Diretório Central dos Estudantes da PUC-SP
A invasão
No dia 22 de setembro de 1977, aproximadamente ao meio dia, iniciou-se no
Salão Beta na PUC uma Assembléia Estudantil Metropolitana. Essa Assembléia
visava a decidir as medidas a serem tomadas em protesto pelo cerco
policial da USP [Universidade de São Paulo], da PUC [Pontifícia
Universidade Católica] e da FGV [Fundação Getúlio Vargas], no dia 21, que
impediu a realização do III Encontro Nacional dos Estudantes (ENE).
Encerrada às 14 h., deliberou a realização, à noite, em frente ao TUCA, de
um Ato Público de repúdio à repressão ao III ENE.
Simultaneamente à assembléia, em condições precárias, delegados de vários
Estados se reuniram e realizaram o III Encontro Nacional dos Estudantes na
PUC.
Às 21 horas, iniciou-se o Ato Público, com a presença de cerca de 2.000
estudantes
Estava sendo lida em coro uma Carta Aberta denunciando as medidas
policiais tomadas no dia 21, quando nas esquinas das ruas Monte Alegre e
Bartira, pararam várias viaturas policiais comandadas pelo Secretário de
Segurança Pública do Estado.
Investigadores civis e tropas de choque desceram das viaturas, bateram as
portas com violência e começaram a dar cacetadas e a jogar bombas nos
manifestantes que se encontravam sentados.
Devido à violência da investida, os estudantes se levantaram e correram
para a entrada da PUC, vários em pânico. Os policiais os perseguiram,
histéricos, dando cacetadas e jogando bombas que expeliam gás, outras que
soltavam chamas e outras ainda que espirravam líquidos que queimavam a
pele. Os estudantes que entraram na PUC se chocaram com outros que estavam
saindo das classes e indo embora para a casa. Tudo isso contribuiu para
aumentar o pânico, fazendo que vários estudantes caissem na rampa e fossem
pisoteados e queimados.
Vários estudantes conseguiram escapar, descendo a rua Monte Alegre e
outros pelos fundos da PUC. Mas os policiais, agindo de maneira coordenada
e rápida, cercaram o prédio logo em seguida, invadindo-o também pelas
entradas das ruas Bartira, Ministro de Godoy e João Ramalho.
Consumado o cerco e a invasão, aumentou a violência.
No restaurante, vários estudantes e professores, em intervalo de aula,
estavam fazendo um lanche ou tomando café, quando viram a correria na
rampa. Assustados, fecharam a porta de vidro do restaurante. Minutos
depois chegaram os policiais, que quebraram a porta a golpes de cassetetes
e invadiram o restaurante, espancando e insultando alunos, professores e
funcionários.
Alunos que estavam nas sedes das entidades estudantis foram expulsos à
força, muitas vezes sem ter tempo sequer de recolher seus documentos e
material didático. No DA [Diretório Acadêmico] Leão XIII e no CA [Centro
Acadêmico] 22 de agosto, colegas que jogavam xadrez viram os tabuleiros
serem jogados longe a pontapés.
As sedes dos DA de Filosofia e Letras, DA Leão XIII, CA de Ciências
Sociais e Serviço Social, CA 22 de agosto e do DCE [Diretório Central dos
Estudantes] foram totalmente depredadas. Portas que estavam fechadas
apenas com o trinco foram arrombadas a pontapés. As gavetas foram
arrancadas fora das mesas e seu conteúdo jogado no chão.
Em vários restos de portas ficaram bem nítidas as marcas dos pontapés. Em
diversas salas foi pichada a sigla CCC (Comando de Caça aos Comunistas),
organização terrorista que, como a AAB [Associação Anticomunista
Brasileira], vem ameaçando a segurança da população. Uma lista enorme de
bens das entidades foi levada pela polícia.
A biblioteca também foi invadida e seus ocupantes expulsos aos gritos e
ameaças de cassetetes. Os policiais jogaram vários livros no chão.
Entraram com violência e, usando palavras de baixo calão, nas salas de
aula, prendendo todos os seus ocupantes, e muitas vezes espancando-os.
Alunos que participavam de um ensaio de coral na Casa Paroquial também
foram presos.
Estudantes feridos, principalmente os que foram queimados pelas bombas que
provocaram chamas, só a muito custo foram atendidos. Os policiais não só
demoraram muito para levá-los à ambulância, como espancaram os colegas que
procuravam atendê-los.
Cabe ressaltar que os policiais, principalmente os investigadores à
paisana, comportavam-se com a máximo de violência e arbitrariedade.
Espancavam quem quer que passasse à sua frente. Várias pessoas viram um
colega que sofreu empurrões e cacetadas e, quando caiu no chão na rampa do
prédio novo, levou pontapés. Mesmo depois de dispersado o Ato Público,
continuaram jogando bombas, Vários policiais mostravam-se demasiadamente
excitados, sem autocontrole, com os olhos completamente “vidrados”.
Insultos, palavras de baixo calão e provocações eram feitos o tempo
inteiro. Toda essa violência era absolutamente desnecessária, pois não
houve, em nenhum momento, qualquer tentativa de reação por parte das
vítimas da agressão policial.
