Arquivo de 14 de Outubro de 2007

PT também faz milagre da multiplicação dos pães

Cristina Moreno de Castro, do Tamos com Raiva

Se a denúncia que o MP do Mato Grosso do Sul encaminhou à Justiça na última sexta-feira encontrar as devidas provas, o slogan acima da Agilitá Propaganda vai ter que ser mudado às pressas para se manter fiel à realidade.

É que, segundo o Ministério Público, essa empresa de publicidade participou de um esquema de caixa dois durante os oito anos de governo do José Orcírio Miranda dos Santos, o “Zeca do PT” (1999-2006). Em apenas três casos analisados, há indícios de desvio de mais de R$ 200 mil, mas o MPE calcula que, nos dois mandatos de Zeca do PT, mais de R$ 30 milhões tenham sido desviados. Para onde, não se sabe – e é o que cabe agora à Justiça descobrir.

Para quem vem acompanhando o caixa dois de Eduardo Azeredo há quase um mês, não há nenhuma novidade nisso. As relações entre os dois casos são várias: em ambos, os beneficiários diretos seriam dois ex-governadores – o tucano Eduardo Azeredo, em Minas, e o petista Zeca, no Mato Grosso do Sul. No esquema coordenado por Marcos Valério, as agências de publicidade DNA e SMP&B teriam desviado pelo menos R$ 28,5 milhões para reforçar a campanha de reeleição do tucano. O esquema do petista supostamente seguia a mesma lógica: o governo encomendava serviços de publicidade e impressão à agência Agilitá Propaganda e Marketing Ltda e à Sergraph - Gráfica e Editora Quatro Cores Ltda. Elas simulavam a realização dos serviços e emitiam notas fiscais falsas fornecidas por uma gráfica fantasma de Uberaba (MG), com o valor dos orçamentos. O governo repassava o dinheiro para as empresas que, após cobrarem uma “comissão”, devolviam o troco pro gabinete do governador. Como nada era contabilizado, pimba!, caixa dois. Moleza.

Parece que virou corriqueiro montar caixa dois com a ajuda de agências de publicidade. Talvez porque elas possam trabalhar com verbas polpudas de governos de vários estados sem levantar muitas suspeitas. A Agilitá Propaganda, por exemplo, trabalha em onze estados, além do Mato Grosso do Sul, onde está sediada: São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Rio de Janeiro e outros seis do Nordeste. Durante a gestão de Zeca do PT, ela fez anúncios relacionados com os 104 anos de Campo Grande, o programa estadual de alfabetização de adultos, a riqueza de águas do Estado, o programa de aumento da área de plantio, a importância do pré-natal e a importância de se doar sangue, entre outros. Foram anúncios em rádio, TV e outdoors que estão expostos no site da empresa.

Há, portanto, uma forte e duradoura parceria entre a agência de publicidade e o ex-governador petista, que sempre a preferiu para as campanhas bancadas pelos cofres públicos. Uma parceria tão interessante para as duas partes que a Agilitá doou R$ 50 mil (declarados) à campanha do governador que concorria à reeleição em 2002. Vale ressaltar: doação feita a ele pela agência, e a mais nenhum outro político. Se a denúncia do Ministério Público do Mato Grosso do Sul estiver correta, e se, portanto, o suposto caixa dois coordenado por Zeca do PT e pela Agilitá Propaganda tiver realmente desviado R$ 30 milhões dos cofres públicos, é fácil imaginar que essa doação de R$ 50 mil representou um investimento lucrativo para Ariosto Barbieri, dono da Agilitá.

Aproveitando a deixa, vale citar o nome dos outros envolvidos no esquema, denunciados pelo MP por crime de peculato (desvio de dinheiro público, que prevê pena de dois a doze anos de reclusão), falsificação de documentos, falsidade ideológica e uso de documento falso: além do ex-governador Zeca do PT e do empresário Ariosto Barbieri, temos o ex-secretário de governo Raufi Marques, o ex-subsecretário de Comunicação Oscar Ramos Gaspar, a funcionária da Gráfica Ruy Barbosa Ana Lúcia Tavares, o empresário José Roberto dos Santos, a ex-servidora pública Ivanete Martins e o dono da Sergraph Hugo Borges. Além de todos esses, os seguintes foram denunciados por improbidade administrativa (ação civil): a ex-ordenadora de despesa da secretaria de coordenação-geral de governo Salete de Luca e os empresários Odyllea Siqueira e Gislaine Brum.

O Ministério Público pediu a quebra do sigilo bancário de todos os denunciados, na tentativa de descobrir onde foi aplicado o dinheiro do caixa dois. Mas isso fica para os próximos capítulos. O Tamos com Raiva vai acompanhá-los, do mesmo modo que o fará com a novela do esquemão do tucano Azeredo.

NovaE

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Melhores do Congresso

Vote nos parlamentares do PSOL

O sítio de notícias “Congresso em Foco” iniciou na última terça-feira (18/9) a votação que definirá os melhores congressistas do país deste ano. Até 18 de novembro o internauta poderá votar. Na primeira etapa votaram 188 jornalistas que cobrem o Congresso Nacional, que selecionaram 25 deputados e 16 senadores. Todos os parlamentares do PSOL – Ivan Valente, Chico Alencar, Luciana Genro e o senador José Nery - ficaram entre os 15 primeiros.

Meus votos são:

Ivan Valente (Deputado Federal Psol SP)
José Nery (Senador Psol PA)

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Gana, retrato da África recolonizada

Primeiro país africano independente, Gana vive sem festas os cinqüenta anos da libertação. Adotadas a partir da década de 1980, políticas neoliberais devastaram a indústria nascente, arruinaram os camponeses e tornaram as cidades caóticas e violentas

Yao Graham

“Estar à altura da excelência africana”. Destinado a criar um consenso, o slogan foi escolhido para acompanhar as comemorações oficiais do 50º aniversário da independência de Gana, no dia 6 de março. Provocou uma controvérsia: quem e o que, na história do país, pode simbolizar a excelência africana? Desde então, um grande debate sacode a imprensa. Discussão fomentada desde a herança de Kwame Nkrumah, primeiro presidente desse pequeno Estado da África Ocidental e personagem do panafricanismo, até a política do atual presidente John Kufuor.

Cinqüenta anos após libertar-se da dominação colonial, o país continua diante dos mesmos problemas de 1957. Em suma, os de toda a África pós-colonial: como reestruturar uma economia subdesenvolvida, dependente de algumas matérias-primas (minerais e agrícolas) cujos preços são instáveis? Como transformar e aumentar os rendimentos de uma agricultura de produtividade baixa, baseada na pequena produção? Como industrializar um país com um mercado local atrofiado, no qual as relações com o mercado mundial foram estruturadas pelas economias ocidentais? Como gerar recursos para melhorar, de maneira duradoura, a situação das populações cujas esperanças cresceram no momento da independência? [1]
Do anti-imperialismo ao neo-liberalismo, em três mandatos

Na economia e na política, Gana viveu, desde a década de 1960, todas as experiências africanas. Sob a presidência de Kwame Nkrumah, a economia foi administrada com investimentos na infra-estrutura e no setor social. O governo conduziu uma política de industrialização destinada a reduzir as importações. Nkrumah tornou-se portador da mensagem antiimperialismo, o que incomodou os países ocidentais. Após sua derrubada, em 1966, por um golpe de Estado apoiado pela CIA, o país entrou em um período de instabilidade política, no qual permaneceu até 1982. Em seguida, viveu a imprevisibilidade dos preços das matérias-primas. Como o resto do continente, teve de enfrentar corrupção e má gestão. Sob a presidência de Jerry Rawlings, converteu-se à economia de mercado, com o apoio de instituições financeiras internacionais e dos países do Norte. Modelo de experiências pós-coloniais até os anos 1960, Gana tornou-se paradigma das políticas neoliberais.

