Arquivo de 18 de Outubro de 2007

Tropa de Elite, espelho manchado de sangue

Lilia Diniz

Violência, corrupção e tráfico de drogas estão estampados todos os dias nas páginas dos jornais, mas a sociedade não reflete sobre essas questões, apenas registra o que foi transmitido pelos meios de comunicação. Quando os mesmos assuntos são enfocados em obras de ficção, como filmes e novelas, aí sim conseguem levar os brasileiros a pensar e discutir. O Observatório da Imprensa na TV transmitido pela rede pública de televisão na terça-feira (9/10) examinou este fenômeno, que voltou a ficar evidente com o lançamento do filme Tropa de Elite.

O debate contou com as presenças do diretor do filme, José Padilha e do sociólogo Luiz Eduardo Soares no estúdio do Rio de Janeiro; do filósofo Renato Janine Ribeiro, em Brasília, e do jornalista Gabriel Priolli, no estúdio da TV Cultura, em São Paulo.

José Padilha é formado em Administração de Empresas pela PUC Rio, dirigiu os documentários Estamira e Ônibus 174 e está lançando o filme Tropa de Elite.
Luiz Eduardo Soares, doutor em Ciência Política, é professor da ESPM e da UERJ e secretário municipal de Valorização da Vida e Prevenção da Violência, de Nova Iguaçu (RJ). Foi secretário nacional de Segurança Pública e é co-autor do livro Elite da Tropa.
Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política na USP, na qual se doutorou após defender mestrado na Sorbonne. É diretor de avaliação da Fundação Capes, em Brasília.
Gabriel Priolli é jornalista e professor, dirige o núcleo de eventos e publicações da Fundação padre Anchieta, da TV Cultura de São Paulo, foi crítico de TV, dirigiu e apresentou diversos programas de TV Cultura. É presidente Associação Brasileira de Televisão Universitária e colunista do Observatório da Imprensa.

O programa teve início com um editorial de Alberto Dines sobre a importância de o jornalismo mobilizar a sociedade: “Tropa de Elite está todos os dias nos jornais, nas revistas, rádio e TV. Por ironia é, ao mesmo tempo, uma grave, gravíssima acusação à displicência do nosso jornalismo tão envolvido com a realidade, mas incapaz de produzir um libelo tão violento contra a violência e contra a corrupção”, observou o jornalista [ver abaixo a íntegra do editorial].

Leituras equivocadas

A reportagem exibida antes do início do debate ao vivo entrevistou a psicóloga social Nancy Cardia, coordenadora do Núcleo de Estudos sobre a Violência da Universidade de São Paulo (USP). Para a pesquisadora, a obra é “uma ficção que espelha muito a realidade ou o que as pessoas imaginam que é a realidade”, por isso a sociedade está usando o filme como material para discutir o tempo presente. Para ele, o noticiário fragmentaria as ações, levando a uma percepção seletiva da violência, ao passo que a ficção apresentaria um “começo, meio e fim” para os conflitos.

O dramaturgo Marcílio Moraes, autor da telenovela Vidas Opostas, exibida pela Rede Record, que enfocava a violência urbana e o tráfico de drogas, acredita que o noticiário não causa tanto impacto porque se repete, há uma saturação da informação, transmitida sempre dentro da mesma fórmula. O escritor destacou que a telenovela no Brasil ocupa grande parte do horário nobre das TVs e, por isso, deveria não somente entreter, mas também instigar.

Dines iniciou o debate perguntando a José Padilha sobre o porquê de a mídia não ter a força da ficção. O cineasta afirmou que a dramaturgia obriga o espectador a criar um nexo causal entre os fatos e enfoca o aspecto emocional dos acontecimentos, o que não ocorre com o simples reportar de fatos. “Quando você faz um filme, você pega uma determinada realidade, que no nosso caso é a violência urbana, e a transforma em um objeto. A pessoa pode falar sobre aquele objeto e não sobre a violência em si”, disse. Padilha observou que a imprensa não trata a violência urbana como um tema urgente.

O filósofo Renato Janine afirmou que um aspecto positivo do filme é responsabilizar também “quem está no asfalto”, a sociedade, o Estado, e não só as comunidades carentes dominadas pelo tráfico de drogas e pela violência urbana. Gabriel Priolli avaliou que há um conjunto de fatores que podem explicar o impacto da ficção. Um dos principais seria o abandono da “paixão pela reportagem, pela vontade de contar os fatos com emoção”. As notícias, de modo geral, estariam repetitivas, frias, esquemáticas e burocráticas, já as obras de ficção conseguiriam mostrar a dramaticidade e dimensão dos problemas, sensibilizando a população.

Para Luiz Eduardo Soares, a complexidade do tema do filme, refletida pelo capitão Nascimento, personagem narrador da película, levou a leituras equivocadas da obra. Na opinião do sociólogo, o capitão tem um discurso autoritário e fechado, mas a estrutura dramática e visual do longa-metragem revela a angústia e o sofrimento do personagem, desconstruindo o discurso autoritário sem verbalização, o que não teria sido percebido por espectadores que acusaram o filme de fascismo.

Exemplos positivos

“A imprensa se acostumou a culpar o outro, e não a se responsabilizar pelo o que acontece e pelo o que ela produz. Nós temos mais de 20 anos de eleições, temos um sistema de eleição bastante livre e, no entanto, continuamos agindo como se as coisas caíssem sobre nós sem haver um envolvimento nosso nisso.”, criticou Renato Janine.

O excesso de opinião e comentários na imprensa escrita foi abordado por Gabriel Priolli. “A imprensa é um pouco refém hoje em dia de uma idéia que eu acho que é equivocada, de que a sua forma de competir com a o poder avassalador da TV é apostar não na reportagem, mas no comentário, na análise, na reflexão”, afirmou. A imprensa teria que, por meio da reportagem, compor um painel dos fatos capaz de dar base aos leitores para que eles possam formular as suas interpretações. Priolli destacou que quando a TV faz coberturas ao vivo – como a do seqüestro do ônibus 174 – há um grande impacto na sociedade.

Dines perguntou a Luiz Eduardo Soares sobre o “orgulho de não ser corrupto”, valorizado pelos integrantes do Batalhão de Operações Especiais (BOPE). O sociólogo explicou que o maior impedimento para a corrupção no batalhão não é a remuneração, nem o controle interno ou externo, mas sim o orgulho profissional. Este só seria possível através da construção de uma identidade, um sentimento de pertencimento ao grupo, que muitas vezes gera brutalidade e prática de tortura. Para Soares, se as condições históricas do país fossem diferentes, principalmente na área de segurança pública, o personagem capitão Nascimento poderia ter outras opções que não fossem, corromper-se, omitir-se ou “entrar na guerra”.

