Arquivo de 9 de Outubro de 2007

Reitor do ABC é julgado em Tribunal de Júri Popular; Roberto Tardelli será o promotor

O reitor da Fundação Santo André, Odair Bermelho, será julgado nesta quarta-feira, dia 10, por um Tribunal do Júri Popular por ter chamado a Polícia Militar para reprimir uma manifestação de estudantes que protestavam contra o aumento das mensalidades, no ultimo dia 13. Na oportunidade vários alunos foram feridos. A polícia não poupou nem mesmo um estudante que tem parte do braço direito amputado e o espancou.

O promotor do Tribunal será o Dr. Roberto Tardelli, promotor de Justiça do 1º Tribunal do Júri da Capital. O advogado de defesa, caso o reitor não indique ninguém para defendê-lo, será Dr. Yvan Miguel, coordenador do núcleo Advogados do Povo de São Paulo. O juiz será Dr. Arthur Pinto Filho, promotor criminal da capital e assessor da Escola Superior do Ministério Público. O reitor foi formalmente convidado para se apresentar ao Tribunal.

O julgamento ocorrerá no auditório da Fafil (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras), também conhecido como Pinicão, às 19h30.

Mais informações: Lúcia Rodrigues (8202-6413)

Endereço da Fundação Santo André: avenida Príncipe de Gales, 821, Bairro Príncipe de Gales – Santo André

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Ascensão e declínio de Superpotências

O declínio dos Estados Unidos

Henrique Rattner

A história da modernidade é rica em ensinamentos sobre a ascensão e o declínio de impérios baseados na acumulação irrefreada de riquezas materiais e alavancados por conquistas militares que levaram à subjugação e posterior exploração de outros povos. Às conquistas dos portugueses e espanhóis no século XVI, seguiu a expansão comercial holandesa no século XVII, substituída no século XVIII pelos franceses e britânicos. O império britânico atingiu seu apogeu no século XIX, entrando em decadência a partir da 1a guerra mundial que inaugurou o século da supremacia dos Estados Unidos da América do Norte.

Na corrida armamentista durante a Guerra Fria, a ex-União Soviética tentou contestar a hegemonia americana; sem sucesso, entrou em colapso em 1989.

No último quartel do século XX, após uma reconstrução inédita de sua indústria e infra-estrutura, o Japão despontou como potência industrial e financeira, o que levou vários estudiosos da geopolítica a indagar: “será o Japão o número um?”

Contudo, apesar de avanços espetaculares de sua indústria e tecnologia, o Japão, com base territorial reduzida e insular, sem recursos naturais e energéticos próprios, ficou restrito ao segundo lugar entre os países desenvolvidos, membros da OCDE – Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico –, alcançando seu PIB – Produto Interno Bruto – o valor respeitável de 4,5 trilhões de dólares.

A hegemonia econômico-financeira e militar, desde o fim da 2a guerra mundial, ficou com os Estados Unidos, apesar da contestação no âmbito militar pela ex-União Soviética. Durante a “Guerra Fria”, as duas superpotências construíram um arsenal de bombas atômicas – aproximadamente 10.000 cada uma, posteriormente reduzido a 5.000 em cada país, com capacidade de destruição inimaginável de todo o planeta. Após o desmoronamento da ex-União Soviética, em 1989, os estrategistas dos dois lados do Atlântico apressaram-se em proclamar o “fim da história”, com a vitória e hegemonia incontestável do capitalismo norte-americano.

Efetivamente, os Estados Unidos têm a maior economia do mundo, com um PIB de 11,5 trilhões de dólares, embora sofram de um déficit crescente em sua balança comercial, sobretudo com os países do Oriente. China, Japão, Taiwan, Coréia do Sul juntos têm reservas cambiais de mais de 2 trilhões de dólares, o que revela a vulnerabilidade financeira da potência hegemônica, cujas finanças seguem desequilibradas, em ritmo crescente.

Os Estados Unidos têm o maior orçamento de defesa, praticamente igual ao de todos os outros países juntos e suas forças armadas – exército, armada naval e força aérea estão equipados com a mais avançada aparelhagem tecnológica. Sua frota de navios de guerra, capitaneada por 12 porta-aviões, está em todos os mares e a força aérea conta com o maior número de aviões de caça voando com velocidade supersônica e de bombardeiros capazes de carregar e despejar artefatos nucleares em qualquer parte do mundo. O número de soldados efetivos é de 1.500.000, o que permitiu o envolvimento em duas guerras simultaneamente. Após a invasão do Afeganistão, em 2001, para aniquilar os combatentes da Al Qaeda e do Talibã, as tropas norte-americanas invadiram, em 2003, o Iraque, contrariando a opinião mundial, as Nações Unidas e seu Conselho de Segurança. O motivo alegado por George W. Bush e Tony Blair da existência de depósitos de armas de destruição em massa – químicas, biológicas e nucleares – nunca foi comprovado.

Quatro anos depois da invasão, e o aprisionamento, julgamento e execução de Saddam Hussein, o desastre militar no Iraque fica cada vez mais evidente e inextrincável. Com 4.000 soldados aliados mortos e dezenas de milhares feridos e mutilados, o Iraque está submergido numa guerra civil entre xiitas e sunitas, enquanto mais de 2 milhões de civis fugiram do país. O número de vítimas civis entre a população iraquiana é estimado em centenas de milhares, tornando trágica a pretensão de Bush de implantar um regime democrático no Oriente Médio.

Enquanto as perdas em homens e equipamentos alcançam cifras astronômicas, cresce a pressão interna, nos Estados Unidos, para uma retirada de seus militares. Mas, como abandonar o Iraque, sem evocar de novo o desastre da retirada de mais de meio milhão de soldados do Vietnã, derrotados pelos exércitos “descalços”, há 32 anos?

Acrescenta-se o ressurgimento de combates no Afeganistão, onde as tropas americanas e da NATO enfrentam os guerrilheiros do Talibã, da Al Qaeda e dos “insurgentes” tribais, evidenciando a impotência do governo central “eleito” de Hamid Karzai de impor um mínimo de lei e segurança pública.

O engajamento das forças armadas dos Estados Unidos nos dois países estendeu sua capacidade de operar além dos limites e configura a derrota fragorosa da superpotência. O Congresso norte-americano, dominado por escassa maioria democrata, após as últimas eleições de 2006, votou uma proposta fixando a data de retirada das tropas norte-americanas do Iraque, prontamente vetada pelo presidente Bush. Mas, também os democratas não querem assumir a responsabilidade pública do decreto e não sabem o que fazer diante da carnificina diária por carros-bomba e ataques por homens-suicidas contra alvos civis e militares que já causaram inúmeras vítimas entre os iraquianos e outros que procuram abandonar o país destruído.

Apesar de todo o poderio de suas armas, o prestígio militar dos Estados Unidos tem sofrido um abalo do qual nenhuma nova aventura militar (Irã, Coréia do Norte, Síria) poderia resgatá-lo. Os recursos bélicos estão no limite de sua utilização eficaz, dado que para cada brigada em combate, há necessidade de duas em atividades de apoio e treinamento. O recrutamento de novos voluntários está ficando cada vez mais difícil o que levou o comando a baixar as exigências de qualificação de novos recrutas. O tempo de exposição das tropas ao combate foi aumentado para seis meses seguidos de igual período de recuperação e treinamento. As tropas inglesas concentradas na região de Basra mantêm quatro meses de combate seguidos de oito meses de recuperação. O número de soldados mortos aumenta constantemente e, mais ainda aqueles que necessitam de longos períodos de tratamento psicológico para superar o trauma e o “stress” permanentes. Cresce também, em proporções alarmantes, o número de soldados mutilados – mais de 20.000 – cujo tratamento e readaptação à vida constituem um imenso problema social e financeiro.

Embora continue incontestável a supremacia militar dos Estados Unidos, seu prestígio político e moral têm sofrido sérios abalos, pelo mundo afora e entre a própria população norte-americana.

Durante décadas, as forças armadas norte-americanas foram treinadas para enfrentar os poderosos exércitos da ex-União Soviética, dando-se pouca importância a pequenos conflitos regionais, embora não faltassem advertências de militares sobre a inadequação do treinamento e do equipamento para um conflito com guerrilheiros urbanos. Poucas unidades dos 1,5 milhão de soldados estão preparadas para lutar contra os “insurgentes” no Iraque e no Afeganistão, entrincheirados sob edifícios civis, onde o emprego maciço da aviação e de veículos blindados pesados se tem revelado ineficaz para expulsar os combatentes inimigos, enquanto tem causado inúmeras vítimas entre civis e destruído cidades inteiras.

A doutrina militar herdada da 2a guerra mundial (“Blitzkrieg”) não funciona em condições de combate com guerrilheiros urbanos, como bem aprenderam as tropas norte-americanas e seus mercenários no Iraque, e os israelenses no curto conflito com o Hezbolah, no Líbano, em julho de 2006.

Às perdas enormes em vidas humanas e ao custo financeiro deve ser acrescentada a decadência do prestígio político e moral entre os americanos e seus aliados.

O envolvimento em conflitos sangrentos, reprovado por praticamente todos os governos e povos, com exceção de Tony Blair, companheiro de Bush nas mentiras sobre depósitos de armas de destruição em massa no Iraque, foi seguido pelo horror causado no mundo após os relatos sobre as atrocidades cometidas por soldados norte-americanos em Abu Ghraib, a manutenção em prisão e tortura de prisioneiros “suspeitos” de atividades terroristas em Guantánamo, Cuba e a divulgação de operações ilegais da CIA em vários países europeus.

A confiança e auto-estima dos norte-americanos foram profundamente atingidas, moral e legalmente, por medidas propostas por Bush e aprovadas pelo Congresso, então com maioria republicana, tais como o Military Commissions Act, a autorização de torturas em “certas circunstâncias” e restrição ao habeas corpus que constituem uma grave ameaça à democracia e aos direitos humanos. Ainda antes da aprovação dessas leis pelo Congresso, o Governo Bush lançou mão de seqüestros, encarceramento e tortura de pessoas que jamais haviam sido formalmente acusadas de qualquer crime específico.

Efetivamente, com exceção de Blair que não mais representa o povo britânico, os Estados Unidos não contam com o apoio ou a solidariedade de nenhuma região do planeta. Analistas e estrategistas militares levantam conjecturas sobre os impactos causados pela guerra do Iraque no “declínio do império” e que possam resultar em redesenho do mapa e do equilíbrio geopolítico no mundo.

Tanto na Europa ocidental, na África e, sobretudo, na América Latina, alastram-se profundos sentimentos de rejeição e crítica às políticas norte-americanas. O mundo islâmico, com mais de um bilhão de pessoas, desde Indonésia e Malásia até o norte da África condena os Estados Unidos e sua política no Oriente Médio. Mesmo no Extremo Oriente, cujos países estão sob o guarda-chuva de proteção nuclear norte-americana contra possíveis, mas improváveis ataques da Coréia do Norte, os japoneses, coreanos, taiwaneses adotam freqüentemente atitudes abertamente hostis contra os americanos.

As relações com a Rússia continuam tensas, apesar dos encontros entre Bush e Putin que, além das 5.000 armas atômicas armazenadas, controla crescentemente o abastecimento dos países europeus com o gás combustível. Embora não haja perspectivas de um conflito armado com a Rússia, seu regime autoritário, a repressão interna de qualquer oposição e a venda de armas sofisticadas, inclusive aviões de caça supersônicos constituem fator de preocupação permanente do governo norte-americano.

Ademais, o Governo Putin acaba de anunciar a retirada da Rússia do tratado sobre a limitação de armas convencionais na Europa que foi considerado como o primeiro passo em direção ao desarmamento. A decisão da Rússia é claramente uma reação à suposta ameaça que representaria a construção, pelos Estados Unidos de um escudo antimísseis na República Tcheca e na Polônia, alegando o perigo de mísseis carregados de bombas nucleares do Irã.

A contraproposta de Putin de ampliar e administrar em conjunto a base já existente no Azerbaijão, próxima à fronteira com o Irão, foi descartada por Bush.

Mas, a maior fonte de preocupação para a política norte-americana e concebida como ameaça mais séria a sua hegemonia é a ascensão da China, com mais de 1,3 bilhões de população e cuja influência e presença econômica, comercial e tecnológica permeia o atual cenário internacional.

