Arquivo de 8 de Outubro de 2007

O SENADOR IMEXÍVEL

Frei Betto

“Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência?”, indaga Marco Túlio Cícero, referindo-se ao senador Lúcio Sérgio Catilina, a 8 de novembro de 63 a.C., em Roma. Flagrado em atitudes criminosas, Catilina se recusa a renunciar ao mandato, urdindo um golpe contra o Senado.

Cícero, orador emérito, respeitado por sua conduta ética na política e na vida pessoal, põe em sua boca a indignação popular: “Por quanto tempo ainda há de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda noturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disto conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos?”

“Ó tempos, ó costumes!”, exclama Cícero movido por sua atormentada perplexidade diante da insensibilidade do acusado. “Que há, pois, ó Catilina, que ainda agora possas esperar, se nem a noite, com suas trevas, pode manter ocultos os teus criminosos conluios; nem uma casa particular pode conter, com suas paredes, os segredos da tua conspiração; se tudo vem à luz do dia, se tudo irrompe em público?”

Jurista, Cícero se esforça para que Catilina admita os seus graves erros: “É tempo, acredita-me, de mudares essas disposições; desiste das chacinas e dos incêndios. Estás apanhado por todos os lados. Todos os teus planos são para nós mais claros que a luz do dia.”

Se Catilina permanece no Senado, não é apenas a vontade própria que o sustenta, mas sobretudo a cumplicidade dos que teriam a perder, com a renúncia dele, proveitos políticos. Daí a exclamação de Cícero: “Em que país do mundo estamos nós, afinal? Que governo é o nosso?”

Cícero não teme ameaças e expressa o que lhe dita o decoro: “Já não podes conviver por mais tempo conosco; não o suporto, não o tolero, não o consinto. (…) Que nódoa de escândalos familiares não foi gravada a fogo na tua vida? Que ignomínia de vida particular não anda ligada à tua reputação? (…) Refiro-me a fatos que dizem respeito, não à infâmia pessoal dos teus vícios, não à tua penúria doméstica e à tua má fama, mas sim aos superiores interesses do Estado e à vida e segurança de todos nós.”

Os crimes de Catilina escancaram-se à nação. Seus próprios pares o evitam, como assinala Cícero: “E agora, que vida é esta que levas? Desejo neste momento falar-te de modo que se veja que não sou movido pelo rancor, que eu te deveria ter, mas por uma compaixão que tu em nada mereces. Entraste há pouco neste Senado. Quem, dentre esta tão vasta assembléia, dentre todos os teus amigos e parentes, te saudou? Se isto, desde que há memória dos homens, a ninguém aconteceu, ainda esperas que te insultem com palavras, quando te encontras esmagado pela pesadíssima condenação do silêncio?”

Catilina finge não se dar conta da gravidade da situação. Faz ouvidos moucos, jura inocência, agarra-se doentiamente a seu mandato. “Se os meus escravos me temessem da maneira que todos os teus concidadãos te receiam” – brada Cícero -, “eu, por Hércules, sentir-me-ia compelido a deixar a minha casa; e tu, a esta cidade, não pensas que é teu dever abandoná-la? E se eu me visse, ainda que injustamente, tão gravemente suspeito e detestado pelos meus concidadãos, preferiria ficar privado da sua vista a ser alvo do olhar hostil de toda a gente; e tu, apesar de reconheceres, pela consciência que tens dos teus crimes, que é justo e de há muito merecido o ódio que todos nutrem por ti, estás a hesitar em fugir da vista e da presença de todos aqueles a quem tu atinges na alma e no coração?”

Cícero não demonstra esperança de que seu libelo seja ouvido: “Mas de que servem as minhas palavras? A ti, como pode alguma coisa fazer-te dobrar? Tu, como poderás algum dia corrigir-te?” E não poupa os políticos que, apesar de tudo, apóiam Catilina: “Há, todavia, nesta Ordem de senadores, alguns que, ou não vêem aquilo que nos ameaça, ou fingem ignorar aquilo que vêem.”

Catilina acaba se refugiando na Etrúria e morre em 62 a.C.. Cícero, afastado do Senado por Júlio César, é assassinado em 43 a.C.

Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Mario Sergio Cortella, de “Sobre a esperança” (Papirus), entre outros livros.

Correio da Cidadania
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Melhores do Congresso

Vote nos parlamentares do PSOL

O sítio de notícias “Congresso em Foco” iniciou na última terça-feira (18/9) a votação que definirá os melhores congressistas do país deste ano. Até 18 de novembro o internauta poderá votar. Na primeira etapa votaram 188 jornalistas que cobrem o Congresso Nacional, que selecionaram 25 deputados e 16 senadores. Todos os parlamentares do PSOL – Ivan Valente, Chico Alencar, Luciana Genro e o senador José Nery - ficaram entre os 15 primeiros.

Meus votos são:

Ivan Valente (Deputado Federal Psol SP)
José Nery (Senador Psol PA)

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‘Continuísmo privatista’ em São Paulo será o fim da função estratégica do Estado

Mateus Alves
05-Out-2007

A abertura da licitação para o levantamento dos valores de mercado de empresas controladas pelo governo de São Paulo pode ser um indício da retomada do mal-sucedido processo de privatização das empresas públicas, que dilapidou o patrimônio do estado durante a década de 1990.

Durante sua campanha para as eleições de 2006, José Serra tratou o assunto – assim como seu colega tucano Geraldo Alckmin, que deixava o Palácio dos Bandeirantes para disputar a presidência do país – como um tabu, reiterando diversas vezes que a venda de patrimônio público não faria parte de seu programa de governo.

No entanto, o edital da licitação promovido pela Secretaria da Fazenda de São Paulo prevê que as empresas vencedoras, além da avaliação dos valores de mercado, poderão realizar operações como a abertura de capital na Bolsa e a venda de ações das companhias.

Embora o governo não tenha esclarecido se irá vender ou não as empresas, especula-se que pelo menos boa parte delas tenha o seu capital aberto, introduzindo a participação de entes privados no controle da empresa – aos mesmos moldes de Petrobras e Banco do Brasil, por exemplo.

Principais alvos

As 18 estatais que serão colocadas sob análise estão divididas em três grupos, de acordo com seus ativos e o potencial de rentabilidade. Cesp, Nossa Caixa e Sabesp são as três “jóias da coroa” do estado de São Paulo e fazem parte do primeiro grupo.

No segundo grupo, com empresas de potencial médio, estão o Metrô, a CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano), a CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), a Dersa, a Emae – do setor de água e energia - e a Cosesp, do setor de seguros.

As empresas restantes são a CPP, Cetesb, Prodesp, Imprensa Oficial, EMTU, CPOS, IPT, Codasp e Emplasa. Apesar do menor potencial lucrativo e de mercado deste grupo, algumas das empresas, como o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) e a EMTU (Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos), oferecem serviços essenciais ao estado.

De acordo com estimativas, o valor total das empresas pode chegar a R$ 30 bilhões. A Nossa Caixa e a empresa de energia elétrica Cesp são as mais cobiçadas pelo mercado e, juntamente com a Sabesp, possuem o maior valor de mercado entre as 18 empresas.

O governo paulista, no entanto, parece não cogitar a venda da empresa de saneamento. De acordo com declarações do governador José Serra durante a inauguração de um laboratório farmacêutico estatal, a notícia de que a Sabesp possa ser vendida – possibilidade dada como real pelo colunista Ancelmo Góes, do diário carioca “O Globo” - não passa de “plantação de quinta classe”.

Críticas e resistência

A oposição paulista não tardou a criticar a licitação e as possíveis intenções por trás dela. De acordo com a bancada do PT na Assembléia Legislativa de São Paulo, o processo de privatização abortará qualquer função do Estado de caráter estratégico no processo de desenvolvimento e crescimento da economia.

Raul Marcelo, deputado estadual pelo PSOL, acredita que o processo deveria ser chamado de “Liquida São Paulo”, pois o continuísmo privatista de Serra não deverá gerar nenhuma benesse para o estado. “As vendas das empresas, além de insuficientes para cobrir a dívida que o estado de São Paulo possui hoje, deixarão milhares de funcionários desempregados”, diz.

Em comunicados divulgados à imprensa logo após a entrega das propostas dos bancos à Secretaria da Fazenda, diversos deputados federais de São Paulo também demonstraram a sua preocupação e foram categóricos ao afirmar que, por trás do levantamento dos valores das empresas, está, sim, a intenção de privatizá-las, repetindo erros do passado.

“Os tucanos fizeram um ciclo de privatização muito negativo. Privatizaram o setor de energia, as estradas e o Banespa. Comparativamente com outros estados, São Paulo perdeu muita capacidade e instrumentos de desenvolvimento em relação a Minas Gerais e Paraná, por exemplo. A proposta de voltar com esse processo é infeliz”, diz o deputado Paulo Teixeira (PT/SP).

Trabalhadores das estatais na mira dos privatistas também se mostraram preocupados com a possibilidade da venda do patrimônio público. Segundo Paulo Pasin, do Sindicato dos Metroviários de São Paulo, o processo de privatização do Metrô, que se iniciou com a PPP da Linha 4, está dando um passo adiante.