Kufuor, sucessor de Rawlings, em 2000, completará seu próprio mandato em 2008. Dos oito presidentes ganenses, somente dois ficaram mais tempo que ele no poder: Rawlings (18 anos) e Nkrumah (nove anos). Nkrumah foi, segundo Amilcar Cabral [2], “um estrategista talentoso na luta contra o colonialismo clássico”. Rawlings é o arquiteto da Gana atual. Depois de tomar o poder por meio de um golpe de Estado em 1981, foi reeleito duas vezes chefe do Estado. Aparece como o Janus da vida política local, a ponte entre Nkrumah e Kufuor. Durante os primeiros anos de sua presidência, ressaltou a necessidade de reformas econômicas estruturais, de justiça social e, em matéria de política externa, do antiimperialismo. Atacou vigorosamente a corrupção e dirigiu o país de maneira autoritária.

Inicialmente, esse posicionamento geral incitou a desconfiança de Washington. Autocrata e demagogo, Rawlings soube canalizar as esperanças da população e obter sua confiança propondo o objetivo de promover socialmente de uma elite. Mas, embora lembrasse Nkrumah na aparência, quando deixou o poder, em 2000, havia transformado seu país em modelo do liberalismo econômico que conhecemos hoje. Sua política de abertura para os mercados externos era fundamentalmente baseada na busca de investimentos estrangeiros. Reativou o crescimento econômico e restabeleceu a estabilidade política. Porém, abandonou o objetivo de transformar as estruturas da economia de Gana (historicamente dependentes do exterior).
No fim do século, queda das matérias-primas desfaz as ilusões

As duas vitórias eleitorais de Rawlings, em 1992 e 1996 — na última, vencendo o futuro presidente Kufuor —, fizeram-no pensar que estava em harmonia com o país. Entretanto, setores do Congresso Democrático Nacional (NDC), o partido no poder, e uma parte significativa da população continuaram reticentes à economia de mercado. Além disso, importantes frações das elites de Gana recusaram-se a reconhecer o que deviam a Rawlings, principalmente reformas econômicas draconianas e a restauração da autoridade do Estado, condições necessárias à sua prosperidade.

Os que haviam financiado a restauração econômica adotaram uma atitude mais pragmática: o presidente norte-americano William Clinton e a rainha Elizabeth II foram a Acra exprimir sua gratidão a Rawlings por ter reconduzido Gana à órbita ocidental. O antiimperialismo herdado de Nkrumah havia dado lugar ao ambiente da Commonwealth. No entanto, as grandes potências continuavam a desconfiar de um homem de caráter imprevisível, cuja base social parecia frágil.

Produto de vários fatores, a vitória de John Kufuor, em 2000, resolveu essas contradições. Na época, o NDC estava atormentado por tensões internas suscitadas pela sucessão de Rawlings. Esse havia se fragilizado devido ao aumento da corrupção e aos reflexos autoritários que o distanciaram da população. Entretanto, foi a crise econômica de 1999, provocada pela queda dos preços das matérias-primas, que acabou com o governo. As cotações do ouro, do cacau e da madeira — principais recursos do país — caíram, entre 1998 e 2000 (a do cacau caiu 1/3). Na mesma época, o custo das importações de petróleo duplicou, em virtude da alta do barril nos mercados mundiais.

A crise, produzida após anos de frustrações sociais relacionadas ao crescimento das desigualdades, revelou as fragilidades estruturais da economia de Gana: dependência da ajuda externa e peso da dívida, que passou de um bilhão de dólares, em 1983, para seis bilhões, em 2000. Duas décadas de liberalismo econômico e de “livre” comércio fragilizaram a produção local (agricultura, manufatura) e agravaram a dependência externa do país, problema com o qual Gana continua se confrontando. O golpe de misericórdia no governo Rawlings foi dado quando um conflito com os doadores atrasou a chegada da ajuda, no final dos anos 1990. Alguns membros do NDC avaliam que as instituições internacionais procuraram favorecer a vitória de Kufuor, personagem muito mais controlável (Sob a tutela da Casa Branca).
Instabilidade social. Enfraquecimento da nação. Dependência

Em 2001, o novo presidente aceitou a iniciativa países pobres muito endividados (HIPC, na sigla inglesa). Essa decisão voltou a reconhecer que as reformas liberais, tão vangloriadas, haviam, na realidade, levado o país à falência e o tinham tornado mais vulnerável às condicionalidades das instituições doadoras. Ainda assim, Kufuor mostrou-se disposto a estender e aprofundar as políticas em questão. Em troca, as instituições financeiras aceitaram liberar o país de uma parte de sua dívida. A ajuda voltou e o governo pôde estimular a educação primária e a infra-estrutura. Entre 2001 e 2006, o crescimento passou de 3% para 6%. No entanto, o aumento das desigualdades e as fragilidades estruturais da economia constituem uma bomba de efeito retardado para um regime aparentemente estável.

Os 20% mais pobres recebem, hoje, 8,4% da renda nacional, enquanto os 20% mais ricos abocanham 41,7%. Em 2002, um estudo do Centro para o Desenvolvimento Democrático – um think tank ganense – revelou a dimensão do desemprego e do subemprego, além de denunciar o “abismo crescente entre os ricos e os pobres [3].” Dois terços das pessoas entrevistadas qualificam sua situação econômica como ruim. A maioria dos participantes aponta, entre as prioridades, a criação de empregos, a redução da pobreza e da exclusão.

Nos últimos anos, multiplicaram-se as greves relacionadas aos salários e às condições de vida. Mas elas terminaram sem que os trabalhadores tivessem êxito. As medidas pontuais adotadas para lutar contra o êxodo de intelectuais e pesquisadores (prêmios de repatriamento, campanhas de recrutamento dos residentes no exterior etc.), produziram incoerências e desigualdades extremas na grade dos salários do setor público.

Foi prometendo “a idade do ouro dos negócios” que o presidente Kufuor elegeu-se em 2000. Sete anos depois, os empresários locais, principalmente os da pequena manufatura, reclamam que o governo só pensa em satisfazer o capital estrangeiro. A prioridade dada ao “livre” comércio traria um prejuízo ao desenvolvimento da capacidade produtiva da antiga Costa do Ouro. Na capital, Acra, as fábricas abandonadas foram convertidas em entrepostos para as importações ou em igrejas para acolher o número crescente de fiéis dos movimentos evangélicos.
Êxodo rural e desemprego tornam cidades inchadas e violentas

Baseada no estímulo às exportações de cacau, gás, petróleo e, também, de minerais (ora prata, ora manganês), a economia não criou um número de empregos suficiente. Os poucos que há são mal-pagos. Isso provocou migrações internas e externas, das quais a mais conhecida é a de profissionais do setor de saúde [4]. O êxodo mais importante diz respeito a milhares de jovens, pouco formados mas instruídos, cujas rendas permitem – quando bem-sucedidos no exterior – que um grande número de famílias se mantenha acima do limiar de pobreza.