Luiz Eduardo sublinhou que a imprensa deveria aprofundar temas levantados pelo filme – como o tipo de polícia que a sociedade deseja, a política de fiscalização ao uso de drogas, a questão das armas e da formação do policial. Dois exemplos positivos do trabalho da imprensa levantados pelo sociólogo foram a série de reportagens sobre a ação das milícias nas favelas do Rio, publicada pelo jornal O Globo, e o estilo de reportagem da revista piauí.

Pauta para a imprensa

Um telespectador perguntou a José Padilha sobre qual foi a pior crítica ao filme que o diretor recebeu. Padilha afirmou que existem dois tipos de crítica: uma, que simplifica a questão de que o filme trata e se limita refletir sobre se o filme é de direita ou de esquerda; e “existe uma outra crítica, que é uma crítica séria, que se debruça sobre as questões do filme, que discute a reação da platéia ao filme. Eu posso discordar ou concordar com essa critica, mas eu a valorizo”.

Gabriel Priolli avaliou que a imprensa “trata muito mal” a questão da descriminalização do usuário de drogas porque estaria presa a preconceitos profundos que existem na sociedade em relação a esse tema. O jornalista vê a necessidade de o país enfrentar essa questão e avaliou que a mídia deveria colocar o tema na agenda de debates nacional com clareza e objetividade.

No bloco de considerações finais do programa, Priolli afirmou que a polêmica em torno do filme deixa uma lição para a imprensa: “É melhor tentar representar a realidade em toda a sua complexidade do que emitir comentários e opiniões externos a ela”. Renato Janine Ribeiro avaliou que o filme é sobre uma tragédia, entendida no sentido de um descompasso entre a intenção e a realização. Seria uma tragédia do ponto de vista do capitão Nascimento, que tem intenção de acabar com o crime a e corrupção, mas vê os seus sonhos frustrados.

Luiz Eduardo Soares chamou a atenção para o fato de que freqüentemente a sociedade critica os indivíduos da polícia que se desviam da conduta correta, mas não observa a estrutura a qual eles pertencem, não analisa as regras e as orientações que têm de cumprir. José Padilha sugeriu uma pauta para que a imprensa ajude a sociedade a compreender o processo de violência urbana: a estrutura organizacional das polícias carioca e paulista, onde policiais precisam fazer a manutenção de carros e cuidar de estoque de alimentos, por exemplo, em vez de se ocupar exclusivamente da segurança pública.

Observatório da Imprensa
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/

Comentários

90% das mães que perdem bebê em morte súbita fumam

Um estudo da Universidade de Bristol, na Grã-Bretanha, concluiu que nove em cada dez mães que perdem seus bebês para a chamada síndrome da morte súbita infantil (SMSI) ou “morte do berço” são fumantes.

A morte súbita acontece quando bebês de até um ano morrem sem apresentar qualquer sintoma, geralmente durante o sono, mas é mais comum nas idades entre um mês e quatro meses.

Os pesquisadores analisaram 21 trabalhos internacionais relacionando a SMSI ao cigarro.

“A exposição à fumaça de tabaco, tanto no período pré-natal como no pós-natal, leva a uma complexa série de efeitos sobre o desenvolvimento fisiológico e anatômico na vida fetal e pós-natal, juntamente com um aumento na incidência de infecções virais agudas, que colocam os bebês numa posição de risco muito maior em relação à morte súbita infantil”, diz o estudo, que será publicado nesta semana na revista médica Early Human Development .

O relatório encontrou uma relação linear entre o número de horas de exposição ao tabaco e o risco de morte súbita infantil.

“O risco de morte aumenta a cada hora que o bebê é exposto à fumaça. Por exemplo, um bebê que é exposto ao cigarro oito horas por dia tinha oito vezes mais risco de morrer de SMSI que um bebê que nunca foi exposto.”

Campanhas:

Embora a ligação entre o tabagismo da mãe e a morte súbita do bebê já tenha sido demonstrada em outros estudos, a equipe de Bristol quis revelar de forma mais precisa os danos do fumo durante a gestação e após o parto.

Os cientistas descobriram, por exemplo, que a proporção de bebês que morreram da síndrome e eram filhos de mulheres fumantes aumentou de 57% para 86% nos últimos 15 anos na Grã-Bretanha.

A queda do número de mortes súbitas entre bebês de mães não-fumantes, segundo eles, se deve principalmente ao sucesso das campanhas que instruíam as mulheres a colocar os seus bebês para dormir deitados sobre as suas costas. Essa recomendação teria evitado centenas de mortes por SMSI.

O remanescente, portanto, estaria muito provavelmente ligado ao fumo da mãe.


BBC Brasil

http://www.bbc.co.uk/portuguese/

Comentários

Tropa de Choque retira grevistas que ocupavam Fundação

Diário do Grande ABC
Com Diário OnLine

Os universitários e professores que ocupavam o prédio da Fafil (Faculdade
de Filosofia, Ciências e Letras), da Fundação Santo André, foram retirados
do local pela Tropa de Choque da Polícia Militar na madrugada desta
quinta-feira, por volta das 3h.

Os policiais cumpriam um mandado de reintegração de posse e não
encontraram resistência dos ocupantes na ação que durou menos de uma hora.

Os estudantes protestam contra o aumento das mensalidades e querem a saída
do reitor Odair Bermelho.

Na quarta-feira, os alunos grevistas decidiram, em assembléia realizada no
prédio da Fafil, que permitiriam a entrada da polícia no edifício ocupado
para negociar a reintegração de posse do espaço.

A decisão de estudantes e professores se deu após rumores de que policiais
chegariam ao centro universitário às 23h de quarta-feira para cumprir a
reintegração de posse do prédio ocupado.

“Podem vir, não estamos criando forças para que não entrem”, disse uma
aluna que não quis ter o nome revelado. A minoria dos presentes optou por
negociar com a polícia fora do prédio da Fafil.

Reintegração - Na terça-feira, a juíza Vanessa Carolina Fernandes Ferrari,
da 3ª Vara Cível de Santo André, concedeu liminar ordenando a reintegração
do prédio à instituição de ensino.

De acordo com o advogado da Fundação Santo André, Carlos Alberto Nunes
Barbosa, a ação judicial foi a medida encontrada para normalizar a
situação do centro universitário e retomar as aulas. Nesta quinta-feira, a
ocupação do prédio pelos universitários completaria 33 dias.

Negociações - Na tarde de quarta-feira, uma comissão de negociação se
reuniu com os alunos grevistas que ocupavam o prédio da Fafil.

De acordo com os estudantes, o grupo formado por quatro professores de
outras faculdades da instituição além de advogados, informou ter sido
escolhido pela Fundação Santo André para “apaziguar os dois lados”.

Segundo os alunos, no entanto, a não-resistência frente a ação da polícia
para fazer a reintegração de posse não significará o fim dos protestos.

