Arquivo de 13 de Outubro de 2007

Sete países fundam o Banco do Sul

Venezuela concretiza seu plano de criar uma entidade sul-americana de crédito ao desenvolvimento

Fernando Gualdoni
Em Madri

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, conseguiu no Brasil uma vitória na batalha para ganhar influência na América do Sul contra seu arquirrival, os EUA, e inclusive contra um aliado regional como o Brasil. No próximo dia 3 de novembro nascerá o Banco do Sul, o primeiro projeto chavista de envergadura regional que vem à luz. Será um banco de desenvolvimento e começará com um capital de US$ 7 bilhões.

O governo da Venezuela esboçou seu plano de integração nos últimos dois anos até identificar os caminhos chaves: o financeiro e o energético. O Banco do Sul é a ponta de lança da primeira via, enquanto o Gasoduto do Sul, muito mais verde e difícil de concretizar, é a segunda.

Há mais de um ano Chávez iniciou o projeto do Banco do Sul, e os primeiros a aderir foram o presidente argentino, Néstor Kirchner, e o boliviano, Evo Morales. Por essa razão a entidade terá sua sede principal em Caracas e contará com duas subsedes, uma em Buenos Aires e outra em La Paz. Além desses três países, Brasil, Equador, Paraguai e Uruguai desembolsarão o dinheiro inicial para levantar o banco. O Chile participa como observador nas reuniões, mas por enquanto não está prevista sua entrada no capital da entidade.

“O Banco do Sul nos dará uma alternativa ao financiamento dos organismos multilaterais de crédito tradicionais. Para nossas economias regionais, isso é muito importante”, explica Pamela Falces, funcionária do Ministério da Fazenda boliviano e parte da representação do país andino em várias das oito reuniões entre os técnicos que elaboraram a ata de fundação do banco, assinada na tarde de segunda-feira no Rio de Janeiro.

O banco sul-americano nasce como alternativa ao Banco Mundial e ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), duas instituições com sede em Washington identificadas pela esquerda radical latino-americana como simples apêndices da Casa Branca. O novo banco sul-americano também competirá com outros organismos regionais, como a Corporação Andina de Fomento (CAF) e o Fonplata (Fundo para a Bacia do Prata). Além disso, no caso do Brasil, o gigante sul-americano tem seu próprio banco de fomento, o BNDES, que é um dos maiores do mundo.

A existência do BNDES foi o que primeiro deixou Brasília para trás na hora de participar do Banco do Sul. Para que Brasília daria dinheiro a uma nova instituição, em vez de reforçar o capital da própria? “Só para não ficarmos fora”, explica uma fonte do Ministério das Relações Exteriores brasileiro. “Se o Brasil quiser manter sua influência regional, não pode se dar ao luxo de não participar de uma entidade em que há seis outros países… Simplesmente agora teremos dois bancos de desenvolvimento, o BNDES e o Banco do Sul”, acrescenta.

Para Brasília era muito importante que a nova entidade fosse definida como de desenvolvimento, sem faculdades como as do Fundo Monetário Internacional (FMI), que quando concede um crédito substancial também se transforma em vigilante da ortodoxia financeira do devedor. Além disso, o governo brasileiro discutiu até o último momento a divisão de poderes no conselho do banco.

O Brasil sempre defendeu que os votos de cada país fossem proporcionais ao capital aportado, enquanto a Venezuela queria que cada país tivesse um voto, independentemente de sua contribuição. Embora não esteja totalmente fechada, a tese venezuelana é a que se impôs na ata de fundação: um país, um voto.

O ministro das Finanças da Venezuela, Rodrigo Cabezas, disse à agência de notícias Efe que se espera que cada país faça uma contribuição de acordo com sua capacidade financeira e seu desenvolvimento relativo. No que qualificou de exercício democrático inédito, Cabezas explicou que o que diferencia o banco de outros organismos desse tipo é que todos os sócios terão poder de voto e de veto equivalente. O ministro venezuelano defendeu o caráter político do consenso. “Não faz mal que seja um banco que nasce de uma decisão e vontade política no âmbito de um esforço que vivemos pela união latino-americana”, disse.

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode ter cedido na distribuição de poder, mas em troca conseguiu uma condição que lhe interessava muito: que os créditos e títulos do Banco do Sul só podem ser concedidos a países sul-americanos. Ao que parece, a diplomacia brasileira queria evitar que prosperasse a idéia de Chávez de que o banco também servisse para ajudar outros aliados fora da região, como Cuba e Nicarágua, em programas assistencialistas de fundo ideológico e político, que poderiam ter distorcido o papel da futura instituição.

“O banco vai reforçar a redução de nossa vulnerabilidade, ajudará a fortalecer os países sul-americanos, nos dará maior autonomia financeira e nos colocará em condições de enfrentar melhor as crises internacionais”, afirmou à agência Reuters o ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega, depois da assinatura do acordo de fundação. “Estamos apoiando um projeto que vai beneficiar nossos parceiros comerciais e políticos e empresas brasileiras que atuam nesses países”, disse Mantega, salientando que a posição do Brasil é criar uma instituição séria, eficiente, com classificação financeira e rentabilidade.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

El País
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Melhores do Congresso

Vote nos parlamentares do PSOL

O sítio de notícias “Congresso em Foco” iniciou na última terça-feira (18/9) a votação que definirá os melhores congressistas do país deste ano. Até 18 de novembro o internauta poderá votar. Na primeira etapa votaram 188 jornalistas que cobrem o Congresso Nacional, que selecionaram 25 deputados e 16 senadores. Todos os parlamentares do PSOL – Ivan Valente, Chico Alencar, Luciana Genro e o senador José Nery - ficaram entre os 15 primeiros.

Meus votos são:

Ivan Valente (Deputado Federal Psol SP)
José Nery (Senador Psol PA)

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Mais de 50 mil vidas atrás de alambrados

Birmaneses que fugiram da guerra vivem amontoados em acampamentos de refugiados na Tailândia

Álvaro de Cózar
Enviado especial a Mae Sot, Tailândia

Todos os preceitos budistas escorregam na lama que cobre os caminhos do acampamento de refugiados de Mae La, lugar próximo à fronteira entre a Tailândia e a vizinha Mianmar (antiga Birmânia). Não desejar, não ter objetivos imediatos e considerar que a felicidade só se encontra em uma vida disciplinada são princípios instáveis quando a chuva transforma tudo em um lamaçal cercado de alambrados, inclusive para as mais de 50 mil pessoas que vivem há 20 anos neste acampamento, longe do regime militar que tenta exterminá-los em seu país.

São os karen, uma das etnias de Mianmar mais castigadas pela ditadura militar do general Than Shwe, que esmagou com mão dura os recentes protestos pró-democracia encabeçados pelos estudantes e os monges budistas na principal cidade do país, Yangun (antiga Rangum).

Os karen já sabem como são os militares, porque há 15 anos sofrem o genocídio. A guerra civil que continua no leste de seu país os obrigou a se refugiar na Tailândia. Agora são mais de 130 mil pessoas distribuídas por sete acampamentos em todo o país asiático.

No de Mae La, as casas de bambu resistem ao temporal. Em cada uma delas há um cartaz pendurado em um poste, com as fotos e os detalhes sobre todos os moradores. Na de Mahn Stila, 66 anos, o letreiro diz que são sete. “Estamos assim desde que esses chupadores de sangue decidiram não abandonar o poder. São loucos”, lamenta o idoso enquanto abre um pacote de biscoitos que distribui para um grupo de crianças do povoado.

Mahn Stila não trabalha. Quase nenhum de seus parentes o faz, e isso, comparado com outros casos, pode ser um privilégio. As autoridades tailandesas abusam de sua condição de anfitriãs e usam os karen como mão-de-obra barata em algumas fábricas de Mae Sot, a última cidade tailandesa antes de chegar a Mianmar -onde algumas ONGs que preferem não dar seu nome afirmam que vivem em condições sub-humanas. “Se denunciarmos publicamente, poderíamos perder os trabalhos que a Tailândia nos deixa fazer aqui, que servem para salvar vidas. Todo mundo sabe. Vivem nos barracos próximos às fábricas e trabalham durante longas horas, às vezes sem ver a luz do dia”, afirma um membro de uma ONG que trabalha com os karen nos acampamentos.

Mas não ter de trabalhar só transforma Mahn Stila em uma exceção. Ele é um idoso respeitado, um dos mais respeitados do acampamento, cuja experiência e sabedoria são veneradas por sua gente. Atrás dos alambrados o dia passa com normalidade, só alterada pelas objetivas das câmeras e as perguntas dos jornalistas, que entraram no povoado iludindo os controles tailandeses graças à ajuda dos karen.

Só alguns falam inglês. O guia percorre os becos íngremes, indica umas mangueiras cobertas de lama e explica que eles só têm água corrente durante seis horas por dia. “Não temos luz, água só temos das 6 às 9 da manhã e das 3 às 6 da tarde. Só comemos o que as ONGs nos dão. Na teoria não podemos sair nem trabalhar em outro lugar que a Tailândia não autorize, mas a gente se arranja com pequenos negócios no acampamento”, comenta.

Fora esses problemas não há muito mais. Os karen não os causam. Em um pequeno mosteiro de madeira, junto ao pagode do povoado, um grupo de meninos vestidos com os tradicionais hábitos vermelhos e açafrão aprendem os ensinamentos do budismo. Outro grupo de rapazes, um pouco maiores, se veste como se tivesse saído de um bando tribal de um bairro de Nova York; mostram tatuagens, fumam cigarros, usam bonés de lado e se untam de tanaka, um creme natural usado pelos birmaneses para se proteger do sol e embelezar o rosto. Esse grupo de rapazes e algum jovem tocando rock com uma guitarra de quatro cordas são a única coisa que destoa no acampamento. O resto é silêncio, bocejos e olhares perdidos.

Segundo o Comitê de Refugiados da Etnia Karen, o número de pessoas que chegam todos os dias não pára de aumentar. Apesar de esmagada, a última revolta popular em Yangun levou os militares a reforçar os controles da guerrilha Exército de Libertação Nacional Karen, os últimos homens que lutam no leste do país tentando escapar das minas antipessoais que o exército birmanês colocou estrategicamente em seu território. Muitos deles são apenas crianças armadas com velhos fuzis M16.

