Arquivo de 12 de Outubro de 2007

Líbano: empregadas domésticas à venda

Dominique Torrès*

“Bem-vindos ao aeroporto Rafic Hariri”, sussurra uma voz feminina a cada quinze minutos. São 7h30 da manhã, o saguão está deserto. Apenas uma sala de espera está apinhada de gente. Ali, numa parede, um cartaz traz os seguintes dizeres: “Área de recepção para empregadas domésticas”. Cristãos, muçulmanos, casais, famílias inteiras estão chegando. Dentre eles está o Dr. Hadj, um médico franco-libanês. Ele está com pressa, o trabalho no hospital o aguarda: “As agências se encarregam de tudo”, explica, “mas é preciso comparecer pessoalmente para a entrega da empregada doméstica”.

“Em 2002, eu salvei literalmente da fome uma togolesa ao admiti-la para trabalhar na minha casa”, conta uma senhora de jeans. “Primeiro, paguei para ela US$ 50 (cerca de R$ 90) por mês, mas, depois de seis meses, uma vez que ela estava trabalhando muito bem, eu lhe dei um aumento, passando para US$ 75 (cerca de R$ 136)”.

Há alguns anos, jovens mulheres oriundas de cerca de trinta países pobres afluem em busca de um emprego como empregadas domésticas no Líbano. Atualmente, elas são mais de 90.000 cingalesas, 30.000 etíopes, 40.000 filipinas, sem esquecer das outras nacionalidades, dentre as quais há muitas burundinesas e malgaxes. Uma pessoa em cada 16 que vivem no Líbano é uma doméstica estrangeira, segundo o diário de língua inglesa “Daily Star”. As filipinas (as mais bem educadas) recebem US$ 200 por mês, US$ 150 para as etíopes, US$ 100 para as cingalesas - o que representa menos de 20 centavos de euro (R$ 0,51) por hora. A qualquer momento, o empregador pode “devolver” a empregada, que, por sua vez, não tem o direito de partir.

Nesta manhã, os futuros empregadores estão aguardando as passageiras do avião da Ethiopian Airlines que pousou às 2h da madrugada: são 200 jovens mulheres que por enquanto estão isoladas e amontoadas no setor da alfândega, agachadas uma contra as outras. Não há bebidas, não há alimentos, não há toaletes. Conforme exige o serviço de segurança nacional, o seu passaporte transitará diretamente das mãos do policial das fronteiras para aquelas do empregador.

A jovem etíope que pisa pela primeira vez o solo libanês ignora que o seu passaporte só lhe será devolvido no dia da sua partida. Ela não tem a menor idéia de que neste exato momento ela acaba de perder a sua liberdade. O doutor Hadj verifica rapidamente se o nome corresponde àquele que a agência lhe comunicou, e, com um gesto do braço, faz “yalah”, sem uma palavra nem um sorriso. Carregando a sua magra bagagem, a jovem mulher tenta segui-lo, arriscando olhares aterrorizados por todos os lados. Eles devem se dirigir até a agência de empregos. Lá, ela irá provavelmente assinar um novo contrato, em árabe, o qual comporta condições que não terão mais nada a ver com os compromissos que haviam sido firmados no seu país. O seu salário corre risco de diminuir.

Segundo a embaixada das Filipinas, algumas jovens mulheres trabalham de graça durante os três primeiros meses, vêem a duração da estadia obrigatória, passar de dois anos para três anos e são privadas de toda liberdade: elas ficam proibidas de saírem sozinhas da casa, de entrarem em contato com a família e de comunicarem com o exterior. Sem falar do quarto que lhes foi prometido, que tem grandes chances de ser uma varanda, e até mesmo a cozinha! Alguma delas se recusa a assinar? É tarde demais. Sem dinheiro, sem passaporte, elas vêem a armadilha fechar-se.

No dia da assinatura do contrato, a agência cobra à vista entre dez e quinze vezes o primeiro salário da doméstica. Uma jovem etíope acaba custando, no total, ao empregador, US$ 2.400 (R$ 4.344), o que inclui a passagem, o visto, o exame médico, o contrato com despesas de cartório, etc. Trata-se de uma quantia importante, da qual 60% são embolsados pela agência. Em Beirute, 380 agências oficiais de colocação de empregados domésticos invadem a paisagem publicitária, principalmente nos outdoors. Alguns anos atrás, uma delas havia anunciado até mesmo uma liquidação de cingalesas!

Em 21 de junho de 2007. Anlyn Sayson, uma linda filipina de 21 anos, chega ao Líbano. Em 29 de junho, ela morreu, jogando-se de uma varanda do quinto andar de um apartamento em Beirute. O que será que aconteceu de tão terrível durante aquela semana para motivar une jovem mulher sem história a suicidar-se? Segundo a polícia libanesa, a jovem doméstica teria tido uma crise nervosa na casa dos seus empregadores em Trípoli, no norte do país. Estes a teriam levado de volta imediatamente à agência de empregos NK Contrat, em Beirute. O patrão da agência, Negib Khazaal, conta que a jovem mulher estava muito excitada e que um dos seus funcionários lhe teria fornecido calmante antes de deixá-la sozinha no apartamento. Às 3h da manhã, os vizinhos ouviram gritos. Eles encontraram o corpo esmagado da jovem mulher estendido na calçada. Os resultados da autópsia apontaram que havia doses maciças de metanol, uma substância neurotóxica particularmente perigosa, no estômago de Anlyn Sayson.

Enquanto a sua morte foi objeto de algumas linhas na imprensa local, a maior parte desses suicídios ocorre em meio à indiferença total. Contudo, o número de suicídios de domésticas não pára de aumentar: 45 filipinas, 50 cingalesas e 105 etíopes se suicidaram ao longo dos últimos quatro anos. “Num grande número de casos”, conta Sami Kawa, um médico legista, “as mortas são encontradas cobertas de equimoses, de mordidas ou de queimaduras”.

É um sistema completo de exploração que está implantado, no qual cada um dos protagonistas, o Estado, as agências, os empregadores, desempenha o seu papel respectivo, contando geralmente com a cumplicidade dos países de origem. Desde 1973, o Líbano vem “importando” domésticas estrangeiras que não contam com a proteção de texto de lei algum: o código do trabalho não se aplica a elas. Além disso, segundo as associações caritativas, a sua situação não pára de piorar. “Já faz alguns anos, nós estamos registrando um aumento dos atos de violência e dos estupros”, explicam integrantes da Caritas.

“Até onde eu fui informado, não houve no Líbano uma única condenação sequer, nem por crime, nem por estupro, em trinta anos; apenas algumas raras e reduzidas condenações na justiça penal por golpes e ferimentos”, sublinha o advogado Roland Tawk, que defende as domésticas há mais de dez anos. Em sua maioria, os casos são solucionados à libanesa: uma vez que a maioria dos casos de maus tratos vem acompanhada pelo não-pagamento do salário, a vítima acaba desistindo da sua queixa por estupro contra o pagamento do seu salário, ou ainda, o salário é “esquecido” de uma vez por todas, mas ela recupera finalmente o seu passaporte. Mas a violência não é uma exclusividade dos empregadores. Aqui, é possível fazer administrar uma boa surra a uma empregada doméstica pela polícia ou, com maior freqüência, pelas agências de empregos.