Entre os muitos funcionários demitidos na época das reformas liberais adotadas nos anos 1980-1990, poucos encontraram trabalho. As fileiras desses desempregados durante muito tempo foram ampliadas pelo êxodo rural provocado pela pauperização dos campos. Na verdade, a agricultura local, de produtos alimentícios principalmente, foi arruinada pela política de abertura aos mercados mundiais, pela falta de terras disponíveis e de perspectivas econômicas. Nesse mundo rural, onde vive a maioria dos ganenses, a insegurança econômica tem um aspecto particular, o dos sem-terra. A maioria das pessoas não é proprietária e depende de um terceiro: assalariados agrícolas, meeiros, jovens, mulheres perdem facilmente seus direitos. Como o governo não soube responder a essa insegurança jurídica, a instabilidade fundiária desestabiliza o país. É o mesmo que ocorre em outras regiões da África Ocidental, onde as terras estão na origem das explosões de violência [5].

Em 2000, 80% da população ativa exerce alguma atividade no setor informal: por exemplo, camelôs não regulares. Na maior parte das grandes cidades, esse fenômeno derrota as autoridades, que respondem com medidas de segurança. Na verdade, as dificuldades da vida cotidiana e a corrupção cada vez maior corroeram a confiança que a população tinha no partido do poder — o Novo Partido Patriótico (NPP). País-símbolo, Gana não conseguiu traçar a via de um desenvolvimento autônomo, nem colocar em ação as transformações socioeconômicas necessárias.

Tradução: Wanda Caldeira Brant
wbrant@globo.com
Leia mais:

Nesta edição, sobre o mesmo tema:

Sob a tutela da Casa Branca
Além de seguidora emblemática do “Consenso de Washington”, Gana transformou-se, no governo de Kufuor, num aliado militar estratégico dos EUA e da Inglaterra

Os EUA apostam no “black business”
No momento em que a influência norte-americana sobre o continente negro enfrenta a concorrência da China, ex-militantes pelos direitos civis impulsionam a GoodWorks, uma estranha rede que une governantes suspeitos e homens de negócio ambiciosos

[1] Ler, de Gareth MacFeely, Le Ghana entre rêves et maux d’antan, Le Monde diplomatique, edição francesa, outubro de 2001.
[2] Amilcar Cabral (1924-1973) foi um líder da luta contra a colonização portuguesa à frente do Partido Africano para a Independência da Guiné-Bissau e do Cabo Verde (PAIGC).
[3] http://www.cddghana.org/information.asp?tl=Annual%20Reports&cd=8
[4] Ler, de Karl Blanchet e Regina Kieth, “A África enfrenta o êxodo de médicos”, Le Monde Diplomatique-Brasil, dezembro de 2006.
[5] www.amenagement-afrique.com.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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O que precisa mudar e por que

Venício A. de Lima em 9/10/2007

O recente lançamento, por entidades da sociedade civil, da “Campanha por Democracia e Transparência nas Concessões de Rádio e TV”, sob o mote “Concessões de rádio e TV: quem manda é você”, renova as esperanças de que a cidadania finalmente desperte para uma velha questão de interesse público que historicamente tem sido tratada e decidida por um reduzido grupo de atores em benefício próprio [ver “Organizações lançam campanha sobre concessões de rádio e TV” e “Concessões de rádio e TV: quem manda é você”].

O conjunto de reivindicações da campanha, divulgado publicamente e encaminhado às autoridades do governo, é o seguinte:

“(a) ações imediatas contra as irregularidades no uso das concessões, tais como excesso de publicidade, outorgas vencidas e emissoras nas mãos de deputados e senadores;

(b) fim da renovação automática: por critérios transparentes e democráticos para renovação, com base no que estabelece a Constituição;

(c) instalação de uma comissão de acompanhamento das renovações, com participação efetiva da sociedade civil organizada; e

(d) convocação de uma Conferência Nacional de Comunicação ampla e democrática, para a construção de políticas públicas e de um novo marco regulatório para as comunicações.”

Razões para o debate

Há razões de sobra para se promover o debate sobre as concessões de rádio e TV no Brasil. Aí vão algumas:

1. Existem normas legais diferentes que regem a TV aberta, as operadoras de TV a cabo, as operadoras de TV por MMDS e por satélite. É inadiável a elaboração de um marco regulatório que uniformize essas regras.

2. As emissoras de rádio e TV aberta são concessões de um serviço público outorgadas pela União – com a participação do Congresso Nacional – por prazo determinado e sob determinadas condições. O prazo de concessão é de 10 anos para emissoras de rádio e de 15 para as de TV. Esse prazo dilatado é um dos fatores que acaba por transformar as concessões, na prática, em propriedade dos concessionários.

3. Ao contrário de outras concessões de serviço público, as regras para a outorga e renovação das concessões de rádio e TV aberta privilegiam os concessionários. A não-renovação de uma concessão precisa ser votada no Congresso Nacional por dois quintos dos seus membros, em votação nominal, e o cancelamento durante a vigência do contrato só pode ocorrer com decisão judicial. Essas condições criam uma assimetria em relação aos demais contratos de prestação de serviços públicos que precisa ser corrigida.

4. Apesar de a Constituição de 1988 definir claramente os princípios que devem orientar a produção e a programação das emissoras de rádio e TV aberta, eles não são utilizados como critério para o cancelamento e/ou a renovação das concessões. Nem é utilizada como critério a determinação constitucional de que os meios de comunicação não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio. Também não é critério o princípio da complementaridade dos sistemas privado, público e estatal. Além disso, a norma legal reza que se a concessionária requerer a renovação e não houver decisão dos órgãos competentes no prazo de 120 dias, a renovação é automaticamente deferida.

5. O vínculo histórico de deputados federais e senadores com as concessões de rádio e TV cria uma situação absurda na qual o membro de um dos poderes concedentes (o Congresso Nacional) se confunde com o próprio concessionário. Além disso, a controvérsia legal em torno da legalidade ou não de político no exercício do mandato eletivo ser concessionário de radiodifusão esconde a desigualdade na disputa política entre aquele que usa o rádio e a TV em benefício próprio e aquele que não tem acesso – ou só tem acesso parcial – a esses meios de comunicação.

6. A lei proíbe a duplicidade de outorgas. Como, no entanto, o cadastro dos concessionários do serviço público de rádio e TV não é de acesso público, na maioria das vezes não há como verificar se existe ou não duplicidade. Aliás, não se pode sequer saber quem são os concessionários.

7. Não há fiscalização adequada sobre as transferências (vendas) de concessões de rádio e TV para terceiros.

Boicote da mídia

Essas são apenas algumas das razões que justificam a necessidade e a urgência do debate sobre as concessões de rádio e TV no Brasil.

