Arquivo de 21 de Outubro de 2007

O Teatro Brasileiro de Comédia

Fernando Navarro

Nos anos 50, o TBC - Teatro Brasileiro de Comédia é o grande modernizador do teatro no país.
No comando do TBC está Franco Zampari, italiano radicado no Brasil desde 1922.

Em 1945, Franco Zampari escreve uma peça de teatro chamada “A Mulher de Braços Alçados”. Napolitano, engenheiro das Indústrias Matarazzo e amante das artes, Zampari apresenta sua peça numa festa da alta sociedade de São Paulo. Essa brincadeira entre amigos é a semente que brota e acaba motivando Zampari para uma dedicação mais profunda ao teatro.

Nas décadas de 30 e 40 predominavam, no teatro brasileiro, espetáculos humorísticos centrados em um ator principal, valorizado por sua capacidade de comunicação direta com o público e suas habilidades de improvisador. O ator era, em geral, o dono da companhia e sua principal atração. Procópio Ferreira, Jaime Costa e Dulcina de Morais são exemplos.

Nos anos 40, uma vontade geral de transformar esse modo de fazer teatro se propaga por grupos amadores, formados por universitários, intelectuais e profissionais liberais. Décio de Almeida Prado funda o Grupo Universitário de Teatro. Alfredo Mesquita dirige o Grupo de Teatro Experimental e funda a primeira escola de atores do Brasil, a EAD - Escola de Arte Dramática, em São Paulo.

Esta febre de mudanças tem dois alvos prioritários: o repertório dos textos encenados e a técnica. Movidos pela força da paixão, os amadores brasileiros viabilizam parte desse projeto.

Em 1948, Franco Zampari, associado a um grupo de empresários de São Paulo, cria o TBC - Teatro Brasileiro de Comédia. Transforma um velho casarão em teatro aparelhado com 18 camarins, duas salas de ensaio, uma sala de leitura, oficina de carpintaria e marcenaria, almoxarifados para cenografia e figurinos, além de modernos equipamentos de luz e som. Um luxo para a época.

Na noite de 11 de outubro , o TBC estréia com espetáculo duplo. “A Voz Humana”, monólogo de Jean Cocteau, interpretado em francês pela atriz Henriette Morineau. Completa a apresentação a peça “A Mulher do Próximo”, escrita e dirigida por Abílio Pereira de Almeida. No elenco está a jovem atriz Cacilda Becker, que mais tarde se torna um dos maiores mitos do teatro brasileiro. A estréia é um sucesso.

O TBC renova a sistemática do trabalho teatral. Monta uma equipe fixa, com encenadores estrangeiros como Adolfo Celi, Ziembinski, Ruggero Jacobi, Luciano Salce e Flamínio Bollini Cerri. Além de cenógrafos, iluminadores e cenotécnicos, contrata um corpo de atores que inclui Cacilda Becker, Sérgio Cardoso, Nydia Lícia, Cleyde Yáconis, Paulo Autran, Tônia Carrero e muitos outros nomes importantes para o teatro brasileiro.

A partir de 1949, Zampari expande suas atividades nas artes e inicia a Companhia Cinematográfica Vera Cruz. As histórias da Vera Cruz e do TBC se misturam. Diversos artistas e técnicos trabalham para as duas companhias. Ao longo de sua existência, o TBC alterna grandes sucessos com fracassos de público.
As constantes crises econômicas da companhia levam-na ao fechamento em 1964.

O TBC é um marco na história do teatro brasileiro. Formou toda uma geração de atores, diretores e dramaturgos. Suas encenações estão documentadas nestas fotos de Fredi Kleemann, ator do TBC e fotógrafo de teatro. Diversas companhias teatrais têm origem no TBC, como as de Nydia Lícia e Sérgio Cardoso; de Tônia Carrero, Adolfo Celi e Paulo Autran; e de Cacilda Becker. Também o Teatro de Arena e o Teatro Oficina, que apesar de terem propostas diferentes, partem do TBC como referência.

O TBC fez uma das mais importantes revoluções no teatro brasileiro ao estabelecer um novo conceito de profissionalismo. Encenou textos de qualidade, com montagens bem cuidadas e renovou o ambiente cultural brasileiro.