Os estudantes garantem que a desocupação da Fafil, com a retirada de
barracas e faixas, não fará com que a greve termine.

“Não estamos querendo entrar em atrito”, disse outro estudante do curso de
Ciências Sociais. “Todos nós queremos voltar às aulas. Não estamos parados
porque queremos”, afirmou.

Diário do Grande ABC
http://home.dgabc.com.br/

Comentários

“Proálcool mundial”: lucros privados e custos sociais crescentes

Guilherme C. Delgado

Depois da visita do presidente Bush ao presidente Lula no início de 2007, as discussões sobre a substituição pelo etanol do consumo da gasolina no sistema automotivo norte-americano ganharam manchete e o antigo Proálcool brasileiro ganhou foros de figurino internacional. No entanto, a matriz da economia política do Proálcool brasileiro não aparece na grande mídia com as tinturas reais das relações econômicas e sociais que produz e reproduz. Por isso, a discussão em geral escapa para uma versão estritamente mercantil privada quando, na verdade, é o custo social da opção “Brasil, grande canavial” o grave problema que se nos coloca no presente.

A passagem de um Proálcool brasileiro para um “Proálcool mundial” contém uma transição de enorme magnitude, fundamentada na escassez permanente do petróleo e na hipótese do álcool como o melhor substituto mundial da gasolina. Neste contexto, o Brasil disputaria com vantagem o lugar de mega-abastecedor do consumo automotivo norte-americano e europeu. O argumento adicional do consumo ecologicamente limpo cai como uma luva na mão aos ideólogos do “Proálcool mundial”.

Mas se optarmos por desnudar e desvendar o verdadeiro estado da arte do “Proálcool mundial”, é preciso ir ao cerne da questão: a matriz das relações trabalhistas, fundiárias e ambientais que a economia canavieira produz e reproduz todos os anos. É esta que seria multiplicada por cinco ou por dez em poucos anos na hipótese de a produção do álcool entrar no padrão do consumo automotivo mundial, segundo o ritmo desejado pelos ideólogos do agronegócio.

Neste artigo não cabe uma análise das conseqüências dessa opção sobre os preços dos alimentos, sobre o impacto ambiental ou mesmo sobre as conseqüências econômicas da especialização que se está perseguindo com o “Proálcool mundial”. Mas uma breve descrição de como este acontecimento impacta o mercado de trabalho no setor sucroalcooleiro e nos alerta para um dos aspectos de custo social que a opção “Brasil, grande canavial” acarreta.

Entre 2000 e 2006, já sob o bafejo do novo regime cambial (durante o segundo mandato de FHC) e dos incentivos à expansão do setor sucroalcooleiro, a área plantada de cana-de-açúcar cresce de 5,0 milhões de hectares para 7,04 (safra 2007/2008). No mesmo período, a produção física cresceu em números-índice de 100 para 138, enquanto o emprego total da força de trabalho decresceu (também em números-índice) de 100 (2000) para 72 (2003), segundo a fonte PNAD-IBGE.

O mais grave no mercado de trabalho da cana é que se observa, no mesmo período, uma verdadeira explosão epidêmica, com elevação significativa dos auxílios-doença concedidos, que passaram de 100 em 2000 para 275 em 2005. Isso se deveu basicamente à incidência de doenças osteomusculares, provocadas pelas jornadas de trabalho excessivas impostas pela economia canavieira a uma população sem opções de trabalho (Fonte dos dados primários – Pesquisas sobre Benefícios por Incapacidade IPEA/Ministério da Previdência Social).

Como na economia de trabalho, no sistema ambiental e nos preços dos alimentos há evidentes custos sociais (não computados no cálculo econômico privado), impostos pela expansão canavieira, à revelia da função social da propriedade fundiária. Somente os benefícios são privados, e cada vez mais concentrados.

Reforçar essa matriz, elevando-a a uma potência enésima, não desenvolve o país, mas sim aprofunda suas desigualdades. Mas, infelizmente, este argumento dos custos sociais crescentes não entrou no espaço estatal – áreas macroeconômicas, setorial e externa, que continuam a formular suas respectivas políticas segundo a ótica estritamente privada do agronegócio.

Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_frontpage&Itemid=1

Comentários

Ciência e mecenato

Chegada da corte portuguesa deflagrou produção científica no Brasil por iniciativa de d. João. Mas consolidação e ampliação de pesquisa necessitam de mecenato, consciência que ainda não desenvolvemos.

Ulisses Capozzoli

Em março próximo serão completados 200 anos da chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro, após curta passagem pela Bahia. Para muitos pode ser apenas curiosidade histórica, “aci-dente napoleônico”, pois a família real trocou Portugal pelo Brasil fugindo da invasão comandada pelo general Andoche Junot. Mas a chegada da corte alterou profundamente as condições do Brasil e, entre outros efeitos, abriu espaço para a pesquisa científica, ao mesmo tempo que permitiu a impressão de livros e jornais pela criação da Imprensa Régia.

Ainda assim, a chegada da corte – na verdade em séqüito de 15 mil pessoas a bordo de 35 embarcações – continua motivo de chacota e ironia.

É verdade que a condição dos fugitivos não era nada confortável. Relatos de testemunhas dizem que exalavam um odor insuportável, atormentados por pulgas e piolhos, sem contar o embaraço representado por d. Maria, a Louca, mãe de d. João. Ela resistira em deixar Portugal, determinada a enfrentar as tropas do general “Tempestade” – como Junot era conhecido –, e, no Rio, ainda lamentava com um repetitivo “Ai, Jesus!”, intercalado por impropérios.

D. João é uma personagem controvertida nesse cenário aparentemente confuso, mas a ele devemos uma base histórica de ciência no Brasil, ainda que não se possa dizer que tenha sido um homem de cultura. De sensibilidade, sem dúvida.

Os problemas do príncipe português começavam por seu porte físico, baixo e atarracado, estendendo-se para o que sua mulher – a venenosa d. Carlota Joaquina – considerava “falta de autoridade”.

D. Carlota não ajudou em nada a minimizar as dificuldades. Ao contrário, contribuiu para piorar a situação todo o tempo em que esteve no Brasil, até 1821. Registros históricos relatam incidentes criados por ela e seu autoritário corpo de segurança envolvendo representações diplomáticas estrangeiras. E ela se deliciava com tudo isso.

Filha de Carlos IV da Espanha e de Maria Luisa – a fogosa rainha que brigou com a duquesa de Alba por ciúmes de Goya, pintor dos reis de Espanha e autor de um de seus retratos –, era bisneta de Luís XV. Fisicamente é descrita como uma criatura baixa, feia e disforme, portando alguma barba e um indisfarçável bigode. O cronista Paulo Setúbal garante que ela apreciava a fumaça inebriante da Cannabis sativa e teve liberdades íntimas até com um jardineiro real.