“Apesar de dizerem que nada será privatizado, que o controle da empresa pelo estado seria mantido, dar as ações do Metrô para a iniciativa privada descaracteriza completamente a empresa como estatal”, diz Pasin.

O metroviário garante que a resistência será ferrenha e que, com o apoio de lideranças da oposição na Assembléia Legislativa e nos sindicatos, um movimento sólido deverá tomar corpo nas próximas semanas.

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Foto icônica de Che é usada para vender sorvete e cigarro

De Stephanie Holmes

Ela talvez seja a imagem mais reproduzida, reciclada e copiada do século 20. Che Guevara, os olhos emoldurados por grossas sobrancelhas, a boina com uma única estrela sobre o cabelo despenteado, o olhar desviado da foto com uma intensidade austera.

Já faz 40 anos que o rebelde argentino foi morto a tiros, logo qualquer jovem radical que tenha torcido por suas lutas revolucionárias em Cuba e na Bolívia já entrou na meia idade há tempos.

Mas a imagem foi repetida infinitas vezes - estampada em camisetas e pichada nas paredes, transformada em arte pop e usada para embrulhar sorvetes e vender cigarros - e seu apelo não desbotou.

“Não há outra imagem igual. Que outra imagem se sustentou dessa maneira?”, pergunta Trisha Ziff, curadora de uma exibição itinerante sobre a iconografia de Che.

“Che Guevara virou uma marca. E o logotipo da marca é essa imagem, que representa mudança. Ela se tornou o ícone do pensamento independente, seja no nível que for - anti-guerra, pró-verde ou anti-globalização”, diz ela.

Sua presença - que vai dos muros dos territórios palestinos às butiques parisienses - faz dela uma imagem que está “fora de controle”, diz Ziff.

“Ela se transformou numa corporação, um império, a essa altura.”
A proliferação da imagem - baseada em uma fotografia tirada por Alberto Korda em 1960 - aconteceu, em parte, devido a uma escolha política de Korda e outros de não cobrar pelo uso não-comercial da imagem.

Nascimento de um ícone
Jim Fitzpatrick, que produziu o onipresente desenho em contraste no fim dos anos 60, quando era um jovem artista gráfico, disse à BBC que ele queria que sua arte fosse disseminada.

“Eu deliberadamente o criei (o desenho) para que se reproduzisse como os coelhos”, diz ele. “A forma como o mataram, não haveria nenhum memorial, nenhum local de peregrinação, nada. Eu estava determinado que aquela imagem receberia a maior circulação possível”, explica Fitzpatrick. “A imagem dele nunca morrerá, seu nome nunca morrerá.”

Para Ziff, o assassinato de Che Guevara também marca o início da imagem mítica. “O nascimento da imagem acontece na morte de Che, em outubro de 1967″, diz ela.

“Ele era bonito, ele era jovem, mas mais do que isso, ele morreu por seus ideais, então ele automaticamente se transforma num ícone.”

História
Alberto Korda captou a famosa imagem no dia 5 de março de 1960, durante um funeral em massa em Havana.

Um dia antes, um navio de carga francês cheio de munição explodiu no porto da cidade matando cerca de 80 cubanos, num ato que Fidel Castro atribuiu aos americanos.

Korda, o fotógrafo oficial de Castro, descreve a expressão de Che na foto, que ele intitulou “Guerrilheiro Heróico”, como “encabronado y dolente”, ou zangado e triste.

Duas fotos foram tiradas naquele momento. A primeira incluía a folhagem de palmeiras e um homem virado para Che, ambos cortados na seqüência.

Sem ser publicada por um ano, a foto só era vista por aqueles que passavam pelo estúdio de Korda, onde ela ficava pendurada na parede.

Cartazes
O homem que levou a imagem de Che para a Europa foi o intelectual italiano Giangiacomo Feltrinelli, que distribuiu cartazes com a foto pela Itália em 1967.

Depois disso, a fotografia de Korda apareceu em diversas revistas. Foi numa publicação alemã que Fitzpatrick viu a imagem pela primeira vez.

Depois da morte de Che, o artista imprimiu cópias e cópias do desenho que havia criado e as enviou para grupo de ativistas políticos por toda Europa.

Com a passagem do tempo, o significado e o homem representados na imagem se perderam de seu contexto, diz Ziff. O rosto de Che começou a ser usado como decoração de produtos, de lenços a lingerie. A Unilever até criou uma versão “Che” do picolé Magnum na Austrália, com sabor de cereja e goiaba.

“Há uma teoria de que a imagem só pode existir por um certo tempo até que o capitalismo se aproprie dela. Mas o capitalismo só quer se apropriar de imagens que guardem um certo senso de perigo”, diz a curadora de arte.

Na América Latina, no entanto, o rosto de Che continua sendo símbolo da revolução armada, segundo Ziff. O presidente venezuelano, Hugo Chávez, usa com freqüência uma camiseta com a imagem estampada e há relatos de que Evo Morales, da Bolívia, presenteia visitantes com uma versão da foto feita com folhas de coca.

Combinando capitalismo e comércio, religião e revolução, para Ziff, o ícone segue absoluto.

“Não há outra imagem que chegue perto de nos levar a lugares tão diferentes.”

Fonte: BBC

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Marchando pela terra e pela vida

4/10/2007
Helder Gomes*

Vários movimentos populares na América Latina estão se organizando em escala internacional para barrar a entrega do restante de recursos naturais ainda existentes no continente. Com a promoção de fóruns, seminários, eventos de intercâmbio de informações e oficinas organizativas, gradativamente têm sido construídas as bases de resistência popular contra o avanço da recolonização da América Latina pelas grandes potências mundiais.

Os diagnósticos produzidos nesses encontros têm sido reveladores. Apontam a adesão das elites latino-americanas e de seus governantes (com conhecidas exceções) à promoção subordinada de uma nova divisão internacional do trabalho, controlada pelos países centrais , cujas bases estão assentadas na interrupção do processo de diversificação industrial na América Latina. A política geral tem sido consolidar a integração física regional, a partir de pesados investimentos na infra-estrutura de transportes, energia e telecomunicações, condição para a agregação dos países latino-americanos, formando uma grande economia exportadora de insumos industriais. A continuidade da diversificação na periferia estaria limitada às linhas de montagem de kits pré-fabricados nos países de industrialização avançada (Estados Unidos, Japão e membros da União Européia). Grandes conglomerados multinacionais dividem o mundo a partir de suas redes internacionais de fragmentação da produção, cuja distribuição de unidades montadoras varia de acordo com a desorganização sindical e sua conseqüente oportunidade de precarização do trabalho em cada país dependente, consolidando num outro patamar a cadeia imperialista de dominação.

É interessante notar, inclusive, o conhecimento que lideranças de outros países têm sobre as grandes empresas que atuam no Brasil. Tem sido comum ouvir de militantes populares de países vizinhos informações sobre o papel da Petrobrás, da Companhia Vale do Rio Doce, do BNDES, da Odebrecht, da Aracruz Celulose etc. que, na medida em que internacionalizam seu capital social, se colocam como grandes plataformas empresariais, voltadas para o projeto de recolonização em curso.

Elementos desse diagnóstico

O discurso oficial dos governos de Lula, Tabaré, Kirchner, entre outros, sobre terem jogado uma pá de cal sobre a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) esconde uma face cruel de suas políticas de integração regional. Na verdade, estes e a maioria dos demais governos da região (cada qual com seu papel específico) estão montando as bases infra-estruturais para a consolidação da ALCA com outros nomes: a IIRSA (Iniciativa para a Integração da Infra-Estrutura Regional da América do Sul) e os TLCs (Tratados de Livre Comércio). A IIRSA foi protocolada numa reunião ocorrida no ano 2000, em Brasília, numa reunião de cúpula dos presidentes de todos os países da América do Sul, quando das comemorações dos “500 anos”. Ali foram orquestradas as diretrizes e a matriz de financiamento dos projetos de construção e modernização de rodovias, hidrovias, ferrovias, portos, represas hidroelétricas, além de vários outros investimentos na geração de energia (petróleo, gás natural e energia alternativa) e na montagem de um amplo serviço de telecomunicações. Todo esse esforço está voltado para a criação de uma malha logística hiper-eficiente para o escoamento de mercadorias pactuadas nos TLCs e outros arranjos internacionais.

De lá para cá pouca coisa mudou em relação ao plano original. Pegando o Brasil como exemplo, não é a toa que boa parte do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) do Lula está voltada para a produção infra-estrutural e, também, que seu esforço discursivo visa converter o projeto do Banco do Sul, proposto por Chávez, em uma agência financiadora de projetos infra-estruturais de integração. Além das indústrias maquiladoras , o modelo logístico de alta eficiência está voltado para o rápido escoamento de riquezas naturais, in natura ou semi-elaboradas, especialmente recursos minerais, produtos siderúrgicos, alimentos, celulose, agrocombustíveis etc., dentro da nova divisão internacional do trabalho imposta pelas grandes potências imperialistas.

As pesquisas e a exploração mineral na Amazônia, no Nordeste e no Sudeste brasileiros, a construção das barragens no Complexo do Rio Madeira, a Transposição do Rio São Francisco, a ampliação dos portos, das ferrovias e das rodovias são projetos interligados a vários outros localizados nos países vizinhos, construídos e financiados pelas mesmas empresas e agências oficias.