O resultado de uma pesquisa que foi realizada pela associação Caritas em 2007 junto a 600 empregadores é edificante. Mais de 91% das pessoas interrogadas confiscam o passaporte da empregada, 71% não a deixam sair sozinha, mais de 31% reconhecem maltratá-la, 33% limitam as suas refeições, 73% vigiam os seus relacionamentos e 34% a punem como se ela fosse uma criança.

Existem quarenta dessas domésticas, escondidas no subsolo da embaixada das Filipinas. Trinta na embaixada do Sri Lanka. E o mesmo número dentro de um anexo da embaixada da Etiópia. Todas elas querem retornar ao seu país, mas elas não recebem o seu salário há meses e até mesmo anos. Os jornais publicam os nomes e geralmente as fotos daquelas que estão em fuga, e a polícia está encarregada de trazer de volta as recalcitrantes para o empregador, queiram elas ou não.

Na embaixada da Etiópia, Yeftusran, 22 anos, está prostrada numa cadeira desde o início da manhã. Ela tem um braço quebrado. A assistente social da embaixada, Lina, uma libanesa compassiva, tenta compreender a sua história, mas Yeftusran se mostra incapaz de articular pensamentos, exceto algumas palavras que ela repete de modo recorrente: “Eu quero retornar a Adis Abeba”. Os seus olhos são vazios, a sua determinação é aterradora. Depois de várias horas, a jovem mulher acaba contando trechos da sua história. Há quatro anos, ela vive na casa de uma família de camponeses, no norte do país. O filho de 22 anos quebrou-lhe o braço porque ela não foi capaz - ou não conseguiu - levantar e carregar a avó deficiente física que jazia no chão. Yeftusran não quer nem ver um médico, nem contar mais do que isso. No dia seguinte, a embaixada mandará buscar os seus pertences para enviá-la em seguida para Adis Abeba. “Nós tivemos três suicídios só nesta semana, e eu estou com medo do que pode acontecer com esta aqui”, murmura Lina. “Uma etíope que chegou há dois dias está no hospital. Ela teria caído de uma varanda”, prossegue a assistente social, levantando os olhos para o céu.

“Cerca de 400 domésticas estão mofando na prisão por supostos furtos”, afirma Roland Tawk. Tão logo uma empregada de casa resolve fugir, o empregador dá queixa por furto. Durante o verão de 2006, o ataque israelense contra o Líbano e o desespero dos libaneses que fugiram das bombas foram amplamente repercutidos pela mídia. Os veículos de comunicação chegaram a mencionar, sem nunca se deter nesta questão, o número de 30.000 domésticas abandonadas dentro de apartamentos trancados com chave, não raro junto com o cachorro. Ao retornarem, os empregadores ficavam furiosos. A doméstica havia se mandado! “Nós tivemos muitas dificuldades para recuperar os seus passaportes, uma vez que certos empregadores ameaçavam entrar com processo na justiça por abandono de posto”, conta Annie Israel, uma assistente social na embaixada das Filipinas.

Aos domingos, os serviços religiosos estão lotados em Beirute. É quando as domésticas que têm direito à folga semanal e aquelas que estão em fuga podem se encontrar. Na igreja São José, o Padre MacDermott, um americano de 75 anos que está instalado no Líbano há trinta anos, denuncia todo domingo o calvário das domésticas e diz que gostaria de ver a hierarquia cristã enfrentar este problema. Em 2001, os bispos do Oriente Médio publicaram um relatório sobre o calvário das domésticas, mas ele permaneceu confidencial.

Em 1948, o Líbano assinou um tratado contra o confisco dos documentos de identidade. Em 1991, a Convenção dos direitos humanos tornou-se parte integrante da Constituição libanesa.

*Repórter especial do canal de TV France 2, Dominique Torrès é a fundadora do Comitê contra a Escravidão Moderna e autora de “Esclaves” (”Escravos”, editora Phébus, 1996). Ela realizou uma reportagem, “Líbano, o país dos escravos”, que será exibido no canal France 2 na série “Envoyé spécial”, na quinta-feira, 18 de outubro de 2007.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

Comentários

Melhores do Congresso

Vote nos parlamentares do PSOL

O sítio de notícias “Congresso em Foco” iniciou na última terça-feira (18/9) a votação que definirá os melhores congressistas do país deste ano. Até 18 de novembro o internauta poderá votar. Na primeira etapa votaram 188 jornalistas que cobrem o Congresso Nacional, que selecionaram 25 deputados e 16 senadores. Todos os parlamentares do PSOL – Ivan Valente, Chico Alencar, Luciana Genro e o senador José Nery - ficaram entre os 15 primeiros.

Meus votos são:

Ivan Valente (Deputado Federal Psol SP)
José Nery (Senador Psol PA)

Clique aqui

Comentários

Doris Lessing, de 87 anos, ganha o Prêmio Nobel de Literatura

Nascida no Irã, filha de britânicos, ela é a mais idosa a levar o prêmio, com obra influenciada pela vida na África

Teresa Ribeiro
, do estadao.com.br, com Reuters, Efe, AP

ESTOCOLMO - A romancista Doris Lessing venceu o Prêmio Nobel de Literatura 2007, informou nesta quinta-feira, 11, a Academia Sueca. Nascida na Pérsia (atual Irã) em 22 de outubro de 1919, filha de britânicos, ela é a mais idosa ganhadora do Nobel de Literatura e a 11.ª mulher a ganhar o prêmio. A última havia sido a austríaca Elfriede Jelinek, em 2004, e a primeira, a chilena Gabriela Mistral, em 1945.

Segundo a academia, a autora receberá o prêmio por transmitir a “experiência épica feminina”, que descreveu “com ceticismo, paixão e força visionária” a divisão de uma civilização.

“Trata-se de uma das decisões mais meditadas que já tomamos”, disse o diretor da Academia, Horace Engdahl, após divulgar o resultado.

Doris estava entre os favoritos ao Nobel havia décadas. Em 1979 era considerada uma das maiores escritoras de língua inglesa, mas seu nome desapareceu das listas do Nobel exatamente por conta da pecha dos “candidatos eternos”.

Doris Lessing é uma escritora que levou boa parte de sua experiência de vida na África a suas obras. Assim fez em seu primeiro romance, The Grass Is Singing (A Erva Canta), em 1950, que já na estréia lhe garantiu reconhecimento mundial. Nesse romance, examina a relação entre a esposa branca de um fazendeiro e seu empregado negro, que segundo a Academia, era “tanto uma tragédia baseada no amor e no ódio, como um estudo dos conflitos raciais”.

Doris nasceu em Kermanshah, na antiga Pérsia, ela foi criada na Rodésia do Sul (atual Zimbábue), na África, para onde se mudou quando tinha cinco anos. Em 1949, passou a viver na Inglaterra e, a partir de então, iniciou sua carreira na literatura.

Em 1962, publicou o romance que a tornou famosa, The Golden Notebook (O Carnê Dourado), e depois consolidou sua fama com uma série de títulos de temática africana. Seu compromisso político a levou a criticar abertamente os governos racistas da Rodésia e da África do Sul, sendo impedida de entrar nesses países.

O florescente movimento feminista o considerou um trabalho pioneiro, e a obra figura entre um punhado de livros que registra a forma como era vista a relação entre homens e mulheres no século 20, disse a academia em seu anúncio oficial.