O temor dos karen é de ser institucionalizados, isto é, que o mundo os considere parte da paisagem na qual se encontram, mais um problema sem solução. Com sorte, alguns deles poderão receber autorização para ir a Mae Sot em busca de seu destino. A cidade tailandesa a 4 km da fronteira da Birmânia é aparentemente tranqüila, mas lá atuam as máfias que colocam os karen nas fábricas para trabalhar em condições de semi-escravidão.

O conceito de “dukka” (satisfação impossível) dos budistas é muito mais compreensível no meio do campo de refugiados. Suas vidas são exatamente isso, uma satisfação que jamais terão. A maioria deles é budista e a lista de seus sofrimentos é muito grande. Muitos querem derrubar esse limite. “O budismo não diz que não podemos lutar e pedir uma vida digna. Temos de lutar como fizeram os estudantes e os monges em Yangun”, explica o velho Stila.

A luta destes dias acabou, pelo menos por enquanto. O jornal “Sunday Times” afirmou no domingo, citando depoimentos de moradores de Yangun, que o exército birmanês está incinerando os cadáveres das pessoas que morreram durante os protestos. As estradas que levam ao crematório municipal estão bloqueadas e os depoimentos dizem que não parou de sair fumaça pelas chaminés dos altos fornos. Certamente o número real de mortos nunca será conhecido e os problemas dos karen, das demais etnias birmanesas e dos cidadãos que lutaram pela democracia correrão o perigo de ser enterrados pelo silêncio.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves.

El País
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O gasoduto da petrolífera Chevron mantém o regime da Birmânia

Amy Goodman

A imagem era surpreendente: dezenas de milhares de monges budistas vestidos com mantos cor-de-açafrão a marchar pelas ruas de Rangun (também conhecida por Yangon), protestando contra a ditadura militar da Birmânia. Os monges passavam em frente à casa da Prémio Nobel Aung San Suu Kyi, que se mostrava chorando e rezando em silêncio, enquanto eles desfilavam. Não era vista há anos. Líder birmanesa democraticamente eleita, Suu Kyi está em prisão domiciliária desde 2003. Há quem a considere a Nelson Mandela da Birmânia, a nação do sudeste asiático rebaptizada de Myanmar pelo regime militar.

Após quase duas semanas de protestos, os monges desapareceram. Os mosteiros ficaram vazios. Um relatório garante que milhares de monges foram encarcerados no norte do país.

Ninguém acredita que isto seja o fim das mobilizações, a que se deu o nome de “Revolução Cor-de-Açafrão”. Nem a contagem oficial de 10 mortos merece crédito. Os vídeos, fotografias e relatos orais de violências que conseguiram passar através de telemóveis e da internet foram amplamente silenciados pela censura imposta pelo governo. Apesar disso, conseguiram chegar à opinião pública mundial imagens horríveis de monges e outros activistas assassinados e relatos de execuções. No momento em que escrevo, vários relatos, não confirmados, de prisioneiros a serem queimados vivos, foram publicados em vários sítios da web de solidariedade com a Birmânia.

O governo de Bush está a aparecer em grandes títulos com duras mensagens dirigidas ao regime birmanês. O presidente Bush declarou, no discurso perante a Assembleia-geral da ONU, que as sanções vão aumentar. A Primeira-dama, Laura Bush, foi quem fez as declarações possivelmente mais fortes. Ao contar que tem um primo que é activista na Birmânia, Laura Bush afirmou: ” Os actos deploráveis de violência levados a cabo contra monges e manifestantes birmaneses pacíficos desonram o regime militar”.

A Secretária de Estado, Condoleeza Rice, afirmou na reunião da Associação das Nações do Sudeste Asiático: ” Os Estados Unidos estão decididos a chamar a atenção internacional para a farsa que está a acontecer”.

Chamar a atenção internacional é essencial, mas tal não deveria distrair a nossa atenção de um dos mais poderosos partidários da junta militar, um partidário que se encontra muito mais perto da sua casa. Rice conhece-o bem: CHEVRON.

As reservas de gás natural da Birmânia, controladas pelo regime em parceria, com a multinacional norte-americana do petróleo CHEVRON, com a companhia francesa TOTAL e com uma empresa de petróleo tailandesa, são quem mantém viva a junta militar. As plataformas de gás natural em alto mar enviam o gás extraído para a Tailândia, através do gasoduto birmanês de Yadana. O gasoduto foi construído com mão-de-obra escrava, sujeita à servidão pelo regime militar birmanês.

O sócio original do oleoduto, UNOCAL, foi acusado pela Earthrights International de usar mão-de-obra escrava. Mas a queixa foi solucionada extrajudicialmente, a CHEVRON comprou a UNOCAL.

O papel da CHEVRON no apoio ao brutal regime da Birmânia é evidente. De acordo com Marco Simons, director da Earthrights International: ” As sanções não funcionaram porque o gás é que mantém vivo o regime. Antes de o gasoduto Yadana ter começado a funcionar, o regime birmanês deparava-se com sérias limitações monetárias. Foi a Yadana e os projectos do gás que mantiveram o regime militar, lhe permitiram comprar armas, munições e pagar aos soldados”.

O governo dos EUA aplica sanções contra a Birmânia desde 1997. Contudo existe um buraco na lei, visto que há empresas que puderam esquivar-se às sanções. A isenção de sanções que pesam sobre a Birmânia, de que beneficiava a UNOCAL , foi herdada pela CHEVRON, o novo dono.

Rice integrou a direcção da CHEVRON durante uma década. Inclusivamente um petroleiro da CHEVRON foi baptizado com o nome dela, em sua honra.

Quando Condoleeza Rice integrava o directório, a CHEVRON foi acusada de estar implicada no assassinato de manifestantes não violentos na região do Delta do Níger, na Nigéria. Tal como os birmaneses, os nigerianos sofreram repressão política e contaminação, nos sítios onde se extrai o petróleo e o gás, e igualmente vivem na extrema pobreza. Os protestos na Birmânia foram desencadeados, no entanto, por um aumento do preço do combustível imposto pelo governo.

Depois das manifestações de 6 de Outubro, organizadas pela internet um pouco por todo o mundo, e para dar força aos valentes activistas e cidadãos-jornalistas que enviam fotografias e notícias da Birmânia, continua na ordem do dia o apelo para que as empresas deixem de fazer negócios com o brutal regime militar birmanês.

Amy Goodman, 2/10/2007

Apresentadora de Democracy Now! (http://www.democracynow.org), noticiário internacional diário emitido por mais de 500 estações de rádio e televisão dos EUA e do mundo

Tradução de Jaime Pinho.

Esquerda.Net

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A direita chilena em choque

NEWTON CARLOS
ESPECIAL PARA A FOLHA

Um dos trágicos destaques da era Pinochet, no Chile, o ex-general Raúl Iturriaga escondeu-se depois de condenado em julho a cinco anos de prisão.
O governo, o Judiciário e as próprias Forças Armadas condenaram o gesto de Iturriaga, mas outros oficiais reformados prometeram fazer o mesmo caso sejam punidos com sentenças condenatórias por prática de tortura e assassinatos.
O comportamento de resistência não imobilizou ou sequer constrangeu os juízes chilenos com processos em andamento.
Em agosto, a Corte Suprema atuou com dureza no julgamento de ex-oficiais que participaram da Operação Albânia. Puniu pela primeira vez com prisão perpétua em casos de violação dos direitos humanos.
Foi réu o general Hugo Salas Wenzel, um dos que chefiaram a Central Nacional de Inteligência, a polícia política da ditadura de Pinochet. Ele foi acusado de ter sido um dos responsáveis pelas mortes, em junho de 1987, de 12 jovens militantes da Frente Patriótica Manuel Rodríguez, a FPMR, grupo de guerrilha urbana.

Suicídios
Já são três os suicídios de envolvidos em processos contra crimes do pinochetismo. A fuga do ex-general Iturriaga é o episódio que melhor ilustra a sensação de abandono dos que se julgavam sob um manto de impunidade.
A direita chilena, ou parte considerável dela, ficou chocada quando foi descoberto que Pinochet e sua família tinham contas secretas em bancos americanos. Um de seus argumentos considerados mais sólidos, em defesa do regime militar, era o de um poder que havia entronizado a probidade em palácio, algo raríssimo num continente com história de déspotas bilionários. Violações dos direitos humanos talvez, corrupção nunca. Com o véu em queda, ela se retraiu, continuou sendo direita, mas sem muito pinochetismo.

Partido militar
Com a sensação de desamparo político, oficiais reformados que serviram nos anos de chumbo decidiram criar seu próprio partido, o Militar Metropolitano ou PMM. Foi lançado num clube militar de Santiago por um ex-oficial do Exército, Gabriel Fuentes Campuzano.
Desde a morte do ex-ditador, em dezembro de 2006, cerca de 190 oficiais acusados de abusos foram colocados em bancos dos réus.
O manifesto do Partido Militar Metropolitano promete defender a obra de Pinochet. O “La Nación”, de Santiago, disse há algum tempo que ele estaria a ponto de conseguir o mínimo de 13.885 assinaturas exigido para registro.

O jornalista NEWTON CARLOS é analista de questões internacionais.

Jornal Folha de S. Paulo
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A ovelha desgarrada

A condenação de um padre por crimes durante a ditadura argentina reabre o debate sobre o papel da Igreja

Jorge Marirrodriga
Em Buenos Aires

Ele citou Jesus Cristo e os apóstolos, João Paulo 2º e o cardeal argentino Jorge Bergoglio. Falou de perdão, paz e reconciliação, mas durante sua alegação final, na segunda-feira à noite, momentos antes que um juiz de La Plata o condenasse à prisão perpétua por genocídio, o padre Christian Von Wernich em nenhum momento pronunciou duas palavras: “Sou inocente”.