Há, todavia, um obstáculo formidável a ser vencido na mobilização da opinião pública e promoção desse debate democrático: a instituição que tem e exerce o maior poder de definir a agenda pública de discussão – a própria mídia – não se interessa pelo debate e, mais do que isso, boicota a cobertura jornalística das iniciativas e eventos que tentam promovê-lo, como foi o caso agora do lançamento da “Campanha por Democracia e Transparência nas Concessões de Rádio e TV”.

A democracia brasileira será a grande vencedora quando o debate sobre as concessões de rádio e TV conseguir romper o bloqueio da grande mídia e alcançar a maioria da população brasileira.

Observatório da Imprensa

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Plano que exige teste de DNA de imigrantes divide a França

Elaine Sciolino*
Em Paris

O governo francês pode ter imaginado que encontrou a chave para uma nova estratégia de imigração em três letras: DNA.

Em setembro, uma emenda a uma ampla lei de imigração propôs a utilização de testes genéticos para verificar as linhas de parentesco dos candidatos a imigrantes que desejam se juntar a familiares que já estão vivendo na França.

Mas a iniciativa tem sido criticada por contradizer as leis francesas de proteção à família e à privacidade, e por fazer com que ressurgissem memórias do pior período da história francesa moderna, o governo colaboracionista de Vichy durante a ocupação nazista.

Ed Alcock/The New York Times
Mulher observa objetos expostos no novo museu da imigração da França

O desconforto em relação à idéia é tão generalizado que ela vem sendo criticada não só por líderes religiosos, políticos de esquerda e intelectuais, mas também por membros do próprio campo político do presidente Nicolas Sarkozy, incluindo parlamentares do seu partido, e até mesmo alguns dos seus ministros.

Na última terça-feira, Fadela Amara, a secretária de Estado para Questões Urbanas - e filha de imigrantes argelinos - ameaçou renunciar ao cargo devido à proposta. “Falando como filha de imigrantes, não suporto mais ver a imigração explorada a todo momento”, disse ela à rádio France Inter.

Chamando a abordagem do governo de “repugnante”, ela acrescentou: “Sou uma mulher livre; nunca se esqueçam disso. Eu tenho a possibilidade de dizer o que tenho a dizer, e, francamente, no dia que isso se tornar realmente insuportável para mim, no dia em que ficar muito difícil, deixarei o cargo”.

Sarkozy, que manifestou apoio à proposta do DNA, respondeu rapidamente às declarações de Amara durante a sua visita de dois dias à Rússia, dizendo: “Pedirei a todos que se acalmem”.

Mas Amara, uma socialista no governo conservador de Sarkozy, estava dizendo em uma linguagem dura aquilo que outros vêm argumentando há várias semanas: que a idéia de usar a genética para decidir quem merece um lugar na França vai de encontro às tradições de direitos humanos do país.

A questão - e o desabafo de Amara - dividiu a governista União por um Movimento Popular. Françoise Hostalier, uma deputada do partido no parlamento, declarou na quarta-feira (10/10) que Amara conta com o seu “total apoio”, acrescentando que o exame de DNA é “contrário aos nossos valores republicanos e à nossa ética francesa”.

Mesmo assim, François Goulard, um outro parlamentar do partido que se opõe à iniciativa referente ao DNA, questionou por que Amara permanece no governo. “Se ela está tão incomodada, seria normal que renunciasse”, disse ele em uma entrevista.

Paradoxalmente, a confusão em torno do exame de DNA coincidiu com a inauguração, na quarta-feira, do há muito aguardado museu de imigração da França. A mensagem do museu, concebida na década de 1980 e defendida pelo ex-presidente Jacques Chirac, é demonstrar as contribuições que os imigrantes deram à França - e não os problemas associados a eles.

O museu mostra dois séculos de imigração para a França, incluindo as migrações em massa de trabalhadores do sul e do centro da Europa durante a revolução industrial, a chegada de pessoas oriundas das ex-colônias francesas na África e dos refugiados do sudeste asiático. Ele também tem espaços dedicados a revelar o ódio, a xenofobia e o racismo franceses.

No entanto, sublinhando o perigo político contido na questão da imigração, não houve uma cerimônia formal de inauguração, e nem Sarkozy nem Brice Hortefeux, o chefe do novo e bastante criticado Ministério da Imigração e da Identidade Nacional, apareceram no dia da abertura do museu. Contrastando com isso, em setembro Sarkozy inaugurou um museu arquitetônico em Paris, tendo feito um discurso sobre a importância da arquitetura na França.

Mas na quarta-feira, Sarkozy, filho de um imigrante húngaro, ainda estava em Moscou, enquanto Hortefeux se encontrava em Madri.

“Esse museu importante conta a história de talvez 25% da população francesa, e é impressionante que ele tenha sido inaugurado sem a presença do presidente da França”, afirma Patrick Weil, historiador especializado na questão da imigração. “Isso é um insulto, uma negação de parte da história francesa”.

Weil faz parte do grupo de vários historiadores que renunciaram ao conselho diretor do museu neste ano, como forma de protestar contra a criação, por parte de Sarkozy, do Ministério da Imigração e da Identidade Nacional, algo que foi amplamente interpretado durante a campanha presidencial como uma manobra para atrair os eleitores da extrema-direita.

Jacques Toubon, o presidente do novo museu e ex-ministro da Cultura e da Justiça, afirmou que a ausência de Sarkozy não foi um fato importante, e disse a respeito das críticas: “Isso tudo não passa de vinagre franco-francês”, uma expressão equivalente àquela da fábula da raposa e das uvas.

Sarkozy fez das regras mais rígidas para a imigração e do aumento das deportações uma base da sua campanha presidencial, e a proposta relativa ao DNA foi adicionada à sua lei de imigração por um parlamentar do seu partido.

“Esses exames de DNA existem em 11 países da Europa - incluindo alguns socialistas, como a Grã-Bretanha”, disse Sarkozy em uma entrevista na televisão em setembro. “Por que isso não representa um problema naqueles países, mas aqui gera uma grande polêmica?”.

Ele disse ainda que o exame seria voluntário e só seria utilizado quando não houvesse registros claros que “provassem que os filhos são realmente da pessoa”.

Inicialmente, a emenda teria autorizado as autoridades consulares da França a oferecerem a um candidato à imigração a oportunidade de pagar por um exame de DNA a fim de complementar documentações suspeitas ou inexistentes e provar vínculos familiares próximos com um residente legal da França.

Face à oposição, a Assembléia Nacional diluiu a emenda, que foi ainda mais enfraquecida pelo senado e que ainda está em fase de discussão.

O principal argumento contra a emenda é o fato de a noção de família na lei francesa não se basear no sangue, mas no reconhecimento de uma criança como filho. Os exames de DNA estabeleceriam um critério duplo - um para os franceses e um outro para os imigrantes.

E isso também faz ressurgir o espectro da história da França. “Essa emenda traz vergonha à França”, afirma George Pau-Langevin, um socialista que é o único integrante negro da Assembléia Nacional eleito no território europeu da França. “A tentativa de encontrar pureza de sangue por meio de testes biológicos traz à tona as piores memórias da Segunda Guerra Mundial. Essa proposta precisa ser retirada da pauta”.

