Arquivo de 17 de Outubro de 2007

Livro apresenta o trabalho infantil para crianças e adolescentes

Publicação aposta na ficção para mostrar aos jovens o mundo árduo que explora o trabalho de mais de cinco milhões de crianças brasileiras; livro também apresenta possíveis caminhos para acabar com o trabalho infantil

Beatriz Camargo

Menina brinca no lixão em Santana do Parnaíba (SP) (Foto: Iolanda Huzak)
Madalena é uma garota ativa e interessada em todo o tipo de assunto. Um dia, ao ver uma exposição sobre trabalho infantil, ela fica emocionada e resolve agir. Visita um lixão na Grande São Paulo e conhece crianças que vivem da exploração do lixo. De sua experiência, ela escreve um jornalzinho, que é afixado nos murais da escola.

É dessa maneira que o livro infanto-juvenil “Trabalho Infantil: o difícil sonho de ser criança”, aborda esse assunto árduo, mais ainda existente no Brasil. No início da década de 1990, o país tinha 8,4 milhões de crianças e adolescentes entre cinco e dezessete anos trabalhando, segundo dados de 2001 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Hoje, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que, embora as práticas de combate ao trabalho infantil estejam avançando no país, ainda haja cinco milhões de crianças e adolescentes nessa situação.

A publicação é assinada pela escritora Cristina Porto, autora de muitos outros livros infantis, em parceria com a jornalista Jô Azevedo e a fotógrafa Iolanda Huzak, que fizeram toda a pesquisa e fotos e têm larga experiência no assunto. O livro integra a coleção “Que mundo é esse?”, da Editora Ática e já está na terceira reimpressão.

Contágio
A partir da história de Madalena, o leitor entra em contato com o mundo que envolve o trabalho infantil. Como num efeito dominó, o engajamento de Madalena passa a envolver sua casa, seus amigos e toda a sua escola: a idéia de saber mais sobre o trabalho infantil torna-se, assim, a missão de um grupo formado por estudantes e ajudado por professores, funcionários e até pelo pipoqueiro que trabalha em frente ao colégio.

O grupo se divide para escrever várias edições do jornal, batizado de “Nosso Jornal”, cada uma delas abordando um tipo de trabalho em que crianças são exploradas. Com esse recurso, o livro expõe dados sobre quantas crianças estão envolvidas no trabalho infantil e em quais regiões do país.

De forma didática, é possível conhecer a realidade dos pequenos trabalhadores que sobrevivem de lixões, olarias, britagem de pedras, produção de carvão, extração de resina e de fibras de sisal, plantações de babaçu, trabalho em fábricas, nas casas, na rua e nas lavouras de tomate, café e cana-de-açúcar.

No entanto, mais do que a dura realidade dessas crianças, que vêm expressas em entrevistas com as próprias crianças ou com seus pais, há uma preocupação de Cristina Porto em ressaltar as iniciativas que são tomadas para contribuir com a erradicação do trabalho infantil. Com isso, o livro, apesar da temática complexa e de difícil solução, deixa a sensação de que todos podem fazer algo. “O que as pessoas podem fazer é, no mínimo, denunciar, contar para todo mundo”, considera Cristina. “A própria iniciativa da Madalena de fazer o jornalzinho já dá uma dica de como eles [leitores] podem fazer alguma coisa.”

Ficção e Realidade
O livro “Trabalho Infantil: o difícil sonho de ser criança” se divide em ficção e realidade, inclusive com um tratamento gráfico diferente das duas partes. O assunto já havia sido abordado numa publicação da mesma equipe, em “Serafina e a criança que trabalha”, mas para crianças menores. “A princípio, eu tinha apenas que transformar o material da Jô e da Iolanda num material infantil e o jeito que consegui fazer isso foi contando a história da Madalena”, conta.

As informações e os dados já estavam ali para virar livro. Porém, para entender melhor como deveria transmitir a emoção para sua personagem Madalena, Cristina Porto foi a campo: visitou um lixão em Santana do Parnaíba, na Grande São Paulo e a extração de sisal em Valente, no interior baiano. Em Santos (SP), ela conheceu o trabalho feito na zona portuária, onde há muita prostituição infantil, às vezes com meninas de até nove anos. “O que está lá no livro, eu vi. Senti de perto como é a realidade dessas crianças que vivem e trabalham em condições desumanas.”

Cristina concorda que o assunto é árduo, mas precisa ser tratado entre as crianças. “É triste, mas é a realidade, tem que mostrar, da melhor maneira que puder. Criança não tem que ouvir só coisa leve. A forma de tratar e a linguagem é outra coisa: há maneiras de falar do sentimento com certa ternura.”

A escritora, que já publicou outros livros sobre esse tema, lembra que ele gera debates interessantes nas escolas e há exemplos de filhos que, ao trazer a temática para casa, conseguem uma mudança de postura dos pais. “Soube que uma menina que não sossegou enquanto seu pai, que era empresário, não abriu uma creche para os filhos dos funcionários.”

Repórter Brasil

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Entre véus e espadas

Na sociedade machista da Idade Média, rainhas subverteram a ordem ao acompanhar seus exércitos em grandes campanhas bélicas.

Luciana de Campos

A imagem da rainha guerreira que discute em pé de igualdade com seu esposo e rei está exposta em um filme de 1968, estrelado por Katherine Hepburn e Peter O’ toole. Eles representam respectivamente Leonor d’Aquitânia , rainha da França e posteriormente da Inglaterra, e, ele, o rei Henrique II Plantageneta. Essa mesma produção, O leão no inverno, contou com uma refilmagem mais drmatizada em 2003, feita para a televisão e estrelada por Gleen Close e Patrick Stewart. O que nos chama a atenção logo nas primeiras cenas da nova versão é a imagem da rainha montada em um cavalo, portando equipamentos bélicos como uma pesada armadura usada em combate, numa época em que as mulheres geralmente permaneciam confinadas nos castelos, conventos ou campos.
Essa representação parece estranha para os tempos atuais, mais ela foi mais comum do que imaginamos.
As duas versões, a cinematográfica e a televisiva, mostram a vida da rainha Leonor d’Aquitânia, que nasceu e governou uma das regiões mais ricas e prósperas da França no século 12. essa mulher, que foi dada em casamento aos 15 anos ao jovem Luís (que timha 17 e, mais tarde, seria o rei da França Luís VII), desfiou seu esposo quando, no natal de 1150, decidiu tomar as armas e partir com o exército de cavaleiros franceses rumo a 2a. Cruzada. Junto às tropas, Leonor não deixou de lado nenhum dos confortos da corte. As pesadas carroças, que deveriam transportar apenas armas e víveres, tanto para os soldados como para os animais, transportavam também louças, artigos de toucador e tudo o que as rainhas e damas da corte julgavam necessário para lutar em Jerusalém contra os mouros.

Rei neurótico, rainha nervosa.

Em pleno século 12, as mulheres – principalmente as aristocratas – estavam deixando o conforto e a segurança dos castelos para se aventurarem na mais masculina das atividades medievais: a guerra. Segundo relatos da época, tanto as carroças carregando artigos femininos quanto a presença das mulheres na marcha militar causavam espanto e indignação. Segundo os padrões sociais de então, elas estavam condicionadas a parir, orar e trabalhar. Qualquer outra atividade que fugisse dessa tríade não era bem vista.
Mas, apesar da relutância de seu esposo Luís VII, Leonor partiu para a Terra Santa. Mesmo com todo o preparo e a benção do papa, a cruzada não obteve o sucesso pretendido e, no retorno para a França, o casal real fez uma pequena parada em Roma para anular o casamento. Assim ocorreu, em 21 de março de 1152, pelo sínodo de Beaugengy. O rei ascético e a rainha temperamental, cujo espírito guerreiro era insubmisso, não podiam mais permanecer juntos.
Passadas seis semanas do divórcio, Leonor casou-se com Henrique II Plantageneta, rei da Inglaterra. Ela se aproveitou do fato de ser mãe de oito filhos e os insurgiu contra o pai, numa revolta de 1173. Novamente, a rainha tomou as armas para assegurar a herança de seus filhos.
O caso da rainha Leonor – que ficou conhecida como uma das mulheres mais belas, inteligentes, ricas e poderosas da Idade Média – não foi isolado. Muitas outras rainhas não tiveram seus feitos de guerra popularizados como os da governante francesa. Entre elas podemos citar Isabel de Jerusalém, que foi rainha dessa cidade no século 13 e mãe de outras duas mulheres rainhas e também guerreiras: Sibila e Melisenda de Lusignan. A exemplo de Leonor, tomaram as armas e defenderam suas terras e posses contrariando assim os modelos medievais de comportamento feminino.