As linhas de financiamento estão vinculadas às grandes empreiteiras e fornecedoras de máquinas e equipamentos, num grande arranjo internacional, que acomoda interesses dos conglomerados empresariais sediados nas potências imperialistas, mesmo quando gerenciados por parcela das elites latino-americanas, que aceitam migalhas (se comparadas ao volume de riquezas transferidas para as grandes potências) em troca de seus serviços ao grande capital multinacional.

A imposição do retorno adaptado a uma especialidade na produção de commodities resulta da nova etapa de acumulação em que as economias latino-americanas foram capturadas pelo domínio da especulação parasitária. A armadilha da dívida dos países dependentes tornou possível a subordinação das decisões sobre o futuro da América Latina, na medida em que foram se sofisticando os acordos a cada rodada de negociação com os credores internacionais. Muito além da fixação de novas taxas de juros, de encargos da dívida e dos prazos para o resgate de títulos, o que interessa mesmo é manter a armadilha financeira, pois, esse tem sido o principal instrumento para impor condições à produção, ao comércio internacional e às políticas públicas nos países tidos como devedores.

A ação

Com visão de futuro, vários movimentos populares na América Latina estão em marcha neste exato momento, a partir de diferenciadas motivações, mas com um sentido comum. Se as elites latino-americanas e seus governantes de plantão se adaptaram à nova ordem e se sentem muito bem com isso, resta às camadas organizadas de seus povos tomarem as rédeas para a construção de um projeto alternativo para a região, antes que nada mais reste senão a barbárie.

Interessante notar a ausência de boa parte dos sindicatos laborais nesse novo movimento. Como até mesmo o chamado Novo Sindicalismo sucumbiu ao modelo tutelado pelo Estado, das serras mexicanas até a Patagônia são as comunidades tradicionais e os movimentos autônomos do campesinato, com apoio de uma variedade de ativistas, que estão dando o tom na organização da resistência e nas mobilizações em defesa da vida.

No Brasil, como em outros países vizinhos, as lutas estão concentradas na denúncia da destruição dos recursos hídricos e do solo pelos projetos agroindustriais em larga escala, pela expansiva geração de energia elétrica e pela exploração predatória das riquezas minerais, elementos de fundo na centralização fundiária que se observa na atualidade. Os povos indígenas e quilombolas, a Via Campesina (MAB, MPA, MST, Pastoral da Terra, entre outros) e um expressivo número de redes de intercâmbio e de mobilizações, denunciam e se mobilizam em várias frentes, procurando elevar o nível de informação sobre esse intricado movimento do capital, que leva à devastação de nosso patrimônio natural.

As denúncias desses movimentos procuram desmistificar os discursos oficiais sobre a necessidade desses grandes investimentos para o bem-estar social. Tem sido possível com esse esforço desnudar os verdadeiros objetivos de projetos como a Transposição do Rio São Francisco que, antes de se destinar à solução da escassez de água para as comunidades do semi-árido nordestino, está voltado para garantir o abastecimento de um projeto siderúrgico da Cia. Vale do Rio Doce próximo ao Porto do Pecém, no Ceará. Empresa esta que se expande por todo o território nacional, e cujos projetos de mineração na Amazônia, junto aos de outras empresas, têm exigido a construção de represas hidrelétricas de grande impacto ambiental, inclusive em alguns países vizinhos.

Da mesma forma tem sido denunciada a expansão das monoculturas de soja, eucalipto, pinus e cana-de-açúcar voltada para projetos industriais de commodities. A natureza desses projetos empresariais em expansão está associada à liberação para o grande capital de grandes quantidades de terra e de água. A centralização fundiária, a degradação ambiental, a expulsão das famílias camponesas para as favelas dos centros urbanos e a substituição da produção de alimentos saudáveis necessários ao consumo interno por produtos exportáveis, muitas vezes supérfluos e descartáveis, têm sido as principais motivações para as crescentes mobilizações em todo o país.

*Helder Gomes, mestre em economia/UFES, consultor da COOPEMULT CONSULTORIA.

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Pensamento do dia

O medo tem alguma utilidade, mas a covardia não!

Mahatma Gandhi

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Cuba ajudou carrasco de Che a voltar a enxergar

Sargento boliviano que há 40 anos executou guerrilheiro foi operado de catarata por cubanos

Rory Carroll, The Guardian

Londres - Médicos cubanos restauraram a visão do soldado boliviano que executou, há 40 anos, o guerrilheiro cubano-argentino Ernesto Che Guevara, o que transformou o militar num improvável garoto-propaganda dos ideais revolucionários.

Mario Terán entrou para a história como o jovem sargento do Exército escolhido para executar o líder guerrilheiro capturado em 9 de outubro de 1967, o que o transformou num vilão para aqueles que veneravam Che.

Quase quatro décadas depois, o algoz, já idoso e aposentado, foi operado de catarata graças a um programa médico comandado pelos cubanos. A massificação desse tipo de cirurgia é considerada um exemplo dos benefícios da revolução socialista de Cuba.

O desfecho irônico do papel de Terán num dos grandes dramas do século 20 foi revelado no ano passado, quando o seu filho escreveu uma carta para o jornal de Santa Cruz de La Sierra El Deber agradecendo aos médicos cubanos.

Poucas pessoas tinham prestado atenção para o fato até o fim de semana passado, quando as autoridades comunistas de Cuba alardearam a cirurgia de Terán como um grande golpe de propaganda às vésperas do aniversário da morte de Che.

“Quatro décadas depois da tentativa de Mario Terán de destruir um sonho e um ideal, Che retorna para ganhar mais uma batalha”, disse o Granma, o jornal que é o porta-voz oficial do Partido Comunista.

“Agora um homem idoso, ele (Terán) poderá de novo observar as cores do céu e da floresta, apreciar o sorriso de seus netos e assistir aos jogos de futebol”, acrescentou o jornal cubano.

Não foi possível ter acesso imediato a Terán ou a seu filho, mas um dos editores de El Deber, Leopoldo Vega, confirmou que a carta foi publicada no ano passado.

Terán foi beneficiado pela chamada Operação Milagre. Trata-se de um programa financiado por petrodólares venezuelanos, no qual uma equipe de médicos cubanos oferece tratamento oftalmológico gratuito para pobres de toda a América Latina.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

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Pensamentos de um “correria”

FERRÉZ

ELE ME olha, cumprimenta rápido e vai pra padaria. Acordou cedo, tratou de acordar o amigo que vai ser seu garupa e foi tomar café. A mãe já está na padaria também, pedindo dinheiro pra alguém pra tomar mais uma dose de cachaça. Ele finge não vê-la, toma seu café de um gole só e sai pra missão, que é como todos chamam fazer um assalto.
Se voltar com algo, seu filho, seus irmãos, sua mãe, sua tia, seu padrasto, todos vão gastar o dinheiro com ele, sem exigir de onde veio, sem nota fiscal, sem gerar impostos.
Quando o filho chora de fome, moral não vai ajudar. A selva de pedra criou suas leis, vidro escuro pra não ver dentro do carro, cada qual com sua vida, cada qual com seus problemas, sem tempo pra sentimentalismo. O menino no farol não consegue pedir dinheiro, o vidro escuro não deixa mostrar nada.
O motoboy tenta se afastar, desconfia, pois ele está com outro na garupa, lembra das 36 prestações que faltam pra quitar a moto, mas tem que arriscar e acelera, só tem 20 minutos pra entregar uma correspondência do outro lado da cidade, se atrasar a entrega, perde o serviço, se morrer no caminho, amanhã tem outro na vaga.
Quando passa pelos dois na moto, percebe que é da sua quebrada, dá um toque no acelerador e sai da reta, sabe que os caras estão pra fazer uma fita.
Enquanto isso, muitos em seus carros ouvem suas músicas, falam em seus celulares e pensam que estão vivos e num país legal.
Ele anda devagar entre os carros, o garupa está atento, se a missão falhar, não terá homenagem póstuma, deixará uma família destroçada, porque a sua já é, e não terá uma multidão triste por sua morte. Será apenas mais um coitado com capacete velho e um 38 enferrujado jogado no chão, atrapalhando o trânsito.
Teve infância, isso teve, tudo bem que sem nada demais, mas sua mãe o levava ao circo todos os anos, só parou depois que seu novo marido a proibiu de sair de casa. Ela começou a beber a mesma bebida que os programas de TV mostram nos seus comerciais, só que, neles, ninguém sofre por beber.
Teve educação, a mesma que todos da sua comunidade tiveram, quase nada que sirva pro século 21. A professora passava um monte de coisa na lousa -mas, pra que estudar se, pela nova lei do governo, todo mundo é aprovado?
Ainda menino, quando assistia às propagandas, entendia que ou você tem ou você não é nada, sabia que era melhor viver pouco como alguém do que morrer velho como ninguém.
Leu em algum lugar que São Paulo está ficando indefensável, mas não sabia o que queriam dizer, defesa de quem? Parece assunto de guerra. Não acreditava em heróis, isso não!
Nunca gostou do super-homem nem de nenhum desses caras americanos, preferia respeitar os malandros mais velhos que moravam no seu bairro, o exemplo é aquele ali e pronto.
Tomava tapa na cara do seu padrasto, tomava tapa na cara dos policiais, mas nunca deu tapa na cara de nenhuma das suas vítimas. Ou matava logo ou saía fora.
Era da seguinte opinião: nunca iria num programa de auditório se humilhar perante milhões de brasileiros, se equilibrando numa tábua pra ganhar o suficiente pra cobrir as dívidas, isso nunca faria, um homem de verdade não pode ser medido por isso.
Ele ganhou logo cedo um kit pobreza, mas sempre pensou que, apesar de morar perto do lixo, não fazia parte dele, não era lixo.
A hora estava se aproximando, tinha um braço ali vacilando. Se perguntava como alguém pode usar no braço algo que dá pra comprar várias casas na sua quebrada. Tantas pessoas que conheceu que trabalharam a vida inteira sendo babá de meninos mimados, fazendo a comida deles, cuidando da segurança e limpeza deles e, no final, ficaram velhas, morreram e nunca puderam fazer o mesmo por seus filhos!
Estava decidido, iria vender o relógio e ficaria de boa talvez por alguns meses. O cara pra quem venderia poderia usar o relógio e se sentir como o apresentador feliz que sempre está cercado de mulheres seminuas em seu programa.
Se o assalto não desse certo, talvez cadeira de rodas, prisão ou caixão, não teria como recorrer ao seguro nem teria segunda chance. O correria decidiu agir. Passou, parou, intimou, levou.
No final das contas, todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio.
Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas as partes.