A condenação do ex-capelão da temida polícia de Buenos Aires por envolvimento em crimes cometidos durante a ditadura militar (1976-1983) reabriu na Argentina o debate sobre o papel da Igreja em uma época cujas feridas continuam abertas, entre uma cascata de processos judiciais movidos graças à anulação em junho de 2005 das leis de Obediência Devida e Ponto Final. O processo de Von Wernich é o terceiro relevante desde então -os anteriores foram contra Jorge Tigre Acosta e Miguel Etchecolatz- e os três julgamentos tiveram o mesmo resultado: prisão perpétua.

Mas tem duas particularidades importantes. A primeira é que o acusado, considerado culpado de sete assassinatos, tortura a 34 pessoas e seqüestro ilegal em 42 casos, também foi declarado culpado de genocídio. Quer dizer, a sentença reconhece a existência de um plano estabelecido e sistemático para a eliminação de pessoas durante a ditadura. “Houve uma condenação exemplar para Von Wernich, que fez parte da máquina infernal da ditadura”, salientou ontem o presidente argentino, Néstor Kirchner, acrescentando que a condenação do sacerdote “é um bom exemplo para o mundo”.

A segunda particularidade é que envolve completamente um membro da hierarquia católica. Segundo relataram as testemunhas citadas durante os três meses do processo, Von Wernich explorou sua condição de padre católico para conseguir uma aproximação enganosa das vítimas, se permitiu brincar com o sofrimento das pessoas que acabavam de ser torturadas e inclusive em uma ocasião sua batina foi salpicada com o sangue da vítima de uma execução.

O presidente da Conferência Episcopal argentina, cardeal Jorge Bergoglio, emitiu um comunicado em que salientou que a Igreja expressa sua comoção pelos “delitos gravíssimos” de que participou Von Wernich, ao mesmo tempo destacando que se “algum membro da Igreja tivesse aprovado com sua recomendação ou cumplicidade alguns desses fatos de repressão teria atuado sob sua responsabilidade pessoal”.

Não é essa a opinião compartilhada inclusive por outros membros do clero argentino, como o padre Rubén Capitano, que durante o depoimento prestado no julgamento destacou que “a Igreja não matou, mas não salvou” e acrescentou a modo de mea culpa: “Devemos ficar do lado dos crucificados, e não tão perto dos crucificadores”. Ontem se lembrou em Buenos Aires o caso do capelão militar nos anos do golpe, Victorio Bonamin, que justificou a ditadura afirmando que era “a vontade de Cristo”.

Mas a repressão também alcançou a Igreja e algumas vezes até o alto clero, como o bispo de La Rioja, Enrique Angelelli, que foi assassinado por militares em 4 de agosto de 1976 sem que o arcebispado argentino emitisse sequer uma nota de protesto. Outros casos relevantes foram o assassinato de cinco religiosos -um deles acabara de denunciar em uma homilia o leilão de bens de desaparecidos- e o seqüestro, tortura e assassinato de duas freiras francesas na Escola de Mecânica da Armada (Esma). Desta operação participou o “Anjo da Morte”, Alfredo Astiz.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves.

El País
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18% dos doutorados têm excelência internacional, diz Capes

Mais de 60% dos programas de mestrado e doutorado foram considerados bons ou excelentes na avaliação

SÃO PAULO -
A proporção de cursos de doutorado considerados de excelência chega a 18% do total dos oferecidos no País, e a 10% de todos os programas de pós-graduação, segundo avaliação divulgada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) do Ministério da Educação nesta quarta-feira, 10. Dos progarmas avaliados, 91, ou 4%, correm o risco de descredenciamento.

Desses, dez deixarão de existir por terem sido desmembrados ou se fundido a outros. Os demais 81 não atingiram os padrões mínimos de qualidade, mas ainda podem recorrer.

Os cursos foram distribuídos em sete categorias, com notas de 1 (abaixo do mínimo exigido) a 7 (doutorado com nível de excelência, desempenho equivalente ao dos mais importantes centros internacionais). Dez por cento do total de programas avaliados encontra-se nos níveis 6 e 7 da avaliação. Um programa pode ser composto por mestrado, doutorado ou ambos. Levando-se em conta apenas os doutorados, a proporção é de 18%.

Para os programas que só oferecem mestrado, a nota máxima possível era 5. Vinte e um por cento deles enquadraram-se nesta categoria. Ao todo, 65% dos programas oferecidos tiveram nota 4 (bom desempenho) ou maior.

Na última avaliação, de 2004, o total de progrmas com conceito 6 e 7 era de 207. Neste ano, são 219, um avanço da ordem de 6%.

O ministro da Educação, Fernando Haddad, comemorou os números. “Não há sombra de dúvida sobre a excelência da pós-graduação brasileira. Neste sentido, não há paralelo para o Brasil na América Latina”, disse. O Brasil é o 15º colocado entre os países de maior produção científica no mundo.

“Nosso desafio é fazer com que a qualidade da pós-graduação brasileira chegue às salas de aula da educação básica, dos cursos de graduação e ao setor produtivo”, reconhece o ministro.

A avaliação trienal 2007 analisou o desempenho de qualidade relativo ao período 2004-2006. Foram avaliados 2.266 programas de pós-graduação, envolvendo 2.070 cursos de mestrado acadêmico, 1.182 de doutorado e 157 de mestrado profissional.

Esta é a 15ª avaliação realizada depois da implantação do Sistema de Avaliação da Pós-Graduação Nacional, em 1976. São avaliados pontos como a produção científica dos cursos, a formação de mestres e doutores e o impacto social dos programas oferecidos pelas instituições.

Os cursos com notas 1 e 2 são descredenciados pela Capes.

A partir desta quarta-feira, os cursos têm prazo de 30 dias para a apresentação de pedidos de reconsideração dos resultados. O julgamento dos recursos deve ocorrer até o fim do ano.

Jornal O Estado de São Paulo
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Ontologia e política

Vladimir Safatle

Alain Badiou é um nome que, aos poucos, firmou-se como referência importante nos debates sobre a renovação do pensamento de esquerda. Juntamente com Jacques Rancière e Etienne Balibar, Badiou representa atualmente o desdobramento intelectual mais visível das experiências de maio de 1968. Mas, no seu caso, tal desdobramento não levou à constituição das políticas multiculturais da diferença ou da crítica pós-moderna dos universais. Marcado profundamente por uma certa articulação entre psicanálise e marxismo, ou seja, por um certo althussero-lacanismo conjugado a partir de longa militância maoísta, Badiou foi capaz de conservar temáticas clássicas do pensamento de esquerda em um tempo que parecia negar-lhes o direito de cidadania. Afinal, quem hoje estaria disposto a insistir no papel dos universais, na relação intrincada e necessária entre violência e política, na crítica à democracia parlamentar, no formalismo da concepção liberal de liberdade, na política como campo de realização da verdade de uma situação, na função central da igualdade como ordenador das lutas políticas e na armadilha que consiste em suspender a política através da ética?

De fato, Badiou não teme em defender tais posições através de produção extensa que ultrapassa o quadro do que entendemos por filosofia política, já que se trata, no fundo, de reflexão sobre os impactos, no interior do campo do político, de uma ontologia renovada.

Desde o inicio dos anos 1970, Badiou tenta articular dois projetos. Por um lado, trata-se de recuperar a ontologia e, com isso, desenvolver uma teoria complexa capaz de dar atualidade a conceitos como acontecimento, ser, sujeito e verdade. Por outro, trata-se de impedir que a ação política perca seu solo de orientação e o fundamento de uma crítica radical da contemporaneidade. Livros como O ser e o evento (Jorge Zahar/UFRJ, 1996), Ética; um ensaio sobre a consciência do mal (Relume Dumará, 1995), Compêndio de metapolítica (Instituto Piaget, 1998), O século (Idéias e Letras, 2007) e os não traduzidos Saint Paul: la fondation de l’universalisme (PUF) e Logique des mondes (Seuil: 2006) devem ser lidos como momentos convergentes desse duplo projeto.

ONTOLOGIA E POLÍTICA
Grosso modo, podemos dizer que Badiou compreende muito bem que a política não pode ser guiada por exigência de realização de ideais normativos de justiça e consenso que já estariam presentes em alguma dimensão da vida social. Pois isso nos impede de desenvolver uma crítica mais profunda que nos permita questionar a gênese de nossos próprios ideais de justiça e consenso. Ou seja, a crítica não pode ser apenas a comparação entre situações concretas determinadas e normas socialmente partilhadas. Essa é, no fundo, uma crítica de juizado de pequenas causas que se contenta em comparar normas e caso. Antes, a verdade crítica tem a força de se voltar contra nossos próprios critérios de justiça e consenso democrático, já que ela se pergunta se nossa forma de vida não é mutilada a ponto de se orientar por valores resultantes de distorções patológicas.

Daí porque Badiou não teme sequer fazer a crítica da democracia parlamentar como forma mutilada de vida social que tenta esvaziar a possibilidade de todo acontecimento radical, assim como não teme fazer a crítica da colonização da política pela ética. Pois se trata de mostrar como a experiência contemporânea da ética é assombrada pela temática da finitude do indivíduo, desse indivíduo exposto ao sofrimento, à morte, às catástrofes históricas das múltiplas formas de campos de concentração. Em suma, indivíduo que deve ser primeiramente reconhecido na sua condição de vítima em potencial. Como se a “humanidade” do homem só aparecesse quando o interrogamos na sua condição de vítima.

Mas essa redução do sujeito à condição privilegiada de vítima é uma maneira astuta de reduzir o campo do político, pois se trata de levá-lo a transformar suas demandas políticas em exigências de reparação subjetiva, transformar expectativas de reconfiguração do campo social em demanda de cuidado e reconhecimento. Assim, Badiou pode lembrar que algo une refugiados vítimas do “mal radical”, pacientes com depressão, vítimas de seus próprios corpos, neuróticos vítimas de constelações familiares, trabalhadores vítimas do desmantelamento do estado de proteção social (e que não procuram superá-lo de maneira revolucionária, mas simplesmente continuar protegidos). A lista é heteróclita e extensa. No entanto, ela demonstra como uma lógica convergente atua em campos autônomos da vida social. Trata-se de uma lógica que, ao mesmo tempo em que reconhece a correção das demandas sociais, desloca-as para um campo fora do político com sua dinâmica de modificações estruturais, ou seja, para um campo de demandas de reparação direcionadas a um poder que deve ser reconhecido como tal para poder satisfazer tais demandas.