Obediência e servidão

A mulher medieval não possuía garantias legais nem pelo direito civil, nem pelo direito canônico, que as entendiam como um sujeito incapaz de tomar qualquer decisão no campo político ou social. A mulher devia dedicar-se aos afazeres da casa, à criação dos filhos e à oração. As penalidades para as mulheres que cometessem algum crime eram diferentes das aplicadas aos homens. A quem alugasse casa à mulheres solteiras fora dos bairros autorizados caberia a pena de exílio. O homem que dormisse com uma mulher virgem ou com uma viúva honesta com menos de 25 anos, e não casasse com ela, era condenado a “pagar-lhe casamento”. Caso não tivesse bens para tanto, seria açoitado pela vila onde residia. O adultério era punido, se não houvesse perdão do marido, com execução capital dos dois culpados. No entanto, se o adúltero fosse de maior condição social do que o marido, a sentença não seria executada sem a confirmação do rei.
Devendo obediência, servidão e reverência ao homem, as mulheres estavam sempre confinadas em casa onde, em meio as tarefas de fiar, tecer e bordar, entretinham-se em ouvir as narrativas que as transportavam para lugares distantes – e sempre as ensinavam que não era permitido voltarem-se contra a servidão. Inferiorizadas na esfera familiar e também na religiosa, as mulheres encontravam na literatura um meio de extravasar seus sentimentos de rebeldia contra a tirania imposta pelos homens. Somente nas linhas cantadas pelos trovadores as mulheres estavam representadas e, sutilmente, conseguiam expor seus sentimentos.
As mulheres guerreiras e as personagens míticas também foram protagonistas de muitas narrativas e essas, mesmo sendo descritas por homens, conservavam traços da sua força contra a vassalagem. Aquelas imagens associadas ao mal e aos malefícios ocasionados pela mulher e também pelo convívio com elas, impregnaram boa parte de literatura medieval. Representando a mulher em constante situação de submissão, a literatura mostrava que era preciso exercer sobre ela um controle rígido e, dessa maneira, representá-la como a única culpada pelos males do mundo.
A distinção entre homens e mulheres na Idade Média pode ser definida assim: os homens sempre estiveram associados à força, virilidade, potência e sabedoria, enquanto as mulheres eram frágeis e estúpidas. Tudo o que se referia ao universo feminino era algo descartável, necessário somente para a perpetuação da espécie. E foi esse o pensamento responsável por permitir que a mulher não tivesse obtido nenhum espaço em praticamente toda a Idade Média, com a construção de uma imagem sempre negativa.
Algumas rainhas, mesmo ocupando alta posição social e dedicando-se aos afazeres exclusivamente femininos, conseguiram interferir em muitas questões de Estado que eram pertinentes aos homens. Aquela influência, apesar de ter causado transtornos e constrangimentos em uma sociedade machista, indicou que o sexo feminino também detinha grande poder de decisão e que poderia fazer valer a sua vontade, mesmo nos momentos de maior adversidade. Mulheres guerreiras, rainhas, damas ou simplesmente anônimas ceifeiras de trigo, todas elas contribuíram para a realização das Cruzadas e de muitas outras batalhas.
Apesar de todas as restrições sociais, políticas e religiosas da Idade Média, conseguiram assegurar seu espaço na história mostrando a importância nem dos mais complicados embates sociais do ocidente: a guerra.

Luciana de Campos é mestre em História

Revista Desvendando a História
http://www.historianet.com.br/home/

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O fim da raça humana - Quando o poder dos deuses tem limites

Os deuses possuem limites? Eles podem tudo? Existe uma onisciência, uma onipresença e uma onipotência nas divindades? Nem sempre.

Julio Gralha

Por mais que Ra seja o “todo poderoso”, há certos limites em seus poderes e mesmo uma ação produzida por ele só pode ser desfeita por um estratagema, já que certos princípios não podem ser violados por seu comando direto. Além disso, o mito nos dá conta de que a emoção desgovernada naquele que detém o poder (faraós, vizires, líderes políticos e religiosos) pode resultar em desastre.

Tomemos então o mito da destruição da humanidade como base, expresso aqui na forma de conto, para exemplificar estes conceitos:

Certa vez, Ra (visto aqui como o deus supremo do panteão egípcio) tomou conhecimento que o seres humanos, que haviam sido gerados de suas próprias lágrimas sobre os seus membros (na forma do deus Atum), pretendiam se rebelar contra ele. Enfurecido e magoado com tamanha audácia, num momento de grande dor ele ordenou a destruição da humanidade.

Convocou a deusa Hathor (algumas variantes tratam de Sekhmet) que então se transformou na deusa Sekhmet, cujo nome significa “A Poderosa”. Assim, a “leoa solar” partiu em busca dos homens com ordens expressas de Ra para exterminar a raça humana. A carnificina seria tamanha!

O deus Ra, vendo tudo aquilo, não mais furioso e arrependido por ter dado tal ordem, tentou parar Sekhmet. No entanto, uma vez dada a ordem à deusa, ela não pode ser parada. Apreensivo, ele convocou os deuses para bolar um estratagema para impedir Sekhmet de completar sua tarefa.

Espalharam sobre Terra 7 mil cântaros de cerveja tingidos de vermelho para simular o sangue da humanidade. Ao tomar o falso sangue, Sekhmet se embebedou, foi acalmada e silenciada pelos deuses. A raça humana estava livre da extinção e o coração de Ra foi apaziguado.

Julio Gralha, 45 anos, é professor de História Antiga, Medieval e de Rio de Janeiro. Formado pela UERJ, mestre pela UFF e doutorando pela Unicamp, é também professor colaborador do NEA-UERJ.

Aventuras na História
http://historia.abril.com.br/

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Recebi de uma ex-aluna…e achei bonito

Ser Professor é muito mais do que transmitir o conhecimento.
É aquele que ensina com dedicação e paciência, é aquele que quebra os nossos galhos, aquele que quando tudo está difícil ele abre um sorriso e diz: calma, você vai conseguir.
É agir com simplicidade, com companheirismo, está sempre disposto a te ajudar a qualquer hora , enfim todas essas características se resume em você, não é a toa que podemos afirmar que você não é nosso professor e sim um grande AMIGO.

Jumelão….
Obrigada por tudo e parabéns pelo seu dia!
Beijinhos!

Parabéns pelo seu dia.

Juliana

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Fundação continua a greve e a ocupação

Liora Mindrisz (liora@abcdmaior.com.br)

A decisão foi tomada em assembléia na noite de terça-feira (16/10) de professores e alunos

Os alunos e professores da Fundação Santo André decidiram na noite de terça-feira (16/10) continuar as aulas paralisadas. Mesmo após a visita dos oficiais de justiça no prédio da Fafil (Faculdade de Filosofia), pela manhã. Eles foram comunicar oficiosamente a existência de uma liminar de reintegração de posse concedida pela juíza Vanessa Carolina Fernandes Ferrari, da 3° Vara Cível de Santo André, contra 29 professores e 21 alunos da instituição, os alunos acampados não irão deixar o prédio.

A liminar prevê a multa de R$ 2.500 por dia para cada um dos 50 citados no processo. A notícia do processo, recebida na segunda-feira (15/10), dia dos Professores, causou revolta. Em reunião, os professores paralisados decidiram procurar um advogado para a defesa. O professor Vanderlei Mariano, citado na liminar, diz não entender como foi feita a escolha dos 50 nomes, pois os professores não estão ocupando o prédio. “Eu acho que escolheram alguns desafetos do reitor e aí completaram com outros nomes para não ficar caracterizado só com professores, fizeram uma mescla para não dar tanto volume de professores, ou seja, alguns critérios a gente estabelece, outros, a gente não tem idéia”, diz.

Lúcia Rodrigues, professora que está fora do processo mas dentro da luta, se indigna com o autoritarismo da ação. “As acusações são sem sentido, se processam, julgam e condenam as pessoas sem a menor formalização, as pessoas não são nem sequer avisadas que são rés em processo”, explica. “Nós estamos apenas dizendo à ele (o reitor) que existem professores e estudantes que pensam e que se posicionam diferentemente dele. A única alternativa para volta da normalização nessa instituição de ensino é que o Odair Bermelho deixe a reitoria”.

O aluno José Dalmo Vieira Duarte, representante dos alunos no Conselho Diretor da Fundação e que não está acampado no prédio, foi um dos alunos citados na liminar. Para o estudante não existe necessidade de reintegração de posse, pois não há posse alguma. “O processo é um absurdo. Primeiro de tudo, não existe ocupação do centro universitário. Segundo, eles não utilizaram nenhum critério, os réus foram escolhidos aleatoriamente. São barbaridades e infelizmente o judiciário percorreu caminhos equivocados”, diz.

Assembléia – Houve a tentativa de fazer a assembléia geral no pátio do colégio, onde alguns cursos estão tendo aula, mas choveu e o ato aconteceu no prédio da Fafil. Os professores, que estavam fazendo sua reunião no mesmo prédio, resolveram fazer a conversa junto com os alunos e, assim, juntar as forças. O curso de Sistema de Comunicações, o mais forte da Fundação, com cerca de mil alunos, estava presente e anunciou na assembléia que gostaria de voltar as aulas e estava abandonando a greve. Porém, em suas falas os professores disseram que não há condições de volta à normalidade e insistiram na paralisação de todos. Um dos professores do curso, Odair Garcia, disse que “ou expulsam os professores e alunos ou sai o reitor”. A votação quase unânime decidiu a continuação da greve. Em solidariedade aos professores citados no processo, ninguém assinou o ponto na noite de terça.

Calendário da Semana – Na assembléia foi decidido também que alguns alunos irão à Câmara de Santo André na quarta-feira (17/10), as 19h, onde o deputado federal Vanderlei Siraque estará presente, para uma manifestação. Às 20h acontece na Fafil uma reunião do comando de greve. Na quinta-feira (18/10) as 19h o professor Odair Garcia dará uma aula pública sobre a história da Fundação e suas irregularidades.

Sábado o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que esta apoiando a luta dos professores e alunos, comparecerá na Fundação as 13h para uma atividade política no pátio da Fafil. Em seguida, os alunos convidarão o senador para uma passeata pelas ruas da cidade para, mais uma vez, mobilizar a sociedade.

ABCD Maior

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O fio de prumo

Livros de medicina, história e memórias mapeiam e definem o que é a loucura

Renato Pompeu

Quase todos os livros sobre loucura foram escritos por médicos e terapeutas, e uma parte por pacientes, mas o mais famoso deles foi publicado por um historiador e filósofo, o francês Michel Foucault: História da loucura na Idade Clássica, que conta como os loucos passaram a ser considerados doentes e confinados em massa a partir do triunfo da Razão, que resolveu isolar os “irracionais”.