No estacionamento de automóveis, mais de 1.500 professores, funcionários e
alunos ficaram sentados pelo menos uma hora no chão de pedregulhos,
submetidos à triagem policial. Investigadores circulavam nervosamente
entre as pessoas sentadas e quando reconheciam na multidão alguma pessoa
que procuravam, ou quando alguma pessoa muito ferida exigia ser levada a
um hospital, abriam caminho a golpes de cassetete e pontapés entre a
multidão. Todas essas violências foram presenciadas pelo Cel. Erasmo Dias,
que nada fez para impedi-las.
Cerca de 700 estudantes foram conduzidos em ônibus da Prefeitura ao
Batalhão Tobias de Aguiar. Alguns foram conduzidos ao DEOPS [Delegacia
Estadual de Ordem Política e Social]. Todos esses colegas foram fichados.
Entre os presos, é bom lembrar que havia grande número de estudantes que
estavam sem documentos por tê-los perdido durante a invasão. No DEOPS
colegas foram submetidos a sevícias e a tratamentos humilhantes. Alguns
tiveram que prestar depoimento apoiados numa perna só, ameaçados de serem
espancados se perdessem o equilíbrio ou se uma perna encostasse na outra.
Um colega, que foi violentamente espancado por investigadores, reclamou, a
um delegado, do tratamento a que estava sendo submetido. Então o delegado,
em tom irônico, pediu a um investigador que “cuidasse do caso”. Esse
investigador levou o colega a um canto e continuou o espancamento.
Desses 700 colegas, 37 foram logo em seguida enquadrados na Lei de
Segurança Nacional. Esses estudantes, vítimas da invasão, passaram a ser
interrogados como réus num processo que corre pelo DEOPS e, em outro, que
corre pela Polícia Federal. De outro lado, a autoridade que assumiu a
responsabilidade pela invasão e pelas violências cometidas é agraciado
pelo Ministro do Exército com a “Medalha do pacificador”, a mesma que foi
atribuída ao Dr. Harry Shibata (Médico legista que ficou conhecido por ter
assinado o atestado de óbito de Vladimir Herzog, em 1975, declarando que
ele havia se suicidado, apesar de todas as evidências de que ele havia
sido torturado e morto nas dependências do DOI-CODI de São Paulo, como foi
comprovado posteriormente).
Considerações finais
1. A invasão, ao que tudo indica, foi premeditada.
O ato público foi apenas um pretexto para justificar a invasão policial.
Se o objetivo do Cel. Erasmo Duas fosse apenas dissolver o ato, poderia
tê-lo feito usando formas menos violentas, pois sua realização foi
decidida na Assembléia do meio-dia, onde havia muitos informantes da
polícia.
2. A invasão teve os seguintes objetivos:
a) Represália à realização do III ENE. Este regime que retirou toda a
autonomia das entidades estudantis, que fechou os DCEs, UEEs [União
Estadual dos Estudantes] e a própria UNE [União Nacional dos Estudantes],
que transformou os sindicatos em corporações pelegas, que reprime e
tortura aqueles que procuram se organizar em defesa de seus legítimos
interesses, não vai deixar o nosso movimento avançar sem também o
reprimir, pois este regime se sustenta na exploração da maioria da
população e não tolera a reorganização dos vários setores da população em
defesa dos seus direitos.
b) Atingir com brutalidade a Reitoria da PUC, que tem se caracterizado
pela independência frente às pressões do regime, como quando cedeu as
instalações da Universidade para a 29ª Reunião Anual da SBPC, pela defesa
intransigente da Autonomia Universitária.
3. Reafirmamos o propósito de continuar a luta em defesa da autonomia
universitária. É necessário se pôr fim à triagem ideológica que vigora em
todas as Universidades. É necessário denunciarmos pressões financeiras que
a PUC está sofrendo desde a realização da Reunião da SBPC.
Numa Universidade onde não predomine o obscurantismo cultural, é
indispensável a ampla liberdade de pesquisa e debate. Nesse sentido,
quaisquer livros e publicações, por mais polêmicos que sejam, devem
circular livremente e serem analisados segundo o interesse acadêmico e não
segundo o prisma de policiais em função de censor.
4. As entidades estudantis se regem por princípios de democracia e
representatividade. Decisões referentes a atos públicos, tirada [eleição]
de delegados para os congressos estudantis e eleição de diretorias são
tomadas pelo conjunto dos estudantes, em assembléias e eleições onde não
há Lei Falcão, nem AI-5, nem Lei de Segurança Nacional. Nas assembléias,
os únicos elementos infiltrados são policiais disfarçados.
Nas entidades estudantis os alunos se organizam para defesa de seus
interesses acadêmicos e para se posicionarem frente a questões políticas
nacionais.
Reafirmamos o propósito de continuar lutando em defesa de nossas entidades
representativas, visando ao fortalecimento dos CAs e dos DCEs livres, a
criação de UEEs em todos os Estados e a reconstrução de uma entidade
estudantil em nível nacional.
5. Reafirmamos também que as intimidações policiais não diminuirão as
nossas lutas por Liberdades Democráticas. Acreditamos que invasões como a
que sofreu a PUC só deixarão de ocorrer quando o povo, através de uma
Assembléia Constituinte Livre, Democrática e Soberana, substituir o regime
policial em que vivemos, por um regime que atenda aos interesses da
maioria da população.
São Paulo, 22 de novembro de 1977, DCE-LIVRE da PUC/SP
*Publicado no jornal Folha de S. Paulo em 28 de novembro de 1977.