Essa maneira de criticar a política é uma temática presente no pensamento francês dos últimos 30 anos vista, muitas vezes, como fruto de uma certa crítica totalizante que, ao se voltar contra a extensão dos nossos valores, acaba por perder o solo que poderia fundamentá-la. Pois em nome de qual valor criticamos os valores socialmente partilhados? Em nome do que estaríamos dispostos a colocar em risco nossas estruturas jurídico-institucionais? Por outro lado, essa crítica, ao se transformar em crítica da ética, parece ser animada por um certo anti-humanismo militante. E em nome de que podemos dizer que nossa “humanidade” é uma construção que visa a nos rebaixar à condição política de vítimas?

É nesse ponto que Badiou propõe uma operação filosófica de grande envergadura que consiste em fundamentar a crítica social em uma ontologia capaz de refletir sobre os modos de manifestação do ser e de constituição de sujeitos. Mas, com isso, parece que encontramos mais problemas que soluções. Pois uma forma de vida fundamentada em uma ontologia do ser não seria uma verdadeira porta aberta para um certo totalitarismo que procura medir nossas potencialidades a partir de um discurso que visa a falar em nome do próprio ser? E por que afinal a esquerda precisaria dessa “tentação ontológica” para fundamentar sua crítica social? Não bastaria simplesmente apelar à existência do sofrimento social resultante da opressão de classe, da pauperização persistente e das práticas disciplinares presente em múltiplas instituições sociais?

Não para Badiou. Pois como a crítica quer ser totalizante, como ela quer invalidar valores e não apenas casos, o sofrimento social não pode ser compreendido como advindo da impossibilidade de realizar expectativas de justiça devido à realidade da opressão e da miséria, expectativas de realização de si devido à realidade das práticas disciplinares. Esse sofrimento social deve ter uma raiz ontológica, pois está vinculado à impossibilidade de manifestação de algo de fundamental para a determinação dos sujeitos. Pois sujeitos não são apenas individualidades resultantes de processos de socialização e de formação do Eu que se desenrolam na família, nas instituições, nas comunidades, no Estado. Sujeitos são operações que colocam indivíduos para além do que família, instituições, comunidades, Estado podem produzir e legitimar. Sujeitos são operações que resultam em algum tipo de ancoragem em um ser que se manifesta como ruptura. O que o permite afirmar: “Como ele o é de uma verdade, um sujeito se substrai a toda comunidade e destrói toda individuação.”

Podemos compreender o caráter radical dessa ontologia através de uma querela que procurou arrastar Badiou para a arena do anti-semitismo (ver artigo publicado na Folha de S. Paulo de 01/07/2007). Há alguns anos, o autor tem publicado pequenos livros de intervenção intitulados Circunstâncias. Guerra do Iraque, revolta nas periferias francesas, o problema da imigração: esses são alguns temas de tais intervenções. O último desses livros tem como título “Alcances da palavra ‘judeu’”. Nele, Badiou coloca em circulação uma idéia fundamental para a esquerda: não é aceitável estabelecer relações entre nação, Estado e povo. Nem a nação enquanto construção do imaginário, nem o Estado enquanto aparato jurídico-institucional podem estar relacionados ao povo como identidade. Pois isso significa colonizar a política com uma lógica que bloqueia o que há de determinação universal em todo e qualquer sujeito. Nação e Estado devem ser assim absolutamente indiferentes às diferenças, isso no sentido de aceitá-las todas e esvaziar a afirmação da diferença de qualquer conteúdo político. Pois o espaço do político não deve ser marcado pela afirmação da diferença, mas pela indiferença absoluta em relação a qualquer exigência identitária. No limite, isso nos leva a criticar a existência de uma nação e um Estado judeu, da mesma forma que devemos criticar a existência de uma nação e um Estado francês (com seu Ministério da imigração e da Identidade nacional), de uma nação e de um Estado brasileiro etc. Badiou aproveitava tal raciocínio para insistir na necessidade da criação de um Estado binacional entre Israel e Palestina (como já fizeram Edward Saïd e vários outros).

Essa sempre foi uma perspectiva defendida por uma esquerda marcada pelo internacionalismo e pelo universalismo. Que hoje em dia, tal perspectiva seja vista como crime (já que acusar alguém de antisemitismo é vê-lo como um criminoso racista da pior espécie), isso só demonstra como se tenta restringir a todo custo o espectro do debate político através da criminalização da esquerda. Mas há uma linha reta que vai da criminalização da esquerda ao mais desenfreado totalitarismo.

PAIXÃO PELO REAL
Se voltarmos à articulação entre ontologia e política em Badiou, devemos admitir que essa “tentação ontológica” corre o risco de ser uma mera construção peculiar de engenharia intelectual francesa se não fizer prova de alto potencial explicativo. É nesse ponto que vale a pena voltarmos os olhos para um pequeno livro no qual Badiou articula ontologia e uma versão muito própria de filosofia da história. Recém lançado no Brasil, O século se apresenta como uma reflexão filosófica sobre os sentidos das experiências históricas do século 20. Podemos dizer, seguindo Badiou, que o sentido do curto século 20 com suas rupturas, catástrofes e inventividade foi a realização de uma “paixão pelo real” e da procura pelo “homem novo”.

O termo “paixão pelo real” é uma construção que visa a dar uma resposta determinada a questões como: qual é a origem do sofrimento social que sustentou, no século 20, a crítica às nossas formas de vida naquilo que elas têm de mais fundamentais? A resposta de Badiou é: nosso sofrimento vem de uma paixão, um afeto produzido pelas exigências de manifestação de um real “horrível e entusiasmante, mortífero e criador” que deve, no limite, livrar-nos de uma subjetividade esgotada a fim de instaurar um homem novo. Afeto que fornece a inteligibilidade do movimento do século em sua dinâmica fundamental.

Esse real do qual fala Badiou vem de Jacques Lacan. O psicanalista francês havia desenvolvido a teoria de que o comportamento humano era orientado a partir de três instâncias distintas: o Imaginário (dimensão de imagens ideais que guiam a conduta), o Simbólico (dimensão das estruturas sociais) e o Real. Aqui, o Real não deve ser entendido como um horizonte de experiências concretas acessíveis à consciência imediata. O Real não está ligado a um problema de descrição objetiva de estados de coisas. Ele diz respeito a um campo de experiências subjetivas que não podem ser adequadamente simbolizadas ou colonizadas por imagens. Isso nos explica porque o Real é sempre descrito de maneira negativa, como se fosse questão de mostrar que há experiências que só se oferecem ao sujeito sob a forma de processos disruptivos.

Nesse sentido, Lacan insiste que a lógica do comportamento humano não pode ser totalmente explicada a partir do cálculo utilitarista de maximização do prazer e de afastamento do desprazer. Há atos cuja inteligibilidade exige a introdução de um outro campo conceitual com sua lógica própria, um campo que desarticula distinções estritas entre prazer e desprazer por colocar o Eu sempre diante de uma certa dissolução de si que produz, ao mesmo tempo, satisfação pulsional e terror. Indistinção entre satisfação e terror que Lacan chama de “gozo”.

A sagacidade de Badiou consistiu em mostrar como essa experiência disruptiva inscrita na essência da conduta do sujeito foi o motor da nossa história recente. História revolucionária na qual se imbricam violência, criação, destruição e procura. Recalcar essa história, como se fosse questão de uma sucessão de catástrofes (o comunismo, o nazismo, o horror, as ilusões do modernismo etc.), como se o tempo devesse ser avaliado a partir da contagem de mortos ou, para falar com Habermas, como se esse impulso não passasse de uma estetização da violência e do excesso com conseqüências políticas é, no fundo, uma maneira de pregar o evangelho de uma vida mutilada, que prefere se atrelar à finitude, à colonização pulsional, a assumir uma temporalidade que se manifesta como ruptura e negação. Ou seja, a filosofia da história que Badiou propõe não é cumulativa ou teleológica, mas ela visa a fornecer as condições nas quais uma verdade aparece como “interrupção”, como “exceção radical”. Ela visa a fornecer condições para pensar uma história, atrelada á exigências de reconhecimento do que se manifesta na estrutura pulsional dos sujeitos, na qual acontecimentos sejam possíveis.

É claro que há várias questões no interior da experiência intelectual de Alain Badiou que são passíveis de problematização. De qualquer forma, a importância de uma experiência intelectual nunca foi mensurada pelas respostas que ela é capaz de dar, mas pelos problemas que ela é capaz de produzir, condição para a impulsão do pensamento. E, nessa perspectiva, o pensamento de Badiou é de grande importância para a contemporaneidade.

Sobre algumas problematizações possíveis, fiquemos ao menos com uma. Badiou partilha com várias outras correntes de esquerda, a defesa de que “a decisão política não é constrangida pela economia”. Maneira de defender o espaço do político contra a lógica administrativa que visa a impor modos de gestão da vida. Isso o leva a retomar esta frase famosa de Robespierre pronunciada por à ocasião da condenação de Lavoisier: “A república não necessita de cientistas.” Badiou chega a afirmar que ela apresenta a essência do político na medida em que: “A república não tem necessidades”, ou seja, “A política, quando existe, funda seu próprio princípio quanto ao real e não tem necessidade de nada a não ser dela própria.”

No entanto, podemos dizer que afirmações dessa natureza só são possíveis porque a política é compreendida a partir de uma teoria do poder que visa a definir em que condições a política aparece como campo investido de um poder instaurador e instituinte. No entanto, ela deve ser também compreendida a partir de uma teoria do governo que visa a definir os modos de governar e de administrar o que foi instituído enquanto campo. Ter uma teoria do poder não nos fornece uma teoria do governo. Talvez um dos maiores problemas da esquerda esteja em não ter uma teoria das técnicas de governo. Pensar uma teoria do governo implica, por exemplo, em ter de submeter a decisão política a certos constrangimentos vindos da economia (o que implica resgatar a economia política) e das necessidades. Até porque, por mais crasso que isso possa parecer, o homem é este que, ao mesmo tempo, é sujeito de uma paixão pelo real e precisa de geladeiras. Anular as geladeiras, ou seja, instaurar a política no solo de uma cruzada contra o “serviço dos bens”, dizer que a república não tem necessidades, só vai nos fazer perder as condições de realizar nossa paixão pelo real. Talvez esse seja o verdadeiro sentido de uma afirmação capital de Lênin: “Comunismo é o poder soviético mais a eletrificação de todo o país.” Realizar as duas coisas ao mesmo tempo é o maior desafio. Um desafio que a experiência intelectual de Alain Badiou certamente nos ajuda a transpor.

