Arquivo de 20 de Outubro de 2007

Organizações denunciam crescimento de irregularidades em casos de adoção

A Guatemala está hoje entre os países que mais cedem crianças para a adoção. Segundo dados da Organização Internacional das Nações Unidas para a Infância (Unicef), a Guatemala é o quarto país do mundo em quantidade de menores dados para adoção, ficando atrás apenas da Rússia, China e Correia do Sul. A atividade movimenta anualmente cerca de 100 milhões de dólares, o que tem provocado o aumento de roubos de crianças guatemaltecas para serem vendidas em redes ilegais de adoção.
Somente no primeiro semestre deste ano, foi registrado o roubo de 230 crianças, além da existência de seqüestro a mão armada, subtração de bebês de mães solteiras, ameaças, coações de familiares. Dados como esses foram levados à Comissão Interamericana de Direitos Humanos através do Centro pela Justiça e Direito Internacional (Cejil) e da Casa Aliança, que neste último dia 13 de outubro apresentaram à Comissão suas principais preocupações em relação às irregularidades que persistem nos processos de adoção na Guatemala.

De acordo com as organizações, 97,3 % das adoções são feitas através de notários, que atuam sem nenhuma supervisão. Sobre o assunto, as duas entidades enfatizaram a necessidade de que os processos de adoção sejam acompanhados por um juiz para garantir o respeito aos direitos fundamentais das crianças.

As organizações também dirigiram críticas ao governo da Guatemala, questionando por que mesmo estando ciente da problemática, não tem tomado medidas para contornar a situação. Elas disseram ainda que esperam que a aprovação da nova Lei de Adoções, prometida para este ano, seja feita de acordo com as normas internacionais de direitos humanos. A nova lei tem como objetivo eliminar os incentivos econômicos dos processos de adoção.

Segundo dados da Procuradoria Geral da Nação (PGN), no último ano, 4.837 crianças guatemaltecas foram concedidas para adoção por famílias estrangeiras, 10% a mais que em 2005. Até agosto de 2007, esse número já contava 2.271 adoções, o que revela um crescimento dos números. Desse total, 98% foram realizadas por estrangeiros, a maioria casais dos Estados Unidos.

Por conta das estatísticas, desde agosto deste ano, a embaixada dos Estados Unidos na Guatemala tem exigido, dentre outras medidas, que cada criança adotada seja submetida à testes de DNA para garantir que o pai doador seja de fato o progenitor da criança. A embaixada espera que até o final deste ano, a embaixada estadunidense ratifique o Convênio de Haya, assinado em 29 de maio de 1993 e que trata da Proteção da Criança e Cooperação com Relação à Adoção Internacional.

O mercado de adoções na Guatemala guarda uma grande rede máfia que envolve advogados, tabeliões e “captadores”, que convencem jovens mães e mulheres de baixa renda a darem seus filhos para adoção. Muitas delas, aceitam as propostas dos criminosos em troca de dinheiro ou até mesmo por assistência de saúde.

Cada casal estrangeiro interessado em adotar uma criança guatemalteca desembolsa uma quantia que varia de 20 a 30 mil dólares, o que inclui o pagamento da viagem, a papelada e os honorários dos advogados, já que o processo é encaminhado via funcionários e não via judicial, o que diminui o tempo de espera para a conclusão da adoção.

As adoções na Guatemala estão regidas pelo Código Civil, através da Lei de Proteção Integral da Infância e Adolescência e a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Crianças, mas não existe uma norma específica nem uma autoridade central para tratar do assunto.

Adital
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Quem topa produzir por menos?

Na lógica da OMC, só os preços devem regular o comércio internacional. No Caribe, isto inviabilizou a pequena produção camponesa, que assegurava ótimas condições de trabalho.

Samy Archimede

Um hangar aberto em todos os lados, uma gamela de lavagem corroída pela ferrugem, uma caminhonete abandonada em meio a centenas de pés de banana ressecados, nas terras cobertas por ervas daninhas. Eis o que resta desta plantação que sustentava, há alguns meses, uma família de agricultores da região de Saint-Claude, na Guadalupe. Entre as folhas queimadas pelo sol, algumas frutas verdes parecem ainda aguardar uma improvável colheita. Como muitos antes dele, o proprietário acabará, talvez, revendendo seus poucos hectares à comuna ou a um corretor imobiliário.

O esquema é simples: de um lado, agricultores super endividados e desmotivados; de outro, investidores à espera de qualquer pedaço de terra para construir. “Os plantadores que compraram o metro quadrado de terreno há alguns anos por menos de um euro podem hoje revendê-la por cerca de 45 euros, uma vez ela passe a ter uma outra classificação. Considerando as dificuldades do setor bananeiro, alguns nem vão pesquisar preços menores”, suspira Jean-Marie Nomertin, secretário geral da Confederação Geral dos Trabalhadores de Guadalupe(CGTG). É grande a tentação de repassar as terras para aqueles que aqui chamamos de “plantadores de cimento”. De Trois-Rivières a Gourbeyre, não dá para contar o tanto de loteamentos que vieram substituir as grandes áreas verdes agrícolas.

Em todos os locais onde o comento substituiu a banana, um grande número de empregos foi perdido: desde 1993, um total de 3300, segundo Karubana, principal grupo de produtores de Guadalupe [1]. A este número devem-se acrescentar mais de 1500 empregos indiretos: caminhoneiros, vendedores de material agrícola, motoristas de ônibus, postos de serviço, pequenas lojas, ferreiros, encanadores e outros pequenos artesãos…

“Será a morte do emprego produtivo”
É todo o tecido econômico e social das Antilhas que está prestes a mudar, sob o efeito desta crise. Primeira cultura de exportação na Guadalupe e na Martinica, a banana é também uma das raras fontes de divisas de uma região fortemente dependente da metrópole. “Se as coisas continuarem desta maneira, não se poderá cultivar mais nada daqui a dez ou quinze anos. Será a morte do emprego produtivo em Guadalupe”, adverte Nomertin.

A cadeia bananeira de Guadalupe nunca esteve tão mal. Em apenas 15 anos, suas exportações despencaram, passando de cerca de 115 mil para menos de 50 mil toneladas por ano. “Em fins, de 2004 o clima social estava muito tenso. Durante a greve dos portuários, que durou várias semanas, todos os meus frutos permaneceram no cais. Isto representa deixar de ganhar um dinheiro considerável, o que me obrigou a vender quatro hectares de terra”, diz Damien Frair. Gerente de uma pequena propriedade situada na parte superior de Sainte-Marie, a uns trinta quilômetros de Pointe-à-Pitre, e membro do Comitê de Defesa dos Pequenos Produtores de Banana, ele será o próximo plantador a desaparecer? Por quanto tempo poderá conservar seus cinco operários, cujos salários representam cerca de 60% de seus custos de produção?

Embora atormentado por estes problemas cada vez mais presentes, Frair não quer ceder às explicações simplistas. Ele sabe que as tensões sociais que sacodem sua profissão não passam de sintomas de um mal exógeno mais profundo. “Antes de 1993, dois terços do mercado francês da banana eram reservados à produção antilhesa: um terço restante correspondia aos países ACP (África, Caraíbas, Pacífico). Nossos frutos eram vendidos entre 75 e 90 centavos de euro por quilo. Hoje eles não nos rendem mais de 30 centavos, em média”, explica. E prossegue: “Desde que entrei no ramo da banana, há oito anos, os resultados de minhas vendas foram freqüentemente negativos. Nunca pude pagar todos os encargos. As ajudas da Europa nunca me permitiram por em dia meus problemas de caixa.”

As desgraças dos plantadores guadalupenhos começaram em 1989, com a passagem do ciclone Hugo, um dos mais devastadores do século passado. Mas é a partir de 1993 que o horizonte piora talvez para sempre. A criação de uma Organização Comum do Mercado Europeu da Banana (OCMB), no âmbito da União Européia, encerrou um sistema de preferência nacional que tinha permitido aos guadalupenhos despejar, durante trinta anos, a totalidade de sua produção em solo francês.

Impossível concorrência com gigantes
De um dia para o outro, eles se viram concorrendo diretamente com as poderosas multinacionais norte-americanas (Chiquita, Dole e Del Monte), que detêm com exclusividade dois terços do mercado mundial da banana. Proprietários de extensas plantações de banana na América Latina e na África, estes gigantes do agronegócio possuem locais próprios de amadurecimento. Já dominam as centrais de compra européias, o que lhes permite controlar o conjunto da cadeia. Ao contratar, desde 1993, a compra de dois milhões de toneladas das famosas “bananas dólar” estas transnacionais comercializam, a União Européia assinou a sentença de morte de centenas de plantações antilhesas.

Com custos de mão de obra de dez a vinte vezes inferiores aos das Antilhas, o Equador, primeiro exportador mundial, não teve dificuldade em conseguir um lugar nos balcões dos supermercados do Velho Continente. Em posição de força em todas as negociações internacionais, os produtores sul-americanos conseguiram também, em muitas oportunidades, um aumento de suas cotas de exportação, o que contribuiu para rebaixar os preços.

Para permitir aos fornecedores europeus (Canárias e Antilhas, principalmente) enfrentar o diferencial de custo e benefícios favorável aos seus concorrentes, a OCMB tinha previsto uma ajuda compensatória à perda de receitas. Eficaz no início, ela revelou-se insuficiente à medida que o preço de venda da banana das Antilhas se transformava em pó. Muitos plantadores entraram numa espiral de endividamento que os obrigou a encerrar as atividades.

Em Guadalupe, onde um trabalhador em três recebe a renda mínimo de inserção (RMI [2]), o número de plantadores reduziu-se em três quartos, ao longo dos doze últimos anos. Apenas 220 continuam a exportar sua produção. E, como ocorre muitas vezes, são os pequenos produtores que foram as primeiras vítimas. Entre 1993 e 2005, o porte médio das explorações guadalupenhas passou de 3,5 a 13 hectares. Mas ninguém foi poupado pela crise. Entre Pointe-à-Pitre e Baisse Terre, as «grandes» plantações (de 30 a 200 hectares), mais modernas e também mais consumidoras de mão-de-obra não conseguem mais se desfazer de seus encargos sociais. Salários e custos de transportes elevados, o tamanho das explorações reduzidos, terrenos acidentados, condições climáticas difíceis…

Diante do restante da América Latina e da África, as desvantagens dos plantadores caribenhos parecem ainda mais intransponíveis desde janeiro de 2006, data em que as quotas de importação de bananas na Europa foram suprimidas [3]. Aceitando a mudança para um sistema unicamente tarifário que faz, mais uma vez, o jogo dos mais poderosos [4], a União Européia sacrificou seus próprios agricultores no altar da desregulamentação e do livre comércio. Agora que ela se submeteu às regras da Organização Mundial do Comércio(OMC), o que propõe para auxiliar os plantadores em dificuldade? Por ora, nada de novo.

Os plantadores martiniquenses, que tinham resistido até agora ao choque de 1993 e que exportam quatro vezes mais bananas que seus vizinhos guadalupenhos, sofrem, por sua vez, à lei do mercado. “Em 2004, entre as 30 grandes propriedades que foram requalificadas, 28 precisaram ser liquidadas. Mais de mil operários viram-se desempregados, provocando, por outro lado, a perda de 1 500 empregos indiretos” constata, impotente, Juvénal Rémir, presidente do Comitê de Defesa das Profissões Agrícolas (Codema), um dos principais sindicatos de produtores martiniqueses. E, segundo ele, é só o começo: sessenta e cinco outros produtores fortemente endividados estariam ameaçados de encerrar as atividades. “A situação é muito preocupante, pois nenhuma medida de requalificação foi prevista para o pessoal desempregado. O que vai ocorrer dos desempregados que nunca trabalharam em outro ramo a não ser no da banana?”

Saída: «adequar-se» à produção predatória?
Do lado dos plantadores, as alternativas parecem totalmente inexistentes. «A cana de açúcar está em plena crise e os outros ramos agrícolas não estão suficientemente estruturados. Sofremos a concorrência do inhame da França e da Costa Rica, que chega aqui mais barato que o nosso! De qualquer forma, não se pode mais plantar, pois os solos foram contaminados pelos anos de monocultura intensiva”. Remir é um homem revoltado. Para ele, o Estado é tão responsável pela situação quanto as instâncias européias.

