaram quando já tinha começado o ato e estava
sendo lido o manifesto preparado para a ocasião. Logo, a euforia que
reinava entre os estudantes pelas realizações da manhã mudou para um
pânico generalizado. A polícia invadiu a PUC e as duas emissárias foram
vítimas da violência: Helena chegou a desmaiar com a fumaça desprendida
das bombas de “efeito moral”, e só escapou de sofrer queimaduras por ter
sido socorrida a tempo por alguns colegas. Beá machucou o pé e o joelho
quando tentava escapar das bombas. Ambas foram detidas.

Quando ficamos sabendo da invasão da PUC e das prisões, foi a maior
confusão; ninguém sabia direito o que fazer. Nos reunimos – os que tinham
escapado da repressão policial – na casa da Carmen Cintra do Prado, nossa
colega da Física, tentando nos organizar para enfrentar mais aquela
situação. Eu, além de tudo, estava muito preocupada com a Lena. Minha mãe
e meu pai no hospital, eu apavorada com a idéia de que meu pai ficasse
sabendo que a Lena tinha sido presa. Afinal de contas, ele estava
convalescendo de uma operação grave.

A partir de uma certa hora da madrugada, o pessoal começou a ser solto.
Para que os estudantes fossem liberados, a polícia exigia a presença de
alguém da família que se responsabilizasse por eles. O que fazer com a
Lena? Como eu disse, meu pai e minha mãe estavam no hospital, eu e o Mario
não podíamos aparecer, arriscávamo-nos a ser presos também. Não havia na
família quem pudesse se apresentar. Aí, as valorosas integrantes da
Comissão de Mães entraram em ação: organizaram o resgate dos estudantes
que estavam em situação como essa da Lena (sem mães e/ou pais disponíveis
para o resgate), escolhendo “mães postiças” para se apresentarem no lugar
dos verdadeiros pais.

E foi assim que a Lena foi solta. Já era madrugada avançada, quase manhã,
e a minha grande preocupação era chegar com ela no hospital antes que meu
pai acordasse e ficasse sabendo do que tinha acontecido. Felizmente, isso
foi possível. Quando minha mãe, tomando conhecimento pelos jornais
matutinos do que tinha sido a repressão na PUC, telefonou para a nossa
casa, foi possível dizer que a Lena já tinha sido liberada e estava a
caminho do hospital.


*Laís Abramo
é socióloga. Na época, estudante de Ciências Sociais e membro
da Diretoria do DCE Livre Alexandre Vannucchi Leme da USP.

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“As pessoas ainda não foram terminadas…”

Porque nosso DNA é incompleto, inventamos poesia, culinária…

Rubem Alves

As diferenças entre um sábio e um cientista? São muitas e não posso dizer todas. Só algumas.

O sábio conhece com a boca, o cientista, com a cabeça. Aquilo que o sábio conhece tem sabor, é comida, conhecimento corporal. O corpo gosta. A palavra “sapio”, em latim, quer dizer “eu degusto”… O sábio é um cozinheiro que faz pratos saborosos com o que a vida oferece. O saber do sábio dá alegria, razões para viver. Já o que o cientista oferece não tem gosto, não mexe com o corpo, não dá razões para viver. O cientista retruca: “Não tem gosto, mas tem poder”… É verdade. O sábio ensina coisas do amor. O cientista, do poder.

Para o cientista, o silêncio é o espaço da ignorância. Nele não mora saber algum; é um vazio que nada diz. Para o sábio o silêncio é o tempo da escuta, quando se ouve uma melodia que faz chorar, como disse Fernando Pessoa num dos seus poemas. Roland Barthes, já velho, confessou que abandonara os saberes faláveis e se dedicava, no seu momento crepuscular, aos sabores inefáveis.

Outra diferença é que para ser cientista há de se estudar muito, enquanto para ser sábio não é preciso estudar. Um dos aforismos do Tao-Te-Ching diz o seguinte: “Na busca dos saberes, cada dia alguma coisa é acrescentada. Na busca da sabedoria, cada dia alguma coisa é abandonada”. O cientista soma. O sábio subtrai.

