Arquivo de 5 de Outubro de 2007

O paradigma da colaboração

O padrão de produção e consumo típico do capitalismo, e hegemônico há séculos, está em crise. Em seu lugar, emergem relações sociais mais sustentáveis, democráticas e… prazerosas

O deslocamento sísmico mais importante na teoria econômica se refere ao gradual esgotamento da competição como principal instrumento de regulação econômica, além de principal conceito na análise da motivação, da força propulsora que estaria por trás das nossas decisões econômicas.

A visão herdada, é que se nos esforçarmos todos o máximo possível para obter o máximo de vantagem pessoal na corrida econômica, no conjunto tudo vai avançar mais rápido. Misturando a visão de Adam Smith sobre a soma de vantagens individuais, de Jeremy Bentham e Stuart Mill sobre o utilitarismo, e de Charles Darwin sobre a sobrevivência do mais apto, geramos um tipo de guerra de todos contra todos, o que os americanos chamam de global rat race, que está se esgotando como mecanismo regulador, e que está inclusive nos levando a impasses planetários cada vez mais inquietantes.

O que está despontando com cada vez mais força, é que somos condenados, se quisermos sobreviver, a desenvolver formas inteligentes de articulação entre os diversos objetivos econômicos, sociais, ambientais e culturais, e consequentemente formas inteligentes de colaboração entre os diversos atores que participam da construção social destes objetivos. O deslocamento sísmico consiste na gradual substituição do paradigma da competição pelo paradigma da colaboração.

Hazel Henderson conta como “entrou” para a economia. Em Nova Iorque os apartamentos eram equipados com pequenos incineradores. Resolvia problemas individuais, mas o resultado era roupa suja nos varais de todos, crianças sujas nos parques onde a poeira negra se depositava, doenças respiratórias, etc. Quando protestou junto às autoridades, foi-lhe explicado que os incineradores geravam empregos, dinamizando a economia. Hazel ficou perplexa: construir com muito esforço coisas inúteis ou nocivas, é bom porque dinamiza a economia? E o esforço das mães que lavam a roupa e os filhos não é custo porque não custa? Não foi a máquina econômica que acabou com os incineradores, e sim o movimento de mães organizadas em torno aos seus interesses.

Hazel se voltou para a economia, chegando gradualmente à visão que hoje expõe no seu livro Construindo um mundo onde todos ganhem, em torno do hoje popular conceito de win-win [1]. A idéia básica é simples, e se reflete na popular imagem de dois burrinhos puxando em direções opostas para atingir cada um o seu monte de feno, e que descobrem o óbvio: comem juntos o primeiro, e depois comem juntos o segundo. Segundo Hazel, “as redes da atual era da informação funcionam melhor com base em princípios em que todos ganham (win-win), mas ainda são dominadas pelo paradigma da guerra econômica global” [2].

“Construindo um mundo onde todos ganhem explora o cenário e mapeia a colisão entre o paradigma do crescimento econômico externamente focalizado e tecnologicamente acionado, que culminou numa guerra econômica global insustentável, e a ascensão de preocupações globais populares no paradigma emergente e nos movimentos a favor do desenvolvimento humano sustentável…Uma mudança sistêmica do paradigma de maximização da competição econômica global e do crescimento do produto nacional bruto para um paradigma do desenvolvimento mais cooperativo, sustentável – o que, em épocas mais antigas, teria exigido centenas de anos –, é pelo menos possível no sistema mundial interdependente e em rápida evolução dos dias de hoje” [3].

Há uma dimensão que vai inclusive além da ética no processo: a colaboração para criar coisas novas ou simplesmente úteis é uma das fontes mais importantes de prazer. O conceito moderno de liderança, inclusive, evoluiu da visão do chefe que dá ordens para a visão do coordenador que organiza processos colaborativos. O sentimento de realização de uma equipe que terminou um trabalho bem feito é muito grande [4].

O mundo, naturalmente, não é um mar de rosas, e tende a predominar a esperteza burra de quem vê nos processos colaborativos uma oportunidade de aumentar as suas próprias vantagens: a colaboração, para esta gente, consiste em fazer com que os outros colaborem para os seus lucros. A visão da luta pela sobrevivência do mais apto está sem dúvida generalizada. Impregna a escola com as suas lutas pelo primeiro lugar ou a melhor nota, a competição pela sobrevivência que representa o vestibular, aparece em cada programa de televisão. A idéia é “vencer” os outros, ainda que a batalha seja fútil, e os resultados ruins para todos.

Vale a pena citar aqui o aporte de David Korten, no seu livro O Mundo Pós-Corporativo. Korten parte da compreensão que teve das limitações da visão biológica do mundo como um espaço de competição pela sobrevivência das espécies: na realidade, o pássaro que come a fruta dissemina a semente, a raiz que nasce precisa dos microorganismos para assimilar o nitrogênio e assim por diante. Ou seja, a dimensão colaborativa é amplamente dominante no processo, e assegura que a vida no planeta se desenvolva de forma sistêmica. Não se “arquiva” a competição, que é real: trata-se de entender a presença maior da dimensão colaborativa.

Na visão de Korten, o mercado, dentro de condições muito precisas, pode constituir um ambiente de colaboração sistêmica, mas não é o que acontece na economia real: “Os mercados, constituem uma instituição humana notável para agregar as escolhas de muitos indivíduos para conseguir uma alocação eficiente e equitável de recursos produtivos com o fim de responder às necessidades humanas. A sua função, no entanto, depende da presença de numerosas condições críticas. Reconhecendo o poder do ideal de mercado, o capitalismo se veste com uma retórica de mercado. Mas busca apenas o seu próprio crescimento, e assim as suas instituições procuram destruir sistematicamente as funções saudáveis dedo mercado. Eliminam as regulamentações que protegem os interesses humanos e ambientais, removem fronteiras econômicas para se colocar além do alcance do Estado, negam aos consumidores acesso a informações essenciais, buscam monopolizar tecnologias benéficas, e utilizam fusões, aquisições, alianças estratégicas e outras práticas anticompetitivas para minar a capacidade do mercado de auto-organizar” [5].

A realidade é que a economia está mudando, em geral mais rapidamente do que a nossa ciência. As atividades hoje se tornaram muito mais amplas, complexas e interativas, fazendo com que as economias de colaboração, materializadas no capital social, sejam cada vez mais importantes. Nas grandes empresas, esta necessidade em geral já foi compreendida, levando à redução do leque hierárquico, à organização de equipes e assim por diante. A partir dos anos 1980, ampliou-se a compreensão da necessidade de colaboração já não só dentro da empresa, mas entre empresas, dando lugar a conceitos como “capitalismo de alianças”, “arranjos colaborativos” inter-empresariais, managed market e assim por diante.

No plano das empresas, o livro que marcou um deslocamento da visão é Alliance Capitalism, de Michael Gerlach, que analisa as formas realmente existentes de colaboração inter-empresarial, em particular no Japão, e sugere que “a teoria econômica pode e deve enfrentar os limites dos mercados atomizados e anônimos, visando explicar as formas institucionais que se desenvolveram nas economias modernas para vencer estas limitações. Particularmente interessante tem sido o papel das contratações de longo prazo e a organização corporativa como alternativas aos mercados competitivos. Os mercados e as empresas capitalistas são vistas, assim, não como entidades isoladas que seguem a sua própria lógica, mas como arranjos institucionais complexos inseridos na ordem legal da sociedade e nas regras básicas sob as quais os atores operam” [6].

Na Terceira Italia formou-se a compreensão de que além dos processos colaborativos inter-empresariais, seria útil organizar a colaboração com iniciativas públicas e do Terceiro Setor que podem gerar economias que são externas à empresa, mas internas a uma região, tornando o trabalho de todos mais produtivo. O livro de Carlo Trigiglia, citado acima, representa bem esta compreensão do território como espaço de construção de arranjos colaborativos.

Esta dimensão prática está apoiada em mudanças estruturais dos processos de reprodução social vistos ao longo deste ensaio. Ao tornar-se o conhecimento crescentemente o principal fator de produtividade, e já que o conhecimento compartilhado não tira conhecimento de ninguém, pelo contrário tende a multiplicar-se, a evolução natural não é a de nos trancarmos numa floresta de patentes e proibições, mas sim de criar ambientes colaborativos abertos, como vemos por exemplo no caso do Linux, da Wikipedia, ou nas formas colaborativas da Pastoral da Criança. A guerra baseada no “isto é meu” não tem sentido quando se trata de conhecimento.

Outra dinâmica que torna a colaboração muito mais presente é a conectividade: é tão fácil colaborar inclusive entre agentes muito distantes, que a idéia medieval do castelo isolado e autosuficiente torna-se cada vez mais ridícula, como se torna cada vez mais limitada a visão da empresa com o seu “capitão” empresário, indo à luta contra todos, trancando os seus segredos. As redes inter-universitárias de colaboração neste sentido estão demonstrando caminhos mais inteligentes e modernos, ainda que o grosso do mundo universitário tenda também a se proteger nas suas torres.

Uma terceria dinâmica está ligada à nossa forma básica de organização demográfica, a cidade, com o seu entorno rural. Já não somos populações rurais dispersas, e mesmo os espaços rurais pertencem a um processo de modernização “rurbano”, como têm definido os pesq uisadores da Unicamp. Neste sentido, como vimos, cada cidade com o seu entorno passa a constituir uma unidade de acumulação econômica que será mais ou menos produtiva, como sistema, segundo consiga ou não organizar-se num espaço colaborativo e coerente dentro do seu território e na região onde está situada.

Enfim, uma quarta dinâmica que também vimos acima está ligada ao deslocamento da composição intersetorial das atividades econômicas, cada vez mais centradas em políticas sociais como saúde, educação, cultura, informação, lazer e outras. Estas atividades, muito mais do que a produção industrial, envolvem processos colaborativos intensos, não se regulam adequadamente pelo lucro, e dependem vitalmente da constituição do capital social e de processos participativos de decisão. A resitância a formas mais modernas de gestão é natural. Anos atrás, houve grandes lutas contra a vacinação obrigatória das crianças, em nome da liberdade de cada um decidir segundo as suas preferências. Naturalmente, vacinar uma parte da população não erradica doença alguma.

Estas quatro macro-tendências, da economia do conhecimento, da conectividade, da urbanização e da primazia do social, geraram condições profundamente renovadas no conjunto do processo de reprodução social, e as velhas práticas que privilegiam a competição, o segredo, os clubes fechados, constituem simplesmente a aplicação de uma ideologia econômica antiga a uma realidade nova. Ou seja, o paradigma da colaboração, além de constituir uma visão ética, e de materializar valores das pessoas que querem gozar uma vida agradável, trabalhar de maneira inteligente e útil, em vez de ter de matar um leão por dia, – constitui hoje bom senso econômico em termos de resultados para o conjunto da sociedade.

Voltando ao princípio, à “rentabilidade social” de que fala Celso Furtado, a colaboração tem de se dar em torno ao objetivo simples da alocação racional de recursos em função da qualidade de vida social.

Hoje sem dúvida as grandes empresas de medicamentos têm entre elas arranjos colaborativos que lhe permitem realizar lucros fabulosos, ao restringirem acesso à livre fabricação das drogas, o que por sua vez permite elevar os preços. Os banqueiros no Brasil colaboram intensamente na manutenção de um sistema de restrição ao crédito, de juros elevados e de tarifas caríssimas, o que lhes permite drenar grande parte da riqueza produzida pela sociedade, sem precisar contribuir para produzí-la. Os grandes grupos da mídia colaboram com as grandes empresas que compram espaço publicitário, e adaptam o conteúdo da informação aos interesses empresariais. Os exemplos não faltam deste tipo de círculos fechados em torno de interesses minoritários.