Ele culpa o ministério da Agricultura por fechar os olhos às práticas fraudulentas que agravam a situação: “Alguns plantadores, maus gestores, ignoram suas dívidas e despedem seus operários muito facilmente, liquidando sua produção. Seis meses mais tarde, autoriza-se a que voltem a se dedicar às bananas sem obrigação de recontratar seu pessoal”.O Estado pôs em prática, há dois anos, um «contrato de progresso» visando sustentar os exploradores em dificuldade. Mas o presidente do Codema só vê nisso medidas temporárias visando acalmar os ardores de camponeses em ebulição. «O que seria necessário é organizar os estados gerais da agricultura para que fiquemos finalmente seguros sobre nosso futuro”.

Nas Antilhas, há alguns anos, todos falam de diversificação, mas ninguém parece acreditar nisso realmente. Abacaxis, abacates, limão verde, berinjela…Todas as tentativas de exploração fracassaram. Apesar do escândalo da poluição dos solos e das águas pelos pesticidas, revelado em um recente relatório parlamentar [5], a monocultura da banana ainda é o mais seguro meio de sobrevivência para estes agricultores, na maioria com mais de 50 anos.

É preciso também poder se adaptar às novas regras do jogo impostas pelo mercado, e seu caderno de encargos cada vez mais draconianos. Como lembra Fredéric de Reuynal, presidente da Banamart, o principal conglomerado de produtores da Martinica, “para vencer financeiramente e responder às exigências do mercado em termos de qualidade de produção, é preciso abandonar a gestão camponesa de empresa agrícola e adotar uma gestão industrial. O ideal é produzir cerca de 3 mil toneladas de bananas por ano [o que corresponde a uma exploração de, pelo menos, 60 hectares].”.

Quantos operários será necessário despedir nas Antilhas para atingir este ideal? Patrick Jean-Baptiste, agricultor de 42 anos e membro da Federação Departamental dos Dindicatos de Exploradores Agrícolas (FDSEA) da Martinica, não pode dizer, mas seu discurso é revelador do que se aguarda para os sobreviventes da banana nos próximos anos: “Reestruturar as empresas de forma perene, para diminuir as cargas sem fazer baixar as receitas, eis nosso desafio”. Por outro lado, Jean-Baptiste fixou um objetivo pessoal ambicioso: “permanecer na banana até a aposentadoria”. Talvez ele consiga, mas para seus operários, ao contrário, é muito menos certo.

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[1] Em dezembro de 2005, Karubana fundiu-se com Banagua para criar um grupo único: Os produtores de Guadalupe.

[2] Benefício previdenciário pago aos que não têm emprego.

[3] Em virtude de um acordo assinado há cinco anos pela Comissão Européia visando se adaptar as regra da OMC e colocar um fim na guerra comercial com os Estados Unidos.

[4] No novo sistema de importação unicamente tarifário, o dólar-banana enfrenta tarifas alfandegárias de apenas 176 euros a tonelada. Isso permitiu aos demais produtores que atuam na América Latina conseguir uma confortável posição no mercado.

[5] Relatório sobre o uso do clordecone e outros pesticidas na agricultura martiniquesa e guadalupenhana entregue dia 30 de junho de 2005 na Assembléia Nacional.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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Da lama para o mundo

Grafite em túnel do Recife homenageia o criador do Mangue Beat

João Mauro Araújo

Conheça a história do Mangue Beat, mistura de rock com maracatu idealizada por Chico Science que abriu caminho para a cultura da periferia do Recife e conquistou admiradores mundo afora

Dez anos atrás, um acidente automobilístico tirava a vida de Chico Science, o músico que promoveu a fusão entre maracatu e rock e, com isso, agitou o cenário artístico do Recife, dando origem ao movimento que ficou conhecido como Mangue Beat - numa referência aos próprios mangues, abundantes na cidade.

Ao aliar a batida forte de tambores com o som distorcido de guitarras elétricas, Science criou um gênero musical que conquistaria admiradores pelo Brasil afora e também no exterior, onde ele e sua banda, a Nação Zumbi, realizaram algumas turnês. Com letras ao mesmo tempo bem-humoradas e recheadas de crítica social, ele influenciou não só músicos, como artistas de outras áreas.

Além de colocar, na década de 1990, a capital pernambucana na vanguarda da produção musical, o Mangue Beat teve o mérito de despertar a auto-estima da juventude da periferia, ao valorizar as manifestações artísticas de grupos locais e tradicionais.

Corria o segundo semestre de 1992 quando um release com um título estranho - “Caranguejos com cérebro” - chegou à redação dos principais jornais do Recife. O texto, considerado o primeiro manifesto do Mangue Beat, falava de um grupo que vinha realizando eventos musicais na capital pernambucana e nos municípios de Olinda e Jaboatão dos Guararapes. Inspirados na biodiversidade dos manguezais, os jovens que integravam esse movimento pretendiam criar um gênero que unisse elementos da cultura popular com as vibrações sonoras mundiais.

A grande projeção que as bandas Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A alcançaram, principalmente em meados da década de 1990, além de estimular a formação de novos conjuntos locais, teve forte influência sobre outros segmentos da produção artística pernambucana. Com o passar do tempo, porém, o movimento foi perdendo fôlego, e muitos músicos abandonaram o rótulo Mangue. Mesmo estes, no entanto, reconhecem a importância do papel dos “mangueboys” nos alicerces da cena atual.

Dez anos após o acidente de carro que vitimou Chico Science - notável articulador do movimento -, em fevereiro de 1997, a diversidade cultural introduzida pelo Mangue Beat continua a dar frutos. Basta acompanhar, durante o carnaval, as apresentações no palco do Pólo Mangue do Morro, no centro antigo do Recife, para constatar que ainda há muita gente tirando energia da lama.

Origem

A temática do mangue sempre esteve presente na obra de eminentes escritores, que reproduziram as imagens da penosa interação das pessoas pobres com esse ecossistema no cotidiano recifense. Perto do desfecho de Morte e Vida Severina, por exemplo, João Cabral de Melo Neto (1920-99) expõe ao personagem retirante a dramática situação dos mocambos, a partir do discurso de um de seus moradores: “Minha pobreza tal é/ que não trago presente grande:/ trago para a mãe caranguejos/ pescados por esses mangues;/ mamando leite de lama/ conservará nosso sangue”. Já o professor Josué de Castro (1908-73) chegou a afirmar: “Não foi na Sorbonne nem em qualquer outra universidade sábia que travei conhecimento com o fenômeno da fome. A fome se revelou espontaneamente aos meus olhos nos mangues do Capibaribe, nos bairros miseráveis do Recife. (…) homens e caranguejos nascidos à beira do rio, à medida que iam crescendo, iam cada vez se atolando mais na lama”.

Ao contrário dos poetas que o antecederam, Francisco de Assis França, o Chico Science, conseguiu enxergar riqueza naquela paisagem pantanosa. Sua idéia foi associar a complexidade orgânica dos manguezais a uma proposta de cena musical diversificada.

Nascido no Recife, Science foi batizado com nome de santo por sua mãe, Rita Marques de França, que sonhava ver o filho padre. Ela conta com orgulho as peripécias do menino nos teatrinhos da igreja, embora já soubesse que aquele “não era o caminho dele”. Dona Rita recorda que o avô de “Chiquinho” trazia repentistas para cantar em Surubim (PE), sua cidade natal: “Meu pai era apaixonado por tocador de viola e gostava muito daqueles folhetos, romances, que comprava e pedia para eu ler”. Esse gosto foi transmitido ao neto, pois, segundo parentes e amigos, Science era também apreciador da literatura de cordel. Esses trabalhos poéticos - em que se contam histórias de Lampião, Antônio Conselheiro, causos policiais, pelejas clássicas… - seriam retomados nas letras do cantor.

As apresentações nos palcos e nos videoclipes gravados com a banda Nação Zumbi traziam sempre, também, referências a caranguejos, que Chico Science conhecia desde os quatro anos de idade, quando a família mudou para o bairro de Rio Doce, em Olinda. A irmã Maria Goretti Lima relembra essa época, quando ele costumava brincar de apanhá-los com os amigos: “Perto de casa havia um rio e um manguezal enorme. Às vezes apareciam alguns caranguejos até no nosso quintal”. Já as preocupações sociais e uma certa inclinação política do Malungo (palavra de origem africana que significa “companheiro”), como Science também era conhecido, costumam ser atribuídas à influência do pai, Francisco Luís França, que compara o filho à estrela-d´alva, por conta da luz que se apaga de maneira repentina.

Técnico de enfermagem na área de saúde ocupacional, primeiro em hospital, depois na indústria, seu França militou no sindicato dos enfermeiros, no Recife, e chegou a ser vereador de Olinda. Vestindo um avental branco, os olhos ocultos por trás dos óculos escuros, ele conta que, certa vez, chegou a ser demitido por defender o direito dos trabalhadores.

Atualmente, seu França trabalha no Espaço Ciência, um imenso museu a céu aberto localizado entre Recife e Olinda. No pavilhão de exposições onde desempenha suas funções, há algumas fotos de Chico Science. Fora do prédio, o artista também é lembrado, e a homenagem não poderia ser melhor: desde outubro de 1997 o local onde fica a trilha ecológica do parque leva seu nome. A área, de aproximadamente 20 mil metros quadrados, é o que restou de um manguezal depois dos aterros realizados na segunda metade do século passado sobre o estuário dos rios Beberibe e Capibaribe.

Repórter Brasil
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Gastos públicos, déficits e desemprego

João Sicsú

Foi o economista inglês John Maynard Keynes que consagrou a idéia de que a taxa de desemprego poderia ser mantida em patamares bem reduzidos se uma política fiscal de gastos fosse corretamente posta em operação. A variável econômica mais importante na teoria de Keynes sempre foi o emprego. Sua obra mais importante, publicada em 1936 e cada vez mais atual, chama-se “Teoria Geral do Emprego” e não “Teoria Geral do Crescimento”. Hoje em dia, a variável real mais observada e discutida é a taxa de crescimento econômico. Contudo, a taxa de desemprego e quantos milhões de pessoas estão desempregadas representam de forma muito mais fidedigna a realidade não somente econômica de um país, mas revelam também a realidade social de uma economia.

O direito econômico mais básico que um indivíduo deveria ter, segundo Keynes, era o direito à renda obtida através do trabalho. O Estado deveria garantir esse direito. A teoria de Keynes demonstrou que trabalhadores e empresários, interagindo livremente em plena concorrência, não podem prover vagas suficientes para absorver todos aqueles que buscam renda que deveria ser obtida pela venda do esforço físico e/ou mental, o único ativo que os trabalhadores possuem. Empresários, agindo de forma racional, não podem ofertar vagas de trabalho quando vislumbram uma queda das suas vendas futuras. Então, o papel do Estado, através de políticas governamentais, deveria ser a geração de expectativas empresariais otimistas, um ambiente que empresários contratassem mais e mais trabalhadores.

A política fiscal foi identificada por Keynes como aquela política capaz de fazer o serviço de manter o desemprego quase nulo. O gasto público, especialmente aquele em atividades intensivas em trabalho, é o elemento básico dessa política. A realização de grandes obras públicas, por exemplo, contrata muitos trabalhadores que vão gastar os seus salários comprando bens de consumo. É esse cenário esperado de aumento de suas vendas que os empresários precisam vislumbrar para elevar a sua produção e contratar mais trabalhadores. Há então um efeito multiplicador do emprego gerado pelo gasto público que cria, em cadeia, empregos também nas fábricas de bens de consumo.

Para realizar essa política discricionária fiscal de gastos, as finanças públicas precisam estar sempre sadias. Para realizar gastos um governo precisa ter condições orçamentárias. Um governo que possui uma dívida pública muito grande pode estar sujeito a pagar um serviço elevado por essa dívida. Talvez sob estas condições o governo possa perder a capacidade de utilizar o instrumento apreciado por Keynes, já que seu orçamento pode ser deficitário, o que impede, ou pelo menos reduz demasiadamente, a sua capacidade de realização de gastos públicos adicionais.

É exatamente sob condições de dificuldade que a aplicação de políticas macroeconômicas keynesianas deve ser objeto de reflexão, análise e reelaboração. Sob condições ideais, basta aplicá-las e colher os frutos. Se a economia possui um déficit reduzido, e se é necessário que o governo gaste mais, gaste-se mais e aumente-se o déficit. Desequilíbrios orçamentários devem ser sempre evitados, mas em condições emergenciais podem ser aceitos. Contudo, se o orçamento já está no limite máximo de déficit aceitável, se a carga tributária não pode ser elevada e o governo precisa gerar mais empregos, então o que o governo deve fazer é mudar a composição dos seus gastos e trocar os que geram poucos empregos pelos que geram muitos empregos. Por exemplo, reduzir o gasto público com o pagamento de serviço da dívida, que não gera empregos, e gastar mais em construção de infra-estrutura pública. Cada gasto do governo tem um multiplicador de empregos diferente. Quem recebe juros proveniente do carregamento de dívida pública não realiza gastos adicionais, já que tem todo o seu consumo plenamente satisfeito. Mas o trabalhador da construção civil contratado pelo governo para fazer uma estrada necessariamente gasta tudo o que recebe.