Há um quarto de século a China investe, anualmente, pesadamente (até 50% de seu PIB) no seu crescimento econômico, na educação, no desenvolvimento tecnológico e na modernização de suas forças armadas, e tem construído e mandado para o espaço naves e satélites, além, também, de dispor de centenas de armas nucleares.

A ascensão da China

A China, junto com a Mesopotâmia, o Egito e a Índia são considerados os berços da civilização humana, amplamente documentados e estudados pela Arqueologia, a Antropologia Cultural e a História oral e escrita transmitidas através de gerações.

Com extensão territorial de quase 10 milhões de km2, o dobro da Europa, excluindo a Rússia, e uma população que ultrapassa 1,3 bilhões de pessoas, a China possui enormes recursos naturais e minerais, além de um imenso potencial hídrico representado pelos rios Yang Tse e Hoang-Hu cujas águas irrigam as planícies férteis desde tempos pré-históricos, e permitem o cultivo de milho, trigo e arroz, alimentos básicos para uma população em expansão constante.

As riquezas produzidas pela agricultura irrigada atraíram os “bárbaros” hunos, mongóis, turcmenos e outros que invadiram inúmeras vezes as prósperas terras do império. Para se proteger contra as invasões, os chineses construíram a “grande muralha” de mais de 2.400 km de extensão, uma verdadeira maravilha do engenho e da capacidade construtiva dos chineses.

Durante a história milenar da China, nota-se a forte presença do Estado centralizador na organização e administração das atividades econômicas e de defesa.

Entre as várias dinastias que dominaram esse país, de dimensões continentais, destaca-se a dos Souéi (581-619) que impôs uma série de reformas políticas, sociais e econômicas, conseguindo pacificar a sociedade. Além da reforma do código penal, os impostos foram reduzidos por um terço e os dízimos, pela metade. As terras foram distribuídas entre os camponeses – 1,5 hectares por adulto – conseguidas pela expropriação dos senhores feudais. O fortalecimento da monarquia coincidiu com uma expansão do comércio por via marítima.

Diferentemente dos outros países da época, o regime chinês foi mais democrático e mais igualitário, baseado no direito natural da posse da terra em comum. A organização social da população foi configurada por aldeias, cantões e províncias, cujo funcionamento e segurança foram assegurados pelas forças militares sob comando do imperador.

O Estado organizou, também, a instrução e formou um quadro de administradores admitidos por concurso, além de estimular os estudos acadêmicos e científicos. Os cargos político-administrativos não foram hereditários e o novo código civil pregou os princípios de humanização e solidariedade.

Quanto ao culto religioso, diferentemente dos hindus e islâmicos, os chineses não demonstram atitudes de intolerância ou de fanatismo. Em vez de se ocupar com o além, os sábios dirigem suas atenções para a gestão de assuntos terrenos, do dia-a-dia, para assegurar o bem estar de todos. Diferentemente das culturas ocidentais, onde a Arte e a Música foram profundamente influenciadas pela idéia do divino, a China desenvolveu sua cultura na veneração da natureza. A liderança na sociedade chinesa não foi exercida por sacerdotes de personalidade carismática, mas pelos instruídos nos ensinamentos hedonistas e pragmáticos de Confúcio.

A história da China não oferece exemplos de intolerância ou de perseguição religiosas, embora sua estrutura social tenha sido sempre marcada pela religião. As massas de camponeses seguiram as crenças e superstições do animismo primitivo, herança da cultura primeval. As elites instruídas se definem pela adesão à ética confuciana. Ao longo dos séculos, a estruturação religiosa configura-se em três grandes correntes: o confucionismo, o taoísmo e o budismo.

Pela antiga concepção chinesa, o céu, a terra e os homens constituem uma completa unidade, donde se deriva a busca de harmonia entre as ações humanas e a natureza. A observação da natureza, em seus movimentos cíclicos – as estações do clima, o crescimento da flora e as correntezas dos grandes rios, por um lado e a violência das inundações, tempestades e secas, por outro, deu origem a uma cosmologia que permeia todo o pensamento e a ação dos chineses. O princípio do Tao – a unidade e amplitude do universo – é o fundamento pelo qual a vida em sociedade deve se reger livre de agressividade e de ganância, em harmonia com a natureza.

Desde os primórdios da civilização chinesa e antes de Confúcio e Buda, os costumes, valores e o folclore tradicionais procuravam aplacar a ira os demônios e maus espíritos por sacrifícios os quais ao longo dos séculos se tornaram simbólicos. Já no 2o milênio antes da era cristã, instalou-se o culto aos ancestrais, mediante altares e ritos de luto específicos. A idéia central que permeia esses ritos é a continuidade da vida, atravessando passado, presente e futuro representados pelas diversas gerações da família.

O imperador, filho do céu, foi venerado como pai benevolente da nação, visão refletida na relação à propriedade das terras, lares e outros bens que pertenciam a todos, inclusive aos entes falecidos. Assim, o culto de reverência aos parentes mortos constitui ainda parte fundamental da cultura chinesa.

Os ensinamentos de Confúcio que impregnam e continuam a pesar na cultura chinesa atual, podem ser encontrados numa coletânea de provérbios e injunções éticas do mestre. Segundo esses preceitos, facilitar a governabilidade e o convívio em sociedade exige distanciar-se da crença em demônios e divindades sobrenaturais. Assim, Confúcio rejeitou a sua própria divinização e preferiu ser considerado como exemplo do saber e da virtude.

A ascensão do regime comunista a partir de 1949 e a conseqüente transformação da ideologia dominante levaram ao enfraquecimento e até a eliminação, tanto dos ritos tradicionais, quanto dos cultos de Confúcio. Em 1912, com a queda do último imperador e a criação da República, a veneração a Confúcio ficou abalada, embora o governo de Chiang Kai Chek tenha declarado seu aniversário como feriado nacional, até hoje celebrado – em Taiwan.

Como explicar a decadência do poderoso império chinês que desde a antigüidade mantinha relações comerciais com o ocidente, construindo e zelando pela segurança da famosa “estrada de seda”, pela qual transitavam as caravanas de mercadores, alimentando um fluxo intenso de bens e inovações tecnológicas da China para o resto do mundo, como a bússola, a pólvora, a impressão em papel que foram trazidas para a Europa e contribuíram para o processo de modernização na época do Renascimento.

Mas, o fortalecimento dos senhores feudais e o isolamento do resto do mundo causaram atraso econômico e militar, sobretudo no século XIX. As constantes lutas dos generais – senhores feudais entre si, enfraqueceram o poder central e atiçaram a cobiça pela conquista de territórios chineses por parte dos países ocidentais.

Em 1857, a Grã-Bretanha derrotou os exércitos chineses dotados de armamentos antiquados, na famigerada “guerra de ópio”, cuja livre importação foi imposta pelos vencedores. Sucessivamente, os Estados Unidos, Portugal, França, Alemanha e Inglaterra ocuparam enclaves territoriais chineses, a partir dos quais importavam suas mercadorias e exportavam bens demandados em seus países.

Em 1894/5, os exércitos chineses sofreram uma fragorosa derrota numa guerra contra os japoneses, que se apoderaram de vastas extensões territoriais da China. Em 1899/1900 ocorreu um levante popular contra a opressão e exploração pelos países imperialistas, conhecido na História como o levante dos “Boxers”. Os países ocidentais mandaram uma força expedicionária que reprimiu o levante de forma sangrenta e, em seguida, exigiram o pagamento das reparações pesadas que enfraqueceram ainda mais a autoridade imperial e abriram o caminho para sua derrubada e a conseqüente proclamação da República.

As derrotas militares humilhantes e a ocupação de seus territórios pelas potências imperialistas, despertaram o nacionalismo chinês e levaram à criação de um partido nacionalista, o Kuo Ming-Tang, sob a liderança de Sun Yat Sen, considerado o pai da China moderna.

Em 1927, sob a inspiração da Internacional Comunista, comandada por Stalin, o partido comunista chinês esboçou um levante revolucionário em Cantão, violentamente reprimido pelos militares.

Nos anos trinta do século passado, os japoneses se lançaram novamente à guerra contra a China, enfraquecida internamente pelas lutas entre seus generais. As tropas japonesas ocuparam um vasto território no nordeste da China, a Manchúria, rica em matérias-primas, que foi declarada um reino “independente” sob proteção do Japão.

Durante a 2a guerra mundial, pressionada pelos aliados ocidentais, a China, liderada pelo General Chiang Kai Chek, declarou a guerra ao Japão e aos seus aliados do “eixo” Alemanha e Itália.

As tropas chinesas, mal armadas e treinadas, não conseguiram resistir aos japoneses e sofreram também constantes ataques pelos soldados camponeses liderados por Mao Tse Tung. Em 1949, as tropas de Chiang Kai Chek se renderam e uma parte dos soldados e suas famílias fugiram para a ilha de Formosa – hoje Taiwan – onde proclamaram um Estado independente, em oposição ao regime comunista.

Apesar das ameaças das antigas potências coloniais e a pressão nada amigável da ex-União Soviética, o novo regime conseguiu unir, integrar e pacificar um povo de 600 milhões de habitantes, dando início a um processo de construção de um Estado moderno, dinâmico e militarmente eficaz, como provou a intervenção das tropas chinesas ao lado da Coréia do Norte, quase expulsando as tropas americanas da península Coreana, em 1951.

Nos anos sessenta, a China passou pelo movimento de “Revolução Cultural” que mobilizou e despertou, politicamente, dezenas de milhões de camponeses, trabalhadores e estudantes. Ao mesmo tempo, foram varridas do cenário social e político as “elites” tradicionais que tinham arrastado a sociedade chinesa durante séculos, na mais abjeta miséria e exploração.

Por outro lado, apesar das crueldades e eventuais injustiças cometidas durante a Revolução Cultural, a China emergiu dela como uma sociedade mais coesa e solidária e seus membros mais conscientes de seu legado histórico e de sua identidade nacional e cultural.

Na fase de transição para uma sociedade industrial moderna, como comprovam os exemplos da Alemanha e do Japão no século XIX, a presença do Estado com sua capacidade de planejar, orientar e regulamentar os investimentos produtivos tem sido o fator fundamental para a emergência da China como potência hegemônica no cenário internacional. A ação do poder público, apoiado em amplo consenso da população, cria oportunidades para planejar e fiscalizar a aplicação de recursos materiais, financeiros e humanos, que asseguraram o êxito na condução do processo de desenvolvimento.

Indubitavelmente, a China desponta neste começo de século XXI como a nova superpotência em ascensão. Há mais de duas décadas a economia chinesa cresce a um ritmo alucinante, com uma taxa anual superior a 10% medida pelo PIB , causando assombro e inveja aos economistas e políticos ocidentais. Junto com o processo de crescimento econômico ocorreu um acelerado processo de urbanização que transferiu centenas de milhões de camponeses para as cidades, a um ritmo e intensidade superiores a qualquer outro país na história recente, incorporando-os como produtores e consumidores. Com a pressão demográfica – são 1,3 bilhão de habitantes – expandiu-se o desenvolvimento em direção ao interior, ao longo de milhares de quilômetros beirando os rios Yang-Tse e Huang-Ho.

Investindo quase 50% do PIB anualmente, a acumulação de capital e a incorporação de mão-de-obra prosseguem a um ritmo acelerado, atraindo, também, mais da metade dos FDI – Foreign Direct Investment (investimentos estrangeiros) do mercado mundial. Com uma oferta praticamente ilimitada de mão-de-obra relativamente qualificada e o acesso e incorporação de tecnologia de ponta, a China consegue abarrotar o mercado mundial com seus produtos, exportando bens e serviços no total de US$ 600 bilhões anuais e acumulando saldos comerciais superavitários que elevaram suas reservas cambiais a mais de um trilhão de dólares.

Sem dúvida, a China enfrenta enormes problemas sociais e ambientais, cujo equacionamento e solução exigirão investimentos e esforços adicionais de planejamento da expansão econômica. No período de 25 anos, a China conseguiu incorporar à sociedade mais de trezentos milhões de pessoas como membros produtivos, mais do que todos os países “emergentes” e em desenvolvimento em conjunto.

A qualidade de vida da população melhorou nesse período, revelando uma crescente e próspera classe média. O coeficiente de GINI – parâmetro de distribuição desigual da renda é igual ao dos Estados Unidos. Apesar de previsões pessimistas afirmando a insustentabilidade do presente crescimento econômico e das exportações, os avanços nas transformações e na expansão do mercado interno reforçam a tendência ao crescimento da economia chinesa, em vias de ultrapassar a Alemanha e alcançar o Japão.