Alô Escola Tv Cultura
http://www.tvcultura.com.br/aloescola/index.asp

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60% das dietas não têm acompanhamento médico

Maioria faz regime sem consultar nutricionista, o que envolve riscos à saúde. 19% dos entrevistados afirmaram fazer algum tipo de dieta; jovens entre 18 e 30 anos são os que menos procuram orientação.

MÁRCIO PINHO
DA REPORTAGEM LOCAL

Simpatias, livros, balança ou simplesmente fechar a boca são artifícios muito usados por quem quer manter a forma ou emagrecer por conta própria. Uma pesquisa recente mostrou que esse grupo dos que não procuram a orientação de um médico ao fazer uma dieta corresponde a 60% dos brasileiros de classe alta e média (A, B e C).
O estudo do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia verificou que entre 1.500 pessoas residentes em oito capitais brasileiras, 283 (19%) fazem dietas. Desse total, apenas 114 (40%) consultam um médico sobre como se alimentar para perder ou ganhar peso. Segundo especialistas, uma dieta por conta própria pode dar certo, mas envolve muitos riscos.
Daniel Magnoni, chefe da seção de nutrição clínica do hospital e coordenador da pesquisa, diz que a dieta pode ter o efeito contrário e quem quer emagrecer pode engordar. Isso porque é preciso não só um conhecimento sobre os alimentos, mas também sobre o próprio corpo para determinar a alimentação ideal.
“A pessoa tem que ter um plano de dieta individualizado, que considere não só altura e peso, mas a composição do corpo e o gasto de energia.”
Segundo ele, usar revistas com dicas de receitas e que trazem apenas as calorias dos alimentos é um método errado, porque não são elas que determinam uma alimentação saudável. “Pode acontecer uma deficiência de vitaminas e minerais nesses casos”, diz.
Uma dieta só com o número de calorias necessárias por refeição ou por dia não é aconselhável, segundo os médicos. Isso porque a quantidade indicada pode ser encontrada tanto em um prato balanceado com em um chocolate, por exemplo.
De acordo com a nutróloga Daniela Hueb, o primeiro passo para quem quer perder peso é fazer exames para saber por que motivo está acima do peso, para verificar, por exemplo, se tem problemas de colesterol ou diabetes, que influenciarão na escolha dos alimentos.
Ela diz que, ao contrário do que algumas pessoas imaginam, ficar muito tempo sem comer não é uma boa tática para emagrecer. “No jejum prolongado, o organismo entende que há escassez de alimento ou desnutrição e tenta reter ao máximo as energias”, afirma.
Segundo ela, para emagrecer, além de procurar um profissional de saúde, é aconselhável “consumir mais proteínas, moderar nas gorduras saudáveis e carboidratos e pensar nos nutrientes, não nas calorias. Atividades físicas são importantes”.

Pesquisa
Os jovens com idades entre 18 e 30 anos são os que menos procuram médicos, diz a pesquisa. Eles representam 21% dos que se informam sobre nutrição, bem atrás do grupo na faixa entre 46 e 60 anos (45%), que geralmente tem maior dificuldade para emagrecer.
A pesquisa detectou também que, entre os 19% das pessoas que fazem dieta, 63% são mulheres. Daniela Hueb diz que o número é alto e que mostra a preocupação com a saúde e a estética. Já o total dos que não perguntam a um médico sobre nutrição, fazendo ou não uma dieta, é de 77%.
O estudo foi elaborado pelo Dante Pazzanese e levado a campo pelo Synovate Brasil.

Jornal Folha de S. Paulo
www.uol.com.br

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II DECLARAÇAO DE SERPA

Reunidos na cidade portuguesa de Serpa, os participantes no II Encontro Internacional Civilização ou Barbárie – Desafios do Mundo Contemporâneo:

1. Lançam um alerta para o agravamento da crise global – social, económica, financeira, militar, energética, cultural e ambiental do sistema capitalista – e salientam que ela ameaça a própria continuidade da vida na Terra.

2. Constatam que no desenvolvimento dessa crise o capitalismo, na sua escalada de agressividade e de exploração do homem pelo homem, se tornou um factor de regressão absoluta da civilização.