No Brasil

Doris já esteve no Brasil, a convite do editor Alfredo Machado, já morto, da editora Record, de 23 a 30 de abril de 1987. A editora publicou inúmeros livros da autora, inserindo o Brasil entre os vários países do mundo que liam suas obras. No Rio, Doris participou de concorridas sessões de autógrafos de seu livro A Terrorista e chegou a ter um encontro com Kerena, líder indígena, usando o crítico de literatura do Estado Leo Gilson Ribeiro, já falecido, como intérprete.

Nesta mesma oportunidade, a escritora veio a São Paulo e participou de uma mesa redonda a no auditório do Estado, em 28 de abril, ao lado do bibliófilo José Mindlin, da jornalista Miriam Paglia Costa e do então editor do Caderno 2, Luiz Fernando Emediato, além de Léo Gilson Ribeiro. Na ocasião, Dóris criticou o ensino da literatura para crianças, defendendo que o melhor seria aliar os romances a outras disciplinas, e esquivou-se de comparações com Proust: “É um erro comparar um escritor a outros”.

Apesar de muitos de seus livros terem sido lançados no País na década de 80, ainda existem várias obras da autora disponíveis nas livrarias, como O Sonho Mais Doce, Companhia das Letras (2005); Debaixo da Minha Pele - Primeiro Volume da Minha Autobiografia, Companhia das Letras (1997); Andando na Sombra - Segundo Volume da Minha Autobiografia, Companhia das Letras (1998); Os Agentes Sentimentais, Nova Fronteira (1988); As Experiências de Sirius, Nova Fronteira (1980).

Sua última obra, publicada este ano, é The Cleft. A editora Companhia das Letras que publicou mais recentemente um romance da escritora, O Sonho Mais Doce, tem programado para novembro o lançamento de mais um título: As Avós.

Doris Lessing não soube imediatamente que havia ganhado o Nobel. Seu representante, Jonathan Clowes, contou que a escritora havia saído para fazer compras. “Estamos muito agradecidos e é muito merecido o prêmio”, disse Clowes.

Este foi o quarto Nobel concedido neste ano, depois dos prêmios às áreas de medicina, física e química. Os da paz e economia ainda serão entregues.

O prêmio é de 10 milhões de coroas suecas (R$ 3 milhões).

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

Comentários

A guerra de São Paulo

Maior conflito armado do país no século 20, a Revolução de 1932 durou dois meses. Sem o apoio esperado - e com armamento em frangalhos -, o estado não teve chance contra o governo federal.

Mauro Tracco

O moral dos cerca de 20 mil homens que compunham o exército rebelde paulista estava alto. A vitória estava garantida “sem um único tiro de fuzil” - era o que se bradava. O maior conflito armado do século 20 no país, entre 9 de julho e 2 de outubro de 1932, colocou de um lado o chamado Exército Constitucionalista e, de outro, as forças federais.

Formada por militares rebelados, membros da Força Pública Paulista (FPP) e voluntários, a tropa rebelde brigava contra a ditadura de Getúlio Vargas que, em 1930, acabara com o Congresso e anulara a Constituição. Apesar de todo o otimismo inicial, apenas um dia após a declaração de guerra o alto comando das tropas constitucionalistas já sabia que não tinha chance de vitória.

Para que o plano desse certo, era fundamental a adesão militar do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais à causa. Horas após a eclosão do conflito, porém, Flores da Cunha, interventor no Rio Grande do Sul, e Olegário Maciel, governador de Minas Gerais, colocaram suas forças à disposição de Vargas.

O general Bertoldo Klinger, comandante dos constitucionalistas, que havia ido a Mato Grosso em busca de armamentos, voltou de mãos vazias. O plano de guerra formulado pelos chefes militares antes do 9 de julho era simples. São Paulo bloquearia o Vale do Paraíba para impedir uma manobra federal contra o território paulista. E Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Mato Grosso adeririam à causa.

Mas, diante da falta de aliados, Klinger sabia que apenas um acontecimento externo poderia evitar São Paulo de ser esmagado. As opções eram o surgimento no exterior de um fornecedor de material bélico, os sonhados levantes por outros estados, a sublevação da Marinha de Guerra ou até mesmo uma paz negociada com o governo. Para dar tempo para que esse acontecimento externo realmente ocorresse, a ordem era resistir.

Fragilidade militar
O entusiasmo pela causa atingia diferentes grupos e classes sociais de São Paulo. Entre os soldados rebeldes estavam médicos, advogados, industriais e fazendeiros. “A idéia de paulistanidade, que existia desde o fim do século 19, sustenta um discurso hegemônico e dissolve as diferenças sociais”, diz Ilka Stern Cohen, doutora em História Social pela Universidade de São Paulo. “A imprensa e os discursos retratavam São Paulo como um território invadido, cuja humilhação era preciso apagar. A produção desse clima explica o envolvimento de pessoas que acreditavam na guerra como um meio de lavar a honra do estado.”

Mas, se sobrava entusiasmo, faltava experiência. A carência de instrução militar causava problemas de comando e disciplina. Além disso, muitos voluntários sequer sabiam manejar um fuzil. E, mesmo que soubessem, não havia armas para todos. Por se acreditar que seria uma guerra curta - e com aliados -, o alto comando tinha convicção de que o material bélico disponível seria suficiente.

Só depois da eclosão da rebelião é que o coronel Júlio Marcondes Salgado, chefe da FPP, descobriu que os 3 milhões de cartuchos que possuíam estavam quase que inteiramente imprestáveis, enquanto 60% dos 8 mil fuzis se escangalhavam após os primeiros tiros. Os modelos mais novos, 40% do total, eram de 1908. O resto datava até de 1893. “A situação material era crítica desde o início e as reclamações dos comandantes constitucionalistas nos vários teatros de guerra começaram imediatamente”, escreveu o cientista político Stanley Hilton em 1932 - A Guerra Civil Brasileira.

A maioria das correspondências enviadas para Klinger era pedido de munição. Devido ao cerco federal, a única forma de aumentar o estoque de munições era fabricando-as. A fábrica de pólvora em Piquete, na região do Vale do Paraíba, estava nas mãos dos rebeldes e o estado de São Paulo possuía a mais avançada base industrial da América Latina.

A iniciativa privada fez o que pôde para suprir as tropas com o necessário. A grande contribuição da indústria foi na produção de munição de fuzil e granadas de mão. A Fábrica Nacional de Cartuchos e Munições, em São Bernardo do Campo, pertencente ao grupo Matarazzo, desempenhava papel principal.

Os engenheiros e estudantes da Escola Politécnica da USP desenvolveram morteiros, granadas de mão e carros blindados. Como tudo foi feito às pressas, os resultados, claro, não foram dos melhores. Já na demonstração dos primeiros morteiros aos comandos gerais do exército rebelde, o armamento falhou, explodiu e seus estilhaços mataram um coronel e um capitão. Foram as primeiras vítimas da improvisação do material bélico. Muitas outras viriam.

Uma “arma” desenvolvida pelos constitucionalistas ilustrava bem a situação bélica paulista. Tratava-se de um instrumento movido a manivela que simulava o som de uma metralhadora para assustar o inimigo. O coronel da FPP Herculano Carvalho e Silva descreve em A Revolução Constitucionalista a indignação de seus homens ao verem a matraca. “Um crime permitir-se que aqueles moços se expusessem às balas adversárias, ao metralhar dos aviões e tivessem como arma de defesa instrumentos que não o eram, na persuasão de iludir o adversário, quando na verdade procuravam iludir-se a si mesmos.”