Putnam resume bem a questão, no seu Bowling Alone já citado, ao lembrar que a Ku Klux Klan é uma organização da sociedade civil, mas cujo objetivo é excluir um segmento da sociedade, em vez de incluir de forma equilibrada os diversos interesses. Isto não é colaboração, é corporativismo na sua pior manifestação. Ou seja, a construção dos processos colaborativos mecessários a uma economia moderna passa por romper os diversos tipos de fortificações que constituem os cartéis, trustes e outros clubes de ricos que desequilibram o desenvolvimento. Não há como escapar à busca ativa de processos econômicos mais democráticos, descentralizados e paticipativos.

Korten busca soluções na articulação dos espaços de desenvolvimento local, onde os agentes econômicos se conhecem e podem construir sistemas colaborativos: “Resolver a crise depende da mobilização da sociedade civil para resgatar o poder que as corporações e os mercados financeiros globais usurparam. A nossa maior esperança para o futuro está com economias apropriadas e geridas localmente que se apoiem predominantemente em recursos locais para responder às necessidades de vida locais dos seus membros em formas que mantenham um equilíbrio com a terra. Um tal deslocamento nas estruturas institucionais e prioridades poderá abrir caminho para a eliminação da escassez e extrema desigualdade das experiências humanas, instituindo uma verdadeira democracia cidadã, e liberando um potencial presentemente não realizado de crescimento e criatividade individuais e coletivos” [7].

Não há soluções simples nesta área, mas o paradigma da colaboração abre sem dúvida uma visão renovada, onde a simples competição não resolve, e os mercados se tornaram cada vez menos operantes. A visão renovada envolve o resgate do planejamento, mecanismos de gestão participativa local, articulações inter-empresariais, e também mecanismos tradicionais de mercado onde ainda sejam úteis, além de mecanismos de concertação internacional cada vez mais necessários, apontando no conjunto para uma articulação diversos mecanismos de regulação em vez das alternativas simplificadas em torno do estatização versus privatização [8].

A nossa intuição simplificada – aqueles argumentos não explicitados mas poderosos que temos em algum lugar profundo da nossa cabeça – nos sugere que a política não funcional, e que a economia de mercado, ao definir regras de jogo iguais para todos os agentes econômicos, ainda constitui o melhor mecanismo de regulação. A realidade é que a própria política está mudando, evoluindo para a democracia participativa, enquanto os mecanismos de mercado sobrevivem em espaços cada vez mais limitados da economia tradicional, substituídos pela força das articulações corporativas. A democracia econômica constitui um complemento necessário que pode racionalizar tanto a política como a economia.

[1] Hazel Henderson – Construindo um mundo onde todos ganhem (Building a Win-Win World), ed. Cultrix, São Paulo 1996.
[2] id., ibid., p. 293 – É interessante ver também o texto de Daniel Cohen, em La Mondialisation et ses ennemis, sobre esta defasagem entre a economia real e as instituições: “A melhor maneira, em princípio, de encontrar uma idéia nova para resolver um problema dado é de coordenar a pesquisa dos que a desenvolvem e, uma vez realizada a descoberta, colocá-la à disposição de todos. O “bom” modelo de referência aqui não é o do mercado, mas o da pesquisa acadêmica que recompensa por diversas distinções o “bom pesquisador”, ao mesmo tempo que deixa as suas descobertas livres para todos. O sistema da propriedade intelectual conduz a fazer exatamente o contrário. As equipes que competem na mesma área, por um determinado medicamento por exemplo, não compartem os seus conhecimentos, e uma vez realizada, a descoberta será a propriedade exclusiva de quem a realizou primeiro. Temos aqui, para o mundo moderno, uma idéia que Marx havia enunciado, de uma contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas, aqui da inovação, e o das relações de propriedade” – p. 228.
[3] Henderson, ibid., p. 19 e 24
[4] O texto já mencionado de Frey e Stutzer desenvolve este tema: “As pessoas têm tendência a se sentirem felizes não só pelo resultado mas também pelo próprio processo…Scitovsky propõe que ‘a diferença entre gostar ou não gostar do trabalho que se faz pode ser mais importante do que a diferença na satisfação econômica gerada pelas disparidades na nossa renda’. As pessoas podem também se sentir mais eatisfeitas ao agirem de maneira correta e ao serem honestas, independentemente do resultado…Assim, a utilidade é colhida do processo de tomada de decisão mais além do resultado gerado” (“Thus utility is reaped from the decision-making process itself over and above the outcome generated”.) – Happiness and Economics, op. cit., p. 153
[5] David Korten – The Post-Corporate World – Berrett-Koehler, San Francisco, 1999., p. 62 – Edição brasileira pela Editora. Vozes, Petrópolis, 2003
[6] Michael L. Gerlach – Alliance Capitalism – University of California Press, Berkeley, 1992, p. 39 – Gerlach constata que as trocas propriamente baseadas no espaço anônimo de mercado “na prática se tornaram raras e limitadas a uma faixa relativamente estreita de transações rotineiras” (p. 41); ver também os trabalhos de James E. Austin, The collaboration Challenge, publicado pela Drucker Foundation, bem como a visão institucionalista de Douglass C. North, Institutions, Institutional Change and Economic Performance, Cambridge University Press, 1990
[7] - Korten, op. cit. p. 7
[8] O argumento da articulação dos mecanismos de regulação foi desenvolvido no nosso A Reprodução Social, vol. II

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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Melhores do Congresso

Vote nos parlamentares do PSOL

O sítio de notícias “Congresso em Foco” iniciou na última terça-feira (18/9) a votação que definirá os melhores congressistas do país deste ano. Até 18 de novembro o internauta poderá votar. Na primeira etapa votaram 188 jornalistas que cobrem o Congresso Nacional, que selecionaram 25 deputados e 16 senadores. Todos os parlamentares do PSOL – Ivan Valente, Chico Alencar, Luciana Genro e o senador José Nery - ficaram entre os 15 primeiros.

Meus votos são:

Ivan Valente (Deputado Federal Psol SP)
José Nery (Senador Psol PA)

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Arthur Frommer, criador dos guias Frommer, responde a todas suas perguntas de viagem

Perguntas e respostas com o profissional Arthur Frommer

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

Recentemente, solicitamos perguntas dos leitores para Arthur Frommer, talvez o principal especialista de viagem dos EUA.

Após 50 anos de escrever sobre viagens, Frommer, 77, reuniu um currículo que inclui 300 guias de viagem, uma revista de viagens em conta com seu nome, uma coluna em jornal, um programa de rádio e um site da Web com seu próprio blog.

Formado pela Escola de Direito de Yale, Frommer começou suas viagens enquanto servia à Inteligência do Exército americano, nos anos 50. Depois de publicar um guia de viagens para soldados, Frommer adaptou-o para o público em geral. Esse livro se tornou o clássico “Europe on $5 a Day” (Europa por US$ 5 por dia). É claro, com a passagem de tempo foi revisado e atualizado para “Frommer’s Europe from $85 a Day” (A Europa de Frommer a partir de US$ 85 por dia).

Nós recebemos uma enorme quantidade de perguntas bem pensadas dos leitores para Frommer. E ele deu algumas respostas fantásticas. Agora você vai ver por que seus livros são tão populares: ele tem opiniões fortes, coloridas, informadas e apaixonadas e dezenas de outras coisas.

Pergunta - Enquanto o dólar continua a cair frente ao euro, por que não há mais europeus viajando para os EUA?
Frommer - Por causa das barreiras psicológicas, burocráticas e políticas que erigimos para impedir suas viagens aqui. Em muitos países que não participam de nosso programa de dispensa de visto, são necessários de três a quatro meses simplesmente para conseguir marcar a entrevista para pedir o visto. Quando os possíveis turistas finalmente conseguem entrar em um de nossos consulados, são questionados sobre características pessoais que não têm nada a ver com segurança ou terrorismo, e sim com a possibilidade de ficarem mais tempo que seus vistos permitem e se tornarem imigrantes ilegais. Um operador de viagens que lida com turistas da Polônia disse recentemente que metade das pessoas que gostaria de viajar aos EUA não conseguem tirar visto porque são jovens, solteiras e sem imóvel próprio etc., e assim têm maior chance de ficar nos EUA ilegalmente.

Quando as pessoas conseguem vir até aqui, são tratadas como criminosas pela imigração ao chegarem, ou, no mínimo, recebidas com descortesia fria. O declínio da indústria de turismo americana cria uma perda de mais de US$ 100 bilhões (em torno de R$ 200 bilhões) por ano, dezenas de bilhões de dólares em impostos e centenas de milhares de empregos. A forma de o governo Bush lidar com o problema é um escândalo. E, ao criar a impressão entre os jovens do mundo que os americanos são arrogantes, frios e pouco amigáveis, nos torna menos seguros.

Pergunta - Como a queda do dólar afetou seu ramo. O senhor tem dicas para lidar com a moeda desvalorizada ao viajar?
Frommer - É cedo demais para ver o impacto da queda do dólar na publicação de guias de viagem para destinos de euro. Quanto a lidar com a moeda americana desvalorizada ao viajar, precisamos começar a viajar mais modestamente, optando ao menos por uma categoria abaixo em nossa escolha de estadia (como ficar em hotéis de classe turística em vez de hotéis de primeira classe) e por restaurantes modestos.

Pergunta - Quando o senhor viaja atualmente, acha que é melhor mentir e dizer que é canadense?
Frommer - Não.

Pergunta - Qual lugar o senhor jamais iria, e por quê?
Frommer - Mianmar. Sua presidente democraticamente eleita, a vencedora do Prêmio Nobel Aung San Suu Kyi, pediu aos turistas para evitarem o país. Não vou financiar os ditadores militares brutais da nação com meus gastos de turista. De maneira similar, recusei-me a visitar a União da África do Sul (ou mesmo mencioná-la em meus livros) durante a época em que o apartheid reinava e Nelson Mandela estava preso.

Pergunta - Qual é o maior erro que as pessoas fazem ao viajar?
Frommer - Elas não se preparam, não mergulham profundamente na história e cultura do destino antes de chegar. Elas passeiam como novatas totais, incapazes de compreender as instituições e pontos turísticos que visitam. E todos os comentários de seu guia turístico simplesmente acrescentam à confusão. A leitura prévia -algumas noites na biblioteca- é chave para uma viagem bem sucedida.

Pergunta - Em teoria, os lugares (restaurantes, boates, pontos turísticos, etc.) recomendados pelos guias de viagem oferecem o melhor que o país e seu povo têm a oferecer, dentro do orçamento do turista. Como esses lugares conseguem equilibrar a autenticidade com o aumento de turistas que o visitam, com base na recomendação dos livros? Com qual freqüência o senhor ou sua equipe deixam de mencionar lugares incríveis, somente porque não querem vê-los ‘destruídos’ por visitantes?
Frommer - Se fôssemos limitar nossas recomendações à meia dúzia, ou cometer o erro (como fiz em uma edição de meu primeiro guia) de dizer que um estabelecimento particular era “o melhor valor em toda Veneza”, então as conseqüências que você imaginou ocorreriam, e uma enchente de turistas reduziria a autenticidade da escolha. Um bom guia, no entanto, recomenda entre 30 a 40 restaurantes bem espalhados, e o mesmo número de hotéis, e assim espalha seus leitores entre tantos lugares que a autenticidade não é prejudicada. Quanto a “omitir” uma recomendação para nosso próprio uso, brincamos sobre isso, mas não acontece.