3. Sublinham, que os EUA, potência hegemónica, optaram na procura desesperada de uma saída para a crise estrutural do sistema, por uma estratégia de terrorismo de estado que assume já matizes neofascistas nas guerras ditas «preventivas».

4 . Identificam a União Europeia como bloco político-económico- militar que serve os interesses do capital monopolista contra os povos europeus e de outros continentes ,o qual, através do chamado Tratado Constitucional, pretende impor um ambicioso salto qualitativo na integração capitalista, facilitar renovadas ofensivas contra os trabalhadores, os direitos e garantias individuais, as soberanias nacionais e a democracia, aprofundar o seu carácter federalista, neoliberal e militarista, e alcançar maior afirmação como bloco imperialista. Instam ,portanto, os povos da União Europeia à rejeição desse projecto.

5.Condenam as agressões ao Iraque e ao Afeganistão, a ocupação desses países e os crimes monstruosos ali cometidos pelas forças armadas dos EUA e da Grã Bretanha e seus aliados satélites , assim como a cumplicidade do governo português nas referidas agressões e saúdam a resistência dos seus povos em luta pela liberdade e independência.

6.Condenam a agressão sionista ao Líbano, apoiada por Washington, e saúdam a heróica resistência dos patriotas da Hezbollah à invasão israelense.

7.Manifestam a sua solidariedade ao povo mártir da Palestina no seu combate contra a ocupação sionista e pela criação de um Estado Palestiniano plenamente soberano.

8. Advertem contra o perigo de uma agressão dos EUA ao povo do Irão e denunciam a campanha de calúnias montada para deformar em escala mundial a imagem daquela nação, criadora de uma grande civilização.

9.Manifestam a sua solidariedade a quantos na África, na Ásia e na América Latina sofrem as consequências de politicas neocolonialistas e se mobilizam contra todas as formas da violência e da exploração imperialistas e contra a implementação de politicas neoliberais impostas pelas instituições financeiras internacionais . A anulação da divida dos países do Sul vitimas do imperialismo é assim uma necessidade urgente.

10 .Condenam as intervenções militares directas e indirectas do imperialismo estadunidense na América Latina, nomeadamente no Haiti e na Colômbia e reclamam o encerramento das bases norte-americanas em diferentes países do Continente, incluindo a de Guantanamo, em Cuba ,ocupada ilegalmente.

11. Denunciam a ausência de autoridade moral do governo Bush ,que financiou ,executou e incentiva actos de terrorismo contra Cuba e outros países do Hemisfério, para se arvorar em juiz e elaborar listas de países e organizações alegadamente terroristas, nomeadamente movimentos de libertação como as Forças Armadas Revolucionárias Armadas da Colômbia. Nesse sentido apoiam os esforços desenvolvidos pelas FARC com vista a um intercambio humanitário que permita a troca de prisioneiros.

12. Reclamam o fim do bloqueio imposto a Cuba pelos EUA e saúdam o povo cubano, exemplo heróico e vitorioso de resistência ao imperialismo e expressam a sua confiança nos resultados do importante processo popular de debate a favor do socialismo iniciado após o 26 de Julho pp.

13. Saúdam calorosamente o povo da Venezuela e o Presidente Hugo Chavez pelos avanços realizados no desenvolvimento da Revolução Bolivariana, pela sua firmeza no diálogo com o imperialismo norte-americano e pelo projecto de construção de uma sociedade socialista na pátria de Bolívar.

14. Saúdam os povos do Equador e da Bolívia pelas conquistas democráticas e progressistas ocorridas nos governos anti-neoliberais dos presidentes Rafael Correa e Evo Morales

15 . Constatam que o crescimento económico capitalista ,baseado no aumento do consumo de mercadorias, ao invés do bem estar das populações, mobiliza fluxos colossais de materiais e de energia, causando a degradação e a exaustão de recursos finitos e ameaçando os processos de renovação natural . Desfigura, assim, a relação harmoniosa do Homem com a Terra que habita, destruindo o ambiente necessário à vida e os recursos de produção e riqueza.