Fuga espavorida
Levou pouco tempo para que os reveses nos campos de batalha transformassem o entusiasmo paulista em pânico. A primeira vitória federal de grande efeito moral ocorreu em Itararé, na fronteira com o Paraná. O combate começou em 17 de julho com lutas de trincheira e, na maior parte do tempo, de armas brancas como baionetas e facas.

No dia seguinte, os constitucionalistas começaram a retirada. Na manhã do dia 19, as forças governistas ocuparam a cidade. “Tomamos Itararé a baioneta. Inimigo fugiu espavorido”, telegrafou o general Valdomiro Lima para o interventor federal do Paraná, Manoel Ribas.

A história se repetiu em praticamente todas as batalhas. Federais atacavam e paulistas recuavam. A falta de armas e de experiência, a fome e o desrespeito ao comando eram as principais causas da debandada. No caminho da fuga, armas, cavalos e veículos eram deixados de presente para as forças federais.

Pior para os moradores das cidades localizadas nas zonas de combate. Um dos efeitos mais devastadores e comuns sobre os habitantes das zonas de batalha eram os saques, que se tornaram rotineiros. Os rebeldes arrombavam e incendiavam casas, matavam animais, roubavam dinheiro, comida e roupas.

Além de saquear, os retirantes incentivavam a população, alarmando a respeito das tropas federais, a abandonar os locais. A presença militar das tropas governistas não acabava com os problemas dos civis interioranos. As tropas governistas também saqueavam, embora menos. Isso sem falar que o Exército podia tomar os bens da população sem infringir a lei.

Como a situação das forças ditatoriais também não era das melhores, o governo não tinha recursos materiais para dotar o Exército do necessário. Vargas procurou acelerar a produção de artigos bélicos e recorreu a mercados externos, mas também baixou um decreto obrigando todos os habitantes dos estados do Sul e do Sudeste a cumprir com qualquer requisição feita por membros das Forças Armadas.

O principal item confiscado eram veículos, mas a prática abrangia todo tipo de bens. Teoricamente, a vítima da requisição deveria obter um recibo que lhe garantiria uma indenização. Mas era comum a tomada de bens sem o fornecimento do recibo. E a demora para sair a indenização era grande. O incessante recuo paulista fez com que o inimigo chegasse às portas da capital. Hora de reconhecer a derrota.

A guerra acabou em 2 de outubro, para alívio dos dois lados. Um oficial rebelde escreveu em relatório: “Congratulo-me com a Força Pública pela cessação da tremenda luta, a qual salvou a capital do estado e a maior parte de seu território da invasão inevitável, com todas as suas conseqüências”. São Paulo até hoje comemora o 9 de julho e faz o possível para ignorar o 2 de outubro, mas o impacto da derrota foi profundo - embora a terceira Constituição brasileira tenha sido publicada em 1934. “O discurso do ‘perdemos, mas vencemos’ foi um consolo”, diz Ilka Cohen. “Foram quase 800 mortos por nada.”

Revista Aventuras na História
http://historia.abril.uol.com.br/

Comentários (2)

“Levará gerações para que Fidel se apague em cada cubano”

Acerto de contas com o fidelismo vai demorar, acredita Jon Lee Anderson; sobre o Iraque, jornalista diz que partição do país árabe levaria a guerra regional

DA ENVIADA A PORTO ALEGRE

Para o jornalista americano Jon Lee Anderson, levará gerações para que os cubanos aprendam a viver sem a marca de Fidel, tão entronizada em suas vidas que nem sempre eles se dão conta disso. “Ele é como um pai que viveu por tanto tempo que você nem sabe mais se o ama ou o odeia.”
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista que Anderson concedeu à Folha, quando falou de Cuba, Iraque, EUA e vaticinou um desfecho nada reconfortante para o impasse nuclear no Irã. (LC)

FOLHA - Comparado a Che Guevara, por quanto tempo o sr. acredita que o peso de Fidel como ícone sobreviveria numa Cuba democrática?
JON LEE ANDERSON - Fidel envelheceu diante de nossos olhos e teve negada a entrada nesse plano mais espiritual ao qual Che pertence por causa de sua idade [Guevara foi morto aos 39 anos, Fidel tem 81]. Mas Fidel tem também uma presença icônica extraordinária, embora diferente. Ele representa tudo que há de astuto nos cubanos e, na psique popular latino-americana, o homem corajoso que se levantou e mostrou os punhos para Washington. Todo mundo o ama por isso, mesmo que não concorde com ele politicamente. Levará gerações para que os cubanos acertem as contas com o “fidelismo”. Todo cubano carrega um pouquinho do Fidel em si e não tem nem idéia de como se sente a respeito. A presença dele é tão profunda que é difícil para as pessoas compreenderem-na realmente.

FOLHA - Há hoje muita apatia em Cuba. O sr. acredita que com a morte de Fidel veremos os cubanos mais vibrantes politicamente?
ANDERSON - É preciso haver uma mudança drástica para que isso se transmute em ação social. E é preciso que haja um patrono, acho. Enquanto Fidel estiver vivo, não acredito que acontecerá. E tendo a acreditar que sob Raúl também não.

FOLHA - Há alguém com esse poder inspirador hoje?
ANDERSON - O carisma de Fidel é como o sol, ofuscante. E, se eu fosse um carismático líder no Partido Comunista, ia dar um jeito de esconder o meu carisma ao máximo. Enquanto Fidel estiver vivo, será assim. Uma vez que Raúl esteja abertamente no controle de tudo, poderemos ver alguma flexibilidade social, mas não política.

FOLHA - O sr. acredita que a transição -ou sucessão - em curso tenha sido orquestrada por Fidel?
ANDERSON - Sim. A sucessão pode ser ensaiada e ocorreu quase sem tropeços, o que evitou a crise que poderia acontecer com a morte repentina de Fidel. Agora os cubanos sabem que Fidel vai morrer. Antes ninguém sabia. O discurso oficial apenas aludia à idéia do “fim biológico”, nunca usava a palavra morte. Ninguém sabe como os cubanos reagirão à morte de Fidel. Eu costumava pensar que as pessoas iriam vagar atordoadas e, um dia, do nada, alguém num ônibus acordaria aos gritos para o fato de que ele morreu. Aí todo mundo em volta ia começar a acordar.

FOLHA - O sr. uma vez escreveu que havia pontos em comum entre Cuba e o Iraque. Quais?
ANDERSON - Ninguém pode ousar comparar a extensão da crueldade de Saddam Hussein no Iraque com o regime relativamente estrito de Fidel, e Cuba tem toda uma cultura de as pessoas falarem muito -enquanto no Iraque ninguém abria a boca. Mas, no sentido de toda informação que entra passar pelo regime, regido por um único homem, há um paralelo interessante. A realidade criada em regimes assim acaba sendo semelhante na forma como as pessoas levam sua vida em um nível muito local, pois tudo que há de relevante [para se falar] sobre o poder do Estado é tabu, é excluído da vida cotidiana.

FOLHA - Sobre o Iraque, os americanos realmente agravaram a discórdia entre as diferentes facções ou apenas abriram uma caixa de Pandora mantida fechada pelo medo?
ANDERSON - Saddam matou ao menos 100 mil xiitas no Iraque, além de pelo menos outros 600 mil no Irã. Além de atacar os curdos. Ele era a epítome do nacionalismo sunita chauvinista. Ele foi o responsável pelas rixas sectárias. Sim, os americanos abriram uma caixa de Pandora, mas, em última análise, a responsabilidade recai sobre o regime sangrento de Saddam. Se você mata 1 milhão de pessoas, algo acontece.