O orçamento militar chinês superou o do Japão, seguindo de perto os da França e da Grã-Bretanha, alimentado por um crescimento econômico (PIB) que ultrapassou os dois países, igualou-se ao da Alemanha e persegue o segundo lugar na economia mundial, atrás dos Estados Unidos.

Durante o século XX, os Estados Unidos alcançaram sua posição hegemônica, não somente pela pujança de sua indústria, comércio e finanças, mas, sobretudo pela irradiação da democracia liberal e sua cultura – o “American Way of Life”.

Hoje, após o descalabro e próxima retirada do Iraque, suas alianças e prestígio desmoronaram, junto com a sua imagem política e moral. Procurando um “bode expiatório”, os grupos conservadores norte-americanos clamam por um sistema protecionista comercial contra a rival – China; à semelhança dos anos oitenta quando medidas idênticas foram advogadas, sem sucesso, contra o Japão. As indústrias de ponta chinesas e japonesas instalaram-se nos Estados Unidos e seus produtos eliminam competidores americanos do mercado.

Finalmente, os problemas do aquecimento global por efeito estufa e a questão de combustíveis alternativos e mais limpos afetam a todos os países industrializados, sendo os Estados Unidos e a China os maiores emissores de CO2. Ambos dispõem de imensas reservas de carvão mineral, sendo a fonte energética mais barata, sobretudo face ao aumento dos preços do petróleo. Queimar carvão é o processo mais barato de gerar energia elétrica, mas produz, aproximadamente, 40% de emissão de CO2.

O Governo Bush tem resistido sistematicamente a estabelecer metas de redução das emissões e a China, na sua corrida desenfreada pelo crescimento econômico, coloca em operação uma usina movida a carvão de 500 MW por semana.

Enquanto os Estados Unidos discutem subsídios para a produção de etanol à base de milho (alto custo e ambientalmente desaconselhado) a China investe, pesadamente, em energia eólica e solar.

Qual dos dois países atenderá mais rápido e eficazmente o clamor das populações por um mundo mais justo, limpo e seguro para todos?

HENRIQUE RATTNER

Revista Espaço Acadêmico

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Melhores do Congresso

Vote nos parlamentares do PSOL

O sítio de notícias “Congresso em Foco” iniciou na última terça-feira (18/9) a votação que definirá os melhores congressistas do país deste ano. Até 18 de novembro o internauta poderá votar. Na primeira etapa votaram 188 jornalistas que cobrem o Congresso Nacional, que selecionaram 25 deputados e 16 senadores. Todos os parlamentares do PSOL – Ivan Valente, Chico Alencar, Luciana Genro e o senador José Nery - ficaram entre os 15 primeiros.

Meus votos são:

Ivan Valente (Deputado Federal Psol SP)
José Nery (Senador Psol PA)

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O filósofo do corpo

Sai em edição bilíngüe nova tradução do clássico “Ética”, de Espinosa, que resgatou o papel da matéria para o pensamento do século 17

VLADIMIR SAFATLE
ESPECIAL PARA A FOLHA

A história da filosofia desconhece a linha reta. Seu tempo não é aquele das sucessões lineares, em que a passagem de um sistema filosófico a outro aparece como um progresso inexorável. O tempo da filosofia é aquele em que o presente não é outra coisa que não uma versão mais contraída do passado. Presente como campo de forças no qual vários passados entram em confronto e relação.
Isso talvez explique a plasticidade que faz com que certos autores clássicos ganhem atualidade inesperada em vários momentos da história. Pegue-se, por exemplo, o caso de Espinosa [1632-1677].
Conhecemos dois grandes momentos de recuperação do espinosismo. O primeiro ocorreu no idealismo e romantismo alemães, onde o monismo do filósofo holandês aparecia como uma via possível para a constituição de uma crítica às dicotomias produzidas pelo entendimento kantiano.
O segundo ocorreu no pensamento francês contemporâneo (em especial por meio de nomes como Deleuze e Althusser). Nesse caso, a recuperação de um espinosismo mediado muitas vezes por Nietzsche aparecia, sobretudo, como forma de anular o peso do hegelianismo que havia marcado o pensamento francês até os anos 1950.
Sentimos até hoje os efeitos dessa segunda recuperação do espinosismo. Noções fortemente presentes no debate contemporâneo das idéias, como imanência (utilizada no campo da política, por exemplo, pelo italiano Antonio Negri), recuperação da centralidade do corpo no interior da reflexão filosófica, esgotamento da filosofia do sujeito devem muito a uma certa recuperação do espinosismo.
De qualquer modo, é notável como a contemporaneidade inverteu uma equação quase constante durante toda a filosofia moderna e que colocava Espinosa como a pior figura regressiva da filosofia, como uma espécie de fantasma paradigmático do irracionalismo.
Hegel, que fora acusado de espinosismo, definia o pensamento do filósofo holandês como “eco do pensamento oriental”. Ele expunha claramente a maneira com que a filosofia de Espinosa aparecia fora de uma certa noção de Ocidente fundamental para a constituição da modernidade.
Essa noção depende, sobretudo, da laicização de categorias teológicas, da constituição de uma metafísica elaborada por meio das dicotomias instauradas por um pensamento judaico-cristão. No entanto, se atualmente Espinosa aparece como um contemporâneo, talvez seja porque o pensamento ocidental aprendeu a desconfiar de si mesmo.
É nesse contexto que chegam às livrarias uma nova tradução da “Ética” assim como o curioso “A Vida e o Espírito de Baruch de Espinosa”, composto por uma biografia provavelmente escrita por um discípulo de Espinosa, em 1678, e pelo “Tratado dos Três Impostores”, panfleto anônimo anticlerical contra Moisés, Jesus e Maomé profundamente marcado por um certo espinosismo que animava meios ateus nos séculos 17 e 18.
A edição desse segundo volume não deixa de ter sua ironia em um tempo, como o de hoje, que assiste ao retorno do fundamentalismo cristão travestido de crítica da modernidade. A nova tradução da “Ética” é um empreendimento editorial louvável. Anteriormente, o Brasil dispunha de duas traduções: uma feita por Joaquim de Carvalho, Joaquim Ferreira Gomes e Antonio Simões e outra, mais antiga, levada a cabo por Lívio Xavier.
No entanto nenhuma delas continha aparato crítico e o texto original em latim.
Além disso, salta aos olhos um cuidado de tradução que foi capaz de aliar precisão conceitual e recusa em abandonar o solo das potencialidades coloquiais da língua portuguesa, além da generosidade em não abarrotar o texto com notas de edição que procuram dirigir a interpretação.
Graças a isso, temos enfim nas livrarias brasileiras uma edição à altura de um dos livros maiores da história da filosofia.
Que esse cuidado imponha, entre nós, um novo parâmetro na tradução de textos clássicos. Muito haveria a dizer a respeito da originalidade de “Ética”, com sua ordem geométrica e seu estilo translúcido próprio à grande tradição racionalista do século 17.
Partindo da constituição de uma ontologia monista assentada na defesa da univocidade do ser, “Ética” pode apresentar Deus como substância de todas as coisas, como o ser uno que se expressa na multiplicidade de todos os entes.
Ele é causa imanente do que há. O que valeu à filosofia de Espinosa a acusação reiterada de panteísmo, que rebaixaria Deus à condição de natureza que se expressa sem a necessidade de se pôr como transcendência.
Essa ontologia fornece o fundamento tanto para uma teoria complexa do conhecimento quanto para uma reflexão sobre os modos de determinação e orientação da conduta.
Ou seja, para uma ética que, por partir de uma perspectiva monista, não precisa basear-se em dicotomias entre vontade livre e desejo patológico, mente autônoma e corpo preso à heteronomia da natureza, entre outros. Dicotomias que marcarão estruturas gerais da reflexão moderna sobre a ética.
Dessa forma, Espinosa fornecia vias possíveis para a reconstrução profunda de questões maiores da filosofia.
Uma reconstrução a respeito da qual medimos as conseqüências até hoje.

VLADIMIR SAFATLE é professor do departamento de filosofia da Universidade de São Paulo e autor de “Lacan” (Publifolha).

ÉTICA
Autor: Espinosa
Tradução: Tomaz Tadeu
Editora: Autêntica (tel. 0800-2831-322)
Quanto: R$ 68 (424 págs.)

A VIDA E O ESPÍRITO DE BARUCH DE ESPINOSA/ TRATADO DOS TRÊS IMPOSTORES
Tradução: Éclair Antonio Almeida Filho
Editora: Martins Fontes (tel. 0/xx/ 11/ 3241-3677)
Quanto: R$ 29,90 (200 págs.)

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De onde vem a areia das praias

Elementos químicos radioativos recontam a história da formação do litoral sudeste

Giovana Girardi

Quem vê uma montanha de areia em frente a um prédio em construção não imagina que ela esconde segredos de uma época em que as praias começavam a ser formadas por sedimentos arrastados ao sabor da flutuação do nível do mar. É a composição da areia que conta o enredo e o tempo dessa história, como vem descobrindo o físico Roberto Meigikos dos Anjos, da Universidade Federal Fluminense (UFF). Paulistano formado em todos os estágios de graduação na Universidade de São Paulo (USP), Meigikos trocou os laboratórios da capital paulista pela praia fluminense. Em Niterói, seu trabalho começou com a medição da radioatividade natural da areia das praias e avaliação do risco de se usar essa areia na construção civil. Mais recentemente ele e sua equipe passaram a escrever uma espécie de história da formação do litoral brasileiro.

Algumas partes da costa norte do Rio apresentam uma concentração de elementos químicos radioativos que podem expor a população a uma dose de radiação natural de três a cinco vezes superior à média mundial, efeito que os pesquisadores costumam chamar de anomalia. O contato ocasional com essa radiação não chega a ser prejudicial para quem freqüenta a praia, mas se essa areia for usada em grande quantidade na construção de uma casa, por exemplo, pode trazer problemas de saúde para seus moradores. É que as pessoas ficam expostas permanentemente à radiação emitida pelos elementos enclausurados nas paredes. Intrigado com o nível de radiação detectado na areia de praias como Guaxindiba, no município de São Francisco de Itabapoana, Meigikos resolveu analisar outros pontos do litoral. Em diversas excursões, muitas vezes usando o seu próprio carro, ele e seus alunos recolheram amostras de areia de 50 praias de um trecho da costa que vai do norte do Espírito Santo ao sul de São Paulo. O alvo então já não eram mais as anomalias propriamente ditas, mas descobrir as origens daqueles sedimentos e os mecanismos que os transportaram até ali.

Estudando as correlações entre os elementos químicos radioativos tório, urânio e potássio, os pesquisadores conseguem traçar as propriedades mineralógicas da areia da praia, estimar o tipo de formação rochosa que a originou e dizer se esses sedimentos chegaram ali por ação dos ventos, dos rios ou arrastados pelas águas do oceano. Também permite avaliar se os sedimentos que hoje se depositam na orla marítima permaneceram muito tempo em ambientes terrestres ou ficaram submersos em águas profundas ou rasas. É uma informação relevante, uma vez que, no caso brasileiro, as flutuações do nível do mar foram importantes para moldar as planícies costeiras. Aqui as praias começaram a se formar nos últimos 18 mil anos – durante o período geológico Quaternário – e ainda hoje continuam em transformação. Durante esse período houve uma drástica variação no nível do mar, que ora expôs grandes áreas da plataforma continental, ora as deixou submersas. “Esse sobe-e-desce fez o oceano funcionar como um filtro, reprocessando os sedimentos que originam a areia das praias”, conta Meigikos.

De modo geral, a areia contém minerais leves, que se espalham nas águas mais superficiais, e pesados, que se concentram no fundo do oceano. As ondas e as correntes marítimas, porém, se encarregaram de reunir em algumas de nossas praias os minerais mais pesados – e também mais interessantes economicamente –, como ilmenita e rutilo, usados para a produção de pigmentos; o zircônio, que abastece a indústria siderúrgica; e a monazita, empregada na confecção de catalisadores. Esses minerais mais pesados contêm altas concentrações de tório e urânio, ao passo que os mais leves, como o quartzo e o feldspato, apresentam alto nível de potássio.
Na praia, todos esses minérios estão misturados. A cor da areia costuma ajudar a identificá-los – as mais escuras, num tom entre o vermelho e o preto, sinalizam maior presença de elementos pesados, enquanto a areia clarinha representa elementos mais leves. Só que dizer o que veio de onde não é tão simples assim. É aí que a técnica de radiometria de Meigikos entra em ação porque a identificação dos elementos radioativos ajuda a determinar o tipo de rocha que originou esses sedimentos.