REGINALDO FERREIRA DA SILVA , 31, o Ferréz, escritor e rapper, é autor de “Capão Pecado”, romance sobre o cotidiano violento do bairro do Capão Redondo, na periferia de São Paulo, onde ele vive, e de “Ninguém é Inocente em São Paulo”, entre outras obras.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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Mais apoios à nossa luta na FSA

1) Aziz Ab’Saber – Geografia USP (aposentado)
2) Lincoln Secco - História USP
3) Ricardo Musse - Sociologia USP
4) Cilaine Alves Cunha - Letras USP
5) Fernando Novais - História USP / Unicamp
6) Roberto Schwarz - Letras Unicamp (aposentado)
7) Maria Célia Paoli - Sociologia USP
8) Leda Paulani - Economia USP
9) Maria Arminda do Nascimento Arruda - Sociologia USP
10) Marcos Del Roio - Ciência Política Unesp Marília
11) Paulo Eduardo Arantes - Filosofia USP
12) Marcos Silva - História USP
13) Marineide de Oliveira Gomes – Pedagogia USP Ribeirão Preto
14) Caio Navarro de Toledo – Ciência Política Unicamp
15) Selma Borghi Venco – Sociologia Unicamp
16) Franklin Leopoldo e Silva – Filosofia USP
17) Lighia Brigitta Horodynski-Matsushigue – Física USP
18) Zilda Iokoi – História USP
19) Otília Fiori Arantes – Filosofia USP
20) Mariana Fix – Design Facamp (Faculdades de Campinas)
21) Ivone Dare Rabello – Letras USP (aposentada)
22) Suzana Salem Vasconcelos – Física USP
23) Luiz Eduardo Simões de Souza – Economia Uergs (Universidade Estadual
do Rio Grande do Sul)
24) Paulo Henrique Martinez - História Unesp Assis
25) Luís Fernando Ayerbe - Relações Internacionais Unesp Araraquara
26) Jesus Ranieri - Sociologia Unicamp
27) Heloísa Fernandes - Sociologia USP e Escola Nacional Florestan
Fernandes do MST
28) Amarílio Ferreira – UFSCar (Universidade Federal de São Carlos)
29) Valério Arcary - História CEFET/SP (Centro Federal de Educação
Tecnológica de São Paulo)
30) João Francisco Tidei Lima – Unesp Bauru
31) Lidiane Soares Rodrigues – Doutoranda História USP
32) Alcir Pécora - Letras Unicamp
33) Anita Handfas – Educação UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
34) Margareth Rago - História Unicamp
35) Vera Lucia Vieira - História PUC-SP
36) Arlete Moyses Rodrigues – Geografia Unicamp
37) Antônio Miguel - Educação Unicamp
38) Ronilde Rocha - Consultora em educação e ensino de História e
professora da rede municipal de São Paulo (aposentada)
39) Francisco Foot Hardman - Letras Unicamp
40) Márcio Naves – Sociologia Unicamp
41) Élide Menezes Centofanti – Psicologia UMC (Universidade de Mogi das
Cruzes) aposentada
42) Maria Luiza Jovanovic - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
43) Paulino Cardoso - História Udesc (Universidade do Estado de Santa
Catarina)
44) Claudia Sapag Ricci - História UFMG (Universidade Federal de Minas
Gerais)
45) Olga Brites - História PUC-SP
46) Mário Fernando Bolognesi - Artes Unesp São Paulo
47) Antônio Carlos Mazzeo – Ciência Política Unesp Marília
48) Maria Victória Benevides - Educação USP
49) Adalberto Paranhos – Ciências Sociais UFU (Universidade Federal de
Uberlândia)
50) Edilson Graciolli – Ciências Sociais UFU (Universidade Federal de
Uberlândia)
51) Fernando Antonio Lourenço - Sociologia Unicamp
52) Agnaldo dos Santos – Administração Uninove (Centro Universitário Nove
de Julho)
53) Glória Anunciação Alves – Geografia USP
54) Elvio Rodrigues Martins – Geografia USP
55) Regina Helena Alves da Silva - História UFMG (Universidade Federal de
Minas Gerais)
56) João Bernardo – professor e escritor
57) Valeria de Marcos - Geografia USP
58) Pedro Arantes - Design Facamp (Faculdades de Campinas)
59) Rafael Marquese - História USP
60) Ana Fani Alessandri Carlos - Geografia USP
61) Déa Ribeiro Fenelon - História PUC-SP e Unicamp (aposentada)
62) Brás Ciro Gallota - História PUC-SP
63) Francisco Alambert - História USP
64) Vera Lúcia Santiago Araújo - Letras UECE (Universidade Estadual do Ceará)
65) Silvia Hunold Lara - História Unicamp
66) Sidney Chalhoub - História Unicamp
67) Letícia Vidor de Souza Reis - História Unimep (Universidade Metodista
de Piracicaba)
68) Ivone Cordeiro Barbosa - História UFC (Universidade Federal do Ceará)
69) Manoela da Silva Pedroza - Doutoranda Unicamp
70) Joviniano Borges da Cunha - Universidade Anhembi-Morumbi
71) Bernardo Boris Vargaftig – Ciências Biomédicas – USP
72) Heloisa de Faria Cruz - História PUC-SP
73) Claudia Poncioni - Université Paris X - França
74) Jean-Yves Mérian - Université Rennes2- Haute Bretagne - França
75) Roberto Romano - Filosofia Unicamp
76) Luiz Roberto Alves – Jornalismo Umesp (Universidade Metodista de São
Paulo) e USP
77) Marcos Arruda – professor visitante universidades do exterior
78) Cid Benjamin – Comunicação Social Facha (Faculdade Hélio
Alonso)
79) Laura Antunes Maciel - História UFF (Universidade Federal
Fluminense)
80) Maria Antonieta Antonacci - História PUC-SP
81) Paulo Roberto de Almeida - História UFU (Universidade Federal de
Uberlândia)
82) Bento Itamar Borges - Filosofia UFU (Universidade Federal de Uberlândia)
83) Rejane Meireles Amaral Rodrigues - História UNIMONTES/MG
84) Osvaldo Coggiola – História USP
85) Inessa Laura Salomão - Engenharia de Produção - CEFET/RJ (Centro
Federal de Educação Tecnológica)
86) Helena Hirata - Sociologia CNRS (Centre National de la Recherche
Scientifique) – França
87) Normando Rodrigues - Direito UFRJ (Universidade Federal do Rio de
Janeiro)
88) Ana Maria Silva - Turismo Fefisa (Faculdades Integradas de Santo André)
89) Luiz Carlos Pereira - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
90) Fábia C. Alegrance - Fisioterapia Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
91) Luciana Vieira de Melo Kuk - Fisioterapia Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
92) Margareth Anderáos - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
93) Nicolino Bello Júnior - Educação Fisica Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
94) Sérgio Garcia Stella - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
95) Ricardo Zanuto Pereira - Fisioterapia Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
96) Rosemarie C. Sanches - Turismo Fefisa (Faculdades Integradas de Santo
André)
97) Vinicius J. B. Martins - Fisioterapia Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
98) Sueo Hirota - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de Santo
André)
99) William S. Freitas - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
100) Marcelo Reina Siliano - Fisioterapia Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
101) Edvar Boechat Soares - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
102) Isilda M. R. Cavicchioli - Educação Física Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
103) Maria Teresa B. Martins - Educação Física Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
104) Maria Eliza M. Bernardes - Educação Física Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
105) Rosana Delfini - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
106) Evando Carlos Moreira - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
107) Fabiano João - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de Santo
André)
108) Sandra Maria Tedeschi - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
109) Albertina O. C. Misko - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
110) Gilberto de Andrade Martins – Contabilidade USP
111) José Artur Gianotti – Filosofia USP (aposentado) e pesquisador do
Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)
112) Heloisa Martins - Sociologia USP (aposentada)
113) Angelina Peralva - Sociologia Universidade de Toulouse II -
França
114) João Zanetic – Física USP e ex-presidente da Adusp (Associação dos
Docentes da USP)
115) Nadia W. Hanania Vianna - Administração USP (aposentada)
116) Francisco Luiz C. Lopreato – Economia Unicamp
117) Denis Maracci Gimenez – Economia Unicamp
118) Wilson Cano – Economia Unicamp
119) Gabriel de Santis Feltran - Doutorando Unicamp