Pergunta - O que o motivou a escrever seu primeiro guia? O senhor sempre quis se tornar um escritor de viagem?
Frommer - Escrevi meu primeiro guia quando servia ao exército americano no exterior e não tinha planos de me tornar autor de viagens. Escrevi por causa da alegria que eu tinha vivenciado com a viagem de baixo custo e minha convicção de que essa era uma forma superior de passar as férias. Quando finalmente voltei para casa do serviço, entrei para a firma de advocacia Paul, Weiss, Rifkind, Wharton & Garrison (sou formado em direito por Yale) e advoguei por seis anos, até que os livros que eu tinha publicado em meu tempo livre exigiram toda minha atenção.

Pergunta - Qual foi sua maior descoberta ao viajar?
Frommer - Como todas as pessoas são iguais, em todo o mundo. Desde uma mãe masai no Quênia até um jovem casal no Japão e um professor egípcio vivendo em um barco, todos têm as mesmas preocupações básicas e lidam como os mesmos problemas que nós.

Pergunta - Quais são os maiores benefícios de viajar, o senhor diria, além das respostas que estão no livro sobre expansão da mente, de horizontes etc.?
Frommer - Acho que as descrições de livros de “expansão” são bastante boas. Por qual outro motivo viajar?

Pergunta - O que o senhor pensa do livro de Xavier de Maistre, “Voyage Autour de ma Chambre” (viagem em torno do quarto), no qual o autor francês diz que, antes de sair a ver o mundo, devemos aplicar as mesma curiosidade e atenção ao nosso entorno? O senhor acha que a obsessão com viagens nos cega aos prazeres locais?
Frommer - Sempre achei que os melhores viajantes são as mesmas pessoas que são intensamente interessadas na história e na cultura de sua própria cidade.

Pergunta - Se o senhor pudesse voltar no tempo e ser um turista em qualquer país que visitou, qual país e qual ano escolheria?
Frommer - Gostaria de voltar à Veneza que vi pela primeira vez em meados dos anos 50, com a Piazza San Marco vazia, exceto pelos pombos, onde a entrada de todo museu era imediata e sem fila, onde os venezianos sentavam-se na porta de suas casas e desejavam “Buon Giorno” e onde restaurantes freqüentados principalmente por venezianos eram comuns. Aquela cidade foi a mais formosa que conheci.

Pergunta - Como o senhor seleciona seus autores de viagem? Quais são as coisas que fazem uma pessoa ser boa em identificar e descrever boas experiências de viagem? Em seu treinamento, como o senhor equilibra a necessidade de consistência com a criatividade e inovação de seus autores?
Frommer - Nos últimos anos, fizemos questão de escolher jornalistas treinados em viagens que fossem moradores da cidade, ilha ou nação tema do guia. Sentimos que suas avaliações são superiores às de um autor, independentemente de sua capacidade, que simplesmente cai de pára-quedas em um local com o propósito de preparar um guia. Não tentamos limitar sua criatividade ou inovação, e nos orgulhamos da personalidade individual que anima cada guia.

Pergunta - Minha mulher e eu gostaríamos de fazer uma viagem uma vez por ano para fora dos EUA, mas não temos muito dinheiro. Quais dicas de viagem o senhor tem para ajudar a cortar custos, etc., para que possamos satisfazer essa meta?
Frommer - Primeiro entenda que, quanto menos gastar, mais vai curtir. Embarque em um esforço consciente de usar quartos de baixo custo com famílias, apartamentos que você pode trocar com um casal estrangeiro, albergues que aceitam pessoas de todas as idades, programas de boas vindas, restaurantes locais, transporte público e você descobrirá, em minha experiência, que suas viagens assumirão uma profundidade e um significado maior e serão muito mais recompensadoras do que a abordagem mais cara tomada por outros.

Pergunta - Alguma das empresas mencionadas em seu blog o paga de alguma forma?
Frommer - De forma alguma. Nenhuma empresa (ou pessoa) sabe de antemão que será citada em meu blog, nem me comunico com elas depois.

Pergunta - Quais países menos conhecidos são uma “barganha” atualmente para se visitar?
Frommer - Nada é realmente “menos conhecido”, mas gosto de Bali, Croácia, Sicília, Argentina, México (ainda barato para turistas pouco exigentes), Nicarágua, Tailândia, China, Vietnã e Egito.

Pergunta - Como se encontra um guia local culto, honesto e interessante?
Frommer - Principalmente pelas recomendações de amigos, parentes ou conhecidos que viajaram para o destino e usaram os serviços de um guia capaz. A pessoa que dedica tempo a infernizar amigos e parentes por informações antes de viajar freqüentemente consegue o nome desses contatos. Em recente viagem a Estocolmo, minha mulher e eu contatamos para nossos amigos para ver se alguém conhecia alguém na cidade, e muitos conheciam. Telefonamos para esses contatos suecos, convidamo-nos para jantar conosco, passamos várias noites estimulantes aprendendo com eles sobre o país e a cidade. Um casal sueco, percebendo as perguntas que eu ia fazer, chegou ao restaurante com uma pilha de estatísticas econômicas que tinham imprimido da Internet!

Pergunta - O senhor preferiria ir para grandes eventos como o Carnaval no Rio, e touradas pelas ruas de Pamplona, ou visitar esses países durante épocas “fora de pico”?
Frommer - A corrida de touros em Pamplona não me interessa (é um ritual meio bárbaro, meio bêbado) e a única razão para visitar Pamplona de qualquer forma é para fazer o caminho de Santiago de Compostela. Mas o Carnaval no Rio é outra coisa, e a própria cidade pode ser visitada com grande prazer a qualquer época do ano.

Pergunta - Pode-se viajar para Samara, Iraque, e encontrar um local decente e seguro para ficar um ou dois meses?
Frommer - Não.

Pergunta - Qual é uma boa viagem para um homem de 70 anos com artrite reumática que quer ver algo diferente da região do meio Atlântico ou da Nova Inglaterra, e viveu e viajou a vida toda?
Frommer - Por que não visitar o oposto exato do meio Atlântico e da Nova Inglaterra e fazer uma viagem de inverno em Paris? A Go-Today.com leva você lá durante o inverno por apenas US$ 599 (em torno de R$ 1.200). Paris é uma experiência excitante, na fronteira da arte e cozinha, moda e literatura, teatro e ópera -um tributo infinitamente fascinante às conquistas humanas.

Pergunta - Sou estudante universitário passando um ano em Londres. Qual a melhor forma de evitar essas tarifas internacionais pesadas?
Frommer - Não há forma legal de evitar tarifas de governo e impostos.

Pergunta - O senhor pode recomendar um site onde eu possa tirar bons conselhos sobre viajar com crianças, assim como recomendações para hotéis e resorts que gostam de receber famílias?

Frommer - Fiquei bem impressionado com WeJustGotBack.com.

Pergunta - Quais dicas o senhor tem sobre dormir no avião?
Frommer - Tapa-olho, tampões de ouvidos e aqueles travesseiros presos ao pescoço que impedem seu queixo de cair quando você cai no sono.

Pergunta - O que fazer quando chegamos a um lugar que foi recomendado por seu guia que realmente não corresponde às expectativas? Há alguma forma de informar isso aos autores?
Frommer - Recebemos uma quantidade enorme de correspondência de nossos leitores, e apreciamos e ouvimos seus comentários. Também as passamos aos autores de cada guia.

Pergunta - Neste verão, estarei em Pequim para as Olimpíadas. O senhor tem recomendações sobre administrar as enormes multidões e a gigantesca entrada de estrangeiros?
Frommer - Realmente não acho que essas multidões prejudicarão suas próprias atividades.

Pergunta - Estou atualmente decidindo para onde ir em minha próxima viagem. Já reduzi minhas opções para quatro destinos (Nova Zelândia, Hong Kong, Espanha ou Argentina) e ia começar a jogar dardos no mapa até que esta oportunidade se apresentou. O senhor tem alguma idéia a respeito?
Frommer - São bons lugares para se visitar, mas nenhum estaria em minha própria lista de “indispensáveis”. O que é “indispensável” exatamente? Cada americano, em algum ponto de sua vida, deve ir para a China, participar de um safári africano e visitar o Egito antigo.

Pergunta - A Frommer’s pagou pela apresentação proeminente no filme Euro Trip?
Frommer - Certamente que não. Recebi uma ligação inicial dos produtores do filme perguntando se tínhamos alguma objeção de nosso nome ser usado, e também me ofereceram a chance de fazer o papel de eu mesmo no filme. Quando soube que isso ia requerer ficar em Roma por até duas semanas para proferir minhas duas frases de diálogo, declinei a oferta, e um famoso ator britânico foi escolhido para fazer meu papel. Ele era muito mais bonito.

Tradução: Deborah Weinberg

Freakonomics

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Vereadores de Santo André estão averiguando possíveis irregularidades da reitoria

Malatesta: “Não creio que o reitor atrapalhe a investigação”.

A Comissão de Assuntos Relevantes, instalada pela Câmara de Santo André
para averiguar e propor soluções sobre procedimentos adotados pela atual
reitoria da Universidade Fundação, já deu início às investigações que
poderão resultar na destiuição do reitor Odair Bermelho, principal
reivindição dos professores e alunos da Fafil (Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras), paralizados a 23 dias.

Os cinco membros da Comissão, Donizeti Pereira (PV), Marcelo Chehade
(PSDB), Dinah Zekcer (PTB), Heleni de Paiva (PDT) e Cláudio Malatesta
(PT), foram escolhidos pelos parlamentares de acordo com a
representatividade partidária dentro da Câmara. Os trabalhos têm prazo de
180 dias.

Os vereadores da Comissão se reúnem toda terça e quinta-feira, e já
ouviram alunos e professores que os procuraram espontaneamente, além de
analisar todas as documentações apresentadas pelos manifestantes e pela
reitoria.

“Temos documentos com milhares de páginas e estamos nos aprofundando no
tema. Os estudantes foram brutalmente retirados pela Polícia Militar, mas
isso não aconteceu do nada. Existe algo concreto e precisamos apurar
tudo”, afirmou o presidente da Comissão, Donizeti Pereira.

Bermelho já garantiu aos vereadores que contribuirá com as investigações e
que está a disposição para prestar qualquer depoimento.

“A comissão está trabalhando no tempo certo e não acredito que o reitor
atrapalhe nossas investigações, pois elas são do interesse dele também.
Caso isso aconteça, seremos obrigaods à convocar uma CPI (Comissão
Parlamentar de Inquérito)”, garantiu Malatesta.

Crise - A crise na Fundação Santo André teve como estopim a ocupação da
reitoria pelos alunos da Fafil, que protestavam contra a possibilidade de
um aumento nas mensalidades.

A reitoria recuou a apresentou outra proposta completamente diferente da
anterior, com redução de algumas mensalidades. Desde então os
manifestantes têm como principal objetivo a destituição do reitor Odair
Bermelho.