De irrefutável, sabe-se que d. Carlota odiava o Brasil e manipulou o que pôde para uma submissão à Espanha, com talento para tecer a intriga palaciana.

Todo esse conjunto de elementos contribui para a interpretação de uma fuga apressada e pouco corajosa da família real para o Brasil, situação que talvez valha a pena ser reconsiderada às vésperas do 200o aniversário desse acontecimento. E isso por várias razões, entre elas a compreensão de como a ciência se implantou e se desenvolveu por aqui.

O primeiro convite para uma revisão nesse sentido foi feito em 1909, com a publicação de D. João VI no Brasil, do diplomata e historiador pernambucano Manuel de Oliveira Lima (1867-1928).

Oliveira Lima, entre outras considerações, revê a estratégia de fuga da corte, substituindo por astúcia e premeditação o que sempre se considerou fraqueza e frouxidão. Com a mudança para o Brasil, avalia Oliveira Lima, a monarquia dos Bragança escapou da humilhação que deixou prostradas outras realezas européias, caso dos Bourbon da Espanha e da Itália, do rei da Prússia e do monarca austríaco.

A primeira prova de uma pretensa sagacidade portuguesa?

Nada disso. Considere o Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494 com a Espanha (Castela) para ampliação dos limites portugueses de 100 para 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde. Antes mesmo de Colombo ter feito sua viagem de descobrimento, em 1492, cosmógrafos portugueses tinham consciência de seu erro – idéia de que ele havia atingido as Índias. Portugal obteve sucesso em Tordesilhas, negociando diretamente com os reis católicos Fernando e Isabel, e dessa forma assegurou parte do território brasileiro de que seguramente tinha conhecimento, dissimulado pelo que ficou conhecido como Política do Sigilo.

Há quem sustente que os espanhóis acataram Tordesilhas por esperar estabelecer a união ibérica pela estratégia de casamentos reais. A união acabou se dando, entre 1580 e 1640, por outras razões. Mas a verdade é que Portugal, já em fins do século 15, tinha domínio dos mares superior ao da Espanha. E sagacidade para negociar, levando em conta desvantagens como pequeno território e reduzida população, ao menos em comparação à Espanha.

À época da chegada da corte, vários problemas afligiam a coroa portuguesa. A restauração dos Bragança – após o intervalo de domínio espanhol, pela morte de d. Sebastião, o Desejado – custara caro. O apoio da Inglaterra a essa emancipação significou o casamento da infanta d. Catarina, filha de d. João IV, com o rei Carlos II da Inglaterra, acompanhado de dote de 2 milhões de cruzados e a entrega de Tânger, na África, e Bombaim, na Índia.

A expulsão dos holandeses do Nordeste brasileiro – a região mais rica da colônia, pela produção de açúcar – em 1654 também implicara uma indenização definida pelo Tratado de Paz de Haia, de 4 milhões de cruzados, acompanhada da entrega do Ceilão e das ilhas Molucas.

A volatilização de patrimônios e a perda de renda fizeram com que, às vésperas da partida da corte, Portugal estivesse engolfado em dificuldades financeiras, com rarefação do fluxo de ouro e diamantes do Brasil, que atingiu o auge por volta de 1750.

A corte chegou com tudo que pôde carregar, incluindo sobras de somas envolvidas na tentativa de negociar neutralidade com a França.

Talvez a carga mais valiosa tenham sido as máquinas de impressão vindas da Inglaterra e ainda não desencaixotadas, além dos 60 mil exemplares de livros que deram origem à Biblioteca Real, ainda em 1808, transformada depois em Biblioteca Pública. À biblioteca somaram-se o Horto Real, depois Jardim Botânico, e o Banco do Brasil, entre outros.

A irrupção da ciência no Brasil – criação de instituições de saúde e preparação de médicos em substituição aos barbeiros, academia militar etc. – se deu pelas mãos de d. João VI, em quem Oliveira Lima enxergou um homem paciente e generoso, dividindo personalidade com um glutão.

Quando a corte desembarcou no Rio, a primeira atividade científica no Brasil, a observação e descrição do céu austral – incluindo o Cruzeiro do Sul – por Mestre João, estava para completar 308 anos.

Pode-se falar de ciência no Brasil apenas a partir de 1808. Homens como José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838) não só contribuíram para a consolidação da pesquisa aqui como conquistaram prestígio internacional e, metaforicamente, acenaram – ao mesmo tempo que desejaram – com implantar nos trópicos uma nação desenvolvida, nos moldes dos países europeus onde estudaram.

Dois séculos depois da abertura de d. João, o mecenato capaz de estimular a produção, divulgação e aumento da atividade científica no Brasil praticamente inexiste, ao contrário do que ocorre em países como os Estados Unidos.

A astronomia internacional, especialmente a cosmologia, só atingiu o estágio atual com a construção de observatórios como os de Monte Wilson e Palomar, resultado de generosa filantropia privada americana.

Por aqui, nada disso sensibiliza.

Ulisses Capozzoli Editor de Scientific American Brasil, é jornalista especializado em divulgação científica, mestre e doutor em ciências pela Universidade de São Paulo.

Scientific American Brasil
http://www2.uol.com.br/sciam/

Comentários (2)

Uma referência do feminismo

Autora britânica premiada é um marco para estudos sobre a relação homem-mulher no século 20.

Célio Yano

A escritora britânica Doris Lessing, autora de mais de 60 obras em menos de 60 anos, é a laureada com o Nobel de literatura em 2007. Engajada com questões sociais desde a juventude na África, Lessing sempre permeou seu trabalho com temas ligados à própria vivência e é considerada uma referência pelo movimento feminista. Trabalhou com poesia e prosa e escreveu ainda obras de ficção científica. Segundo a Academia Sueca, o prêmio consagra sua obra que, “com ceticismo, fogo e poder visionário, sujeitou uma civilização dividida ao escrutínio”.

Doris Lessing nasceu Doris May Taylor, em 22 de outubro de 1919, em Kermanshah, na antiga Pérsia, região que hoje corresponde ao Irã. Aos cinco anos de idade, mudou-se com a família para a Rodésia, atual Zimbábue, onde viveu até 1949. Trabalhou como babá, telefonista, estenógrafa e jornalista.

Em 1939 casou-se com Frank Charles Wisdom, com quem teve dois filhos, John e Jean. O casal se separou em 1943 e, em 1945, Doris casou-se com Gottfried Lessing, imigrante judeu que conheceu em um grupo marxista que se preocupava com a questão racial. Com Gottfried teve mais um filho, Peter, antes de se divorciar pela segunda vez, em 1949. Na ocasião, mudou-se para Londres, onde rapidamente se estabeleceu como escritora.