Revista Cult
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O que provoca a obesidade

A capacidade do corpo humano de armazenar energia na forma de gordura parece deslocada num mundo cheio de alimentos. Entender como os sistemas regulatórios podem levar à obesidade revela novas maneiras de combater o excesso de peso.

Jeffrey S. Flier e Eleftheria Maratos-Flier

No alvorecer da humanidade, e durante muito tempo da nossa história, as refeições foram literalmente um vale-tudo. Pelo fato de os seres humanos terem evoluído num mundo onde a disponibilidade de alimentos era apenas intermitente, a sobrevivência exigiu que tivéssemos a capacidade de armazenar energia para épocas de escasssez. O tecido adiposo, familiarmente conhecido como gordura, é o órgão especializado para essa tarefa.

Nossa capacidade de armazenar gordura continua essencial à vida e pode permitir que uma pessoa sobreviva à fome por meses. Na história humana recente, contudo, a quantidade de energia acumulada como gordura está aumentando em muitas populações. Obesidade é o nome que damos quando o armazenamento de gordura se aproxima de um nível que compromete a saúde de uma pessoa.

Em parte essa tendência é resultado do progresso tecnológico da humanidade – diante de alimento abundante e de menor necessidade de atividade física, é muito fácil ingerir mais energia que o necessário. Contudo, algumas pessoas parecem mais suscetíveis que outras a se tornar obesas quando expostas a esse ambiente de fartura, o que sugere que variações na fisiologia individual também podem estar influenciando o quanto de energia uma pessoa consome, gasta e armazena na forma de gordura.

Muitas variáveis críticas do corpo, como pressão arterial, temperatura corporal, açúcar sangüíneo e balanço hídrico, são bem controladas por mecanismos automáticos, mas se o peso corporal também é regulado continua motivo de discussões acaloradas há muito tempo. Apenas recentemente os cientistas obtiveram avanços significativos na identificação das vias celulares de sinalização e atividade que poderiam participar do sistema regulador da gordura.

Essas novas concepções de como o corpo percebe e reage às necessidades e aos estoques de energia estão ajudando a entender como as variações genéticas herdadas podem afetar sutil ou poderosamente aqueles mecanismos e também como podem ser alteradas por influências ambientais, além da própria gordura excedente. Com novas descobertas os cientistas obtêm um quadro mais claro dos sistemas fisiológicos envolvidos no controle da acumulação gordurosa e dos novos alvos para intervenções que poderiam ajudar as pessoas a alcançar um controle maior das suas próprias batalhas contra o peso.

Existe um Gordurastato?

Qualquer sistema de regulação fisiológica exige um modo de o corpo detectar a quantidade de uma substância específica presente e traduzir a informação em ações que mantenham essa variável numa faixa desejada. As necessidades energéticas das células humanas são satisfeitas pela glicose, derivada do alimento, que circula no sangue. Normalmente o corpo mantém os níveis de glicose dentro de limites bem rígidos. Quando a glicose sangüínea aumenta, células especializadas do pâncreas detectam a mudança e secretam insulina extra, o que desencadeia respostas no músculo e nas células adiposas que levam esses tecidos a assimilar e utilizar mais glicose, enquanto o fígado reage reduzindo a produção desta substância.

As células adiposas convertem a energia excedente que captaram em triglicéride, um ácido graxo. Quando não há alimento disponível e os níveis de insulina caem, as células adiposas liberam triglicérides de volta à corrente sangüínea, de onde são transportados ao fígado e decompostos em cetonas, que podem servir de combustível para o músculo e o cérebro.

Estudos em animais e seres humanos há muito sugerem que o corpo mamífero possui mecanismos para monitorar a quantidade de energia armazenada como gordura e para regular que esse recurso permaneça próximo a um dado nível. Se um animal estiver com peso estável, por exemplo, uma alteração significativa na ingestão de energia produzirá mudanças físicas e comportamentais que parecem estar dirigidas para a restauração do peso ao nível anterior. Um animal cujo alimento é repentinamente restringido tende a reduzir seus gastos energéticos, ficando menos ativo e reduzindo o uso de energia nas células, limitando dessa forma a perda de peso. Ele também sente mais fome para que, assim que terminar a restrição, coma mais que a sua norma anterior até que seja atingido o peso anterior. Da mesma forma, depois de uma superalimentação intencional, um animal começará a gastar mais energia e a exibir apetite reduzido, com ambos os estados persistindo até que o peso caia ao nível anterior.

As conseqüências da inexistência de um sistema regulatório para o controle do peso corporal seriam cruciais. Um excedente de apenas 1% no consumo de energia em relação ao gasto, por exemplo, poderia fazer com que um homem de tamanho médio ganhasse 27,2 kg em 30 anos. Mas os seres humanos têm um sistema ativo capaz de manter o balanço da energia armazenada análogo aos mecanismos que controlam os níveis circulantes de glicose? A resposta é sim. E, embora imperfeito, esse sistema realmente existe, e os cientistas, incluindo nossos grupos de pesquisa, estão obtendo um progresso animador na identificação de seus componentes.

À medida que as peças desse quebra-cabeça se juntam, pode-se fazer uma observação geral talvez decepcionante, mas que provavelmente não surpreenderá ninguém que tenha lutado para perder peso: os mecanismos de regulação do corpo humano parecem ligeiramente enviesados em favor da preservação de gordura. À luz do valor da gordura para a sobrevivência essa tendência faz sentido em termos evolutivos. Com o correr do tempo, a evolução poderia ter até favorecido ligeiras variações em genes relevantes que produziram o gerenciamento “mais parcimonioso” dos preciosos depósitos de energia.

Diferenças na suscetibilidade à obesidade entre subgrupos também podem estar ligadas a versões discordantes de determinados genes. Há bem pouco tempo, varreduras de todo o genoma realizadas em quase 40 mil pessoas em todo o mundo identificaram um gene chamado FTO, cuja variação foi vinculada à obesidade. Em todos os países estudados os portadores de uma das versões desse gene eram, em média, 3 kg mais pesados que os demais e tinham quase o dobro do risco de se tornar obesos. A esta altura, a função do gene FTO e como ele poderia promover a obesidade são desconhecidos, mas sua associação com maior peso corporal sugere que poderia ter um papel na regulação do peso.

Mas os genes não funcionam num vácuo, e os genes da população humana em geral não se alteraram nas últimas décadas. A explicação da epidemia de obesidade exigirá, portanto, um conhecimento maior de como os genes variantes interagem com o ambiente de uma pessoa para influenciar também o peso corporal. Alguns fatores ambientais importantes são óbvios, como a menor necessidade de esforço físico para sobreviver e a maior quantidade e qualidade de alimento disponível. Muitas das outras variáveis ambientais são menos evidentes e ainda pouco com-preendidas, como o efeito da nutrição sobre o peso corporal durante o desenvolvimento fetal. Stress, privação de sono e até infecções virais, além da composição de comunidades microbianas benignas no organismo são fatores adicionais que podem afetar a regulação de gordura de um indivíduo.

A identificação de genes que estão normalmente envolvidos no gerenciamento de gordura do corpo está, ainda assim, permitindo que os pesquisadores elucidem alguns dos mecanismos fundamentais em operação. Não admira que seguir a trilha de sinais protéicos codificados por aqueles genes freqüentemente leve ao centro de comando-mestre de muitos processos fisiológicos, o cérebro.

Integração das Informações:

Pouca coisa ocorre no organismo sem que o cérebro tenha participação, monitorando a situação e exercendo sua influência. Pode-se esperar, portanto, que o cérebro tenha um papel crucial na regulagem do peso através de sua instrução de apetite, motivação e atividade física, além do gerenciamento de como a energia é alocada no corpo.

De fato, sabe-se há anos que uma pequena região na base do cérebro chamada hipotálamo é central para essas atividades de regulação da energia. Nos estudos com animais, provocar lesões minúsculas nessa área pode causar obesidade ou magreza, dependendo da localização. Essas observações levaram à rotulação de certas partes do hipotálamo como centros de “saciedade” ou “alimentação”.

Pela estimulação do apetite ou pela sensação de saciedade o cérebro pode gerenciar o balanço energético do corpo a cada dia. Em períodos mais longos a sinalização do cérebro também pode suprimir sistemas não-essenciais, como crescimento e reprodução, quando os depósitos de energias estão baixos demais e é necessário economizar energia para a sobrevivência. Mas, para comandar qualquer um desses mecanismos em resposta às necessidades do corpo, o cérebro deve receber informações atualizadas sobre a quantidade disponível de energia armazenada.

Qual seria esse sinal e como ele funcionaria? Foi demonstrado que muitas moléculas diferentes influenciam o apetite à medida que aumentam e diminuem seus níveis no sangue, inclusive vários produtos de degradação de alimento, como glicose e hormônios derivados do intestino, como a insulina e a colecistocinina (CCK). Mas um regulador da quantidade de energia em estoque se revelou evasivo até que Jeffrey Friedman, da Rockefeller University, e seus colegas descobriram a leptina em 1994.

Antes disso uma síndrome de obesidade grave havia se manifestado com aumento de apetite e redução de gasto de energia em camundongos criados no Laboratório Jackson, no Maine, EUA. Como era necessário que um camundongo herdasse o traço de ambos os pais, a síndrome em si foi denominada ob/ob. Apesar de centenas de estudos tentando entender a obesidade nesses camundongos, o grupo de Friedman foi o primeiro a identificar a mutação gênica hereditária responsável. Os pesquisadores também determinaram que o gene recém-identificado era predominantemente ativo nos adipócitos e dava origem a uma proteína que não era transformada na forma funcional nos camundongos que tinham a mutação ob. Aparentemente, a síndrome da obesidade era causada pela ausência dessa substância.