Riobaldo, ao que me consta, não tinha diploma. E, não obstante, era sábio. Vejam só o que ele disse: “O senhor mire e veja: o mais importante e bonito do mun­do é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando…”

É só por causa dessa sabedoria que há educadores. A educação acontece enquanto as pessoas vão mudando, para que não deixem de mudar. Se as pessoas estivessem prontas não haveria lugar para a educação. O educador ajuda os outros a irem mudando no tempo.

Eu mesmo já mudei nem sei quantas vezes. As pessoas da minha geração são as que viveram mais tempo, não pelo número de anos contados pelos relógios e calendários, mas pela infinidade de mundos por que passamos num tempo tão curto. Nos meus 74 anos, meu corpo e minha cabeça viajaram do mundo da pedra lascada e da madeira - monjolo, pi­lão, lamparina - até o mundo dos computadores e da internet.

Os animais e plantas também mudam, mas tão devagar que não percebemos. Estão prontos. Abelhas, vespas, cobras, formigas, pássaros, aranhas são o que são e fazem o que fazem há milhões de anos. Porque estão prontos, não precisam pensar e não podem ser educados. Sua programação, o tal de DNA, já nasce pronta. Seus corpos já nascem sabendo o que precisam saber para viver.

Conosco aconteceu diferente. Parece que, ao nos criar, o Criador cometeu um erro (ou nos pregou uma peça!): deu-nos um DNA incompleto. E porque nosso DNA é incompleto somos condenados a pensar. Pensar para quê? Para inventar a vida! É por isso, porque nosso DNA é incompleto, que inventamos poesia, culinária, música, ciência, arquitetura, jardins, religiões, esses mundos a que se dá o nome de cultura.

Pra isso existem os educadores: para cumprir o dito do Riobaldo… Uma escola é um caldeirão de bruxas que o educador vai mexendo para “desigualizar” as pessoas e fazer outros mundos nascerem…

Rubem Alves - Educador e escritor rubem_alves@uol.com.br.

Portal da Educação

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Relato da invasão da PUC

Diretório Central dos Estudantes da PUC-SP

A invasão

No dia 22 de setembro de 1977, aproximadamente ao meio dia, iniciou-se no
Salão Beta na PUC uma Assembléia Estudantil Metropolitana. Essa Assembléia
visava a decidir as medidas a serem tomadas em protesto pelo cerco
policial da USP [Universidade de São Paulo], da PUC [Pontifícia
Universidade Católica] e da FGV [Fundação Getúlio Vargas], no dia 21, que
impediu a realização do III Encontro Nacional dos Estudantes (ENE).
Encerrada às 14 h., deliberou a realização, à noite, em frente ao TUCA, de
um Ato Público de repúdio à repressão ao III ENE.

Simultaneamente à assembléia, em condições precárias, delegados de vários
Estados se reuniram e realizaram o III Encontro Nacional dos Estudantes na
PUC.

Às 21 horas, iniciou-se o Ato Público, com a presença de cerca de 2.000
estudantes

Estava sendo lida em coro uma Carta Aberta denunciando as medidas
policiais tomadas no dia 21, quando nas esquinas das ruas Monte Alegre e
Bartira, pararam várias viaturas policiais comandadas pelo Secretário de
Segurança Pública do Estado.

Investigadores civis e tropas de choque desceram das viaturas, bateram as
portas com violência e começaram a dar cacetadas e a jogar bombas nos
manifestantes que se encontravam sentados.

Devido à violência da investida, os estudantes se levantaram e correram
para a entrada da PUC, vários em pânico. Os policiais os perseguiram,
histéricos, dando cacetadas e jogando bombas que expeliam gás, outras que
soltavam chamas e outras ainda que espirravam líquidos que queimavam a
pele. Os estudantes que entraram na PUC se chocaram com outros que estavam
saindo das classes e indo embora para a casa. Tudo isso contribuiu para
aumentar o pânico, fazendo que vários estudantes caissem na rampa e fossem
pisoteados e queimados.

Vários estudantes conseguiram escapar, descendo a rua Monte Alegre e
outros pelos fundos da PUC. Mas os policiais, agindo de maneira coordenada
e rápida, cercaram o prédio logo em seguida, invadindo-o também pelas
entradas das ruas Bartira, Ministro de Godoy e João Ramalho.

Consumado o cerco e a invasão, aumentou a violência.