Entre 1952 e 1956, foi membro do Partido Comunista Britânico e militante ativa em campanhas contra as armas nucleares. Devido à visão crítica que tinha do regime de apartheid , na África do Sul, ficou proibida de entrar no país até 1995. Depois de uma breve visita à Rodésia, em 1956, também foi banida dessa nação pelo mesmo motivo.

Começou como romancista com The grass is singing [A grama está cantando] (1950), texto que analisa a relação entre uma mulher de fazendeiro branca e seu empregado negro. A história se passa na África, tema recorrente na obra de Lessing, e é, ao mesmo tempo, uma tragédia baseada em amor-ódio e um estudo sobre conflitos raciais intransponíveis.

De forma semi-autobiográfica, a série Children of the violence [Crianças da violência] (cinco volumes, 1952-1969) também é amplamente ambientada na África. A seqüência foi precursora de muitos trabalhos sobre a representação da mente e do comportamento de mulheres independentes. Com esses livros, Lessing criou um equivalente moderno para o chamado ‘romance de aprendizagem’ (no qual é exposto o processo de desenvolvimento de um personagem, geralmente desde sua infância até um estado de maior maturidade).

Obra-prima:
The golden notebook [O caderno dourado], lançado em 1962, é a obra-prima de Lessing. O movimento feminista considera o livro um trabalho pioneiro para a causa e um marco de referência para estudos sobre a relação homem-mulher no século 20. Utiliza uma complexa técnica narrativa que revela o quanto conflitos emocionais e políticos estão interligados. A personagem principal, Anna Wulf, tem cinco cadernos nos quais escreve seus pensamentos sobre a África, política e o partido comunista, sua relação com homens e sexo, análises e interpretações de sonhos.

O escritor e jornalista José Castello, ex-editor do caderno Idéias & Livros do Jornal do Brasil , lembra que, em obras posteriores, Lessing passou a ser influenciada pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961). “Ela tornou-se bastante interessada por lendas orientais e por dimensões mais profundas do destino humano”, conta.

A partir dos anos 1970, a escritora começou a flertar com o gênero da ficção científica. Lessing classifica seus romances escritos durante esse período como de ‘ficção espacial’, uma tentativa, no espírito do Romantismo, de expandir o conhecimento humano para compreender regiões além do controle da razão e do ego.

A série Canopus em Argos (cinco volumes, 1979-1984) aborda o desenvolvimento da espécie humana após uma guerra atômica. Lessing mescla temas como colonialismo, guerra nuclear e desastres ecológicos com observações a respeito da oposição entre princípios masculinos e femininos. A série, composta pelos livros Shikasta (1979), Casamentos entre as zonas 3, 4 e 5 (1980), As experiências em Sirius (1981), O planeta 8: Operação Salvamento (1982) e Os agentes sentimentais do império Volyen (1983), foi publicada no Brasil pela editora Nova Fronteira. Além destes, a mesma editora lançou ainda Memórias de um sobrevivente (1974), traduzido por Clarice Lispector.

Nos anos 1994 e 1997, Lessing publicou duas autobiografias: Debaixo da minha pele e Andando na sombra , que marcam um novo estilo em sua literatura. Ela fala não apenas de sua vida, mas de toda a época: a Inglaterra em seus últimos dias de império. O romance O sonho mais doce (2005) parece surgir isolado como forma de narrativa ficcional. A Companhia das Letras traduziu, além dessas três obras, Amor, de novo (1996).

Para José Castello, a divulgação do Nobel deste ano foi um tanto surpreendente. “O prêmio costuma contemplar ideologias, mais do que a literatura”, avalia. “Desta vez, a premiação é para a escritora”, diz. Castello conta que Lessing, apesar de engajada com ideais feministas e socialistas, não tem uma visão extremista do mundo, encarando-o com uma forma de ‘desilusão saudável’.

Ciencia Hoje On-line
http://cienciahoje.uol.com.br/view/397

Comentários

Nossa luta na FSA

Fundação Santo André - FSA - Uol online
03:01 - 11 hours ago

Comentários (1)

A Globalização e o Liberalismo

Voltaire Schilling

Se a queda do Muro de Berlim ocorrida em 1989 - acontecimento que encerrou quase meio século de Guerra Fria - favoreceu a aceleração da globalização, estreitando ainda mais as relações econômicas e financeiras das nações, cabe assinalar que no campo das idéias a maior vitória foi a da doutrina liberal, a qual mostrou-se superior ao coletivismo comunista e à social-democracia na função de promover a prosperidade material das sociedades com os direitos humanos e outras conquistas políticas. Esta pelo menos é a convicção do pensador e escritor francês Guy Sorman.

A herança de Sorman

O liberalismo francês tem suas sólidas raízes encravadas no século XVIII, o Século das Luzes. No seu acervo constam nomes como os dos economistas fisiocratas Turgot, Quesnay e Vincent de Gournay, que se posicionaram pelo fim do intervencionismo estatal ou pelo menos em atenuá-lo, assim como pensadores como Monstesquieu, Diderot, Condillac, Benjamin Constant, Aléxis de Tocqueville, e, bem mais recentemente, o de Raymon Aron, que, ao contrário de Jean-Paul Sartre sempre se opôs firmemente às tentações da esquerda.

Num primeiro momento o liberalismo enfrentou o Absolutismo, num outro confrontou o Socialismo, sempre defendendo a excelência de algum tipo de governo parlamentar representativo e a mínima ingerência do estado no andar da sociedade como um todo.

Guy Sorman pertence pois a essa tradição que já data bem mais de dois séculos e meio, sem todavia ter ainda apresentado uma obra verdadeiramente original, como Benjamin Constant ou Aléxis de Tocqueville fizeram no passado.

Num meio intelectual um tanto quanto chauvinista como o parisiense, seduzido pelo marxismo e pelo existencialismo esquerdista, exacerbado ainda mais pelas tensões da Guerra Fria, que entendia ser o liberalismo uma aberta capitulação à influência norte-americana nas coisas da França, ele despontou no jornalismo e no pensamento quase que como uma exceção. Nunca se importou em ser apontado como um aberto simpatizante das virtudes da sociedade ianque.

Ao contrário. De algum modo ele pode ser associado ao Marquês de La Fayette, o nobre francês que atravessou o Atlântico, em 1777, para ir ajudar os colonos americanos a lutarem pela liberdade, independência, e “pelos direitos humanos”.

Assume assim a posição de um apóstolo, de um divulgador do ideário liberal, confessando-se um integrante do que denominou de Liberalismo Clássico, distante do atual Neoliberalismo da Escola Austríaca e que hoje faz sucesso nos Estados Unidos e também na América Latina, pelo menos até tempos bem recentes.