Depois de analisar a areia de 50 praias, o grupo da UFF calculou a razão entre as concentrações dos elementos tório e urânio e entre tório e potássio das amostras. A primeira proporção ajuda a estimar os principais meios de transporte e o tempo que os sedimentos passaram debaixo d’água. Isso porque uma parte do urânio sofre oxidação e assume uma forma mais solúvel em contato com o ar – portanto, o sedimento que fica muito tempo exposto à atmosfera apresenta menor concentração de urânio –, ao passo que o tório é bastante estável.

Como conseqüência do comportamento distinto desses elementos, se a divisão de tório por urânio resultar em um número alto, é sinal de que o urânio passou muito tempo fora d’água e sofreu um intenso processo de oxidação. Meigikos avalia essa relação por meio de uma escala que vai de 0 a 7. Quando o resultado é maior que 7, significa que o sedimento passou muito tempo fora d’água, ou seja, o urânio se oxidou bastante. Entre 2 e 7, passou muito tempo em ambientes de águas rasas, como rios ou lagoas. Resultado menor que 2 indica que o sedimento passou a maior parte do tempo em águas profundas, onde o nível de oxigenação é menor.

A relação entre tório e potássio, por sua vez, permite contar outra parte da história. Quase todos os sedimentos que formam a areia da praia provêm da decomposição e da erosão das rochas ao longo de milhares de anos. O enigma, no entanto, é saber como eles chegaram à praia. Podem ter sido carregados por ventos e depositados diretamente na praia ou levados por rios até o mar, onde passaram um tempo sendo arrastados de um lado para o outro até se fixarem na praia. Os pesquisadores perceberam que, se a areia contém grande quantidade de potássio, esse sedimento provavelmente veio direto da rocha para a orla. Já se a quantidade de potássio é baixa, passou por várias outras etapas que levaram à decomposição desse elemento químico.

Praias com faixa de areia mais estreita, como as da região entre Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo, e Angra dos Reis, no sul do Rio de Janeiro, possuem nível de potássio comparável ao de rochas graníticas. Para Meigikos, é um sinal de que a areia dessa região originou-se principalmente na serra do Mar – cadeia de rochas graníticas muito antigas, formadas há mais de 500 milhões de anos – e foi carregada para a costa pelo vento. Mas há exceções. Em Caraguatatuba e Ubatuba a areia foi arrastada pelos rios e passou muito tempo submersa em águas profundas antes de se depositar nas praias.

Em áreas com faixa de areia mais larga, comuns ao norte do Rio e no Espírito Santo, o nível de potássio é consideravelmente mais baixo. A explicação é que a areia dali veio de vastos depósitos de sedimentos que se acumularam entre 65 milhões e 2 milhões de anos atrás a alguns quilômetros do litoral. Rios como o Paraíba do Sul e o Doce transportam esses sedimentos até o oceano, onde permanecem longos períodos antes de chegarem às praias.

Mais do que esclarecer pontos da história geológica, a compreensão de como se formaram as praias pode resolver dúvidas sobre como se deu sua ocupação do litoral pelos primeiros brasileiros. Compreender a variação dos níveis do mar pode ajudar a entender as condições que propiciaram ou dificultaram a instalação humana do litoral muito antes da chegada dos europeus.

Os principais registros arqueológicos da presença de gente na região são os sambaquis, montes de até 30 metros de altura formados por conchas e areia ou terra, construídos ao longo da costa pelos primeiros povos nômades a habitarem o local. Datações feitas nos sambaquis indicam que a região teria sido ocupada há no máximo 6 mil anos, a data mais aceita por arqueólogos e antropólogos. Mas estudos recentes sugerem que os sambaquis podem ter até 8 mil anos.

Os críticos alegam que ao menos duas dessas datações são questionáveis. A mais antiga atribui ao sambaqui da praia de Camboinhas, em Niterói, a idade de aproximadamente 8 mil anos. Os geomorfologistas que discordam desses números afirmam que essa região de restinga, extensa faixa de areia que avança sobre o mar, formou-se mais tarde, há 5 mil anos. A técnica de radiometria de Meigikos pode contribuir com dados que corroborem a datação de Camboinhas.

O físico também pretende reunir elementos para confirmar a idade do sambaqui de Algodão, na baía de Ribeira, em Angra dos Reis. Datações feitas em 2002 por Meigikos e Kita Macário, também da UFF, e pela arqueóloga Tania Andrade Lima, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sugerem que esse sambaqui tenha sido construído há cerca de 7,8 mil anos. A partir da análise dos elementos radioativos encontrados na areia de Ribeira, os pesquisadores esperam descobrir se a região estava ou não submersa naquele período – e, portanto, se era viável construir sambaquis ali. “Vamos usar a correlação entre tório e urânio. Se o resultado for entre 2 e 7 ou superior a 7, é possível que houvesse gente vivendo ali naquela época”, explica o físico. Caso os sedimentos sejam provenientes principalmente de águas profundas, é quase impossível que o local tenha sido ocupado por grupos humanos.

Em parceria com a arqueóloga Ângela Buarque, da UFRJ, Meigikos tenta encontrar uma resposta para outro enigma: por que algumas regiões da costa fluminense não apresentam nenhum sambaqui. “A região dos Lagos é uma das mais ricas nesses montes de conchas, comuns em Búzios, Cabo Frio, Arraial do Cabo, Saquarema. Mas não existe nenhum sambaqui em Araruama”, diz Meigikos. “Os estudiosos sempre se perguntaram por quê. Meu palpite é que essa região, por alguma condição específica da natureza, ficou muito abaixo do nível do mar durante o período em que ocorreu esse tipo de ocupação, o que pretendemos responder analisando o teor de tório e urânio das areias de lá.” Em última instância, esse estudo pode fortalecer a idéia de que o litoral centro-sul brasileiro foi colonizado muito antes do que se acredita.

Revista da FAPESP
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/

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9% do eleitorado está filiado a um partido político

9% do eleitorado está filiado a um partido político

Terminou na sexta-feira (5) o prazo para quem quisessem disputar as eleições municipais, em 2008, ingressar em um partido político uma das regras para se lançar candidato. A regra valia para todos os eleitores e também para os político que estivessem insatisfeitos com sua legenda e pretendessem mudar de partido para concorrer a uma vaga de prefeito ou vereador de sua cidade.

De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), atualizados até setembro, o Brasil tem 11.456.008 pessoas filiadas a um partido político. Ou seja, diante do total do eleitorado, cerca de 126 milhões, isso representa que cerca de 9% do eleitorado estará apto para se candidatar nas eleições municipais. O PMDB, PP, PSDB e PT são os únicos partidos que ultrapassam mais de um milhão de filiados: são 2.002.449 de peemedebistas, 1.237.672 pepistas, 1.109.428 tucanos e 1.063.719 petistas.

Já o Partido da Causa Operário (PCO), o “nanico” em número de filiados, tem 3.234 militantes em todo o país. Nem por isso deixou de marcar presença no cenário político nacional com o lançamento da candidatura de Rui Pimenta Presidência da República nas duas últimas eleições.

O Partido Socialismo e Liberdade (P-SOL) também não atinge o número de 10 mil filiados. Apesar de ser representado no parlamento por um senador, José Nery (PA), e três deputados federais, Chico Alencar (RJ), Ivan Valente (SP) e Luciana Genro (RS), o partido tem, apenas, 8.763 filiados. No ano passado, entretanto, a presidente do partido e ex-senadora, Heloísa Helena, obteve 8.001.092 votos, o que representa 7,9% dos votos válidos para presidente.

Recém-criado como o P-SOL, o Partido Republicano Brasileiro (PRB) do vice-presidente José Alencar (MG), tem 8.050 filiados segundo os números do TSE. Nem por isso, deixa de estar representado no Senado da República, por Marcelo Crivella (RJ) e quatro deputados federais: Carlos Souza (AM), Kleber Verde (MA), Léo Vivas (RJ) e Marcos Antonio (PE).

Repóter Diário

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Para compreender a Ontologia de Lukács

SERGIO LESSA

O texto que agora vem a público, graças ao estímulo de Paulo Denisar Fraga, com o título Para compreender a Ontologia de Lukács, é uma reedição, revista e ampliada, de A Ontologia de Lukács. Este texto conheceu duas edições anteriores, ambas pela Editora da Universidade Federal de Alagoas em 1995 e 1997. Escrito em 1991, se propõe como uma introdução à Ontologia[1] de Lukács. Inicia-se pela fábula de um indivíduo covarde que se torna herói e dá origem a uma dinastia hereditária depois de um ato de extrema coragem por mero acaso e, a partir de vários momentos dessa fábula, analisa as categorias trabalho, reprodução, ideologia e alienação, as categorias principais da ontologia lukácsiana. Além de algumas atualizações e a adoção da tradução de Entfremdung e Entäusserung como alienação e exteriorização, respectivamente, foram acrescentados um novo capítulo sobre a relação entre o trabalho e as classes sociais no capitalismo atual e dois artigos que poderão auxiliar na introdução ao pensamento lukácsiano.

Não deixa de ser curioso que um livro alcance sua terceira edição antes da publicação do texto do qual pretende ser uma introdução. Essa, aliás, foi a resistência de alguns editores. A curiosa trajetória da Ontologia de Lukács entre nós sem dúvida é responsável por esse fato: das obras marxistas ainda não publicadas em nosso país, provavelmente é a que conseguiu maior divulgação e a que gerou um maior corpo de pesquisadores. Esse fato é significativo, também, se considerarmos ser ela um manuscrito de difícil leitura e que dela há apenas uma edição em italiano (a mais utilizada entre nós) e outra alemã (uma raridade, da qual tenho conhecimento de apenas 3 exemplares em nosso país). Não nos ocorre outro texto que tenha gerado tal interesse e – em muitos casos – uma tal paixão, antes de ser traduzido.

Como explicar esse fato?

Agora, já de uma perspectiva de três décadas, evidencia-se que a onda pós-moderna nada mais é que a explicitação dos pressupostos ideológicos últimos da assim chamada reestruturação produtiva do capital. Seu individualismo, sua concepção de mundo centrada na singularidade, sua negação da história e das tendências históricas universais, sua valorização abstrata dos procedimentos formais da democracia, sua adoração ao mercado, etc., serviram e servem apenas para tentar tornar aceitável no plano ideológico o inaceitável para a humanidade: o aprofundamento e a intensificação das alienações típicas do capital. As teses de Jameson (1997) e de Harvey (1992), para os quais estaria de fato havendo uma alteração objetiva no tempo que, ao menos em parte, justificaria o pós-modernismo, soam hoje como indevidas concessões ao conservadorismo pós-moderno. Ao contrário, as análises, ainda que mais rápidas e de menor fôlego de Calinicos (1989) e de Perry Anderson (1998) se revelaram certeiras: muito mais que a contrapartida teórica de mudanças objetivas, o pós-modernismo é a radicalização até o limite do individualismo burguês em um período de crise geral do capital e, portanto, de crise geral de sua sociabilidade. Nenhum dos dois autores, é verdade, na análise de crise chegam à precisão e riqueza que encontramos em Mészáros (2002), todavia a crítica que realizaram ao pós-modernismo mantém muito de sua atualidade e vigor, mesmo tantos anos depois.

Apesar de haver falecido muito antes da expansão da modalidade pós-moderna do irracionalismo e ainda que tivesse como seus adversários teóricos imediatos o estruturalismo e o stalinismo, ao se propor a gigantesca tarefa de resgatar os fundamentos últimos do pensamento de Marx, Lukács terminou trazendo uma contribuição fundamental ao combate de idéias contemporâneo – ainda que, repetimos, esse tenha sido um “efeito colateral” de modo algum antecipado pelo autor húngaro. Não seria uma falsidade afirmar-se que a Ontologia está entre as obras da segunda metade do século XX que mais frontalmente se opõem a todos os pressupostos e a todos os desdobramentos importantes dos pós-modernos. Em primeiro lugar, porque demonstra a insuperável conexão entre singular e universal, tanto do ponto de vista da existência da singularidade como da existência da totalidade. Demonstra, muito mais do que argumenta, que não há singular que não seja partícipe de uma totalidade e que, por isso, não há totalidade que não seja síntese de singularidades. E, portanto, que a totalidade contém uma qualidade distinta de cada singularidade, na medida em que a síntese das singularidades em totalidade dá origem a um processo que é mais amplo, rico e articulado que as singularidades tomadas isoladamente. Em segundo lugar, porque demonstra a insuperável historicidade de todo o existente, desde o inorgânico, orgânico até o social. A historicidade comparece, ao final da Ontologia, como uma determinação ontológica universal por excelência.