Na minha visão de ex-interno psiquiátrico e paciente psicanalítico, Foucault teve o mérito de chamar a atenção para a brutalidade do tratamento em geral reservado aos loucos e o demérito de desqualificar todas as correntes psiquiátricas, inclusive as que de fato ajudam os pacientes. Por exemplo, não se pode desqualificar a Psiquiatria do suíço Eugen Bleuler, que no começo do século XX definiu que o estado psíquico de um indivíduo depende da disposição inata, do desenvolvimento somático e da experiência vital pessoal, sendo de notar que o ambiente tanto é um fator na formação do indivíduo como também é alterado pelo próprio indivíduo; que o grau de inteligência tem um grau de dependência menor em relação às condições ambientais do que a formação do caráter, que tem um grau maior de dependência em relação ao ambiente.

Nem se pode desqualificar a Pequena psiquiatria, do holandês J. H. Van Den Berg, de meados do século XX, que lembra a cada terapeuta que o paciente, quando é levado a tratamento, já passou por um longo período de sofrimento, já foi sadio, tem um círculo de familiares, amigos, colegas e conhecidos, tem a sua própria opinião sobre seu estado; que a avaliação correta de seu estado depende de uma longa observação, a melhora rápida é exceção, e, principalmente, que existe uma multiplicidade de fatores na situação.

Foucault nega que a psicoterapia esteja em “progresso”, mas o recente O desafio da esquizofrenia, coordenado por Itiro Shirakawa, Ana Cristina Chaves e Jair J. Mane, médicos da Unifesp, mostra como se avançou, ao longo de mais de 100 anos, no conhecimento e no tratamento dessa condição. O que realmente acontece é que, como em todas as atividades, esse progresso não é retilíneo nem uniforme, mas pontilhado de contradições e regressões, convivendo num mesmo período reacionários e progressistas.

Muito útil é o Convivendo com a esquizofrenia – um guia para pacientes e familiares, do médico Mario Rodrigues Louzã Neto, que assinala notadamente que os medicamentos e as terapias psicossociais são, cada um por si, necessários, mas, cada um por si, insuficientes; que nenhum dos dois métodos, nem a sua combinação, “cura” a doença, mas eles podem proporcionar uma vida produtiva Curioso é que a maioria dos livros de pacientes se contrapõe às teses de Foucault, como é o caso de Memórias do delírio – confissões de um esquizofrênico e de O anjo carteiro – a correspondência da psicose, ambos de L. F. Barros. Como o meu próprio Memórias da loucura, Barros conta como foi benéfica para ele a psiquiatria mais avançada. Como contraponto, há O canto dos malditos, de Austregésilo Carrano, filmado como O bicho de sete cabeças. Carrano relata a loucura da psiquiatria repressiva e atrasada, com seus encarceramentos, eletrochoques indiscriminados etc. – mas ele nem devia ter sido internado, pois seu único “sintoma” foi fumar maconha.

A história da psiquiatria no Brasil, de Jurandir Freire Costa, é um bom livro, mas com título enganoso, pois é apenas a história da Liga Brasileira de Higiene Mental, que nos anos 20 e 30 pregava a esterilização dos “incapazes” e a proibição dos casamentos interraciais e da entrada de imigrantes não-brancos.

Tendo começado com Foucault, encerramos com a sábia conclusão de seu Doença mental e psicologia: é cedo para fazer uma ciência da doença mental, pois estamos ainda em pleno nascimento dessa ciência e do próprio conceito de “doença mental”.

OS Dez LIVROS
• História da loucura na Idade Clássica, de Michel Foucault, Perspectiva
• Psiquiatria, de Eugen Bleuler, Guanabara-Koogan
• Pequena psiquiatria, de J. H. Van Den Berg, Mestre Jou
• O desafio da esquizofrenia, de Itiro Shirakawa, Ana Cristina Chaves e Jair J. Mane, Proesq
• Convivendo com a esquizofrenia, de Mario Rodrigues Louzã Neto, Lemos
• Memórias do delírio, de L. F. Barros, Imago
• O anjo carteiro, de L. F. Barros, Imago
• O canto dos malditos, de Austregésilo Carrano, Rocco
• A história da psiquiatria no Brasil, de Jurandir Freire Costa, Documentário
• Doença mental e psicologia, de Michel Foucault, Tempo Brasileiro

Renato Pompeu é jornalista e escritor, autor do romance-ensaio “O mundo como obra de arte criada pelo Brasil e de Memórias da loucura”.

EntreLivros

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‘Acreditava que eles mudariam’, diz Lancelotti após extorsão

Padre foi chantageado durante três anos por jovens, tendo pago R$ 50 mil; criminoso foi preso em flagrante

Bruno Paes Manso

Padre diz que acreditou poder mudar mentalidade de ex-interno da Febem que o chantageava
SÃO PAULO - Visivelmente emocionado, com o olhar perdido enquanto falava, o padre Júlio Lancelotti, da Pastoral do Menor, passou nesta terça-feira, 16, por uma sessão de entrevistas para explicar a chantagem da qual foi vítima. Durante três anos, o padre pagou a uma quadrilha R$ 50 mil.

- Padre Julio Lancelotti é vítima de extorsão em SP, diz polícia

A extorsão, porém, terminou no último dia 6 de setembro, quando o ajudante Everson dos Santos Guimarães, de 26 anos, foi preso em flagrante após receber R$ 2 mil do religioso.

A prisão dele foi feita na zona leste de São Paulo. O padre sofria ameaças de morte e também era ameaçado de ser denunciado sobre abusos sexuais a menores pelo grupo. De nacordo com a polícia, Guimarães agia com Anderson Marcos Batista, sua namorada, Conceição Eleutério, além de Evandro Guimarães, irmão de Everson. A Justiça decretou a prisão preventiva dos três acusados

Leia, abaixo, a entrevista de Júlio Lancelotti:

Como conheceu o Anderson?
Conheci há sete anos quando fui fazer uma visita a uma unidade de alta contenção da Febem no Tatuapé. Ele estava trancado na cela e gritou, chutou a porta, porque queria que eu conversasse com ele. Tinha problema de disciplina e disse que tinha apanhado. Quando saiu, ele me procurou porque não tinha onde morar, não tinha trabalho. Eu o ajudei a arrumar emprego em uma frente de trabalho.

Houve ameaça nessa época?

Não. Ele seguiu o caminho dele, trabalhou. Depois da união com a nova companheira (Conceição), de uns três anos para cá, as coisas foram se tornando tensas.

Como eram as ameaças?

Todo tipo de constrangimento. Eu ia sair de casa, tinha um carro parado na porta. Uma vez ameaçaram invadir minha casa com um carro. Fiquei horas para dissuadi-los. Tocavam a campainha de casa não sei quantas vezes. Deixavam dez recados de uma vez no celular. Eu ficava empurrando para frente. Quanto eles tinham dívidas e precisavam de dinheiro, voltavam à carga.

Eles ameaçavam dizer que o senhor abusou sexualmente de jovens da Febem?

Isso aconteceu duas vezes, principalmente nos momentos em que ficavam mais desesperados. Principalmente ela. Usando o próprio filho deles. Eles tinham um filho que morreu com 3 anos em um acidente não esclarecido, quando o carro recuou e atropelou a criança e a matou na casa deles. Eles ameaçavam dizer que eu tinha abusado do filho deles.

Por que o senhor deu dinheiro a eles por tanto tempo em vez de denunciar à polícia?

Eu acreditava que podia conseguir que mudassem. Perguntava como podiam me ameaçar usando o nome do próprio filho. Um dia eu falei para ele: ‘O que vocês estão fazendo comigo? Estão me causando um cansaço enorme. Estou cansado de viver.’ Ele disse: ‘Ah, você está cansado de viver? Então a gente pode tomar providências.’

Parte do dinheiro era para pagar prestação de uma Pajero. Não era o caso de recusar?

Eu contestava. Dizia que não havia condições. Mas ele ameaçava: ‘Vamos ter que dar um jeito, vai ter que acontecer.’

O senhor se arrepende de ter prolongado esse relacionamento?

Eu sinto que procurei sempre tocar no coração deles para que mudassem. Falei a eles que nem aqueles que são os meus inimigos mais fortes conseguiram me atingir. Eu dizia: ‘Vocês estão destruindo dentro de mim a esperança, a alegria e a vontade de viver.’

Como isso mudou a forma que o senhor encara a questão social?

Hoje vejo que tenho que ser mais perspicaz para perceber as pessoas, mas cuidadoso na forma de agir. E tenho um olhar mais entristecido para essa realidade.

Jornal Estado de S. Paulo
www.estadao.com.br

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A renovação do marxismo

Christian Ingo Lenz Dunker

A queda do muro de Berlim não representou a derrocada do comunismo nem o fim da história, muito menos a abolição da esquerda. Para a maior parte dos movimentos sociais e pensadores ligados à tradição crítica ou marxista, esse fato simbólico foi o pretexto que faltava para a formação e radicalização de um novo discurso. A revista britânica New Left Review foi um ponto de encontro para essa esquerda alternativa, que havia passado por sucessivas decepções: o humanismo marxista, a reação estruturalista de Louis Althusser, o ativismo maoísta, as inúmeras formas de troskismo, sem falar no socialismo real. A Nova Esquerda tem em comum a desconfiança do fetichismo do Partido, a crítica do economicismo marxista clássico e a recusa da concepção ingênua da ideologia considerada como uma espécie de erro cognitivo da consciência. No lugar soberano e onipotente do Partido, a Nova Esquerda se preocupa em mostrar a precariedade da noção de política em Karl Marx bem como sua ligação instável com políticas claras e definidas que deveriam ser seguidas em obediência silenciosa. No lugar do reducionismo econômico, a Nova Esquerda pretende redescrever a noção de classe, levando em conta o gênero, a cultura e o consumo, e não apenas o paradigma da produção. Finalmente, no lugar da ideologia, entram em cena complexas estratégias de desconstrução, crítica e resistência discursiva ao lado do reconhecimento de que faltaria ao marxismo clássico uma boa teoria sobre a subjetividade.