Os pilares da Nova Era

Ainda que as verdades defendidas pelas ciências humanas não sejam exatas, não são verdades cientificas, ainda assim elas tendem a se aproximar da realidade.O que nos obriga, diz Sorman, a assumir posições um tanto que flutuantes ou imprecisas, inclusive quando definimos a nossa época como uma Nova Era.

Etapa histórica essa cujos pilares são formados pelo Liberalismo e pela mundialização - Sorman nega-se a recorrer ao termo mais conhecido de “globalização”, de uso anglo-saxão, preferindo o de “mundialização”, mais ao gosto francês - o que nos conduzirá ou não à formação de uma Nova Civilização. Sempre atentos a possibilidade disto tudo ser a expressão do domínio econômico, político e intelectual dos Estados Unidos sobre o restante do mundo, estando aberta a questão da mundialização poder ser uma nova forma do imperialismo norte-americano.

Uma Nova Era cuja data de fundação foi assinalada pela queda do Muro de Berlim, prenúncio do fim do sistema soviético e, igualmente, das doutrinas que lhe davam sustentação (como o marxismo), dando oportunidade a que se afirmasse em definitivo a vitória das idéias liberais. Até aquele momento a humanidade podia escolher entre dois modelos, o socialista ou o liberal-capitalista. Depois de 1989, não há mais escolha.

Não que não se possa opor-se ao modelo liberal, mas ele sempre será a referência. Cabe esclarecer - alerta Sorman - o enorme abismo que existe entre o pensamento liberal e o que se entende por isso na vida política do Brasil. Há um gigantesco mal-entendido entre o autentico liberalismo e como ele é percebido por aqui. Assim sendo resta-lhe afirmar antes de tudo quais são as verdadeiras dimensões do Liberalismo Clássico.

Do Liberalismo Clássico

A primeira das suas características é que ele é um Pensamento democrático. Sorman considera que não há melhor sistema, o mais bem adaptado a qualquer sociedade humana do que o das sociedades democráticas.E sua principal virtude é que elas tendem no futuro a serem organizações pacíficas, visto que um dos seus grandes méritos é eliminar a guerra civil. Ao reduzir a violência, permitem um modo de organizar o debate em sociedade por um meio civilizado e não agressivo.

Não há dentro da tradição francesa do liberalismo algo que não seja democrático. Isso é preciso salientar em face de que na América Latina houve uma estreita aliança entre os Regimes Militares e a Economia de Mercado. Foi o caso do Chile durante a ditadura do general Augusto Pinochet, entre 1973 a 1989, regime que recebeu orientação econômica dos discípulos de Milton Friedman da Escola de Chicago.

Tal tipo de experiência jamais ocorreu na Europa Ocidental nem na França.

Todo o esforço de Sorman, nas suas inúmeras visitas à América Latina, tem sido explicar que não pode haver separação entre a democracia política e a Economia Livre, pois o segundo grande pilar do liberalismo autêntico é a liberdade econômica.Situação que não condiz com apoio às ditaduras.

Ele não simpatiza com o termo “capitalismo” visto que é polêmico, fazendo com que prefira usar “economia livre” ou “aberta”. E o que vem a ser isto? É a possibilidade do individuo tornar-se um empreendedor, a possibilidade dele realizar trocas com outro. Portanto, a abertura social é uma abertura internacional.

Um dos seus outros pilares do liberalismo é o Estado de Direito, o que quer dizer que numa sociedade liberal existe um Estado. É um posicionamento totalmente oposto ao dos liberais norte-americanos como é o caso de Milton Friedman, da Escola de Chicago, que acreditam no funcionamento da sociedade regida apenas pelo mercado.

Para o Liberalismo Clássico, o estado, ainda que Estado Mínimo, está sempre presente. E isso em razão dele entender que se existem bens privados (empresas, bancos e propriedades particulares), há outros que são públicos e que só podem ser administrados pelo Estado (caso do ensino publico e da saúde).

Por conseguinte o debate que se trava na França entre os liberais e os estatizantes não se dá em função de haver ou não a necessidade de um estado, mas sim quais são os limites dele.

O Estado de Direito surge pois como oposição à Autocracia, ao Caudilhismo (típica tradição latino-americana), e ao Fascismo (que predominou na Europa Ocidental), que é um estado mas que não se perfila como um Estado de Direito. A maior função dele é garantir as liberdades individuais dos cidadãos.

Os elementos da mundialização

Além de ser um fenômeno econômico, a mundialização significa um sistema de trocas generalizado obediente a uma divisão internacional do trabalho, fazendo com que não haja no mundo de hoje um só consumidor que não tenha de algum modo se integrado ao mercado internacionalizado. O índio amazonense veste uma camisa feita na China. Ninguém está ao desabrigo. E tudo se deve, entre outras coisas, às técnicas de comunicação que fazem com que o isolamento se torne impossível.

O segundo fenômeno da mundialização é a Mundialização Cultural. Graças à Internet todo mundo está em contanto com todo o mundo, promovendo o inglês como uma língua universal. Fazendo com que a ligação da Internet com o idioma inglês gere uma nova cultura - ou uma subcultura para alguns - formando um campo de modificações instantâneas que funciona 24 horas por dia sem haver interrupção e que provoca uma situação absolutamente revolucionária.

O mesmo ocorrendo com a televisão que projeta o tempo inteiro um número considerável de programas que podem ser assistidos de diversos locais, nos mais variados momentos. O que nos conduz a outra das características da mundialização: a Mundialização do Lazer e Estética: cada vez mais os programas se parecem, enquanto as pessoas vestem-se da mesma maneira, fazendo com que a moda se consagre como um fenômeno universal.

Interessa observar que os dois movimentos a favor do liberalismo e da mundialização não foram desejados por nenhuma pessoal em particular, ninguém os planejou. Ocorreram espontaneamente. Sorman então enfatiza que os principais beneficiados da mundialização são as populações mais pobres não as privilegiadas, visto que tanto na China como na Índia milhões de pessoas saíram da miséria e ascenderam à classe média. O mesmo se aplica ao Brasil.

A origem da liberdade

Para Sorman, o fato de o liberalismo ser um fenômeno originalmente europeu deve-se a que o Império e o Papado, tendo se enfrentado ao longo da Idade Média, abriram sem o desejar um espaço de liberdade que permitiu que os burgueses o ocupassem.

O fato da mitra e da coroa terem se enfraquecido em razão da rivalidade - é uma tese defendida pelo historiador Fernand Braudel - impediu que ocorresse uma concentração de poder como se constituiu em outras sociedades (como foi o caso do Despotismo Oriental, vigente outrora na China e na Índia).

O choque entre o Poder Político e o Poder Religioso, que no Ocidente se arrastou por muitos séculos, abriu caminho para o surgimento de um Poder Individual, permitindo que o capitalismo moderno aflorasse “nos poros da sociedade medieval”, como disse Karl Marx.