Esta fórmula de recomposição de gastos públicos sem aumentá-los, além de reduzir o desemprego, proporcionará uma redução do déficit público e, possivelmente, um equilíbrio do orçamento. Com crescimento econômico haverá aumento da arrecadação e redução de alguns tipos específicos de gastos, tal como tal como o gasto com de seguro-desemprego. Há uma lição importante a ser destacada na trajetória macroeconômica descrita: o orçamento equilibrado é o sintoma de uma economia vigorosa que tem baixo desemprego e o déficit público é o sintoma de uma economia com elevado desemprego.

A doença básica de certas economias, então, não são seus déficits públicos, mas suas elevadas taxas de desemprego. Déficits são sintomas que devem ser eliminados porque impedem que economias utilizem políticas keynesianas de gastos na rubrica obras públicas em condições ideais, onde seus resultados são mais previsíveis. Contudo, tentar eliminar o déficit público através do corte de gastos correntes e de investimento em uma economia que possui a doença crônica do desemprego é tarefa quase impossível. O resultado será mais do mesmo: mais déficit e mais desemprego. Doenças devem ser combatidas com ataques às suas causas, e não aos seus sintomas. Um corte de gastos correntes e de investimentos em situação de elevado desemprego provocará, por um lado, uma redução da arrecadação, porque agravará o desemprego e, por outro lado, um aumento de gastos em determinadas rubricas, tais como o seguro-desemprego. Então, um corte de gastos correntes e de investimento pode aumentar o déficit, e não forçosamente reduzi-lo.

Deve-se, em conclusão, rejeitar a ocorrência de déficits públicos profundos e permanentes porque eles impedem a realização discricionária e emergencial de políticas de gastos governamentais de combate ao desemprego. Deve-se ainda buscar eliminar déficits públicos com políticas de combate ao desemprego, e não com corte de gastos correntes e de investimento, quando a economia e a sociedade já estão em situação de penúria. Resultados orçamentários são sintomas - quando a economia possui alto desemprego, o orçamento será deficitário; quando a economia está em situação de pleno emprego, o orçamento será superavitário. O nível de desemprego é a doença, o resultado orçamentário é apenas o sintoma.

João Sicsú é diretor de Estudos Macroeconômicos do IPEA e professor do Instituto de Economia da UFRJ. É autor do livro “Emprego, Juros e Câmbio” (Campus-Elsevier, 2007) e co-autor e organizador de “Arrecadação (de onde vem?) e gastos públicos (para onde vão?)”, Boitempo Editorial, 2007.

Desemprego Zero
http://www.desempregozero.org.br/

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Heitor Villa-Lobos

Fernando Navarro

Rio de Janeiro, 1915. O jovem compositor Heitor Villa-Lobos realiza uma série de concertos onde apresenta suas obras. Vaias e protestos. O público e a crítica reagem mal ao estilo inovador de Villa-Lobos. Começa aí a carreira de um dos compositores mais brilhantes da história da música brasileira.

Villa-Lobos nasce no Rio de Janeiro em 1887. Seu pai, Raul Villa-Lobos, músico, inicia a educação musical do filho ainda criança. Com a mudança da família para o interior de Minas Gerais, o menino Villa-Lobos conhece a música negra e as canções sertanejas, que vão marcá-lo pelo resto da vida.

Em 1903, Villa-Lobos estréia como violoncelista profissional numa orquestra e ganha a vida tocando em cinemas e hotéis. Dos 18 aos 26 anos, viaja por todo o Brasil pesquisando músicas regionais, especialmente do norte e nordeste do país. Em 1915, começa a apresentar suas composições em concertos mas não é bem aceito pelo público elitista e pela crítica conservadora, muito dependente de influências européias. Entretanto, na Europa o mundo da música erudita passava por mudanças.

O grande público do Velho Mundo, no século XIX, apreciava a ópera italiana, a música romântica e as obras do alemão Richard Wagner.

No final do século, surge o nacionalismo musical, que se opõe ao gosto tradicional. Compositores de toda a Europa aproveitam ritmos e melodias populares de seus países para as suas peças musicais.

No Brasil, essa valorização do folclore nacional ainda encontra resistências. Nomes como os de Alberto Nepomuceno e Ernesto Nazareth são discriminados por sua música de raízes populares.

Só a partir da Semana de Arte Moderna de 1922, realizada em São Paulo, esta música começa a ser aceita. Villa-Lobos participa ativamente da Semana de Arte Moderna. Pouco depois, viaja para Paris, onde vive por dois anos, e começa a se projetar internacionalmente.

Em sua segunda estada na Europa, no final dos anos 20, Villa-Lobos firma sua reputação de grande músico. Suas obras começam a ser executadas por orquestras de diversos países.

De volta ao Brasil, em 1930, Villa-Lobos traz na bagagem um plano de educação musical que vinha arquitetando desde os anos 20. Sensibiliza o presidente Vargas com suas idéias e assume a Superintendência de Educação Musical e Artística do Distrito Federal. Centraliza seus esforços no Canto Orfeônico.Ficam famosas as concentrações no Campo do Vasco da Gama, no Rio de Janeiro.

Em 1940, Villa-Lobos reúne 40 mil escolares numa dessas apresentações. “O músico mais importante de toda a América”, disse dele o pianista polonês Arthur Rubinstein. Villa-Lobos morre em 1959, aos 72 anos de idade.

Bibliografia:

ACQUARONE, Francisco. História da música brasileira. Rio de Janeiro: s.e., 1948.

ANDRADE, Mário de. Pequena história da música. Rio de Janeiro: s.e., 1942.

BONITO, Angelo & SANTA ROSA, Nereide S.. Villa-Lobos. São Paulo: Callis, 1994 (Crianças Famosas).

GIACONO, Arnaldo Magalhães de. Villa-Lobos: alma sonora do Brasil. São Paulo: Melhoramentos, s.d. (Grandes Compositores).

HEITOR, Luiz. 150 Anos de música no Brasil. s.l.: José Olympio, s.d.

Discografia

Concertos Internacionais em Homenagem a Villa-Lobos. Orquestra Sinfônica Brasileira. Maestro Issac Karabtchewsky Gravadora: Som Livre.

Floresta Amazônica. Compositor: Heitor Villa-Lobos Intérprete: Carlos Barbosa Lima (violinista) Gravadora: Concord Concerto (1985).

Matita - perê. Autor: Antônio Carlos Jobim Intérprete: Antônio Carlos Jobim (Tom Jobim) Gravadora: Philips.

Urubu. Autor: Antônio Carlos Jobim Intérprete: Antônio Carlos Jobim (Tom Jobim) Gravadora: WEA.

Alô Escola- TV Cultura
http://www.tvcultura.com.br/aloescola/index.asp

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Congresso do PC deve reforçar poder de Hu Jintao

Bob Fernandes

O presidente chinês, Hu Jintao, inaugurou hoje o 17º Congresso Nacional do Partido Comunista da China (PCCh). O pleito interno qüinqüenal de uma semana determinará o futuro da política doméstica e externa da China pelos próximos cinco anos. A disputa pelo poder entre os dois grupos liderados pelos homens mais poderosos da política chinesa, o presidente Hu e o ex-presidente Jiang Zemin, pautará os conchavos políticos e a defesa miúda de interesses setoriais e regionais nos corredores do suntuoso Palácio do Povo.
Longe do pulsar das ruas, a “dança dos mandarins” renovará o mandato de Hu e do primeiro-ministro Wen Jiabao, indicará os novos membros do Comitê Permanente do Politburo - o órgão máximo de poder do Partido Comunista - e dará importantes dicas sobre o perfil da quinta geração de líderes chineses, encarregada de comandar o país a partir de 2012.

Milhões de telespectadores chineses puderam conferir, logo no início das transmissões ao vivo da cerimônia de inauguração do congresso nacional, quem é quem na hierarquia do partido que conta com 73 milhões de membros e que ainda administra de forma totalitária os rumos de seu país: Hu ficou com o primeiro conjunto de imagens divulgadas pela televisão estatal, enquanto Jiang - que não ocupa um cargo formal na estrutura de comando - posou para a segunda tomada.

Fiel ao seu estilo, o presidente chinês - também secretário-geral do partido e presidente da poderosa Comissão Militar Central - pontuou o desempenho do partido para trás e para a frente durante seu pronunciamento de pouco mais de duas horas.

Hu, dono de uma alta taxa de popularidade junto à opinião pública nacional e guia da quarta geração de líderes comunistas chineses, destacou o mérito das gerações anteriores da “liderança coletiva central do partido em fundar a enriquecer a República Popular da China”.

“A política de reforma e abertura ao exterior foi conduzida sobre as bases assentadas pela primeira geração da liderança coletiva do partido, que teve Mao Zedong como núcleo”, afirmou o presidente, antes de acrescentar:

- A segunda geração de liderança, dirigida por Deng Xiaoping, iniciou a grande causa, que foi desenvolvida e levada com êxito ao século 21 pela terceira geração de líderes com Jiang Zemin no centro.

Hu também expressou que o partido está de olho no futuro econômico da nação mais populosa do planeta, com 1,3 bilhão de habitantes, ao garantir que levará adiante a política de Reforma e Abertura:

- Ela (a política) atende as aspirações dos membros do partido e dos não-comunistas, revitalizando-se permanentemente. As suas diretrizes e caminhos são completamente corretos-, frisou o presidente chinês.

Ao que parece, o presidente chinês cravou uma grande vitória política sobre as lideranças regionais que consideram as preocupações ambientais, a concentração de renda e a diminuição das disparidades sociais e interregionais como meros slogans de campanha.

A reunião deverá inserir, nos estatutos do partido, o “conceito científico de desenvolvimento”, a fim de criar um modelo de crescimento sustentável baseado no “uso racional dos recursos naturais e de gerenciamento ambiental”.

“A China precisa de sustentabilidade econômica e social e de um modelo racional de uso dos recursos naturais e de gerenciamento ambiental”, antecipou o Diário do Povo, o jornal oficial do PCCh, na véspera.

Como esperado, Hu renovou os sinais de que pretende preservar o “centralismo democrático” e a hegemonia do partido na China.

Reformas e controle da internet
“A participação dos cidadãos nos assuntos políticos ocorrerá de forma ordeira e os principais valores socialistas prevalecerão no seio do povo”, assegurou o presidente chinês, ao descartar, sutilmente, a possibilidade de que seu país venha a promover, num breve futuro, qualquer tipo de reforma pluripartidária ou projeto que desemboque em pleitos livres e diretos.

O controle do governo chinês sobre a internet foi reforçado durante o evento. A Wikipedia saiu do ar quando o congresso começou. A BBC Free Asia também. O Google parou no momento em que o presidente Hu Jintao começou a falar. Ao clicar no New York Times, os chineses caíam num site local.

Durante a defesa da tese da “sociedade harmoniosa”, Hu voltou a atacar duramente um dos fatores que vêm minando a credibilidade do partido junto aos chineses: a corrupção:

- Punir enfaticamente e prevenir a corrupção influi (diretamente) no apoio dispensado pelas massas ao partido e em sua (própria) sobrevivência. Portanto, esta é uma importante tarefa política com a qual o partido deve preocupar-se o tempo todo, declarou Hu.

Ascensões e quedas
De acordo com a imprensa de Hong Kong, o partido reduzirá de nove para sete o número de membros do Comitê Permanente do Politiburo. Além disso, aposentadoria compulsória afastará Luo Gan e Wu Guazheng, ao mesmo tempo em que a recente morte do ex-prefeito de Xangai Huang Ju abriu outra vaga no órgão.

Os grupos liderados por Hu e Jiang devem disputar palmo a palmo a composição do Comitê Permanente. Certamente, Hu e Wen o integrarão. O presidente chinês, contudo, deverá excluir do núcleo duro do poder chinês alguns dos principais aliados de Jiang: Zeng Qinghong (vice-presidente); Jia Qinglin (presidente da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, principal órgão consultivo do governo), Wu Bangguo (presidente da Assembléia Popular Nacional, o legislativo chinês) e Li Changchun.

As especulações em torno da promoção de Li Keqiang, chefe do partido na Província do Liaoning, o candidato predileto de Hu à sua sucessão, devem se confirmar.