É nesse contexto que surge a figura de Slavoj Zizek. Ele foi rapidamente percebido como alguém capaz de dar voz a essa renovação do marxismo com sua surpreendente releitura de Georg Hegel aliada a uma potente junção com conceitos do psicanalista Jacques Lacan. Zizek não é um pensador sistemático que nos convida para a arqueologia e a reconstrução de teses, ao gosto da prática universitária corrente; mas também não é um intelectual edificante, ensaístico ou opinativo, interessado apenas em questões pontuais e intervenções localizadas. Seu estilo é o de um intelectual engajado, um pensador que, sobretudo, toma posições. Em geral, tais posições nos fazem rever o próprio mapa, ou as coordenadas simbólicas de que dispomos para localizar a questão tratada. Daí a importância da noção de ato que atravessa seus escritos.

Zizek nasceu em 1949, em Liubliana, capital da Eslovênia, a mais próspera das províncias da antiga República da Iugoslávia, e a primeira a se tornar independente em 1991. Em 1971, ele completou sua graduação em filosofia e ciências sociais e, em 1975, apresentou sua tese sobre A relevância prática e teórica do estruturalismo francês. Filho de comunistas linha-dura, ele vê fracassar sua aspiração ao rápido ingresso no sistema burocrático-universitário. É reprovado no concurso para professor de filosofia e amarga a dura e contemporânea experiência de desemprego. Dois anos depois encontra uma curiosa ocupação no Comitê Central da Liga Comunista da Eslovênia. Sua função é redigir discursos para a burocracia stalinista. Nessa condição, Zizek acompanha a formação do discurso nacionalista sérvio e, particularmente, a construção ideológica da importância da região de Kosovo. Esse minúsculo enclave territorial precisava ser elevado à condição de um lugar glorioso na história do país. Uma espécie de mito das origens necessário para manter a unidade iugoslava. Tudo se passa como se Kosovo, lugar onde os sérvios detiveram o avanço das tropas otomanas em 1349, representasse uma espécie de núcleo traumático, reativado 600 anos depois, adquirindo nessa reativação um valor simbólico estratégico para justificar a ideologia nacionalista nos Bálcãs. Zizek se encontra, portanto, no interior desse projeto de engenharia discursiva às voltas com a produção de uma mitologia histórica. Além disso, fica cada vez mais claro que o marxismo edulcorado dos herdeiros de Josip Tito (o socialismo de empreendimento ou o socialismo de mercado) se legitimava teoricamente como socialismo apenas na tese da burocracia como classe universal. Porém, essa tese é mais hegeliana que marxista. Isso nos dá uma primeira indicação do caminho teórico de Zizek, que vai de Marx a Hegel e não o contrário.

É nessa posição crítica - entre a impostura do socialismo iugoslavo e o crescente interesse do capital ocidental na emancipação da Eslovênia - que Zizek procura uma alternativa, engajando-se na resistência cultural e política em torno da NSK (Nova Cultura Eslovena). Tal grupo é constituido por uma ampla frente de resistência à burocracia, que inclui o teatro, as artes plásticas, a música e a Escola Lacaniana da Eslovênia. Uma figura emblemática dessa frente é a banda de punk rock chamada Laibach. O manifesto cultural dessa frente adota uma curiosa estratégia: recusa-se a ser reconhecida como uma dissidência e ocupar assim o lugar de oposição. Tal lugar está prescrito e calculado pelo próprio sistema burocrático, de tal forma que toda dissidência se torna inócua e, no fundo, uma paródia. O dissidente, o “alternativo” ou aquele que se acredita “fora do sistema” joga apenas o papel estabelecido pelo sistema que, para se legitimar como democrático, precisa tolerar e estimular a diferença. Os exemplos vão dos expurgos periódicos à pseudo-oposição necessária para manter a burocracia como discurso hegemônico e produzir um efeito ilusório de liberdade de pensamento. Contra isso, a estratégia de resistência adotada pelo NSK está baseada no que Zizek chamou de -superidentificação -( overidentification). Um exemplo: o Partido Socialista Iugoslavo propõe um concurso nacional para selecionar o cartaz em homenagem ao Dia da Juventude (data de nascimento do general Tito). Os dissidentes decidem que não vão participar, afinal, eles repudiam o personalismo contido na idéia de Dia da Juventude. O NSK, ao contrário, envia para o concurso um garboso ensaio fotográfico com musculosos corpos atléticos segurando tochas no mais autêntico estilo social-realista. De fato, vencem o concurso, mas no dia da entrega do prêmio, eles decidem “explicar” sua obra. Tratava-se de um “remake” de um cartaz feito em homenagem a Hitler por ocasião dos jogos Olímpicos de Munique. Ou seja, o prêmio não podia ser entregue, pois se tratava de plágio, e mais, o Dia Nacional da Juventude, junto com seus críticos, fãs e dissidentes mostrou abertamente sua face totalitária ao lado de seu anacronismo estético. Resultado: jamais houve outro concurso de cartazes para o Dia Nacional da Juventude Iugoslava.

Na tática da superidentificação, trata-se de recusar a distância cínica entre a cultura “oficial” e a cultura “alternativa”, distância que produz uma separação artificial e enganosa, alienando o sujeito em uma falsa posição “externa” ao sistema. Pela superidentificação, ao contrário, trata-se de tomar as formas simbólicas dominantes pelo seu valor de face e a partir de sua repetição reflexiva produzir desestabilizações internas ao sistema. Renúncia da consciência pessoal, de gostos, juízos e convicções, aceitação voluntária e deliberada do papel da ideologia. Um exagero da falsa aparência cujo objetivo é mostrar seu caráter insensato. A superidentificação tenta reverter, através de intervenções pontuais, a oposição tradicional entre Estado e Sociedade Civil, tematizada por Antonio Gramsci e amplamente explorada pela Liga Comunista Eslovena. Tal estratégia será empregada, com inúmeras variações, nos textos, entrevistas e declarações públicas de Zizek. São intervenções que, tomando ao pé da letra o enunciado ideológico, mostram, em ato, a falsidade de sua enunciação. Em parte, essa nova estratégia de oposição está ligada à experiência intelectual de Zizek, que cresceu em um ambiente no qual a teoria crítica da Escola de Frankfurt ou a fenomenologia de Martin Heidegger formavam um amálgama ideológico utilizado amplamente pelo Partido Socialista Iugoslavo. Ou seja, nenhuma teoria é crítica ou ideológica em si, mas apenas sua articulação.

A teorização dessa estratégia se alimentará da experiência em Paris, durante a década de 1980, quando Zizek estuda psicanálise. Sua tese de doutorado, acerca das relações entre Hegel e Lacan, bem como a análise pessoal empreendida nesse período, começam a sedimentar uma combinação entre crítica da cultura, prática política e estudos acadêmicos, baseada em autores clássicos, que raramente se encontra.

É nesse contexto que, em 1990, Zizek se lança como candidato à presidência da Eslovênia em uma curiosa aliança com o partido Liberal Democrata. O partido Liberal Esloveno reunia, nesse momento, uma diversidade de minorias organizadas que iam do feminismo aos ecologistas, da contracultura artística aos radicais independentes. Vê-se, por isso, como o contato com a diversidade político-cultural emergente não se reduz em Zizek apenas a uma experiência teórica.

A dificuldade e as contradições para articular um projeto político nesse contexto levam Zizek a participar de uma posição política que resulta em apoiar o “choque de capitalismo” em 1995. Finalmente, diante da alternativa de bombardear a Sérvia - desacreditando completamente o papel da ONU - ou não bombardear a Sérvia - e condescender com o morticínio da purificação étnica - Zizek afirmará: “como alguém de esquerda, minha resposta ao dilema ‘bombardear ou não’ é: as bombas não são suficientes, e elas vêm muito tarde”. Em outras palavras, o bombardeio não é um meio legítimo e eficaz, como quer a chantagem ocidental, e para Milosevic as bombas deveriam ter vindo antes. Dois enunciados verdadeiros mostrando a falsidade da enunciação, ou seja, do próprio lugar impossível de onde o dilema é colocado, inclusive desde sua lógica temporal (muito cedo e muito tarde). Estratégia semelhante será assumida diante do ataque de 11 de setembro a Nova York, bem como no caso da invasão do Iraque.

O engajamento de Zizek deve ser encarado de modo diferente da participação ritual em movimentos sociais. Ele está sempre desconstruindo sua própria posição, produzindo aberturas e se relocalizando em novos debates. Como ele afirma em uma entrevista: “Não se esqueça de que comigo as coisas sempre são o contrário do que parecem.” O chiste, o humor, a capacidade de reunir erudito e popular, trafegando pela vasta gama de problemas e autores das ciências humanas, do passado e do presente, em linguagem clara e provocativa, colocaram Zizek definitivamente em evidência no final da década de 1990. Zizek conseguiu assim absorver aspectos da retórica do pós-modernismo sem endossar suas teses.

Boa parte dessa recepção pode ser atribuída ao que se supunha estar presente no programa de Zizek. Um autor que parecia representar uma verdadeira e fiel reflexão acerca da desintegração dos Estados socialistas do Leste europeu. Um novo alento para os teóricos da democracia radical e do pós-marxismo. Mas também um autor que parecia colocar finalmente o pensamento lacaniano para fora de sua clausura institucional, pondo-o em contato com as grandes questões do pós-estruturalismo francês, com a filosofia da linguagem anglo-saxônica e com a tradição dialético-fenomenológica germânica. Um autor que trazia, a partir de sua forma original de tratar a cultura, uma franca interlocução com o universo popular do cinema, com a teoria feminista e com o ativismo multiculturalista, sem contar a vasta presença de seus textos na internet. Três públicos que tornaram Zizek convincente no ambiente acadêmico norte-americano. Além disso, suas reflexões sobre a religião e sobre a fragmentação política do capitalismo pós-moderno o tornaram um autor palatável para um público amplo.