ABCD Maior

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Infância violentada

Maria Clara Lucchetti Bingemer
04-Out-2007

Em meio a todas as vicissitudes por que passa o Brasil, imaginamos que não há nada mais capaz de chocar-nos além do que já estamos todos enojados e estarrecidos. Mas infelizmente há sempre horrores a surpreender-nos ainda mais.

Na última terça-feira, a vereadora Liliam Sá, do Paraná, declarou na CPI do Turismo Sexual que há denúncias de pontos de prostituição infantil em vários pontos do estado do Rio de Janeiro. Também chegaram à CPI informações de que há meninas se prostituindo em Sepetiba por R$ 1,99.

Ao lado e além do fato, triste e desalentador, há a cifra que espanta pelo simbolismo que carrega em si.

Há muitos anos, a cifra R$ 1,99 virou um símbolo da estabilidade econômica popularizado em milhares de lojas de todo o país. O Plano Real ganhava credibilidade e o consumidor brasileiro via com tranqüilidade crescente artigos vendidos a R$ 1, 99, mostrando que se podia confiar no modelo econômico brasileiro, que saíra definitivamente da inflação galopante em que estivemos mergulhados durante longos anos. Agora R$ 1,99 denuncia uma espantosa instabilidade: a do nível de segurança em que vive grande quantidade de crianças e adolescentes em nosso país.

No ano passado, lemos espantados na grande imprensa a notícia de que a cifra R$ 1,99 tinha, nas cidades de Curitiba e Paranaguá, conotação bem diferente que a de calmaria econômica no cenário brasileiro. A simbólica e positiva cifra significa a maneira pela qual são conhecidas algumas ruas dessas cidades paranaenses onde meninas de 11 ou 12 anos - muitas já envolvidas com drogas - fazem programas ao ar livre por R$ 1,99 ou outros valores irrisórios.

Estreitamente ligado ao problema da prostituição infantil está, portanto, o imenso monstro da droga e do narcotráfico. Muitas dessas meninas se prostituem para obter droga. Por causa do crack que precisam cheirar e/ou vender, fazem sexo por qualquer dinheiro. Os clientes são caminhoneiros que param em postos de gasolina à margem das estradas federais. Ou marinheiros, em geral estrangeiros, que lotam bordéis na área do porto. No Rio de Janeiro, recentemente, a Polícia Rodoviária Federal identificou 1.918 pontos vulneráveis à ocorrência de casos de violência sexual contra crianças ao longo dos mais de 60 mil km de rodovias federais.

Tudo isso mostra que a exploração da prostituição infantil ainda é um crime sem castigo, que acontece impune, disfarçada de “atendimento ao turista” ou mostrando mesmo sua cara hedionda, sem se preocupar com disfarces. Vários anos depois de o presidente Lula eleger o combate à prostituição infantil como questão de honra de seu governo, ainda há meninas menores que vendem o corpo pelo preço irrisório de R$ 1,99, R$ 0,50 ou mesmo por um prato de comida. Apesar das promessas e dos propósitos, um levantamento recente mostra que muitas das principais organizações criminosas identificadas em 2003 pela CPI da Prostituição Infantil do Congresso não foram sequer investigadas e continuam atuando livremente.

Como sempre, as vítimas mostram a face da fraqueza maior: pobres, do sexo feminino e negras, elas continuam sendo alvo indefeso às terríveis explorações do tráfico e do sexo. Às vésperas do Dia da Criança, o Brasil chora a inocência agredida de suas meninas. E espera medidas enérgicas e eficientes por parte de um governo que, se espera, ainda queira investir no futuro do país.

Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio.

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/

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Alunos permanecem acampados dentro da faculdade

Representante da sociedade civil aguarda contato dos manifestantes em
Santo André

Os alunos e professores da Fafil (Faculdade de Filosofia. Ciências e
História) do Centro Universitário Fundação Santo André podem contar com o
apoio de mais um representante do Conselho Diretor na solicitação de uma
reunião extraordinária, onde os manifestantes pretende garantir o
principal objetivo da paralização que já dura 22 dias: derrubar o reitor
da instituição, Odair Bermelho.

O apoio parte de um dos representantes da sociedade civil, Manoel Alcides
Nogueira de Sousa, presidente da Associação dos Advogados do Grande ABC.
“Se realmente for necessário uma reunião extraordinária do Conselho
Diretor para debater assuntos pertinentes à Fundação Santo André, eu não
vejo motivos de não aceitar. Até agoa não fui procurado por ninguém para
apresentar a sugestão, e não sei qual seria o assunto em pauta”, garantiu
Manoel Alcides.

Os manifestantes estão organizados para conquistar as oito assinaturas
necessárias, de um total de 15 membros do Conselho Diretor, único órgão
juridicamente habilitado para destituir Bermelho.

“É fundamental o apoio da sociedade civil, e estou muito espereançoso de
que estamos prósximo da vitória de nossa luta”, disse o pré-candidato à
sucessão municipal de Santo André pelo PSol e professor da Fundação,
Ricardo Alvarez.

Manifestações – Em assembléia realizada na noite de terça-feira (02/10),
professores e alunos aprovaram a realização de dois atos públicos: nesta
quinta-feira (04/10) os estudantes irão interditar as duas vias da Avenida
Prestes Maia para chamar a atenção do prefeito João Avamileno (PT) e
demonstrar que o movimento continua fortalecido.

Os estudante da Fafil permanecem acampados dentro do prédio da faculdade
desde da tarde de segunda-feira (01/10), para manter o movimento
organizado e realizar ofcinas comunitárias.

ABCD Maior

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Estudantes acampam em faculdade do ABC em protesto

Manifestação é contra ação da polícia e aumento abusivo de mensalidades.
No meio de setembro, houve confronto entre PMs e alunos.

Do G1, em São Paulo.

Estudantes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (Fafil) do Centro
Universitário Fundação São André (FSA), em Santo André, na Grande São
Paulo, estão acampados na instituição em protesto pela saída do reitor,
Odair Bermelho.

Em meados de setembro, cerca 300 estudantes ocuparam a reitoria da
instituição e foram retirados à força com ação policial. Fotos registraram
a ação da Polícia Militar, na qual aparece um ferido e um rapaz sendo
espancado com cacetete. Veja as imagens.

De acordo com Aline, 23, que não quis revelar o sobrenome e o curso a que
pertence, não há data para o fim do protesto. “Queremos a queda do reitor,
de diretores de unidades, a redução de mensalidades, a não punição dos
manifestantes e a punição dos responsáveis pela ação policial de
setembro”, afirmou.

Segundo ela, cerca de 50 estudantes têm passado as noites no prédio da
faculdade. “Mas durante o dia o movimento é bem maior. Estamos fazendo
oficinas de artes, organizamos aulas públicas e estamos tentando aproximar
os estudantes da comunidade”, diz.

Greve
Os professores da Fafil já estavam em greve desde o dia 15 de setembro
para exigir a saída do reitor. De acordo com nota divulgada pelos
docentes, a decisão foi tomada em repúdio à atitude da reitoria de acionar
a Polícia Militar para retirar os estudantes que invadiram o prédio da
instituição, na semana passada, para protestar contra o aumento das
mensalidades.

De acordo com professores, há docentes em greve em vários cursos da
instituição. Só na Fafil, são 11. Os docentes também pretendem entregar um
abaixo assinado em repúdio a ação da PM ao ministro da Educação, Fernando
Haddad. O documento já conta com cerca de 150 assinaturas de acadêmicos
ilustres, como o professor Aziz Ab’Saber, da Universidade de São Paulo
(USP).

Confronto entre PM e estudantes
Cerca de 300 estudantes ocuparam a reitoria da instituição na semana
passada. Eles protestavam contra o índice de reajuste da faculdade,
melhorias no ensino e e contratações de professores. Houve confronto com
a PM, que retirou os alunos à força. Não há registros sobre feridos.

A invasão da reitoria da instituição ocorreu por volta de 22h30 do dia 13
de setembro, após assembléia realizada pelos universitários. Segundo os
estudantes, cerca de 500 pessoas participaram da reunião e pelo menos 300
aderiram ao movimento de ocupação.

Acionada, a PM tentou negociar a saída do grupo do complexo. Após três
horas de conversação, os soldados receberam ordens para invadir e esvaziar
o prédio. Houve tumulto e confronto. Alguns estudantes disseram que foram
agredidos.

Retirados à força do local, oito estudantes foram detidos e levados ao 4º
DP de Santo André. Segundo a polícia, todos foram ouvidos e dispensados na
madrugada do dia seguinte.

A polícia afastou o comandante da ação contra o protesto de estudantes.
Em nota oficial, a PM informou que os possíveis abusos e excessos
ocorridos não serão admitidos.

G1

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Carbono - Nosso desafio

Para enfrentar o aquecimento global, o primeiro passo é fazer as contas

É assim que a coisa funciona. Antes da Revolução Industrial, a atmosfera da Terra continha cerca de 280 ppm (partes por milhão) de dióxido de carbono (CO2). Era uma quantidade razoável - “razoável” tendo o significado de “aquilo a que estávamos acostumados”. Uma vez que a estrutura molecular do CO2 mantém junto da superfície do planeta o calor que de outro modo se irradiaria de volta ao espaço, a civilização surgiu em um mundo cujo termostato estava regulado em função daquele número, o qual equivalia a uma temperatura média global de cerca de 14ºC - que por sua vez estava adequada às plantas, às fontes de água, à passagem das estações e aos lugares onde construímos as cidades.

Assim que passamos a queimar carvão, gás e petróleo para movimentar nossas vidas, aquele patamar de 280 ppm foi ficando para trás. Quando começamos a medir o nível de CO2, no final da década de 1950, já havíamos chegado ao nível de 315 ppm. Agora ele está em 380 ppm e crescendo em um ritmo aproximado de 2 ppm por ano. Embora isso não pareça algo muito significativo, sabe-se que o calor adicional capturado pelo aumento de CO2, alguns watts por metro quadrado da superfície terrestre, é suficiente para aquecer de modo considerável o planeta. Com isso, já elevamos a temperatura da Terra em mais de meio grau Celsius. É impossível prever as conseqüências de qualquer aumento adicional de CO2 na atmosfera. Porém, a elevação já registrada da temperatura começou a derreter quase tudo o que estava congelado no planeta, alterou as estações e o padrão das chuvas e fez subir a superfície dos oceanos.

Pouco importa o que seja feito agora, esse aquecimento ainda vai continuar - há um intervalo de tempo até que o calor se disperse por completo na atmosfera. Ou seja, não temos como interromper o aquecimento global. Nossa tarefa, portanto, é menos dramática: só nos resta conter os danos, impedir que as coisas fujam ao nosso controle. E essa tarefa não é fácil: até pouco tempo atrás não havia dados precisos indicando o limiar da catástrofe. Agora já podemos contar com um quadro mais claro - nos últimos anos foram publicados relatórios sugerindo que 450 ppm de CO2 é um limite que seria bom respeitar. Caso seja ultrapassado, dizem os cientistas, os séculos futuros provavelmente verão o derretimento das calotas de gelo da Groenlândia e da Antártica Ocidental, o que provocaria uma gigantesca elevação do mar. Esse nível, de 450 ppm, ainda é uma estimativa (não leva em conta outros gases associados ao efeito estufa, como o metano e o óxido nitroso), mas serve de referência para os esforços de todos nós. O problema é que essa referência está se movendo - e com rapidez. Se a concentração de díóxido de carbono continuar aumentando em 2 ppm por ano, chegaremos lá em apenas três décadas e meia.

