Arquivo de 7 de Outubro de 2007

Entrevista especial com Frei Xavier Plassat

Trabalho escravo no Brasil: uma realidade cruel.

O Brasil está passando por uma tentativa de desmoralização da fiscalização do trabalho escravo e, segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), isso se deve à pressão da bancada ruralista no Congresso Nacional e a setores ligados ao agronegócio, que, por muitos âmbitos, estão desmoralizando não apenas uma ação, mas todo o País. Sobre este assunto, a IHU On-Line conversou com Frei Xavier Plassat, que luta há muitos anos contra o trabalho escravo no Brasil. Ele fala sobre a suspensão dessa fiscalização, sobre a posição e as ações no Governo Federal no combate a este problema e sobre como o agronegócio e a monocultura estão influenciando para o crescimento do trabalho escravo. Além disso, Frei Xavier conta de como veio viver no Brasil, da sua convivência com Frei Tito e com Frei Henri des Rosiers. A entrevista foi concedida por telefone.

Frei Jean Marie Xavier Plassat é coordenador da Campanha contra o Trabalho Escravo da CPT e um dos maiores especialistas do Brasil no assunto. Já viajou por diversas partes do País, acompanhando ações contra esse grave problema.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como o senhor veio para o Brasil?

Frei Xavier Plassat – Eu cheguei ao Brasil há quase 19 anos e a ocasião foi um acaso da vida, pois eu estava na França vivendo no início dos anos 1970 com um jovem brasileiro dominicano que havia sido exilado, banido do Brasil depois de ter sido preso. Eu acompanhei de perto o calvário de Frei Tito (1), que estava na mesma operação de Frei Betto e outros mais. Ele foi preso e torturado e nunca conseguiu se recuperar das torturas, entrando numa rota de destruição interior. Isso porque ele estava vivendo permanentemente com as vozes do seu torturador, chamando-o a se entregar, o que o levou a se enforcar, em agosto de 1974. Eu estava presente em todos esses momentos, pois eu era um amigo muito próximo a ele na época. Ele foi sepultado na França, onde nós morávamos num convento e, posteriormente, em março de 1983, quando a ditadura militar deu sinais de estar em seu término e o corpo de Frei Tito veio para o Brasil, pois me pediram para fazer isso. Foi assim que eu conheci o País. Em março de 1983, na Catedral da Sé de São Paulo, houve uma missa em sua homenagem. Na oportunidade, eu aproveitei para conhecer, no norte de Goiás, outro frade dominicano que há pouco começara o trabalho junto com a Comissão Pastoral da Terra. O Frei Henri, um advogado francês que até hoje trabalha nessa área, agora na região do Pará, me mostrou toda a problemática dos conflitos e eu fui até o Bico do Papagaio. Toda essa experiência convivendo com as comunidades de posseiros em áreas griladas me chocou muito e fez com que eu pedisse transferência para o Brasil, a fim de me colocar à disposição da Comissão Pastoral da Terra. Finalmente, eu consegui me transferir em 1989.

IHU On-Line – Como é que o senhor entrou na luta contra o trabalho escravo no Brasil?

Frei Xavier Plassat – O papel da Comissão Pastoral da Terra (CPT) é mais ligado à questão da Reforma Agrária, do apoio solidário às comunidades camponesas na reivindicação dos seus direitos por um campo onde se viver. Nas mil e uma atividades que isso implica - de capacitação de liderança, de processo de organização, de apostar no protagonismo nos grupos de bases, jovens e mulheres na questão dos acampamentos, dos assentamentos e da produção -, eu acabei encontrando o problema do trabalho escravo. Então, eles, num belo dia (era início de 1996 ou 1997), disseram para nós que não adiantava se a CPT lá da frente do Pará combate o trabalho escravo se no ponto de partida, que fica no Piauí, no Maranhão e no Tocantins, não se faz nada. O trabalho escravo implica uma rota e nós precisamos ter uma intervenção preventiva tanto quanto repressiva. Daí surgiu a idéia de uma articulação entre as equipes de toda essa grande região do Nordeste e do Norte em torno dessa problemática do trabalho escravo. Primeiramente, para entender os mecanismos, os sistemas do trabalho escravo moderno contemporâneo e ver quais são as ações específicas de cada equipe em função da geografia e das características da sua região podia fazer. E, aos poucos, meus companheiros me apontaram para coordenar essa campanha, que hoje está sendo articulada em oito estados do Brasil. Portanto, de 1997 para cá, eu fui me envolvendo cada vez mais nesse trabalho que, de início, eu confesso, não conhecia.

IHU On-Line – De que maneira o senhor avalia a suspensão da fiscalização e combate do trabalho escravo no País?

Frei Xavier Plassat – Por um lado, perante a gravidade das acusações formuladas pelos representantes da bancada ruralista contra o trabalho da fiscalização, era importante se criar um fato que obrigasse que todos os parceiros e todas as instituições a tomar partido. É real que a fiscalização é uma enganação. No entanto, a real enganação é aquela de muitos que continuam negando ainda hoje a prática do trabalho escravo moderno nas fazendas do Brasil. Foi assim que tentaram criar um fato que obrigasse a retrucar na altura da gravidade das acusações, que nasceram por motivo da contestação de uma fiscalização, em particular de uma empresa que possui uma grande plantação de cana-de-açúcar e uma usina de álcool no Pará. Essa usina, por sinal, era um contra-exemplo das próprias afirmações que o Presidente Lula estava proferindo nos mesmos dias na Europa, quando afirmava que não se planta cana na Amazônia, o que pegou muito mal, pois nesse mesmo dia 1.064 trabalhadores foram libertados numa plantação de cana na Amazônia, que por sinal era a segunda plantação de cana na Amazônia fiscalizada. Então, levantou-se uma onda de protestos de políticos interessados em apoio, dos proprietários e do lobby do etanol, que fizeram uma articulação bem rápida para tentar contestar e desacreditar essa fiscalização. Chegando ao absurdo primeiro de tentar se interpor nos próprios dias da fiscalização, eles foram lá com três aviõezinhos. Em seguida, foi enviada uma comissão quase três meses depois para ver se havia sinais de trabalho escravo - como se três meses depois de um crime fosse ainda possível encontrar sinais de qualquer coisa. E, a partir daí, exigiram até um inquérito criminal contra os fiscais que haviam conduzido essa operação. Foi a gota d’água, porque os responsáveis pelas fiscalizações disseram que nessas condições o cumprimento legal de suas atribuições não estava mais assegurado. Se um fiscal, cumprindo a lei, é exposto de tal forma que possa ser processado por crime, então fica complicado trabalhar. Assim, resolveram suspender a fiscalização. A minha primeira avaliação é de que essa suspensão cria uma estado de choque, à medida que a fiscalização é tão essencial no processo de combate do trabalho escravo que sem ela estamos completamente desamparados. Por isso, a minha segunda avaliação é de que isso é gravíssimo, porque, ao suspender a fiscalização, nem que seja por dez dias, estamos deixando em situação de absoluto desespero centenas de trabalhadores. Já era difícil conseguir com que a fiscalização fosse até lá. Se a fiscalização é suspensa, muitos casos vão ficar perdidos para sempre. Porque quando um trabalhador foge de uma fazenda, muitas vezes isso é interpretado pelo gerente e pelos pistoleiros que vigiam a fazenda como uma denúncia. Então, eles rapidamente vão tentar desmanchar a empreitada, o serviço para que nada seja encontrado, caso uma fiscalização esteja chegando. Suspender a fiscalização é dramático.

IHU On-Line – Como o senhor avalia a posição do Governo ao saber que essa fiscalização foi suspensa pela pressão da bancada ruralista no Senado Federal?

Frei Xavier Plassat – Ela foi suspensa como forma de retificar, reagir à pressão. Eu acho que até o momento a atitude expressada pelo Governo Federal tem sido correta. Não que eu compartilhe necessariamente da idéia de que é bom suspender, mas não sei de que armas se dispunha para criar um fato meio chocante para o conjunto da sociedade. Ainda assim, o ministro do Trabalho Carlos Luppi tem sido bastante enfático na defesa dos seus subordinados, ao justificar a fiscalização, à medida que entrega o relatório, que hoje está disponível inclusive na internet, para mostrar que a situação nas fazendas merecia, sim, uma ação vigorosa, pois era grave e degradante, desqualificando a atitude interesseira desses senadores da comissão. Nós temos de esperar novamente mais um ato, um passo, uma queda de braço, que persiste há anos. Você sabe que a maioria dos casos de trabalho escravo no Brasil acontece na área de pecuária? O restante acontece em agronegócios, como os que envolvem a soja, o café, a cana e a carvoaria. A chamada CNA – Confederação Nacional da Agricultura e da Pecuária -, cuja vice-presidente é a senadora Kátia Abreu (3), do Tocantins, deveria se preocupar com o combate ao trabalho escravo. Em declaração publicada na sexta feira no Estado de S. Paulo, ela diz que nunca encontrou trabalho escravo no Brasil, ou seja, é uma coisa que ninguém mais diz hoje porque o próprio Governo Federal reconhece que ele existe, pois foram adotados planos, leis, comissões de erradicação do trabalho escravo. Mas ainda existem senadores tentando fazer acreditar que isso é uma invenção dos movimentos sociais e de inimigos do Brasil. Se não quisermos ver o trabalho escravo, não temos como combatê-lo. Não combater essa mazela é mostrar uma imagem muito prejudicial do Brasil para o mundo inteiro.

IHU On-Line – Em que estágio está, atualmente, o trabalho escravo no Brasil? Que avanços estão sendo feitos para combatê-lo?

Frei Xavier Plassat – Houve vários avanços. Primeiramente, por causa desse reconhecimento oficial e a adoção de uma política, dessa mobilização de vários atores que, de início, foram à CPT, a exemplo de alguns procuradores da República e da OAB. Antes, não se via mobilização de setores no combate do trabalho escravo. Hoje, você tem, por exemplo, no judiciário, associações dos magistrados do trabalho e associações dos juízes federais que estão envolvidos no combate e têm dado uma força considerável à luta. Há coisas que precisam ser reforçadas como iniciativas da sociedade civil. Novos “atores” têm aparecido, como ONG’s e sindicatos, tentando prever o trabalho escravo. O Governo Federal tem dado apoios, como programas específicos da Secretaria Especial de Direitos humanos. Tudo isso é muito importante. No entanto, a promessa feita há cinco anos de erradicar o trabalho escravo em quatro anos não foi cumprida. Ou seja, ainda está faltando muita coisa. Avançamos no sentido de que foi feita uma lista suja e muitos dos que estão nela incluídos perderam o direito de receber financiamentos, comercializar seus produtos etc. No entanto, ninguém ainda foi para a cadeira. A justiça penal tem sido muito inoperante, por causa de uma discussão sem fim sobre a competência para julgar. Outro ponto que deixa muito a desejar é uma política nacional de prevenção. Nós temos que fazer com que esses trabalhadores libertados não tenham risco nenhum de voltar a trabalhar em semelhantes condições. Isso hoje acontece de forma muito forte, pois não existe uma mobilização para quebrar esse ciclo vicioso.

IHU On-Line – Em sua opinião, o aumento da monocultura, seja de cana-de-açúcar ou de eucalipto, em grandes extensões de terra pode ocasionar o trabalho escravo e, por conseqüência diminuir o emprego formal no Brasil? O que está sendo feito para que isso não ocorra?