FOLHA - Há teóricos que acreditam que uma solução possível para o Iraque seria dividi-lo em três partes -curda, árabe xiita e árabe sunita. O sr. concorda?
ANDERSON - Não. Eu já cheguei a pensar nisso, como forma de interromper a matança. Mas já há um conflito de interesses entre os EUA, o Irã, a Síria, a Arábia Saudita e o próprio Iraque e, se for criado um Curdistão, um Xiistão e um Sunistão, essa guerra por procuração pode abrir caminho para uma guerra regional de fato. Acho que é importante, no entanto, que essas pessoas [no Iraque] sejam separadas por um tempo. Muros não são necessariamente algo ruim, se podem salvar vidas. Não é a melhor solução, mas muros, como nós já vimos, uma hora caem.

FOLHA - Como é o sentimento nas ruas hoje entre a população?
ANDERSON - É uma sociedade profundamente traumatizada, mas capaz de prosseguir com suas funções diárias sob a proteção de uma vida cotidiana quase surrealista. Na maior parte do tempo, querem somente que as crianças estejam a salvo e tenham um futuro. E falam em sair. Muita gente está deixando o país, quase 3 milhões já saíram. A maioria é de pessoas que estudaram, de gente afluente. Se a guerra continuar, o Iraque vai se tornar um país pobre em todos os sentidos, como o Camboja. A grande conseqüência do massacre [promovido pelo Khmer Vermelho] no Camboja é que ele acabou com a população educada do país.

FOLHA - O sr. acredita que os EUA atacarão o Irã?
ANDERSON - Eles podem. As armas nucleares estão lá. Eles podem não atacar, mas onde ficaria a lógica da contenção? Se você tem um arsenal nuclear e não quer que outro país tenha, e esse país está produzindo as armas, qual a lógica senão bombardeá-lo para evitar? Não estou dizendo que haverá uma guerra nuclear, mas essa possibilidade uma hora vai ser confrontada. Eles vão pensar nisso.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

Comentários

A América Latina é uma esperança, diz Evo na homenagem a Che

Sob o sol, o vento e a poeira fortes, o presidente da Bolívia, Evo Morales, falou nesta segunda-feira (8) para uma platéia de pouco mais de mil pessoas, ao lado do local onde foram encontrados os restos mortais de Che Guevara, em Vallegrande, sudeste da Bolívia. Um discurso marcadamente ambientalista deu o tom da fala do presidente boliviano, precedido por saudações de ex-guerrilheiros, intelectuais e representantes de Cuba e Venezuela que exaltaram o socialismo do século 21.
Por Daniel Cassol, da Agencia Carta Maior

Evo discursa na cerimônia em Vallegrande

“A América Latina deve viver com dignidade e liberdade. Não podemos mais ser o pátio dos fundos do imperialismo norte-americano”, disse Evo, que teve nos Estados Unidos um dos focos principais de sua fala. “A luta heróica de Che e de outros revolucionários continuará até acabarmos com o capitalismo. Esta é a luta dos povos”, afirmou.

O presidente boliviano defendeu a nacionalização dos recursos naturais, que tem garantido um aumento considerável no orçamento do país e nas reservas internacionais. “Antes, para onde ia este dinheiro?”, indagou. Morales também defendeu a continuidade dos trabalhos da Assembléia Constituinte, como forma de avançar com as transformações no país. Uma das propostas é proibir a instalação de bases militares dos Estados Unidos na Bolívia.

Evo Morales voltou a fazer críticas à produção de biocombustíveis no continente, no momento em que fez uma referência direta ao Brasil, pedindo desculpas aos brasileiros presentes. “Trata-se de uma política totalmente equivocada. Os alimentos não podem ser para os carros norte-americanos”, falou. O presidente também afirmou que a América Latina pode se tornar a “esperança da humanidade”, se conseguir defender seus recursos naturais, falando especialmente da energia, da água e da terra. “Temos que lutar por uma nova forma de vida, para não transformar nosso continente em lixo. A América Latina é a esperança para os povos da Terra. Se cuidarmos bem dos nossos recursos naturais, seremos a esperança para a humanidade”, disse.

Disputa aberta

As localidades de Vallegrande e La Higuera, pertencentes ao departamento de Santa Cruz de la Sierra, parecem ter se transformado num palco de disputa simbólica entre os movimentos sociais e governo boliviano, de um lado, e a direita do país, de outro. A população local, beneficiada por uma reforma agrária realizada há mais de 50 anos e muito religiosa, é conservadora, a despeito da pobreza que grassa na região. Soma-se a isso a propaganda ideológica proporcionada pelos meios de comunicação de Santa Cruz, a cidade mais rica da Bolívia, onde a elite local se “organiza e se recicla”, nas palavras de Osvaldo Chato Peredo, presidente da Fundação Che Guevara.

“Não se trata de uma luta regional. Coincide com o fato de que Santa Cruz aglutina a direita boliviana. São interesses econômicos muito grandes, que não são simplesmente regionais”, explica Chato. “A Bolívia esta dividida num mapa horizontal, entre os de cima, que sempre estiveram no poder, e os de baixo, que agora emergem”, completa.

Desde o início do evento, os organizadores reclamam da pouca ajuda ofertada pelo prefeito de Vallegrande, que integra o partido Ação Democrática Nacional. Até mesmo os rumores de que grupos direitistas haviam tomado La Higuera eram boatos, possivelmente produzidos por setores da direita de Santa Cruz. Nas ruas, uma parte considerável da população local repete o discurso reacionário, de que preferem homenagear os soldados do exército oficial, que lutaram pelo país, a exaltar os “cubanos” que mataram os bolivianos na época.

Em contrapartida, Vallegrande, com a “sorte” de suas terras terem servido de túmulo para Che por mais de 30 anos, agora recebe obras do governo boliviano, com ajuda das embaixadas de Cuba e Venezuela. São reformas no hospital e melhorias no transporte, uma forte presença de médicos cubanos e a implementação dos programas de alfabetização baseados no método “Sim, eu posso”. O embaixador de Cuba na Bolívia, Rafael Céspedes, lembra que a solidariedade entre os dois países é incondicional, sem contrapartidas. “É uma integração que faz parte do sonho do Che”, diz.

Para o deputado federal Ivan Valente, há um conflito instalado no país. “As realizações do novo governo são bastante positivas no campo da saúde, da educação. Foi um choque para a elite boliviana. É um processo traumático, uma elite de 500 anos. E a região mais rica da Bolívia esta produzindo uma ideologia conservadora, antiintegração da AL”.

Em 2008, 80 anos

No ano que vem, no dia 14 de junho, Ernesto Che Guevara completaria 80 anos. Os representantes da Fundação Che Guevara afirmam que, possivelmente, ocorrerá um grande ato em Rosário, na Argentina, local de nascimento de Che.

Nesta segunda, uma caravana de táxis, ônibus e pessoas em carona percorreu as duas horas de estrada, à beira de despenhadeiros, até chegar em La Higuera. Um ato político foi realizado a partir da meia-noite, seguido de uma vigília na escolinha legal, onde Che foi fuzilado. Nesta terça (9), no dia dos quarenta anos da morte de Guevara, será realizado uma mística de encerramento, comandada pela Via Campesina Internacional. A atividade terá as presenças de João Pedro Stedile (MST), Dom Tomas Balduino (CPT), do ex-senador João Capiberibe e do ator Chico Diaz, entre outras personalidades brasileiras.