Portanto, o cálculo não é complicado - mas não significa que não seja assustador. Até agora só os europeus e os japoneses começaram a reduzir suas emissões de carbono, e é bem possível que nem sequer alcancem seus modestos objetivos. Enquanto isso, as emissões de carbono dos Estados Unidos, que representam um quarto do total mundial, não param de subir. No início do ano, autoridades americanas comunicaram às Nações Unidas que vão produzir 20% mais carbono em 2020 do que geraram em 2000. A China e a Índia também passaram a emitir enormes quantidades de CO2. E suas populações são tão grandes, e seu crescimento econômico é tão acelerado, que fazem com que pareça inimaginável a perspectiva de um declínio acelerado nas emissões mundiais. Os chineses abrem uma usina termelétrica a cada semana, em média. É muito carbono na atmosfera.

Todos os envolvidos têm uma idéia de quais seriam as medidas capazes de evitar a catástrofe: cortes rápidos, contínuos e significativos nas emissões dos países mais avançados - e tais ações devem estar associadas a transferências em grande escala de tecnologia para a China, a Índia e o resto do mundo em desenvolvimento para que possam ampliar suas economias emergentes sem ao mesmo tempo consumir cada vez mais combustíveis fósseis. Todos nós conhecemos as grandes questões: há alguma possibilidade de fazer esses cortes rápidos? Os países mais ricos têm vontade política para levar isso adiante - primeiro em âmbito doméstico e, depois, no resto do mundo?

A resposta à primeira questão em geral envolve a menção a tecnologias novas (como o hidrogênio e o etanol) e a expectativa de que elas nos permitam superar todos os obstáculos. Todavia, a escala do problema significa que serão necessárias muitas estratégias. Três anos atrás, uma equipe da Universidade Princeton realizou uma das melhores avaliações de nossas possibilidades de iniciar já os cortes nas emissões. Os pesquisadores Stephen Pacala e Robert Socolow publicaram um estudo na revista Science em que relacionavam 15 “calços estabilizadores” - mudanças grandes o suficiente para fazer diferença e para as quais a tecnologia logo estaria disponível. A maioria de nós sabe de muitas delas: carros com motores mais eficientes, casas e prédios ecologicamente amigáveis, turbinas que aproveitam a energia eólica, biocombustíveis como o etanol. Outras são mais recentes e menos certas, como os projetos para construir usinas termelétricas com exaustores capazes de isolar o carvão de modo que possa ser “seqüestrado” e armazenado no subsolo.

Essas abordagens têm algo em comum: todas são mais complicadas do que simplesmente queimar os combustíveis fósseis. Elas nos obrigam a reconhecer que já aproveitamos muito de nosso combustível mágico e que qualquer coisa que venha em seguida será mais dispendiosa e difícil. O custo dessa transição global vai custar trilhões de dólares. É certo que no decorrer do processo serão criados incontáveis postos de trabalho e que, quando ele estiver concluído, talvez seja um sistema bastante eficiente. (Uma vez construído o moinho de vento, o vento é grátis; e ninguém terá de protegê-lo contra terroristas ou manter um exército para controlar as regiões de onde ele sopra.) E, como hoje estamos desperdiçando uma enorme quantidade de energia, algumas das primeiras tarefas seriam relativamente fáceis. Se em todo o mundo substituíssemos por lâmpadas fluorescentes todas as incandescentes que queimassem na próxima década, já lançaríamos com o pé direito um daqueles 15 calços. Nessa mesma década também precisaríamos construir 400 mil grandes turbinas eólicas - algo possível, mas apenas se houver disposição efetiva. Teríamos de seguir o exemplo da Alemanha e do Japão e subsidiar a instalação de painéis solares nos telhados, além de fazer com que a maioria dos agricultores do planeta cultivasse menos seus campos de modo que o solo recuperasse o carbono perdido. E teríamos de realizar tudo isso ao mesmo tempo.

Muitos dos caminhos para estabilizar a temperatura do planeta passam por nossas vidas cotidianas, mas, sejam quais forem, não há dúvida de que exigirão mudanças penosas. Um exemplo são as viagens aéreas, uma das fontes de emissões de carbono que mais crescem no mundo (mesmo quem faz questão de trocar as lâmpadas incandescentes pelas fluorescentes e de usar os carros híbridos certamente ficaria incomodado com a idéia de limitar suas viagens de avião). Os americanos acostumaram-se a consumir diariamente alimentos prontos ou crus vindos de todas as regiões do mundo (conforme um estudo recente, boa parte da comida viaja quase 2,5 mil quilômetros até chegar à boca de um americano, o que no fim das contas significa mais gasto de petróleo). Eles também preferem andar sozinhos em seus carros, constroem casas cada vez maiores - e nelas instalam TVs cada vez maiores… E é óbvio que esses hábitos terão de ser modificados.

Provavelmente isso só acontecerá se os combustíveis fósseis passarem a custar bem mais do que hoje. Os esquemas para reduzir as emissões de carbono - como aqueles que permitiriam às empresas adquirir em leilões concessões para emitir CO2 - são formas de tornar o carvão, o gás e o petróleo progressivamente mais caros e, assim, mudar a direção na qual atua a força gravitacional da economia quando se trata de energia.

O modo mais direto de aumentar os preços seria cobrar um imposto sobre o carbono, o que, entretanto, não é nada fácil. Como todos precisam usar combustíveis, isso seria injusto - exigindo um mecanismo para impedir que os mais pobres fossem desproporcionalmente prejudicados. Outra tarefa difícil seria convencer os chineses, os indianos e todos os que estão na fila do crescimento econômico a deixar de lado um futuro baseado no carvão em troca de algo mais administrável. Sabemos que é possível - no início do ano, um painel das Nações Unidas estimou que o custo total da mudança da matriz energética, uma vez calculados os prós e os contras, seria de pouco mais de 0,1% da economia mundial por ano durante um quarto de século. O que, convenhamos, é um preço até razoável.

Sem dúvida, o aquecimento global vai ser a maior prova com que nós, os seres humanos, já nos defrontamos. Mas estamos prontos para mudar, de maneira dramática e prolongada, a fim de proporcionar um futuro viável às próximas gerações e à biodiversidade do planeta? Se estivermos dispostos a tanto, as novas tecnologias e os novos hábitos talvez consigam nos oferecer uma saída. Entretanto, isso só vai acontecer se agirmos com rapidez e decisão - e com uma maturidade que raramente demonstramos enquanto sociedade ou espécie. Esse vai ser o nosso grande rito de passagem, durante o qual não teremos nenhuma certeza ou garantia de êxito. É apenas uma janela de possibilidade que ainda está aberta, por pouco tempo, mas o suficiente para deixar passar um raio de esperança.

Matéria publicada na revista National Geographic Ed. 91 - 01/10/2007

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A PNAD e a propalada redução da miséria no Brasil

Paulo Passarinho
02-Out-2007

Desde a divulgação dos últimos resultados da PNAD – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – de 2006, do IBGE, a grande imprensa tem dado grande destaque às análises que apontam que a miséria tem sido reduzida no Brasil de forma importante. Conceituado pesquisador da FGV – Marcelo Néri – chegou a afirmar que sente orgulho de fazer parte da geração que, segundo ele próprio, estaria reduzindo de forma inédita a desigualdade no Brasil. Para o pesquisador – que é economista – a década de 80 foi a da democratização; a de 90, a da estabilização; e a atual seria a da redução da desigualdade. Muito diferente daqueles – onde me incluo – que com pesar registram que os anos 80 foram perdidos, os anos 90 foram vendidos e os anos atuais foram traídos. Problemas relacionados com as diferentes capacidades de percepção presentes entre os humanos…

Contudo, em meio ao otimismo daqueles que apontam as virtudes econômicas e sociais que teríamos obtido nos últimos 25 anos (há crendices de todo tipo), é importante esclarecer que os dados da PNAD captam de forma muito adequada os rendimentos do trabalho, das aposentadorias, das pensões e dos benefícios assistenciais. Esses últimos, muito ampliados nos últimos anos, em decorrência de uma das estratégias do modelo econômico em curso – que sabidamente é restritivo a taxas elevadas de crescimento econômico e à geração intensiva de empregos – e que consiste na instituição de programas compensatórios – do tipo bolsa-família, como forma de atenuar os desequilíbrios sociais gerados.

O dado relevante é que a PNAD não registra de maneira acurada os chamados ganhos do mundo do capital. Juros, aluguéis e lucros – as formas objetivas de ganhos do capital – não são absorvidos adequadamente por essa pesquisa.

Levando-se em conta que de 1980 até 2003 – último dado disponível pelo IBGE – a participação dos rendimentos do trabalho (esses que são bem calculados pela PNAD) no conjunto da renda nacional caiu de 50 para 39%, toda e qualquer consideração sobre distribuição de renda no Brasil, que leve em conta de forma isolada os resultados da PNAD, deve ser relativizada.

Entretanto, em meio à desinformação ou mesmo manipulação que temos observado na cobertura jornalística – e técnica – sobre o assunto, há exceções.

Transcrevo, a seguir, dois exemplos que nos ajudam a compreender essa discussão:

O que é um miserável? (artigo publicado na Folha de São Paulo, em 20/09/2007, por Vinicius Torres Freire)

“A POBREZA caiu”. “Recorde”. “Resultados não eram tão bons faz 20, 30 anos”. A divulgação da Pnad, o balanço socioeconômico do país realizado anualmente pelo IBGE, suscita quase de imediato uma série de pesquisas refinadas sobre taxas de miséria ou pobreza. A metralha estatística tornou-se mais cerrada e por vezes eufórica depois dos progressos reais, embora modestos, dos últimos 4 ou 12 anos: a escolha do período depende do gosto político do freguês (mais tucano ou petista, “neoliberal” ou “desenvolvimentista”). Pelos números que estão no forno ou já em público, a taxa de miséria teria caído entre 10% e 15% de 2005 para 2006. Sim, deve ter caído o nível de miséria. Mas caiu para onde? Nas pesquisas de economistas, estatísticos e cientistas sociais, e os estudos brasileiros são reconhecidos como de muito bom nível técnico, pobreza e indigência freqüentemente são definidas por linhas de corte de renda. Se o rendimento do infeliz está abaixo de “x” ou “y” reais por mês, o cidadão aparece na estatística como pobre ou miserável.

Alguns pesquisadores definem tal limiar por meio da quantidade mínima de renda que satisfaz necessidades alimentares de um indivíduo, sua “ração básica”. A renda domiciliar per capita para definir um pobre na metrópole paulista seria aquela inferior a R$ 250 por mês (a renda total de um domicílio dividida pelo número de moradores). A do miserável seria inferior a R$ 125 mensais. Trata-se de medidas de pobreza absoluta; tais dados são aproximações que têm sido utilizados por agora. Uns preferem medidas de pobreza absoluta: a renda dos que estão abaixo da média nacional. No Brasil de 2006, a renda de 70% a 80% das pessoas não passava dessa média. Os limiares de pobreza são algo arbitrários. Não há o que fazer além de debater méritos e ênfases dos estudos elaborados segundo as diversas orientações técnicas e ideológicas.

