PT também faz milagre da multiplicação dos pães
Cristina Moreno de Castro, do Tamos com Raiva
Se a denúncia que o MP do Mato Grosso do Sul encaminhou à Justiça na última sexta-feira encontrar as devidas provas, o slogan acima da Agilitá Propaganda vai ter que ser mudado às pressas para se manter fiel à realidade.
É que, segundo o Ministério Público, essa empresa de publicidade participou de um esquema de caixa dois durante os oito anos de governo do José Orcírio Miranda dos Santos, o “Zeca do PT” (1999-2006). Em apenas três casos analisados, há indícios de desvio de mais de R$ 200 mil, mas o MPE calcula que, nos dois mandatos de Zeca do PT, mais de R$ 30 milhões tenham sido desviados. Para onde, não se sabe – e é o que cabe agora à Justiça descobrir.
Para quem vem acompanhando o caixa dois de Eduardo Azeredo há quase um mês, não há nenhuma novidade nisso. As relações entre os dois casos são várias: em ambos, os beneficiários diretos seriam dois ex-governadores – o tucano Eduardo Azeredo, em Minas, e o petista Zeca, no Mato Grosso do Sul. No esquema coordenado por Marcos Valério, as agências de publicidade DNA e SMP&B teriam desviado pelo menos R$ 28,5 milhões para reforçar a campanha de reeleição do tucano. O esquema do petista supostamente seguia a mesma lógica: o governo encomendava serviços de publicidade e impressão à agência Agilitá Propaganda e Marketing Ltda e à Sergraph - Gráfica e Editora Quatro Cores Ltda. Elas simulavam a realização dos serviços e emitiam notas fiscais falsas fornecidas por uma gráfica fantasma de Uberaba (MG), com o valor dos orçamentos. O governo repassava o dinheiro para as empresas que, após cobrarem uma “comissão”, devolviam o troco pro gabinete do governador. Como nada era contabilizado, pimba!, caixa dois. Moleza.
Parece que virou corriqueiro montar caixa dois com a ajuda de agências de publicidade. Talvez porque elas possam trabalhar com verbas polpudas de governos de vários estados sem levantar muitas suspeitas. A Agilitá Propaganda, por exemplo, trabalha em onze estados, além do Mato Grosso do Sul, onde está sediada: São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Rio de Janeiro e outros seis do Nordeste. Durante a gestão de Zeca do PT, ela fez anúncios relacionados com os 104 anos de Campo Grande, o programa estadual de alfabetização de adultos, a riqueza de águas do Estado, o programa de aumento da área de plantio, a importância do pré-natal e a importância de se doar sangue, entre outros. Foram anúncios em rádio, TV e outdoors que estão expostos no site da empresa.
Há, portanto, uma forte e duradoura parceria entre a agência de publicidade e o ex-governador petista, que sempre a preferiu para as campanhas bancadas pelos cofres públicos. Uma parceria tão interessante para as duas partes que a Agilitá doou R$ 50 mil (declarados) à campanha do governador que concorria à reeleição em 2002. Vale ressaltar: doação feita a ele pela agência, e a mais nenhum outro político. Se a denúncia do Ministério Público do Mato Grosso do Sul estiver correta, e se, portanto, o suposto caixa dois coordenado por Zeca do PT e pela Agilitá Propaganda tiver realmente desviado R$ 30 milhões dos cofres públicos, é fácil imaginar que essa doação de R$ 50 mil representou um investimento lucrativo para Ariosto Barbieri, dono da Agilitá.
Aproveitando a deixa, vale citar o nome dos outros envolvidos no esquema, denunciados pelo MP por crime de peculato (desvio de dinheiro público, que prevê pena de dois a doze anos de reclusão), falsificação de documentos, falsidade ideológica e uso de documento falso: além do ex-governador Zeca do PT e do empresário Ariosto Barbieri, temos o ex-secretário de governo Raufi Marques, o ex-subsecretário de Comunicação Oscar Ramos Gaspar, a funcionária da Gráfica Ruy Barbosa Ana Lúcia Tavares, o empresário José Roberto dos Santos, a ex-servidora pública Ivanete Martins e o dono da Sergraph Hugo Borges. Além de todos esses, os seguintes foram denunciados por improbidade administrativa (ação civil): a ex-ordenadora de despesa da secretaria de coordenação-geral de governo Salete de Luca e os empresários Odyllea Siqueira e Gislaine Brum.
O Ministério Público pediu a quebra do sigilo bancário de todos os denunciados, na tentativa de descobrir onde foi aplicado o dinheiro do caixa dois. Mas isso fica para os próximos capítulos. O Tamos com Raiva vai acompanhá-los, do mesmo modo que o fará com a novela do esquemão do tucano Azeredo.
NovaE
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