Os analistas, no entanto, asseguram que o presidente chinês foi obrigado a fazer grandes concessões aos “Príncipes Vermelhos” - ou o Grupo de Xangai, liderado por Jiang -, ao aceitar a indicação de Xi Jinping, chefe do partido em Xangai, para o Comitê Permanente. Apesar de sua aparente queda, Zeng teria conseguido emplacar a indicação de Zhou Yongkang, seu homem de confiança.

O Comitê Permanente seria complementado com a presença de He Guoqiang, burocrata de carreira do partido, tido como pró-Jiang.

Para Xúlio Rios, diretor do Observatório da Política Chinesa da Espanha, a composição do Comitê Permanente vai refletir a busca pelo consenso interno do PCCh. “Hu não monopolizará o controle da máquina partidária. Tudo terá que ser exaustivamente negociado entre os representantes dos diferentes grupos”, avaliou Xúlio.

Segurança reforçada
A chegada ao Palácio do Povo dos 2.217 delegados que participam do congresso foi cercada por um forte aparato de segurança. A Praça da Paz Celestial amanheceu fechada para o trânsito de veículos e enfeitada com milhares de bandeiras, faixas com slogans partidários e simbólicas instalações artísticas da Grande Muralha e dos Jogos Olímpicos de Pequim - 2008. O número de policiais e agentes à paisana foi triplicado. A circulação do público na região foi restrita e a revista das pessoas que entram no Palácio do Povo passou a ser mais rigorosa.

A cena impressionou Tom Dwyer, professor de Ciências Políticas do IFCH da Unicamp. “A Praça da Paz Celestial é o local de maior sociabilidade da China. As pessoas tiram fotos, empinam papagaios e se divertem na região. Seu esvaziamento demonstra o peso do partido sobre o Estado e a sua obsessão em relação à questão da segurança”, declarou o sociólogo.

Terra Magazine
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Apoio à nossa luta na FSA

Nós, professores universitários, vimos a público manifestar nosso repúdio à atitude arbitrária da reitoria do Centro Universitário Fundação Santo André, que chamou a Força Tática da PM para expulsar de forma violenta os estudantes que a ocuparam em protesto contra o aumento abusivo das mensalidades.

Repudiamos também a presença da PM no campus universitário.

Relembramos ainda à Reitoria da Fundação Santo André de que o tempo do arbítrio, quando questões sociais eram tratadas como caso de polícia, já passou.

Por isso, não descansaremos enquanto os responsáveis por essas arbitrariedades não forem punidos.

Todo apoio à luta dos professores e estudantes e contra qualquer punição aos universitários e docentes.