Mas o que se passa se medirmos a desgraça social com indicadores do Dieese, para ficar num exemplo só? O Dieese calcula o preço da cesta básica em várias cidades, baseado em um decreto de 1938, do tempo de Getúlio Vargas, sobre a “ração mínima” para um indivíduo. Também calcula o salário mínimo necessário para uma família de dois adultos e duas crianças dar conta de comida, escola, roupa, transporte etc. Em setembro de 2006, quando foram coletados os dados da Pnad divulgada agora, o salário mínimo necessário do Dieese era de R$ 1.492.

Na ocasião, o rendimento médio dos domicílios era de R$ 1.687; mais de 70% deles estavam abaixo dessa média. Em setembro, a cesta do Dieese custava R$ 130 em Recife. Uma estimativa da renda domiciliar per capita dos recifenses dá conta de que 50% vivia com menos de R$ 140.

Ainda não há medidas mais completas e combinadas do bem estar social de famílias e indivíduos. Renda apenas não diz o bastante. É difícil, mas seria preciso combinar medidas de renda, acesso a escola e saúde. Descontar o peso de impostos antipobre etc. Checar o investimento ou incentivo estatal pró-pobre (não só em assistência, mas em criação de emprego). E moderar comemorações num país em que a metade mais pobre das famílias se vira com uns R$ 500 por mês, em média.

As estatísticas e a vida real (artigo publicado na Folha de São Paulo, em 25/09/2007, por Clóvis Rossi)

Janio de Freitas e Vinicius Torres Freire já haviam alertado sobre o excesso de foguetório em torno da redução da miséria. Excessivo porque o patamar a partir do qual a pessoa deixa de ser “miserável” é baixo demais.

Aí, esse excelente repórter que é Sergio Torres foi visitar uma família das que deixaram de ser “miseráveis”, pelo menos na estatística.

Eis sua descrição:

“As crianças não têm o que calçar, vestem-se todos os dias com as mesmas roupas, comem carne, quando muito, uma vez por semana, dormem no chão sem piso de um casebre sem banheiro e brincam em um riacho de esgoto. Mesmo assim, não são miseráveis, segundo metodologia da FGV”.

É a história da família de Nilcéia de Lurdes da Silva, 35 anos, cinco filhos, um neto, e do companheiro Aílton de Oliveira, 34, que vivem “em barraco pendurado em uma encosta no bairro Quilombo, próximo ao centro de Paracambi, município que, a 75 km do Rio, separa a Baixada Fluminense da região centro-sul do Estado”.

Poderia ser a história de milhões de outras Nilcéias e Aíltons que, na estatística, deixaram de ser miseráveis, mas só na estatística.

Na vida real, prossegue Sergio Torres, “continuam na situação miserável que as acompanha desde a nascença. Na última sexta, não comeram nada de manhã. O barraco da família não tem água. A luz é clandestina, puxada do poste da rua. O esgoto, uma vala negra que corre no quintal. As crianças só andam descalças. Pisam nos dejetos sem dar importância. É o chão delas, afinal. Para trabalhar, o casal deixa as crianças aos cuidados da filha de 11 anos”.

Nada contra festejar estatísticas agradáveis.

Desde que a festa não seja apenas um pretexto para esquecer que, por trás delas, ou apesar delas, o Brasil continua um país primitivo. Obscenamente primitivo.

Paulo Passarinho é economista.

Correio da Cidadania
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Membro do Conselho da FSA apóia reunião extraordinária

Júlio Gardesani (julio@abcdmaior.com.br)

Alunos permanecem acampados dentro da faculdade.

Representante da sociedade civil aguarda contato dos manifestantes em
Santo André

Os alunos e professores da Fafil (Faculdade de Filosofia. Ciências e
História) do Centro Universitário Fundação Santo André podem contar com o
apoio de mais um representante do Conselho Diretor na solicitação de uma
reunião extraordinária, onde os manifestantes pretende garantir o
principal objetivo da paralização que já dura 22 dias: derrubar o reitor
da instituição, Odair Bermelho.

O apoio parte de um dos representantes da sociedade civil, Manoel Alcides
Nogueira de Sousa, presidente da Associação dos Advogados do Grande ABC.
“Se realmente for necessário uma reunião extraordinária do Conselho
Diretor para debater assuntos pertinentes à Fundação Santo André, eu não
vejo motivos de não aceitar. Até agoa não fui procurado por ninguém para
apresentar a sugestão, e não sei qual seria o assunto em pauta”, garantiu
Manoel Alcides.

Os manifestantes estão organizados para conquistar as oito assinaturas
necessárias, de um total de 15 membros do Conselho Diretor, único órgão
juridicamente habilitado para destituir Bermelho.

“É fundamental o apoio da sociedade civil, e estou muito espereançoso de
que estamos prósximo da vitória de nossa luta”, disse o pré-candidato à
sucessão municipal de Santo André pelo PSol e professor da Fundação,
Ricardo Alvarez.

Manifestações – Em assembléia realizada na noite de terça-feira (02/10),
professores e alunos aprovaram a realização de dois atos públicos: nesta
quinta-feira (04/10) os estudantes irão interditar as duas vias da Avenida
Prestes Maia para chamar a atenção do prefeito João Avamileno (PT) e
demonstrar que o movimento continua fortalecido.

Os estudante da Fafil permanecem acampados dentro do prédio da faculdade
desde da tarde de segunda-feira (01/10), para manter o movimento
organizado e realizar ofcinas comunitárias.

ABCD Maior

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Mais apoio à luta na FSA

1) Aziz Ab’Saber – Geografia USP (aposentado)
2) Lincoln Secco - História USP
3) Ricardo Musse - Sociologia USP
4) Cilaine Alves Cunha - Letras USP
5) Fernando Novais - História USP / Unicamp
6) Roberto Schwarz - Letras Unicamp (aposentado)
7) Maria Célia Paoli - Sociologia USP
8) Leda Paulani - Economia USP
9) Maria Arminda do Nascimento Arruda - Sociologia USP
10) Marcos Del Roio - Ciência Política Unesp Marília
11) Paulo Eduardo Arantes - Filosofia USP
12) Marcos Silva - História USP
13) Marineide de Oliveira Gomes – Pedagogia USP Ribeirão Preto
14) Caio Navarro de Toledo – Ciência Política Unicamp
15) Selma Borghi Venco – Sociologia Unicamp
16) Franklin Leopoldo e Silva – Filosofia USP
17) Lighia Brigitta Horodynski-Matsushigue – Física USP
18) Zilda Iokoi – História USP
19) Otília Fiori Arantes – Filosofia USP
20) Mariana Fix – Design Facamp (Faculdades de Campinas)
21) Ivone Dare Rabello – Letras USP (aposentada)
22) Suzana Salem Vasconcelos – Física USP
23) Luiz Eduardo Simões de Souza – Economia Uergs (Universidade Estadual
do Rio Grande do Sul)
24) Paulo Henrique Martinez - História Unesp Assis
25) Luís Fernando Ayerbe - Relações Internacionais Unesp Araraquara
26) Jesus Ranieri - Sociologia Unicamp
27) Heloísa Fernandes - Sociologia USP e Escola Nacional Florestan
Fernandes do MST
28) Amarílio Ferreira – UFSCar (Universidade Federal de São Carlos)
29) Valério Arcary - História CEFET/SP (Centro Federal de Educação
Tecnológica de São Paulo)
30) João Francisco Tidei Lima – Unesp Bauru
31) Lidiane Soares Rodrigues – Doutoranda História USP
32) Alcir Pécora - Letras Unicamp
33) Anita Handfas – Educação UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
34) Margareth Rago - História Unicamp
35) Vera Lucia Vieira - História PUC-SP
36) Arlete Moyses Rodrigues – Geografia Unicamp
37) Antônio Miguel - Educação Unicamp
38) Ronilde Rocha - Consultora em educação e ensino de História e
professora da rede municipal de São Paulo (aposentada)
39) Francisco Foot Hardman - Letras Unicamp
40) Márcio Naves – Sociologia Unicamp
41) Élide Menezes Centofanti – Psicologia UMC (Universidade de Mogi das
Cruzes) aposentada
42) Maria Luiza Jovanovic - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
43) Paulino Cardoso - História Udesc (Universidade do Estado de Santa
Catarina)
44) Claudia Sapag Ricci - História UFMG (Universidade Federal de Minas
Gerais)
45) Olga Brites - História PUC-SP
46) Mário Fernando Bolognesi - Artes Unesp São Paulo
47) Antônio Carlos Mazzeo – Ciência Política Unesp Marília
48) Maria Victória Benevides - Educação USP
49) Adalberto Paranhos – Ciências Sociais UFU (Universidade Federal de
Uberlândia)
50) Edilson Graciolli – Ciências Sociais UFU (Universidade Federal de
Uberlândia)
51) Fernando Antonio Lourenço - Sociologia Unicamp
52) Agnaldo dos Santos – Administração Uninove (Centro Universitário Nove
de Julho)
53) Glória Anunciação Alves – Geografia USP
54) Elvio Rodrigues Martins – Geografia USP
55) Regina Helena Alves da Silva - História UFMG (Universidade Federal de
Minas Gerais)
56) João Bernardo – professor e escritor
57) Valeria de Marcos - Geografia USP
58) Pedro Arantes - Design Facamp (Faculdades de Campinas)
59) Rafael Marquese - História USP
60) Ana Fani Alessandri Carlos - Geografia USP
61) Déa Ribeiro Fenelon - História PUC-SP e Unicamp (aposentada)
62) Brás Ciro Gallota - História PUC-SP
63) Francisco Alambert - História USP
64) Vera Lúcia Santiago Araújo - Letras UECE (Universidade Estadual do Ceará)
65) Silvia Hunold Lara - História Unicamp
66) Sidney Chalhoub - História Unicamp
67) Letícia Vidor de Souza Reis - História Unimep (Universidade Metodista
de Piracicaba)
68) Ivone Cordeiro Barbosa - História UFC (Universidade Federal do Ceará)
69) Manoela da Silva Pedroza - Doutoranda Unicamp
70) Joviniano Borges da Cunha - Universidade Anhembi-Morumbi
71) Bernardo Boris Vargaftig – Ciências Biomédicas – USP
72) Heloisa de Faria Cruz - História PUC-SP
73) Claudia Poncioni - Université Paris X - França
74) Jean-Yves Mérian - Université Rennes2- Haute Bretagne - França
75) Roberto Romano - Filosofia Unicamp
76) Luiz Roberto Alves – Jornalismo Metodista e USP
77) Marcos Arruda – professor visitante universidades do exterior
78) Cid Benjamin – Comunicação Social Facha (Faculdade Hélio
Alonso)
79) Laura Antunes Maciel - História UFF (Universidade Federal
Fluminense)
80) Maria Antonieta Antonacci - História PUC-SP
81) Paulo Roberto de Almeida - História UFU (Universidade Federal de
Uberlândia)
82) Bento Itamar Borges - Filosofia UFU (Universidade Federal de Uberlândia)
83) Rejane Meireles Amaral Rodrigues - História UNIMONTES/MG
84) Osvaldo Coggiola – História USP
85) Inessa Laura Salomão - Engenharia de Produção - CEFET/RJ (Centro
Federal de Educação Tecnológica)
86) Helena Hirata - Sociologia CNRS (Centre National de la Recherche
Scientifique) – França
87) Normando Rodrigues - Direito UFRJ (Universidade Federal do Rio de
Janeiro)
88) Ana Maria Silva - Turismo Fefisa (Faculdades Integradas de Santo André)
89) Luiz Carlos Pereira - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
90) Fábia C. Alegrance - Fisioterapia Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
91) Luciana Vieira de Melo Kuk - Fisioterapia Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
92) Margareth Anderáos - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
93) Nicolino Bello Júnior - Educação Fisica Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
94) Sérgio Garcia Stella - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
95) Ricardo Zanuto Pereira - Fisioterapia Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
96) Rosemarie C. Sanches - Turismo Fefisa (Faculdades Integradas de Santo
André)
97) Vinicius J. B. Martins - Fisioterapia Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
98) Sueo Hirota - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de Santo
André)
99) William S. Freitas - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
100) Marcelo Reina Siliano - Fisioterapia Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
101) Edvar Boechat Soares - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
102) Isilda M. R. Cavicchioli - Educação Física Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
103) Maria Teresa B. Martins - Educação Física Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
104) Maria Eliza M. Bernardes - Educação Física Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
105) Rosana Delfini - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
106) Evando Carlos Moreira - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
107) Fabiano João - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de Santo
André)
108) Sandra Maria Tedeschi - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
109) Albertina O. C. Misko - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
110) Gilberto de Andrade Martins – Contabilidade USP
111) José Artur Gianotti – Filosofia USP (aposentado) e pesquisador do
Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)
112) Heloisa Martins - Sociologia USP (aposentada)
113) Angelina Peralva - Sociologia Universidade de Toulouse II -
França
114) João Zanetic – Física USP e ex-presidente da Adusp (Associação dos
Docentes da USP)
115) Nadia W. Hanania Vianna - Administração USP (aposentada)
116) Francisco Luiz C. Lopreato – Economia Unicamp
117) Denis Maracci Gimenez – Economia Unicamp
118) Wilson Cano – Economia Unicamp
119) Gabriel de Santis Feltran - Doutorando Unicamp
120) Otaviano Helene – Física USP e presidente da Adusp (Associação dos
Docentes da USP)
121) Daciberg Lima Gonçalves – Matemática USP
122) Lucília Daruiz Borsari - Matemática USP
123) José Dari Krein – Economia Unicamp
124) Antonio Lázaro Sant´Ana - Unesp Ilha Solteira
125) Elmir de Almeida – Pedagogia USP Ribeirão Preto
126) Geraldo Leão - Educação UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)
127) Américo Scotti - Engenharia Mecânica UFU (Universidade Federal de
Uberlândia)
128) Estefânia Knotz C. Fraga - História PUC-SP
129) Luiz Henrique dos Santos Blume - História UESC (Universidade Estadual
de Santa Cruz - BA)
130) Alexandre Fortes - História / Economia UFRRJ (Universidade Federal
Rural do Rio de Janeiro)
131) Fernando Teixeira da Silva - História Unicamp
132) Raimundo Donato do Prado Ribeiro – coordenador de História Unimep
(Universidade Metodista de Piracicaba)
133) Ciro Teixeira Correia – Geologia USP
134) Marco A Brinati – Engenharia Naval USP e ex-vice-presidente da Adusp
(Associação dos Docentes da USP)
135) Cláudia Pereira Vianna – Educação USP
136) Maria da Graça Setton – Educação USP
137) Elie Ghanem – Educação USP
138) Rosângela G. Prieto – Educação USP
139) César Augusto Minto - Educação USP e ex-presidente da Adusp
(Associação dos Docentes da USP)
140) Américo Sansigolo Kerr – Física USP e ex-presidente da Adusp
(Associação dos Docentes da USP)
141) Paulo Luiz Miadaira - Faculdade São Luís e Fundação Escola de
Sociologia e Política de São Paulo
142) Daniel Revah - Pedagogia Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)
143) Manoela da Silva Pedroza - Doutoranda Unicamp
144) Henrique Soares Carneiro – História USP
145) Sérgio Paulo Amaral Souto - Zootecnia USP
146) Marcus Aloízio Martinez de Aguiar - Física Unicamp
147) Artionka Capiberibe - Doutoranda UFRJ (Universidade Federal do Rio de
Janeiro)
148) Lucimara Batista Freire - Faculdade Anchieta - São Bernardo do Campo
149) Théo Lobarinhas Piñeiro - História UFF (Universidade Federal Fluminense)
150) Alexsander Lemos de Almeida Gebara - História UFF (Universidade
Federal Fluminense)
151) Theresa Beatriz Figueiredo Santos - Diretora da Faculdade de Ciências
Humanas da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba)
152) Daniel Aarão Reis - História UFF (Universidade Federal Fluminense)
153) Antonio Paulo Rezende - História - UFPE (Universidade Federal de
Pernambuco)
154) Marcos Nascimento Magalhães – Matemática USP e ex-presidente da Adusp
(Associação dos Docentes da USP)
155) Maria Clara Di Pierro – Educação USP
156) Moacir Gadotti – Educação USP
157) Lisete R. G. Arelaro – Educação USP
158) Afrânio Mendes Catani – Educação USP
159) Lúcia E. Barreto Bruno – Educação USP
160) Doris Accioly e Silva – Educação USP
161) Roberto da Silva – Educação USP
162) Rubens Barbosa de Camargo – Educação USP
163) Vânia Noeli Ferreira de Assunção - PUC-SP
164) Antonio Ozaí da Silva – Ciências Sociais UEM (Universidade Estadual
de Maringá)
165) Joana Aparecida Coutinho - Ciência Política - UFMA (Universidade
Federal do Maranhão)
166) Antônio José Lopes Alves - Colégio Técnico da UFMG
167) Sabina Maura Silva - Fundação Helena Antipoff - MG