No restaurante, vários estudantes e professores, em intervalo de aula,
estavam fazendo um lanche ou tomando café, quando viram a correria na
rampa. Assustados, fecharam a porta de vidro do restaurante. Minutos
depois chegaram os policiais, que quebraram a porta a golpes de cassetetes
e invadiram o restaurante, espancando e insultando alunos, professores e
funcionários.

Alunos que estavam nas sedes das entidades estudantis foram expulsos à
força, muitas vezes sem ter tempo sequer de recolher seus documentos e
material didático. No DA [Diretório Acadêmico] Leão XIII e no CA [Centro
Acadêmico] 22 de agosto, colegas que jogavam xadrez viram os tabuleiros
serem jogados longe a pontapés.

As sedes dos DA de Filosofia e Letras, DA Leão XIII, CA de Ciências
Sociais e Serviço Social, CA 22 de agosto e do DCE [Diretório Central dos
Estudantes] foram totalmente depredadas. Portas que estavam fechadas
apenas com o trinco foram arrombadas a pontapés. As gavetas foram
arrancadas fora das mesas e seu conteúdo jogado no chão.

Em vários restos de portas ficaram bem nítidas as marcas dos pontapés. Em
diversas salas foi pichada a sigla CCC (Comando de Caça aos Comunistas),
organização terrorista que, como a AAB [Associação Anticomunista
Brasileira], vem ameaçando a segurança da população. Uma lista enorme de
bens das entidades foi levada pela polícia.

A biblioteca também foi invadida e seus ocupantes expulsos aos gritos e
ameaças de cassetetes. Os policiais jogaram vários livros no chão.

Entraram com violência e, usando palavras de baixo calão, nas salas de
aula, prendendo todos os seus ocupantes, e muitas vezes espancando-os.

Alunos que participavam de um ensaio de coral na Casa Paroquial também
foram presos.

Estudantes feridos, principalmente os que foram queimados pelas bombas que
provocaram chamas, só a muito custo foram atendidos. Os policiais não só
demoraram muito para levá-los à ambulância, como espancaram os colegas que
procuravam atendê-los.

Cabe ressaltar que os policiais, principalmente os investigadores à
paisana, comportavam-se com a máximo de violência e arbitrariedade.
Espancavam quem quer que passasse à sua frente. Várias pessoas viram um
colega que sofreu empurrões e cacetadas e, quando caiu no chão na rampa do
prédio novo, levou pontapés. Mesmo depois de dispersado o Ato Público,
continuaram jogando bombas, Vários policiais mostravam-se demasiadamente
excitados, sem autocontrole, com os olhos completamente “vidrados”.
Insultos, palavras de baixo calão e provocações eram feitos o tempo
inteiro. Toda essa violência era absolutamente desnecessária, pois não
houve, em nenhum momento, qualquer tentativa de reação por parte das
vítimas da agressão policial.

No estacionamento de automóveis, mais de 1.500 professores, funcionários e
alunos ficaram sentados pelo menos uma hora no chão de pedregulhos,
submetidos à triagem policial. Investigadores circulavam nervosamente
entre as pessoas sentadas e quando reconheciam na multidão alguma pessoa
que procuravam, ou quando alguma pessoa muito ferida exigia ser levada a
um hospital, abriam caminho a golpes de cassetete e pontapés entre a
multidão. Todas essas violências foram presenciadas pelo Cel. Erasmo Dias,
que nada fez para impedi-las.

Cerca de 700 estudantes foram conduzidos em ônibus da Prefeitura ao
Batalhão Tobias de Aguiar. Alguns foram conduzidos ao DEOPS [Delegacia
Estadual de Ordem Política e Social]. Todos esses colegas foram fichados.
Entre os presos, é bom lembrar que havia grande número de estudantes que
estavam sem documentos por tê-los perdido durante a invasão. No DEOPS
colegas foram submetidos a sevícias e a tratamentos humilhantes. Alguns
tiveram que prestar depoimento apoiados numa perna só, ameaçados de serem
espancados se perdessem o equilíbrio ou se uma perna encostasse na outra.
Um colega, que foi violentamente espancado por investigadores, reclamou, a
um delegado, do tratamento a que estava sendo submetido. Então o delegado,
em tom irônico, pediu a um investigador que “cuidasse do caso”. Esse
investigador levou o colega a um canto e continuou o espancamento.