120) Otaviano Helene – Física USP e presidente da Adusp (Associação dos
Docentes da USP)
121) Daciberg Lima Gonçalves – Matemática USP
122) Lucília Daruiz Borsari - Matemática USP
123) José Dari Krein – Economia Unicamp
124) Antonio Lázaro Sant´Ana - Unesp Ilha Solteira
125) Elmir de Almeida – Pedagogia USP Ribeirão Preto
126) Geraldo Leão - Educação UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)
127) Américo Scotti - Engenharia Mecânica UFU (Universidade Federal de
Uberlândia)
128) Estefânia Knotz C. Fraga - História PUC-SP
129) Luiz Henrique dos Santos Blume - História UESC (Universidade Estadual
de Santa Cruz - BA)
130) Alexandre Fortes - História / Economia UFRRJ (Universidade Federal
Rural do Rio de Janeiro)
131) Fernando Teixeira da Silva - História Unicamp
132) Raimundo Donato do Prado Ribeiro – coordenador de História Unimep
(Universidade Metodista de Piracicaba)
133) Ciro Teixeira Correia – Geologia USP
134) Marco A. Brinati – Engenharia Naval USP e ex-vice-presidente da Adusp
(Associação dos Docentes da USP)
135) Cláudia Pereira Vianna – Educação USP
136) Maria da Graça Setton – Educação USP
137) Elie Ghanem – Educação USP
138) Rosângela G. Prieto – Educação USP
139) César Augusto Minto - Educação USP e ex-presidente da Adusp
(Associação dos Docentes da USP)
140) Américo Sansigolo Kerr – Física USP e ex-presidente da Adusp
(Associação dos Docentes da USP)
141) Paulo Luiz Miadaira - Faculdade São Luís e Fundação Escola de
Sociologia e Política de São Paulo
142) Daniel Revah - Pedagogia Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)
143) Manoela da Silva Pedroza - Doutoranda Unicamp
144) Henrique Soares Carneiro – História USP
145) Sérgio Paulo Amaral Souto - Zootecnia USP
146) Marcus Aloízio Martinez de Aguiar - Física Unicamp
147) Artionka Capiberibe - Doutoranda UFRJ (Universidade Federal do Rio de
Janeiro)
148) Lucimara Batista Freire - Faculdade Anchieta - São Bernardo do Campo
149) Théo Lobarinhas Piñeiro - História UFF (Universidade Federal Fluminense)
150) Alexsander Lemos de Almeida Gebara - História UFF (Universidade
Federal Fluminense)
151) Theresa Beatriz Figueiredo Santos - Diretora da Faculdade de Ciências
Humanas da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba)
152) Daniel Aarão Reis - História UFF (Universidade Federal Fluminense)
153) Antonio Paulo Rezende - História - UFPE (Universidade Federal de
Pernambuco)
154) Marcos Nascimento Magalhães – Matemática USP e ex-presidente da Adusp
(Associação dos Docentes da USP)
155) Maria Clara Di Pierro – Educação USP
156) Moacir Gadotti – Educação USP
157) Lisete R. G. Arelaro – Educação USP
158) Afrânio Mendes Catani – Educação USP
159) Lúcia E. Barreto Bruno – Educação USP
160) Doris Accioly e Silva – Educação USP
161) Roberto da Silva – Educação USP
162) Rubens Barbosa de Camargo – Educação USP
163) Vânia Noeli Ferreira de Assunção - História Cogeae PUC-SP
164) Antonio Ozaí da Silva – Ciências Sociais UEM (Universidade Estadual
de Maringá)
165) Joana Aparecida Coutinho - Ciência Política - UFMA (Universidade
Federal do Maranhão)
166) Antônio José Lopes Alves – Filosofia Colégio Técnico da UFMG
(Universidade Federal de Minas Gerais)
167) Sabina Maura Silva – Filosofia Fundação Helena Antipoff – Minas Gerais
168) Maria Helena da Silva – Diretora EE Carlos Drummond de Andrade
169) Conceição Gonçalves de Toledo - vice-diretora EE Carlos Drummond de
Andrade
170) Francisco Josino da Silva - EE Carlos Drummond de Andrade
171) Roni Cleber Dias de Menezes - Educação USP
172) Everton Capri Freire – ex-professor de Jornalismo Fiam (Faculdades
Integradas Alcântara Machado)
173) Ronaldo Fabiano dos Santos Gaspar - Pedagogia Unicastelo e FAD
(Faculdade Diadema)
174) Luís Roberto de Paula – antropólogo e ex-professor da Fundação Santo
André
175) Alvaro Bianchi - Ciência Política Unicamp
176) Celia Maria Benedicto Giglio – Pedagogia Unifesp (Universidade
Federal de São Paulo)
177) Marcos Antonio de Moraes – Letras USP
178) Marcos Pereira Rufino - Antropologia Unifesp (Universidade Federal de
São Paulo)
179) Luiz Antonio Zimermann do Nascimento – São Paulo
180) Luís Esteban Dominguez – Semiótica Cogeae PUC-SP
181) Regina Maria de Souza - Educação Unicamp
182) Luci Banks Leite - Educação Unicamp
183) Pedro Tórtima – Direito UCAM (Universidade Candido Mendes) Rio de
Janeiro
184) Miguel Wady Chaia - Ciência Política PUC-SP
185) Tânia Elias Magno da Silva – Sociologia UFS (Universidade Federal de
Sergipe)
186) Henri de Carvalho - História - Unimesp (Centro Universitário
Metropolitano de São Paulo)
187) Valéria Alves Esteves Lima - História Unimep (Universidade Metodista
de Piracicaba)
188) Antonio Miguel - Educação Unicamp
189) Karen Macknow Lisboa - História Unifesp (Universidade Federal de São
Paulo)
190) Maria de Fátima Carvalho - Pedagogia Unifesp (Universidade Federal de
São Paulo)
191) Regina Cândida Ellero Gualtieri – Pedagogia Unifesp (Universidade
Federal de São Paulo)
192) Mônica Marques Pimenta de Andrade – Medicina UFU (Universidade
Federal de Uberlândia) – aposentada
193) Carlos Eduardo Albuquerque Miranda – Educação Unicamp
194) Carmen Roselaine de Oliveira Farias - Educação UFSCar (Universidade
Federal de São Carlos)
195) Vanicléia Silva Santos - Doutoranda História Social USP
196) Isabel Cristina Moroz - Doutoranda Geografia – USP
197) André Constantino Yazbek - Filosofia PUC-SP
198) Maria Goreti J. S. Frizzarini – Comunicação Social Cásper Líbero
199) Carlos Bauer - Uninove (Centro Universitário Nove
de Julho)
200) Marcos Cezar de Freitas – Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)
201) Luigi Biondi – História Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)
202) Leandro de Lajonquière - Educação USP
203) Luís Filipe Silvério Lima - História Unifesp (Universidade Federal de
São Paulo)
204) Teise de Oliveira Guaranha Garcia - Pedagogia USP Ribeirão Preto
205) Regina Maria de Souza - Educação Unicamp
206) Rinaldo Voltolini - Educação USP
207) João Quartim de Moraes – Filosofia Unicamp
208) Áurea M. Guimarães - Educação Unicamp
209) Carlos Serrano – Antropologia USP
210) Ruy Braga - Sociologia USP
211) Renato da Silva Queiroz – Antropologia USP
212) Sylvia Gemignani Garcia - Sociologia USP
213) José Guilherme C. Magnani - Antropologia USP
214) Lúcia Aparecida Valadares Sartório - Doutoranda Educação UFSCar
(Universidade Federal de São Carlos)
215) Celso Frederico – Comunicação Social ECA-USP
216) Sandra Guardini Teixeira Vasconcelos - Letras USP
217) Maria Helena Oliva Augusto - Sociologia USP
218) Maria Lucia Montes – Antropologia USP
219) Iris Kantor – História USP
220) Sylvia Leser de Mello – Psicologia USP
221) Aparecida Néri de Sousa - Educação Unicamp
222) Maria Helena P.T. Machado - História USP
223) Gildo Magalhães dos Santos - História USP
224) Emir Sader – Sociologia USP e UERJ (Universidade do Estado do Rio de
Janeiro)
225) Eduardo Pinto e Silva – UFSCar (Universidade Federal de São Carlos)
226) Jose Roberto Zan - Artes Unicamp
227) Dirce Djanira Pacheco e Zan – Educação Unicamp
228) Maria Rosa Lombardi – Fundação Carlos Chagas
229) Stela Menegel – Educação Furb (Universidade Regional de Blumenal)
Santa Catarina
230) Márcio Suzuki - Filosofia USP
231) Roberto Heloani – Educação Unicamp e FGV (Fundação Getúlio Vargas)
232) Marcia Regina Andrade – Educação Unicamp
233) Rosivaldo Pelegrini – UEL (Universidade Estadual de Londrina) Paraná
234) Agueda Bernardete Bittencourt - Educação Unicamp
235) Patrícia Vieira Trópia - PUC-Campinas
236) Marcia Leite - Educação Unicamp
237) Flavio de Campos - História USP
238) Janice Theodoro da Silva - História USP
239) Pedro Lima Vasconcellos - Teologia e Ciências da Religião PUC-SP
240) Ulpiano T.Bezerra de Meneses - História USP
241) Laurindo Lalo Leal Filho - Jornalismo ECA-USP
242) Silvia Helena Andrade de Brito - Ciências Sociais e Educação UFMS
(Universidade Federal do Mato Grosso do Sul)
243) Jorge Grespan - História USP
244) Luís César Oliva - Filosofia USP