Em terceiro lugar, e decorrente dos dois pontos anteriores, o confronto de Lukács com o pós-modernismo é radical porque demonstra que a essência é uma determinação da história, da qual é parte movida e movente, na feliz expressão do autor húngaro. A humanidade (ou, como prefere o “gênero humano”) é um processo histórico no qual os atos singulares dos indivíduos se sintetizam em tendências históricas universais as quais, por sua vez, retroagem sobre a situação histórica em que vivem os indivíduos, articulando desse modo, em uma rica, contraditória e sempre dinâmica inter-relação os atos individuais com as tendências mais gerais do desenvolvimento humano. E, por fim, como a reação dos indivíduos à situação histórica concreta é sempre mediada pelas suas consciências, a subjetividade comparece como uma mediação insuperável de todos os processos históricos, sejam eles mais universais ou mais singulares. A subjetividade, a personalidade de cada um de nós, é, portanto, uma mediação objetiva – isto é, que exerce efeitos objetivos, materiais — da reprodução social. Apenas por ser subjetividade é que a idéia (e, por extensão, os complexos ideológicos) pode exercer uma ação efetiva, real, sobre o desenvolvimento dos processos sociais, sejam eles os mais singulares (a reprodução das personalidades dos indivíduos) ou as tendências históricas mais universais.

Cada um desses tópicos é uma questão fascinante e que tem merecido estudos aprofundados, na maior parte das vezes em pesquisas de pós-graduação. O que procuraremos argumentar, nesse artigo, é outro aspecto desse complexo de questões: toda essa articulação categorial apenas é possível porque tem o trabalho como a categoria fundante do mundo dos homens e, portanto, todos os outros complexos sociais são fundados pelo trabalho. De fato, sem a totalidade social ter seu momento fundante no trabalho, nenhuma das demonstrações que Lukács alega (até agora, pelo menos, com toda razão) haver retirado de Marx permaneceria de pé.

A razão de o trabalho ser a categoria fundante do mundo dos homens brota diretamente da história; ou seja, nem é uma dedução filosófica de qualquer tipo, nem sequer é um axioma. Ao menos não no pensamento de Lukács. Para o autor húngaro, como o ser social é precedido pelo desenvolvimento da vida, em particular pelo desenvolvimento dos hominídeos, herdamos a condição de que sem a transformação da natureza não há qualquer reprodução social possível na exata medida que não há qualquer reprodução biológica dos indivíduos. Portanto, converter a natureza nos meios de produção e de subsistência é a razão primeira da vida gregária dos humanos: vivemos em sociedade porque apenas assim podemos produzir o indispensável à nossa reprodução biológica e, portanto, para que o atendimento da condição primeira da reprodução social. Em sendo assim, será nesse intercâmbio orgânico com a natureza que serão produzidas as necessidades e as possibilidades que tenderão a predominar ao longo da história (daqui o desenvolvimento das forças produtivas[2] ser o momento predominante do desenvolvimento das formações sociais). E é também aqui que tem seu fundamento o fato de ser o trabalho a categoria fundante do mundo dos homens. Será na transformação da natureza que serão produzidas as necessidades e possibilidades que tenderão a ser predominantes ao longo do tempo e que expressam o modo peculiar dos humanos converterem a natureza no que necessitam: apenas os humanos constroem na consciência antes de construírem objetivamente.

O fato de todo ato humano (e, portanto, não apenas o trabalho) ser a conversão em um ente objetivo de algo previamente idealizado (isto é, construído na consciência antes que na objetividade), faz com que a transformação do real favoreça o confronto entre o que pensamos acerca do mundo e o que de fato o mundo é. Ou seja, nossa concepção de mundo é colocada em xeque toda vez que agimos e, desse modo, é possível a produção de conhecimentos e habilidades que não se possuía antes. Analogamente, ao produzir um novo ente (seja ele natureza transformada, como no caso do trabalho, ou uma nova relação social) a sociedade passa a contar com possibilidades e necessidades que não possuía antes. Portanto, ao produzir sua finalidade imediata, tanto o trabalho como os outros atos humanos geram necessidades e possibilidades, subjetivas e objetivas, que remetem para muito além das suas finalidades mais imediatas. É por isso que, em se tratando do trabalho, Lukács vai argumentar que ele remete sempre para além de si próprio, gera muito mais do que sua finalidade imediata, sendo por isso a origem de um processo de reprodução social que tende a ser muito mais amplo, rico e mediado que o próprio ato de trabalho.

Trabalho e reprodução social, desse modo, articulam-se de tal modo que um não pode existir fora da relação com o outro: todo trabalho é um momento da reprodução de uma dada formação social a qual, por sua vez, tem no padrão do intercâmbio orgânico que desdobra com a natureza (o trabalho), seu momento fundante. O trabalho escravo funda o escravismo mas, todavia, apenas pode existir no interior do modo de produção escravista; o mesmo para o trabalho servil e o feudalismo e o trabalho proletário e o capitalismo maduro, etc. Indivíduo e totalidade social, pessoa e história, estão, desse modo, ricamente articulados: não há ato individual (ou não há indivíduo) fora da reprodução social (ou, fora de uma formação social) pela mesma razão que sem indivíduos que agem cotidianamente não pode haver qualquer história.

Confrontada à densa e rica articulação categorial da Ontologia de Lukács, frente à sua demonstração do processo pelo qual os homens se fizeram humanos (ainda que alienadamente humanos), a debilidade das teses pós-modernas é tão palmar que apenas o fato de serem expressões ideológicas das misérias do presente confere a elas alguma aparência de verdade. Não é, por tudo isso, descabido dizer que encontramos na Ontologia de Lukács uma das obras que mais frontalmente se opõem à concepção de mundo pós-moderna.

Se a contribuição da obra póstuma de Lukács se limitasse a esse seu confronto com o pós-moderno, já seria de enorme monta. Todavia, há ainda outro aspecto no qual a Ontologia tem uma contribuição fundamental para o debate contemporâneo, agora mais especificamente no campo da esquerda. Ainda que seja uma questão bastante complexa, com vários aspectos muitas vezes indevidamente confundidos, é possível se resumir a questão nesses termos: o trabalho categoria fundante do mundo dos homens é sempre trabalho manual. Pois, no dizer de Marx, “[…] como o homem precisa de um pulmão para respirar, ele precisa de uma ‘criação da mão humana’ para consumir produtivamente forças da natureza” (Marx, 1985: 17). Não há qualquer sociabilidade que não tenha seu fundamento nessa relação com a natureza e, correlativamente, não há riqueza social que não seja produzida pelo trabalho manual. Os escravos produzem toda a riqueza do escravismo, os servos do feudalismo e os operários do capitalismo maduro. Essa é uma determinação ontológica decorrente de ser o trabalho fundante do mundo dos homens: é pelo trabalho das mãos (por mais complexo que ele se torne, por mais que tenha entre os dedos e a natureza toneladas de ferramentas, etc.) que a riqueza social é produzida. E daqui, também, que todo trabalho intelectual, momento de preparação, organização, coordenação, avaliação – de controle, enfim, do trabalho manual, não se confunde com a produção da riqueza das sociedades.

Essa tese causa, quase sempre, espanto: não seria hoje, com o desenvolvimento das novas tecnologias, a ciência (por exemplo) uma força produtiva? Para Habermas, certamente o seria. Para Lukács e para Marx, absolutamente não. Pois, tal como há uma enorme diferença ontológica entre o controle e organização do trabalho escravo pelo senhor de escravo (com o auxílio de seu empregado assalariado, o feitor ou o soldado) e a produção realizada pelo escravo, também há uma fundamental divisão de classe entre os indivíduos que realizam tais atividades. Os que realizam o controle do trabalho, o assim denominado trabalho intelectual, fazem parte da classe dominante ou de seus auxiliares assalariados. Eles compõem a porção parasitária da sociedade que vive da riqueza produzida pelos escravos. Algo análogo (não semelhante porque há mediações inteiramente novas) ocorre no capitalismo contemporâneo: de um lado a burguesia e o que Marx denominou de “classes de transição”, de outro lado os trabalhadores manuais que produzem o “conteúdo material da riqueza social” (Marx, 1983:46). Tanto na sociedade escravista, quanto na mais contemporânea, o caráter fundante do trabalho impõe, com rigor histórico, o peculiar caráter de classe de quem o realiza: escravos, servos e proletários.

Como se postulam marxistas uma boa parte das teses que afirmam o fim do proletariado, quer pela sua dissolução entre os assalariados, quer pela conversão da classe média em proletária, elas terminam enredas em um ecletismo sem remissão. Pois pretendem afirmar a tese marxiana do trabalho como categoria fundante do mundo dos homens e, ao mesmo tempo, postulam que há riqueza produzida fora do intercâmbio orgânico com a natureza, de tal modo que os assalariados em geral (e não apenas os proletários) seriam a gênese da riqueza capitalista. Se Lukács estiver correto, há uma contradição entre as teses da dissolução de classe (e, portanto, a dissolução da sua função na reprodução social) do proletariado e a tese do trabalho enquanto categoria fundante do mundo dos homens. Postular pertencerem à mesma classe social os assalariados e os proletários apenas é possível, se Lukács estiver correto, pelo abandono do trabalho (do intercâmbio orgânico com a natureza) como a categoria fundante do mundo dos homens (por exemplo, Habermas), ou que adotemos uma definição de trabalho de modo a incluir nele outras atividades que não apenas o intercâmbio com a natureza (como ocorre com enorme freqüência nos dias de hoje).

Em outras palavras, as transformações técnicas e gerenciais contemporâneas, a crise estrutural do capital que é seu fundamento, por mais que alterem e modulem a relação entre as classes, não pode abolir o proletariado fabril e agrícola pela sua dissolução entre os assalariados. Sua existência decorre do caráter fundante do trabalho manual[3] que o proletariado realiza para a sociabilidade burguesa. E, conseqüentemente, por ser a única classe que vive da riqueza que ela própria produz, é a classe revolucionária por excelência, pois a única classe que nada tem a perder com a superação da propriedade privada, das classes sociais, do Estado e do casamento monogâmico senão seus grilhões.

É isso, a nosso ver, que torna a obra de Lukács tão importante a ponto de se difundir entre nós — e propiciar o surgimento de um corpo de pesquisadores não desprezível — mesmo antes de ter sido traduzida. E é ao redor dessas questões que nos parecem centrais que organizamos o texto de introdução que agora vem a público.

__________

[1] A Ontologia de Lukács são os manuscritos deixados incompletos pelo autor húngaro quando de seu falecimento em 1971. Depois da edição italiana e alemã dos mesmos, ficaram organizados em dois textos. Um maior, corriqueiramente chamado de Ontologia ou Ontologia do Ser Social, contém o manuscrito intitulado Para uma ontologia do ser social. Este se divide em duas grandes partes, a primeira, histórica, que faz um balanço da situação da ontologia no século XX e, a segunda, dita sistemática, que contém os quatro capítulos intitulados Trabalho, Reprodução, Ideologia e Alienação. O segundo manuscrito, bem menor, contém os Prolegômenos, cujo nome completo é Prolegômenos a uma ontologia hoje tornada possível. Os direitos autorais desses manuscritos já foram diversas vezes adquiridos por editoras brasileiras. A última delas é a Boitempo, que detém os direitos de publicação em nosso país e que anunciou a intenção de publicar os Prolegômenos seguidos pelo texto da Ontologia. Para uma introdução acerca da relação entre os dois manuscritos de Lukács, o texto mais interessante é a introdução de Nicolas Tertulian à edição italiana dos Prolegômenos, publicado no Brasil, na revista Crítica Marxista n. 3, com o título de “Uma apresentação à Ontologia do ser social, de Lukács” (Tertulian, 1996).
[2] E não da técnica, é bom se assinalar dado o fetichismo da técnica tão comum em época de reestruturação produtiva.
[3] Desnecessário acrescentar que nem toda atividade manual é trabalho, como por exemplo a do escultor, do médico, etc.