Frei Xavier Plassat – Elas têm um efeito direto e indireto. Em algumas operações dessas culturas, nós temos ainda situações de trabalho degradante que podem culminar em trabalho escravo. Identificamos isso no preparo do solo no plantio da soja, quando se trata de arrancar as raízes. Também identificamos no corte da cana e no plantio de eucalipto. Recebemos muitas denúncias porque muitas dessas ações são empreitadas, ou seja, o proprietário se livra da responsabilidade trabalhista, ou melhor, pensa que se livra. Diretamente, pode-se dizer que há, sim, um crescimento desordenado dessas atividades e que acarretam situações de trabalho degradante. E existe um outro efeito, que é o da pressão de efeito sobre a terra nas regiões do cerrado, como na região do Tocantins, que faz com que muitos agricultores estejam vivendo em situação extremamente precária, sejam eles pequenos proprietários ou posseiros. As gerações estão sendo ameaçadas e muitas vezes expulsas para dar lugar à plantação de soja, de eucalipto e de cana. Isso é um absurdo, criando uma situação em que o agronegócio aparece realmente como um perigo e não como oportunidade de crescimento, de redistribuição e inclusão social.

IHU On-Line – O que está sendo feito no Pará para diminuir o trabalho escravo no Estado, que concentra cerca de 35,5% das acusações no País?

Frei Xavier Plassat – Até o momento, pode se dizer que não tem sido feito nada pelo poder público no Pará. Existe, apenas, a pressão. Os movimentos sociais estão fazendo alguma coisa, a CPT em particular, no plano de prevenção e na formação de lideranças, de espalhar a mensagem. Mas não tem sido adotada nenhuma política pública. Estamos no início. O governo do Pará tem dado sinais, nesse primeiro semestre, e espero que finalize, cumpra a promessa em breve, criando uma Comissão Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo, apresentando já uma proposta de plano que deve ser finalizada no início do mês que vem e lançada oficialmente como Plano Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo. Então, vamos ter a possibilidade de contar com aliados importantes no Pará. Pode se dizer que está em aberto, mas há uma sinalização positiva, e este pode ser um dos motivos da pressão da bancada ruralista, pois a luta está se espalhando.

IHU On-Line – O Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo teve resultados positivos para o Brasil?

Frei Xavier Plassat – Sim. Em termos de mobilização, de definir ações de responsabilidade, distribuindo essa responsabilidade entre várias instituições do poder público e no poder judiciário, no qual houve bastante avanço. Contudo, no legislativo, que também teria que cumprir a sua parte, ficamos muito aquém do esperado.

IHU On-Line – O atendimento às vítimas do trabalho escravo tem sido feitas de que forma? Há alguma chance de essas pessoas nunca mais precisarem ser submetidas a essa humilhação?

Frei Xavier Plassat – O atendimento tem duas distinções: primeiro é a vítima denunciante, aquela que fugiu e que entra em contato, geralmente, com a CPT. Este primeiro atendimento é emergencial, pois trata-se de prestar apoio a pessoas que estão em situação de insegurança grave e remediar essa situação, amparando até a fiscalização chegar. No entanto, o mais complexo vem depois, quando a fiscalização aconteceu e que os trabalhadores são libertados. Na verdade, eles, na maioria dos casos, são deixados por sua própria conta. Eles ganharam, isso é um avanço, três meses de seguro desemprego, além de receber os atrasados de remuneração a que tem direito. Só que em três meses é impossível reformar uma vida que desde o início começou mal, sem educação formal, sem terra, sem morada digna. O que se espera é que seja dada chance para essas pessoas entrem num processo virtuoso, que exige até três anos para se preparar uma nova inserção profissional, social e econômica. Isso inclui Reforma Agrária nas terras de onde essas pessoas saíram. De forma geral, podemos dizer que as políticas públicas são fracas.

IHU On-Line – O senhor é a favor do confisco das terras onde se promove o trabalho escravo. Para o senhor, o que o Governo deve fazer com essas terras?

Frei Xavier Plassat – Entregar essas terras para o Plano Nacional de Reforma Agrária: é isso que prevê a proposta de emenda constitucional. Da mesma maneira, eu sou favorável a uma desapropriação das terras onde se pratica o trabalho escravo. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) tem definida uma posição jurídica bem forte em favor disso. Um decreto de desapropriação já foi assinado pelo Presidente Lula, no caso da Fazenda Cabacera, na região da Marabá, no Pará. Mas um recurso do proprietário tem levado a questão à apreciação do Supremo Tribunal Federal, e há quase dois anos esse órgão deixou o caso na gaveta, não se posicionando.

IHU On-Line – O que o Governo precisa fazer para identificar melhor os focos de exploração de trabalhadores?

Frei Xavier Plassat – Identificar nós já identificamos. É preciso intensificar a fiscalização, pôr regras para o crescimento e desenvolvimento do agronegócio, impor, na exata proporção das perspectivas mirabolantes do mercado mundial que se apresenta ao Brasil, especificar e estabelecer regras que no lugar de tornar essa oportunidade comercial na maior calamidade social – e até calamidade ambiental -, para muitos trabalhadores a maior oportunidade de crescimento a todos. Mas, infelizmente, nós vemos mais esforço para assinar contrato de venda de etanol do que em termos de convênio com os setores profissionais para garantir que essa expansão seja feita dentro de padrão sociais e ambientais corretos.

Notas:
(1) Tito de Alencar Lima, o Frei Tito, foi um sacerdote católico brasileiro. Assumiu a direção da Juventude Estudantil Católica em 1963 e, em outubro de 1968, foi preso por participar de um congresso clandestino da União Nacional dos Estudantes em Ibiúna. Foi fichado pela polícia e tornou-se alvo de perseguição da repressão militar. No início de 1970, ele foi torturado nos porões da chamada “Operação Bandeirantes”. Na prisão, ele escreveu sobre a sua tortura e o documento correu pelo mundo e se transformou em símbolo de luta pelos direitos humanos. Em 1971, foi deportado para o Chile e, sob a ameaça de novamente ser preso, fugiu para a Itália. Em Roma, não encontrou apoio da Igreja Católica, por ser considerado um “frade terrorista”. De Roma foi para Paris, onde recebeu apoio dos dominicanos. Traumatizado pela tortura que sofreu, Frei Tito submeteu-se a um tratamento psiquiátrico. Seu estado era instável, vivendo uma agoniada alternância entre prisão e liberdade diante do passado. No dia 10 de agosto de 1974, um morador dos arredores de Lyon, encontrou o seu corpo suspenso por uma corda. Batismo de Sangue é o filme que se refere a Tito.
(2) Frei Henri des Roziers atua como advogado da CPT, na região de Xinguara, principalmente no combate ao trabalho escravo. Nascido numa família católica bem situada que participou da resistência contra o nazismo, Henri serviu no Exército francês. Henri des Roziers foi ser dominicano, tendo sido ordenado em 1964. Chegou ao Brasil em dezembro de 1978. Semanas depois, já estava em Conceição do Araguaia. Seu diploma de advogado foi reconhecido no Brasil em 1984. Ele está engajado desde 1977 com as camadas sociais mais desfavorecidas, atuando como advogado da Comissão Pastoral da Terra.
(3) Kátia Regina de Abreu é uma política brasileira, filiada ao PFL, hoje DEM, com base política no estado do Tocantins. Foi presidente do Sindicato Rural de Gurupi. Foi a deputada federal mais votada do estado do Tocantins com 76 mil e 170 votos para o período de 2003-2006. Foi eleita senadora em 2006, com 51,08% dos votos válidos.

Instituto Humanitas Unisinos
http://www.unisinos.br/ihu/index.php

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Mania de real

Paula Sibilia

Obra dos grandes artistas é eclipsada pela busca ávida dos “fatos reais” de sua vida privada

Uma das marcas da cultura contemporânea é a ênfase na veracidade dos eventos mostrados e relatados por toda parte. Em meio ao sucesso dos reality shows, o espetáculo da realidade faz sucesso: tudo vende mais se for real, mesmo que se trate de versões dramatizadas de uma realidade qualquer.

Talvez essa crescente “fome de real” seja alimentada pela desconfiança que provoca o excesso de espetacularização reinante em nosso ambiente tão midiatizado. Quando mais a vida cotidiana é ficcionalizada e estetizada com recursos midiáticos, mais avidamente se procura uma experiência autêntica, verdadeira, não encenada. Busca-se o realmente real -ou, pelo menos, algo que assim pareça.

Ilustrando essa tendência que fulgura por toda parte, vemos surgir lançamentos editoriais como “O Rosto de Shakespeare”, de Stephanie Nolen. Trata-se de um vultoso volume, cujas páginas combinam dados do tipo jornalístico e da história da arte, com a finalidade de desvendar um “grande enigma” da história ocidental: descobrir qual era o verdadeiro rosto do bardo inglês. Sua cara, mesmo: seu aspecto físico. Logo de William Shakespeare, um autor de ficções sobre cuja vida real é muito pouco o que se sabe. Em uma era tão sedenta de saberes biográficos como a nossa, esse desconhecimento se torna intolerável.

Outra grande figura das letras britânicas, Virginia Woolf, destacou essa falta de informações que hoje temos sobre a vida privada e a personalidade de Shakespeare: a seu ver, esse silêncio seria um ingrediente fundamental da nossa relação com sua obra.

Como sabemos tão pouco dele, Shakespeare é pura literatura. Sua figura coincide plenamente com aquilo que o autor escrevera: ele é sua obra -nem mais, nem menos do que isso. Não dispomos de dados fidedignos sobre sua intimidade que possam nos distrair daquilo que ele fez; não há relatos nem imagens sobre o que ele foi que possam contaminar seus escritos. Se o poeta inglês conseguiu nos ocultar “seus rancores, suas invejas e antipatias”, é também graças a esse elegante silêncio que “sua poesia brota dele livre e sem empecilhos”1. Tal é a constatação de Virginia Woolf: se alguém conseguiu exprimir completamente sua obra, longe das vãs poluições biográficas, esse autor foi William Shakespeare.

Contudo, esses detalhes extra-literários sobre quem ele realmente foi, são criados e recriados sem pausa, são pesquisados com avidez de provas e citação de fontes. Outro exemplo dessa intensa procura é o livro de Brenda James e William Rubinstein, medonhamente intitulado “A Verdade Será Revelada: Desmascarando o Verdadeiro Shakespeare”. Procura-se preencher com informações reais essa mudez intolerável, que se couraça na mais perfeita ficção e se recusa a dela sair.

Mas essa ferrenha busca pelo real-banal tampouco perdoa outras figuras históricas, que por terem vivido em épocas distantes do nosso culto à personalidade espetacularizada, deixaram pouco material para as especulações acerca de seus cobiçados eus. Nesse descuido deixaram, apenas, suas obras.

Um livro recentemente publicado por uma reconhecida especialista na “Divina Comédia” de Dante Alighieri, por exemplo, trouxe algumas “escandalosas revelações” que a mídia logo divulgou. O livro desvendava “a verdadeira origem das visões dantescas” do inferno e do paraíso, descritas pelo poeta florentino há sete séculos. Eis a revelação: “Para se inspirar, Dante ingeria substâncias estupefacientes como cannabis e mescalina”.

Foram apenas umas poucas linhas referidas ao assunto em um livro de 500 páginas sobre a vida (e a obra) do escritor italiano, mas também é claro que foi somente essa questão que conseguiu despertar o interesse midiático acerca de um tema tão pouco atual. Um dos mais prestigiosos cadernos literários britânicos, o “Times Literary Supplement”, estampou na capa a seguinte manchete: “Dante drogado”.

De modo semelhante, aproveitando o quarto centenário da publicação do “Dom Quixote”, dezenas de livros foram lançados sobre assuntos reais ligados ao célebre romance de Miguel de Cervantes Saavedra, que ainda lidera o cânone da literatura espanhola. Passando por alto o pequeno detalhe de se tratar de uma ficção escrita há 400 anos, o mercado editorial não poupou seus pesquisadores: qual seria o verdadeiro vilarejo do qual o engenhoso fidalgo partira, quais eram os alimentos que ele realmente consumira e até mesmo quem teria sido a dama real que inspirara o personagem de Dulcinea del Toboso.