Em uma acalorada sessão na Assembléia Nacional na última terça-feira, Hortefeux enfatizou que os exames de DNA seriam voluntários, gratuitos e sujeitos a um período de teste de 18 meses, e que procurariam provar apenas a maternidade (a fim de evitar revelações intrusivas e potencialmente embaraçosas sobre a paternidade).

*Ariane Bernard contribui para esta matéria.

Tradução: UOL

The New York Times
http://www.nytimes.com/

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Guerras custam US$ 284 bi à África, diz relatório

Quantia é equivalente a toda a ajuda humanitária recebida pelo continente entre entre 1990 e 2005

PAUL SIMÃO - REUTERS

JOHANESBURGO - As guerras tiraram cerca de US$ 284 bilhões das economias africanas entre 1990 e 2005, praticamente o mesmo dinheiro da ajuda internacional destinada ao continente nesse período, segundo relatório divulgado nesta quinta-feira, 11, pela ONG Oxfam International.

O estudo, intitulado “Os Bilhões Perdidos da África”, diz que 23 conflitos no período fizeram as respectivas economias encolherem uma média de 15 por cento ao ano, a um custo de quase 18 bilhões de dólares por ano.

A Oxfam se baseou no cálculo de vários custos dos conflitos, como os gastos militares, a perda de ajuda ao desenvolvimento, inflação e custos médicos com feridos e mutilados.

Mas a estimativa é provavelmente conservadora, pois não leva em conta o impacto de guerras civis sobre as economias de países vizinhos e os efeitos de longo prazo dos gastos militares elevados.

“Os custos são chocantes”, disse Irungu Houghton, consultor político para questões africanas da Oxfam. “Esse dinheiro poderia resolver a crise da Aids, prevenir a tuberculose e a malária, fornecer água potável, saneamento e educação”, afirmou.

A economia de Ruanda, por exemplo, cresceu a uma média anual de 2,8 por cento entre 1990 e 2001, quase um terço a menos do que o que seria esperado se não houvesse guerra, genocídio ou outras turbulências no período, segundo a Oxfam.

A economia de Burundi sofreu ainda mais como resultado do conflito étnico, encolhendo em média 1,1 por cento entre 1993 e 2005 — sem violência, a expectativa seria de crescimento de 5,5 por cento ao ano.

O relatório, feito com apoio de duas outras ONGs, a Rede Internacional de Ação para Armas Pequenas e a Saferworld, cita o comércio global de armas como um fator importante para a violência que mata milhões de africanos e impede o crescimento do continente.

Estima-se que 95 por cento dos rifles Kalashnikov, a arma mais popular em conflitos africanos, venham de fora do continente.

A Organização das Nações Unidas (ONU) vem considerando a aprovação de um Tratado do Comércio de Armas, que serviria para restringir o fluxo ilegal de armas, especialmente para áreas vulneráveis, como a África.

A Oxfam e outras ONGs defendem um acordo que proíba a transferência de armamentos que possam ser usados para violações graves do direito humanitário internacional ou para prejudicar o desenvolvimento sustentável.

Cerca de 153 países aprovaram no ano passado na Assembléia Geral da ONU o início de uma discussão sobre o tratado, que estabeleceria regras para o comércio de armas com fins legítimos, como a auto-defesa. O único voto contrário foi dos Estados Unidos. China e Rússia manifestaram reservas à idéia.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

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A tropa da violência extrema

O filme “Tropa de Elite” tem o mérito de mostrar a corrupção policial e o demérito de celebrar a violência extrema. Navega no fio de uma navalha, respingando sangue para todos os lados. Seus expectadores parecem gostar, porém, não é ainda possível avaliar a real repercussão.

Luís Carlos Lopes

Nas normas do fascismo líquido, a acusação de fascista cabe para muita gente e, ao mesmo tempo, para ninguém. Este líquido que corre nas vias de transmissão comunicacional da sociedade brasileira permite que muitos sejam fascistas, sem saber que o são, no compasso de outros que verdadeiramente o são, sabendo o que são e achando que estão cobertos de razão. A tragédia deste novo tipo de politização, que esquece o passado e acha que o presente é o que importa, mantém o mito que as atitudes que vemos no filme Tropa de Elite em nada se assemelham a tão velha SS nazista.

Na verdade, são na origem fascistas todos os que comungaram com a nossa brasileiríssima ditadura militar (1964-1985). Alguns poucos deles fazem parte, infelizmente, da base de apoio do governo Lula. Outros estão no Congresso Nacional e ainda outros estão em inúmeros órgãos públicos civis e militares. Ainda outros, estão fora do Estado, mas pertencem a uma sociedade que tentaram dobrar, torcer e impedir que florescesse. Estão impunes frente a uma Justiça ainda sem equidade e contando com a tolerância de um povo acostumado a perdoar e submisso aos seus desígnios, jamais decididos a partir de suas opções.

Como por aqui não houve a cobrança das responsabilidades pelas mortes, torturas e outros crimes da época, há até quem se diga hoje democrata e busque apagar o seu passado de adesão ao terror de Estado. Infelizmente, existem, outrossim, os convertidos, isto é, os que foram vítimas da ditadura e agora a celebram, como se o passado nada importasse para suas vidas. Esta situação é, por vezes, difícil de compreender e ainda mais de aceitar. Faz parte da geléia geral do Brasil, país com imensas contradições, que não são facilmente assimiláveis por quem pratica o hábito de pensar para além de seu nariz.

Por isto, o Tropa de Elite que pôde ser visto por milhões – graças à pirataria –, e poderá depois ser exibido como troféu pela mídia convencional, vem passando quase incólume por um possível julgamento público de nossa história recente. A miséria, na mesma obra, é vendida como natural, em imagens de impacto radical, sobre as condições de vida dos pobres brasileiros. As pessoas são miseráveis e carentes de tudo e algumas delas transformam-se - não se sabe hipocritamente porquê - em criminosos violentos. Segundo o filme, a solução é matá-las, como exemplo, com o maior requinte de perversidade possível.

A questão dos direitos humanos, de acordo com a mesma argumentação desenvolvida na película, consiste em uma alegação de brancos drogados das classes médias. Nada mais insultante, inverídico e portador de uma imensa intriga, com o claro objetivo de desacreditar os militantes brasileiros e estrangeiros da causa dos direitos humanos.

Combater a corrupção policial seria, segundo o mesmo trabalho, optar pelo Capitão Nascimento, alguém que seria contra a corrupção, mas que volta o seu ódio contra os pobres, sobretudo contra aos jovens ligados ao tráfico de drogas nas miseráveis favelas cariocas. Nenhuma palavra contra o desemprego e a concentração de renda. A solução é apagar a mancha dos poucos que ousam desafiar o poder de Estado, mesmo que de forma alienada e conservadora. A tropa surge como solução ao caos da repressão oficial. Ninguém sabe como ela foi montada e nem por quê. Surgiu, de onde pode se depreender, da ‘banda boa’ da polícia, em contraposição a falada ‘banda podre’.