Revista Espaço Acadêmico

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Alunos grevistas agora param o colégio da Fundação

Bruno Ribeiro
Do Diário do Grande ABC

Os alunos em greve da Fundação Santo André ocuparam segunda-feira à noite
o prédio usado pelo colégio da instituição. A exemplo do que ocorreu no
prédio da Fafil (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras), o grupo
retirou as carteiras das salas e garante que não ocorrerá mais aulas ali
até a saída do reitor da universidade, Odair Bermelho.
O protesto foi decidido após uma assembléia, ocorrida no pátio em frente
ao colégio, com cerca de 150 estudantes.
No momento da ocupação, cinco salas de aula estavam sendo usadas por
cursos da Fafil e da Faeco (Faculdade de Administração e Economia). Houve
discussão entre estudantes e professores dentro das salas e os grevistas,
mas não houve confronto.
Segunda-feira, o grupo grevista permitiu que as aulas continuassem até o
fim. Depois que os professores saíram, desocuparam as salas e retiraram as
carteiras.
A secretaria do colégio foi bloqueada com carteiras nas entradas ainda com
funcionários trabalhando. Eles saíram às pressas levando documentos da
instituição.
Antes da ocupação do colégio, os estudantes tentaram interromper uma
reunião do Prograd (Pró-Reitoria de Graduação). Ao entrarem no prédio onde
o encontro estava marcado, entretanto, os alunos depararam-se com a sala
vazia.
Os seguranças da faculdade acompanharam a movimentação dos estudantes de
braços cruzados, sem interferir na invasão.
Reitoria - Na assembléia que antecedeu a invasão, os universitários
decidiram por uma nova ocupação da reitoria da Fundação. A data para o ato
ainda não foi decidida.
Os alunos também aprovaram o envio de uma comissão ao Palácio dos
Bandeirantes para pressionar a Secretaria de Estado da Educação a tomar
alguma providência no caso Fundação Santo André.
A greve completa hoje 26 dias. Começou após a retirada dos alunos da
reitoria da faculdade, numa ação violenta da Polícia Militar.
Ato encenará ‘júri popular’ contra reitor
Bruno Ribeiro
Do Diário do Grande ABC
Os professores paralisados da Fafil (Faculdade de Filosofia, Ciências e
Letras) da Fundação Santo André acertaram para esta quarta-feira um “Júri
Popular” que ira julgar os atos do reitor da instituição, Odair Bermelho,
no episódio da ocupação da reitoria da universidade.
O protesto imitará um julgamento: terá juiz, advogado de defesa, promotor
e corpo de jurados.
Para isso, os professores convidaram o promotor público Roberto Tardelli,
do 1º Tribunal do Júri da Capital. O defensor do reitor (caso Bermelho não
indique nenhum), será Ivan Gomes Miguel, da ONG (Organização
Não-Governamental) Advogados do Povo.
Os professores ainda não definiram o nome do juiz do caso. Para compor o
júri foram convidados professores de outras instituições de ensino,
promotores de Justiça e membros do sindicato dos professores de Santo
André.
O grupo grevista não acredita que o reitor aceitará o convite para o
julgamento. Se isso ocorrer, Bermelho sentará no banco dos réus. O reitor
será convidado a indicar testemunhas de defesa.
O protesto ocorrerá nesta quarta-feira, a partir das 19h30, no auditório
da Fafil.