Uma reportagem advertia, inclusive, que “12 cozinheiros se comprometeram no projeto de fazer um livro de receitas baseado no ‘Quixote’”, arriscando que tal obra poderia terminar “sendo traduzida para tantas línguas como o próprio ‘Quixote’; por enquanto, cogita-se a tradução para o inglês e o japonês”. Levando em conta o sucesso da gastronomia no mercado editorial contemporâneo, a culinária quixotesca pode mesmo chegar a vender mais do que o próprio romance no qual se inspirara.

Mas a fictícia Dulcinea não está sozinha nesta ansiosa busca atual de realidade. Também proliferam obras dedicadas a revelar a verdadeira identidade da Mona Lisa, para citar outro exemplo típico, especulando sobre quem foi realmente a mulher que 500 anos atrás pousara para os pincéis de Leonardo da Vinci.

A popularidade deste último artista tem aumentado bastante ultimamente; mas tal incremento não decorre de suas famosíssimas obras de arte: deve-se ao sucesso de um best-seller como “O Código Da Vinci”, de Dan Brown, que já vendeu 50 milhões de exemplares em mais de 40 línguas e transformou seu autor em uma celebridade milionária.

Esse livro conseguiu extrair todo o proveito da ambigüidade que floresce entre as fórmulas da ficção e da não-ficção, dando à luz, inclusive, a outras publicações que se debruçam sobre os assuntos tematizados neste texto -e que também lideraram, durante vários meses e inclusive anos, as listas de best-sellers do mundo inteiro (neste caso, as de não-ficção).

“São mais de 12 livros publicados sobre o tema, quase todos mostrando que as argumentações de Brown são falhas ou incríveis, esquecendo-se que o livro pertence ao território da ficção”, advertia um artigo da “Folha de S. Paulo”. Mas desse celeiro surgiram também guias de turismo e roteiros de viagens, palestras e objetos de decoração inspirados no livro, até o inevitável filme com estrelas de Hollywood. Cabe imaginar, ainda, algum volume belamente encadernado que reúna misteriosas receitas de cozinha bíblico-conspirativas, por que não?

Aliás, pelo menos um livro de receitas já foi lançado sob o amparo desse sucesso, com uma repercussão considerável: trata-se do “Códice Romanoff”, um manuscrito a partir do qual foram publicadas, em várias línguas, os “Cadernos de Cozinha” atribuídos a Leonardo da Vinci -embora sejam muitas as dúvidas acerca da sua autenticidade, receios escassamente mencionados nas luxuosas edições da obra.

As anotações se referem aos esdrúxulos manjares cujo preparo Da Vinci ordenava na corte de Ludovico Sforza, em pleno século XV. Todo esse merchandising, porém, foi engendrado no bojo daquele outro códice best-seller: o livro de Dan Brown, que tão bem soube capitalizar as perplexidades que assombram as fronteiras entre ficção e não-ficção.

Insistindo no tema, um estudioso da genealogia das famílias de Florença comunicou à mídia o resultado de suas pesquisas, que foi logo reproduzido em todo o planeta: o pesquisador localizara “as últimas herdeiras da Mona Lisa”. Duas jovens italianas descendentes da nobre família Strozzi, que no século XIV foi a grande rival dos Médici, foram fotografadas no Museu do Louvre e cotejadas com o retrato da Gioconda, pois o célebre quadro teria imortalizado o rosto de sua ancestral Lisa Gherardini.

Em 1495, aos 16 anos de idade, essa jovem florentina casou com Francesco Bartolomeo del Giocondo, um rico comerciante de seda que teria encomendado o retrato de sua esposa em 1503. “É pouco o que se sabe da Mona Lisa, salvo que levava una existência reclusa e discreta em sua casa familiar da rua Della Stufa”, revela o pesquisador. “Morreu no dia 15 de julho de 1542 e foi inumada no convento de Santa Úrsula; a linha direta de Del Giocondo extinguiu-se no final do século XVII, mas sobreviveu pelo ramo feminino.” Eis toda a relevância dessa informação real.

“É possível que a ‘Mona Lisa’ se pareça com a dama cujo retrato pintou Leonardo da Vinci”, afirma o crítico de arte Ernst Fischer: “Mas o seu sorriso está além da natureza; não tem nada a ver com ela e depende absolutamente da experiência vivida, do conhecimento alcançado pelo homem para quem a dama posou como modelo”2. Uma obviedade capaz de invalidar todo interesse na verdadeira (e, pelo visto, pouco transcendente) Lisa Gherardini. Porém, como vemos, não é isso o que ocorre hoje em dia…

“Quando Picasso começa a pintar um objeto tal como a natureza o fez e depois vai renunciando aos poucos ao parecido superficial por meio de um esforço gradativo de simplificação, de concentração”, continua Fischer, “com isso se revela paulatinamente uma realidade mais fundamental”. No entanto, não é essa realidade mais fundamental, revelada em ocasiões pela arte, o que parece interessar ao ávido público contemporâneo.

Em vez disso, há uma vontade de saber tudo acerca daquela outra realidade mais rasteira e supostamente mais real: interessa saber quem era realmente essa mulher que posou para Picasso, qual era a sua relação com o pintor, como se chamava, qual era seu aspecto físico, por que ela estava aí naquele dia, como era sua história familiar, qual era seu signo no horóscopo etc. E se tudo isso for mostrado em uma tela, então melhor ainda. Não é preciso esclarecer que isso já aconteceu, de fato, no filme “Os Amores de Picasso”, de James Ivory (1996), bem como em incontáveis publicações impressas e produtos audiovisuais.

Percebe-se, nesse movimento, uma persistente obsessão pelo nível mais epidérmico do verdadeiro: uma busca da real thing, por mais banal que seja. Segundo Umberto Eco, essa fixação pelo real reside no âmago da tradição cultural dos Estados Unidos; hoje, aos compassos da globalização, essa tendência penetra os mais remotos cantos do planeta. O assunto é destrinchado com boas doses de humor e agudeza nos ensaios do crítico italiano sobre o hiperrealismo e a “irrealidade cotidiana”, redigidos na década de 1980.

Entre os inúmeros exemplos comentados pelo autor, cabe mencionar os museus californianos onde é possível observar uma ‘Mona Lisa’ mais real do que o célebre quadro renascentista, e até mesmo mais real do que aquela dama italiana resgatada pelos pesquisadores florentinos. Neste caso, a real thing aparece em uma cena tridimensional e hiperrealista (ou surrealista?), que recria em cera as figuras do artista e da modelo em plena realização da obra.

Não surpreende, enquanto continua a crescer essa voracidade pelo consumo de vidas alheias e reais (mesmo se estas revelam apenas uma “realidade rasteira”), que as ficções tradicionais estejam se hibridizando com a não-ficção -esse novo e ambíguo gênero hoje triunfante.

Cada vez mais, a mídia reconhece e explora o forte apelo implícito no fato de que aquilo que se diz e se mostra é um testemunho vivencial: a ancoragem na “vida real” torna-se irresistível. Mesmo que tal vida seja absolutamente banal -ou melhor: pelo menos em certos casos, especialmente se ela for banal. Ou melhor, ainda: sublinhando aquilo que toda vida tem de banal e “rasteiro”, inclusive à vida dos grandes artistas.

“A ficção é como uma teia de aranha amarrada à vida, muito levemente talvez, mas amarrada pelos quatro cantos”, explica Virginia Woolf no ensaio antes citado. “Às vezes esse laço é apenas perceptível; as obras de Shakespeare, por exemplo, parecem permanecer suspensas por si sós”, evocando as escassas informações que temos sobre a vida pessoal deste ficcionista, que não chegam a perturbar nossa relação quase direta com seus textos. “Mas quando a teia é esticada, prende-se do lado, rasga-se ao meio”, então subitamente lembramos que essas teias de aranha “não são feitas no ar por criaturas incorpóreas”, escreve ela.

1 - Woolf, Virginia. “Un Cuarto Propio y Otros Ensayos”. Buenos Aires: A-Z Editora, 1993, p. 77.
2 - Fischer, Ernst. “El Problema de lo Real en el Arte Moderno”. In: “Realismo: Mito, Doctrina o Tendencia Histórica?”. Buenos Aires: Ediciones Lunaria, 2002, p. 68.

Revista Trópico

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Quem manda no mandato

JANIO DE FREITAS

Eleitos não representam quem os elegeu; partidos não representam nem a sua própria vontade

O TRÂNSITO libertino e recompensado de deputados, para lá e para cá, de um partido para outro, tem algo do velho “trottoir”, sugere mesmo um meretrício político. É causa de muitos dos males da política e dos governos no Brasil, mas, antes de causa, é efeito de outros males. Entre os primeiros deles, o sistema político minado por deformações e brechas na legislação dirigida às eleições, aos partidos, ao exercício dos mandatos e ao funcionamento da Câmara e do Senado. Por isso, e por mais motivos, a proibição de mudança de partido não terá o efeito moralizante que lhe é atribuído, e nem é certo que dure.
Indicador claro, na Câmara já existe projeto para proteção legal às transferências feitas até 30 de setembro, e não até o 27 de março fixado pelo Supremo Tribunal Federal. Além disso, não são previsíveis dificuldades para projetos de lei que dêem autorização explícita a mudanças de partido, exceto nos já demarcados períodos pré-eleitorais. Primeiro, por dispensar emenda constitucional, já que a Constituição deixa em aberto a transferência de partido, não a incluindo entre os vários motivos para perda do mandato, como decidiram o Tribunal Superior Eleitoral (naquele 27 de março) e, agora, o STF. E ainda porque as transferências convêm ao governo, que é o seu maior patrocinador: assim aumenta o número de parlamentares subordinados.
Aí está, por sinal, a razão básica da repulsa, mais ética e moral do que política, provocada pelo chamado troca-troca. A transferência não é reprovável por si mesma. O sistema legislativo brasileiro tomou como base o dos Estados Unidos, no qual ainda há pouco um senador importante mudou de partido. Com a proibição decidida pelo STF, sob a forma de perda e devolução do mandato ao partido, pelo deputado que se tenha transferido ou tente transferir-se sem motivo grave comprovado na Justiça, o Brasil se torna (até onde pude verificar) o único país a estabelecer tal proibição sob regime de democracia política.
Não foi (só?) pelo gosto de ouvir a própria voz que os ministros do STF ocuparam-se por quase 14 horas, em dois dias, e falaram em média 1h10 cada, para enfim chegar ao seu voto. O que julgavam eram mandados de segurança (dos emagrecidos PSDB, PPS e DEM), decisões, em geral, sem maior demora, por se tratar de reconhecer ou negar a recusa, por determinada autoridade, de algum “direito líquido e certo”. O STF precisou, porém, de exaustivas elaborações especulativas para construir uma via, embora sinuosa e com trechos pedregosos, de tecnicidades e racionalidades até a proibição desejada pela maioria dos ministros.
O jornalismo caminha no chão. E, como agravante, a mim falta altura para alcançar o teor propriamente jurídico e filosófico dos pronunciamentos nas duas sessões do STF. Não foi isso, no entanto, que a mim e a outros impediu de reconhecer, nas exposições de quase todos os ministros, os partidos, os políticos, o eleitor -a vida política do Brasil- tal como os conheço. Pareciam falar de partidos idealmente, como se fossem associações centradas em idéias e práticas a serviço do interesse nacional e do bem-estar social, isto é, do desejado pelo eleitor. Não apareceu a realidade dos partidos brasileiros, que não têm nem querem ter representatividade, porque se constituem como sociedades de interesses eleitorais e, para grande número dos sócios, sobretudo materiais. Em nossa realidade, se os eleitos não representam a vontade de quem os elegeu, os partidos não representam nem o que seria sua própria vontade, expressa nos estatutos, quanto mais a do eleitor.
Lembrada, relembrada e homenageada mais de uma vez, esta conceituação reflete bem o problema a que me refiro: “Quando vota, o eleitor vota primeiro no partido, e não no candidato”. Foi dita pelo então senador Paulo Brossard. Era verdadeira, de uma verdade até óbvia, à época de sua formulação, quando o voto foi, antes de tudo, pela democracia e por isso no MDB depois PMDB, ou a favor da ditadura, logo, na Arena depois PDS. Trazida do seu cenário histórico, como foi, para a atualidade dos partidos e dos eleitores, o conceito não tem mais o sentido que lhe foi atribuído, influente na decisão.
Mal começam a discussão e os efeitos práticos do decidido pelo STF. Na sacudidela que provoca já se vê um mérito. Mas o necessário, mesmo, é que viesse forçar reformas capaz de levar os partidos e seus programas; a Câmara, o Senado e sua dívida de decência e trabalho; os eleitores e suas inúteis aspirações, todos aos papéis que lhes cabem, de fato. E isso não está à vista.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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Melhores do Congresso

Vote nos parlamentares do PSOL

O sítio de notícias “Congresso em Foco” iniciou na última terça-feira (18/9) a votação que definirá os melhores congressistas do país deste ano. Até 18 de novembro o internauta poderá votar. Na primeira etapa votaram 188 jornalistas que cobrem o Congresso Nacional, que selecionaram 25 deputados e 16 senadores. Todos os parlamentares do PSOL – Ivan Valente, Chico Alencar, Luciana Genro e o senador José Nery - ficaram entre os 15 primeiros.