16 . Saúdam a luta do povo Português, nomeadamente do seu movimento sindical unitário que, não obstante sofrer as consequências de trinta anos de contra-revolução ,perdas de direitos, degradação de condições de vida e desfiguração do regime democrático, todavia resiste e preserva a posição de classe como sentido de futuro perante a ofensiva do capital nacional conluiado com o capital monopolista Europeu e apoiado pelo imperialismo.

17.Proclamam a convicção de que o marxismo – e em particular o seu núcleo fundador assente na obra de Marx e Engels - continua a ocupar um lugar central entre as referências teóricas mobilizadas não somente pelos comunistas mas também pelos progressistas do mundo. A reapropriação e o reforço do marxismo, da sua metodologia e dos seus conceitos ,como pensamento da crítica e da transformação do mundo ,nem dogmático nem domesticado, e a herança do marxismo-leninismo continuam a ser uma necessidade absoluta da luta ideológica e na justa definição da estratégia e da táctica das forças que se empenhem no combate anicapitalista e anti imperialista. Contra o sistema totalitário de desinformação ,de alienação e de manipulação das massas e os doutrina dores do «pensamento único», o marxismo permanece como a arma intelectual mais preciosa nas mãos dos trabalhadores e dos povos que resistem. Renunciar a ele equivaleria a desistir da luta pelo socialismo.

18.. A poucas semanas do 90º aniversario da Revolução de Outubro de 1917, cuja herança é património da humanidade progressista, denunciam o carácter profundamente reaccionário das campanhas de criminalização do comunismo , recordam as consequências trágicas do desaparecimento da União Soviética e expressam a
convicção de que o socialismo é a única alternativa ao sistema capitalista que, ao entrar na fase senil, optou por uma estratégia de desespero, exterminista, que ameaça reconduzir a humanidade à barbárie.

19. Registam com alegria a intensificação das lutas dos trabalhadores em todo o mundo e a resistência às guerras de agressão nos EUA e sublinham que o reforço da solidariedade internacionalista entre os explorados e excluídos de todo o mundo é imprescindível à globalização do combate contra o inimigo comum - o capitalismo e o imperialismo .

SERPA, 7 DE OUTUBRO DE 2007

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Militante da Via Campesina é executado por milícia no Paraná

Durante um ataque de uma milícia ao acampamento do campo de experimento da multinacional Syngenta Seeds, em Santa Tereza do Oeste, às 13h30, de hoje, dia 21, o militante da Via Campesina, Valmir Mota, foi executado a queima roupa com dois tiros no peito. Outros seis trabalhadores ficaram gravemente feridos. A milícia contava com cerca de 40 pistoleiros.

Os feridos Gentil Couto Viera, Jonas Gomes de Queiroz, Domingos Barretos, Izabel Nascimento de Souza e Hudson Cardin, foram encaminhados para os hospitais da região. Izabel está em coma e sua vida corre risco. Há suspeitas de que um dos pistoleiros tenha sido morto.

A área da Syngenta foi reocupada na manhã de hoje por cerca 150 trabalhadores da Via Campesina. O campo de experimento da empresa havia sido ocupado pelos camponeses em março de 2006, para denunciar o cultivo ilegal de reprodução de sementes transgênicas de soja e milho.

A ocupação tornou os crimes da transnacional conhecidos em todo o mundo. Após dezesseis meses de resistência, no dia 18 de julho deste ano, as 70 famílias desocuparam a área, se deslocando para um local provisório no assentamento Olga Benário, também em Santa Tereza do Oeste.

Na reocupação os trabalhadores rurais soltaram fogos de artifício e os seguranças, que estavam na fazenda abandonaram o local. Por volta da 13h30 um micro ônibus parou em frente ao portão de entrada. Uma milícia armada com aproximadamente 40 pistoleiros fortemente armados desceu atirando em direção às pessoas que se encontravam no local.

Arrombaram o portão, executaram o militante Valmir Mota com dois tiros, balearam outros cinco agricultores e espancaram Isabel do Nascimento de Souza, que se encontra hospitalizada e gravemente ferida.

A Syngenta contratava serviços de segurança que atuavam de forma irregular na região, articulados com a Sociedade Rural da Região Oeste (SRO) e o Movimento dos Produtores Rurais (MPR). Uma das diretoras da empresa de segurança NF, foi presa e o proprietário fugiu durante uma operação da Polícia Federal no mês de outubro, quando foram apreendidas munições e armas ilegais.