1) Aziz Ab’Saber – Geografia USP (aposentado)
2) Lincoln Secco - História USP
3) Ricardo Musse - Sociologia USP
4) Cilaine Alves Cunha - Letras USP
5) Fernando Novais - História USP / Unicamp
6) Roberto Schwarz - Letras Unicamp (aposentado)
7) Maria Célia Paoli - Sociologia USP
8) Leda Paulani - Economia USP
9) Maria Arminda do Nascimento Arruda - Sociologia USP
10) Marcos Del Roio - Ciência Política Unesp Marília
11) Paulo Eduardo Arantes - Filosofia USP
12) Marcos Silva - História USP
13) Marineide de Oliveira Gomes – Pedagogia USP Ribeirão Preto
14) Caio Navarro de Toledo – Ciência Política Unicamp
15) Selma Borghi Venco – Sociologia Unicamp
16) Franklin Leopoldo e Silva – Filosofia USP
17) Lighia Brigitta Horodynski-Matsushigue – Física USP
18) Zilda Iokoi – História USP
19) Otília Fiori Arantes – Filosofia USP
20) Mariana Fix – Design Facamp (Faculdades de Campinas)
21) Ivone Dare Rabello – Letras USP (aposentada)
22) Suzana Salem Vasconcelos – Física USP
23) Luiz Eduardo Simões de Souza – Economia Uergs (Universidade Estadual
do Rio Grande do Sul)
24) Paulo Henrique Martinez - História Unesp Assis
25) Luís Fernando Ayerbe - Relações Internacionais Unesp Araraquara
26) Jesus Ranieri - Sociologia Unicamp
27) Heloísa Fernandes - Sociologia USP e Escola Nacional Florestan
Fernandes do MST
28) Amarílio Ferreira – UFSCar (Universidade Federal de São Carlos)
29) Valério Arcary - História CEFET/SP (Centro Federal de Educação
Tecnológica de São Paulo)
30) João Francisco Tidei Lima – Unesp Bauru
31) Lidiane Soares Rodrigues – Doutoranda História USP
32) Alcir Pécora - Letras Unicamp
33) Anita Handfas – Educação UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
34) Margareth Rago - História Unicamp
35) Vera Lucia Vieira - História PUC-SP
36) Arlete Moyses Rodrigues – Geografia Unicamp
37) Antônio Miguel - Educação Unicamp
38) Ronilde Rocha - Consultora em educação e ensino de História e
professora da rede municipal de São Paulo (aposentada)
39) Francisco Foot Hardman - Letras Unicamp
40) Márcio Naves – Sociologia Unicamp
41) Élide Menezes Centofanti – Psicologia UMC (Universidade de Mogi das
Cruzes) aposentada
42) Maria Luiza Jovanovic - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
43) Paulino Cardoso - História Udesc (Universidade do Estado de Santa
Catarina)
44) Claudia Sapag Ricci - História UFMG (Universidade Federal de Minas
Gerais)
45) Olga Brites - História PUC-SP
46) Mário Fernando Bolognesi - Artes Unesp São Paulo
47) Antônio Carlos Mazzeo – Ciência Política Unesp Marília
48) Maria Victória Benevides - Educação USP
49) Adalberto Paranhos – Ciências Sociais UFU (Universidade Federal de
Uberlândia)
50) Edilson Graciolli – Ciências Sociais UFU (Universidade Federal de
Uberlândia)
51) Fernando Antonio Lourenço - Sociologia Unicamp
52) Agnaldo dos Santos – Administração Uninove (Centro Universitário Nove
de Julho)
53) Glória Anunciação Alves – Geografia USP
54) Elvio Rodrigues Martins – Geografia USP
55) Regina Helena Alves da Silva - História UFMG (Universidade Federal de
Minas Gerais)
56) João Bernardo – professor e escritor
57) Valeria de Marcos - Geografia USP
58) Pedro Arantes - Design Facamp (Faculdades de Campinas)
59) Rafael Marquese - História USP
60) Ana Fani Alessandri Carlos - Geografia USP
61) Déa Ribeiro Fenelon - História PUC-SP e Unicamp (aposentada)
62) Brás Ciro Gallota - História PUC-SP
63) Francisco Alambert - História USP
64) Vera Lúcia Santiago Araújo - Letras UECE (Universidade Estadual do Ceará)
65) Silvia Hunold Lara - História Unicamp
66) Sidney Chalhoub - História Unicamp
67) Letícia Vidor de Souza Reis - História Unimep (Universidade Metodista
de Piracicaba)
68) Ivone Cordeiro Barbosa - História UFC (Universidade Federal do Ceará)
69) Manoela da Silva Pedroza - Doutoranda Unicamp
70) Joviniano Borges da Cunha - Universidade Anhembi-Morumbi
71) Bernardo Boris Vargaftig – Ciências Biomédicas – USP
72) Heloisa de Faria Cruz - História PUC-SP
73) Claudia Poncioni - Université Paris X - França
74) Jean-Yves Mérian - Université Rennes2 - Haute Bretagne - França
75) Roberto Romano - Filosofia Unicamp
76) Luiz Roberto Alves – Jornalismo Umesp (Universidade Metodista de São
Paulo) e ECA-USP
77) Marcos Arruda – professor visitante universidades do exterior
78) Cid Benjamin – Comunicação Social Facha (Faculdade Hélio
Alonso)
79) Laura Antunes Maciel - História UFF (Universidade Federal
Fluminense)
80) Maria Antonieta Antonacci - História PUC-SP
81) Paulo Roberto de Almeida - História UFU (Universidade Federal de
Uberlândia)
82) Bento Itamar Borges - Filosofia UFU (Universidade Federal de Uberlândia)
83) Rejane Meireles Amaral Rodrigues - História UNIMONTES/MG
84) Osvaldo Coggiola – História USP
85) Inessa Laura Salomão - Engenharia de Produção - CEFET/RJ (Centro
Federal de Educação Tecnológica)
86) Helena Hirata - Sociologia CNRS (Centre National de la Recherche
Scientifique) – França
87) Normando Rodrigues - Direito UFRJ (Universidade Federal do Rio de
Janeiro)
88) Ana Maria Silva - Turismo Fefisa (Faculdades Integradas de Santo André)
89) Luiz Carlos Pereira - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
90) Fábia C. Alegrance - Fisioterapia Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
91) Luciana Vieira de Melo Kuk - Fisioterapia Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
92) Margareth Anderáos - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
93) Nicolino Bello Júnior - Educação Fisica Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
94) Sérgio Garcia Stella - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
95) Ricardo Zanuto Pereira - Fisioterapia Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
96) Rosemarie C. Sanches - Turismo Fefisa (Faculdades Integradas de Santo
André)
97) Vinicius J. B. Martins - Fisioterapia Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
98) Sueo Hirota - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de Santo
André)
99) William S. Freitas - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
100) Marcelo Reina Siliano - Fisioterapia Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
101) Edvar Boechat Soares - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
102) Isilda M. R. Cavicchioli - Educação Física Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
103) Maria Teresa B. Martins - Educação Física Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
104) Maria Eliza M. Bernardes - Educação Física Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
105) Rosana Delfini - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de
Santo André)
106) Evando Carlos Moreira - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
107) Fabiano João - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas de Santo
André)
108) Sandra Maria Tedeschi - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
109) Albertina O. C. Misko - Educação Física Fefisa (Faculdades Integradas
de Santo André)
110) Gilberto de Andrade Martins – Contabilidade USP
111) José Artur Gianotti – Filosofia USP (aposentado) e pesquisador do
Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)
112) Heloisa Martins - Sociologia USP (aposentada)
113) Angelina Peralva - Sociologia Universidade de Toulouse II -
França
114) João Zanetic – Física USP e ex-presidente da Adusp (Associação dos
Docentes da USP)
115) Nadia W. Hanania Vianna - Administração USP (aposentada)
116) Francisco Luiz C. Lopreato – Economia Unicamp
117) Denis Maracci Gimenez – Economia Unicamp
118) Wilson Cano – Economia Unicamp
119) Gabriel de Santis Feltran - Doutorando Unicamp
120) Otaviano Helene – Física USP e presidente da Adusp (Associação dos
Docentes da USP)
121) Daciberg Lima Gonçalves – Matemática USP
122) Lucília Daruiz Borsari - Matemática USP
123) José Dari Krein – Economia Unicamp
124) Antonio Lázaro Sant´Ana - Unesp Ilha Solteira
125) Elmir de Almeida – Pedagogia USP Ribeirão Preto
126) Geraldo Leão - Educação UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)
127) Américo Scotti - Engenharia Mecânica UFU (Universidade Federal de
Uberlândia)
128) Estefânia Knotz C. Fraga - História PUC-SP
129) Luiz Henrique dos Santos Blume - História UESC (Universidade Estadual
de Santa Cruz - BA)
130) Alexandre Fortes - História / Economia UFRRJ (Universidade Federal
Rural do Rio de Janeiro)
131) Fernando Teixeira da Silva - História Unicamp
132) Raimundo Donato do Prado Ribeiro – coordenador de História Unimep
(Universidade Metodista de Piracicaba)
133) Ciro Teixeira Correia – Geologia USP
134) Marco A. Brinati – Engenharia Naval USP e ex-vice-presidente da Adusp
(Associação dos Docentes da USP)
135) Cláudia Pereira Vianna – Educação USP
136) Maria da Graça Setton – Educação USP
137) Elie Ghanem – Educação USP
138) Rosângela G. Prieto – Educação USP
139) César Augusto Minto - Educação USP e ex-presidente da Adusp
(Associação dos Docentes da USP)
140) Américo Sansigolo Kerr – Física USP e ex-presidente da Adusp
(Associação dos Docentes da USP)
141) Paulo Luiz Miadaira - Faculdade São Luís e Fundação Escola de
Sociologia e Política de São Paulo
142) Daniel Revah - Pedagogia Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)
143) Manoela da Silva Pedroza - Doutoranda Unicamp
144) Henrique Soares Carneiro – História USP
145) Sérgio Paulo Amaral Souto - Zootecnia USP
146) Marcus Aloízio Martinez de Aguiar - Física Unicamp
147) Artionka Capiberibe - Doutoranda UFRJ (Universidade Federal do Rio de
Janeiro)
148) Lucimara Batista Freire - Faculdade Anchieta - São Bernardo do Campo
149) Théo Lobarinhas Piñeiro - História UFF (Universidade Federal Fluminense)
150) Alexsander Lemos de Almeida Gebara - História UFF (Universidade
Federal Fluminense)
151) Theresa Beatriz Figueiredo Santos - Diretora da Faculdade de Ciências
Humanas da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba)
152) Daniel Aarão Reis - História UFF (Universidade Federal Fluminense)
153) Antonio Paulo Rezende - História - UFPE (Universidade Federal de
Pernambuco)
154) Marcos Nascimento Magalhães – Matemática USP e ex-presidente da Adusp
(Associação dos Docentes da USP)
155) Maria Clara Di Pierro – Educação USP
156) Moacir Gadotti – Educação USP
157) Lisete R. G. Arelaro – Educação USP
158) Afrânio Mendes Catani – Educação USP
159) Lúcia E. Barreto Bruno – Educação USP
160) Doris Accioly e Silva – Educação USP
161) Roberto da Silva – Educação USP
162) Rubens Barbosa de Camargo – Educação USP
163) Vânia Noeli Ferreira de Assunção - História Cogeae PUC-SP
164) Antonio Ozaí da Silva – Ciências Sociais UEM (Universidade Estadual
de Maringá)
165) Joana Aparecida Coutinho - Ciência Política - UFMA (Universidade
Federal do Maranhão)
166) Antônio José Lopes Alves – Filosofia Colégio Técnico da UFMG
(Universidade Federal de Minas Gerais)
167) Sabina Maura Silva – Filosofia Fundação Helena Antipoff – Minas Gerais
168) Maria Helena da Silva – Diretora EE Carlos Drummond de Andrade
169) Conceição Gonçalves de Toledo - vice-diretora EE Carlos Drummond de
Andrade
170) Francisco Josino da Silva - EE Carlos Drummond de Andrade
171) Roni Cleber Dias de Menezes - Educação USP
172) Everton Capri Freire – ex-professor de Jornalismo Fiam (Faculdades
Integradas Alcântara Machado)
173) Ronaldo Fabiano dos Santos Gaspar - Pedagogia Unicastelo e FAD
(Faculdade Diadema)
174) Luís Roberto de Paula – antropólogo e ex-professor da Fundação Santo
André
175) Alvaro Bianchi - Ciência Política Unicamp
176) Celia Maria Benedicto Giglio – Pedagogia Unifesp (Universidade
Federal de São Paulo)
177) Marcos Antonio de Moraes – Letras USP
178) Marcos Pereira Rufino - Antropologia Unifesp (Universidade Federal de
São Paulo)
179) Luiz Antonio Zimermann do Nascimento – São Paulo
180) Luís Esteban Dominguez – Semiótica Cogeae PUC-SP
181) Regina Maria de Souza - Educação Unicamp
182) Luci Banks Leite - Educação Unicamp
183) Pedro Tórtima – Direito UCAM (Universidade Candido Mendes) Rio de
Janeiro
184) Miguel Wady Chaia - Ciência Política PUC-SP
185) Tânia Elias Magno da Silva – Sociologia UFS (Universidade Federal de
Sergipe)
186) Henri de Carvalho - História - Unimesp (Centro Universitário
Metropolitano de São Paulo)
187) Valéria Alves Esteves Lima - História Unimep (Universidade Metodista
de Piracicaba)
188) Antonio Miguel - Educação Unicamp
189) Karen Macknow Lisboa - História Unifesp (Universidade Federal de São
Paulo)
190) Maria de Fátima Carvalho - Pedagogia Unifesp (Universidade Federal de
São Paulo)
191) Regina Cândida Ellero Gualtieri – Pedagogia Unifesp (Universidade
Federal de São Paulo)
192) Mônica Marques Pimenta de Andrade – Medicina UFU (Universidade
Federal de Uberlândia) – aposentada
193) Carlos Eduardo Albuquerque Miranda – Educação Unicamp
194) Carmen Roselaine de Oliveira Farias - Educação UFSCar (Universidade
Federal de São Carlos)
195) Vanicléia Silva Santos - Doutoranda História Social USP
196) Isabel Cristina Moroz - Doutoranda Geografia – USP
197) André Constantino Yazbek - Filosofia PUC-SP
198) Maria Goreti J. S. Frizzarini – Comunicação Social Cásper Líbero
199) Carlos Bauer - Uninove (Centro Universitário Nove
de Julho)
200) Marcos Cezar de Freitas – Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)
201) Luigi Biondi – História Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)
202) Leandro de Lajonquière - Educação USP
203) Luís Filipe Silvério Lima - História Unifesp (Universidade Federal de
São Paulo)
204) Teise de Oliveira Guaranha Garcia - Pedagogia USP Ribeirão Preto
205) Regina Maria de Souza - Educação Unicamp
206) Rinaldo Voltolini - Educação USP
207) João Quartim de Moraes – Filosofia Unicamp
208) Áurea M. Guimarães - Educação Unicamp
209) Carlos Serrano – Antropologia USP
210) Ruy Braga - Sociologia USP
211) Renato da Silva Queiroz – Antropologia USP
212) Sylvia Gemignani Garcia - Sociologia USP
213) José Guilherme C. Magnani - Antropologia USP
214) Lúcia Aparecida Valadares Sartório - Doutoranda Educação UFSCar
(Universidade Federal de São Carlos)
215) Celso Frederico – Comunicação Social ECA-USP
216) Sandra Guardini Teixeira Vasconcelos - Letras USP
217) Maria Helena Oliva Augusto - Sociologia USP
218) Maria Lucia Montes – Antropologia USP
219) Iris Kantor – História USP
220) Sylvia Leser de Mello – Psicologia USP
221) Aparecida Néri de Sousa - Educação Unicamp
222) Maria Helena P.T. Machado - História USP
223) Gildo Magalhães dos Santos - História USP
224) Emir Sader – Sociologia USP e UERJ (Universidade do Estado do Rio de
Janeiro)
225) Eduardo Pinto e Silva – UFSCar (Universidade Federal de São Carlos)
226) Jose Roberto Zan - Artes Unicamp
227) Dirce Djanira Pacheco e Zan – Educação Unicamp
228) Maria Rosa Lombardi – Fundação Carlos Chagas
229) Stela Menegel – Educação Furb (Universidade Regional de Blumenal)
Santa Catarina
230) Márcio Suzuki - Filosofia USP
231) Roberto Heloani – Educação Unicamp e FGV (Fundação Getúlio Vargas)
232) Marcia Regina Andrade – Educação Unicamp
233) Rosivaldo Pelegrini – UEL (Universidade Estadual de Londrina) Paraná
234) Agueda Bernardete Bittencourt - Educação Unicamp
235) Patrícia Vieira Trópia - PUC-Campinas
236) Marcia Leite - Educação Unicamp
237) Flavio de Campos - História USP
238) Janice Theodoro da Silva - História USP
239) Pedro Lima Vasconcellos - Teologia e Ciências da Religião PUC-SP
240) Ulpiano T.Bezerra de Meneses - História USP
241) Laurindo Lalo Leal Filho - Jornalismo ECA-USP
242) Silvia Helena Andrade de Brito - Ciências Sociais e Educação UFMS
(Universidade Federal do Mato Grosso do Sul)
243) Jorge Grespan - História USP
244) Luís César Oliva - Filosofia USP
245) Andréia Galvão - Ciência Política – Unicamp
246) Luiz Carlos Jackson - Sociologia – USP
247) Andréa Maria Z. Afonso dos Santos - Museóloga Museu de Arte Sacra de
São Paulo
248) Gislane Azevedo - Historiadora e Assessora Pedagógica
249) Márcia Regina Berbel - História USP
250) Andréa Loparic - Filosofia USP
251) Silvia Dafferner - Letras FIA (Faculdade de Interação Americana) São
Bernardo do Campo
252) Tatiana Fonseca Oliveira - Doutoranda Sociologia Unicamp
253) Gabriel S. S. Lima Rezende - Doutorando Universidad de Granada – Espanha
254) Pedro Roberto Ferreira – Ciência Política UEL (Universidade Estadual
de Londrina) Paraná
255) Maria Pileggi – Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales - Paris
– França
256) Maria de Annunciação Madureira - Ciências Sociais UEL (Universidade
Estadual de Maringá)
257) Edméia Aparecida Ribeiro – História UEL (Universidade Estadual de
Londrina)
258) Giselli Avíncula Campos – Doutoranda UFF (Universidade Federal
Fluminense)
259) Nídia Nacib Pontuschska - Educação USP
260) Heloisa Buarque de Almeida - Antropologia USP
261) Maria Ligia Coelho Prado - História USP
262) Carlos Eduardo Carvalho – Economia PUC-SP
263) Silvio Duarte Bock - Educação Unicamp
264) Sandra Maria Gomes Scaravelli – Centro de Atenção à Inclusão Social
de Diadema
265) Lucineia M. Tukuzohi - Cais Diadema
266) Miriam Mailho – Cais Diadema
267) Teófila de Araujo Silva – Cais Diadema
268) Andréa Franciulli Ferreira – Cais Diadema
269) Betina de A. Caballeria – Cais Diadema
270) Vani Duarte Tones – Cais Diadema
271) Camilo L. Barbosa – Cais Diadema
272) Angélica Maria Ferreira – Cais Diadema
273) Ana Maria F. Val – Cais Diadema
274) Tamara Soares de Melo – Cais Diadema
275) Rachele Arnoni – Cais Diadema
276) Juca Gil – Uninove (Centro Universitário Nove de Julho)
277) Maria Eloísa Mortatti – Rede Estadual de São Paulo
278) Vanessa de Paula Zagnole Baraldi- Mestranda Mackenzie
279) Carlos Alexandre Costa Correia - Ciência Política Faculdades Flamingo
280) Claudinei Cássio de Rezende - Mestrando Ciências Sociais – Unesp Marília
281) Rosangela Petuba - História UEPG (Universidade
Estadual de Ponta Grossa) Paraná
282) Osmar Fagundes de O. Junior - Educação Física Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
283) Maria Fátima de C. Castro - Educação Física - Fefisa (Faculdades
Integradas de Santo André)
284) Leonel Itaussu Almeida Mello - Ciência Política USP
285) Eleuterio F. S. Prado – Economia USP
286) Hamilton Octavio de Souza – Jornalismo PUC-SP
287) Florisvaldo Paulo Ribeiro Júnior - História UFU (Universidade Federal
de Uberlândia)
288) Maria do Rosário Cunha Peixoto - História PUC-SP
289) Peter Pál Pelbart – Filosofia e Psicologia PUC-SP
290) Sueli Nakano Takahashi – Inglês e Português EE Marechal Rondon

Comentários

ESTUDANTES E PROFESSORES DA FUNDAÇÃO SANTO ANDRÉ EM LUTA

PALESTRA COM EDUARDO SUPLICY EM APOIO AO MOVIMENTO
DIA 20/10 ÀS 13 HORAS (SÁBADO)

EM SEGUIDA PASSEATA ATÉ A CAMARA MUNICIPAL DE SANTO ANDRÉ

Comentários

Atividades de Sábado - Fundação Santo André

O senador Eduardo Suplicy vai à Fundação Santo André amanhã, sábado, dia
20, às 13h, para conversar com professores e estudantes sobre a invasão da
Tropa de Choque da PM ao campus da universidade, que ocorreu na madrugada
da última quinta-feira.

Suplicy tentou intermediar as negociações com o comandante do Choque, via
celular, mas o coronel responsável pela operação não atendeu ao telefonema
do senador. Suplicy será recebido pelos professores e universitários no
auditório da Fafil (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras), também
conhecido como Pinicão.

Passeata
Após o encontro com Suplicy, professores e alunos percorrerão em passeata
as principais ruas de Santo André para exigir a saída do reitor, Odair
Bermelho. Os docentes e os universitários estão paralisados há
36 dias para exigir a saída de Bermelho da reitoria.

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Fundação impede aulas no prédio do Colégio

Liora Mindrisz (liora@abcdmaior.com.br)

Alunos em greve fizeram barulho para que dois cursos da Fafil não tivessem
aula

Os alunos em greve da Fafil (Faculdade de Filosofia) da Fundação Santo
André se mobilizaram na noite de quinta-feira (18/10) para impedir que
algum curso do prédio assistisse aula. Segundo uma integrante da Comissão
de Comunicação do Comando de Greve, os cursos de Sistema de Informações e
Licenciatura em Computação, ambos da Fafil, tentaram ter aula no prédio do
Colégio mas foram impedidos pelos grevistas.