O filme tem o mérito de mostrar a corrupção policial e o demérito de celebrar a violência extrema. Navega no fio de uma navalha, respingando sangue para todos os lados. Seus expectadores parecem gostar, porém, não é ainda possível avaliar a real repercussão. Calcula-se que pelo menos três milhões que já teriam visto as cópias piratas, amplamente distribuídas pela Internet e que já geraram algumas prisões dos que permitiram a distribuição. E bem possível, que o filme responda aos anseios populares de crítica à corrupção de Estado e ao conservadorismo das classes médias que são bastante seduzidas pelo modelo de violência apregoada na mesma obra. Desde a época da escravidão brasileira, acredita-se na violência extrema como forma de reduzir os mais pobres à condição de mais absoluta submissão. A escravidão acabou em 1888, mas a ordem social brasileira continua se inspirando neste passado dantesco, que durou quatrocentos anos.

Os capitães do mato do passado foram substituídos pelas forças oficiais dos aparatos repressivos do mundo de hoje. O resultado é similar. Será que algum dia, a lógica do escravismo colonial brasileiro será superada? Ou este pesadelo atravessará ainda várias gerações? Confesso ao leitor a minha perplexidade. Não sei responder às questões que coloco para reflexão dos que querem pensar um Brasil mais humano e mais respeitoso dos direitos de sua gente.

Luís Carlos Lopes é professor.

Carta Maior
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Privatização e internacionalização galopam ancoradas em discurso ilusionista

Waldemar Rossi

Duas medidas atuais revelam a quanto andam os acertos (não explícitos para o povo) entre o PSDB (de FHC e Serra) e o PT (de Lula, do Dirceu, Zeca e tantos outros, antigos e arrependidos revolucionários - não falo de “Lula revolucionário”, é claro): a) o anúncio de estudos sobre a realidade de empresas estatais do estado de São Paulo - dezoito - determinado por Serra (tucano e ex-socialista), visando abertura de processo para entregá-las ao capital privado; b) a privatização de estradas federais - concluída no dia 09/10/07 - e que transfere nosso patrimônio para uma empresa espanhola: “A empresa OHL ficou com cinco dos sete trechos de rodovias que foram leiloados pela ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres)”, envolvendo as rodovias Fernão Dias e Régis Bittencourt (Folha de São Paulo, 10/10/07).

É sempre necessário recordar que “empresas estatais é sinônimo de dinheiro público investido” e que deveriam estar a servido do público e não do privado; que foram construídas com nosso dinheiro, porque o sistema dizia que os governantes tinham a responsabilidade de investir em empresas estratégicas, uma vez que o desenvolvimento da nação dependia dessas empresas de base.

Pois bem, o dinheiro do povo, arrecadado através de impostos e taxas, foi desviado do seu destino social (vejam o caso da CPMF, como simples exemplo) e redestinado para atender às “necessidades estratégicas” do capital. Depois de cumprir sua missão, permitindo o desenvolvimento extraordinário da indústria capitalista, quando deveria então dar retorno para o social, do qual foi desvirtuado, eis que nossos governantes, atendendo às determinações dos seus chefes, driblam a expectativa popular e transferem essas empresas públicas para os ladrões nacionais e internacionais, denominados ironicamente de iniciativa privada (ou capital privado). Não é por menos que Lula considera usineiros seus “heróis”. Serra é mais prudente, pois não confessa seus crimes, assim não precisa dizer que “não sabia” ou que “não é verdade”.

Quando das “privatarias” desenvolvidas pelos tucanos, pudemos presenciar, antes, o processo de desmonte das empresas estatais: a Cosipa, sob comando de FHC - durante o governo estadual de Montoro -, sofreu um extraordinário processo de inchaço, fato que propiciou, posteriormente, ao governador Covas a justificação para sua “privatariação”; o mesmo se deu com o Banespa; as estradas estaduais foram deixadas, em parte, sem a devida manutenção, e assim por diante, forjando-se realidades falsas a fim de justificar, perante a opinião pública, os crimes que se cometiam contra o patrimônio público, isto é, contra os bens do povo.

Lula não deixou por menos: abandonou as estradas de rodagem federais, deixando-as esburacadas, desviando recursos a elas destinados para fazer “superávit primário”; engambelou o povo durante sua reeleição dizendo que investeria rios de dinheiros para recuperá-las, e mais uma vez não cumpriu suas promessas, e agora as entrega para as privadas (empresas), que começarão a impor a segunda taxa rodoviária aos seus usuários: os pedágios, como fez o governo Covas-Alckmin.

Com isso, explorar-nos-ão por nada menos que vinte e cinco anos! Nesse rol de entregas estão a Amazônia, as terras que Lula quer destinar aos canaviais, a Previdência, os bancos que ainda restam, assim como a legalização das sementes transgênicas, enfim, uma lista enorme de transferências da coisa pública.

E o Serra, que em seus discretos encontros com Lula vem tramando contra o povo, quer entregar nada menos que 18 empresas públicas para a exploração privada - embora a construção continue a ser feita com o seu, o meu, o nosso sagrado e suado dinheirinho, dinheiro que faz muita falta em milhões de lares paulistas. A lista não é nada desprezível: a Nossa Caixa, a SABESP, a CESP, o Metrô… Imaginem que, finalmente, os abutres internacionais irão conseguir algo que vêm tentando há décadas: tornar a água, um elemento da natureza, vital para o povo, patrimônio universal e inalienável, em mera mercadoria. Quem não tiver dinheiro não poderá bebê-la. É a condenação à morte de milhões de seres humanos. E o povo continua, ingenuamente, elegendo seus algozes.

Lulismo-petismo e tucanato irmanados com o objetivo de implantar a barbárie no país, fazendo-nos regressar às tristes épocas do colonialismo servido pela escravidão. Depois, para enganar ainda mais o povo, vão fazer de conta que são antagonistas, continuarão a fazer um pseudo jogo de braço pra ver quem consegue ser mais sutil em suas meias-verdades e muitas mentiras e, assim, permanecer no poder por mais tempo. Claro, com o suporte político e financeiro do capital nacional e internacional, o grande vencedor desta tragédia.

Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo.

Correio da Cidadania
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Caio Prado Júnior (1907–1990)

Para podermos começar a avaliar o papel desempenhado por Caio Prado Júnior na história do marxismo no Brasil, precisamos reconstituir, de algum modo, as condições em que se deu a sua entrada na cena histórica. Qual era o quadro em que ocorreu o aparecimento da Evolução política do Brasil?

No prefácio que escreveu para a primeira edição da obra, Caio Prado Júnior advertiu que não se tratava de uma “História do Brasil”, mas de uma “síntese”, de “um simples ensaio”. Admitiu, contudo, que se serviria de um “método relativamente novo”, que era a “interpretação materialista”.

O advérbio “relativamente”, posto antes do adjetivo “novo”, constituía uma expressão de modéstia, talvez também o reconhecimento de que filosoficamente é raro o novo se apresentar em estado “puro” (é difícil o absolutamente novo), mas, em todo caso, abria caminho, igualmente, para o reconhecimento de que a “interpretação materialista” tivera, entre nós, antes da Evolução política do Brasil, alguns precursores.

Há, por exemplo, o caso do professor de latim Antonio Piccarollo, italiano, que chegou ao Brasil em 1904 e em 1908 já se dispôs a escrever uma síntese da evolução histórica e da situação política do Brasil, publicada no manifesto programático do Centro Socialista Paulistano. Mas o materialismo de Piccarollo era um materialismo mecanicista, que não tinha muito a ver com a “interpretação materialista” a que depois Caio Prado Júnior viria a se referir: Piccarollo dissolvia a dialética no evolucionismo, combinava elementos do folheto de Engels Do socialismo utópico ao socialismo científico com a idéia de que nem a natureza nem a história podem realizar saltos. Sua perspectiva subordinava a mudança à continuidade.