Nos Estados Unidos da América, por sua vez, a prosperidade deu grandes saltos depois da abolição da escravidão. A carência de mão-de-obra forçou os norte-americanos a serem cada vez mais inventivos no seu processo produtivo.

Sendo que a democratização daquela sociedade é outro fator que ajuda a explicar o seu sucesso, visto que a igualdade gera a necessidade de uma crescente produção estandardizada visando atender a todos com parcimônia e com mínima discriminação.

Na França e na Grã-Bretanha deu-se o contrário. Além de haver mão-de-obra abundante, o consumo concentrou-se na aristocracia, na nobreza, gerando o desejo de um consumo mais individualizado, adverso à produção em massa. Entre eles é o modelo norte-americano que perdurará, entre outros motivos porque é o mais eficaz.

Obras de Guy Sorman

O Ano do Galo, 2006

Feito nos EUA, 2005

O Progresso e seus inimigos, 2001

Os Verdadeiros Pensadores do Nosso Tempo, 1989

A Nova Riqueza das Nações, 1987

Estado Mínimo, 1985

A Solução Liberal, 1984

A Revolução Conservadora Americana, 1983

Site Terra
http://noticias.terra.com.br/educacao

Comentários

O Optimismo no Reino da Fantasia

Robert Kurz

A Primavera agora começa já antes do Natal, não só no que respeita às previsões meteorológicas, mas também nos prognósticos de conjuntura dos media e dos políticos para 2007. Porém, tudo indica que desta vez se está a desperdiçar antecipadamente a pólvora do optimismo barato no que ao emprego diz respeito. O pretexto foi dado pela notícia de que o número oficial de desempregados tinha descido um pouco abaixo dos quatro milhões em Novembro. De facto, graças ao bom tempo, pôde continuar-se a trabalhar ao ar livre e por isso as empresas de construção civil registaram o número mais baixo de desemprego em Novembro dos últimos dez anos. Obviamente, não é a temperatura do ar das últimas quatro semanas que pode servir de base a uma retoma geral. Também o ligeiro aumento de emprego com desconto para a segurança social é meramente relativo. Pois, em primeiro lugar, continua um deficit de 1,5 milhões desde 2000 e, em segundo lugar, 70% dos novos empregos são contratos a prazo ou em empresas de trabalho temporário. O número de relações de trabalho precário cresce tanto quanto o número de desempregados feitos desaparecer das estatísticas através de medidas estatais.

O crescimento da conjuntura interna através do desenvolvimento do mercado de trabalho será seguramente tão pouco significativo em 2007 como nos anos anteriores.. Pelo contrário, é de esperar que a elevação da taxa do IVA tenha repercussões negativas. Daí que a muito celebrada previsão de crescimento de bancos e institutos fique em média nos 1,3 %; na realidade, tal como com as notórias esperanças de crescimento do ano passado, muito pouco para sequer arranhar a base de desemprego continuamente construída nas últimas duas décadas. A mini-retoma depende, tal com antes, apenas das exportações, ou seja, da frágil conjuntura mundial, que é suportada sobretudo pelas bolhas financeiras e por isso pode vir abaixo repentinamente. Enquanto se escuta com agrado as vozes de confiança do reino da fantasia, simultaneamente cresce a suspeita de um crash iminente nos mercados internacionais de crédito e de empréstimos. Pois o arriscado financiamento a crédito das batalhas de fusões e aquisições dos últimos meses por todo o mundo criou um enorme potencial de falência dos Private-Equity-Fonds, que pode levar a uma reacção em cadeia nos empréstimos às empresas em 2007.

Com a falta de ar no mercado financeiro global está ligado também o facto de que a economia americana parece finalmente perder o fôlego como locomotiva da conjuntura mundial em 2007. Se a ruptura no mercado imobiliário americano continuar e se juntar a uma crise de dívidas globais de fusões e aquisições e de empréstimos às empresas, também o mercado de acções voltará a cair. Com isso seria programado o receado “hard landing” da conjuntura do consumo de muitos anos nos USA. Porém, como é sabido, este consumo endividado é que tem alimentado uma parte cada vez maior da conjuntura de exportação global. Para as empresas da Alemanha não estão em causa apenas as exportações directas para os Estados Unidos. Também uma parte considerável das exportações para os vizinhos da União Europeia ou para a China (por exemplo, de máquinas-ferramentas) depende indirectamente do consumo dos Estados Unidos. Pois todos estes países importam componentes de produção para, por sua vez, servirem a via exportadora de sentido único sobre o Pacífico ou sobre o Atlântico. A conjuntura de 2007 apresenta-se mais do que nunca como conjuntura mundial imediata com centro de gravidade norte-americano. Um primeiro sinal poderá surgir com as vendas de Natal; não aqui, mas nos Estados Unidos.

Original OPTIMISMUS IM REICH PHANTASIEN in Neues Deutchland, 15.12.2006
http://obeco.planetaclix.pt/rkurz247.htm

Comentários

Chuveiro esperto

Empresa mineira desenvolve sistema que recupera calor da água do banho.

Marcos de Oliveira

Foi em pleno banho ao lavar os pés sujos de terra avermelhada que o tecnólogo José Geraldo de Magalhães teve uma idéia ao perceber a água quente se esvaindo pelo ralo. Pensou em desperdício e começou a imaginar um sistema que aproveitasse esse calor para ajudar a esquentar a própria água do chuveiro. Sete anos depois daquele dia na sua cidade natal, em Rio Vermelho, no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais, Magalhães acompanha, desde setembro, a distribuição gratuita de um lote de 7 mil peças de seu invento para pessoas carentes da Região Metropolitana de Belo Horizonte num programa elaborado e financiado pela Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig). Chamado de recuperador de calor para chuveiros elétricos, o sistema possibilita uma redução de 44% no gasto de energia elétrica de uma residência. O recuperador é produzido pela empresa Rewatt Ecológica, da qual Magalhães é um dos sócios.

O funcionamento é simples. Em vez da água da caixa ou da rede de distribuição ir direto para o chuveiro, ela segue por uma mangueira e chega a uma plataforma de plástico reforçado instalada no chão do banheiro, com 58 centímetros (cm) de diâmetro e 4 cm de altura com tapete e estrutura antiderrapante. Dentro dela existe um trocador de calor feito de alumínio, na forma de um encanamento em espiral, que recupera o calor da água quente do banho e aquece, em cerca de 20 segundos, a água limpa no interior do cano. A água aquecida é levada, por pressão natural ou por um pressurizador, para o chuveiro.