Após essa entrada fulgurante, verificou-se uma espécie de decepção. O Marx, que se pressentia reinventado em suas primeiras publicações na New Left Review, trazia consigo a perigosa sombra de Hegel e a ausência de uma teoria sobre os movimentos sociais. Hegel, rejuvenescido pelo contato com as questões da cultura contemporânea, acabava encoberto por sua sombra lacaniana e sua problemática herança recebida de Alexandre Kojève. Finalmente, o Lacan, arejado e funcional, que se intuía de sua colaboração com Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, ressentia-se de reflexões mais verticalmente clínicas. Como o próprio Zizek já avisara: nada é o que parece ser. Pois não seria o caso de reaplicar esse dito à própria decepção? Não seria Zizek mais crítico agora que ele parecia dizer o oposto do que gostaríamos de ouvir?

OBRAS DE ZIZEK PUBLICADAS NO BRASIL:
- O sublime objeto da ideologia . Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 1989.
- O mais sublime dos histéricos: Hegel com Lacan. Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 1996.
- “Como Marx inventou o sintoma”, in Um mapa da ideologia. Contraponto,
Rio de Janeiro, 1999.
- Bem vindo ao deserto do real. Boitempo, São Paulo, 2004.
- Às portas da revolução - escritos de Lênin de 1917. Boitempo, São Paulo, 2005.

SOBRE ZIZEK:
Dunker, C.I.L. & Aidar Prado, J.L. - Zizek crítico - política e psicanálise na era do multiculturalismo. Hacker, São Paulo, 2005.

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor e livre-docente pelo Departamento de Psicologia Clínica do IPUSP

Revista Cult

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Blog Controvérsia: 15 meses e 50 mil visitas

Completamos neste dia 17 de outubro o 15° mês de vida do Blog Controvérsia e conseguimos atingir a marca de 50 mil visitas neste último mês, o que representa mais de 1.600 visitas/dia em média. O recorde de visitas anterior havia sido de 41 mil entre junho e julho deste ano.

Obrigado pelos cliques, sugestões, contribuições e críticas.

Acompanhe a movimentação mês a mês (desde 17 de julho de 2006, quando o Blog foi lançado).

01° mês (17/07 a 17/08): 3 mil visitas (0 a 3.000)
02° mês (17/08 a 17/09): 3 mil e 500 visitas (3.000 a 6.500)
03° mês (17/09 a 17/10): 5 mil visitas (6.500 a 11.500)
04° mês (17/10 a 17/11): 5 mil e 800 visitas (11.500 a 17.300)
05° mês (17/11 a 17/12): 7 mil e 900 visitas (17.300 a 25.200)
06° mês (17/12 a 17/01): 10 mil visitas (25.200 a 35.200)
07º mês (17/01 a 17/02): 13 mil e 800 visitas (35.200 a 49.000)
08° mês (17/02 a 17/03): 13 mil e 100 visitas (49.000 a 62.100)
09° mês (17/03 a 17/04): 19 mil e 700 visitas (62.100 a 81.800)
10° mês (17/04 a 17/05): 26 mil e 200 visitas (81.800 a 108.000)
11° mês (17/05 a 17/06): 31 mil visitas (108.000 a 139.000)
12º mês (17/06 a 17/07): 41 mil visitas (139.000 a 180.000)
13º mês (17/07 a 17/08): 31 mil visitas (180.000 a 211.000)
14º mês (17/08 a 17/09): 39 mil visitas (211.000 a 250.000)
15° mês (17/09 a 17/10): 50 mil visitas (250.000 a 300.000)

Obrigado. Ricardo Alvarez

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Processo kafkaniano

José de Souza Castro
Do Tamos com Raiva

As denúncias publicadas pela imprensa, para surpresa de muitos, começavam a surtir algum efeito. Percebia-se uma leve sacudida na teia em que se teciam falcatruas na Justiça do Trabalho.

Em janeiro de 1980, o TST decidiu nomear uma comissão para estudar formas de reduzir as possibilidades de corrupção e nepotismo nos Tribunais Regionais do Trabalho e fortalecer a competência do corregedor-geral da Justiça do Trabalho, dando-lhe poderes também para interferir na vida administrativa dos TRTs. Faziam parte da comissão o presidente do TST, ministro Starling Soares, o corregedor-geral, ministro Carlos Alberto Barata Silva, e o ministro Hildebrando Bisaglia, ex-presidente do Tribunal.

Em março, por sugestão daquela comissão, o TST encaminhou ao Executivo anteprojeto de lei alterando dois artigos da Consolidação das Leis do Trabalho, com o objetivo de dar ao corregedor-geral e ao Tribunal Pleno poderes para anular atos aéticos dos TRTs. Um outro anteprojeto, enviado ao ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel, estabelecia exigências para evitar favoritismo no provimento dos cargos de diretor de secretarias das cerca de 400 Juntas de Conciliação e Julgamento existentes no país, que eram nomeados pelo presidente de cada TRT.

No mês anterior, fora anunciado que o órgão competente para julgar todas as denúncias e reclamações de nepotismo envolvendo juízes da Justiça do Trabalho em Minas, Salvador e Rio de Janeiro, era o Conselho Nacional da Magistratura, composto por sete ministros do Supremo Tribunal Federal. Seu regimento diz que é cabível qualquer reclamação, em termos de denúncia fundamentada, “contra juiz de qualquer Tribunal”.

Entre os motivos justificáveis para que uma pessoa pudesse reclamar contra membro de qualquer Tribunal, estavam: manifesta negligência do juiz no cumprimento dos deveres do cargo; procedimento incompatível com a dignidade, a honra, o decoro das funções; a escassa ou insuficiente capacidade de trabalho; e procedimento incompatível com o bom desempenho das atividades do Poder Judiciário.

Foi nesse clima que 15 dirigentes de sindicatos patronais que exerciam cargos de vogais na Justiça do Trabalho em Minas por tempo superior ao previsto em lei (nove anos) deixaram de ser reconduzidos, embora seus nomes constassem nas listas tríplices. Motivo: o TST havia recomendado ao presidente do TRT que não os nomeasse novamente.

Portilho afirmou, em entrevista, que aqueles 15 vogais ajudaram Fábio Motta a se manter na presidência da Fiemg e na direção regional do Sesi nos últimos 22 anos, em troca de cargos na Justiça trabalhista.

Na verdade, a Justiça do Trabalho resolveu boa parte de seus problemas com a edição da Emenda Constitucional nº 24, de 10 de dezembro de 1999, que extinguiu a representação classista. A Emenda manteve, porém, os mandatos em curso até sua extinção. Com isso, alguns vogais nomeados pouco antes puderam receber ainda mais três anos de salários e até se aposentar, ganhando bem mais do que o limite de 10 salários mínimos que recebem do INSS os trabalhadores que diziam representar.

Em junho de 1980, Portilho impetrou mandado de segurança contra o presidente do TRT, Alfio Amaury dos Santos, e o vice-presidente, Gustavo Azevedo Branco. Alegou que havia sido proibido de entrar no Tribunal. No fim de janeiro, o chefe da segurança do TRT, José Pimentel de Oliveira, chegou a pegar em algemas, para convencer Portilho – que já havia sido licenciado por um ano para tratamento de saúde – de que falava sério: ele seria algemado e preso, se insistisse em entrar no prédio.

Na petição, o advogado Hitler Ferreira de Sousa argumentou que Portilho não podia ser barrado na portaria, e que ele podia entrar “como um cidadão comum, com todos os seus direitos, não só de funcionário público da repartição, mas como cidadão ordeiro, pacato e que apenas por amor à causa pública se tornou persona non grata aos donos de uma Casa de Justiça”.

Esse episódio parece irrelevante, diante do que se passou depois.

Talvez, o mais dramático movimento tentado pelos juízes do TRT para silenciar nosso herói foi sua interdição. Se a Justiça acatasse o pedido, Portilho não poderia mais comprar a crédito, assinar qualquer tipo de contrato, trabalhar, vender ou praticar qualquer outro ato da vida civil. De fato, estaria aberta a porta por onde ele sairia definitivamente do Tribunal, como aposentado. Depois da interdição, teria que passar o resto da vida tentando convencer os outros de que não era preciso interná-lo num manicômio. “Senhores, deixemo-nos dessas coisas; o que foi já não é: fui louco e estou hoje em meu juízo”, como dizia Dom Quixote, já no leito de morte.

A interdição foi pedida pelo TRT, em requerimento encaminhado ao procurador-geral do Estado, Waldir Vieira, que imediatamente o encaminhou ao promotor de Justiça Luiz Prudente da Silva. Este alegou, na sua petição, ser Portilho portador de anomalia psíquica grave, e dado a assumir a publicação e divulgação de notícias falsas e tendenciosas visando a difamar, caluniar e injuriar pessoas.
E dramatizou o promotor:

“Os atos atingem a todo TRT - 3ª Região, podendo até mesmo culminar em ofensas físicas, já que a loucura pode ultrapassar os limites dos arroubos verbais”.

Luiz Prudente anexou à petição vários recortes de jornais. Entre eles, a entrevista publicada pelo JB em que dizia sentir-se tratado como os dissidentes russos.

Apesar de todos esses preparativos, o juiz Caetano Carelos, da 1ª Vara Cível, não teve dificuldades para aparar o golpe desfechado contra nosso aturdido combatente. Em novembro de 1980, o juiz indeferiu tanto o pedido para nomear um curador para acompanhar o processo de interdição, como para nomear um perito – um psiquiatra – que confirmasse a doença mental. Atuou como advogado de defesa Luís Carlos de Portilho, que argüiu a suspeição do procurador-geral Waldir Vieira. Lembrou ainda que, por lei, apenas os pais e, na falta destes, o cônjuge, podem promover a interdição, se a pessoa a quem se quer interditar é pródiga e está louca furiosa.

– O que não é o meu caso – garantiu nosso Dom Quixote, em entrevista.