Meus votos são:

Ivan Valente (Deputado Federal Psol SP)
José Nery (Senador Psol PA)

Clique aqui

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Mais apoio à nossa luta na FSA

Intelectuais de todas as áreas do conhecimento, do Brasil e alguns do exterior, continuam enviando apoio ao nosso movimento. Já são 196 adesões.

Enquanto isso, o reitor baixou “por decreto” ordem para que seja montada uma comissão de negociação: mandou os Diretores e o Coordenador da Pós, indicados por ele mesmo, enviarem dois nomes em 24 horas!!!!!! Será que eles já cumpriram a ordem? Isso é que é capacidade para o diálogo!!! Diálogo dele com ele mesmo, evidentemente, porque nenhum professor ou aluno ligado ao movimento fará parte desta comissão.

Ele não se cansa de demonstrar que não pode ser reitor de nenhuma universidade!!! Chega a ser cômico…

Diretor da FAENG indicará dois nomes - esse diretor nem diretor é, porque não foi eleito, foi nomeado sem eleição pelo reitor.

Diretora da FAFIL indicará dois nomes - ela perdeu a eleição na FAFIL, ficou em segundo lugar na lista tríplice, mas foi escolhida pelo reitor.

Coordenador da Pós indicará dois nomes - esse também não foi eleito, foi nomeado sem eleição pelo reitor, e tem assento do Conselho Diretor como representante docente (!!!).

Diretor da FAECO indicará dois nomes - foi escolhido pelo reitor, mas está corretamente na função, porque foi eleito.

Diretora do Colégio indicará dois nomes - está corretamente na função, foi eleita.

Portanto, ainda que os dois Diretores legítimos indicassem dois nomes, esses perderiam sempre para os seis nomes indicados pelos apadrinhados do Reitor! Que exemplo de democracia!!!!
É essa a democracia praticada pela administração Bermelho! Democracia de fachada, para enganar trouxas… mas há cada vez menos trouxas a serem enganados, graças a Deus!!!!!!!!
Segue a lista atualizada de apoios:
1) Aziz Ab’Saber – Geografia USP (aposentado)
2) Lincoln Secco - História USP
3) Ricardo Musse - Sociologia USP
4) Cilaine Alves Cunha - Letras USP
5) Fernando Novais - História USP / Unicamp
6) Roberto Schwarz - Letras Unicamp (aposentado)
7) Maria Célia Paoli - Sociologia USP
8) Leda Paulani - Economia USP
9) Maria Arminda do Nascimento Arruda - Sociologia USP
10) Marcos Del Roio - Ciência Política Unesp Marília
11) Paulo Eduardo Arantes - Filosofia USP
12) Marcos Silva - História USP
13) Marineide de Oliveira Gomes – Pedagogia USP Ribeirão Preto
14) Caio Navarro de Toledo – Ciência Política Unicamp
15) Selma Borghi Venco – Sociologia Unicamp
16) Franklin Leopoldo e Silva – Filosofia USP
17) Lighia Brigitta Horodynski-Matsushigue – Física USP
18) Zilda Iokoi – História USP
19) Otília Fiori Arantes – Filosofia USP
20) Mariana Fix – Design Facamp (Faculdades de Campinas)
21) Ivone Dare Rabello – Letras USP (aposentada)
22) Suzana Salem Vasconcelos – Física USP
23) Luiz Eduardo Simões de Souza – Economia Uergs (Universidade Estadual
do Rio Grande do Sul)
24) Paulo Henrique Martinez - História Unesp Assis
25) Luís Fernando Ayerbe - Relações Internacionais Unesp Araraquara
26) Jesus Ranieri - Sociologia Unicamp
27) Heloísa Fernandes - Sociologia USP e Escola Nacional Florestan
Fernandes do MST
28) Amarílio Ferreira – UFSCar (Universidade Federal de São Carlos)
29) Valério Arcary - História CEFET/SP (Centro Federal de Educação
Tecnológica de São Paulo)
30) João Francisco Tidei Lima – Unesp Bauru
31) Lidiane Soares Rodrigues – Doutoranda História USP
32) Alcir Pécora - Letras Unicamp
33) Anita Handfas – Educação UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
34) Margareth Rago - História Unicamp
35) Vera Lucia Vieira - História PUC-SP
36) Arlete Moyses Rodrigues – Geografia Unicamp
37) Antônio Miguel - Educação Unicamp
38) Ronilde Rocha - Consultora em educação e ensino de História e
professora da rede municipal de São Paulo (aposentada)
39) Francisco Foot Hardman - Letras Unicamp
40) Márcio Naves – Sociologia Unicamp
41) Élide Menezes Centofanti – Psicologia UMC (Universidade de Mogi das
Cruzes) aposentada
42) Maria Luiza Jovanovic - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
43) Paulino Cardoso - História Udesc (Universidade do Estado de Santa
Catarina)
44) Claudia Sapag Ricci - História UFMG (Universidade Federal de Minas
Gerais)
45) Olga Brites - História PUC-SP
46) Mário Fernando Bolognesi - Artes Unesp São Paulo
47) Antônio Carlos Mazzeo – Ciência Política Unesp Marília
48) Maria Victória Benevides - Educação USP
49) Adalberto Paranhos – Ciências Sociais UFU (Universidade Federal de
Uberlândia)
50) Edilson Graciolli – Ciências Sociais UFU (Universidade Federal de
Uberlândia)
51) Fernando Antonio Lourenço - Sociologia Unicamp
52) Agnaldo dos Santos – Administração Uninove (Centro Universitário Nove
de Julho)
53) Glória Anunciação Alves – Geografia USP
54) Elvio Rodrigues Martins – Geografia USP
55) Regina Helena Alves da Silva - História UFMG (Universidade Federal de
Minas Gerais)
56) João Bernardo – professor e escritor
57) Valeria de Marcos - Geografia USP
58) Pedro Arantes - Design Facamp (Faculdades de Campinas)
59) Rafael Marquese - História USP
60) Ana Fani Alessandri Carlos - Geografia USP
61) Déa Ribeiro Fenelon - História PUC-SP e Unicamp (aposentada)
62) Brás Ciro Gallota - História PUC-SP
63) Francisco Alambert - História USP
64) Vera Lúcia Santiago Araújo - Letras UECE (Universidade Estadual do Ceará)
65) Silvia Hunold Lara - História Unicamp
66) Sidney Chalhoub - História Unicamp
67) Letícia Vidor de Souza Reis - História Unimep (Universidade Metodista
de Piracicaba)
68) Ivone Cordeiro Barbosa - História UFC (Universidade Federal do Ceará)
69) Manoela da Silva Pedroza - Doutoranda Unicamp
70) Joviniano Borges da Cunha - Universidade Anhembi-Morumbi
71) Bernardo Boris Vargaftig – Ciências Biomédicas – USP
72) Heloisa de Faria Cruz - História PUC-SP
73) Claudia Poncioni - Université Paris X - França
74) Jean-Yves Mérian - Université Rennes2- Haute Bretagne - França
75) Roberto Romano - Filosofia Unicamp
76) Luiz Roberto Alves – Jornalismo Umesp (Universidade Metodista de São
Paulo) e USP
77) Marcos Arruda – professor visitante universidades do exterior
78) Cid Benjamin – Comunicação Social Facha (Faculdade Hélio
Alonso)
79) Laura Antunes Maciel - História UFF (Universidade Federal
Fluminense)
80) Maria Antonieta Antonacci - História PUC-SP
81) Paulo Roberto de Almeida - História UFU (Universidade Federal de
Uberlândia)
82) Bento Itamar Borges - Filosofia UFU (Universidade Federal de Uberlândia)
83) Rejane Meireles Amaral Rodrigues - História UNIMONTES/MG
84) Osvaldo Coggiola – História USP
85) Inessa Laura Salomão - Engenharia de Produção - CEFET/RJ (Centro
Federal de Educação Tecnológica)
86) Helena Hirata - Sociologia CNRS (Centre National de la Recherche
Scientifique) – França
87) Normando Rodrigues - Direito UFRJ (Universidade Federal do Rio de
Janeiro)
88) Ana Maria Silva - Turismo Fefisa (Faculdades Integradas de Santo André)
89) Luiz Carlos Pereira - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
90) Fábia C. Alegrance - Fisioterapia Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
91) Luciana Vieira de Melo Kuk - Fisioterapia Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
92) Margareth Anderáos - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
93) Nicolino Bello Júnior - Educação Fisica Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
94) Sérgio Garcia Stella - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
95) Ricardo Zanuto Pereira - Fisioterapia Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
96) Rosemarie C. Sanches - Turismo Fefisa (Faculdades Integradas de Santo
André)
97) Vinicius J. B. Martins - Fisioterapia Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
98) Sueo Hirota - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de Santo
André)
99) William S. Freitas - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
100) Marcelo Reina Siliano - Fisioterapia Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
101) Edvar Boechat Soares - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
102) Isilda M. R. Cavicchioli - Educação Física Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
103) Maria Teresa B. Martins - Educação Física Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
104) Maria Eliza M. Bernardes - Educação Física Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
105) Rosana Delfini - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
106) Evando Carlos Moreira - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
107) Fabiano João - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de Santo
André)
108) Sandra Maria Tedeschi - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
109) Albertina O. C. Misko - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
110) Gilberto de Andrade Martins – Contabilidade USP
111) José Artur Gianotti – Filosofia USP (aposentado) e pesquisador do
Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)
112) Heloisa Martins - Sociologia USP (aposentada)
113) Angelina Peralva - Sociologia Universidade de Toulouse II -
França
114) João Zanetic – Física USP e ex-presidente da Adusp (Associação dos
Docentes da USP)
115) Nadia W. Hanania Vianna - Administração USP (aposentada)
116) Francisco Luiz C. Lopreato – Economia Unicamp
117) Denis Maracci Gimenez – Economia Unicamp
118) Wilson Cano – Economia Unicamp
119) Gabriel de Santis Feltran - Doutorando Unicamp
120) Otaviano Helene – Física USP e presidente da Adusp (Associação dos
Docentes da USP)
121) Daciberg Lima Gonçalves – Matemática USP
122) Lucília Daruiz Borsari - Matemática USP
123) José Dari Krein – Economia Unicamp
124) Antonio Lázaro Sant´Ana - Unesp Ilha Solteira
125) Elmir de Almeida – Pedagogia USP Ribeirão Preto
126) Geraldo Leão - Educação UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)
127) Américo Scotti - Engenharia Mecânica UFU (Universidade Federal de
Uberlândia)
128) Estefânia Knotz C. Fraga - História PUC-SP
129) Luiz Henrique dos Santos Blume - História UESC (Universidade Estadual
de Santa Cruz - BA)
130) Alexandre Fortes - História / Economia UFRRJ (Universidade Federal
Rural do Rio de Janeiro)
131) Fernando Teixeira da Silva - História Unicamp
132) Raimundo Donato do Prado Ribeiro – coordenador de História Unimep
(Universidade Metodista de Piracicaba)
133) Ciro Teixeira Correia – Geologia USP
134) Marco A. Brinati – Engenharia Naval USP e ex-vice-presidente da Adusp
(Associação dos Docentes da USP)
135) Cláudia Pereira Vianna – Educação USP
136) Maria da Graça Setton – Educação USP
137) Elie Ghanem – Educação USP
138) Rosângela G. Prieto – Educação USP
139) César Augusto Minto - Educação USP e ex-presidente da Adusp
(Associação dos Docentes da USP)
140) Américo Sansigolo Kerr – Física USP e ex-presidente da Adusp
(Associação dos Docentes da USP)
141) Paulo Luiz Miadaira - Faculdade São Luís e Fundação Escola de
Sociologia e Política de São Paulo
142) Daniel Revah - Pedagogia Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)
143) Manoela da Silva Pedroza - Doutoranda Unicamp
144) Henrique Soares Carneiro – História USP
145) Sérgio Paulo Amaral Souto - Zootecnia USP
146) Marcus Aloízio Martinez de Aguiar - Física Unicamp
147) Artionka Capiberibe - Doutoranda UFRJ (Universidade Federal do Rio de
Janeiro)
148) Lucimara Batista Freire - Faculdade Anchieta - São Bernardo do Campo
149) Théo Lobarinhas Piñeiro - História UFF (Universidade Federal Fluminense)
150) Alexsander Lemos de Almeida Gebara - História UFF (Universidade
Federal Fluminense)
151) Theresa Beatriz Figueiredo Santos - Diretora da Faculdade de Ciências
Humanas da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba)
152) Daniel Aarão Reis - História UFF (Universidade Federal Fluminense)
153) Antonio Paulo Rezende - História - UFPE (Universidade Federal de
Pernambuco)
154) Marcos Nascimento Magalhães – Matemática USP e ex-presidente da Adusp
(Associação dos Docentes da USP)
155) Maria Clara Di Pierro – Educação USP
156) Moacir Gadotti – Educação USP
157) Lisete R. G. Arelaro – Educação USP
158) Afrânio Mendes Catani – Educação USP
159) Lúcia E. Barreto Bruno – Educação USP
160) Doris Accioly e Silva – Educação USP
161) Roberto da Silva – Educação USP
162) Rubens Barbosa de Camargo – Educação USP
163) Vânia Noeli Ferreira de Assunção - História Cogeae PUC-SP
164) Antonio Ozaí da Silva – Ciências Sociais UEM (Universidade Estadual
de Maringá)
165) Joana Aparecida Coutinho - Ciência Política - UFMA (Universidade
Federal do Maranhão)
166) Antônio José Lopes Alves – Filosofia Colégio Técnico da UFMG
(Universidade Federal de Minas Gerais)
167) Sabina Maura Silva – Filosofia Fundação Helena Antipoff – Minas Gerais
168) Maria Helena da Silva – Diretora EE Carlos Drummond de Andrade
169) Conceição Gonçalves de Toledo - vice-diretora EE Carlos Drummond de
Andrade
170) Francisco Josino da Silva - EE Carlos Drummond de Andrade
171) Roni Cleber Dias de Menezes - Educação USP
172) Everton Capri Freire – ex-professor de Jornalismo Fiam (Faculdades
Integradas Alcântara Machado)
173) Ronaldo Fabiano dos Santos Gaspar - Pedagogia Unicastelo e FAD
(Faculdade Diadema)
174) Luís Roberto de Paula – antropólogo e ex-professor da Fundação Santo
André
175) Alvaro Bianchi - Ciência Política Unicamp
176) Celia Maria Benedicto Giglio – Pedagogia Unifesp (Universidade
Federal de São Paulo)
177) Marcos Antonio de Moraes – Letras USP
178) Marcos Pereira Rufino - Antropologia Unifesp (Universidade Federal de
São Paulo)
179) Luiz Antonio Zimermann do Nascimento – São Paulo
180) Luís Esteban Dominguez – Semiótica Cogeae PUC-SP
181) Regina Maria de Souza - Educação Unicamp
182) Luci Banks Leite - Educação Unicamp
183) Pedro Tórtima – Direito UCAM (Universidade Candido Mendes) Rio de
Janeiro
184) Miguel Wady Chaia - Ciência Política PUC-SP
185) Tânia Elias Magno da Silva – Sociologia UFS (Universidade Federal de
Sergipe)
186) Henri de Carvalho - História - Unimesp (Centro Universitário
Metropolitano de São Paulo)
187) Valéria Alves Esteves Lima - História Unimep (Universidade Metodista
de Piracicaba)
188) Antonio Miguel - Educação Unicamp
189) Karen Macknow Lisboa - História Unifesp (Universidade federal de São
Paulo)
190) Maria de Fátima Carvalho - Pedagogia Unifesp (Universidade Federal de
São Paulo)
191) Regina Cândida Ellero Gualtieri – Pedagogia Unifesp (Universidade
Federal de São Paulo)
192) Mônica Marques Pimenta de Andrade – Psiquiatria UFU (Universidade
Federal de Uberlândia) – aposentada
193) Carlos Eduardo Albuquerque Miranda – Educação
194) Carmen Roselaine de Oliveira Farias - Educação UFSCar (Universidade
Federal de São Carlos)
195) Rinaldo Voltolini - Faculdade de Educação da USP
196) Regina Maria de SOuza - Faculdade de Educação, UNICAMP, Campinas