Os pesquisadores deram à proteína o nome de leptina, do radical grego leptos, “magro”, e rapidamente demonstraram que a reposição da leptina ausente com injeções diárias diminuía o peso dos camundongos afetados por meio da redução do apetite e do aumento do gasto energético. Em pouco tempo outros apliaram esta notável descoberta com a constatação de uma mutação similar de perda de função no gene da leptina humana entre as pessoas com casos extremamente raros de obesidade grave de início precoce. A administração de leptina nessas pessoas ajudou-as a perder peso exatamente como havia ocorrido com os camundongos.

Esses experimentos demonstraram pela primeira vez um sistema fisiológico pelo qual as células adiposas produzem um sinal hormonal que reflete o estado de armazenamento de energia – quanto mais triglicérides um adipócito tiver, mais leptina irá gerar – a que o cérebro responde com a alteração do apetite e do gasto energético. Quando o sinal da situação energética está ausente, seja porque a mutação genética impede a fabricação de proteínas de leptina funcional, ou porque o corpo realmente dispõe de estoques baixos de gordura, o cérebro acredita que o corpo está com fome e se comporta como tal, promovendo a fome e a economia de energia.

A descoberta da leptina abriu a porta para a exploração de toda uma nova via biológica de sinalização e respostas celulares. O cérebro era um alvo importante da leptina secretada pelas células adiposas na corrente sangüínea, e pesquisadores, inclusive nós, começaram a conhecer muitos dos detalhados circuitos neurais e tipos celulares através dos quais a leptina age. Como seria de esperar, muitos deles situam-se no hipotálamo.

Numa estrutura chamada núcleo arqueado do hipotálamo, na área anteriormente identificada como centro da saciedade, a leptina afeta simultanea-mente duas populações vizinhas de neurônios que controlam o apetite de maneiras opostas. Um conjunto de células neurais produz um peptídio cha-mado alfa-MSH, que reduz o apetite e, conseqüen-temente, o peso corporal. O outro conjunto de neurônios produz dois neuropeptídios, o NPY e o AgRP, e ambos estimulam a alimentação e promovem a obesidade. As interações da leptina com esses dois grupos celulares são bem elegantes. Os neurônios que produzem MSH conectam-se aos neurônios de outros lugares do hipotálamo que têm uma proteína de superfície conhecida como receptor da melanocortina 4 (MC4R), cuja ativação reduz o apetite e leva à perda de peso. AgRP, o peptídio que promove a alimentação, é um antagonista desse receptor, impedindo a ativação do receptor. Portanto, a leptina age para ativar os receptores MC4, estimulando-os diretamente via neurônios produtores de MSH e inibindo seu antagonista.

Ao mesmo tempo a leptina também afeta a área do cérebro antes considerada o centro da alimentação, o hipotálamo lateral. Um grupo de células daquela região produz uma pequena proteína chamada hormônio concentrador de melanina (MCH). Em 1996 nosso grupo de pesquisa descobriu que níveis deste peptídio estão elevados no tipo de camundongo ob/ob, sugerindo que a leptina normalmente inibe a produção do peptídio. Estabelecemos também que MCH elevado promove ingestão de alimento e obesidade e constatamos que mesmo os camundongos ob/ob, se não tiverem a habilidade de produzir MCH, são menos obesos. Tínhamos encontrado, portanto, outro exemplo do sistema fisiológico por meio do qual a leptina age como sinal regulador dos neuropeptídios hipotalâmicos que exercem controle sobre o apetite e o balanço energético.

Além do mais, as mesmas células e circuitos afetados pela leptina também agiam por meio de vários outros fatores circulantes. O hipotálamo e as áreas cerebrais relacionadas integram todas essas informações provenientes de diversas fontes para produzir um quadro em tempo real da situação energética do corpo e orquestrar respostas para gerir os recursos energéticos. Para entender melhor quais são as instruções que esses sinais, inclusive a leptina, dão ao cérebro, os pesquisadores também estão estudando como e de onde eles se originam.

Respostas Viscerais:

Barriga cheia é um sinal simples, mas seguro, de que o corpo assimilou energia como alimento, e há muito se sabe que a distensão estomacal reduz o apetite. Uma das maneiras de esse estado físico ser comunicado ao cérebro é através das fibras nervosas sensíveis à distensão, que transportam sinais vindos do estômago e intestino que chegam até os centros de controle do apetite. Os sinais neurais do estado de processamento energético do fígado também podem ser transmitidos ao cérebro via nervo vago.

Acredita-se que a insulina também atue diretamente sobre os neurônios do hipotálamo para suprimir o apetite, e sabe-se que vários outros hormônios produzidos no intestino e liberados no sangue depois das refeições se deslocam até o cérebro e produzem o mesmo efeito. Entre estes, a colecistocinina é um fator importante para comunicar a saciedade de curto prazo, mas suas ações se limitam a sinalizar o término das refeições individuais. Outro peptídio chamado PYY, liberado do intestino delgado, faz o mesmo. Até agora foi identificado apenas um peptídio gerado pelo intestino cuja ação é estimular o apetite: a grelina, que é produzida e liberada no estômago antes da alimentação e pode sinalizar a previsão de uma refeição.

Nas pessoas obesas é possível que a geração disfuncional de sinais de curto prazo que indicam se houve consumo recente de alimento, ou se está prestes a acontecer, poderia distorcer os mecanismos cerebrais de regulação de energia. Uma perda de apenas 4,5 kg, por exemplo, pode causar um aumento da produção de grelina, provocando aumento da fome.

A longo prazo os sinais que emanam da gordura corporal poderiam também contribuir para a gestão anormal de energia. Por muitos anos a gordura foi considerada principal ou exclusivamente um local passivo de armazenamento e liberação de energia na forma de ácidos graxos, mas, com a descoberta da leptina, o tecido adiposo foi reconhecido como uma glândula endócrina com efeitos generalizados sobre a saúde.

A leptina ainda é o único hormônio derivado de gordura cuja participação direta na regulação dos estoques de gordura foi demonstrada de maneira conclusiva. Mas um grupo de outros hormônios, coletivamente conhecidos como adipocinas, também se encontra em investigação. A adiponectina, por exemplo, é uma molécula produzida e secretada apenas por células adiposas que normalmente circulam na corrente sangüínea em altas concentrações. Os níveis de adiponectina nas pessoas obesas são menores que a média por motivos desconhecidos. Camundongos de laboratório sem adiponectina são muito pesados, embora também seja misterioso o mecanismo por trás desse efeito. Uma pesquisa intrigante sugere que, em determinadas circunstâncias, a adiponectina poderia ter efeito direto de estimulação do apetite no cérebro. Embora preliminares, esses achados apontam para a possibilidade de que a adiponectina possa, também, servir como sinal direto das células adiposas para o cérebro, indicando uma necessidade de assimilar energia. Como tal, ela poderia contrabalançar o papel supressor de apetite da leptina na regulação da energia.

Origens da Obesidade:

Ainda há muito a descobrir sobre o circuito extremamente complexo que regula o uso e o armazenamento da energia do corpo, além de como e de que maneira perturbações internas poderiam perpetuar a obesidade ou predispor uma pessoa a se tornar obesa. A descoberta da leptina em camundongos levou à identificação de pessoas cuja obesidade grave poderia ser explicada por um único defeito genético. Essas obesidades “monogênicas” são bem raras, mas muito informativas. Por exemplo, foi identificado um grupo de pacientes com obesidade grave atribuível a mutações nos genes da leptina, receptor da leptina ou POMC, um precursor do peptídio hipotalâmico MSH depressor do apetite.

As mutações que provocam perda de receptores MC4 funcionais – os alvos do MSH – respondem por 3% a 5% dos pacientes com obesidade grave. Na maioria dessas pessoas, somente uma das duas cópias do gene está afetada, deixando-as com cerca de 50% da função do receptor MC4 normal.

A maioria absoluta das pessoas com obesidade, porém, não tem nenhuma mutação genética capaz de explicar a doença. Além disso, os níveis de leptina são, na verdade, maiores que aqueles das pessoas magras, o que soa contra-intuitivo se a leptina supostamente causa supressão de apetite. Realmente, essa descoberta levou à idéia de que a maioria dos pacientes obesos pode ter resistência à leptina – por algum motivo, o sinal da leptina de que os estoques de gordura são abundantes não está sendo detectado por alguma parte da via de regulação energética. Compatível com essa teoria é o fato de tentativas de administrar leptina terapeuticamente produzirem respostas baixas nos pacientes obesos típicos que não apresentam mutações gênicas específicas associadas à leptina.

A descoberta de uma base molecular para a resistência à leptina é, portanto, uma questão de interesse científico substancial. Duas proteínas estão fortemente implicadas como contribuintes à resistência à leptina, por sua ação no cérebro e talvez nos tecidos periféricos. Uma delas é a SOCS3, produzida pelos neurônios hipotalâmicos que normalmente respondem à leptina. SOCS3 pode bloquear a capacidade da leptina de enviar sinais às células. A outra proteína, a PTP1B, suprime a sinalização da leptina dentro das células. Em experimentos com camundongos, a redução dos níveis de SOCS3 ou PTP1B em todos os tecidos, ou mesmo apenas nos neurônios, torna os camundongos mais sensíveis à leptina e resistentes à obesidade. O papel exato dessas proteínas na resistência humana à leptina ainda é desconhecido, mas, com base nessas observações em animais, é tentador especular que essas moléculas produzidas pelos neurônios sensíveis à leptina servem ao propósito de modular a sinalização da leptina para que as células não sejam esmagadas por ela. Nas pessoas obesas, níveis cronicamente elevados de leptina poderiam, portanto, fazer com que essas proteínas começassem a supercompensar para proteger as células, iniciando um ciclo de resistência crescente à sinalização da leptina.