Aqueles que entraram com o pedido de interdição certamente conheciam a lei. Se o objetivo era ganhar espaço na imprensa, conseguiram. Muito embora o juiz Caetano Carelos houvesse determinado, no fim de outubro, que o processo transcorresse em segredo de justiça, o Jornal de Minas, que se ausentara até então do noticiário sobre o TRT, abriu esta manchete na edição de 4 de novembro: “Tribunal pede interdição de servidor deficiente”. O Jornal do Brasil, que vinha divulgando bem as denúncias, desta vez escorregou, ao dar a informação em apenas um parágrafo e com um título errado: “Justiça interdita serventuário”.

Apesar da decisão em primeira instância, esse processo kafkaniano só teve um desfecho em junho de 1984, quando o Tribunal de Justiça de Minas resolveu extinguir o processo, porque quem pedira a interdição era “parte ilegítima”. Sem nada a ter com essa briga, o contribuinte mineiro pagou o pato: o Estado (e não o procurador-geral) foi condenado ao pagamento das custas processuais.

O que mais se destaca em toda essa confusão é o voto do relator, desembargador Costa Loures, que declarou:

“Desmerece as agruras e as angústias de um processo aquele que, acusado de desmandos, desvarios, calúnias, injúrias e difamações, vê-se absolvido das imputações criminais que lhe fizeram; ou dos inquéritos administrativos correlatos que lhe foram movidos, ou que, dois anos depois de requerida sua interdição, foi nomeado para exercer o cargo em comissão de diretor de Serviço de Distribuição de Feitos no Tribunal a que serve; ou, um ano antes, eleito membro titular da Comissão de Progressão e Acesso do TRT”.

O desembargador tomou fôlego, e prosseguiu:

“Por que não dizê-lo, um processo de tal natureza, pelas suas implicações, por suas malévolas, mas ocultas e não confessadas inspirações de terceiros, ou por suas possíveis e desastradas conseqüências, certamente inspiraria um outro Franz Kafka, atormentado a ponto de escrever a obra clássica, ou por viver ’O Processo’ e ser, só então, capaz de escrevê-lo”.

Não surgiu um novo Kafka. Nenhum escritor se aventura a viver aquele processo para ganhar bastante inspiração…


Revista NovaE

http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=605

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Lula: governo amigo do capital financeiro

08/10/2007

O crescimento econômico do Brasil, embora pequeno, é conseqüência do crescimento mundial, e não mérito do governo. A opinião é da economista Leda Paulani. Ao analisar a política econômica atual, a pesquisadora afirma que o PAC nada mais é do que marketing político, que não garantirá um crescimento sustentável. Sobre o modelo de crescimento econômico, que não demonstra preocupações com o meio ambiente tampouco com os trabalhadores, ela diz que ele é contraditório e trará dificuldades para os próximos governos.

Leda Paulani é doutora em Teoria Econômica pelo Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, ela é docente da mesma universidade e presidente da Sociedade Brasileira de Economia Política.

O Brasil tem conseguido recuperar a trajetória de crescimento que teve entre 1930 e 1980? O Lula tem conseguido melhorar a economia do país?

Leda Paulani – Com relação à trajetória de crescimento, isso depende muito do que está acontecendo com a economia mundial. A economia brasileira não é uma das maiores do mundo, mas, de qualquer maneira, não é tão pequena que não seja influenciada pelas questões que estão acontecendo no contexto mundial. Então, esse tipo de análise fica mais correto quando a gente compara a performance de uma determinada economia com o que está acontecendo no resto do mundo. O professor Reinaldo Gonçalves, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tem trabalhado nessa direção.

Eu diria que a tendência dada ao crescimento explosivo da economia mundial é de que cresçamos mais do que já crescemos até agora. Mas isso não quer dizer que nós tenhamos retomado o processo de crescimento.

Por que não?

Leda Paulani – Em primeiro lugar, estamos crescendo porque o mundo inteiro está crescendo: é uma conseqüência do que está acontecendo na economia mundial. Assim, não se trata de algo que foi deliberadamente pensado e planejado pela nação brasileira. No nosso caso, particularmente, temos uma economia beneficiada, porque nós exportamos os bens que hoje estão com os preços em alta. E isso nos beneficiou do ponto de vista do equilíbrio externo.

A economia comandada por Lula

É muito complicado dizer até que ponto o governo Lula está efetivamente melhorando a economia do País, em termos absolutos. O que é necessário considerar, é que o Governo Lula foi muito sortudo se comparado com o governo Fernando Henrique Cardoso.

Não estou defendendo o Fernando Henrique, mas a questão é que esse período de 1995 até 2002 foi bastante conturbado na economia mundial. Na época, ocorreram cinco ou seis crises financeiras cavalares, e a economia norte-americana também passou por várias crises na bolsa de valores. O Brasil sofreu todos os reveses desse cenário conturbado da economia mundial, que começou a serenar e ficar mais tranqüila, retomando um crescimento forte que não tinha há 30 anos, justamente a partir de 2002. Quer dizer, o Fernando Henrique governou num período bastante crítico. E o Lula, ao contrário, passou a governar não só num período de “céu de brigadeiro”, em que não havia nenhuma nuvem no horizonte, mas num período de cinco anos, em que a economia mundial estava muito serena e crescente, impulsionada pela China e pela própria economia norte-americana. Então, isso criou um cenário favorável a uma economia como a brasileira. As complicações só começaram nos últimos meses com a ameaça do setor imobiliário dos Estados Unidos. Assim, quando se pensa em tudo que o Lula fez ou deixou de fazer, é necessário levar em consideração esse contexto no qual a economia brasileira está se movendo.

A proposta do PAC é suficiente para o crescimento econômico? Em que medida o programa ajudará no desenvolvimento do país?

Leda Paulani – O PAC é muito mais um marketing político do governo do que um programa para auxiliar no crescimento. Afirmo isso porque, em primeiro lugar, todas essas ações que estão dentro do PAC já existiam antes, só não estavam reunidas sob o mesmo nome. Em segundo lugar, nas áreas de infra-estrutura, os recursos são muito pequenos comparativamente ao que deveria existir. Então, não dá para comparar o PAC com o Plano de Metas, de Juscelino , por exemplo, pois o programa está muito longe de ter uma dimensão como esta.

Eu até escrevi um artigo sobre essa discussão, avaliando a declaração da Ministra Dilma Rousseff, que disse que o programa injetava dinheiro público direto na veia. Ela quis dizer que era uma injeção de demanda agregada na economia e que isso iria puxar o crescimento. Só que isso está errado, porque não importa se o dinheiro é público ou privado. Ele sempre terá o mesmo efeito. O que faz a diferença, nesse caso, é que é uma demanda direta na veia. O fato do governo se dispor a gastar vários bilhões em infra-estrutura significa um aumento direto de demanda no sistema econômico como um todo. Mas não dá para dizer que o PAC vai garantir as condições para o crescimento sustentável posterior.

Como a senhora avalia a obsessão pelo crescimento econômico, que ultrapassa as questões ecológicas e sociais?

Leda Paulani – Esse é um dos grandes nós do problema, mas não é apenas no Brasil que isso ocorre. Essa é uma discussão mundial. De fato, um dos entraves maiores do crescimento é a questão dos recursos naturais. Por isso, o termo do desenvolvimento sustentável, hoje, tem tanto sentido. Mas o que existe é um modelo contraditório, porque, de um lado, é necessário fazer a economia crescer, porque sem o crescimento não tem como recuperar empregos. Mas, de outro lado, há uma limitação dada pela questão ecológica. Então, todo esse crescimento tem que ser feito com muito cuidado. Por isso, essa não é uma questão fácil para nenhum governo. Eu tenho a impressão que esse tipo de discussão vai ganhar uma importância cada vez maior. Assim, os próximos governos vão enfrentar esse dilema de um modo ainda mais marcado, do que o governo Lula.

No que diz respeito ao consumo e à energia brasileira, eu diria que o País ainda é privilegiado, pois nós temos o combustível mais barato para produzir energia, que é a água. Agora, para que esse diferencial que nós temos em relação a outros países se transforme numa possibilidade de crescimento mais saudável, sem problemas ecológicos, precisaria recuperar algumas funções do Estado. O discurso neoliberal acabou esterilizando um papel fundamental que o Estado tem, e que nessas circunstâncias se tornam ainda mais importantes.

Hoje em dia, sabemos que boa parte das empresas se livram dos direitos trabalhistas contratando os próprios empregados como pessoas jurídicas. Então, todo mundo vira empregado de si mesmo. De modo que a própria importância de uma atividade como a de fiscalização do Ministério do Trabalho, vai se reduzindo e aí se abre espaço para todos os tipos de exploração selvagem do trabalho. Como exemplos, temos os porões de bolivianos em São Paulo, nas oficinas de jeans, e no interior, as carvoarias, por exemplo. Criou-se um contexto em que, ao invés de se valorizar o papel do Estado e a importância dos direitos do trabalho, se desvalorizou isso tudo.

O que a senhora pensa da proposta de desenvolvimento do ministro Roberto Mangabeira Unger , que afirma que o país precisa incentivar os empreendimentos da classe média e pesquisas universitárias ao invés de continuar investindo na política industrial?

Leda Paulani – Uma coisa não exclui a outra. Para mim, essa idéia é simpática. É possível tirar o foco do grande capital, porque ele tem todas as condições de se manter, transferindo, então, o foco para os negócios de médio e pequeno porte. Mas com isso não estará se deixando de fazer política industrial, porque é possível, mesmo com o foco nesse capital médio e pequeno, privilegiar alguns setores em detrimento de outros e fazer política industrial, também com esse capital.

Com o avanço da plantação de eucaliptos, a monocultura de alguns commodities poderá se tornar um problema para o País, gerando aumento no preço dos alimentos, por exemplo? Como a senhora percebe esse processo?

Leda Paulani – Se analisarmos a história da economia brasileira, perceberemos que essa situação pode ser classificada como “um andar para trás”, pois nós já vivemos de monocultura por 400 anos. Foram mudando as culturas, mas nessa era da monocultura, começamos com o açúcar e acabamos com o café. É sempre muito arriscado apostar todas as fichas numa única coisa. Uma economia do tamanho da nossa, com um território enorme e com os recursos naturais que tem, ao optar por esse caminho, direciona o País para ser vulnerável a qualquer crise.