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Junta militar esconde os monges de Mianmar

Aguarda-se uma deportação maciça de budistas para o norte do país

Álvaro Decózar
Enviado especial a Bangcoc

Ninguém vê o que está acontecendo em Mianmar (antiga Birmânia), mas as notícias continuam chegando. Apesar do esforço da junta militar para silenciar seu massacre contra os cidadãos rebeldes e passar boa aparência para a diplomacia internacional, um vazamento deixou claro o posicionamento dos militares que controlam o país: cerca de 4 mil monges foram presos nas manifestações da semana passada e serão levados em segredo para o norte de Mianmar, segundo a BBC, que citou fontes dos grupos paramilitares financiados pelo governo.

Os monges budistas que lideraram os protestos estão sendo confinados num colégio e num antigo recinto esportivo, e alguns deixaram de comer. A transferência secreta dos monges dá uma idéia de que o governo militar resiste a perder a guerra da mídia. De Yangun (nome dado a Rangum, a antiga capital da Birmânia) não chegam imagens do que está acontecendo, e as notícias que a imprensa do regime transmite pintam um panorama cor-de-rosa, com os dirigentes risonhos e dispostos a receber os diplomatas da ONU. Mas tantas boas notícias são sempre más notícias, e sua única intenção é que o interesse pelo que ocorreu nos últimos dias nesse país longínquo comece a diminuir.

Ontem, em um exagero ridículo, os grupos paramilitares próximos ao regime se dedicavam a recrutar a população mais pobre das cidades para participar de uma contramanifestação a favor do governo, em troca de míseros US$ 2, sob a ameaça de ter de pagar US$ 7 se não quisessem ter problemas mais graves, informou ontem a rádio Mizzima, um canal de jornalistas birmaneses que transmite de países vizinhos como a Tailândia.

Mesmo assim, a voz dos birmaneses busca qualquer recurso para se expressar livremente. Como a mulher que atende ao telefone em Yangun, a cerca de 575 km de Bangcoc, e faz um relato que mais ou menos concorda com os outros depoimentos que estão chegando dos grupos dissidentes: toques de recolher, proibições de andar com mais de quatro pessoas pela rua, detenções por portar câmeras e tiros dos soldados que acabaram com muitas vidas.

A voz firme do outro lado da linha conclui seu relato dizendo que não pode falar, que os soldados ficharam todo mundo e pede que não se deixe de informar sobre o que está acontecendo. “Vamos resistir”, diz antes de desligar.

O que acontecerá em Mianmar nos próximos dias depende muito disso e da pressão que se fizer sobre o país. Por um lado, os cidadãos tentam suportar as batidas dos soldados e continuar com os protestos, que são sempre dissolvidos à base de agressões e tiros. Por outro, o governo tenta aceitar as duras mensagens da comunidade internacional e lava as mãos, admitindo a entrada do enviado especial da ONU ao conflito, o nigeriano Ibrahim Gambari.

O delegado conseguiu se reunir no último domingo com a líder do movimento democrático birmanês, Aung San Suu Kyi, e ontem anunciou que provavelmente se encontrará hoje com o chefe da junta militar, general Than Shwe. Gambari tentará fazer que o homem-forte de Mianmar, considerado por muitos analistas o principal obstáculo para a reconciliação nacional, o escute e deixe de ordenar a repressão aos protestos, que chegaram a reunir, com os monges budistas na primeira linha, 150 mil pessoas que pediam um governo democrático e o fim da pobreza na região.

Eles reivindicam hoje mais intensamente porque estão assim há 45 anos, com militares como Shwe dizendo o que devem fazer em cada momento. Houve apenas uma eleição em todo esse tempo, em 1990. Então o partido oficial perdeu da Liga Nacional pela Democracia, de Suu Kyi, que obteve 82% dos votos, e os militares não gostaram do resultado; decidiram não respeitá-lo e de passagem prenderam a prêmio Nobel da paz.

Em Bangcoc, enquanto isso, os jornalistas tentam conseguir vistos para entrar no país. A embaixada de Mianmar não os concede a ninguém, nem mesmo aos diplomatas que tentam se encontrar com as autoridades locais. Ontem a embaixadora espanhola para os Direitos Humanos, Silvia Escobar, deixou a capital tailandesa sem conseguir entrar na Birmânia. Escobar anunciou que entrará em contato com a secretaria de Estado de Cooperação para pedir ajuda humanitária e tentar resolver os problemas mais imediatos da população birmanesa: a fome e as doenças. “Vamos persistir em nossa intenção de visitar o país para tentar fazer a situação melhorar. Por enquanto nos disseram que não darão vistos enquanto não dermos um programa detalhado de com quem queremos nos encontrar.”

Ninguém pode entrar e não parece que seja fácil sair. Ontem o jornal tailandês “Bangkok Post” publicou uma foto de cerca de 30 pessoas que conseguiram sair do país pela fronteira da Tailândia, no distrito de Chiang Rai. Os refugiados foram detidos pela polícia tailandesa e devolvidos a Mianmar.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves.

El País
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O museu de horrores dos dissidentes birmaneses

Álvaro de Cózar
Enviado especial a Mae Sot, Tailândia

Durante alguns anos, o preso Aung Kyat Do viveu com uma estranha dúvida sobre um dos castigos a que seus carcereiros o submetiam na prisão de Insein. Quando os funcionários do centro o acorrentavam no chão de joelhos e o expunham ao duro sol da Birmânia, Aung não sabia se era melhor que lhe cobrissem a cabeça com um capuz de pano ou se, pelo contrário, era preferível que a deixassem ao sol.

Essa, diz Aung, foi uma das coisas em que ele gastou as 23 horas e 14 minutos de cada dia dos 17 anos que passou encerrado numa cela em Insein. “Ainda não cheguei a uma conclusão. Creio que tudo o que acontecia ali era igualmente ruim. Menos os 46 minutos restantes, que usávamos para nos lavar e para comer.” Aung foi preso pelo regime militar que governa Mianmar (antiga Birmânia) em 1988, durante uma rebelião popular estudantil semelhante à que ocorreu nos últimos dias na antiga capital do país, Yangun (antes Rangum). Os protestos na época acabaram com 3 mil mortos e milhares de detidos, que foram distribuídos pelas 43 prisões do país.

Aung foi detido na temível Insein e lá passou 17 anos até que o chefe da junta militar, Than Shwe, o libertou em uma anistia geral. “Sim, ele me libertou; é um bom homem, verdade?”, ironiza Aung, morrendo de rir. Seu relato é mais pungente no lugar em que ele o faz: o centro da Associação de Ajuda a Presos Políticos, uma espécie de museu dos horrores que mostra toda a documentação que a dissidência conseguiu reunir nos últimos anos.

É só uma pequena sala de uma casa nas redondezas da cidade tailandesa de Mae Sot, a 4 km da fronteira com Mianmar, mas todos os detalhes foram cuidados para explicar como age o regime militar. Aung mostra em uma maquete da prisão de Insein os barracões em que esteve preso. Em outra, como viviam amontoadas até oito pessoas nas celas; depois as fotos dos dissidentes assassinados; as dos monges que foram detidos e a dos estudantes que foram mortos. Não quiseram dissimular a crueza e por isso mostram uma imagem de um menino atirado ao chão com a cabeça aberta por um tiro, outra de um adolescente espancado pelos soldados e uma em que se vêem alguns homens de joelhos, pedindo clemência diante dos que estão prestes a atirar contra eles.

Embaixo de algumas dessas fotos pode-se ler “Todo mundo pode ser detido em qualquer momento”. “Esta foi nossa história e as pessoas de todos os países precisam conhecê-la. Não deveria se repetir, mas é o que está acontecendo hoje, mais uma vez”, afirma Aung. Naquela época tinham muito menos meios. Possuíam imagens como essas, mas não chegavam a todos os cantos do mundo. “Hoje sim. Dá na mesma que o governo pegue os que levam câmeras e as tirem, dá na mesma que cortem a Internet. Algumas imagens saíram para o exterior e isso já vale para nós, porque agora todos podem vê-las em nosso site (aappb@cscoms.com).”

O museu também mostra documentos do gênio humano que servem para contar a história mil vezes contada da habilidade humana para escapar inclusive das piores situações. Por exemplo, quando se mostra como recebiam minijornais enrolados em filtros de cigarros. “O espírito da dissidência vive nas notícias que nos chegam das pessoas que estão presas e que não deixam de lutar. O governo eliminou muitos jornalistas, mas nós ocupamos seu lugar. É preciso continuar informando”, afirma.