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Cresce a pressão policial contra os dissidentes chineses às vésperas do congresso do PC

Bruno Philip
Correspondente em Pequim

À medida que se aproxima o 17º congresso do Partido Comunista, que terá início em 15 de outubro, os serviços de segurança chineses estão promovendo uma “limpeza”, esforçando-se para pôr fora de circulação, reduzir ao silêncio ou se livrar de vez dos importunos que poderiam estragar esta grande festa, que é organizada uma vez a cada cinco anos pelo partido único. Recentemente, a última personalidade que se tornou alvo da intimidação policial foi um advogado conhecido pelas suas declarações em favor dos direitos humanos. Tempos depois de a polícia ter-lhe pedido para deixar Pequim antes do início do congresso do PCC, Li Heping foi seqüestrado por um grupo de homens a paisana que foram buscá-lo em seu escritório, no sábado, 29 de setembro.

Eles lhe cobriram a cabeça com um saco e levaram-no para a grande periferia. Li Heping contou a sua aventura desagradável para o militante dos direitos humanos Hu Jia que, por sua vez, se encontra há meses em regime de prisão domiciliar, mas ainda consegue alimentar o seu blog, no qual ele contou a história do advogado. Embora este último não tivesse condições de confirmar que se tratava efetivamente de policiais, ele disse ter sido espancado, xingado, humilhado no subsolo de um edifício onde os seus torturadores, depois de uma terrível sessão de maus-tratos que durou seis horas, lhe ordenaram para deixar a capital o quanto antes…

“Exerça a sua profissão de advogado discretamente e não se meta em questões sensíveis…”, lhe aconselharam, em essência, os seus carcereiros de uma noite, que circulavam em dois veículos sem placas de identificação. Um outro advogado conhecido pelos seus posicionamentos “não conformes”, Gao Zhisheng, está desaparecido desde o final de setembro. A sua família, seus colegas e seus amigos ignoram o que aconteceu com ele, e temem que ele esteja sendo mantido em detenção em local secreto por agentes dos “serviços”.

A sua mulher, Geng He, está aterrorizada e praticamente desligou na cara dos seus interlocutores quando amigos de Gao Zhisheng tentaram entrar em contato com ela, afirma um comunicado publicado pela organização dos direitos humanos Chinese Human Rights Defenders (CHRD). Um outro ativista, Qi Zhiyong, citado neste mesmo comunicado, conta ter notado a presença de policiais a paisana na frente do domicílio de Gao Zhisheng, no dia do seu desaparecimento, em 22 de setembro.

Nove dias antes daquela data, o advogado havia se dedicado a fazer uma provocação que não é nem um pouco do gosto do regime chinês: ele havia publicado uma carta aberta destinada aos representantes do Congresso dos Estados Unidos, chamando a atenção para a situação dos direitos humanos na China e manifestando a sua indignação após ter sido informado de que George W. Bush havia aceitado o convite para vir assistir aos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. Nesta carta, que foi lida por senadores americanos durante uma coletiva de imprensa realizada em Washington, Gao Zhisheng explicava de quais maneiras “todos aqueles que se permitem associar os Jogos Olímpicos aos direitos humanos são perseguidos pelo regime comunista”, além de serem chamados de “inimigos do Estado” e de “destruidores da harmonia social”.

Este advogado, conhecido pelo apoio que ele andou proporcionando aos camponeses expropriados ilegalmente, defendendo-os em casos que envolvem membros do Partido Comunista, também lidou com casos envolvendo membros da seita mística proibida Fa Lun Gong. Em setembro de 2005, ele se viu destituído do direito de exercer a sua profissão. Em dezembro de 2006, ele foi acusado de “incitação à subversão” por ter ousado qualificar de “anticonstitucional” a repressão de Estado contra a seita. Ele foi condenado a três anos de prisão, que foram comutados numa pena com sursis. A carta destinada aos parlamentares americanos talvez tenha sido a gota d’água.

Tradução: Jean-Yves de Neufville.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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Inguchétia, vizinha da Tchetchênia: a outra guerra do Cáucaso do Norte

Marie Jégo
Enviada especial a Nazran, na Inguchétia

Assim como sempre acontece neste período de Ramadã, a família Galaev - a mãe, seus quatro filhos e uma cunhada - havia acordado antes do amanhecer, em 27 de setembro, em sua casa na aldeia de Sagopchi, para rezar e compartilhar uma refeição. Então, eles haviam voltado para os seus quartos, para dormir mais um pouco. Às 6h, homens armados, mascarados e trajando macacões de camuflagem irromperam na casa, abrindo fogo contra Said Magomed, 22 anos, e Rouslan, 20 anos.

Os homens mascarados “nada disseram, eles atiraram, e foi só”, relata Fassi, a mãe. Então, “eles quiseram arremessar granadas no interior da casa. Nós lhes suplicamos para nos deixarem sair. Eles ordenaram aos meus dois outros filhos, Taguir (26 anos) e Said Akhmet (11 anos), para transportarem os mortos até o pátio. Eles lançaram uma granada dentro de cada cômodo. Depois disso, eles forçaram o menino a permanecer postado durante horas perto dos corpos dos seus irmãos. Quanto a nós, eles nos levaram”, prossegue Fassi, sentada numa sala cujas paredes estão crivadas de impactos.

Após ter sido libertada ao anoitecer, depois dos protestos de uma centena de aldeenses que formaram uma delegação e marcharam até a delegacia, a família não entende o que aconteceu. A vizinhança, que acompanhou a “operação especial” de muito perto, compartilha a mesma consternação. “Se eles eram terroristas em fuga, conforme alega a polícia, por que então os seus nomes não constavam nas listas das pessoas procuradas?”, indaga, irritadíssimo, Boulat, um idoso que fita seu interlocutor com um olhar intenso.