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Protesto de estudantes pára Lyons e Prestes Maia

Bruno Ribeiro
Do Diário do Grande ABC

Estudantes e professores da Fundação Santo André pararam quinta-feira à
noite as avenidas Prestes Maia, em Santo André, Lyons e Senador Vergueiro,
em São Bernardo, em novo protesto pedindo a saída do reitor da
universidade, Odair Bermelho.

O corredor formado por essas avenidas é a principal entrada para o Grande
ABC para quem vem da Zona Sul da Capital.

Segundo a Polícia Militar, eram pelo menos 300 manifestantes. O trânsito
chegou até a Avenida Corredor ABD, em Diadema.

O ato marcou 21 dias de paralisação na faculdade. A greve começou após a
retirada de manifestantes que ocuparam a reitoria da Fundação e foram
violentamente expulsos pela Polícia Militar.

Diferentemente o episódio do dia 14 de setembro, quinta-feira não houve
confronto entre estudantes e a PM.

Desvios - A idéia dos estudantes era interditar a Avenida Prestes Maia nos
por meia hora. Entretanto, com uma série de desvios no trânsito
previamente planejada pela polícia – que não bloqueava a via como os
estudantes planejaram – os manifestantes decidiram fazer uma passeata até
a Avenida Senador Vergueiro, em São Bernardo.

A PM estava atenta ao movimento. O coronel Francisco Rissi, comandante do
10º Batalhão, esteve pessoalmente no ato, cercado por diversas viaturas da
Força Tática.

O protesto durou uma hora e meia. No cruzamento entre as avenidas Lyons e
Senador Vergueiro, os manifestantes fizeram um enterro simbólico de
Bermelho. Na seqüência, puseram fogo no caixão de papelão que representava
o reitor.

Além do eventual confronto com os manifestantes, a PM relatou preocupação
com roubos aos motoristas que ficariam presos no trânsito. “Colocamos
patrulhas até a Avenida Corredor ABD, mas não tivemos relatos de nenhuma
ocorrência”, disse o major João Carlos Farias, do 10º Batalhão.

Os estudantes avaliaram a passeata de forma positiva. “Não tivemos
confronto com a polícia e alcançamos nosso objetivo de chamar a atenção da
comunidade para a Fundação”, avaliou Reinaldo Chagas, estudante de
história e um dos líderes da manifestação.

Uma nova passeata, desta vez até a Prefeitura de Santo André, está marcada
para próximo sábado.

Diário do Grande ABC
http://home.dgabc.com.br/

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Derretimento amplo e rápido da calota polar do Ártico assusta os cientistas

Andrew C. Revkin

A camada de gelo que cobre o Ártico diminuiu tanto neste verão que as ondas por um breve período marulharam ao longo de duas rotas navais árticas que durante muito tempo existiram apenas na imaginação dos navegadores, a Passagem do Noroeste, no Canadá, e a Rota do Mar do Norte, na Rússia.

De maneira geral, o gelo flutuante sofreu uma redução sem precedentes em um século ou mais, segundo várias estimativas.

Agora o período de seis meses de escuridão retornou ao Pólo Norte. No frio cada vez mais intenso, o novo gelo já está se formando sobre vastas áreas do Oceano Ártico. Perplexos com as mudanças presenciadas no verão, os cientistas estão estudando as forças que transformaram uma área 2,6 milhões de quilômetros quadrados superior à média da banquisa (banco de gelo) ártica em mar aberto - o equivalente a seis Estados da Califórnia (ou a aproximadamente 10,5 Estados de São Paulo) -, na primeira vez que se registra este fenômeno desde que satélites começaram a fazer tais medições em 1979.

Em uma recente reunião de especialistas em gelo marinho na Universidade do Alasca em Fairbanks, o geofísico Hajo Eicken resumiu a situação da seguinte forma: “O nosso estoque de reserva parece estar desaparecendo”.

Os cientistas também andam nervosos com as conseqüências do verão nos anos vindouros, e com a capacidade da comunidade de pesquisas de prever essas conseqüências.

Para complicar o cenário, a drástica mudança ártica foi resultado tanto da movimentação do gelo quanto do derretimento, segundo a opinião de vários especialistas. Um novo estudo, liderado por Son Nghiem, pesquisador do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, e que foi publicado nesta semana no periódico científico “Geophysical Research Letters”, utilizou satélites e bóias para revelar que desde 2000 os ventos empurraram grandes quantidades de gelo antigo e espesso da região ártica central para além da Groenlândia. Segundo os autores do trabalho, os blocos finos que se formaram no mar aberto resultante derreteram-se com maior rapidez, ou puderam ser empilhados pelos ventos e expelidos da região de forma similar.

O ritmo da mudança excedeu em muito aquilo que era esperado com base em quase todas as simulações usadas para determinar de que maneira o Ártico responderá às concentrações crescentes de gases causadores do efeito estufa vinculados ao aquecimento global. Mas isso pode ser interpretado de duas formas. Os modelos são demasiadamente conservadores? Ou eles estão desprezando influências naturais que podem causar amplas oscilações na quantidade de gelo e na temperatura, minimizando portanto a importância do lento aquecimento subjacente?

O mundo está prestando mais atenção do que nunca a essas questões.

A Rússia, o Canadá e a Dinamarca, motivados em parte por anos de aquecimento e pelo encolhimento da banquisa ártica deste ano, intensificaram a retórica e as ações no sentido de garantir a posse de rotas marítimas e das riquezas do fundo do mar.

Os defensores da redução das emissões de gases de efeito estufa citam o derretimento da banquisa como prova de que as atividades humanas estão provocando um fenômeno que conduzirá a uma calamidade global.

Porém, os especialistas no Ártico dizem que as coisas não são assim tão simples. Mais de uma dúzia de especialistas disseram em entrevistas que a redução extrema da calota polar revelou a existência de pelo menos tantos fatos que continuam sendo um mistério em relação ao Ártico quanto outros que podem ser explicados. Mesmo assim, muitos desses cientistas dizem que estão se convencendo de que o sistema está se deslocando rumo a um estado novo e mais aquoso, e que o aquecimento global causado pelos humanos está desempenhando um grande papel nisso tudo.