Há indícios de que a empresa funciona como fachada e que na hora das operações são contratados mais seguranças de forma ilegal, formando uma milícia armada que atua praticando despejos violentos e ataques a acampamentos.

Na última quinta-feira, dia 18, a denúncia da atuação de milícias armadas ligadas a SRO e ao MPR e Syngenta na região Oeste foi reforçada durante uma audiência pública, com a coordenação da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal dos Deputados (CDHM), em Curitiba.

A Via Campesina cobra da Justiça a apuração do ataque contra os trabalhadores do acampamento, que juntamente com os trabalhadores do assentamento Olga Benário, continuam lutando para transformar a área num Centro de Agroecologia e de reprodução de sementes crioulas para a agricultura familiar e para a Reforma Agrária.

Os moradores do assentamento Olga Benário, que faz divisa com a área de experimento da Syngenta, também são contrários aos experimentos transgênicos no local. Isso porque o a produção transgênica vai contaminar a produção de sementes crioulas do assentamento, e trazer prejuízos para a alimentação, a saúde e o meio ambiente.

MST
http://www.mst.org.br/mst/index.html

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Governo faz perfil das vítimas da Ditadura

Ayla Zanini

A Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH) lançou, no fim de agosto, o livro Direito à Memória e À Verdade, que relata as atrocidades cometidas pela ditadura militar (1964-1985) contra seus opositores.

A publicação, organizada pela SEDH, em parceria com a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, é o primeiro documento oficial do Estado brasileiro a registrar para a história a situação de 479 militantes que sofreram com os anos da ditadura.

Resultado de 11 anos de trabalho da Comissão Especial, o livro incorpora a versão das vítimas e expõe a questão da localização de alguns corpos.

Em entrevista à Radioagência NP, o ministro da SEDH, Paulo Vannuchi fala sobre a importância do livro para sociedade democrática brasileira, e expõe seu ponto de vista quanto aos arquivos sigilosos da Ditadura.

Radioagência NP: Como foi feito o levantamento de informações para o livro?

Paulo Vanucchi: Houve muitos trabalhos, de jornalistas, especialistas, e de comissões, de familiares, o Dossiê dos Mortos e Desaparecidos, sites do Tortura Nunca Mais, e etc. E é um documento que não se preocupa em acusar ninguém, ele registra para a história toda essa informação que não estava sistematizada com centro no trabalho da Comissão.

Radioagência NP: Como funciona e quais são os objetivos da Comissão Especial sobre mortos e Desaparecidos Políticos?

PV: A Comissão nasceu por lei de 1995 e começou a funcionar no início de 1996. Ela é uma comissão de Estado, ela não é do Governo Lula, ela já atravessa quatro mandatos presidenciais e foi criada com três objetivos: o primeiro era de formalizar o reconhecimento de que o Estado era o responsável pelas mortes de opositores políticos; o segundo era promover a reparação indenizatória e o terceiro é envidar esforços para localizar os restos mortais de aproximadamente 140 brasileiros e brasileiras cujos corpos não foram entregues aos seus familiares.

Radioagência NP: Qual a importância do livro no processo de localização dos corpos dos desaparecidos políticos?

PV: O livro resgata pra história, documenta e expressa a situação ainda por se realizar, envolvendo o problema da localização dos corpos. E para a localização é preciso que haja um procedimento interno nas forças armadas. E isso evidentemente, envolve uma manifestação expressa sob necessidade de abrir arquivos, de fazer uma narrativa e etc. E passa a existir uma narrativa, a partir de agora, um livro oficial, que basicamente incorpora a versão das vítimas.

Radioagência NP: O que ainda falta para que se possa avançar no processo de abertura dos arquivos da ditadura militar?

PV: Precisa abrir todas as informações pertinentes. Os arquivos sobre a repressão política, em termos técnicos, eles já têm mais de 25 anos, rigorosamente eles estão abertos. Onde aparecer esses documentos, eles não mais estão protegidos por sigilo. Estão em mãos particulares, documentos sobre a repressão política. Então se trata de fazer a localização e uma espécie de reconstituição desses autos, porque essa memória não pertence ao sargento, general, delegado, ela pertence à República Brasileira.