Esse pequeno homem de Yangun tem 40 anos. Como muitos outros birmaneses, aparenta muito menos. É extremamente pequeno, quase sem rugas na pele, com olhos brilhantes e profundos, a boca com vários dentes a menos e uma pele que transpira a todo momento. Embora um pouco enferrujada, sua expressão em inglês é nobre e cheia desse entusiasmo dos que gostam de contar anedotas sem parar. “Uma vez cometi um erro. Não lembro o quê, mas me mandaram para a Fila da Morte (o lugar onde aplicavam as torturas). Me deixaram acorrentado de joelhos e me mandaram baixar a cabeça. Eu me ajoelhei, mas em vez de baixar a cabeça fiquei olhando para o guarda. Me moeram de pauladas até que agachei.”

Nessa pequena sala cheia de luzes onde não se pára de suar e dar voltas sobre as fotografias dos mortos, Aung diz que os dias passavam sempre em coisas muito pequenas. Ficava pensando na escuridão até que pudesse vê-la e passava a maior parte do tempo reconsiderando se havia agido bem ou mal diante de um guarda. “Não havia muito o que fazer. Eu tentava contentá-los para não ficar mal com eles e para que não me batessem. Mas dava na mesma: se você fizesse um gesto lhe batiam, se fizesse o contrário também.”

A repressão do exército birmanês contra a população foi estudada pela associação de que Aung faz parte com a edição de dois livros, que recolhem centenas de depoimentos e fotos dos excessos carcerários em Mianmar. A associação também tenta ajudar os que, embora livres, sofrem seqüelas das úmidas celas de Mianmar. Um desses livros, “Oito Segundos de Silêncio”, denuncia que em algumas prisões também se praticaram torturas com choques elétricos. “Foram muitos os excessos que vivemos, mas me importam ainda mais os de hoje. Creio que desta vez sim, vão nos escutar. Os monges estão nos apoiando e as pessoas sabem o que os militares fazem. Creio que a ONU fará algo desta vez. Eu acredito.”

Quando se pergunta a Aung se não é otimista demais, esse jovem herói da resistência birmanesa sorri e diz: “Passei 17 anos em um buraco e saí de lá vivo. Como não vou ser otimista?” Na chacina anterior do governo de Mianmar caíram 3 mil pessoas. As cifras oficiais da rebelião atual falam em somente 16 mortos, o que foi questionado por todos os organismos internacionais, que calculam centenas de mortos. “Não importa. Desta vez lutaremos até o final”, conclui Aung. Seu nome significa “vencedor” em birmanês.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves.

El País
http://www.elpais.com/

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Dossiê mundial de Scientific American Brasil discute a chamada “transição nutricional”

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Em outubro, Scientific American Brasil publica especial sobre a obesidade no mundo contemporâneo, fenômeno intensificado pela globalização

Se na década de 60 os cientistas previam que a humanidade seria acometida pela “fome em massa”, hoje, quase 50 anos depois, a discussão que ganha força, paradoxalmente, é a obesidade como problema de saúde pública, atingindo mais de um bilhão de pessoas em todo mundo, incluindo os países em desenvolvimento.

Esse é o tema do dossiê mundial publicado em outubro pelas edições de Scientific American ao redor do globo. Uma vez por ano, a revista publica simultaneamente nos 21 países em que está presente uma série de artigos em torno de um assunto relevante para o futuro da humanidade. Os textos, assinados por especialistas de várias nacionalidades, atingem milhões de leitores em países como Brasil, Alemanha, Índia, China e Canadá.

Abrindo a edição especial, o jornalista Gary Stix introduz o tema da transição nutricional, fenômeno sociológico da globalização que confere ao sobrepeso e à obesidade um papel mais preocupante que o da fome no planeta. Mais preocupante ainda é o fato, apontado pelos autores do dossiê, de que os governos não estão preparados com políticas públicas para enfrentar a questão.

Neste contexto, o artigo da nutricionista Marion Nestle aborda os diferentes (e muitas vezes confusos) tipos de dieta utilizados hoje para concluir que a mensagem mais simples é provavelmente a melhor: comer menos, exercitar-se mais, incluir frutas, hortaliças e grãos integrais na dieta e evitar a “junk food”. Nestle analisa ainda a questão ética sobre o financiamento de estudos clínicos por parte de indústrias alimentícias e de bebidas.

Em seu artigo sobre a obesidade no mundo, o epidemiologista nutricional Barry Popkin aborda a dieta ocidental pouco saudável que a globalização levou aos países em desenvolvimento. Segundo Popkin, as camadas mais pobres da população desses países aumentaram muito o consumo de bebidas adocicadas, alimentos de origem animal e óleos vegetais, além de terem adotado um estilo de vida que contribui para a obesidade, como assistir televisão e utilizar veículos motorizados.

O especial aborda ainda o uso da biotecnologia no combate à desnutrição, por meio das lavouras geneticamente modificadas, a questão dos alimentos contaminados, vistos como uma forma perigosa de terrorismo, e um artigo especial sobre a questão da obesidade no Brasil, que já atingiu a base da pirâmide populacional.

Sobre a Scientific American Brasil – www.sciam.com.br

Publicada desde 2002 pela Duetto Editorial, a Scientific American Brasil é a edição brasileira da mais tradicional revista de divulgação científica do mundo. Com circulação de 40 mil exemplares por mês (IVC), a revista dá aos leitores informação de qualidade em artigos produzidos por especialistas estrangeiros e brasileiros dos mais diversos campos da ciência. O grupo Conhecimento da Duetto publica ainda as revistas História Viva, Mente&Cérebro, EntreLivros e Brasil História, que podem ser adquiridas pelo site www.lojaduetto.com.br.

Serviço:
Scientific American Brasil
N° 65 – Outubro
R$10,90

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“O regime está com medo”

Soe Aung, porta-voz do Conselho Nacional da União de Mianmar, grupo exilado em Bangcoc, falou ao Spiegel sobre o levante em sua terra natal. Ele fala sobre a miséria do povo, as exigências do movimento pela democracia e a possibilidade de uma divisão entre os militares

Jürgen Kremb

Pergunta - A atual inquietação em Mianmar começou com protestos pelo aumento de preços. Como está a situação econômica em seu país?
Soe Aung - A opressão política, combinada com a decadência econômica, tornou-se insuportável para a maior parte dos birmaneses. É por isso que nossos copatriotas foram às ruas quando o governo elevou o preço da gasolina em 100%, no dia 15 de agosto. Muitos birmaneses hoje só conseguem comer uma refeição por dia.

Pergunta - A população precisa passar fome?
Aung - Uma em cada três crianças é mal nutrida, e o sistema de saúde está em vias de colapso. Os trabalhadores levam seus utensílios de cozinha para a casa de penhores antes de irem trabalhar. À noite, voltam para casa com alguns kyats no bolso e uma pequena quantidade de comida e pegam seus utensílios para poderem cozinhar uma refeição.

Pergunta - Ainda assim, Mianmar é rica em recursos naturais. Em 1948, ano da independência, era o país mais rico no sudeste asiático.
Aung - O Caminho Birmanês para o Socialismo, que o general Ne Win adotou em 1962, não foi nada menos que um desastre. Nos últimos poucos anos, a junta gastou US$ 3 bilhões (em torno de R$ 6 bilhões) para fazer a mudança para a nova capital, Naypyidaw. Enquanto 40% dos recursos do governo foram para os militares e agências de inteligência, saúde e educação receberam apenas 4,5%.

Pergunta - Os membros da junta também estão enchendo os próprios bolsos?
Aung - Os líderes militares vivem de forma extravagante. Quando a filha do general Than Shwe se casou, dizem que ela recebeu presentes no valor de US$ 50 milhões (aproximadamente R$ 100 milhões). Um vídeo do casamento, contrabandeado para fora do país e mostrado no Youtube, mostra a noiva coberta de pedras preciosas da cabeça aos pés. Além disso, os generais depositaram muito dinheiro ilegalmente em contas na Europa e especialmente em Cingapura. É por isso que as sanções americanas doem tanto neles. Agora ficou difícil chegarem ao dinheiro.

Pergunta - A junta está conseguindo sobreviver porque vendeu gás e petróleo para a China e faz comércio com Pequim?
Aung - A China deve agir com mais responsabilidade do que fez até agora. Não se pode permitir que a situação se deteriore até se tornar uma ameaça para a segurança de toda a região. A China, entretanto, não é a única a patrocinar a junta e a investir fortemente em Mianmar por razões estratégicas. Índia e Coréia do Sul também são completamente inescrupulosas nesse aspecto, procurando se beneficiar dos enormes campos de gás natural do oeste de Mianmar.

Pergunta - O levante dos monges pode derrubar o regime?
Aung - É mais do que apenas um levante de monges. Desde 19 de agosto, cidadãos comuns também foram para as ruas, seguindo os membros do grupo dissidente Geração Estudantil 88. A Liga Nacional pela Democracia, que foi roubada nesta vitória eleitoral de 1990, também entrou para os protestos na semana passada.