“Os alunos foram lá no prédio sem o intuito de briga, somente para
manifestar o fato destes dois cursos não terem respeitado a decisão da
maioria, que foi votada em assembléia geral na terça-feira (16/10)”,
explicou.

Embaixo do prédio, os alunos em greve faziam barulho com batucadas para
atrapalhar o andamento das aulas. Ao tentar subir, se depararam com
barricadas feitas com cadeiras que os estudantes contra a greve
prepararam, para que não houvesse invasão.

Na mesma noite, alguns alunos e professores foram se encontrar com o
senador Eduardo Suplicy (PT-SP) no Bairro Pinheiros, em São Paulo, para
entregar uma cópia do dossiê feito pelos professores da Fafil contendo as
irregularidades da atual reitoria de Odair Bermelho.

Alguns materiais e fotos separados pelos alunos também foram entregue ao
senador, que neste sábado, às 13h, estará na Fundação para uma palestra
política. Em seguida os alunos partem para mais uma passeata em direção à
Câmara de Santo André.

Na mesma noite alguns professores e alunos da Fafil foram no prédio da
Faeng (Faculdade de Engenharia), que não aderiu a greve, para uma
assembléia informativa. De acordo com a integrante da Comissão de
Comunicação, os alunos da Faeng só tinham informações da reitoria e, por
isso, foram ao prédio explicar a versão e a posição dos grevistas sobre os
acontecimentos da Fundação.

Paralisação – O Comando de Greve se reúne na noite desta sexta-feira
(19/10) para discutir seus próximos passos. Segundo uma aluna que não quis
se identificar, por enquanto não existe possibilidade de outra ocupação do
prédio.

“Todos nós, que estávamos lá quando a Tropa de Choque chegou, fomos
incluídos na lista de nomes que consta no processo de reintegração de
posse, aberto pela Fundação. Na verdade, a maioria não estava ocupando o
prédio, mas agora, se insistirmos nisso, teremos que pagar uma multa de 2
mil”, disse .

Ela afirmou que o advogado que assumiu a causa, Yvan Gomes Miguel, está
dando entrada em um processo para caçar a liminar concedida pela juíza
Vanessa Carolina Fernandes Ferrari, da 3° Vara Cível de Santo André, de
reintegração de posse, pedida pela Fundação Santo André.

ABCD Maior

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A Guerra da Informação ou a Informação da Guerra

Para o jornalista português Carlos Fino, a informação é cada vez mais um elemento midiático, parte da guerra e capaz de mudar os rumos de um conflito.

Fabíola Ortiz

Conhecido por ter dado em primeira mão o início dos bombardeios americanos no Iraque em 2001 transmitido pela RTP – Rádio e Televisão Portuguesa –, o jornalista português Carlos Fino tem relutância em se considerar um repórter de guerra. “Sou apenas um repórter, não estava no meu horizonte estar presente em todas essas situações.Tornei-me um repórter de guerra sem querer, por acidente”, disse Fino ao falar sobre sua experiência a estudantes de jornalismo de diversas universidades em São Paulo. Ele participou no último sábado (13/10) do curso Jornalismo em situações de conflito armado, organizado pela Cruz Vermelha Internacional em parceria com a fundação OBORÉ e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

Carlos Fino acredita que, como jornalista, há certas coisas que só a prática pode ensinar, mas em situações de guerra, é preciso estar preparado e alertado sobre os riscos. “É uma imprudência mandar jornalistas, principalmente os mais jovens, sem preparo para cobrir conflitos armados”, destacou Fino apontando as necessidades básicas que um correspondente deve ter, como: noções de sobrevivência, auto-socorro, saber dos acordos e convenções humanitárias e direitos internacionais, no que se refere à proteção do jornalista.

“Eu fiz exatamente o contrário, me lancei despreparado nesse mar de problemas. A guerra abre as portas do inferno, nela tudo pode acontecer. A guerra é a desumanidade”, relatou Fino a futuros jornalistas, a partir de sua experiência de ter visto grupos armados atacarem populações civis indefesas e aldeias inteiras serem alvejadas.

De militante a jornalista

De estudante de Direito a agitador revolucionário e militante comunista, Carlos Fino iniciou sua carreira de jornalista no final da década de 70 como correspondente em Moscou. Presenciou o fim de regimes socialistas em países do leste europeu, além de ter sido correspondente em Bruxelas e em Washington. Em 2000, testemunhou pela RTP os conflitos entre Israel e Palestina e a invasão no Afeganistão.

Sua mais recente experiência de guerra foi cobrir a queda do governo de Saddam Hussein e a ocupação norte-americana no Iraque. “É essencial estar no local dos acontecimentos. Nada substitui o papel do jornalista, sem ele não há cobertura”, afirmou, ao defender a necessidade do jornalista estar presente e noticiar os fatos de onde eles acontecem.

Ele se pergunta até que ponto os jornalistas pagam o preço para participar dos eventos e conseguir informações. O jornalista português considera que a informação é, atualmente, objeto da própria guerra – a guerra na busca desenfreada pela informação e a informação oficial transmitida pelos Estados para limitar, controlar ou até desinformar.

Neutralidade em tempos de guerra
Fino discutiu o papel submisso a que muitas vezes os jornalistas se sujeitam, o que acaba por limitar o exercício da profissão. Ele cita os chamados jornalistas embedded, que acompanharam as tropas americanas no Iraque e se submeteram a noticiar apenas um lado do conflito.

E comentou também os que estiveram em Bagdá para reportar a guerra do outro lado que ia ser atacado: “Nós tínhamos perfeita noção que o regime de Saddam era uma ditadura. Éramos vigiados o tempo todo pelo motorista e pelo intérprete que nos acompanhava a serviço do governo iraquiano”. Para ele, em um cenário de guerra nunca é possível ser neutro, é preciso estar em um dos lados, pois a tendência é ser atacado. Fino explicou que, no Iraque, aqueles jornalistas que optaram não serem “creditados” pelo governo americano nem pelo iraquiano foram eliminados rapidamente.

Apesar disso, Fino confessa que às vezes vale a pena pagar algum preço para estar presente nos acontecimentos. “Nós pagávamos milhares de dólares por semana para o Ministério da Informação iraquiano para garantirmos nosso visto e a permanência no país”.

Para ele, o jornalismo pode fazer a diferença se não se deixar manipular: “Há sempre uma guerra de informação. Corremos o perigo de sermos mercenários em busca da informação”. Carlos ressaltou que a contradição é própria do jornalismo, ainda mais em situações de guerra – o jornalista atua para a sociedade em um meio dominado pelas regras do mercado.

Fazer a diferença

“No Iraque, nós éramos os nossos próprios editores, noticiávamos o que estava à vista, a própria realidade”. Fino explicou que havia uma dicotomia naquele momento – a posição oficial do governo do Iraque era contrária aos movimentos civis que clamavam pelo fim da guerra. Para ele, fazer a diferença na cobertura é dar a palavra às diferentes partes envolvidas, fazer matérias sobre histórias humanas, situação dos hospitais, escolas, bombardeios afetavam a vidas na cidade, além de estar sempre informado sobre a situação política. “É preciso contextualizar, dar um enquadramento e não estar preso apenas ao factual ou ser um mero relator”.

Quando questionado se em algum momento teve medo, Fino respondeu: “Eu não seria humano se não tivesse medo, refleti com muita hesitação antes de ir a uma guerra”. Ele considera que há um “medo jovem” que é mais intenso que o “medo velho”. A partir de uma certa idade já se está mais preparado para aceitar a morte. Após ter noticiado muitos conflitos e ter se deparado diversas vezes com situações de risco, ele acredita que, ao longo do tempo, “a gente vai perdendo o medo e ganhando mais calma”.

Sobre os riscos que esse tipo de cobertura envolve, o jornalista português ressaltou que a profissão está sempre na fronteira, “quase esquizofrênica”, entre a propaganda e a informação. Na verdade, o jornalismo não é neutro: “Devemos tentar ser objetivos, ser fiéis aos fatos” – apesar de considerar que o objetivo é sempre influenciado pela subjetividade de cada jornalista.

Proteção ao jornalista

Quanto ao perigo de ser um correspondente de guerra, Fino alega que, em caso de ataques a jornalistas, não há direito internacional que atue contra isso. “A nossa única defesa é ter um colete à prova de bala e um distintivo de imprensa. Nós pensávamos que éramos imunes até o dia que o nosso hotel foi atingido por um tanque norte-americano sem nenhuma explicação aparente”.

O jornalista lembrou o episódio em que o Hotel Palestina, onde estavam hospedados todos os correspondentes em Bagdá, foi alvo de ataque. Nesse dia morreram 3 jornalistas. Fino entrou ao vivo através do videofone e teve que esperar 4 minutos para dar a notícia por causa da programação dos comerciais. “O nosso repórter está sendo atacado, mas primeiro os comerciais”.

A informação é cada vez mais um elemento midiático, parte da guerra e capaz de mudar os rumos de um conflito. “A mentira não foi só parte do Ministério da Informação do Iraque, que se utilizava como fonte de propaganda do regime, mas também partiu do lado americano”.

Ele se pergunta como garantir uma imunidade ideal ao jornalista - um estatuto que protegesse o exercício do jornalismo como um papel humanitário. Fino constata: é difícil. Carlos defende um estuto semelhante ao da Cruz Vermelha Internacional, uma espécie de Cruz Azul ou Cruz Branca.

Sobre o furo de reportagem, ao ser o primeiro a noticiar o início da guerra, Fino lembrou que a primeira bomba caiu em Bagdá às cinco e meia da manhã – em Portugal ainda era de madrugada. “Foi difícil convencer Lisboa em dar o fato ao vivo, pois se perguntava como é que a guerra começou se a CNN não está dando nada?”

Fazendo Média
http://www.fazendomedia.com/index.htm

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Auschwitz

Entenda como funcionava a indústria da morte

Celso Miranda

Símbolo da crueldade nazista, o campo de Concentração onde 1,1 milhão de pessoas perderam a vida revela como as atrocidades foram o resultado de um trabalho planejado, disciplinado e eficiente.

Matar um inimigo é fácil. Basta disposição, oportunidade e alguma força. Matar milhares de inimigos dá mais trabalho. Requer poder e, não raro, uma guerra. Agora, matar milhões de pessoas, eliminar populações inteiras e varrer do mapa comunidades não é para qualquer um. Requer um arraigado sentimento de superioridade, doses cavalares de fundamentalismo, e consentimento popular. E, do ponto de vista puramente logístico, um grande esforço de organização, planejamento minucioso e disciplina. É preciso ter uma máquina extremamente eficiente em mãos.

Máquina de matar

Poucas vezes na história, talvez nunca antes nem depois, um governo se sentiu tão à vontade para executar a terceira situação descrita acima quanto os nazistas na Alemanha, Áustria, Romênia, Iugoslávia, Itália, França, Bélgica, Holanda, Bulgária, Hungria, Letônia, Lituânia, Ucrânia, Bielo-Rússia e Checoslováquia, mas, principalmente na Polônia. Nesses países, os seguidores de Hitler colocaram em prática um projeto inédito de limpeza étnica que levou a deportações, evacuações em massa, expurgos, migrações forçadas, prisões e, por fim, ao extermínio planejado de quase 6 milhões de pessoas.

O modelo ultimado dessa máquina de extermínio só ficou pronto com os campos construídos e operados durante a guerra na Polônia. Entre eles, o maior, localizado em Auschwitz, no sul do país. Lá, entre maio de 1940 e janeiro de 1945, cerca de 1,1 milhão de pessoas morreram. A maioria era de judeus, mas havia prisioneiros de guerra soviéticos, dissidentes políticos poloneses, ciganos e testemunhas-de-jeová. Esta reportagem não vai explicar o porquê de toda essa gente ter sido morta. Isso tem rendido nos últimos 60 anos especulações e estudos profundos da alma e da política do nazismo e da Alemanha. Nosso esforço vai se concentrar em explicar como os nazistas planejaram e operaram a maior indústria de extermínio de todos os tempos. Que inteligência esteve por trás dessa máquina de assassínio em massa? Que ideologia a justificou? E quem foi quem no sistema: militares, empresários, cientistas, arquitetos, políticos, juristas, carcereiros e burocratas.