Radioagência NP
http://www.radioagencianp.com.br/index.php?option=com_frontpage&Itemid=1

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As Guerras contra o Iraque

José Farhat

Na véspera do dia em que o Iraque invadiu o Kuwait (2 de agosto de 1990), eu estava em Bagdá e um daqueles que os estadunidenses identificariam depois como “Cartas do Baralho” mandou um emissário a meu apartamento, no Hotel Al-Rashid, com um recado que dizia textualmente: “A Gahba disse ao Presidente que eles não tinham nada a ver com os problemas da fronteira sul e, então, meu irmão, pegue hoje o avião da Air France hoje à noite e vá para casa”. Quando cheguei a Paris o Iraque já ocupava o Kuwait.

O que disse a “Gahba” (prostituta na pronúncia iraquiana), a Embaixadora dos Estados Unidos no Iraque, April Glaspie, no dia 25 de julho de 1990, durante uma entrevista com o presidente Saddam Hussein não era a primeira mentira que os Estados Unidos aplicariam contra o Iraque. O que ela disse, vim a saber depois, foi meticulosamente gravado e foi retomado em crônicas posteriores com os autores invariavelmente afirmando que Saddam interpretara mal a fala de Glaspie, mas há dúvidas quanto a isto. O então Secretário de Estado James Baker confirmaria depois que a ordem dada à Embaixadora era precisamente aquela: informar que os Estados Unidos nada tinham a ver com problemas de fronteira entre Estados árabes.

Dias depois, no dia 31, o Pentágono seria mais franco, ao declarar em nota oficial: “Estamos fortemente engajados no apoio à autodefesa, individual ou coletiva, de nossos amigos no Golfo” . Dito isto, colocaram suas forças navais em alerta máximo.

A I Guerra do Golfo, Irã contra Iraque, terminara sem vencedor e Saddam estava com quatro problemas urgentes à sua frente: o impacto da não vitória da guerra na opinião pública, dar emprego aos 200.000 soldados desmobilizados e desempregados há três anos, a necessidade de reconstruir o país e, como sempre, seu apego a realizar o seu eterno sonho de se tornar a figura dominante da região.

A reconstrução do Iraque, que contribuiria para a solução das demais, estava dependendo da renda proporcionada pelo petróleo. Com o Kuwait excedendo em 40% a sua quota de exportação de petróleo e os Emirados Árabes Unidos em 30%, o preço do óleo baixou de US$ 18,00 o barril para US$ 11,00, deixando o Iraque apenas capaz de atender a suas despesas correntes e nada mais para investir.

O Kuwait havia escolhido o petróleo como arma para pressionar o Iraque a um acerto de suas fronteiras e a pagar a dívida de US$ 16 bilhões contraída pelo Iraque durante a guerra com o Irã. Em 30 de maio, na reunião da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), em Bagdá, Saddam discursou: “Guerra é feita com soldados e o prejuízo é feito com bombas, matança e golpes atentatórios, mas também é feita às vezes por meios econômicos… Eu digo àqueles que não querem batalhar contra o Iraque que isto é, de fato, uma guerra contra o Iraque”. As palavras caíram em ouvidos moucos.

Em 31 de julho, o Iraque enviou o seu vice-presidente Izzat Ibrahim para encontrar o herdeiro do trono do Kuwait Shaikh Saad al-Sabah em Jeddah e só ouviu deste palavras duras: “Não nos ameacem. O Kuwait tem amigos muito fortes. Vocês serão obrigados a nos pagar todo o dinheiro que nos devem”.

Se os Estados Unidos fecharam os olhos ou encorajaram o Iraque a ocupar o Kuwait, fica a critério de quem interpreta os fatos e filtra as notícias dos lados envolvidos. O fato é que o governo estadunidense voltou atrás e, aliado ao Reino Unido, liderou uma coalizão que empreendeu a II Guerra do Golfo (1990-1991). Golpe de inteligência para que o Iraque ocupasse o Kuwait e, depois, retaliasse seria esperar muito da potência hegemônica. Na realidade, eles queriam dar mais força ao Iraque para contrabalançar o poder iraniano, mas o Reino Unido, Israel e conhecidos países árabes que temiam muito mais um Iraque encurralado em seus problemas, convenceram os Estados Unidos para que não se acomodassem.