As mulheres enxugam as suas lágrimas com os seus punhos cerrados. No meio delas, a cunhada, Madina, 19 anos, diz ter visto, no momento em que ela estava aguardando no pátio para ser levada, “um soldado retirar munições do seu carregador e colocá-las dentro do celeiro”. Oficialmente, os dois irmãos são descritos como “membros ativos” da rebelião. Se eles foram mortos, foi porque eles resistiram, acenando com armas. Mas nenhuma arma foi encontrada, a não ser aquelas que foram colocadas depois do crime pelos soldados próximo aos dois cadáveres dentro do pátio.

Uma região vizinha da Tchetchênia, no sul da Rússia, a Inguchétia (500.000 habitantes) está agitada por uma rebelião islâmica, que desponta como uma conseqüência da guerra tchetchena, e, desde a ascensão ao poder do general do FSB (serviços de inteligência russos), Mourat Ziazikov, em 2002, a uma repressão brutal.

Os homens que agiram no domicílio da família Galaev são membros das unidades móveis do MVD (ministério do interior) e do FSB, ou seja, 3.000 homens que foram enviados em meados de agosto para a Inguchétia com o objetivo de “proteger a população civil dos bandidos armados e garantir o trabalho criativo e tranqüilo dos cidadãos”.

Desde a chegada das unidades especiais, que foi seguida por um decreto do FSB que declarou a Inguchétia “zona de operações antiterroristas”, no início de setembro, as operações da rebelião - ataques com metralhadoras contra quartéis e delegacias, emboscadas contra comboios - se tornaram cotidianas.

Esses homens do MVD e do FSB têm o direito de vida e de morte sobre a população. Em Sagopchi, eles entraram em ação sem que a polícia da aldeia nem as autoridades tivessem sido informadas da intervenção. Eles estão acima das leis, não precisam de nenhum mandado de prisão, nunca comprovam as suas acusações. Eles agem em função de listas fornecidas pela polícia e pelo FSB inguchetianos.

“Estas listas comportam os nomes de supostos extremistas, de wahhabitas (adeptos de uma corrente fundamentalista do Islã) e de ’simpatizantes’. Elas foram elaboradas sem nenhum critério. Basta não assistir à pregação da sexta-feira para ter o seu nome incluído nelas”, explica um militante da associação Memorial em Nazran. Três praticantes, os irmãos Galaev constavam provavelmente da lista.

Uma bala na cabeça
E Mourad Bogatyriov, 37 anos, pais de três jovens crianças, será que ele constava também da lista? Em 8 de setembro, Assia Bogatyriova, a sua mulher, recebe uma ligação dos seus vizinhos: “O seu marido foi preso”. Ela retorna à sua casa, em Atchelouki (região de Malgobek), encontra a polícia inguchetiana em plena operação de busca. Uma ata lhe é entregue. O telefone celular do seu marido e o seu cartão Sim, foram confiscados, mas nenhuma arma foi encontrada. Rapidamente, ela corre até a delegacia para onde o seu marido foi levado, carregando a sua filha de 15 meses nos seus braços. “Eu fico aguardando no corredor. De repente, dois homens passam. Eles carregam uma maca, com um corpo. Eu reconheço o meu marido”.

Três horas depois da sua prisão, Mourad não está mais com vida. No atestado de óbito, o médico constata “uma insuficiência cardíaca”, mas também “um afundamento da caixa torácica, costelas quebradas, uma hemorragia das mãos e dos pés”. Ao passar novamente perto da sua casa, mais tarde, Assia verifica que os policiais continuam ali. A eles se juntaram soldados das unidades especiais do MVD. Esta segunda operação de busca revela-se bem mais produtiva do que a primeira: armas foram encontradas. Bogatyriov é mesmo um “boevik” (combatente).

Apti Dalakov, 21 anos, não era nem um “boevik”, nem um wahhabita. Ele era o amigo do filho da professora russa de curso primário, Vera Dragantchouk. Durante a noite de 30 a 31 de agosto, desconhecidos penetraram na casa de Vera, mataram o seu marido e seus dois filhos, com uma pistola dotada de um silenciador. Três dias mais tarde, Apti e três dos seus colegas são interpelados por homens do FSB a paisana, na frente de um cibercafé de Karaboulak. Apti se desembaraça e tenta fugir. Um dos homens atira nele.

Ferido, o jovem rapaz corre em direção à rua principal. Um carro, enviado para persegui-lo, tenta atropelá-lo e o fere no joelho. Apti desaba um pouco mais adiante. Um dos seus perseguidores surge, se agacha em sua direção e atira uma bala na sua cabeça. Então, ele coloca um objeto perto do corpo. A cena aconteceu no meio da rua, diante de dezenas de passantes. Khidriss estava lá. Ele não enxergou direito o objeto, mas tudo ficou mais claro quando o tribunal explicou que Apti havia morrido com uma granada na mão.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

Jornal Le Monde
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O etanol e o trabalho escravo

Cesar Sanson*

A corrida pelo etanol não apresenta apenas um risco ao meio ambiente. A cana-de-açúcar traz consigo miséria e condições de trabalho aviltantes para um contingente ainda grande de trabalhadores no campo - os cortadores de cana.

A pesquisadora Maria Aparecida de Moraes Silva, uma das maiores autoridades brasileira no estudo do impacto da monocultura da cana na exploração da mão-de-obra destaca que de 2004 a 2007 ocorreram 21 mortes, supostamente por excesso de esforço durante o corte da cana. A pesquisadora aponta ainda que a vida útil de um cortador de cana é inferior a 15 anos, nível abaixo dos negros em alguns períodos da escravidão.

Esse é o preço a ser pago para re-inserir o país no competitivo mercado internacional dos commodities. Mas o preço pode ser ainda maior - o do trabalho escravo. Nas últimas semanas ganhou espaço na mídia nacional algo que estava oculto. Ironicamente quem trouxe à tona a repercussão em torno da maior libertação de trabalhadores em condições análogas à escravidão no país foi o agronegócio.

No final de junho, 1.106 trabalhadores da cana no Pará, no município de Ulianópolis, foram resgatados pelo grupo móvel de fiscalização do Ministério do Trabalho em condições análogas ao trabalho escravo. As palavras de um trabalhador resumem as condições de trabalho: “Tratavam a gente igual a porco”.

Destaque-se que a empresa autuada, a Pará Pastoril e Agrícola S.A. (Pagrisa), vendia álcool a BR Distribuidora, empresa subsidiária da Petrobras, que anunciou a suspensão da compra após a denúncia de trabalho escravo. Foi a interrupção do lucro que deixou os fazendeiros furiosos.

O agronegócio, incomodado com o que considera excessos do grupo móvel de fiscalização do Ministério do Trabalho e abuso de autoridade, acionou o senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA). Foi a partir desse momento que a maior operação de libertação de trabalhadores em situação de escravidão ganhou repercussão nacional.

O caráter incomodo da ação da fiscalização realizada pelo Ministério do Trabalho foi denunciado por frei Xavier Plasat, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), para quem “enquanto o presidente Lula percorre continentes oferecendo contratos de fornecimento do novo maná energético, a bancada ruralista quer nos mostrar o setor sucro-alcooleiro como a vítima expiatória de uma fúria anti-brasileira conduzida por elementos irresponsáveis, descontrolados e até criminosos, do Ministério do Trabalho e seus aliados”.

Entretanto para alguns, tudo vai bem. É o caso da surpreendente manifestação de satisfação com a conjuntura nacional demonstrada pelo megaempresário Antonio Ermírio de Moraes que em entrevista à imprensa afirmou “não há o que reclamar”. O presidente do conselho de administração do Grupo Votorantim, destaca que vai tudo muito bem no país.

Com esse entusiasmo todo, Antonio Ermírio de Moraes certamente não participa do movimento ‘cansei’. Ele até poderia fundar o movimento ‘Nada a reclamar’!

O otimismo do empresário e o seu “nada do que reclamar” contrasta com as jornadas de luta daqueles que têm o que reclamar. O MST passou a semana em atos por todo o país pedindo agilidade à morosa reforma agrária. No mundo urbano, protestaram também os sem teto no Dia Nacional da Reforma Urbana.

(*) Pesquisador do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores e doutorando de Ciências Sociais na UFPR. Esta análise foi feita em um trabalho conjunto com a equipe do Instituto Humanistas Unisinos (IHU).

Instituto Humanitas Unisinos
http://www.unisinos.br/ihu/index.php

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TROPA DE ELITE (esse filme eu já vi)

Ricardo Crô
Data: 04/10/2007

Uma sessão concorrida. Com corrida de repórteres e cinegrafistas para todos os lados, para, exemplarmente, furtar o melhor ângulo, seqüestrar a melhor imagem. Meio que um “making off”. Preparação para um grande espetáculo de truculência e cinismo. Com certeza, sucesso de público, crítica e bilheteria, claro! Em cartaz a tropa de elite.

Em cana! Ou melhor… em cena novamente, o collorido Renan, lembram dele? É… aquelle! Aquele mesmo! À época, menos careca que, contracenando com o outrora rechonchudo Roberto Jefferson, protagonizou aquela “tragédia grega” que impitimou o presidente da Casa da Dinda. O garanhão alagoano que dizia que tinha aquilo roxo. Página infeliz da nossa história.

Levado a.mudar de roupagem, numa nova linhagem, ele foi debutar. Renan, o hoje todo poderoso chefão do Congresso Nacional, desta feita, conta com uma trupe de coadjuvantes, que faria ir às gargalhadas, até o carrancudo jurado televisivo, o extinto Pedro de Lara. Cômico, se não fosse trágico…

O cenário é novo. Mas o seguro morreu de velho! O Conselho de Ética e Decoro Parlamentar – pra lamentar –, onde rolam os processos contra o presidente do Senado, mais parece um bizarro picadeiro. Com o todo respeito à categoria dos palhaços. A pantomima política, segundo o folclórico senador piauilino Mão Santa, deixaria Ruy Barbosa, um parlamentar do tempo em que Dondom jogava no Andaraí, boquiaberto.

O Conselho é presidido pelo processado senador Leomar Qintanilha, do PMDB do Tocantins, aliadíssimo de Calheiros. O relator de um, dos três processos a que Renan responde, é também um peemedebista, Almeida Lima. Lima, que não é da Pérsia, é sergipano, sempre foi um parlamentar de atuação medíocre. Escolhido a dedada, sempre se notabilizou por defender, de forma canina, o seu melhor amigo.

Outro destacado astro desse universo em desencanto é o ensaboado Wellington Salgado de Oliveira. Esse mercadante da educação, um mineiro que, pelo jeito, não come quieto, tem também suas pendengas com a justiça. Não a Divina, a dos homens. É mais um peemedebista dessa trama. Ou seria dessa tramóia? O doce Salgado é um dos mais ardorosos defensores de Renan. O cabeludo suplente, que não faz suspense, vai às últimas conseqüências na defesa dos seus pares, mesmo se achando ímpar.

O grande elenco não conta só com esses atores baixocleristas. A potentosa petista Ideli Salvatti – tal qual sua colega cassada pelas urnas, Ângela Guadagnin, aquela gordinha da dança da pizza – desfila sobre os tapetes azuis senatoriais defendendo o presidente da Casa, como se fora os mensaleiros do petismo. O líder do governo Lula, que também liderou o de FHC, Romero Jucá – qualquer semelhança é mera coincidência –, faz das tripas coração para livrar seu superior hierárquico da degola. Isso sem pedir um, um único cargo em troca. Vai ser alinhado assim lá na base governista. Puts…

Ah! Vou me abster. Farei como o errático Mercadante. Vou me abster seis vezes. Não quero e nem vou lembrar da atuação vergonhosa de outro petista, o senador Simbá, o Marujo. Ou melhor… Sibá, o Machado. Aliás, como diria uma amiga minha: ele não tem uma cara de suplente?