Esses mecanismos de feedback fisiológico poderiam ajudar a perpetuar e agravar a obesidade. Além disso, variações em genes envolvidos nas vias de regulação da gordura podem ter papel semelhante no desequilíbrio do sistema. De fato, acreditamos que variações em genes que influenciam o peso corporal por mecanismos ainda não descobertos sejam uma fonte provável de pelo menos parte da suscetibilidade à obesidade. Ainda não se sabe se existem muitos desses genes cuja variação afeta o peso ou poucos genes dominantes cuja variação afeta o peso na maioria das pessoas. Com a maior disponibilidade de técnicas poderosas de varredura de genes humanos em grandes populações, certamente haverá uma aceleração da descoberta de novas vias de regulação do peso e novas idéias sobre os mecanismos conhecidos. No presente, contudo, a prevalência da obesidade e suas complicações continuam a crescer, deixando evidente que ainda não existem terapias altamente eficientes.

Intervenção na Obesidade:

Recomendações simples como redução da ingestão alimentar, mudança na composição da dieta e aumento dos exercícios físicos são sempre adequadas para uma pessoa obesa. Por si sós essas mudanças de comportamento podem ajudar as pessoas a perder até 10% de peso, embora a manutenção dessa perda seja freqüentemente difícil.

A cirurgia bariátrica é atualmente realizada em centenas de milhares de pacientes todos os anos. Em geral, essas operações excluem parte do estômago com uma banda para limitar o tamanho ou realmente mudam a rota do intestino tanto para reduzir a bolsa estomacal quanto para se desviar de parte do intestino. Os dois procedimentos têm sucesso substancialmente maior que quaisquer outras farmacoterapias atuais na promoção e manutenção da perda de peso. Pesquisa recente também sugere que o desvio gástrico pode causar redução do apetite, em parte por alterar os níveis dos hormônios intestinais como a grelina e o PYY, o que indica que fármacos para atingir o mesmo fim poderão algum dia substituir essas operações em muitos pacientes.

Qualquer nova droga para tratar a obesidade estará sujeita a padrões bem elevados de eficácia, tolerabilidade e segurança. Já que as vias que regulam o armazenamento de energia são tão cruciais para outros processos do corpo e do cérebro, o desenvolvimento de intervenções medicamentosas que satisfaçam todos esses critérios é um grande desafio. Experiências infelizes no passado com candidatos a fármacos que foram eficazes, mas acabaram se mostrando viciantes ou inseguros, poderiam de fato pressionar as agências regulatórias a serem ainda mais exigentes que possa parecer razoável. Além de tratar a obesidade pela redução do conteúdo corporal de gordura, um medicamento terá de melhorar as complicações associadas à obesidade, como diabetes e hipertensão ou, no mínimo, não agravá-las. Qualquer terapia também terá de ser segura para uso prolongado porque é provável que a interrupção do tratamento permita que o peso retorne aos níveis anteriores. Também existe alto risco de medicamentos para obesidade serem incorretamente empregados por pessoas que buscam pesos corporais baixos demais por motivos não-médicos.

Bem recentemente, uma nova medicação que foi colocada à venda na Europa por algum tempo, o Rimonabant, não obteve aprovação dos consultores da Administração de Alimentos e Fármacos (FDA) dos Estados Unidos devido à preocupação com a maior incidência de depressão e ansiedade nas pessoas que o tomam. O fármaco atua bloqueando a ativação de um receptor de superfície celular no cérebro e tecidos periféricos conhecido como CB1. Este receptor medeia a “enorme vontade de comer” que, por exemplo, o fato de fumar maconha provoca, bem como as ações das moléculas lipídicas produzidas nos vários tecidos. A troca entre segurança e eficácia no uso dessa classe de compostos durante um período extenso ainda não estão muito claros.

Atualmente, somente dois medicamentos vendidos por prescrição encontram-se aprovados nos Estados Unidos, para uso de longo prazo no tratamento da obesidade. A Sibutramina, à venda desde 1997, age para prolongar a exposição dos neurônios do cérebro aos neurotransmissores noradrenalina e serotonina, resultando em apetite reduzido e modesta perda de peso. O uso deste fármaco é limitado porque a pressão arterial e o pulso tendem a aumentar durante a terapia. O Orlistat, disponível desde 1999 e agora oferecido na forma de medicamentos isentos de prescrição sob o nome comercial Alli, diminui a ingestão calórica total de uma pessoa através da ação no intestino para reduzir a absorção de gordura, com efeitos modestos sobre o peso e as complicações da obesidade.

Há muitas outras abordagens para o desenvolvimento de drogas para obesidade baseadas nas várias vias de regulação do apetite e do peso que foram descobertas nos últimos anos. As terapias potenciais incluem inibidores das moléculas estimuladoras do apetite MCH, NPY e grelina, supressores do apetite que mimetizam o PYY e ativadores da melacortina 4 e de subtipos do receptor da serotonina. Qualquer uma dessas opções teria como alvo a redução da ingestão de energia, como ocorre com os medicamentos existentes. Mas já que o corpo passa para o modo de economia de energia para tentar compensar a perda de gordura, também poderão ser necessários fármacos complementares que estimulem o ritmo em que a energia é gasta.

Vários grupos de pesquisa estão estudando modos de aumentar a velocidade com que as células adiposas liberam energia armazenada ou de impedir que ocorra seu armazenamento. Uma das abordagens tem como foco a estimulação de uma classe de receptores de superfície celular – conhecidos como receptores beta3-adrenérgicos e receptores nucleares PPAR – que desencadeiam a liberação tissular de uma substância chamada proteína 1 desacopladora. Esse sinal é um pedido de energia, que é ouvido por determinadas células adiposas e aumenta a velocidade com que elas enviam os triglicérides de volta à corrente sangüínea. Contudo, essa técnica pode funcionar apenas num tipo especial de tecido adiposo, conhecido como adiposo marrom, que é abundante em roedores e em recém-nascidos humanos, mas, na idade adulta, bem poucas células adiposas marrons permanecem na gordura humana.

Outra abordagem promissora envolve o bloqueio de atividades enzimáticas que promovem o armazenamento de gordura. Um dos exemplos, a enzima 11 beta HSD-1 (11bHSD1), provoca a conversão do esteróide cortisol de uma forma dormente para outra biologicamente ativa dentro das células adiposas e hepáticas. Este cortisol localmente ativo, por sua vez, incita aquelas células a fabricar mais triglicérides. Nosso grupo laboratorial mostrou que camundongos com superprodução de 11bHSD1 nas células adiposas também geraram excesso de corticosterona (a versão do cortisol nos camundongos) naquelas células e se tornaram significativamente obesos. O curioso é que os camundongos desenvolveram a obesidade abdominal em particular, bem como diabetes, pressão arterial elevada e níveis sangüíneos elevados de lipídios, um conjunto de sintomas que lembra o quadro clínico humano conhecido como síndrome metabólica.

Embora estudos de pessoas obesas ainda não tenham produzido uma associação tão nítida entre a atividade da 11bHSD1 e o armazenamento excessivo de gordura, já existem inibidores dessa enzima que se encontram em desenvolvimento para uso no tratamento da síndrome metabólica. Talvez eles também possam se revelar intervenções úteis para a obesidade.

Muitos especialistas acreditam que uma farmacoterapia bem-sucedida para a obesidade envolverá várias drogas atuando em vias independentes, em associações criadas sob medida para pacientes individuais, como é agora o caso para o tratamento de hipertensão e diabetes. Obviamente, assim como com outras doenças comuns, entre elas a hipertensão, seria preferível tratar as pessoas apenas com mudanças na dieta e no estilo de vida. Mas se essa abordagem fracassar e o resultado forem conseqüências mórbidas, farmacoterapias seguras não serão menos adequadas para a obesidade que para outras doenças.

CONCEITOS-CHAVE:

- A capacidade do nosso corpo de estocar energia para uso futuro foi crucial para a sobrevivência quando havia escassez de alimento. Agora, num mundo de abundância, a obesidade é o problema que ameaça a vida de um número crescente de pessoas.

- Os cientistas trabalham para entender os mecanismos que o corpo humano emprega para regular o estoque de energia na forma de gordura e como esses sistemas podem perder o equilíbrio e levar à obesidade.

- À medida que são identificados os componentes desse sistema regulatório, estes se transformam nos novos alvos potenciais para tratamentos medicamentosos que poderiam restaurar o balanço de energia e ajudar a reverter a obesidade.

[O CÉREBRO] CENTRO DE COMANDO:

O cérebro regula o peso integrando as informações sobre as necessidades energéticas do corpo e a situação de seus estoques e, em resposta, inicia as mudanças de comportamento e de processamento de energia. Áreas especializadas estimulam sensações de apetite ou saciedade para que mais energia, na forma de alimento, seja assimilada ou que uma refeição seja encerrada. Com o tempo, o cérebro também pode aumentar ou reduzir o uso global de energia pelo corpo e realocar a energia de sistemas, como o reprodutivo, que não são essenciais para sobrevivência a curto prazo.

INFORMAÇÕES:

ENERGIA ARMAZENADA
- A leptina circulante, um hormônio gerado pelas células adiposas, indica
o quanto de energia elas contêm

SITUAÇÃO METABÓLICA
- A glicose circulante representa a energia imediatamente disponível às células
- Vários indicadores de atividade hepática sinalizam que a energia ingerida está sendo processada

SITUAÇÃO ALIMENTAR
- Sinais neurais e químicos do intestino indicam se os órgãos digestivos estão cheios de comida

RESPOSTAS:

ALTERAR INGESTÃO DE ENERGIA
- Orientar o momento e o tamanho da refeição com sinais de apetite e saciedade

ALTERAR USO DE ENERGIA
- Reduzir ou aumentar a atividade física
- Reduzir ou aumentar a velocidade de uso de energia pela célula
- Suprimir ou restaurar o crescimento, a reprodução e a função imune

CONTROLE DO APETITE:

No núcleo arqueado (ARC) do hipotálamo, indicadores de energia e situação alimentar na forma de peptídios intestinais, como a grelina e o PYY, e de hormônios que incluem a leptina e a insulina agem sobre grupos de neurônios associados ao apetite ou saciedade. Cada substância estimula ou deprime as respostas dos neurônios. Quando estimuladas, as células ARC liberam peptídios como NPY, AgRP e alfa-MSH, que agem sobre um segundo conjunto de neurônios hipotalâmicos, que induzem o apetite ou a saciedade. A leptina e a insulina agem através dos dois tipos de células simultaneamente para promover a saciedade e, ao mesmo tempo, suprimir o apetite. Sinais nervosos e o peptídio intestinal colecistocinina (CCK) também comunicam a situação alimentar diretamente ao núcleo do trato solitário (NTS), um centro de saciedade do tronco cerebral.