Raízes do mal

No final de abril de 1940, uma comitiva militar de 6 veículos cruzou a região da Alta Silésia, no sul da Polônia. As estradas poeirentas tornavam a viagem difícil e o avanço lento. A paisagem se limitava a extensos trechos de florestas e campos sem cultivo. Por duas horas, nenhum vilarejo foi visto. No segundo carro do cortejo estava Rudolf Hoss, um proeminente capitão da SS, a temida tropa de choque nazista. O local que eles procuravam aparecia nos velhos mapas como um conjunto de galpões construídos pelo Império Austro-Húngaro durante a 1ª Guerra Mundial, todos de madeira, a maioria em péssimo estado. No mapa da nova Europa que os nazistas desenhavam, porém, o nome daquele lugar no meio do nada ganharia destaque e ficaria para sempre marcado na história.

Seis meses antes, a Alemanha tinha invadido a Polônia e iniciado a 2ª Guerra. Agora os nazistas colocavam em marcha o plano de utilizar o número crescente de prisioneiros de guerra nas fábricas e indústrias alemãs, onde seriam explorados como mão-de-obra escrava. Hoss tinha uma missão e tanto pela frente: Precisava criar um campo que pudesse abrigar 10 000 pessoas, antes da chegada do inverno, escreveu. Em apenas 20 dias chegariam os 728 primeiros prisioneiros de Auschwitz: todos homens poloneses, fortes e saudáveis, acusados de resistência. Entraram pelo portão da frente, onde Hoss mandara escrever: Arbeit macht frei (ou O trabalho liberta). A frase, que cheira como um apfelstrudel de sarcasmo, revela a prioridade dos nazistas naqueles primeiros tempos da guerra: conquistar territórios para a Grande Alemanha e transformá-los, rapidamente, em mais um pistão da azeitada indústria de guerra. Apenas 3 meses após sua inauguração, já havia 8 000 pessoas no local.

Localizado a 30 km de um conjunto de minas com algumas das melhores jazidas de carvão da Europa, o campo de Auschwitz também chamou a atenção de um grande grupo industrial químico alemão, a IG Farben, que apresentou ao governo nazista um plano para instalar ali uma fábrica de borracha e combustíveis sintéticos. Os empresários fariam enormes investimentos na região. Em troca, pediam a garantia de mão-de-obra abundante. E barata.

A idéia ganhou de cara um apoio de peso: o marechal Heinrich Himmler, comandante supremo da SS, um dos homens fortes do Reich. Segundo o historiador Christopher Browning, da Universidade da Carolina do Norte, nos EUA, longe de ser uma iniciativa isolada, a construção de campos como Auschwitz que Himmler chamava de colônia-modelo estava intimamente ligada aos planos de expansão da Alemanha, revelando dois dos principais temas que qualquer nazista recitaria de cor: o lebensraum (ou espaço vital) e a superioridade racial.

Aqui, talvez seja necessário um parêntese. Para os nazistas, o lebensraum era o espaço necessário para a expansão territorial e a prosperidade do povo alemão. O plano incluía a reintegração de todos os povos germânicos inclusive os do Brasil. A idéia desse Shangri-lá nazista no leste desemboca na segunda máxima do rosário nazista: a questão racial. Já que era no lebensraum que os nazistas prometiam a reunificação da raça ariana, representada pelas populações de origem germânica, ficavam de fora eslavos, judeus, ciganos. As teorias de supremacia racial não eram novas, nem exclusivas da política nazista nos anos 30. A novidade é que, com o início da guerra, os alemães sentiram-se à vontade para pôr em prática seus planos de limpeza étnica e racial, diz Browning. Fecha parêntese.

Himmler esteve em Auschwitz pela primeira vez em março de 1941. Numa reunião secreta, ele anunciou seu desejo: que a capacidade do campo pulasse para 30 000, o que faria de Auschwitz o maior dos campos de prisioneiros. Esses planos de ampliação só foram descobertos recentemente, após a morte do arquiteto alemão Fritz Ertl, que tinha guardado reproduções do projeto. Pelas plantas, é possível ver que o novo complexo previa até dormitórios para oficiais da SS. Himmler tinha ali seus próprios aposentos, para os quais cada móvel, dos aparadores às poltronas, das mesas de trabalho aos enfeites na parede, foi desenhado com exclusividade.

Enquanto isso, os prisioneiros trabalhavam duro, cavando fossas, fabricando tijolos, construindo prédios, abrindo estradas, colocando trilhos, carregando e descarregando trens. E, apesar do foco no trabalho como se diria hoje em dia , Auschwitz já demostrava outra vocação: mais da metade dos 23 000 prisioneiros enviados no primeiro ano para o campo morreu antes de completar 20 meses na prisão, abatida pela fome, exaustão e maus-tratos.

Aniquilação

Em maio de 1941, as tropas alemãs invadiram a URSS. Em 4 semanas de combates, foram feitos 3 milhões de prisioneiros 2 milhões morreriam antes de 9 meses na prisão. Segundo o historiador britânico Robert Gellately, autor de The Specter of Genocide (O Espectro do Genocídio, inédito no Brasil), a invasão da URSS alterou os rumos da guerra no leste, iniciando a guerra de aniquilação, ou vernichtungskrieg, termo utilizado por Hitler para explicar que o objetivo alemão seria destruir completamente o Estado comunista. Para os nazistas, a aniquilação dos soviéticos era justificável: primeiro por causa das crenças racistas, que viam na mistura do comunismo com o judaismo a pior raça possível eram numerosas as comunidades judaicas na URSS. Depois, do ponto de vista prático e logístico, o desfecho das vitórias que fatalmente aconteceriam elevaria sobremaneira a quantidade de prisioneiros sob os cuidados da Alemanha, tornando-se inviável garantir sua sobrevivência.

Em 22 de maio de 1941, a comissão econômica do 3º Reich se reuniu para discutir a logística após as primeiras semanas da invasão. As atas desse encontro foram encontradas em Berlim após a guerra e permaneceram durante muito tempo secretas. Recentemente foram publicadas pelo historiador americano Richard Overy, no livro Russias War (A Guerra da Rússia, sem tradução em português). Se quisermos avançar em território soviético, temos que reduzir o consumo de alimentos e de energia das populações locais, diz um trecho do relatório. Mais adiante, o documento conclui: Nada de falsa piedade. Milhões morrerão de fome.

A entrada em cena dos prisioneiros soviéticos acelerou os planos de extermínio nos campos. Em julho de 1941, membros do Programa de Eutanásia de Adultos, o Aktion T4, visitaram Auschwitz pela primeira vez. Criado em 1937, o programa de limpeza genética dos nazistas incluía a eliminação de crianças portadoras de deficiências ou com doenças terminais e a esterilização de adultos nessas condições. Após o início da guerra, o T4 foi levado aos territórios ocupados e a lista passou a incluir adultos que não estivessem aptos para o trabalho, diz Gellately.

Os indesejáveis eram enviados para clínicas como a de Sonnestein e lá conduzidos a salas com falsos chuveiros, cujos canos não estavam ligados à água, mas a cilindros de monóxido de carbono. Cerca de 70 000 pacientes foram assassinados assim, entre 1939 e 1941. Naquele mês de julho, o T4 selecionou 575 prisioneiros de Auschwitz para morrer assim.

A experiência da T4 na utilização de gás nas execuções foi a resposta para um problema logístico, diz o historiador Michael Vildt, da Universidade de Hamburgo. Em 1941, os fuzilamentos em massa tornavam-se cada vez mais comuns. Os einsatzgruppen da SS (literalmente grupos de mobilização, mas que pode ser traduzido como operações móveis de assassinato), circulavam por trás das linhas de combate e perseguiam civis soviéticos e membros das comunidades judaicas da região, contando, muitas vezes, com o apoio de voluntários locais ucranianos, lituanos, letões, entre outros para capturar, fuzilar e enterrar os corpos.

Em 15 de agosto daquele ano, Himmler assistiu à execução de prisioneiros acusados de incitar uma revolta contra os alemães em Minsk, na Bielo-Rússia. Em seus diários, encontrados em 1998 nos arquivos da extinta KGB, Himmler relatou que as vítimas chegaram em caminhões a um campo onde havia valas já abertas. Ao ver as covas, alguns presos tentaram correr e foram baleados, 1, 2, às vezes 3 vezes. Enorme esforço para fuzilar apenas 100 pessoas, anotou o líder da SS. Após o esforço, o general Erich von dem Bach elewski teria dito a Himmler que havia mais um inconveniente: o efeito negativo sobre os soldados. O rito sumário, a morte de crianças, velhos e mulheres civis, estaria abalando o moral dos seus homens.

Himmler saiu dali convencido de que era preciso arrumar uma maneira melhor de matar, afirma Vildt. Tanto que incumbiu Albert Widman, tenente da polícia técnica e científica da SS, um veterano do T4 na Alemanha, de adaptar suas experiência com monóxido de carbono aos campos de prisioneiros. Em junho, Widman havia questionando a viabilidade de deslocar cilindros do gás para locais de execução fora da Alemanha.

Diante disso, ele sugeria um novo tipo de câmara de gás volante caminhões fechados que tinham o cano de descarga voltado para o interior do veículo. Na enconmesma época, em Auschwitz, Karl Fritzch, tenente da SS e vice de Rudolf Hoss no comando do campo, fazia suas próprias experiências. Segundo Hoss, foi durante uma viagem dele a Berlim, que Fritzch teria tido a idéia de usar ácido cianídrico para eliminar os prisioneiros. Na época, uma marca popular desse produto era comercializada com o nome de Zyklon B (ciclone, em português) e ele estava fartamente disponível em Auschwitz, onde era usado para combater as constantes infestações de piolhos e outros insetos o veneno tinha a vantagem de ser altamente tóxico e invariavelmente letal.

Fritzch escolheu o bloco 11 para seu primeiro teste com Zyklon B. Numa noite entre o fim de agosto e o início de setembro de 1941, portas e janelas do galpão foram vedadas e os guardas da SS receberam máscaras de proteção. Cerca de 160 prisioneiros foram colocados nas celas do porão e o Zyklon, espalhado pelo local. Na manhã seguinte, muitos continuavam vivos. A dose teve de ser repetida até que todos morressem. Hoss admitiu Essa história do gás me tranqüilizou. Sempre tive horror das execuções com pelotões de fuzilamento. Fiquei aliviado ao pensar que seríamos poupados daqueles banhos de sangue.

No final daquele ano, Auschwitz havia ficado pequeno para tanta atividade, e o engenheiro Karl Bischoff foi incumbido de desenhar o projeto que praticamente criaria um novo campo, a 3 km do anterior. O local escolhido fora ocupado por uma pequena aldeia que os poloneses chamavam de Brzezinka, mas ficaria famoso pelo nome em alemão: Birkenau. O projeto previa 100 000 prisioneiros e estrutura de uma pequena cidade.

Diferentemente do antigo Auschwitz, de onde a maioria das plantas e projetos desapareceram, o desenho original de Birkenau foi localizado entre os documentos secretos da antiga URSS, em 1990. Ele revela que, desde o início, o local foi desenhado para abrigar os prisioneiros em condições repugnantes. Não havia água encanada ou assoalho nos barracões. Adaptados dos antigos campos da Alemanha, onde cada preso tinha seu catre, os planos de Birkenau previam a colocação de 3 pessoas no mesmo espaço, ou 550 pessoas por barracão. As plantas originais revelam que Bischoff não ficou satisfeito com esses números. Onde se lia 550 por barracão há uma anotação feita à mão, com o número riscado e trocado por 774. Ou seja, o espaço que nos campos da Alemanha era usado por 1 prisioneiro em Birkenau receberia 4.

Solução final

A invasão da URSS revelou outro aspecto que teria desdobramentos trágicos nos territórios ocupados: o anti-semitismo. A presença de um grande número de comunidades judaicas no país sempre foi apregoada pelos nazistas como prova da conspiração entre bolcheviques e judeus, que teria sido responsável pelos males que assolaram a Alemanha após a 1ª Guerra. Os judeus começaram a ser sistematicamente perseguidos na Alemanha em 1933, bem antes da guerra. Mas foi nos territórios soviéticos que o anti-semitismo se manifestou numa vertente até então inédita: o extermínio sistemático, diz Robert Gellately. O britânico Christopher Browning concorda: O plano nazista para liquidação dos judeus desenvolveu-se por etapas, durante a 2ª metade de 1941, e não era consensual em toda a cúpula nazista. Até a invasão da URSS não se pode afirmar que havia o objetivo de realizar o extermínio, diz. Segundo ele, o aumento brutal do número de prisioneiros, que superlotou campos e guetos, e a percepção de que a vitória na URSS não seria rápida, fez os nazistas concluir que deportar judeus para o leste consumia homens, armamentos e recursos demais.