É com esse dramalhão que estamos convivendo nesses últimos meses, para não dizer nesses últimos anos. O Congresso Nacional, Câmara e Senado, vêm nos deixando, a todos, profundamente envergonhados, desiludidos, fulos da vida. Abestados, diria o neo-progressista, senador Jarbas Vasconcelos. Aliás, dia desses, Jarbas dissera que o Senado fedia. Aí reside a dúvida: o Senado fede mais por que é podrinho, ou é podrinho por que fede mais? Eis a questão…

Pois bem… recolhemos juntos com a cidadania, 60 mil assinaturas. Foram sessenta mil brasileiros. Todos fazendo o papel principal, em diversos estados que, indignados, exigiam e, ainda exigem, a punição para Renan Calheiros e, para todo e qualquer agente público ou privado, que esteja envolvido em falcatruas.

Contudo, nem tudo está perdido. Claro que existem bons e ótimos parlamentares no Congresso e em quaisquer casas legislativas. Evidente que no governo tomaladacá de Lula, não impera só o fisiologismo, o clientelismo, o bolsismo. Óbvio que existem muitos magistrados que são como o nosso exemplar Joaquim Barbosa. O juiz negão do Supremo que detonou os quarenta amigos do Ali Babá.

Portanto, nem só de figuras horrendas vive o nosso povo.

E… enquanto isso, num reino tão… tão distante… Renan vai continuar tomando uma Schincariol suadinha. Rirá da nossa cara, com a boca cheia de dentes e da carne do churrasco das vacas voadoras de Murici, regadas à farofa e ao molho vinagrete.

Pior… pior… vai gozar! Vai nos gozar, ao debulhar, feito um pleibói, as páginas deliciosas com as fotografias da Mônica Veloso, nuínha, do jeitinho que ela veio ao mundo. É mole?! Pra isso não tem voto secreto e nem sessão fechada. Fui!!!

Site do Deputado Federal Chico Alencar (Psol - RJ)

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NYT diz que Alberto Gonzales apoiou uso de tortura pela CIA

Ex-secretário de Justiça apoiou táticas de repressão nunca usadas para interrogatórios, afirma jornal

Ex-secretário renunciou ao cargo no final do mês de agosto
WASHINGTON - Quando ocupava o cargo de secretário da Justiça dos Estados Unidos, Alberto Gonzales apoiou secretamente o uso de técnicas severas, nunca antes utilizadas pela CIA (agência de inteligência americana), nos interrogatórios de suspeitos de terrorismo, segundo informa a edição desta quinta-feira, 4, do jornal The New York Times.

Em dezembro de 2004, o Departamento de Justiça americano declarou publicamente que a tortura era uma prática “abominável”. Mas a situação mudou após a nomeação de Gonzales em fevereiro de 2005, segundo o jornal, que cita como fontes vários funcionários de Washington. Envolvido nas acusações de perjúrio e escândalos diante do Congresso, Gonzales renunciou no final do mês de agosto.

O “novo conceito” circulou em documentos secretos e “pela primeira vez dava uma autorização explícita para os interrogatórios de suspeitos de terrorismo com uma combinação de táticas que provocavam dor física e psicológica”, que incluíam golpes na cabeça, a simulação de afogamentos e submetê-los a temperaturas geladas, denuncia o New York Times.

O memorando sobre “efeitos combinados” para os interrogatórios foi criticado pelo então vice-ministro de Justiça, James B. Comey. Ele advertiu que os funcionários do Departamento se “envergonhariam” quando as ações fossem descobertas.

No final de 2005, o Congresso considerou ilegal o tratamento “cruel, desumano e degradante” dos prisioneiros, o que fez o Departamento de Justiça emitir outra “opinião secreta”, na qual assegurava que os métodos de interrogação utilizados pela CIA não

violavam esses padrões, informou o jornal. O NYT afirmou ter entrevistado mais de 20 funcionários e ex-funcionários do Departamento envolvidos na luta contra o terrorismo e a maior parte das fontes preferiu o anonimato.

Os documentos secretos com as recomendações para os interrogatórios eram assinados por Steven G. Bradbury, que desde 2005 dirigia a Seção de Consultoria Jurídica no Departamento de Justiça.

Em 2006 a Suprema Corte determinou que as Convenções de Genebra se aplicavam também aos prisioneiros que integravam a rede terrorista Al-Qaeda. Apesar disso, em julho do mesmo ano, o presidente dos EUA, George W. Bush, assinou uma nova norma executiva autorizando as técnicas de interrogatório “intensificadas”. Segundo o jornal, as práticas continuam sendo secretas, enquanto a CIA mantém prisioneiros suspeitos de terrorismo em “lugares obscuros” no exterior.

Os agentes da CIA desenvolveram o programa após consultar os serviços secretos do Egito e da Arábia Saudita, e copiando métodos de interrogatórios usados na extinta União Soviética.

Os agentes se preocuparam com as implicações legais das práticas depois que vários dos seus colegas foram investigados durante três anos após assessorar funcionários peruanos que, no início de 2001 derrubaram um avião de missionários por confundi-los com traficantes, segundo o jornal.

A gestão de Gonzales foi cercada pela polêmica do afastamento de oito procuradores federais dispensados sem explicações e os rumores, nunca comprovados, de que as demissões tiveram motivação política. A maioria dos demitidos investigava casos de corrupção envolvendo o governo federal e o tratamento de detidos como supostos terroristas.

Gonzales foi criticado por ONGs de direitos civis por escrever, em janeiro de 2002, que parte da Convenção de Genebra para o tratamento de prisioneiros, escrita há meio século, havia ficado “obsoleta” e tinha algumas regras “esquisitas”. Ele também foi criticado pelo programa de espionagem sem ordem judicial, adotado após os atentados de 11 de setembro de 2001. Só em janeiro, numa decisão abrupta, Gonzales finalmente anunciou que o programa estaria sujeito a aprovação judicial.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

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Dossiê mundial de Scientific American Brasil discute a chamada “transição nutricional”

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Em outubro, Scientific American Brasil publica especial sobre a obesidade no mundo contemporâneo, fenômeno intensificado pela globalização

Se na década de 60 os cientistas previam que a humanidade seria acometida pela “fome em massa”, hoje, quase 50 anos depois, a discussão que ganha força, paradoxalmente, é a obesidade como problema de saúde pública, atingindo mais de um bilhão de pessoas em todo mundo, incluindo os países em desenvolvimento.

Esse é o tema do dossiê mundial publicado em outubro pelas edições de Scientific American ao redor do globo. Uma vez por ano, a revista publica simultaneamente nos 21 países em que está presente uma série de artigos em torno de um assunto relevante para o futuro da humanidade. Os textos, assinados por especialistas de várias nacionalidades, atingem milhões de leitores em países como Brasil, Alemanha, Índia, China e Canadá.

Abrindo a edição especial, o jornalista Gary Stix introduz o tema da transição nutricional, fenômeno sociológico da globalização que confere ao sobrepeso e à obesidade um papel mais preocupante que o da fome no planeta. Mais preocupante ainda é o fato, apontado pelos autores do dossiê, de que os governos não estão preparados com políticas públicas para enfrentar a questão.

Neste contexto, o artigo da nutricionista Marion Nestle aborda os diferentes (e muitas vezes confusos) tipos de dieta utilizados hoje para concluir que a mensagem mais simples é provavelmente a melhor: comer menos, exercitar-se mais, incluir frutas, hortaliças e grãos integrais na dieta e evitar a “junk food”. Nestle analisa ainda a questão ética sobre o financiamento de estudos clínicos por parte de indústrias alimentícias e de bebidas.

Em seu artigo sobre a obesidade no mundo, o epidemiologista nutricional Barry Popkin aborda a dieta ocidental pouco saudável que a globalização levou aos países em desenvolvimento. Segundo Popkin, as camadas mais pobres da população desses países aumentaram muito o consumo de bebidas adocicadas, alimentos de origem animal e óleos vegetais, além de terem adotado um estilo de vida que contribui para a obesidade, como assistir televisão e utilizar veículos motorizados.

O especial aborda ainda o uso da biotecnologia no combate à desnutrição, por meio das lavouras geneticamente modificadas, a questão dos alimentos contaminados, vistos como uma forma perigosa de terrorismo, e um artigo especial sobre a questão da obesidade no Brasil, que já atingiu a base da pirâmide populacional.

Sobre a Scientific American Brasil – www.sciam.com.br

Publicada desde 2002 pela Duetto Editorial, a Scientific American Brasil é a edição brasileira da mais tradicional revista de divulgação científica do mundo. Com circulação de 40 mil exemplares por mês (IVC), a revista dá aos leitores informação de qualidade em artigos produzidos por especialistas estrangeiros e brasileiros dos mais diversos campos da ciência. O grupo Conhecimento da Duetto publica ainda as revistas História Viva, Mente&Cérebro, EntreLivros e Brasil História, que podem ser adquiridas pelo site www.lojaduetto.com.br.

Serviço:
Scientific American Brasil
N° 65 – Outubro
R$10,90

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Ciberguerra: o crescimento da ameaça chinesa

Laurent Zecchini

De junho a setembro, cinco países - Estados Unidos, Alemanha, Grã-Bretanha, França e Nova Zelândia - anunciaram ter sofrido ciberataques de hackers (piratas informáticos) chineses. Entretanto, nenhum desses governos chegou a ponto de envolver oficialmente o governo de Pequim. Se alguns deles fizessem essa denúncia, isso equivaleria a acusar a China de ter desencadeado uma verdadeira “guerra informática”, o que com toda certeza não deixaria de ter conseqüências diplomáticas. Entretanto, alguns serviços de inteligência ocidentais não escondem, de maneira não-oficial, as suas fortes presunções em relação ao papel ativo exercido pelo Exército Popular de Liberação (APL) nesta ciberguerra.

As suas suspeitas concentram-se no “terceiro departamento” da APL, encarregado da guerra eletrônica, a qual passa pela penetração de sistemas informáticos de governos estrangeiros. Este serviço está separado do “segundo departamento”, que se dedica exclusivamente à “colher informações humanas”. Os serviços de inteligência chineses constituem uma vasta nebulosa que mobilizaria no total cerca de dois milhões de agentes, permanentes ou ocasionais.

É dentro do conjunto formado por estes últimos que devem ser classificados os cerca de 20.000 “hackers patrióticos” chineses. Estabelecer a relação entre o terceiro departamento e os “hackers patrióticos” não é uma tarefa fácil. Mas os especialistas ocidentais adquiriram a quase-certeza de que um vínculo físico existe, por intermédio de várias dezenas de universidades e de centros de pesquisas, civis e militares, que dependem do ministério chinês da segurança pública (MSP ou “Gonganhu”).

No que diz respeito aos ataques contra sites governamentais ocidentais, que, na sua grande maioria, tomaram a forma de envios de arquivos “contaminados”, anexados a mensagens de e-mail, a “assinatura” não foi fácil de determinar, mas foi possível remontar algumas pistas, até chegar a endereços eletrônicos localizados na China.

“Nós pensávamos, inicialmente, que esses grupos haviam sido desmantelados”, observa um especialista. “Mas, atualmente, nós estamos convencidos de que existe um controle provincial e nacional dos ‘hackers patrióticos’”. A intenção de ir mais adiante, de provar que os conglomerados de hackers, como a Red Hackers Alliance ou a China Eagle Union, são vinculados às máfias chinesas, que se servem da Web para engordar o seu tesouro de guerra; de estabelecer que estas últimas são “terceirizadas” que atuam em benefício dos serviços de inteligência chineses; e que estes últimos controlam igualmente as “Tríades” (grupos que estão na origem das sociedades secretas, hoje as máfias), é uma tarefa que os serviços de inteligência ocidentais qualificam de muito aleatória, por ser extremamente difícil, para eles, dispor de fontes humanas de informação na China.