[O INTESTINO] MENSAGENS CONFUSAS:

Sinais importantes que estimulam as respostas reguladoras de energia pelo cérebro e tecidos do corpo emanam dos órgãos digestivos e da própria gordura. São indicadores de curto prazo da situação alimentar do corpo – como os impulsos nervosos e os peptídios secretados e gerados logo antes e depois das refeições – e também informações de longo prazo sobre a situação da energia armazenada do corpo. Além da leptina, que informa ao cérebro sobre os níveis de gordura do corpo, as células adiposas secretam quase uma dúzia de outros hormônios – coletivamente conhecidos como adipocinas. Pelo menos duas delas alteram diretamente as respostas tissulares à insulina, que regula o quanto de glicose as células assimilam e usam como combustível.

ESTÔMAGO VAZIO:

- A grelina é produzida por glândulas do estômago 20 a 30 minutos antes da refeição. Não se conhece o gatilho para sua liberação, mas ela pode enviar para o cérebro um sinal de prontidão do estômago.

CHEIO DE COMIDA:

- A distensão estomacal e intestinal é transmitida
ao cérebro via nervos espinais e vago.

- Receptores de nutrientes no fígado também enviam sinais neurais que indicam que o alimento ingerido está sendo degradado.

- Níveis circulantes de insulina, secretada do pâncreas, e glicose, derivada do alimento ingerido, refletem a situação alimentar e a energia imediatamente disponível.

- Colecistocinina (CCK) e PYY são peptídios fabricados pelos intestinos e secretados na corrente sangüínea após a refeição.

ENERGIA ARMAZENADA
- A leptina é produzida pelo tecido adiposo em quantidades proporcionais à gordura nele contido.

- A proteína 4 transportadora de retinol (RBP4) também aumenta com os níveis de gordura e reduz a resposta de outros tecidos à insulina.

- A adiponectina acentua as respostas celulares à glicose e à insulina, mas os níveis de adipocina caem na obesidade.

AJUDANTES FAMINTOS:

O “ambiente” interno de uma pessoa pode influenciar quanto de uma refeição é transformado em gordura corporal. Trilhões de microorganismos benignos se alojam no intestino, ajudando a decompor o alimento, mas a mistura de espécies residentes pode variar. Pesquisadores da Washington University demonstraram que nas pessoas obesas predominam as bactérias conhecidas como firmicutes, enquanto os bacteriodetes são mais comuns nas pessoas magras. Além disso, o conjunto de microorganismos “gordos” tem a capacidade de extrair mais nutrientes, portanto mais calorias, do alimento que o conjunto dos magros. Ainda não se determinou se a diferença na microbiota seria um contribuinte à obesidade, uma conseqüência da obesidade ou as duas coisas.

CÉLULAS AUTO-REGULADORAS?

Na obesidade, células adiposas excretam mais leptina, sinal de estoques abundantes de energia, a que o cérebro responde com o corte do apetite. Mas as células adiposas também emitem pedidos de mais energia quando os estoques estão acabando? Uma pesquisa indica que outro hormônio gerado pelas células adiposas, a adiponectina, poderia fazer isso. Takashi Kadowaki e colegas da Universidade de Tóquio demonstraram que, em camundongos, o jejum eleva os níveis de adiponectina no fluido espinal, e a presença do hormônio no sistema nervoso central dispara a liberação cerebral do peptídio estimulador do apetite NPY. Se for confirmado que a adiponectina é um sinal de fome, ao qual o cérebro responde com aumento de ingestão alimentar, então ela representaria a segunda molécula gerada por gordura envolvida na regulação dos estoques de gordura.

Papel confuso da gordura na doença:

Foi estabelecida uma nítida associação entre obesidade e várias enfermidades sérias, entre elas diabetes, hipertensão, doença cardiovascular e até câncer, embora muitos aspectos dessa relação não tenham sido explicados. Ainda assim, a definição médica mais comum de obesidade se baseia em evidências de efeitos adversos sobre a saúde em pessoas acima do peso. O índice de massa corporal (IMC) é calculado como o peso em quilogramas de uma pessoa dividido pelo quadrado da altura em metros. Uma vez que uma maior mortalidade é encontrada em IMCs maiores que 30, esse número tornou-se o corte aceito para obesidade. Um IMC entre 25 e 30 é chamado sobrepeso, refletindo alguma conexão com efeitos adversos à saúde.

Essas relações epidemiológicas entre IMC e enfermidade, contudo, podem variar em diferentes subpopulações. E nenhum número preciso permite que os médicos determinem qual quantidade de gordura excedente causará doença. Algumas pessoas têm problemas de saúde com o IMC relativamente baixo de 25, enquanto outras permanecem sadias com IMCs maiores que 30.

Nem toda gordura parece ter efeitos iguais. O tecido adiposo se acumula sob a pele na maioria das áreas corporais, bem como dentro e ao redor dos órgãos internos, especialmente no abdômen. Muitos estudos sugerem que diabetes e doenças cardiovasculares em particular estão ligadas a essa gordura intra-abdominal, ou visceral. Em alguns casos, é relativamente improvável que mesmo um excesso significativo de gordura nos quadris e coxas – que produz a forma de “pêra” – cause essas doenças quando não estiver presente também a gordura abdominal em excesso. Esta gordura está associada a diabetes e outros desequilíbrios metabólicos, mesmo na ausência de gordura abundante na parte inferior do corpo, como no corpo em forma de “maçã”.

O fundamento para a influência da localização sobre os efeitos da gordura sobre a saúde não é inteiramente claro. Uma das teorias concentra-se no fato de que a gordura abdominal está bem posicionada para liberar ácidos graxos e outras substâncias e sinais para a veia portal que banha diretamente o fígado e, dessa forma, afetando o funcionamento desse órgão. Uma segunda teoria se baseia no fato de depósitos de gordura em diferentes partes do corpo gerarem diferentes quantidades de sinais químicos, e os volumes relativos maiores que emanam da gordura visceral poderiam explicar seus efeitos mais adversos.

Vários sinais específicos gerados pela gordura também estão implicados nos problemas de saúde relacionados à obesidade. O tecido adiposo produz gatilhos de inflamação, por exemplo, que poderiam contribuir para o risco de câncer, doença cardiovascular, diabetes e outros transtornos imunológicos. O hormônio adiponectina, em contraste, tem ações desejáveis em vários tecidos por melhorar o processamento celular de glicose e lipídeos. Contudo, já que os níveis circulantes de adiponectina caem na obesidade, a perda de seus efeitos benéficos está associada ao desenvolvimento de resistência à insulina, que contribui para o diabetes e a doença vascular. Um papel mais direto na resistência à insulina é atribuída à adipocina conhecida como proteína 4 transportadora de retinol (RBP4), que as células adiposas produzem em maiores quantidades na obesidade. Estudos em animais mostram que a RBP4 tornam as células hepáticas e outras células menos sensíveis à insulina. Um relato bem recente também confirmou que a gordura visceral gera maiores quantidades de RBP4 que o tecido adiposo subcutâneo de qualquer outro lugar do corpo.

Como ilustram esses poucos exemplos, muitas das mesmas moléculas e mecanismos em investigação por seu papel na regulação de energia do corpo também estão envolvidos em outros processos vitais para a saúde. Avanços no conhecimento da obesidade provavelmente levarão a novas idéias sobre as doenças relacionadas à obesidade e também a seu tratamento.

[ESTRATÉGIAS TERAPÊUTICAS] NEUTRALIZANDO A OBESIDADE:

À medida que os mecanismos que dão origem à obesidade se tornam mais claros também ficam mais evidentes os motivos pelos quais a perda da gordura corporal e a manutenção dessa perda somente por mudanças comportamentais podem ser difíceis para muitas pessoas. As terapias são apenas modestamente efetivas, e o desenvolvimento de novos medicamentos seguros para uso prolongado tem sido difícil porque os sistemas de regulação energética estão entrelaçados com outros processos vitais no corpo e no cérebro, criando risco de efeitos colaterais sérios. As abordagens terapêuticas atualmente em desenvolvimento tentam escolher como alvos mais precisos as moléculas e os mecanismos que controlam a quantidade de energia que o corpo assimila na forma de alimento ou a quantidade que ele armazena e queima.

TERAPIAS EXISTENTES
SIBUTRAMINA:
- Eleva a disponibilidade de serotonina e noradrenalina, substâncias cerebrais que afetam o apetite, bem como o humor e outras funções

RIMONABANT
- Suprime a atividade dos receptores CB1, que estimulam o apetite e estão envolvidos no processamento celular da gordura. (Não aprovado nos EUA)

CIRURGIA BARIÁTRICA:
- Reduz e/ou faz um desvio da bolsa gástrica e parte do intestino para reduzir a quantidade de alimento assimilado e digerido. Reduz o apetite por alterar as respostas hormonais do intestino ao alimento

ORLISTAT:
- Bloqueia a absorção de gordura no intestino e diminui a ingestão de calorias

NOVAS ABORDAGENS
APETITE
- Bloquear a atividade dos neuropeptídios estimuladores do apetite mch ou npy, ou da grelina.

- Estimular a atividade supressora do apetite dos receptores MC4 ou subtipos de receptor da serotonina.

- Inibir as proteínas neurais SOCS3 e PTP1B para neutralizar a resistência
à leptina.

ARMAZENAMENTO DE ENERGIA
- Reduzir a ingestão de energia por células adiposas e a fabricação de triglicérides pela inibição da enzima 11bHSD1.

USO DE ENERGIA ARMAZENADA
- Aumentar a velocidade de liberação de triglicérides no sangue como combustível , estimulando os receptores PPAR e beta3-adrenérgicos nos tecidos.

- Aumentar a proteína FGF21, que faz as células hepáticas queimarem gordura.

Jeffrey S. Flier e Eleftheria Maratos-Flier São casados e cada um chefia um laboratório da divisão de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo do Centro Médico Beth Israel Deaconess, de Boston. Ambos são professores de medicina da Escola de Medicina de Harvard.

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

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