Em 31 de julho de 1941, Hermann Goering, um dos homens mais poderosos da cúpula nazista e próximo de Hitler, encomendou ao general Reinhard Heydrich da SS a elaboração de um plano completo de solução final da questão judaica, que se tornaria o Protocolo de Wannsee, apresentado à cúpula nazista em Berlim no início de 1942 numa reunião que teve como anfitrião Adolf Eichman, do Ministério Central da Segurança (leia quadro acima). Antes mesmo do encontro em Wannsee, porém, os primeiros trens de deportação de judeus para os campos de extermínio já haviam partido em 15, 16 e 18 de outubro de 1941, de Viena, Praga e Berlim, respectivamente.

Os superlotados guetos poloneses tornaram-se a primeira escala da viagem de centenas de milhares de judeus rumo aos campos de extermínio. Em janeiro de 1942, os primeiros 2 500 judeus de Lodz foram enviados para Chelmno, um pequeno campo na Polônia, dirigido por Herbert Lange, um dos líderes do Programa de Eutanásia de Adultos. Imediatamente ao chegar, os prisioneiros foram obrigados a se despir e levados até uma casa sem janelas. Atrás deles as portas foram lacradas. Um caminhão encostou junto a uma das laterais do prédio e o escapamento foi conectado a uma rede de canos que levava o monóxido de carbono para dentro da casa. Depois de algumas horas, a maioria estava morta. Aqueles que resistiram foram fuzilados.

Operações semelhantes estavam sendo feitas em diversos campos na Polônia, como em Belzec, por exemplo, onde morreram os judeus do gueto de Lublin. Em julho de 1942, Himmler anunciou que todos os judeus sob autoridade do Governo Geral que era como chamavam a Polônia ocupada deveriam ser evacuados até o fim do ano. Uma meta e tanto, já que havia 2 milhões de judeus na Polônia, 400 000 só no gueto de Varsóvia.

O impacto da notícia em Auschwitz foi tamanho que Rudolf Hoss passou a realizar duas e não mais uma reunião semanal. Todas às terças e sextas, pontualmente às 9 horas, ele juntava seu pessoal para discutir a administração do campo, garantir o ritmo das obras em Birkenau e coordenar a chegada dos novos prisioneiros. Num desses encontros foi decidida a construção de novas câmaras de gás. Adaptadas a partir de duas velhas casas, as chamadas casinha vermelha e casinha branca tornaram-se, na prática, duas caixas de tijolos com portas e janelas lacradas e apenas duas aberturas: uma na frente por onde os prisioneiros entravam caminhando e uma saída na parte de trás, por onde os corpos eram retirados.

Outros campos poloneses, como Treblinka, Sobibor e Belzec, tornaram-se genuínas fábricas de morte. Treblinka, o maior deles, ficava a 100 km de Varsóvia e lá 900 000 pessoas foram mortas. Muito menor que Auschwitz, o campo todo tinha apenas apenas uma plataforma de trens, meia dúzia de barracões e um enorme complexo de câmaras de gás, com capacidade para 2 000 pessoas ao mesmo tempo.

O comandante de Treblinka, Franz Stangl, mandou plantar flores, pintou as plataformas em tons vivos e colocou placas com os horários de chegada e partida dos trens, como se aquilo fosse uma estação de verdade. Disfarçou as câmaras de gás em salas de banho, para que os prisioneiros permanecessem calmos, sem reclamar, sem tentar fugir ou provocar confusão. A oferta do banho tinha, ainda, um objetivo muito prático (e muito cínico). Nus, os corpos depois de mortos não precisavam ser despidos, o que poupava as roupas para serem reaproveitadas. Entre os prisioneiros enviados para lá, 99% estavam mortos duas horas após desembarcar do trem.

A escalada de mortes causava outro desafio logístico: livrar-se de tantos corpos. Em Auschwitz, no início, eles eram enterrados, mas com o verão o cheiro se tornava insuportável. Em setembro de 1942, Hoss visitou o campo de Chelmno e lá conheceu um método de cremação único e muito eficiente. Ele contou que o coronel Paul Blobel tinha mandado abrir valas de 3 x 3 metros e 4 metros de profundidade.

A um metro do fundo, instalava barras de aço transversais. Depois, despejava gasolina no buraco. Sobre as barras ele depositava os corpos intercalando-os com lenha, para que queimassem completamente. As cinzas caiam pelo vão entre as barras, liberando a grelha para que pudesse ser usada novamente. Quando elas atingissem a altura das barras de aço, bastava manejar a estrutura para cima, até que toda a vala ficasse repleta de cinzas. Humanas. Em março de 1942, embora mais de 1 milhão de judeus já estivessem mortos, cerca de 80% de todos os que morreriam durante a guerra ainda estavam vivos. Durante os 12 meses seguintes, a porcentagem se inverteria. Em maio de 1943, apenas 20% de todos os judeus que morreram no Holocausto ainda estavam vivos.

A arquitetura

Os arquitetos alemães estavam trabalhando duro em Auschwitz na 2ª metade de 1942, na construção dos novos crematórios em Birkenau. No projeto inicial, os prédios sob o nível do solo serviriam como necrotérios, para onde os corpos seriam levados e queimados. No entanto, as plantas passaram por consecutivas alterações. O enorme porão foi dividido em salas menores e a rampa entre os porões 1 e 2, por onde desceriam os corpos, deu lugar a uma escada de degraus largos. Algo aparentemente incoerente, já que o prédio receberia mais gente morta do que viva. As portas duplas, que abririam para dentro, foram substituídas por uma porta única, abrindo para fora, com vedação reforçada e um visor. No final das alterações, o necrotério havia se transformado numa supercâmara de gás, que matava até 2 000 pessoas em uma hora e garantiria a fama do lugar.

Outro nome para sempre associado a Auschwitz, o médico Josef Mengele, chegou ao campo no início de 1943. Mengele instalou-se no crematório 2, onde mantinha consultório, ambulatório com 8 leitos e laboratório. Ali, ele realizou estudos genéticos uma obsessão nazista e fez experiências médicas ligadas à guerra, como com gangrena e queimaduras. Uma de suas atividades prediletas era realizar autópsias simultâneas em gêmeos, algo raríssimo em que outras circunstâncias dois irmãos gêmeos morrem ao mesmo tempo e no mesmo lugar? No laboratório de Mengele, assim que morria um gêmeo, seu irmão era trazido e assassinado.

Apogeu e queda

Em meados de 1943, Auschwitz atingiu seu tamanho máximo. A estrutura se parecia com uma pequena cidade. Para os soldados da SS, a vida era boa. Havia mercearias, cantinas, cinema, clube esportivo e um teatro com programação regular. A turma promovia festas e bebedeiras. O complexo industrial montado pela IG Farben produzia de armamentos a tinta e faturava US$ 250 milhões ao ano, em valores atualizados. Os cerca de 100 000 prisioneiros ficavam divididos em 45 subcampos. Havia um só para mulheres, com 30 000 prisioneiras. Perto dali ficava o Canadá, uma área que recebeu esse nome porque o Canadá era tido como um país rico, próspero e, sobretudo, pacífico. Lá funcionava a triagem da bagagem dos presos: de roupas a relógios, o que pudesse ser reaproveitado era enviado para a Alemanha. Para os prisioneiros, aquele era um dos poucos serviços almejados, pois era onde se vivia melhor.

Havia também prisioneiros que trabalhavam diretamente com os alemães, como alfaiates, barbeiros e garçons. Mas o trabalho sujo sobrava para o sonderkommando (comando especial, em português), o grupo de prisioneiros, judeus ou não, que ajudavam os alemães na operação dos assassinatos. Cada conjunto de câmaras e crematório funcionava com 100 prisioneiros e apenas 4 alemães, aos quais cabia somente introduzir os cristais de Zyklon B. Os prisioneiros eram quem recolhia os corpos e os levava a um elevador. Outra turma os recolhia lá em cima e tratava de queimá-los nos fornos ou em grandes valas a céu aberto.

Até o início de 1944, 550 000 pessoas já haviam sido mortas em Auschwitz. A essa altura, os Aliados sabiam o que ocorria lá e nos demais campos poloneses. Os prisioneiros passaram a conviver com a esperança (e com a desilusão) ao verem e ouvirem aviões aliados sobrevoar o complexo. Em agosto, a unidade da IG Farben em Monowitz, a apenas 6 km de Birkenau foi destruída por um ataque britânico. Os prisioneiros se perguntavam por que as linhas de trem ou as câmaras de gás não eram bombardeadas. E essa é uma das grandes questões da guerra que continuam sem resposta.

Início do fim

Com americanos e ingleses pelo ar e o Exército Vermelho pelo chão, o ritmo de mortes em Auschwitz caiu. Se em julho foram 10 000 execuções por dia, nos meses seguintes o número chegou a menos de 1 000. Hoss, então, resolveu eliminar o maior número de prisioneiros possível. No dia 2 de agosto, 21 000 ciganos foram ao crematório 5. Imaginando que seriam os próximos, os sonderkommando se rebelaram em 7 de outubro. Atacaram os guardas e tentaram fugir, mas foram capturados e só não acabaram todos mortos porque havia 4 000 cadáveres para serem queimados. Para punilos, Hoss decidiu alinhá-los e fuzilar 1 em cada 3. Sobraram apenas 92.

Em janeiro de 1945, veio a ordem para que se esvaziasse o campo. Documentos, plantas e telegramas foram queimados e crematórios e câmaras de gás, explodidos. Os soviéticos haviam interrompido as linhas e os trens não chegavam mais ao campo. Por isso, os últimos 50 000 prisioneiros que restavam foram obrigados a andar por 35 km, em meio à neve e sob - 20 ºC. Quem parou ou atrasou a marcha foi morto no caminho. O Exército Vermelho chegou a Auschwitz em 27 de janeiro.

Não havia muito mais gente a libertar apenas 1 200 prisioneiros fracos e doentes que haviam sido abandonados. Em 30 de abril, Adolf Hitler se matou num porão de Berlim. Em 5 de maio, a Academia Naval de Murwick, em Flensburg, norte da Alemanha, território ainda controlado pelos nazistas, foi sede da última reunião da SS. Rudolf Hoss esperava que uma derradeira e heróica ação fosse anunciada. Mas o marechal Himmler despediu-se do grupo e recomendou que todos aproveitassem o colapso do 3º Reich para sumirem no meio da multidão. Hoss então trocou sua farda de oficial por um traje comum da Marinha e se misturou a outros marinheiros em Sylt, uma ilha de veraneio sem nenhum valor estratégico. Himmler foi capturado dias depois e se matou engolindo cápsulas de cianeto de potássio.

Foragidos

Com o nome de Franz Lang, Hoss empregou-se numa fazenda em Gottrupel, norte da Alemanha. Acabou denunciado pela esposa, que havia sido presa e estava sob ameaça de deportação para a URSS. Preso enquanto dormia num estábulo, Hoss foi levado ao Tribunal de Nuremberg. O julgamento levou 3 semanas tempo que aproveitou para escrever suas memórias, de onde as declarações reproduzidas nesta reportagem foram retiradas. A sentença morte na forca foi cumprida em 16 de abril de 1947, num pátio quase vazio em Auschwitz.

Mengele escapou para a Itália e com a colaboração das autoridades locais conseguiu passaporte e uma passagem para a Argentina. Viveu no Paraguai e no Brasil, onde morreu, em 1979, incógnito. Adolf Eichmann se escondeu na Argentina até 1960, quando foi seqüestrado por espiões israelenses. Julgado em Tel-Aviv, ele foi condenado e enforcado. Franz Stangl, o eficiente comandante de Treblinka, fugiu para o Brasil, onde trabalhou no almoxarifado da Volkswagen usando o próprio nome, até 1967, quando foi enfim deportado para a Alemanha. Morreu de ataque do coração aguardando o julgamento. Personagens menos importantes, como o tenente Oskar Gronning, que recolhia os bens dos prisioneiros no Canadá, também ficaram impunes. Após a guerra, ele empregou-se na área de recursos humanos de uma multinacional . Em 1964, foi nomeado juiz trabalhista, função que exerceu até se aposentar. Nunca foi julgado e vive hoje em Hannover.

Em 1963, os 22 últimos acusados por crimes em Auschwitz foram julgados: 17 saíram condenados, 6 à pena máxima de prisão perpétua. Ao todo, 8 000 homens da SS trabalharam em Auschwitz. Sete mil sobreviveram à guerra. Oitocentos foram julgados. A 90% deles, nunca foi imputado qualquer crime.

Revista Superinteressante
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