Comentários

TRABALHO PERPÉTUO?

Robert Kurz

Vê-se quão doente está a reprodução capitalista da sociedade em dois imperativos diametralmente opostos: “nós” temos que ser cada vez mais e simultaneamente cada vez menos “nós” temos que ser. Cada vez mais, pois quem mais há-de pagar as reformas dos malvados velhos de longa vida? E cada vez menos, pois donde hão-de vir os postos de trabalho para a nova geração baby-boom, sob as condições da terceira revolução industrial e da globalização? As reformas e o mercado de trabalho entram numa oposição irreconciliável. Esta esquizo-argumentação há muito que mergulhou na consciência das massas. Os casais heterossexuais sem filhos já são provocados pelos vizinhos, porque não deixam como outrora descendência obrigada a contribuir para a segurança social. Simultaneamente estão os pais amargurados porque os seus filhos já não arranjam um lugar de aprendiz, nem sequer num trabalho não qualificado, e vão crescendo num futuro precarizado. Derrete-se a base do trabalho produtivo do capital, enquanto incha a massa dos beneficiários de transferências, o que não pode dar certo e revela a contradição interna do modo capitalista de vida e de produção.

Um princípio para a quadratura do círculo político-social é o aumento da idade da reforma; para já até aos 67 anos, logo que possível até aos 70, como pré-anunciado pelo discurso neoliberal. Esta grandiosa solução, há muito objecto de negociações, é agora, com os acordos da grande coligação, posta em marcha, ainda que com dores de barriga dos social-democratas. O que, na verdade, nunca foi motivo de impedimento algum, pois a social-democracia vive a bem dizer das dores de barriga. Que uma sociedade com a mais alta produtividade da história mundial amarre à produção as pessoas idosas por mais tempo que na Idade Média, já não indigna quase ninguém. As pessoas já se habituaram aos paradoxos deste que é o melhor dos mundos. Em todo o caso trata-se apenas de um adiamento do problema. Pois a mesma produtividade torna agora o trabalho em grande medida supérfluo, enquanto que, apesar disso, só deve comer quem trabalha. Se, em desespero, os reformados são atirados para o prolongamento do jogo, naturalmente que estão a bloquear os já raros postos de trabalho para a geração seguinte. A administração da crise só tapa buracos para outros abrir. O pragmatismo político reduz-se a si mesmo ao absurdo.

Oficialmente, as associações de empregadores manifestam o seu consentimento consciente e responsável. Na realidade, porém, por razões de custo e de eficiência, as empresas não querem nem dar formação nem empregar pessoas com mais de 40 anos. Requisitados são os famigerados campeões olímpicos do dinamismo e alta motivação, rondando os 25 anos e com diploma e experiência profissional. De onde é que eles vêm e quem paga a sua formação, é um problema da sociedade, não dos empresários. Esta atitude reivindicativa ainda “deve” ser permitida na globalização a um comprador de trabalho com oferta em abundância. Os anciãos coercivamente obrigados à produção, são apenas modelos em fim de linha e pesos mortos, são alvo a abater quanto antes. Há aqui de facto um conflito de interesses entre a administração da crise social e a racionalidade da economia empresarial. Até há pouco tempo exoneravam-se os “excrementos da produção” humanos em variante de luxo através de reformas antecipadas; entretanto, transformam-se na variante de miséria através de despedimentos provocados por encerramentos de empresas e trasladação para o destino Harz-IV. O que continuará assim, em caso de dúvida através da deslocalização da produção para a Europa Oriental ou para a China. Com isso, então, serão eliminados não só os peões que foram decisivos no milagre económico, mas até os caríssimos campeões olímpicos domésticos.

Em geral, o eldorado do capitalismo selvagem indica a orientação a leste. Aí estão à disposição equipas de homens e mulheres altamente motivadas, jovens e baratas, enquanto a esperança de vida desce drasticamente e os velhos batem a bota sem um queixume. Este é um modelo de futuro. O aumento da idade da reforma por cá pode ser considerado um programa de transição. Quando se tem de arrastar os velhos no processo de produção, estes ficam expostos à pressão do serviço e à chicana permanente. O que ninguém aguenta por muito tempo se não tiver um corpo em forma. A assistência médica de segunda classe trata do resto. O discurso de que “socialmente compatível é morrer mais cedo”, que um presidente da ordem dos médicos deixou escapar, marca a época. O fim da vida será antecipado e deslocado para o dia a dia da actividade profissional. Não mais reformados hedonistas, mas soldados da valorização, que, de certo modo, morrem com as botas calçadas. Que há de mais belo para um alemão? Assim se resolve o dilema social, pelo menos para a administração estatal da crise. As jovens gerações não ganharão nada com esta situação, porque é ela precisamente que lhes racionaliza ainda mais os seus potenciais postos de trabalho; por sua vez, os ocupantes dos velhos postos de trabalho fordistas são condenados à “perpétua”. É esta a justiça capitalista.

Original: “LEBENSLÄNGLICH ARBEIT?” In semanário Freitag, Berlim, 04.11.2005

Comentários

Dossiê mundial de Scientific American Brasil discute a chamada “transição nutricional”

Invalid Image: clip_image002.jpg

Em outubro, Scientific American Brasil publica especial sobre a obesidade no mundo contemporâneo, fenômeno intensificado pela globalização

Se na década de 60 os cientistas previam que a humanidade seria acometida pela “fome em massa”, hoje, quase 50 anos depois, a discussão que ganha força, paradoxalmente, é a obesidade como problema de saúde pública, atingindo mais de um bilhão de pessoas em todo mundo, incluindo os países em desenvolvimento.

Esse é o tema do dossiê mundial publicado em outubro pelas edições de Scientific American ao redor do globo. Uma vez por ano, a revista publica simultaneamente nos 21 países em que está presente uma série de artigos em torno de um assunto relevante para o futuro da humanidade. Os textos, assinados por especialistas de várias nacionalidades, atingem milhões de leitores em países como Brasil, Alemanha, Índia, China e Canadá.

Abrindo a edição especial, o jornalista Gary Stix introduz o tema da transição nutricional, fenômeno sociológico da globalização que confere ao sobrepeso e à obesidade um papel mais preocupante que o da fome no planeta. Mais preocupante ainda é o fato, apontado pelos autores do dossiê, de que os governos não estão preparados com políticas públicas para enfrentar a questão.

Neste contexto, o artigo da nutricionista Marion Nestle aborda os diferentes (e muitas vezes confusos) tipos de dieta utilizados hoje para concluir que a mensagem mais simples é provavelmente a melhor: comer menos, exercitar-se mais, incluir frutas, hortaliças e grãos integrais na dieta e evitar a “junk food”. Nestle analisa ainda a questão ética sobre o financiamento de estudos clínicos por parte de indústrias alimentícias e de bebidas.

Em seu artigo sobre a obesidade no mundo, o epidemiologista nutricional Barry Popkin aborda a dieta ocidental pouco saudável que a globalização levou aos países em desenvolvimento. Segundo Popkin, as camadas mais pobres da população desses países aumentaram muito o consumo de bebidas adocicadas, alimentos de origem animal e óleos vegetais, além de terem adotado um estilo de vida que contribui para a obesidade, como assistir televisão e utilizar veículos motorizados.

O especial aborda ainda o uso da biotecnologia no combate à desnutrição, por meio das lavouras geneticamente modificadas, a questão dos alimentos contaminados, vistos como uma forma perigosa de terrorismo, e um artigo especial sobre a questão da obesidade no Brasil, que já atingiu a base da pirâmide populacional.