Há, também, o caso do jornalista Antonio dos Santos Figueiredo, intelectual socialista independente, autor do livro A evolução do Estado no Brasil, publicado em 1926. o materialismo de Antonio dos Santos Figueiredo, contudo, pagava elevado tributo às facilidades do ecletismo, que dissolviam a coesão interna do pensamento e permitiam a mistura de Marx com o historiador Henri Sée, discípulo de Werner Sombart. Além disso, o materialismo de Antonio Figueiredo era meramente contemplativo, constatativo, e por isso se deixava absorver por um pessimismo paralisador, que correspondia à situação de um sujeito que não enxergava nenhuma possibilidade de intervenção no movimento do real, limitando-se a deplorar que esse movimento não se realizasse como devia.

Em certo sentido, o materialismo de Antonio Figueiredo lembrava o de Feuerbach e merecia as críticas que Marx tinha feito ao autor de A essência do cristianismo. Faltava ao brasileiro, como faltava ao velho filósofo alemão, uma compreensão materialista da práxis humana, da ação material pela qual os sujeitos humanos estão sempre modificando a realidade objetiva e se transformando a si mesmos: o materialismo deles ficava restrito ao plano da existência de objetos maciços, densos, movidos por uma força própria, assustadoramente imunes ao poder revolucionador dos homens.

Não sei se Caio Prado Júnior sabia da existência de Antonio Piccarollo, nem se ele havia lido o livro de Antonio Figueiredo quando escreveu Evolução política do Brasil. Na medida, porém, em que tinha se interessado pelo marxismo, é provável que o nosso historiador tenha ouvido falar de Octávio Brandão, o farmacêutico autodidata que se havia transformado no principal teórico da agremiação que congregava as poucas centenas de pessoas que, no Brasil dos anos vinte, aderiam ao ideal comunista de Marx: o Partido Comunista do Brasil.

Em 1924, Octávio Brandão escreveu o livro Agrarismo e industrialismo, que só pôde ser publicado em 1925, indicando como autor um fictício Fritz Mayer e como lugar da publicação (ardilosamente, para driblar a repressão) a cidade de Buenos Aires, na Argentina. A obra serviu de base para o programa que o PC adotou na segunda metade dos anos vinte. Teria Caio Prado Júnior tomado conhecimento do documento programático dos comunistas brasileiros? Teria ele lido o texto de Octávio Brandão? Não sei. Mas a ressalva sugerida em sua caracterização do método materialista como “relativamente novo” pode se referir, implicitamente, ao esforço pioneiro realizado por Brandão.

De qualquer modo, a interpretação materialista da história, em Agrarismo e industrialismo, não correspondia àquilo que Caio Prado Júnior buscava em seu ensaio. Brandão, fascinado por Lênin, esforçava-se por completar o materialismo com a dialética, para torná-lo mais conseqüente, para permitir que a práxis revolucionária dos homens também fosse pensada em termos materialistas. Sua dialética, entretanto, ficava prejudicada por uma formalização exarcebada, de tipo positivista. Era uma dialética que – conforme procurei mostrar em artigo anterior, neste volume –, ficava reduzida ao esquema triádico de Hegel (tese, antítese, síntese), que era esquematicamente aplicado, como fórmula definitiva e universalmente válida, pronta e acabada, a uma gama notavelmente vasta de processos históricos particulares, tais como a história do levante militar de 1924, a história do movimento operário brasileiro, os quatro séculos de transformação da sociedade brasileira e os vinte e tantos séculos de transformação da sociedade italiana (que então se achava sob o controle dos fascistas de Mussolini).

O grande desafio, para um materialismo dialético, sempre foi o de pensar a relação entre a força transformadora (e autotransformadora) do sujeito e a força inerente ao movimento mecanicista ou do chamado “evolucionismo vulgar”, a criatividade do sujeito se esfuma e se dissipa, desaparece o espaço em que a iniciativa do sujeito poderia desempenhar um papel realmente significativo, o movimento subjetivo tende a se reduzir a um epifenômeno, a um apêndice do movimento objetivo: os homens passam a ser marionetes, bonecos manipulados pelo crescimento das forças produtivas e por uma estranha dinâmica cega derivada das relações de produção. O ser social não só determina a consciência (como ensinou Marx), mas também a determina de forma unívoca, direta e imediata.

Por outro lado, não é casual que, ao longo da história, o reconhecimento da importância da ação específica do sujeito tenha ocorrido, com enorme freqüência, no campo do idealismo filosófico. Se o vigor criativo dos sujeitos humanos minimizar; por um momento que seja, o peso do condicionamento material em que a intervenção subjetiva se realiza, a criatividade humana deixa de ser efetiva, torna-se mítica, escorrega para a afirmação inócua do “voluntarismo”, que é uma modalidade de idealismo.

Octávio Brandão não se mostrou capaz de enfrentar o desafio que se punha no caminho de um materialismo dialético. Quando tentava discernir os “lugares” em que a vontade transformadora dos sujeitos revolucionários poderia se impor, encontrava dificuldades e seu discurso se tornava enfático porém vago. Há uma passagem de Agrarismo e industrialismo, aliás, que evidencia a impotência do autor para encaminhar uma solução adequada aos problemas que o preocupavam: não conseguindo formular indicações suficientes para as possibilidades da ação revolucionária aqui dentro, no âmbito da realidade brasileira, ele se consola através da convicção de que as chances da revolução viriam de fora, da situação mundial, já que o mundo, a seu ver, estava transformado num “vulcão prestes a explodir” e, na primeira ocasião, um conflito entre o imperialismo inglês e o imperialismo norte-americano desencadearia “uma guerra formidável na América do Sul e no mundo inteiro”. Não se pode ignorar nessa visão o ânimo de combate e o pressentimento valioso de uma nova guerra que depois explodiu em 1939; porém o ímpeto do lutador estava mal pensado e o presságio encerrava um equívoco óbvio (e sintomático): a “guerra formidável” não se deu entre norte-americanos e ingleses (que combateram juntos contra os alemães), nem ocorreu “na América do Sul”, a não ser em episódios menores.

Caio Prado Júnior não podia se apoiar no materialismo de Octávio Brandão; seu projeto obrigava-o a ir além dos horizontes teóricos do combativo intelectual “oficial” do Partido Comunista. A perspectiva materialista da Evolução política do Brasil exigia que o historiador reconhecesse simultaneamente toda a dureza das condições objetivas e todos os empenhos subjetivos que cabiam no quadro constituído pela objetividade, pela sociedade brasileira.

Caio Prado Júnior não olhava para o mundo como o lugar de onde viria uma catástrofe redentora (a guerra): a situação lá fora era, para ele, a situação do mercado mundial, que deveria ser avaliada em função da nossa situação interna, isto é, das vicissitudes do nosso modo de produção. Nossos problemas eram os problemas da nossa sociedade e da nossa articulação com o mercado mundial.