Os especialistas estão tendo dificuldades em descobrir quaisquer registros da Rússia, do Alasca ou de outras regiões que indiquem uma retração tão generalizada do gelo ártico nas eras recentes, algo que fortalece a hipótese de que os seres humanos podem ter desequilibrado a balança climática. Muitos cientistas afirmam que o último aquecimento substancial registrado na região, que alcançou o seu apogeu na década de 1930, afetou principalmente as áreas próximas à Groenlândia e à Escandinávia.

Alguns cientistas que há muito duvidavam de que uma influência humana pudesse ser nitidamente discernida na alteração climática no Ártico agora concordam que é difícil atribuir esse fenômeno a qualquer outro fator.

“Costumávamos argumentar que grande parte da variação ocorrida até o final da década de 1990 foi induzida por mudanças nos ventos, alterações naturais que não estão obviamente relacionadas ao aquecimento global”, explica John Michael Wallace, cientista da Universidade de Washington. “Mas as alterações nos últimos anos nos fazem questionar tal explicação. Estou muito mais aberto à idéia de que podemos ter ultrapassado um ponto a partir do qual as mudanças tornam-se essencialmente irreversíveis”.

Os especialistas afirmam que a redução da calota polar deverá ser ainda maior no próximo verão, já que o congelamento neste inverno está iniciando-se com um enorme déficit de gelo. Pelo menos um pesquisador, Wieslaw Maslowski, da Escola de Pós-graduação Naval em Monterey, na Califórnia, acredita que, a partir de 2013, o planeta terá um Oceano Ártico completamente azul.

Basicamente, as águas árticas podem estar se comportando de maneira semelhante àquelas em torno da Antártica, onde uma vasta calota de gelo marítimo forma-se a cada inverno austral, para quase desaparecer no verão (em um reflexo das diferenças de geografia e dinâmica nos dois pólos, houve um ligeiro aumento da área de gelo marinho em torno da Antártica nas últimas décadas).

Embora águas desimpedidas no Ártico possam significar um boom para a navegação, a pesca e a exploração de petróleo, uma oscilação anual drástica entre períodos com e sem gelo pode ser um golpe particularmente duro para os ursos polares.

Muitos cientistas especializados no Ártico alertam que ainda é muito cedo para começar a mandar navios porta-contêineres para o topo do mundo. “Variações naturais poderiam passar por uma reversão, e contrabalançar a mudança provocada pelos gases causadores de efeito estufa, talvez até estabilizando o gelo por algum tempo”, afirma Marika Holland, do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica, em Boulder, no Colorado.

Mas ela acrescenta que tal fenômeno não seria duradouro. “Cedo ou tarde as variações naturais reforçariam novamente a mudança provocada pelos seres humanos, talvez levando a uma retração ainda mais rápida da banquisa”, opina Holland. “Assim, eu não assinaria nenhum contrato de navegação para a região para os próximos cinco ou dez anos. Mas talvez ou fizesse para as próximas duas ou três décadas”.

Embora os especialistas discordem quanto aos detalhes, muitos deles concordam que o desaparecimento do gelo marinho neste ano foi provavelmente causado por forças conjugadas, tais como a presença na atmosfera de vapor d’água e nuvens que aprisionam o calor e a influência dos céus ensolarados de junho e julho no aquecimento do oceano. Outros fatores importantes foram os ventos quentes que se deslocaram da Sibéria em torno de um sistema de alta pressão atmosférica estacionado sobre o oceano. Os ventos não só teriam derretido o gelo fino, mas também empurraram blocos de gelo para o mar aberto, onde as correntes marinhas e os ventos puderam empurrá-los para fora do Oceano Ártico.

Mas provavelmente houve a influência de um outro fator, que remonta a aproximadamente 1989. Naquela época, um alteração periódica nos padrões de ventos e pressão atmosférica sobre o Oceano Ártico, denominada Oscilação Ártica, firmou-se em um padrão cuja tendência foi impedir que durante anos o gelo seguisse um movimento circular, de forma que a banquisa ficasse mais espessa, e em vez disso possibilitou que os blocos de gelo deslocassem-se para o Atlântico Norte.

“O novo estudo da Nasa sobre os antigos blocos de gelo empurrados para fora do Ártico se baseia em medições prévias que demonstraram que a proporção de blocos espessos e duráveis de pelo menos dez anos de idade diminuiu de 80% na primavera de 1987 para apenas 2% na primavera deste ano”, afirma Ignatius G. Rigor, especialista em gelo da Universidade de Washington e autor do novo estudo liderado pela Nasa.

Sem a grossa camada de gelo, capaz de resistir a meses de sol contínuo de verão, uma maior área de mar aberto, que é mais escuro, e de gelo fino, absorve energia solar, contribuindo para o derretimento e atrasando o congelamento de inverno.

O gelo mais fino e recém-formado é também mais vulnerável ao derretimento provocado pelo calor mantido próximo à superfície do oceano por nuvens e vapor d’água. Talvez seja aí que a influência crescente dos seres humanos sobre o sistema climático global possa estar exercendo a maior influência regional, segundo Jennifer A. Francis, da Universidade Rutgers.

Outros especialistas no Ártico, incluindo Maslowski, de Monterey, e Igor V. Polyakov, da Universidade do Alasca em Fairbanks, também acreditam na influência do aumento de fluxos de água mais quente que penetram no Oceano Ártico através do Estreito de Bering, entre o Alasca e a Rússia, e das correntes profundas que correm para o norte, vindas do Oceano Atlântico, nas proximidades da Escandinávia.

Uma legião de cientistas especializados no Ártico afirma que é muito cedo para saber se o efeito do aquecimento global já colocou o sistema em uma condição na qual o gelo marinho, durante os verões, ficará rotineiramente limitado a algumas poucas rotas fechadas no norte do Canadá.

Mas na universidade em Fairbanks - onde os sinais do aquecimento no norte incluem crateras formadas pelo derretimento da permafrost (camada de terra congelada) em torno do centro de pesquisa do Ártico, pertencente à instituição -, Eicken e outros especialistas estão tendo dificuldades em identificar uma situação capaz de reverter essa tendência.

“Pode até ser que o Ártico conte com um outro trunfo escondido para ajudar o gelo a retornar”, diz Eicken. “Mas, com base em tudo o que conhecemos neste momento, os meios capazes de possibilitar o retorno do gelo são bastante limitados”.

Tradução: UOL.

The New York Times
http://www.nytimes.com/

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Matando pelo bem do Brasil

Mário Maestri
01-Out-2007

Em “Tropa de Elite”, o singular não é o filme em si, mas o estrondoso sucesso antes mesmo do seu lançamento. Como película, a obra de José Padilha repete em geral as receitas inovadoras de “Cidade de Deus”, sem o brilho do célebre longa-metragem de Fernando Meirelles: a criminalidade urbana como tema; o narrador como condutor da trama; os quadros dinâmicos em uma sucessão de clips. Uma espécie de plágio doce devido parcialmente ao fato de Bráulio Mantovani assinar os roteiros das duas películas.

Na essência, os filmes são opostos. Em “Cidade de Deus”, através da história da comunidade homônima, Fernando Meirelles relata a construção social do criminoso, para propor superação individual pela arte e pelo trabalho (fotografia) do destino do jovem favelado ao crime. Mantendo-se nos marcos da leitura da favela pela cidade, a câmara de Meirelles procura dar a voz aos protagonistas. No fundo, é leitura social otimista, ainda que ingênua.

Não há meias cores em “Tropa de Elite”, apesar do sinistro claro-escuro em que o filme se move. Os protagonistas e antagonistas são feitos de uma só peça: corruptos ou honestos às vísceras. Os únicos heróis são os policiais do BOPE, a sinistra tropa de elite carioca que, no filme, tortura, mata e morre em desesperada e incompreendida última defesa da civilização contra a barbárie, da cidade contra o morro. Ao iniciar a película, o narrador traça o quadro geral maniqueísta: “Se o Rio dependesse só da polícia tradicional, os traficantes já teriam tomado a cidade […]”.

“Tropa de Elite” não cria muito. Limita-se a encenar sentimentos que ultrapassam os limites das classes altas e médias endinheiradas: a certeza de que a única solução para o crime, corporificação da maldade absoluta, é a mão-de-ferro da repressão sem piedade. Proposta com a qual a mídia martela uma imensa parcela da população que materializa, no sentimento de insegurança, o stress permanente produzido pelas incertezas e insatisfações da vida quotidiana.

O que não significa que o filme não possua soluções imaginosas, como a inversão da ordem normal dos fatores sociais, ao apresentar a execução do horrível traficante “Baiano”, branco, pelo honestíssimo Matias, policial e acadêmico de Direito, negro. Ou a melodramática superposição de papéis de Nascimento, o capitão do BOPE, organizador dos assassinatos e homem sensível à espera do primeiro filho, símbolo da inocência do mundo que defende, à custa de permanente descida ao inferno.

O deputado quer apenas saber o “quanto” vai ganhar, ao se associar a policiais que chafurdam no crime. Os estudantes discutem as causas e as soluções da marginalização social mas, no frigir dos ovos, são drogados hipócritas, traficantes e queridinhos de criminosos. Nesse mundo em degringolada, o único remédio forte é a morte e a tortura ministradas profissionalmente por policiais incorruptíveis, que entregam a vida se necessário no cumprimento de suas missões. Tudo pelo bem do Brasil.

José Padilha apenas dramatiza a apologia das execuções de populares pelas forças policiais, sob as ordens e cumplicidade das autoridades e os aplausos dos meios de comunicação. “Carandiru”, de Hector Babenco, denunciou sem maior sucesso o mega-massacre da polícia militar paulista. Invertendo o sinal, “Tropa de Elite” glamouriza mortandades como as do Complexo do Alemão, em junho deste ano.

Através da escusa da encenação do real, “Tropa de Elite” radicaliza as propostas de “Tolerância Zero” com a criminalidade, apresentadas incessantemente pela cinematografia estadunidenses de segunda linha. Sem pruridos, extrema insinuações de séries como “Lei & Ordem” sobre a legitimidade da execução e da tortura na obtenção de resultados louváveis: a eliminação do terrorista, a morte do traficante, a prisão do pedófilo.

Em fins dos anos 1980, o sucesso da subliteratura de tema esotérico de Paulo Coelho registrou a crise geral da confiança nas soluções sociais racionalistas, devido à vitória mundial da maré neoliberal. No mundo fantástico do segundo governo Lula da Silva, enquanto cresce a dilaceração dos laços sociais e nacionais, os ricos tornam-se mais ricos e as classes médias viajam ao exterior despreocupadas com a inevitável ressaca do dia seguinte do real-maravilha.

O sucesso de “Tropa de Elite” registra o conservadorismo crescente da população nacional, na esteira da fragilização do mundo do trabalho e mergulho geral das lideranças populares tradicionais na corrupção. É enorme vitória dos poderosos que policiais fardados de preto encarnem a solução da insegurança nacional, distribuindo a morte entre os pobres, sob a bandeira da caveira sorridente. “Tropa de elite, osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você!”. E, se não te cuidares, meu chapa, vai te pegar, mesmo!

Mário Maestri é professor do curso de História e do PPGH da UPF.

E-mail: maestri@via-rs.net

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/

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