Desses 700 colegas, 37 foram logo em seguida enquadrados na Lei de
Segurança Nacional. Esses estudantes, vítimas da invasão, passaram a ser
interrogados como réus num processo que corre pelo DEOPS e, em outro, que
corre pela Polícia Federal. De outro lado, a autoridade que assumiu a
responsabilidade pela invasão e pelas violências cometidas é agraciado
pelo Ministro do Exército com a “Medalha do pacificador”, a mesma que foi
atribuída ao Dr. Harry Shibata (Médico legista que ficou conhecido por ter
assinado o atestado de óbito de Vladimir Herzog, em 1975, declarando que
ele havia se suicidado, apesar de todas as evidências de que ele havia
sido torturado e morto nas dependências do DOI-CODI de São Paulo, como foi
comprovado posteriormente).

Considerações finais

1. A invasão, ao que tudo indica, foi premeditada.
O ato público foi apenas um pretexto para justificar a invasão policial.
Se o objetivo do Cel. Erasmo Duas fosse apenas dissolver o ato, poderia
tê-lo feito usando formas menos violentas, pois sua realização foi
decidida na Assembléia do meio-dia, onde havia muitos informantes da
polícia.

2. A invasão teve os seguintes objetivos:
a) Represália à realização do III ENE. Este regime que retirou toda a
autonomia das entidades estudantis, que fechou os DCEs, UEEs [União
Estadual dos Estudantes] e a própria UNE [União Nacional dos Estudantes],
que transformou os sindicatos em corporações pelegas, que reprime e
tortura aqueles que procuram se organizar em defesa de seus legítimos
interesses, não vai deixar o nosso movimento avançar sem também o
reprimir, pois este regime se sustenta na exploração da maioria da
população e não tolera a reorganização dos vários setores da população em
defesa dos seus direitos.
b) Atingir com brutalidade a Reitoria da PUC, que tem se caracterizado
pela independência frente às pressões do regime, como quando cedeu as
instalações da Universidade para a 29ª Reunião Anual da SBPC, pela defesa
intransigente da Autonomia Universitária.

3. Reafirmamos o propósito de continuar a luta em defesa da autonomia
universitária. É necessário se pôr fim à triagem ideológica que vigora em
todas as Universidades. É necessário denunciarmos pressões financeiras que
a PUC está sofrendo desde a realização da Reunião da SBPC.
Numa Universidade onde não predomine o obscurantismo cultural, é
indispensável a ampla liberdade de pesquisa e debate. Nesse sentido,
quaisquer livros e publicações, por mais polêmicos que sejam, devem
circular livremente e serem analisados segundo o interesse acadêmico e não
segundo o prisma de policiais em função de censor.

4. As entidades estudantis se regem por princípios de democracia e
representatividade. Decisões referentes a atos públicos, tirada [eleição]
de delegados para os congressos estudantis e eleição de diretorias são
tomadas pelo conjunto dos estudantes, em assembléias e eleições onde não
há Lei Falcão, nem AI-5, nem Lei de Segurança Nacional. Nas assembléias,
os únicos elementos infiltrados são policiais disfarçados.
Nas entidades estudantis os alunos se organizam para defesa de seus
interesses acadêmicos e para se posicionarem frente a questões políticas
nacionais.
Reafirmamos o propósito de continuar lutando em defesa de nossas entidades
representativas, visando ao fortalecimento dos CAs e dos DCEs livres, a
criação de UEEs em todos os Estados e a reconstrução de uma entidade
estudantil em nível nacional.

5. Reafirmamos também que as intimidações policiais não diminuirão as
nossas lutas por Liberdades Democráticas. Acreditamos que invasões como a
que sofreu a PUC só deixarão de ocorrer quando o povo, através de uma
Assembléia Constituinte Livre, Democrática e Soberana, substituir o regime
policial em que vivemos, por um regime que atenda aos interesses da
maioria da população.

São Paulo, 22 de novembro de 1977, DCE-LIVRE da PUC/SP

*Publicado no jornal Folha de S. Paulo em 28 de novembro de 1977.

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