Sobre a Scientific American Brasil – www.sciam.com.br

Publicada desde 2002 pela Duetto Editorial, a Scientific American Brasil é a edição brasileira da mais tradicional revista de divulgação científica do mundo. Com circulação de 40 mil exemplares por mês (IVC), a revista dá aos leitores informação de qualidade em artigos produzidos por especialistas estrangeiros e brasileiros dos mais diversos campos da ciência. O grupo Conhecimento da Duetto publica ainda as revistas História Viva, Mente&Cérebro, EntreLivros e Brasil História, que podem ser adquiridas pelo site www.lojaduetto.com.br.

Serviço:
Scientific American Brasil
N° 65 – Outubro
R$10,90

Comentários

Mais uma pedra no sapato

Luiz Eça
05-Out-2007

Não bastasse Chávez, Kirchner e Evo Morales, surge mais um presidente latino-americano atormentando George Bush. E o que é pior, com qualidades inquietantes que o fazem difícil de ser desmoralizado. De fato, Rafael Correa, o novo presidente do Equador, é um político de formação cristã, com cursos superiores de economia na Universidade Católica de Leuven (Bélgica) e na Universidade de Illinois, ligações com os movimentos sociais católicos e experiência administrativa no anterior governo, como ministro da Economia.

Explicando por que se demitiu desse cargo, ele diz: “Tentei mudar radicalmente a política econômica, porque os últimos vinte anos de neoliberalismo foram um verdadeiro desastre. Para defender os seus privilégios, os bancos, os donos do petróleo, os Estados Unidos, o FMI, o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento fizeram pressão sobre o presidente. Perdi seu apoio”.

Em 2006, ele se candidatou a ser o 8º presidente do Equador da década. Os 4 últimos ocupantes do cargo haviam governado sob o fogo de gigantescas manifestações populares.

Em 2000, Jamil Mauad quis tirar o país de uma crise terrível (crescimento negativo de 7,3% e inflação de 52%) através de um plano de austeridade, elaborado por economistas argentinos neoliberais, que dolarizava a economia e congelava as poupanças. Uma greve geral, seguida de passeatas e fechamento de estradas, com vasta participação dos índios – os setores mais pobres –, o derrubou.

Seu sucessor, o vice, Gustavo Noboa, conseguiu um empréstimo de urgência de 300 milhões de dólares do FMI. Pagou um preço alto: medidas como a oficialização da dolarização que arruinou centenas de milhares de poupadores e aposentados, o fim dos subsídios aos produtos básicos que levou seus preços nas alturas, a “flexibilização” das leis trabalhistas e muitas privatizações.

Noboa completou seu período agitado por intensas manifestações de protesto. Eleito presidente em 2002, o coronel esquerdista Lúcio Gutierrez deparou-se com um déficit e uma dívida externa apavorantes. Preferiu a saída mais fácil: a tutela do FMI e do Banco Mundial. Com isso, o receituário neoliberal continuou sendo aplicado fielmente. Gutierrez chegou a se declarar “o melhor amigo de Bush na América Latina”.

Mais uma vez, multidões de índios, camponeses, operários e estudantes tomaram estradas, aldeias e invadiram as ruas de Quito. Gutierrez acabou destituído pelo Congresso em 2005.

Assumiu seu vice, Alfredo Palácio, que continuou alinhado aos organismos financeiros internacionais. A negociação de um tratado de livre comércio com os Estados Unidos, o TLC, detonou forte reação popular, particularmente dos índios (45% da população, para a UNESCO). Temiam que o TLC destruísse a agricultura do país. Organizados na “Confederação das Nacionalidades Indígenas”, eles pararam o Equador com seu grito de guerra “Não Queremos Ser Colônia Americana”. Palácio teve de governar sob estado de emergência, entregando o poder ao novo presidente eleito, Rafael Correa, em janeiro de 2007.

Correa encontrou um país que, apesar das boas rendas propiciadas pelo petróleo (é o 5º produtor da América Latina), exibia estatísticas péssimas: 38% de pobreza, sendo 61% na área rural que tinha 27% de indigentes; 10,7% de desemprego; subemprego de 47%; rendimento dos 10% mais ricos 60 vezes maior do que o dos 10% mais pobres; crescimento de 3,2%; dívida externa de 10 bilhões de dólares, cerca de 25% do PIB.

Para alterar este quadro sombrio, as idéias de Correa são muito claras: “O neoliberalismo está mais que superado na teoria e na prática. Os países que têm sucesso são os que desenvolvem sua produção interna e o emprego. Precisamos de uma maior intervenção do Estado na economia, no fomento e proteção da produção nacional, e priorizar o investimento social sobre o pagamento da dívida externa”.

Fiel a estes princípios, Correa pretende renegociar os pagamentos da dívida externa, revendo todos os contratos feitos pelo governo a partir de 1976 para descartar os ilegais.

Os rendimentos do petróleo, principal riqueza nacional (representa 40% do orçamento), desde a entrada do FMI, eram reservados para o reembolso da dívida. Correa afirma que esta exclusividade acabou, pois sua prioridade é outra: pagar a dívida social ao povo equatoriano.

Ele quer também rever a participação do Estado na indústria petrolífera, pois, segundo diz, “não podemos permitir que, de cada cinco barris produzidos, as multinacionais fiquem com quatro e deixem apenas um para nós”.

A reforma agrária, com desapropriação das terras improdutivas, é outra prioridade. Assim como o desemprego. Em 17 de abril, Correa lançou um plano de assistência social que deverá criar 300 mil empregos nos próximos 3 anos. Na ocasião, ele criticou “os economistas que se preocupam pelo desmedido controle da inflação e deixam de lado as taxas de desemprego e subemprego”.

Remando em sentido contrário, Correa projeta estimular a industrialização, contando com as rendas aumentadas pela renegociação da participação estatal nos lucros das empresas de minérios e de petróleo e o apoio do seu aliado Chávez. Já estão previstas a ampliação e modernização de refinarias equatorianas com investimento venezuelano e a criação de empresas mistas de hidrocarburetos.

O presidente equatoriano confia muito na ação do futuro Banco do Sul, que seria criado por governos da América Latina. Ele lembra que os países da região têm 200 bilhões de dólares depositados em bancos estrangeiros, que poderiam constituir o capital do banco. Suficiente para apoiar países em crise e investir em projetos de desenvolvimento, “o que servirá para deixarmos de depender de burocracias internacionais nefastas, como o FMI e o Banco Mundial”.

Todas estas idéias bastariam para o governo Bush definir Correa como uma “ovelha negra”. Mas ele não ficou nisso.

Declarou-se contra o Tratado de Livre Comércio com os Estados Unidos, gestado durante o governo Palácio. Contra a renovação, em 2009, da cessão da base militar de Manta ao governo americano. E, solicitado a comentar o fato de o presidente Chávez chamar George Bush de diabo, respondeu: “Seria ofender o diabo. Bush tem feito grandes danos ao mundo”.

Mesmo assim, Correa assegura que deseja ter as melhores relações com seu vizinho do norte. Mas em outros termos, é claro.

Luiz Eça é jornalista.

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/

Comentários

Poucos economistas previram o verdadeiro custo da guerra

Marilyn Geewax
Em Washington

Neste mês faz cinco anos que um economista da Universidade Yale disse algo que poucos em Washington desejavam ouvir: uma guerra no Iraque custaria quase US$ 1,6 trilhão até 2012.