Pergunta - Mas os monges são os mais organizados?
Aung - Há mais de 600.000 monges budistas no país. Eles formaram uma aliança. Seus líderes trabalham discretamente, de forma que nem sabemos seus nomes. E eles aprenderam a lição da supressão sangrenta do movimento de democracia em 1988. Eles têm sido extremamente cuidadosos para impedir que espiões ou provocadores infiltrem-se em suas fileiras novamente. Eles agora estão trabalhando junto aos estudantes, artistas e políticos de oposição. Sua principal preocupação é preservar a ordem. Eles oram e cantam e continuam pacíficos, para não dar à junta qualquer justificativa para maior derramamento de sangue.

Pergunta - O que estão exigindo?
Aung - Um diálogo nacional entre a junta e todas as forças dentro da sociedade, assim como uma reversão dos aumentos de preços. Eles também estão exigindo a libertação de mais de 220 pessoas que foram presas e torturadas desde o início dos protestos. Eles não querem derrubar o regime.

Pergunta - Não é apenas uma questão de tempo antes dos soldados montarem um massacre similar ao que aconteceu em 1988, quando ao menos 3.000 manifestantes morreram nas ruas?
Aung - Somos predominantemente uma nação budista. Os monges representam a mais elevada instituição moral de nosso país. Eles são os filhos de Buda. Não se atira contra Buda. Tenho sérias dúvidas que soldados comuns atirariam contra os monges. As forças especiais, que a junta retirou das zonas de combate na mata, aparentemente têm menos escrúpulos quanto a isso.

Pergunta - Os militares podem se dividir?
Aung - As baixas patentes sofrem tanto quanto o povo com os aumentos de preço e com a situação econômica. Há muitos desertores. A junta não pode mais ter certeza que os soldados obedecerão. Além disso, os líderes da junta estão se culpando entre si pela situação e os protestos.

Pergunta - Uma luta pelo poder no topo?
Aung - O regime está com medo. Mas é difícil imaginar o general Than Shwe deixando o poder. Ele perdeu totalmente o contato com a realidade.

Pergunta - Qual papel Aung San Suu Kyi e seu partido terão no futuro?
Aung - O povo está por trás da vencedora do Prêmio Nobel da Paz. O fato que os generais aparentemente a levaram de sua residência, onde estava sob prisão domiciliar, à notória prisão Insein, na noite de terça-feira, mostra que a junta está preocupada que o povo pode libertá-la. Os generais devem negociar com ela. Quanto mais eles evitam uma solução pacífica, piores serão as conseqüências.

Tradução: Deborah Weinberg.

Der Spiegel
http://www.spiegel.de/

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Necessidades de energia da região sustentam a Junta Militar de Mianmar

Recursos estão acima da repressão

Thomas Fuller
Em Bancoc, Tailândia

Por duas décadas, as maiores potências da Ásia lidam com a questão de como responder à repressão implacável da junta de Mianmar. Na vizinha Tailândia, a resposta vem toda vez que os tailandeses pagam sua conta de luz.

O gás natural de Mianmar, que gera 20% de toda a eletricidade na Tailândia, mantém as luzes acesas em Bancoc. O gás, que neste ano custará cerca de US$ 2,8 bilhões, é a maior contribuição individual para a economia empobrecida e carente de recursos de Mianmar.

O acordo de gás da Tailândia acentua o dilema enfrentado pela China, Índia, Cingapura e Malásia, entre outros países, enquanto disputam pela madeira, minérios e pedras preciosas de Mianmar -e acesso ao seu mercado de 47 milhões de pessoas.

Em um tempo de preços cada vez maiores de energia, a perspectiva de obter recursos parece superar o embaraço e a vergonha de lidar com uma junta que ganhou notoriedade mundial. Os países que têm mais influência sobre Mianmar parecem ser os mais relutantes em usá-la, disseram os analistas.

Do ponto de vista dos generais de Mianmar, as compras de gás pela Tailândia são apenas o início do que promete ser uma infusão significativa de dinheiro. Mianmar em breve anunciará o vencedor da concessão dos campos de gás ainda maiores de Shwe, além da costa oeste de Mianmar. Empresas da Índia, China e Coréia do Sul apresentaram propostas para tais contratos.

No leste de Mianmar, empresas tailandesas estão construindo usinas hidrelétricas e possuem contratos que renderão bilhões de dólares ao governo pela eletricidade gerada lá.

“Para um país acostumado a uma existência precária, repentinamente há uma fartura de moeda estrangeira”, disse Sean Turnell, um especialista em economia de Mianmar da Universidade Macquarie, na Austrália. “Mianmar atualmente dispõe de dinheiro para dizer ao mundo para deixá-la em paz. Ele fortalece imensamente sua posição.”

O dinheiro permite aos generais que governam Mianmar a compra de armas da China e helicópteros da Índia, encomendarem um reator nuclear da Rússia e construírem sua nova capital em Naypyidaw, ao norte da principal cidade de Mianmar, Yangun.

“O gás natural mudou drasticamente a posição fiscal do governo militar”, disse Toshihiro Kudo, diretor do Grupo de Estudos do Sudeste Asiático do Instituto de Economias em Desenvolvimento, uma organização de pesquisa dirigida pelo governo japonês.

As reservas de gás de Mianmar são pequenas em comparação aos padrões globais. A BP, a companhia de petróleo, estima que o total das reservas de Mianmar seja de 538 milhões de metros cúbicos, bem menos do que as reservas das vizinhas Malásia ou Indonésia. Mas os bilhões de dólares que estes campos de gás renderão são muito valiosos para os generais do governo, cujas fontes de receita são extremamente limitadas devido às sanções americanas.

No ano passado, Mianmar vendeu US$ 2 bilhões em gás para a Tailândia, que representaram mais de 40% do total de exportações do país naquele ano. Em grande parte devido ao acordo do gás, a Tailândia é a maior parceira comercial de Mianmar, e não a China, como foi amplamente noticiado.

“A Tailândia e Mianmar estão cada vez mais integradas, cada vez mais dependentes uma da outra”, disse Kudo. Como resultado, ele disse, “eu não acho que a Tailândia aplicará qualquer pressão muito séria sobre o governo militar”.

Há um grande contraste na Tailândia entre a revolta da população diante da repressão e a postura de negócios de costume por trás da política tailandesa em relação a Mianmar. Na ONU na semana passada, o primeiro-ministro tailandês, Surayud Chulanont, chamou a repressão em Mianmar de “inaceitável”. Os jornais têm publicado editoriais fortes contra os generais de Mianmar. E a Tailândia continua sendo um refúgio para dissidentes birmaneses.

Mas a questão, segundo as autoridades tailandesas, é que a Tailândia está competindo pelos recursos de energia do mundo, e se não comprar o gás, outro comprará.

“Nós precisamos de energia”, disse Suthep Chimklai, diretor da divisão de planejamento do sistema da autoridade de eletricidade. “Nós precisamos equilibrar nossos recursos importando mais energia de nossos países vizinhos.” A Tailândia também compra pequenas quantidades de eletricidade do Laos e da Malásia.

Para atender sua demanda de eletricidade, a Tailândia está construindo quatro usinas elétricas, todas projetadas para operar a gás natural. Se o suprimento de gás de Mianmar for interrompido, disse Suthep, “haveria um problema sério”.

O gás natural chega a duas estações de força nos arredores de Bancoc por um gasoduto construído há uma década pela Total, a companhia de petróleo francesa; Unocal, a companhia de petróleo americana que de lá para cá foi absorvida pela Chevron; e pela PTT Exploration and Production, a principal companhia tailandesa no setor.

Segundo o Plano de Desenvolvimento de Energia da Tailândia, o governo planeja aumentar suas importações de energia de Mianmar, reforçando ainda mais a posição financeira da junta.

A política tailandesa pede pela compra de 8.200 megawatts adicionais de Mianmar ao longo dos próximos 14 anos. Grande parte disto provavelmente virá das usinas hidrelétricas no Rio Salween. A Autoridade Geradora de Eletricidade da Tailândia completou os estudos de viabilidade de uma represa em Hat Gyi, no Estado de Karen, em Mianmar. Uma companhia privada tailandesa, a MDX, ganhou a disputa para concluir uma represa maior em Tasang, no Estado de Shan.

A PTT Exploration and Production da Tailândia obteve os direitos para explorar três campos marítimos potenciais no Golfo de Martaban, ao sul de Yangun.

Sondhi Boonyaratglin, o chefe do Exército que liderou o golpe militar na Tailândia no ano passado, disse na semana passada que a Tailândia deve manter as relações com Mianmar. “Há muitos países amistosos que ajudam Mianmar, como a China e a Coréia, porque Mianmar é um país com abundância de recursos naturais que as nações poderosas desejam obter”, disse Sondhi.

Para a China, a atração de Mianmar é tanto econômica -a China é a maior importadora de Mianmar- quanto geoestratégica. Como parte de sua disputa pelos campos de petróleo no oeste de Mianmar, a China propôs a construção de um oleoduto ligando o Oceano Índico à Província de Yunnan. O oleoduto adicional transportaria óleo cru, permitindo aos navios oriundos do Oriente Médio que enviassem petróleo diretamente para a China sem a necessidade da longa viagem pelo Estreito de Malaca.

Para Mianmar, os campos de gás representariam mais dinheiro. Turnell estima que o gás extraído das plataformas de Shwe teriam um valor de US$ 2 bilhões por ano.

Tradução: George El Khouri Andolfato

International Herald Tribune

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