Diário do Grande ABC
http://home.dgabc.com.br/

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Apoio à nossa luta na FSA

1) Aziz Ab’Saber – Geografia USP (aposentado)
2) Lincoln Secco - História USP
3) Ricardo Musse - Sociologia USP
4) Cilaine Alves Cunha - Letras USP
5) Fernando Novais - História USP / Unicamp
6) Roberto Schwarz - Letras Unicamp (aposentado)
7) Maria Célia Paoli - Sociologia USP
8) Leda Paulani - Economia USP
9) Maria Arminda do Nascimento Arruda - Sociologia USP
10) Marcos Del Roio - Ciência Política Unesp Marília
11) Paulo Eduardo Arantes - Filosofia USP
12) Marcos Silva - História USP
13) Marineide de Oliveira Gomes – Pedagogia USP Ribeirão Preto
14) Caio Navarro de Toledo – Ciência Política Unicamp
15) Selma Borghi Venco – Sociologia Unicamp
16) Franklin Leopoldo e Silva – Filosofia USP
17) Lighia Brigitta Horodynski-Matsushigue – Física USP
18) Zilda Iokoi – História USP
19) Otília Fiori Arantes – Filosofia USP
20) Mariana Fix – Design Facamp (Faculdades de Campinas)
21) Ivone Dare Rabello – Letras USP (aposentada)
22) Suzana Salem Vasconcelos – Física USP
23) Luiz Eduardo Simões de Souza – Economia Uergs (Universidade Estadual
do Rio Grande do Sul)
24) Paulo Henrique Martinez - História Unesp Assis
25) Luís Fernando Ayerbe - Relações Internacionais Unesp Araraquara
26) Jesus Ranieri - Sociologia Unicamp
27) Heloísa Fernandes - Sociologia USP e Escola Nacional Florestan
Fernandes do MST
28) Amarílio Ferreira – UFSCar (Universidade Federal de São Carlos)
29) Valério Arcary - História CEFET/SP (Centro Federal de Educação
Tecnológica de São Paulo)
30) João Francisco Tidei Lima – Unesp Bauru
31) Lidiane Soares Rodrigues – Doutoranda História USP
32) Alcir Pécora - Letras Unicamp
33) Anita Handfas – Educação UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
34) Margareth Rago - História Unicamp
35) Vera Lucia Vieira - História PUC-SP
36) Arlete Moyses Rodrigues – Geografia Unicamp
37) Antônio Miguel - Educação Unicamp
38) Ronilde Rocha - Consultora em educação e ensino de História e
professora da rede municipal de São Paulo (aposentada)
39) Francisco Foot Hardman - Letras Unicamp
40) Márcio Naves – Sociologia Unicamp
41) Élide Menezes Centofanti – Psicologia UMC (Universidade de Mogi das
Cruzes) aposentada
42) Maria Luiza Jovanovic - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
43) Paulino Cardoso - História Udesc (Universidade do Estado de Santa
Catarina)
44) Claudia Sapag Ricci - História UFMG (Universidade Federal de Minas
Gerais)
45) Olga Brites - História PUC-SP
46) Mário Fernando Bolognesi - Artes Unesp São Paulo
47) Antônio Carlos Mazzeo – Ciência Política Unesp Marília
48) Maria Victória Benevides - Educação USP
49) Adalberto Paranhos – Ciências Sociais UFU (Universidade Federal de
Uberlândia)
50) Edilson Graciolli – Ciências Sociais UFU (Universidade Federal de
Uberlândia)
51) Fernando Antonio Lourenço - Sociologia Unicamp
52) Agnaldo dos Santos – Administração Uninove (Centro Universitário Nove
de Julho)
53) Glória Anunciação Alves – Geografia USP
54) Elvio Rodrigues Martins – Geografia USP
55) Regina Helena Alves da Silva - História UFMG (Universidade Federal de
Minas Gerais)
56) João Bernardo – professor e escritor
57) Valeria de Marcos - Geografia USP
58) Pedro Arantes - Design Facamp (Faculdades de Campinas)
59) Rafael Marquese - História USP
60) Ana Fani Alessandri Carlos - Geografia USP
61) Déa Ribeiro Fenelon - História PUC-SP e Unicamp (aposentada)
62) Brás Ciro Gallota - História PUC-SP
63) Francisco Alambert - História USP
64) Vera Lúcia Santiago Araújo - Letras UECE (Universidade Estadual do Ceará)
65) Silvia Hunold Lara - História Unicamp
66) Sidney Chalhoub - História Unicamp
67) Letícia Vidor de Souza Reis - História Unimep (Universidade Metodista
de Piracicaba)
68) Ivone Cordeiro Barbosa - História UFC (Universidade Federal do Ceará)
69) Manoela da Silva Pedroza - Doutoranda Unicamp
70) Joviniano Borges da Cunha - Universidade Anhembi-Morumbi
71) Bernardo Boris Vargaftig – Ciências Biomédicas – USP
72) Heloisa de Faria Cruz - História PUC-SP
73) Claudia Poncioni - Université Paris X - França
74) Jean-Yves Mérian - Université Rennes2 - Haute Bretagne - França
75) Roberto Romano - Filosofia Unicamp
76) Luiz Roberto Alves – Jornalismo Umesp (Universidade Metodista de São
Paulo) e ECA-USP
77) Marcos Arruda – professor visitante universidades do exterior
78) Cid Benjamin – Comunicação Social Facha (Faculdade Hélio
Alonso)
79) Laura Antunes Maciel - História UFF (Universidade Federal
Fluminense)
80) Maria Antonieta Antonacci - História PUC-SP
81) Paulo Roberto de Almeida - História UFU (Universidade Federal de
Uberlândia)
82) Bento Itamar Borges - Filosofia UFU (Universidade Federal de Uberlândia)
83) Rejane Meireles Amaral Rodrigues - História UNIMONTES/MG
84) Osvaldo Coggiola – História USP
85) Inessa Laura Salomão - Engenharia de Produção - CEFET/RJ (Centro
Federal de Educação Tecnológica)
86) Helena Hirata - Sociologia CNRS (Centre National de la Recherche
Scientifique) – França
87) Normando Rodrigues - Direito UFRJ (Universidade Federal do Rio de
Janeiro)
88) Ana Maria Silva - Turismo Fefisa (Faculdades Integradas de Santo André)
89) Luiz Carlos Pereira - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
90) Fábia C. Alegrance - Fisioterapia Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
91) Luciana Vieira de Melo Kuk - Fisioterapia Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
92) Margareth Anderáos - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
93) Nicolino Bello Júnior - Educação Fisica Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
94) Sérgio Garcia Stella - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
95) Ricardo Zanuto Pereira - Fisioterapia Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
96) Rosemarie C. Sanches - Turismo Fefisa (Faculdades Integradas de Santo
André)
97) Vinicius J. B. Martins - Fisioterapia Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
98) Sueo Hirota - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de Santo
André)
99) William S. Freitas - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
100) Marcelo Reina Siliano - Fisioterapia Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
101) Edvar Boechat Soares - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
102) Isilda M. R. Cavicchioli - Educação Física Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
103) Maria Teresa B. Martins - Educação Física Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
104) Maria Eliza M. Bernardes - Educação Física Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
105) Rosana Delfini - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
106) Evando Carlos Moreira - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
107) Fabiano João - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de Santo
André)
108) Sandra Maria Tedeschi - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
109) Albertina O. C. Misko - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
110) Gilberto de Andrade Martins – Contabilidade USP
111) José Artur Gianotti – Filosofia USP (aposentado) e pesquisador do
Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)
112) Heloisa Martins - Sociologia USP (aposentada)
113) Angelina Peralva - Sociologia Universidade de Toulouse II -
França
114) João Zanetic – Física USP e ex-presidente da Adusp (Associação dos
Docentes da USP)
115) Nadia W. Hanania Vianna - Administração USP (aposentada)
116) Francisco Luiz C. Lopreato – Economia Unicamp
117) Denis Maracci Gimenez – Economia Unicamp
118) Wilson Cano – Economia Unicamp
119) Gabriel de Santis Feltran - Doutorando Unicamp
120) Otaviano Helene – Física USP e presidente da Adusp (Associação dos
Docentes da USP)
121) Daciberg Lima Gonçalves – Matemática USP
122) Lucília Daruiz Borsari - Matemática USP
123) José Dari Krein – Economia Unicamp
124) Antonio Lázaro Sant´Ana - Unesp Ilha Solteira
125) Elmir de Almeida – Pedagogia USP Ribeirão Preto
126) Geraldo Leão - Educação UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)
127) Américo Scotti - Engenharia Mecânica UFU (Universidade Federal de
Uberlândia)
128) Estefânia Knotz C. Fraga - História PUC-SP
129) Luiz Henrique dos Santos Blume - História UESC (Universidade Estadual
de Santa Cruz - BA)
130) Alexandre Fortes - História / Economia UFRRJ (Universidade Federal
Rural do Rio de Janeiro)
131) Fernando Teixeira da Silva - História Unicamp
132) Raimundo Donato do Prado Ribeiro – coordenador de História Unimep
(Universidade Metodista de Piracicaba)
133) Ciro Teixeira Correia – Geologia USP
134) Marco A. Brinati – Engenharia Naval USP e ex-vice-presidente da Adusp
(Associação dos Docentes da USP)
135) Cláudia Pereira Vianna – Educação USP
136) Maria da Graça Setton – Educação USP
137) Elie Ghanem – Educação USP
138) Rosângela G. Prieto – Educação USP
139) César Augusto Minto - Educação USP e ex-presidente da Adusp
(Associação dos Docentes da USP)
140) Américo Sansigolo Kerr – Física USP e ex-presidente da Adusp
(Associação dos Docentes da USP)
141) Paulo Luiz Miadaira - Faculdade São Luís e Fundação Escola de
Sociologia e Política de São Paulo
142) Daniel Revah - Pedagogia Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)
143) Manoela da Silva Pedroza - Doutoranda Unicamp
144) Henrique Soares Carneiro – História USP
145) Sérgio Paulo Amaral Souto - Zootecnia USP
146) Marcus Aloízio Martinez de Aguiar - Física Unicamp
147) Artionka Capiberibe - Doutoranda UFRJ (Universidade Federal do Rio de
Janeiro)
148) Lucimara Batista Freire - Faculdade Anchieta - São Bernardo do Campo
149) Théo Lobarinhas Piñeiro - História UFF (Universidade Federal Fluminense)
150) Alexsander Lemos de Almeida Gebara - História UFF (Universidade
Federal Fluminense)
151) Theresa Beatriz Figueiredo Santos - Diretora da Faculdade de Ciências
Humanas da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba)
152) Daniel Aarão Reis - História UFF (Universidade Federal Fluminense)
153) Antonio Paulo Rezende - História - UFPE (Universidade Federal de
Pernambuco)
154) Marcos Nascimento Magalhães – Matemática USP e ex-presidente da Adusp
(Associação dos Docentes da USP)
155) Maria Clara Di Pierro – Educação USP
156) Moacir Gadotti – Educação USP
157) Lisete R. G. Arelaro – Educação USP
158) Afrânio Mendes Catani – Educação USP
159) Lúcia E. Barreto Bruno – Educação USP
160) Doris Accioly e Silva – Educação USP
161) Roberto da Silva – Educação USP
162) Rubens Barbosa de Camargo – Educação USP
163) Vânia Noeli Ferreira de Assunção - História Cogeae PUC-SP
164) Antonio Ozaí da Silva – Ciências Sociais UEM (Universidade Estadual
de Maringá)
165) Joana Aparecida Coutinho - Ciência Política - UFMA (Universidade
Federal do Maranhão)
166) Antônio José Lopes Alves – Filosofia Colégio Técnico da UFMG
(Universidade Federal de Minas Gerais)
167) Sabina Maura Silva – Filosofia Fundação Helena Antipoff – Minas Gerais
168) Maria Helena da Silva – Diretora EE Carlos Drummond de Andrade
169) Conceição Gonçalves de Toledo - vice-diretora EE Carlos Drummond de
Andrade
170) Francisco Josino da Silva - EE Carlos Drummond de Andrade
171) Roni Cleber Dias de Menezes - Educação USP
172) Everton Capri Freire – ex-professor de Jornalismo Fiam (Faculdades
Integradas Alcântara Machado)
173) Ronaldo Fabiano dos Santos Gaspar - Pedagogia Unicastelo e FAD
(Faculdade Diadema)
174) Luís Roberto de Paula – antropólogo e ex-professor da Fundação Santo
André
175) Alvaro Bianchi - Ciência Política Unicamp
176) Celia Maria Benedicto Giglio – Pedagogia Unifesp (Universidade
Federal de São Paulo)
177) Marcos Antonio de Moraes – Letras USP
178) Marcos Pereira Rufino - Antropologia Unifesp (Universidade Federal de
São Paulo)
179) Luiz Antonio Zimermann do Nascimento – São Paulo
180) Luís Esteban Dominguez – Semiótica Cogeae PUC-SP
181) Regina Maria de Souza - Educação Unicamp
182) Luci Banks Leite - Educação Unicamp
183) Pedro Tórtima – Direito UCAM (Universidade Candido Mendes) Rio de
Janeiro
184) Miguel Wady Chaia - Ciência Política PUC-SP
185) Tânia Elias Magno da Silva – Sociologia UFS (Universidade Federal de
Sergipe)
186) Henri de Carvalho - História - Unimesp (Centro Universitário
Metropolitano de São Paulo)
187) Valéria Alves Esteves Lima - História Unimep (Universidade Metodista
de Piracicaba)
188) Antonio Miguel - Educação Unicamp
189) Karen Macknow Lisboa - História Unifesp (Universidade Federal de São
Paulo)
190) Maria de Fátima Carvalho - Pedagogia Unifesp (Universidade Federal de
São Paulo)
191) Regina Cândida Ellero Gualtieri – Pedagogia Unifesp (Universidade
Federal de São Paulo)
192) Mônica Marques Pimenta de Andrade – Medicina UFU (Universidade
Federal de Uberlândia) – aposentada
193) Carlos Eduardo Albuquerque Miranda – Educação Unicamp
194) Carmen Roselaine de Oliveira Farias - Educação UFSCar (Universidade
Federal de São Carlos)
195) Vanicléia Silva Santos - Doutoranda História Social USP
196) Isabel Cristina Moroz - Doutoranda Geografia – USP
197) André Constantino Yazbek - Filosofia PUC-SP
198) Maria Goreti J. S. Frizzarini – Comunicação Social Cásper Líbero
199) Carlos Bauer - Uninove (Centro Universitário Nove
de Julho)
200) Marcos Cezar de Freitas – Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)
201) Luigi Biondi – História Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)
202) Leandro de Lajonquière - Educação USP
203) Luís Filipe Silvério Lima - História Unifesp (Universidade Federal de
São Paulo)
204) Teise de Oliveira Guaranha Garcia - Pedagogia USP Ribeirão Preto
205) Regina Maria de Souza - Educação Unicamp
206) Rinaldo Voltolini - Educação USP
207) João Quartim de Moraes – Filosofia Unicamp
208) Áurea M. Guimarães - Educação Unicamp
209) Carlos Serrano – Antropologia USP
210) Ruy Braga - Sociologia USP
211) Renato da Silva Queiroz – Antropologia USP
212) Sylvia Gemignani Garcia - Sociologia USP
213) José Guilherme C. Magnani - Antropologia USP
214) Lúcia Aparecida Valadares Sartório - Doutoranda Educação UFSCar
(Universidade Federal de São Carlos)
215) Celso Frederico – Comunicação Social ECA-USP
216) Sandra Guardini Teixeira Vasconcelos - Letras USP
217) Maria Helena Oliva Augusto - Sociologia USP
218) Maria Lucia Montes – Antropologia USP
219) Iris Kantor – História USP
220) Sylvia Leser de Mello – Psicologia USP
221) Aparecida Néri de Sousa - Educação Unicamp
222) Maria Helena P.T. Machado - História USP
223) Gildo Magalhães dos Santos - História USP
224) Emir Sader – Sociologia USP e UERJ (Universidade do Estado do Rio de
Janeiro)
225) Eduardo Pinto e Silva – UFSCar (Universidade Federal de São Carlos)
226) Jose Roberto Zan - Artes Unicamp
227) Dirce Djanira Pacheco e Zan – Educação Unicamp
228) Maria Rosa Lombardi – Fundação Carlos Chagas
229) Stela Menegel – Educação Furb (Universidade Regional de Blumenal)
Santa Catarina
230) Márcio Suzuki - Filosofia USP
231) Roberto Heloani – Educação Unicamp e FGV (Fundação Getúlio Vargas)
232) Marcia Regina Andrade – Educação Unicamp
233) Rosivaldo Pelegrini – UEL (Universidade Estadual de Londrina) Paraná
234) Agueda Bernardete Bittencourt - Educação Unicamp
235) Patrícia Vieira Trópia - PUC-Campinas
236) Marcia Leite - Educação Unicamp
237) Flavio de Campos - História USP
238) Janice Theodoro da Silva - História USP
239) Pedro Lima Vasconcellos - Teologia e Ciências da Religião PUC-SP
240) Ulpiano T.Bezerra de Meneses - História USP
241) Laurindo Lalo Leal Filho - Jornalismo ECA-USP
242) Silvia Helena Andrade de Brito - Ciências Sociais e Educação UFMS
(Universidade Federal do Mato Grosso do Sul)
243) Jorge Grespan - História USP
244) Luís César Oliva - Filosofia USP
245) Andréia Galvão - Ciência Política – Unicamp
246) Luiz Carlos Jackson - Sociologia – USP
247) Andréa Maria Z. Afonso dos Santos - Museóloga Museu de Arte Sacra de
São Paulo
248) Gislane Azevedo - Historiadora e Assessora Pedagógica
249) Márcia Regina Berbel - História USP
250) Andréa Loparic - Filosofia USP
251) Silvia Dafferner - Letras FIA (Faculdade de Interação Americana) São
Bernardo do Campo
252) Tatiana Fonseca Oliveira - Doutoranda Sociologia Unicamp
253) Gabriel S. S. Lima Rezende - Doutorando Universidad de Granada – Espanha
254) Pedro Roberto Ferreira – Ciência Política UEL (Universidade Estadual
de Londrina) Paraná
255) Maria Pileggi – Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales - Paris
– França
256) Maria de Annunciação Madureira - Ciências Sociais UEL (Universidade
Estadual de Maringá)
257) Edméia Aparecida Ribeiro – História UEL (Universidade Estadual de
Londrina)
258) Giselli Avíncula Campos – Doutoranda UFF (Universidade Federal
Fluminense)
259) Nídia Nacib Pontuschska - Educação USP
260) Heloisa Buarque de Almeida - Antropologia USP
261) Maria Ligia Coelho Prado - História USP

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Doutor Che Guevara tentou aliar revolução e avanços na área de saúde

MOACYR SCLIAR
Colunista da Folha

Este 9 de outubro assinala os 40 anos da morte de uma extraordinária figura, um líder revolucionário que marcou o nosso tempo, Ernesto Rafael Guevara de la Serna, Che Guevara (Che sendo o equivalente a “você” dos argentinos, uruguaios e gaúchos).

Neste texto, vamos considerar um lado pouco mencionado de Guevara, o lado médico.

Nascido (1928) em Rosario, Argentina, Ernesto descendia de uma família com origens na Espanha e na Irlanda, dois países nos quais a paixão tem cidadania. Seus pais eram pessoas cultas e engajadas politicamente: ambos opunham-se ao regime peronista que por longo tempo ficou no poder.

Aos dois anos manifestou-se no pequeno Ernesto a doença que o acompanharia por toda a vida e que partilhou com figuras famosas, como Pedro, o Grande, Charles Dickens e Marcel Proust: a asma. Uma enfermidade cuja causa ainda não é inteiramente clara; provavelmente resultou de uma combinação da hereditariedade, de alérgenos ambientais e de fatores psicológicos.

Em busca de melhores condições climáticas para o garoto, a família mudou de residência, mas Ernesto nunca se deixou abater pela doença. Tratou de praticar esporte e era um agressivo jogador de rugby, conhecido pelo apelido de “Fuser”, combinação de “Furibundo” e “Serna”. Também era chamado de “Chancho” (porco) porque raramente se banhava, coisa da qual se orgulhava.

Lia muito: os poemas de Pablo Neruda e os livros de aventura de Júlio Verne, Jack London e Bertrand Russell. Além disso, gostava de fotografar.

Em 1948 Guevara entrou na Universidade de Buenos Aires para estudar medicina. Por que escolheu esta profissão? Três motivos podem ser invocados: a morte da avó, Ana Lynch, a quem o jovem Ernesto era muito ligado (aliás, foi nessa época que ele desistiu da engenharia pela medicina, o que reforça o argumento); a doença da mãe, Celia de la Serna Guevara, por quem Ernesto nutria profunda afeição, que teve um câncer de mama extirpado; e a asma.

Estudante de medicina, Ernesto rapidamente desiludiu-se com o curso; não era um estudante dedicado e, numa carta à namorada Chichina Ferreyra, rotulou a profissão médica como “ridícula”. Mas defendia os aspectos humanísticos e sociais da profissão, defendendo a socialização da medicina e sustentando que os leprosos deveriam ser libebrtos de seu estigma. Mais que isso: formado, trabalhou no laboratório de alergologia do dr. Salvador Pisani, que, impressionado com sua dedicação, quis contratá-lo como pesquisador.