No entanto, são várias as razões que incitam os especialistas da inteligência a concluírem que Pequim se envolveu numa vasta ofensiva informática visando a testar, e até mesmo a tentar penetrar os serviços governamentais de países ocidentais. Em primeiro lugar: a China contava 5.000 internautas em 1995, 46 milhões em 2002, 87 milhões em 2004 e 137 milhões em 2007 (10,5% da sua população total e 30% daquela de Pequim).

Em número de internautas, ela está no segundo lugar, atrás dos Estados Unidos. Desde o início, as autoridades chinesas entenderam que seria ilusório tentar montar barricadas para se proteger contra a epidemia da Internet e que seria mais judicioso facilitar a sua expansão, mantendo-a sob um controle estrito.

Atualmente, os nove provedores de acesso, liderados pelo ChinaNet, que atende 80% dos internautas chineses, estão sob o controle do ministério da indústria e da informação. As sociedades estrangeiras, entre as quais o americano Cisco Systems, que pretendiam se implantar no mercado chinês conseguiram alcançar o seu objetivo, com a condição de aceitar a vigilância estatal da rede, ou seja, de “colaborar”.

A boa execução deste contrato, assim como a tarefa de vigiar os sites e dos cibercafés são garantidas por milhares de “policiais da Web”. As sanções são tão drásticas que as autoridades chinesas não têm nenhuma dificuldade em “responsabilizar” internautas e provedores de acesso, uma vez que estes últimos exigem a identidade dos primeiros e o seu endereço IP (número do computador).

O que quer a China? Frente à superpotência militar americana, explica um especialista, ela optou por implementar uma doutrina de “dissuasão assimétrica”, concentrando-se em algumas técnicas de ponta. O recurso aos serviços dos hackers é um exemplo disso, mas a “iluminação” por meio de uma arma com laser de um satélite americano em 2006, seguida pelo lançamento de um míssil anti-satélite em 11 de janeiro fazem parte desta demonstração de poderio.

“É por isso”, acrescenta esta mesma fonte, “que os chineses deixaram aparecer, pela primeira vez, uma possibilidade de rastrear os ciberataques até a sua origem, de modo a tornar crível a sua dissuasão informática”. A China não é o único país a ter-se preparado em previsão, possivelmente, de uma verdadeira ciberguerra. Os Estados Unidos se dotaram de um comando específico, o Usstratcom, cuja missão é também de aniquilar a liberdade de ação de um inimigo no ciberespaço, uma meta que passa pela destruição das suas redes informáticas.

A França reconhece ter elaborado e testado técnicas de defesa, mas, conforme sublinha um especialista, “para se defender, é preciso conhecer as tecnologias de ataque”.

Além da cibercriminalidade, a ameaça informática encampada por Estados representa o maior perigo que ameaça a Internet. Os especialistas, em contrapartida, não crêem no surgimento de um ciberterrorismo. Com efeito, a busca de um efeito de terror é mais fácil de se obter por meio de atentados suicidas do que pela ameaça, muito aleatória, de provocar uma paralisia das redes informáticas.

A vantagem, para chamá-la assim, dos ciberataques está na relativa impunidade do atacante. Os estonianos, que foram alvos de um ataque maciço em abril, reconhecem hoje que as suas acusações contra o governo russo foram um pouco apressadas, sem serem necessariamente equivocadas: milhares de hackers russos (”patrióticos” ou não), instalados na Rússia e na Estônia, participaram desta ofensiva. Será que eles tinham vínculos com o governo russo? Ninguém pode responder com toda certeza. “Não existe nenhuma assinatura de DNA em matéria de informática”, observa um especialista.

Tradução: Jean-Yves de Neufville.

Jornal Le Monde
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Alunos e professores da Fundação realizam novo protesto

Liora Mindrisz (liora@abcdmaior.com.br)

Na passeata deste sábado, manifestantes percorreram as ruas do Centro de Santo André

Estudantes e professores da Fundação Santo André realizaram neste sábado (06/10) mais uma manifestação pela destituição do reitor Odair Bermelho. Eles cobram uma reunião do Conselho Universitário para decidir pela saída do reitor. Na segunda-feira (08/10) realizam nova assembléia.

A concentração dos manifestantes ocorreu no campus da universidade por volta das 14h. O grupo de estudantes e professores, cerca de 150 pessoas, subiu a avenida Príncipe de Gales em direção ao Centro.. A passeata era seguida por alguns carros. Em todo o percurso, os alunos entregavam para os motoristas e pedestres panfletos sobre a situação de greve e seus motivos.

Na praça do Carmo, os manifestantes fizeram discursos no carro de som, cobrando da Prefeitura e dos vereadores de Santo André alguma posição. Depois seguiram até a avenida Perimetral e, de lá, finalizaram o ato no paço municipal, por volta das 17h. No Centro, o grupo se encontrou com outros manifestantes. Ao final, cerca de 200 pessoas participaram do ato.

Assembléia - A estudante de Ciências Sociais e representante dos alunos no Conselho Universitário Aline Elisabeth Belarmina dos Santos, disse que as manifestações e a greve não param até que o reitor seja destituído. “Na segunda-feira (08/10) acontece outra assembléia na fundação onde os alunos vão apresentar suas propostas para novos atos. Ainda estamos aguardando a reunião do conselho diretor e o posicionamento das autoridades da cidade”, afirmou a universitária.

O professor do colégio da Fundação Santo André Ricardo Alvarez participou da passeata e elogiou a organização e iniciativa dos alunos. “Os estudantes estão dando uma aula. Duas coisas me surpreenderam: professores e alunos unidos, se manisfestando juntos, e o fato das manifestações estarem saindo dos muros da Fundação Santo André. Eles estão dialogando com a sociedade”.

Para Alvarez, o diálogo com a sociedade é importante pois a Fundação é patrimônio público. “O que está acontecendo é uma destruição da Fundação como uma instituição pública para uma universidade privada e os alunos estão resistindo à isso e estão dialogando com a sociedade. A Fundação é um patrimônio do povo da cidade, o que os alunos estão fazendo é legítimo. É mostrar à sociedade o que está acontecendo lá dentro”, afirmou.

Colégio – Alunos do colégio também participam do movimento pela destituição do reitor. Neste sábado, o grupo S.O.S Fundação organizou uma festa no prédio do colégio. Muitos manifestantes voltaram para a festa após a passeata. Alvarez explicou porque o colégio não segue o exemplo da Fafil (Faculdade de Filosofia). “Eu não estou em greve pois sou professor do colégio e lá a gente lida com menores de idade. Mesmo assim alguns professores decidiram aderir o movimento, participam das manifestações, mas o colégio está funcionando precariamente. Estamos fazendo aulas mais curtas, então nós também temos um calendário no colégio”, conta.

ABCD Maior

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Estados Unidos: realistas versus neoconservadores

Virgílio Arraes
01-Out-2007

Desde a derrota nas eleições de novembro de 2006, há, internamente, no Partido Republicano a acentuação do tensionamento entre as suas duas principais tendências: de um lado, os neoconservadores enfraqueceram-se, em vista da saída do secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, e do embaixador junto à Organização das Nações Unidas, John Bolton. Ambos apresentaram ao presidente George Bush os seus respectivos pedidos de exoneração com uma diferença apenas de pouco mais de uma semana, haja vista os esforços da Casa Branca para assegurar a permanência ao menos de Bolton, bastante próximo do vice-presidente Dick Cheney.

Por seu turno, os realistas tradicionais fortaleceram-se, ao efetivarem o novo titular da Defesa, Robert Gates, compartilhante da visão de mundo simbolizada por James Baker, responsável pelo Departamento de Estado durante a gestão George Bush Sr. Naquela época, houve o êxito militar na Guerra do Golfo, ao expulsar-se o Iraque do Kuwait por meio de uma coligação multilateral. A substituição de Rumsfeld por Gates teria simbolizado - mesmo sob resistência dos partidários de Cheney - o reconhecimento de que a política externa norte-americana fracassou, ao cobiçar a imediata transformação político-econômica da área médio-oriental - não se assistia a tamanho voluntarismo desde o período da Guerra da Coréia, no desdobrar da bipolaridade.

Atualmente, em função do horizonte temporal delineado, deslocou-se a diplomacia para um plano secundário. Ao mesmo tempo, delegou-se na utilização da tecnologia bélica confiança imoderada, o que justificaria o envio de um número menor de combatentes - em torno de 1/3 se comparados aos empregados na primeira versão do conflito - e, por conseguinte, possibilitaria menor desgaste perante a opinião pública do país, flagelada de quando em quando pelas lembranças sinuosas da Guerra do Vietnã.

As raízes da credulidade na superioridade da via militar sobre a diplomática formaram-se nos primeiros anos da década de 90. Naquele contexto, atribuiu-se, na análise retrospectiva, à reestruturação do complexo bélico norte-americano a fadiga soviética e conseqüente derrocada, por incapacidade de poder atualizar-se no compasso requerido. Os Estados Unidos, ao serem a superpotência remanescente, não se sobrepuseram, por outro lado, à tentação da jactância, de sorte que o multilateralismo - não obstante o êxito na I Guerra do Golfo - seria gradualmente desconsiderado pelos formuladores republicanos - em geral, mais conservadores -, especialmente no duplo quadriênio em que seriam alijados do Poder Executivo. No retorno à presidência da República, a postura individualista deles seria fixada sem acanhamento, haja vista o rechaço à manutenção ou aperfeiçoamento de acordos militares - relacionados a mísseis antibalísticos ou a testes de armamentos nucleares, por exemplo - ou à implementação de tratados na área ambiental - Protocolo de Quioto - ou na criminal - Tribunal Penal Internacional.

O intento de maior impavidez, no entanto, dos neconservadores não foi a rejeição de determinadas tratativas internacionais - sob a alegação generalizada de que haveria transferência parcial de soberania, o que afrontaria a carta constitucional do país -, mas o empenho em assegurar, na maior extensão possível, o controle de reservas de combustíveis fósseis no Oriente Médio.

Na prática, isso significou confrontar eventualmente o Irã ou o Iraque, dado que com a Arábia Saudita o relacionamento tem sido bastante próximo, a despeito de alguns arrufos. Segundo recente declaração de Alan Greenspan, ex-responsável pela administração do Banco Central dos Estados Unidos por quase duas décadas, a defenestração do ditador Saddam Hussein teria sido, em princípio, essencial para assegurar a estabilidade da economia mundial. No fim, os Estados Unidos, de acordo com a perspectiva neoconservadora, transformar-se-iam nos terras-tenentes da região, de sorte que choques do petróleo seriam memória longínqua do período da Guerra Fria.

A condução de Robert Gates ao Departamento de Defesa demonstrou a postura equivocada de tal delineio. Mesmo sendo adepto do realismo, Gates reconhece a necessidade de utilizar, de forma mais expandida, o diálogo. De imediato, não se descortina mais a possibilidade de fixar de fato a democracia no Iraque, mas estabilizar o país minimamente. O aparato bélico é ainda importante, mas o emprego de instrumentos de dissuasão também. Na avaliação de Gates, o potencial da Agência dos Estados Unidos de Desenvolvimento Internacional (USAID) foi subestimado desde o fim do período bipolar. Portanto, há o convencimento, mesmo tardio, de Washington de alterar o curso de sua presença em território iraquiano.

Contudo, o novo dirigente encontra-se entre a cruz e a caldeirinha, porque o tempo é-lhe totalmente desfavorável para refletir sobre a formulação de uma nova concepção a ser implementada, em decorrência da obsessão de os remanescentes neoconservadores na Casa Branca acreditarem ser ainda possível aplicar as diretrizes outrora estipuladas para o Irã, de feitio similar às do Iraque.

Virgílio Arraes é professor de Relações Internacionais na UnB.

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/

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