O trabalho de William Nordhaus foi desprezado pelos aliados do governo Bush, que acreditavam que os gastos não excederiam os US$ 60 bilhões.

Mas, até o momento, o congresso dos Estados Unidos já aprovou US$ 610 bilhões para as guerras no Iraque e no Afeganistão, e no mês passado o secretário de Defesa, Robert Gates, afirmou que o presidente Bush pedirá US$ 42,3 bilhões adicionais durante o ano fiscal para sustentar a guerra.

O não partidário Departamento de Orçamento do Congresso anunciou em estimativas recentes que os custos totais poderão ficar entre US$ 1 trilhão e US$ 2 trilhões, dependendo da duração do envolvimento dos Estados Unidos no conflito e da intensidade da luta.

Tais estimativas parecem confirmar que Nordhaus estava certo o tempo todo.

“Comparado às autoridades orçamentárias da Casa Branca, não há dúvida de que é Nordhaus que tem mais credibilidade”, afirma Alan Krueger, professor de economia da Universidade de Princeton.

Krueger disse que cinco anos atrás, poucos economistas contestaram o diretor do Departamento de Orçamento e Gerenciamento da Casa Branca, Mitch Daniels, quando este disse que os custos totais do conflito seriam de pouco mais de US$ 60 bilhões.

Segundo Krueger, a maioria dos economistas acreditou que a guerra do Iraque, que teve início em março de 2003, seria semelhante à Guerra do Golfo Pérsico de 1991. Aquela guerra consistiu de uma campanha aérea e terrestre de seis semanas para expulsar os invasores iraquianos do Kuait, e foi em grande parte financiada por outros países.

“Os economistas fracassaram na imaginação”, diz Krueger. “Olhamos para a primeira Guerra do Golfo e a nossa conclusão foi de que o processo seria rápido e fácil. Não previmos o quão difícil seria a situação após a queda de Bagdá”.

Por exemplo, Alan Greenspan, então presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), disse ao congresso em novembro de 2002: “Eu ficaria muito surpreso se o impacto da guerra sobre a economia fosse mais do que modesto”.

Nordhaus conta que a maioria dos economistas manifestou ceticismo em relação ao trabalho dele, originalmente publicado pela Academia Americana de Artes e Ciências, porque não estavam acostumados a avaliar os custos de guerras.

“A minha impressão foi de que esse não era um tópico comum na área econômica em 2002″, afirmou Nordhaus por e-mail. “Os estudos econômicos dos setores de defesa e guerra saíram de moda depois da Guerra do Vietnã e, especialmente, após o fim da Guerra Fria. Como não se dedicavam a avaliar os custos de guerras, muitos economistas e formuladores de políticas acharam que as minhas estimativas estavam ‘no espaço sideral’, conforme me disse à época um economista do Departamento do Tesouro”, diz Nordhaus.

No seu trabalho ele observou que em 1966 o Pentágono subestimou o custo total da Guerra do Vietnã em 90%. Nordhaus atuou no Conselho de Assessores Econômicos do presidente Carter nos anos que se seguiram à Guerra do Vietnã.

As estimativas dele incluem fatores que estão além dos gastos militares diretos, tais como os custos associados à ocupação, à reconstrução, ao auxílio humanitário e ao aumento dos preços do petróleo.

Uma avaliação ainda mais polêmica veio à tona em janeiro de 2006, quando Linda Bilmes, pesquisadora de finanças públicas da Universidade Harvard, e Joseph Stiglitz, economista ganhador do Prêmio Nobel e ex-assessor do governo Clinton, calcularam que o custo total da guerra seria superior a US$ 2 trilhões.

A projeção dos dois incluiu todos os custos orçamentários diretos, bem como os prejuízos associados ao impacto econômico causado pelas perdas de vidas norte-americanas, os empregos interrompidos e o aumento dos preços do petróleo. Eles também incluíram alguns custos indiretos, como o impacto econômico do gasto de dinheiro no Iraque, em vez de nos Estados Unidos.

Bilmes afirmou que a maior parte dos economistas não foi capaz de avaliar corretamente os custos da guerra por duas razões. Primeiro, a maioria dos que faziam tais projeções eram funcionários da Casa Branca.

“A história demonstra que, de maneira geral, as pessoas mais otimistas com relação à guerra acreditam que as melhores projeções são aquelas que prevêem uma curta duração e um custo reduzido”, diz ela.

“O segundo motivo foi a falta de transparência da forma como o governo mantém os seus registros, especialmente no que diz respeito à defesa”, afirma Bilmes. “Por exemplo, os cálculos do governo relativos à Guerra do Golfo de 1991 não levam em conta o custo contínuo dos tratamentos médicos extensos e das indenizações por invalidez pagas aos soldados feridos. Atualmente esses custos são de cerca de US$ 4 bilhões anuais”.

“Se estivéssemos utilizando contabilidade de exercício, saberíamos mais a respeito dos verdadeiros custos da Guerra do Golfo, e teríamos sido mais realistas em relação aos custos de uma guerra no Iraque”, garante a pesquisadora.

Mas os defensores da guerra alegam que os gastos precisam ser vistos sob determinada perspectiva: a produção econômica anual dos Estados Unidos é superior a US$ 13 trilhões. Assim, segundo eles, mesmo se a guerra custar US$ 1 trilhão em dez anos, isso significa menos de 1% da produção econômica anual dos Estados Unidos - uma proporção bem inferior ao que se gastou em grandes conflitos como a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Civil ou mesmo a Guerra do Vietnã.

E, de acordo com Gary Becker, economista da Universidade de Chicago e pesquisador da conservadora Hoover Institution, os contribuintes precisam também levar em consideração o que o país teria gasto caso não tivesse feito a guerra. Por exemplo, a manutenção de tropas na região do Golfo Pérsico para conter o Iraque poderia representar um gasto de centenas de bilhões de dólares durante anos.

Becker concorda que a guerra provavelmente custará pelo menos US$ 1 trilhão. “Obviamente, isto é bastante dinheiro, mas o que estava em jogo também era algo de grande dimensão”, argumenta ele. “É necessário considerar o que teria acontecidos caso Saddam Hussein tivesse permanecido no poder e um dia adquirisse armas de destruição em massa”.

*O economistas William Nordhaus diz que a sua estimativa se baseia em uma “guerra prolongada, travada em condições desfavoráveis”. Nordhaus afirmou que uma “guerra prolongada” seria um conflito que durasse mais de oito meses. E quando mencionou “condições desfavoráveis”, ele se referia a uma resistência militar e política persistente à ocupação norte-americana, aos graves danos à infra-estrutura petrolífera do Iraque e aos elevados custos da construção de um novo país, entre outros fatores.

PREVISÃO DE 2002: A GUERRA DO IRAQUE PODERÁ CUSTAR QUASE US$ 1,6 TRILHÃO*
Gastos militares diretos: US$ 140 bilhões
Custos extras com ocupação e manutenção da paz: US$ 500 bilhões
Impacto sobre os mercados de petróleo: US$ 500 bilhões
Impacto macroeconômico: US$ 345 bilhões
Reconstrução de infra-estrutura e construção de um novo país: US$ 100 bilhões
Assistência humanitária: US$ 10 bilhões
Total: US$ 1,595 trilhão

Tradução: UOL

Cox Newspapers

Comentários