Até os anos 1930 do século XX, a economia brasileira viveu ao sabor do que acontecia externamente, justamente, porque era uma economia baseada na monocultura, com uma indústria muito frágil. Depois, entre 1930 a 1980, diversificou-se o setor agrícola e construiu-se o setor industrial. O Brasil é um dos poucos países da América Latina que construiu toda a matriz industrial (do carro, do aço, da energia elétrica, do petroquímico, da borracha, da telefonia). E, com isso, o País ganhou autonomia e espaço de execução de políticas. No entanto, hoje temos elementos que caracterizam a volta do País para a agricultura, pois a taxa de câmbio está super valorizada, inviabilizando alguns setores de crescer. Então, o Brasil foi caminhando no sentido contrário, no sentido da não diversificação, tanto no que diz respeito ao mercado interno quanto ao externo. Isso é muito perigoso do ponto de vista do equilíbrio externo, e pode gerar conseqüências, não só como a elevação dos preços dos alimentos, como o avanço da doença holandesa , que vai atingir o País em cheio.

Antônio Ermírio de Moraes, do grupo Votorantim, declarou na última semana que “não há o que reclamar”. Com essa frase, é possível constatar que nunca um governo ajudou e apoiou tantos os empresários como o atual?

Leda Paulani – Não sei se essa afirmação cabe a todos os empresários. Mas eu diria que o governo Lula não comprou nenhuma briga com o grande capital. Em todas as discussões, ele acabou ficando do lado deles, e fez uma política econômica que claramente beneficiou os interesses do sistema financeiro. Então, realmente, a despeito do Bolsa Família, foi um governo muito amigo do capital produtivo e financeiro.

Na década de 1960, Guy Debord dizia que vivíamos numa sociedade do espetáculo. Assim, percebe-se que a mercadoria ocupou o centro da vida social. Será possível mudar esse ciclo?

Leda Paulani – Eu diria que a mercadoria nunca foi tanto o centro da vida social como é hoje. Guy Debord teve uma premonição, pois ninguém deslumbrava, desde longe, que os rumos de capitalismo, até então controlado e interferido pelo Estado, tomaria as direções atuais.

Se analisarmos a história do capitalismo em diferentes espaços do planeta, isso é uma coisa que oscila. Em alguns momentos o Estado está muito mais presente, planejando ou interferindo, e em outros momentos ele está mais ausente. Agora, o capitalismo é uma economia de mercado. Assim, o mercado é a grande estância reguladora da produção material. Com mais ou menos intervenção do Estado, o mercado é a instância mais importante.

Guy Debord é muito pessimista. Até onde eu consigo entender, ele não vislumbra muito espaço para uma reversão. Então, trabalhos como o dele nos servem mais como um alerta do que como uma agenda de soluções.

Qual seria o projeto de desenvolvimento ideal para o crescimento econômico do país, mas que ao mesmo tempo garantisse uma distribuição de renda equilibrada entre os trabalhadores?

Leda Paulani – Dada a situação tal como ela está agora, com essa desigualdade de renda e de riqueza, já que a desigualdade de riqueza é maior que a de renda, qualquer modelo que se faça não será ideal, ou estará muito longe do ideal, porque esse não é um quadro que se reverte rapidamente. O que podemos fazer é, havendo espaço e vontade política, tomar providências para que o desenvolvimento não só aconteça, mas aconteça de um modo a reduzir essas desigualdades ao invés de aprofundá-las. Na época do governo militar, por exemplo, em que se teve um crescimento enorme, o chamado ‘milagre brasileiro’, não houve nenhuma preocupação com a questão distributiva. Então, acabou se criando uma concentração de crescimento, mas isso não significou uma redução da desigualdade, pelo contrário.

Não existem receitas prontas. Mas não é com uma política como a que fez o governo Lula que vamos conseguir mudanças. É só comparar o que se gasta com o Bolsa Família e com o pagamento de juros. Um número é dez maior que o outro. Quer dizer, com um número se beneficiam 11 milhões de famílias, 45 milhões de pessoas, e com um outro número, se beneficia um conjunto da população que está muito longe de 44 milhões. Um estudo do Marcio Pochmann, presidente do Ipea, mostra que 80% da dívida pública brasileira está na mão de 20 mil pessoas. Eu tenho certeza que esse tipo de política que o governo Lula faz é uma política que concentra cavalarmente a renda, além de contribuir para que a riqueza continue concentrada. Se ainda não se sabe o que fazer, se sabe o que não fazer, mas o governo ignorou qualquer mudança. Há algumas coisas básicas que qualquer estudante de economia do segundo ano sabe, e que poderiam ter sido evitadas no governo, e não foram.

MST
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O vestido revolucionário de Frida Kahlo

Modismos quiseram tornar palatável a obra da artista mexicana, impregnada de política e religião.

Claudio Carvalhaes

O quadro de Frida Kahlo “Meu vestido pendurado ali” não tem despertado o mesmo interesse nem a atenção como outras de suas pinturas. Talvez porque, aparentemente, a artista _cujos centenário de nascimento se comemora neste ano_ não esteja lá, no quadro, pelo menos não tão visceralmente presente como em muitas de suas pinturas.
Nos anos 90, revistas femininas nos Estados Unidos (“Elle”, “Vogue”) “traduziam” Frida Kahlo (1907-1954) em suas páginas em estilo mexicano, transformando seus vestidos em roupas atraentes nos corpos de belas modelos, posando em casas ensolaradas e supostamente também mexicanas. Queriam transformar a difícil obra dessa mulher em imagem palatável, pronta para ser consumida. Retocavam suas veias, o sangue, as cicatrizes, os pelos de sua face e a morte.
Em vez de sua imagem real, manequins esguias a retratavam com exagerada maquiagem, vestidos provocantes e pernas nuas. Ela era representada nesses novos vestidos e nos cabelos soltos das modelos. Parecia que a única maneira de introduzir Frida Kahlo nos Estados Unidos era fazê-la passar por essa lavagem cultural, como se fosse pintora da moda, bela e aceitável ao gosto dominante. Atualmente, alguns de seus quadros estão cotados em até um US$ 1 milhão.
Entretanto, nem todos gostam do que ela pintava e nem todos a reconheceram pelos olhares de “Elle” ou “Vogue”. Ao comentar com uma amiga sobre Frida, a reação não demorou: “Não é aquela pintora com bigodes, que trata de temas melancólicos? Ela é demasiadamente estropiada!”.
Nessa asserção, o que fica de Frida parece ser somente as marcas fortes de seu rosto e seus símbolos de morte. Talvez por isso, aquilo que parece ser uma enorme crueza e intensa feiúra na obra de Frida é rechaçado ou necessariamente revisado e embelezado, para torná-la aceitável aos padrões da classe média norte-americana. A própria definição que André Breton fez de Frida e de sua arte -“uma fita ao redor de uma bomba”- acaba por fazer quase o mesmo das revistas norte-americanas. Ao enlaçar a bomba com uma fita, a fita distrai a bomba e a bomba acaba por ser um mero elemento para mostrar a fita.
Se em Breton a bomba precisa da fita para traduzir beleza, nas revistas de moda o caminho é mais fundo, tentando redimir Frida de si mesma, de seus tormentos e pensamentos de morte. Uma vez redimida, sua obra torna-se sexy, colorida, bela, e ao final de tudo, mais consumível. Nas revistas, os tons revolucionários, nacionalistas e marxistas presentes em suas pinturas parecem nunca terem existidos.

Vestidos com compromissos
Os vestidos de Frida não eram escolhidos por causa apenas da beleza, mas expressavam compromissos culturais com os povos indígenas, principalmente astecas, com os quais se identificava. Sua arte envolvia e revolvia recursos intelectuais e experiências dos contextos que ela gostaria de verem refletidos em seu país.
No quadro citado (“Meu vestido pendurado ali”), ela usa um vestido tehuana. Janice Helland comenta: “É provável que a imagem dos vestidos das mulheres zapotecas que representam ideais de liberdade e de independência econômica tenham, por isso, chamado a atenção de Kahlo”1.
Seus vestidos e colares fazem relembrar os vínculos de Frida com seu povo. Ao usar vestidos tehuanos de mulheres zapotecas, além de colares que traziam o imaginário azteca, Frida parece querer lembrar que são essas mulheres, esses povos colocados à margem da universalização cultural (não fora da estrutura, mas nas margens) que estão ali pendurados, colocados entre as fronteiras da assimilação, do extermínio, mas da resistência.
No quadro citado, uma enormidade de referências culturais, políticas, sociais, religiosas e econômicas são postas em relação e tensão, e entre essas referências mundos cheios de história e materialidade são construídos, coabitados, transformados e destruídos. Helland descreve o quadro: “Um vestido, um telefone, um troféu esportivo, a figura de um dólar ao redor da cruz entrando num edifício federal, como símbolo financeiro, e Mae West, no papel da fantasia de Hollywood. Essas fotografias destacam o destino dos desempregados da era da grande Depressão na parte inferior do quadro e mostram o contraste entre a riqueza e a pobreza na sociedade americana”2.
O vestido tehuano de Frida pendurado num cabide, num varal de fita de laço, entre os Estados Unidos e o México, reflete a vida de povos inteiros, ao mesmo tempo presentes e ausentes, em meio a diálogos surdos e medidas culturais e econômicas excludentes que essas mesmas fronteiras constroem e destroem.
Os vestidos das mulheres zapotecas vão parar nas revistas de moda sem que nunca se saiba da significação que se dá “no chão mesmo da América Latina de uma tradição-tradução de memória libertadora de mulheres” a respeito das “variações e as rupturas com as linguagens de conhecer o corpo no mundo e o nosso, devorá-los como aprendizagem sexuada e cultivar alternativas de produção e reprodução da vida: economia, erótica, ecológica, epistêmica, ética e estética”3.