Objetividade e subjetividade estavam mutuamente imbricadas uma na outra; e a predominância das condições objetivas não poderia dissipar a irredutibilidade dos momentos subjetivos que marcam a história. Caio Prado Júnior, logo no começo do seu ensaio, examinava as questões impostas objetivamente aos homens (portugueses) pela colonização e se dava conta das iniciativas – subjetivas – que eles tiveram para fazer face às circunstâncias: ele se referia, por exemplo, à tentativa representada pelas capitanias hereditárias, e observava que ela não tinha sido eficaz: “este ensaio de feudalismo não vingou”. Havia a necessidade da colonização (objetiva), havia as circunstâncias (objetivas) drasticamente difíceis para um país de pequena população e escassos recursos, como Portugal, e houve, também, a iniciativa da malograda feudalização (o momento subjetivo).

Em outro período da nossa história, lembrado pelo ensaio, o método de Caio Prado Júnior, sua interpretação materialista, nos permite perceber claramente suas características fundamentais: a vinda de Dom João VI com sua corte para o Brasil, fugindo das tropas de Napoleão, desencadeia objetivamente o processo de mudanças que haveria de resultar na nossa independência política; por suas peculiares condições objetivas, esse processo descartou a luta armada que, em outros países do continente, viabilizou a conquista da autonomia; no entanto, a concretização da independência, entre nós, dependeu da mobilização subjetiva da classe dos proprietários rurais que podiam promover o movimento separatista.

A situação objetiva impõe, a cada passo, limites aos movimentos subjetivos. A massa escrava, que chegou a representar metade da população do Brasil num certo período da época colonial, era mantida em estado de divisão e desarticulação, impossibilitada – objetivamente – de constituir uma massa coesa; por isso, era incapaz de desempenhar, naquelas circunstâncias, um papel político (subjetivo) de real importância. No entanto, o ímpeto rebelde subjetivo, cercado e reprimido, nem por isso desaparecia: algo dele ecoava em expressões de insatisfação e revolta que se manifestavam em outras áreas, e que teriam influenciado o movimento de 26 de fevereiro de 1821 que levou Dom Pedro a reorganizar seu mistério com políticos de prestigio popular, no Rio de Janeiro.

Essa é a concepção de Caio Prado Júnior: nem a história se faz por si mesma, automaticamente, nem os homens a fazem de maneira arbitrária, impondo-lhes desenvoltamente seus desígnios. Marx já havia ensinado, antes, que cada geração, ao surgir, se vê posta diante de problemas herdados da ação das gerações precedentes, e é compelida a viver numa situação que não foi por ela livremente escolhida; no entanto, a reação da nova geração em face do quadro que lhe foi imposto não é predeterminada, comporta variações, passa por escolhas, depende de opções. O historiador materialista comprometido com um projeto revolucionário precisa reconstruir o quadro, compreender os problemas postos pela vida, avaliar as condições materiais, para poder entender criticamente as iniciativas, as propostas, os anseios, o ânimo com que os homens se movem na arena de luta na qual se vêem colocados.

Caio Prado Júnior assimilou essa dimensão do pensamento de Marx e por isso foi capaz de aplicar pioneiramente, entre nós, a concepção da história elaborada pelo autor d’O Capital. Para podermos avaliar como há de ter sido difícil essa conquista, devemos lembrar que, no começo dos anos trinta, no centro do movimento comunista mundial, estava se cristalizando uma codificação doutrinária – o “marxismo-leninismo” – que impunha pesados sacrifícios à dialética marxiana original. O autor da Evolução política do Brasil, como comunista que era, não ficou imune ao charme da União Soviética (conforme se vê no livro URSS, um novo mundo, de 1934). Não se notam, entretanto, em sua “interpretação materialista” da história do Brasil, as marcas mais evidentes do estilo que o stalinismo conferiu ao “marxismo-leninismo”, como, por exemplo, o esvaziamento da subjetividade (reduzida à liderança do partido revolucionário e praticamente negada às massas populares), o primado de uma objetividade cega (a inexorabilidade da marcha para o socialismo, sustentada por um conjunto de fórmulas dogmáticas), uma esquematização empobrecedora de todas as contradições, uma atitude de feroz reserva em face do “novo” e das surpresas que lhe são inerentes, bem como o recurso sistemático a um bem montado arsenal de citações legitimadoras. O marxismo utilizado pelo nosso historiador não tinha nada disso e se combinava com uma extraordinária abertura para o ineditismo da aventura brasileira. Paulo Sérgio Pinheiro chegou a escrever: “O marxismo de Caio Prado não é o recitativo de fórmulas ou citações, mas uma via de interpretação de um viajante infatigável e implacável pela realidade de seu próprio país e de seu tempo” (Isto É, 7-7-1982).

Caio Prado Júnior, em 1933, realizou uma autêntica façanha, ao superar o obstáculo interno, constituído pelas graves insuficiências teóricas de seus predecessores brasileiros no campo da “interpretação materialista”, e ao escapar da pressão externa, decorrente da codificação oficial do “marxismo-leninismo”.

É verdade que a reflexão marxista pessoal e independente que permitiu a elaboração da Evolução política do Brasil (e depois permitiria o preparo do esplêndido Formação do Brasil contemporâneo) não conseguiu se cristalizar em resultados filosóficos satisfatórios, no esforço que Caio Prado Júnior realizou para explicar a fundamentação gnosiológica de suas investigações. Independentemente das divergências que se manifestam entre os críticos de Caio Prado Júnior na avaliação da Dialética do conhecimento e das Notas introdutórias à lógica dialética, parece-me que predomina na impressão dos leitores do grande historiador paulista uma certa decepção: os dois trabalhos ficam aquém dos ensaios anteriormente publicados. Ao se debruçar sobre si mesma, reflexivamente, a teoria não conseguiu produzir textos tão bem sucedidos como aqueles em que se aplicou à pesquisa histórica.

Mas também é verdade que o êxito alcançado pela teoria aplicada não se perdeu. Evolução política do Brasil e Formação do Brasil contemporâneo não são apenas momentos brilhantes da nossa história escrita, não contêm somente ricas observações empíricas: são obras capazes de suscitar estudos metodológicos surpreendentemente enriquecedores, cheios de implicações teóricas. Evolução política do Brasil, então, mais do que “um simples ensaio” (como modestamente o classificou seu autor) é um marco na história do marxismo no Brasil.

O simples fato de que a obra de estréia de Caio Prado Júnior tenha sido escrita, tenha sido publicada e se tenha tornado acessível a todos, nos obriga a um rigor crítico maior no julgamento das interpretações que os marxistas brasileiros posteriores fizeram da realidade brasileira: em diversos aspectos decisivos, tais interpretações constituíram um grave retrocesso em relação ao livro de 1933, um recuo para uma perspectiva materialista “vulga”, um restabelecimento de esquemas sociológicos de tipo “positivista” e uma adaptação mental à ideologia sancionada pela direção do Partido Comunista da União Soviética.

O aparecimento da Evolução política do Brasil era a comprovação inequívoca de certas possibilidades de reflexão crítica sobre a realidade brasileira que os marxistas, no Brasil, ao longo das duas décadas que se seguiram à publicação, não souberam aproveitar.

24-5-1990*

KONDER, Leandro.

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