A diferença do novo sistema é que quando a água chega ao aparelho ela já está pré-aquecida em comparação à existente na caixa. Normalmente a água natural parte dos 20º Celsius (C) e é esquentada no chuveiro até 38ºC, que é a temperatura do banho quente no inverno. “Se ela já estiver com 27ºC, a diferença cai de 18º para 11ºC”, diz a professora Júlia Maria Garcia Rocha, do Grupo de Estudos e Energia (Green) do Instituto Politécnico da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Foi ela quem coordenou os dois testes que comprovaram tecnicamente a viabilidade do sistema, primeiro a pedido de Magalhães e depois da Cemig. “No início, nós não acreditávamos que o recuperador funcionasse. Depois fizemos os testes, o modelamento teórico e, no final, sugestões para melhorar o equipamento”, diz Júlia. “Fiquei tão impressionada que coloquei o recuperador na minha casa.”

A economia é mais visível com a troca do chuveiro. “Esse aparelho é o vilão do gasto energético em uma residência e, com o recuperador de calor, é possível usar um chuveiro menos potente”, diz Magalhães. Assim, em vez de um aparelho de 5.400 watts de potência, por exemplo, é possível usar um com 3.200 watts que funcione bem, mesmo no inverno, ou até menos potente ainda dependendo da região. “Um dos primeiros protótipos eu vendi para um teste de campo na cidade de Carlos Barbosa, no Rio Grande do Sul, próximo à cidade de Caxias do Sul. Lá eles trocaram um chuveiro de 7.400 watts por um de 4.400 watts”, diz Magalhães.
Outro caso de sucesso contabilizado por Magalhães, ainda na fase experimental, foi a instalação de nove recuperadores de calor em uma academia de ginástica na cidade de Pedro Leopoldo, em Minas Gerais, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Na instalação, os chuveiros de 5.400 watts passaram para 2 mil watts e os com potência de 4.400 watts foram substituídos por aparelhos de 1.800 watts. Depois de 30 dias a redução do gasto energético foi de 1.020 quilowatts-hora (kWh) na conta de luz, resultando em menos R$ 612,00 nas despesas da academia.

Nas residências o consumo de energia elétrica representa 24% do total gasto no Brasil, ou 83 mil megawatts-hora (MWh) por ano, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) do Ministério de Minas e Energia. Desse número, de 26 a 32% representam o aquecimento de água para banho, grande parte concentrado no horário de pico, entre 18 e 21 horas. Dessa forma, o gasto energético nacional apenas com chuveiro atinge cerca de 22 mil MWh. Segundo números da Rewatt, se todos os chuveiros brasileiros adotassem o recuperador de calor, a economia de energia elétrica seria equivalente a 2,56% do total consumido no país, igual a uma porção de 8 mil MWh, semelhante às necessidades energéticas anuais do estado de Goiás, por exemplo.

Em grande escala, por enquanto, o sistema da Rewatt estará apenas nas residências escolhidas pelo Projeto Conviver da Cemig, que tem o objetivo de implementar ações de eficiência energética e aproximar a empresa das populações mais carentes. “Quem vai receber a doação do sistema são residências com mais de quatro pessoas, que são pontuais nos pagamentos e têm a média anual de, no mínimo, 90 kWh por mês”, diz o coordenador do Projeto Conviver, Henrique Fernando França Costa. Além do recuperador, o projeto vai distribuir gratuitamente cerca de 300 mil lâmpadas compactas para substituir as incandescentes que gastam mais. Neste ano a Cemig vai aplicar R$ 21,5 milhões no programa. Os recuperadores representam um investimento de R$ 2,4 milhões. A iniciativa faz parte de uma resolução da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) que indica a todas as concessionárias de energia elétrica a obrigatoriedade de investir 1% da receita operacional líquida em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e em projetos de eficiência energética (PEE). No caso do projeto Conviver, outro fator importante é a geração de receita adicional para a família que gastará menos com a conta de luz. Também ganham as comunidades que terão os instaladores do recuperador de calor recrutados no próprio local. O treinamento está sendo realizado pela Rewatt e pela Cemig.
A trajetória de sucesso do invento de Magalhães começou logo depois da idéia original em Rio Vermelho. “Eu tinha uma empresa de instalação e reparo de ar-condicionado automotivo e, após o registro da patente de invenção no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), cheguei a fazer cerca de cem protótipos do recuperador. No final buscava a melhor forma, a beleza e a funcionalidade”, lembra Magalhães, formado em tecnologia de edificações no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG), em Belo Horizonte. “Fiz buscas de patentes internacionais e encontrei algo parecido na Alemanha e na Inglaterra, mas os equipamentos não funcionaram lá. Por teimosia insisti no recuperador, mas acabei quebrando a minha empresa.” A partir daí ele passou a procurar parceiros para a produção do equipamento. Estava numa feira de inventores no Pavilhão do Expominas, em março de 2005, em Belo Horizonte, quando o consultor e administrador de empresas Valério José Monteiro conheceu o invento e se interessou em viabilizar aquele produto. “Em abril de 2005, após inúmeras conversas, estruturamos um bom plano de negócios e buscamos capital no mercado. Estivemos com alguns investidores que gostaram da idéia, mas não acreditaram no potencial da empresa. Insistimos mais até encontrarmos o Marco Antônio Almeida Resende, que entrou como sócio investidor, injetando R$ 200 mil e mais dois anos de muita dedicação e trabalho. Com isso conseguimos terminar o desenvolvimento do recuperador”, diz Monteiro. Ele diz que empresas fornecedoras de peças também entraram no projeto, como parceiras de risco. Em 2006 a Rewatt ofereceu o produto para a Cemig, que logo contratou a empresa como parceira no projeto de eficiência energética.

O segundo passo da Rewatt será colocar o produto no mercado. “Estamos nos estruturando para vender o recuperador para um público mais amplo a partir de janeiro de 2008. Com o custo aproximado de R$ 360,00, o produto se paga em dez meses quando utilizado em residências com até quatro pessoas. Há casos em que a redução pode atingir 50% do valor da conta, reduzindo assim o prazo de amortização”, diz Monteiro. “Vamos focar o mercado distribuidor das regiões Sul e Sudeste, inicialmente.” Enquanto isso, o inventor Geraldo Magalhães, aos 56 anos, continua pensando em inovações e novos inventos. Ele acredita que pode transpor esse sistema para outras formas de aquecer o banho, como aqueles em que existem câmaras de aquecimento, chamadas de boilers, como acontece em outros países latino-americanos e na Europa, por exemplo, locais onde inexiste o chuveiro elétrico. “Chuveiro como no Brasil, pelo que sei, só existe no Peru. O recuperador de calor pode ser adaptado para processos de aquecimento de qualquer país. É preciso um projeto específico”, informa Magalhães. Sobre outros inventos, ele prefere não falar. “Ainda estou estudando.”

Revista Pesquisa (FAPESP)
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/?lg=

Comentários (1)