As roupas e as fronteiras
A obra de Frida se situa entre fronteiras. Muitas vezes desenvolve uma estrutura dualista, mas sempre desafia os lados, os espaços de dentro e de fora, o que é de lá e o de cá. Mulheres têm seus órgãos internos colocados para fora, o sangue corre tanto por fora quanto por dentro das veias, duas e várias partes de nós mesmos são colocadas lado a lado, como uma coisa só e, ao mesmo tempo, quase distintas. O amor, a traição, a natureza (viva ou morta?), o suicídio, a dor, a morte -tudo acontece em meio à vida sempre pulsante de seus quadros.
Sua arte demonstra clara consciência da presença fulcral da fronteira, especialmente das conseqüências desse espaço tênue em que se situa a luta do povo mexicano por identidade. No final dos anos 20, o México esforçava-se para criar um sentimento de nacionalismo e de orgulho em seu povo. Os Estados Unidos pareciam já mostrar que a cultura “norte-americana” era dona de uma geografia excludente, invasiva (partes do México foram roubados pelos Estados Unidos) e parâmetro da cultura civilizada, universal e hegemônica4.
Como tentativa de resistir a esse sistema solapador e mesmo tentar subvertê-lo e desfazer os aportes universais da cultura americana, o México foi buscar em seus elementos culturais pré-hispânicos e indígenas formas de se conscientizar, preservar, amparar e desenvolver uma cultura que fosse verdadeiramente nacional. Estas tentativas, entretanto, acabaram por abusar de elementos indígenas, e os mexicanos acabaram por criar caricaturas de si mesmos5.
As fronteiras regulam, contêm e excluem. São aparatos de controle, concretos e simbólicos, paradoxais e determinados, misturando espaço, poder, conhecimento, economia e identidade. Têm a ver com espaços limítrofes e imaginários: margens, territórios, articulações geopolíticas, linhas e limiares em constante relação, separando, demarcando e costurando lugares e posições.
São espaços nervosos, cheios de ansiedade6, e permeáveis ao que ainda não conhecem. Sua proteção está sempre ameaçada pela chegada do inesperado, e suas bordas vulneráveis. Nas palavras de Roxanne L. Doty, “as fronteiras já são ameaçadas desde seu aparecimento. A possibilidade sempre presente de serem atravessadas é inerente à sua instituição, coisa que as torna indecidíveis, indistintas e ameaçadas”7.
Os vestidos de Frida vestem e despem as partes porosas das fronteiras religiosas, culturais, políticas e sexuais, não só do México e dos Estados Unidos, mas de todo o continente americano. Nada é categórico; tudo se desenvolve no vento de referências e bases culturais escolhidas.
Suas roupas tornam as fronteiras “categóricas” em passagens permeáveis e em possibilidades de práticas transgressoras, produtoras de conexões fronteiriças que tornam as linhas divisórias e invisíveis em visíveis e ideológicas.
Da mesma forma que os vestidos, Frida vestia também os “rebozos”, que eram chales feitos de vários tipos de material (algodão, seda ou lã), bordados com longas franjas e usado por mulheres de todas as classes sociais. Em diferentes fotos, Frida usa vários destes “rebozos”, por vezes de seda, próprio das classes mais altas e também de algodão, como as “revolucionarias soldaderas”8.
Novamente, a roupa con-fundia as noções de revolucionária, de “soldadera”, de classe, de cultura, de colônia e de nação. Da mesma forma ela confunde noções quando em seu quadro “Auto-retrato na fronteira entre México e Estados Unidos”, de 1932, e pintado em Detroit, ela usa um vestido colonial, com colar de estilo coatlicue da deusa da terra azteca, ao mesmo tempo que veste luvas de laço e sem dedos.
Para Rebecca Block e Lunda Hoffman-Jeep, “Kahlo se coloca na encruzilhada, elaborando e concretizando posições pessoais e políticas… Existe uma considerável ironia na maneira satírica que Kahlo faz da manipulação da cultura”9.
Novamente, há uma enormidade de justaposições entre sua roupa, seus adereços, a bandeira de parada cívica do México, o bico dos seus seios visíveis e os enormes símbolos da cultura moderna presente ao lado dos Estados Unidos, como a Ford, os maquinários, a poluição e a pré-modernidade vivenciada no lado do Mexico, com seus templos e símbolos religiosos pré-colombianos ligados à terra.
Assim, os vestidos e as formas de vestir de Frida se misturam com a vida inteira. Eles anunciam fraquezas e forças, carregam referências culturais, econômicas, sociais, econômicas, sexuais e nacionais. São mais do que a fita na bomba que é o corpo. Permeiam, interagem, e relacionam peles, lugares, povos, toques, visões e cheiros de mundo. Como disseram Block e Hoffman-Jeep, “Kahlo era particularmente consciente da habilidade que as roupas tinham em comunicar informação acerca de gostos, princípios, carácter e sentimentos de uma nação”10.
Seus vestidos marcam as condições das possibilidades da construção de cada país e do relacionamento entre eles, como a maneira de cada um estabelecer suas estruturas culturais e escolher seus valores simbólicos. Os vestidos apontam para corpos que o vestem ou que estão nus, de roupas que mobilizam a indústria da moda e como esta estabelece noções, que vão desde as medidas ideais do corpo até os critérios de alimentação, de ênfases econômicas e consequentemente de classes sociais.
Assim, os vestidos também indicam a fragilidade do corpo feito forte e desmesuradamente belo, o desequilíbrio, o inóspito, os lugares inabitáveis. O vestido de Frida veste uma realidade ao mesmo tempo oculta, perturbadoramente clara, e demasiada densa e complicada. Os vestidos pedem a atenção do nosso olhar entre as tantas referências. Os quadros de Frida fazem nossos olhos tornarem-se performáticos, ritualizando os contornos entre o imaginário e o real. Como diz Ronald Grimes, “Ritualizamos para tornar real o evento”11.
Esse mapeamento dos encontros humanos e vivos anuncia, denuncia, acumula e precipita uma situação que é nossa, no mundo, encarnada nas vísceras, veias e peles de nosso próprio corpo. Nossas roupas e nossos vestidos se desgastam, perdem o lugar na moda, se modificam, são re-usados, assim como nossas referências todas. O corpo também se esvai, assim como se escoam a fama e os corpos das modelos. O que fica, ou parece ficar, é o poder econômico “que ergue e desfaz coisas belas”, que faz viscejar e renovar o eternamente novo, re-usável, banalizado, a cada nova temporada do fashion week.

Costurando mitos e religião
A referência religiosa nas obras de Frida vinha de povos abandonados e marcados pela probreza. Em seus quadros e fotos, seus vestidos e colares eram rodeados e mesmo marcados por aspectos religiosos presentes na cultura mexicana. Em seu quadro “Auto-retrato na fronteira entre México e Estados Unidos”, seu vestido está ao lado de elementos como o sol, lua, templo, caveira, sangue, o ciclo vida-morte azteca, e outros elementos da terra que servem para compor referências culturais, religiosas e teológicas do México.
Além das expressões religiosos pré-colombianas, a obra de Frida faz fortes referências ao catolicismo popular, como as coleções de milagres, os “retablos”, que Frida guardava. A Virgem Maria e os santos, Jesus Cristo, seu sofrimento e todo o imaginário católico são símbolos recorrentes na sua obra.
Andrea Kettenmann diz que Frida “via os quadros religiosos que utilizava como expressões de crenças essencialmente populares, que não dependiam, pelo seu significado, da Igreja Católica. Assim, podia utilizar livremente o imaginário cristão para seus próprios fins e apresentar-se a ela própria no papel de mártir”12.

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1 - Janice Helland, Aztec Imagery in Frida Kalho’s Paintings, in “Woman’s Art Journal”, vol. 19. nº 2. (fall , 1990 - winter, 1991), p. 10.

2 - Ibid., p. 9.

3 - Nancy Cardoso Pereira, Para Comer com os Olhos e Contemplar com a Boca - Uma leitura anti-escatológica de “Os Frutos da Terra” de Frida Kahlo, texto não publicado.

4 - Até hoje os americanos dos Estados Unidos cantam um de seus hinos prediletos chamado “America” em jogos esportivos e datas civicas, definindo todo o continente como país, esquecendo que há, ou talvez exista, outras partes dessa América que não são somente àquela da bandeira de estrelas num céu azul e faixas vermelhas e brancas.

5 - Veja Rebecca Block and Lynda Hoffman-Jeep, Fashioning National Identity - Frida Kahlo in Gringolândia, in “Woman’s Art Journal”, (autumn, 1998 - winter, 1999), p. 8.

6 - Glória Anzaldúa, Borderlands/La frontera - The New Mestiza (San Francisco: Aunt Lute Books, 1987), p. 21. Anzaldúa desenvolve a ansiedade e o nervosismo da fronteira em uma perspective feminina.

7 - Roxanne Lynn Doty, Challenging Boundaries-Global Flows, Territorial Identities, eds. Michael J. Shjapiro and Hayward Alker (Minneapolis: University of Minnesota Press, 1996), em “Book Reviews: The American Political Science Review”, vol. 91, nº 2, junho de 1997, pp. 510-511.

8 - Rebecca Block and Lynda Hoffman-Jeep, Fashioning National Identity, Frida Kahlo in Gringolândia, op. cit., p. 10.

9 - Ibid.

10 - Ibid., p. 11.

11 - Ronald Grimes, Rite Out of Place (Oxford University Press, 2006), p. 74.

12 - Andréa Kettenmann, Frida Kahlo (1907-1954) - Dor e Paixão. Koln Taschen, 2006, p. 56. In Faustino Teixeira, “Moisés: o Núcleo da Criação”, texto não publicado.

Revista Trópico
http://p.php.uol.com.br/tropico/html/index.shl

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