Viagem de moto
Foi como estudante de medicina que, em 1952, Guevara empreendeu a famosa viagem pela América Latina junto com seu amigo, o bioquímico Alberto Granado. Tripulando a motocicleta La Poderosa 2, os dois partiram para a jornada que depois Guevara narraria nos ‘Diários da Motocicleta’, ponto de partida para o filme de Walter Salles.

Essa viagem foi, para o jovem estudante, um verdadeiro rito de passagem; já influenciado pela literatura marxista e impressionado pela pobreza e pela marginalização que via, Guevara convenceu-se de que só a revolução armada mudaria o destino da América Latina. Terminando o curso médico, voltou a viajar e chegou à Guatemala à época em que o presidente eleito Jacobo Arbenz tinha empreendido uma radical reforma agrária, contrariando profundamente os interesses da United Fruit e de outras multinacionais que até então controlavam as chamadas “repúblicas bananeiras”.

Para Guevara a Guatemala representava uma espécie de estágio para que ele se tornasse um verdadeiro revolucionário. Tentou conseguir um emprego público como médico, sem êxito; fez então contato com um grupo de cubanos ligados a Fidel Castro, que ele já tinha encontrado na Costa Rica; e ali também passou a ser conhecido como Che, por causa do uso constante que fazia dessa expressão. Arbenz foi derrubado por um golpe apoiado pela CIA, e Guevara conseguiu escapar para o México, agora convencido de que só uma revolução socialista poderia enfrentar o imperialismo americano.

No México, Guevara encontrou Fidel e Raul Castro e juntou-se ao Movimento 26 de Julho, cujo propósito era derrubar o governo de Fulgencio Batista. Ele deveria ser o médico do grupo, mas também recebeu treinamento militar. Em 1956, a bordo do iate Granma, o grupo dirigiu-se para Cuba. Tão logo desembarcaram na ilha, foram atacados pelas tropas de Batista, que mataram cerca da metade dos revolucionários.

Durante o confronto, Guevara largou sua mochila com material médico para pegar uma caixa de munições que um companheiro deixara cair; algo que ele viu como uma transição da sua situação de médico para a de combatente. Os poucos revolucionários que sobreviveram refugiaram-se nas montanhas de Sierra Maestra, dando início à guerrilha que por fim conquistaria o poder em Cuba.

A essa altura, Guevara já era um duro e implacável comandante militar; não hesitava em mandar executar informantes ou desertores. A guerrilha tomou o poder, Guevara assumiu o comando do quartel de La Cabaña e aí de novo mandou executar dezenas de colaboradores de Batista. Mais tarde tornou-se presidente do Banco Nacional de Cuba. Como parte de suas funções ele tinha de assinar as cédulas, o que o fazia com o seu apelido, “Che”. Mas a sua inquietude revolucionária persistia. Desde 1959 ajudou a organizar expedições revolucionárias em vários países. Tratava-se de pequenos grupos de guerrilheiros que serviriam como foco de insurreição nacional: a doutrina do “foquismo”.

E a revolução não se restringiria à política ou à economia. Tratava-se de criar um novo homem (”hombre nuevo”), capaz de construir o Estado socialista.

Àquela altura já estava se tornando uma figura lendária; no final de 1964 viajou para Nova York, onde foi recebido como um herói revolucionário, e não só pelos grupos de esquerda; os Rockefeller convidaram-no para jantar.

Veio então a crise dos mísseis, instalados em Cuba pelos soviéticos (e que, em caso de conflito, dizia Guevara, seriam usados contra os EUA). Tensa situação, que quase levou o mundo a uma terceira grande guerra. Por fim o premiê Khruschov, da URSS, retirou os mísseis sem consultar Castro, o que deixou Guevara muito cético acerca da linha ideológica e estratégica dos soviéticos.

Por razões que até hoje não são bem claras, ele desapareceu, segundo Castro para continuar a luta revolucionária em lugar que o premiê cubano se recusou a revelar. O primeiro lugar em que Guevara promoveu ‘focos’ revolucionários foi na África, mais precisamente no Congo. Não deu certo. Meses mais tarde, a asma atormentando-o sem cessar, deixou a África, resumindo sua aventura numa frase: ‘É a história de um fracasso’.

Seguiu então para a Bolívia, onde, de novo, sua trajetória foi um desastre; não recebeu ajuda dos revolucionários locais, os quais não tratava de maneira muito hábil, e tinha poucos recursos para suas operações. Ocorreu então um curioso incidente: ele encontrou um grupo de soldados bolivianos feridos e ofereceu-lhes cuidados médicos, o que foi recusado. A asma agravava-se; várias das ofensivas que desencadeou tinham como objetivo obter remédios. Por fim, a 8 de outubro de 1967, foi capturado e, no dia seguinte, executado por ordem do presidente da Bolívia, o general René Barrientos. Após sua morte transformou-se numa figura icônica. A foto que Alberto Korda dele tirou pode ser encontrada em qualquer lugar do mundo e vezes sem conta foi reproduzida em cartazes, camisetas, bonés.

Numa palestra realizada em 1960 e dirigida a soldados cubanos, Guevara propõe-se a responder a uma dupla pergunta: como se pratica uma medicina revolucionária? Como se compatibiliza objetivos profissionais com objetivos revolucionários?

Em primeiro lugar, diz ele, é preciso revisar a trajetória pessoal (um processo que o comunismo conhecia como autocrítica), por onde o médico revolucionário chegará à obrigatória conclusão de que o passado tem de ser descartado.

Da mesma maneira deverá mudar a medicina. O governo revolucionário tem de prover serviços de saúde pública para o maior número possível de pessoas, instituir um programa de medicina preventiva e orientar o público para práticas higiênicas. Isto não significa, apressa-se a acrescentar, sufocar a iniciativa individual; ao contrário: talentos pessoais devem ser estimulados, mas orientados para a medicina social.

Função pedagógica

O médico deve inclusive exercer funções pedagógicas, ensinando ao povo como diversificar seus alimentos por meio da agricultura; e deve ter funções políticas, o que, para Guevara, significa ouvir a população, interagir com ela, aprender. Há um inimigo comum, o governo norte-americano, e contra ele os cubanos devem se unir, assim como devem se unir a outros povos, mesmo que haja alguma diferença em termos de organização dos países (ou seja: mesmo quem não é socialista pode fazer parte da aliança contra o inimigo). Se for preciso lutar, o médico cumprirá funções de soldado e de revolucionário, mas sem deixar a medicina, sem cometer, diz Guevara, o erro que cometemos em Sierra Maestra, em que o médico estava ansioso por combater, não cuidar de feridos.

Transformação

A medicina social, portanto, é um componente importante na transformação da sociedade. Como realizar esta transformação de forma sábia e equilibrada é o problema. Para o qual os livros de terapêutica não têm nenhuma resposta.

Da guerrilha não é difícil passar ao terrorismo, mesmo porque para muitos é apenas uma questão de nomenclatura. No Oriente Médio não são raros os médicos que optaram por esta forma de luta política. George Habash, líder da Frente Popular de Lbertação da Palestina, era médico, e também Ayman al Zawahiri, o número dois da Al Qaeda, e o líder do Hamas em Gaza, Mahmoud Zahar. Zahar, aliás, era médico do fundador do grupo, o xeque Ahmed Yassin, morto num ataque aéreo de Israel em 2004. Seu sucessor foi Abdel Aziz Rantisi, um pediatra, também morto pelos israelenses. O fundador do grupo Jihad Islâmica, Mohammed al-Hindi, formou-se em medicina no Cairo.

Médicos eram muitos dos guerrilheiros que lutaram contra os soviéticos no Afeganistão. Finalmente, pelo menos cinco dos oito suspeitos de abortadas tentativas terroristas em Londres e Glasgow eram médicos. Isso contraria a idéia de que terroristas são recrutados nas camadas mais pobres e mais incultas.

Na verdade, a formação superior, sobretudo em medicina, facilita a atividade terrorista. Durante anos Europa e EUA trataram de compensar a falta de profissionais por meio da ‘importação de cérebros’; cerca de 37% dos médicos com prática no Reino Unido são estrangeiros. Isso facilitava o deslocamento dos médicos que haviam optado pelo terror.

MOACYR SCLIAR é escritor, autor de “O Centauro no Jardim” (Cia. das Letras).

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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Bah, Che!

Documentos inéditos mostram que CIA ocultou do governo dos EUA que sabia da localização de Guevara na Bolívia, onde seria morto 40 anos atrás

OSCAR PILAGALLO
ESPECIAL PARA A FOLHA

Os 30 anos da morte de Ernesto “Che” Guevara (1928-1967) provocaram uma enxurrada de livros sobre o revolucionário cubano, entre eles os excelentes “Che Guevara, uma Biografia” (Objetiva), de John Lee Anderson, e “Che Guevara - A Vida em Vermelho” (Companhia das Letras), de Jorge G. Castañeda.
Os trabalhos então publicados avançaram na pesquisa histórica, mas não esgotaram o assunto. Com a aproximação da data dos 40 anos da execução do Che, na terça-feira, mais algumas lacunas são preenchidas, desta vez com a revelação de documentos inéditos de arquivos secretos do governo americano reunidos em “Relatório da CIA - Che Guevara”, livro organizado por Mauricio Dias e Mario J. Cereghino.

Detalhes pontuais
Não se deve, no entanto, esperar o mesmo impacto historiográfico de dez anos atrás. As informações que agora vêm à luz, baseadas em correspondências e informes sigilosos entre março de 1967 e março de 1968, são detalhes pontuais que não mudam, na essência, a história já conhecida.
Guevara foi morto por um soldado do Exército da Bolívia um dia depois de ter sido capturado junto com um grupo de guerrilheiros que atuavam num ponto remoto do país.
O Exército boliviano recebia armas e, sobretudo, treinamento militar dos Estados Unidos.
A ordem da execução, dada pelo governo boliviano, foi captada por um operador de rádio a serviço da CIA, que a retransmitiu aos oficiais bolivianos que mantinham Guevara detido no meio da selva.
Nada disso é novidade. Após uma primeira versão, segundo a qual Guevara teria morrido em combate, o governo boliviano logo assumiria a responsabilidade pela execução. Quanto ao papel da CIA, foi relatado pelo próprio agente, numa versão endossada com poucas ressalvas pelos principais biógrafos do Che.
O que ainda não está totalmente esclarecido é a extensão do envolvimento da agência americana.
O “Relatório da CIA” pergunta se os Estados Unidos não teriam ordenado a execução. Ou se o agente que transmitiu a informação não teria mentido. São dúvidas cujas respostas não podem ser encontradas nas centenas de novos documentos. É possível que a história definitiva da morte do Che ainda não tenha sido escrita, mas certamente ela não dependerá da correspondência oficial agora revelada.
O livro, porém, não é destituído de valor. Ele serve para demonstrar como a CIA agia com independência em relação ao governo americano, ao qual, supostamente, deveria se reportar.
Para se avaliar a atuação da agência é preciso remontar aos meses que antecederam a morte do Che.
Para começar, não se sabia ao menos se ele estava vivo. Após uma fracassada tentativa de fomentar a revolução no Congo, Che sumira de circulação.
Especulava-se que teria se desentendido com Fidel Castro ou que estaria preparando a revolução na sua Argentina natal.
Sua presença na Bolívia era apenas uma hipótese. Afinal, o país, que fizera uma reforma agrária, não era o campo propício para pôr em prática a teoria do foco revolucionário.
Che Guevara chegou em novembro de 1966 à Bolívia, onde passaria os últimos 11 meses de sua vida. Apesar dos cuidados dos guerrilheiros, a CIA logo soube que o líder revolucionário estava no país. Essa informação, no entanto, não foi compartilhada com outras esferas do governo americano.
A seqüência de relatos mostra que o embaixador em La Paz, Douglas Henderson, e o Departamento de Estado foram mantidos na ignorância por vários meses. Em despachos consecutivos, Henderson duvidava das informações provenientes do governo boliviano, segundo as quais guerrilheiros estavam agindo no país.
Achava que, ao superestimar ameaças, os bolivianos queriam apenas mais verbas e armas dos Estados Unidos.

Débray é preso
O tom dos despachos só mudou a partir de abril de 1967, quando Régis Débray, integrante do grupo guerrilheiro, foi preso e confessou que Guevara estava na Bolívia. No mês seguinte começaram a chegar ao país os militares americanos que treinariam a unidade do Exé