Mentira leva a idiotice e a II Guerra do Golfo estancou, contrariando o interesse maior dos Estados Unidos e da coalizão que era a ocupação do Iraque. Este se tornara o objetivo. Ninguém, na realidade, queria ter à sua porta ou em sua zona de influência um dono da maior reserva de petróleo do mundo e, por isto, deveria ser subjugado. O argumento de George Herbert Walker Bush, então presidente, no entanto prevaleceu: acabar com Saddam Hussein e subjugar o Iraque seria uma oportunidade para o Irã se fortalecer.

O Iraque é um país criado pelo Império Britânico – Império da Índia, costumava dizer 10 Downing Street quando lhe interessava - já tendo desde o nascedouro problemas internos: árabes xiitas, em região petrolífera, e árabes sunitas na capital onde nada se produz exceto tramóias e fuxicos. Para complicar mais ainda e não deixar todo o petróleo nas mãos do Estado que estavam criando, os britânicos tiraram da antiga província otomana de Basra o que se tornou o Kuwait. Para influenciar os sunitas de Bagdá e o Rei que lá implantaram, trazido da Hijaz (parte da atual Arábia Saudita), adicionaram ao Estado iraquiano um pedaço do Curdistão; uma parte de um Estado a cujos representantes as potências aliadas e a sua Liga das Nações, ao final da I Guerra Mundial, haviam prometido independência, o que nunca aconteceu. Uma mentira a mais!

É importante lembrar este episódio, pois, ao final da II Guerra do Golfo, os norte-americanos que haviam prometido aos xiitas do sul e aos curdos do norte apoio pleno e total em sua rebelião contra o regime baathista, renegaram as suas promessas e deixaram que Saddam Hussein aplicasse toda a sua maldade sanguinária nas duas partes mais importantes de seu país, ao norte e ao sul, contribuindo assim para o restabelecimento de antigos problemas religiosos e raciais.

Aí já começara o atoleiro no qual se meteram os Estados Unidos, pois apesar da vitória parcial e inacabada sobre Saddam Hussein os curdos começaram a fugir através das fronteiras para se abrigarem junto aos demais curdos, principalmente aqueles dentro da fronteira turca, criando um problema com a Turquia, o segundo aliado da potência hegemônica não árabe na região.

A solução que deram: a criação de uma zona livre para os curdos no norte, estabelecimento de zonas de exclusão no norte e no sul, o patrulhamento aéreo de todo o território iraquiano, bombardeios ininterruptos e o cometimento de um crime contra a humanidade representado pelas sanções contra o Iraque, executadas pelas Nações Unidas, com orientação estadunidense, que gerou a morte de iraquianos de fome e falta de remédios e encorajou um contrabando de petróleo que em nada contribuiu para aliviar as dores do povo iraquiano, pois tudo o que se arrecadava servia para Saddam Hussein se preparar para a próxima guerra.

Não se deve esquecer que as armas biológicas e químicas que Saddam Hussein procurou desenvolver têm origem principalmente em fornecimentos norte-americanos feitos durante a Guerra Irã-Iraque. Quanto a armas nucleares, se de fato procurou desenvolver, os ataques aéreos iniciados já no governo William Clinton, a todas as instalações militares, deve ter frustrado o desejo dos iraquianos.

A próxima guerra contra o Iraque, mais uma vez baseada em mentiras, partia de argumentos totalmente falsos: o Iraque ameaçava a segurança dos Estados Unidos e dos países seus vizinhos, é responsável pelos ataques de 11 de setembro, está fabricando armas de destruição em massa, o que tornava seu desarmamento uma renovada prioridade.

Líderes mundiais, tendo o presidente francês Jacques Chirac à sua frente, tentaram convencer aos Estados Unidos e ao Reino Unido de que o governo iraquiano estava cada vez mais cooperando, porém, como sua intenção era outra, George W. Bush e seu aliado preferido Anthony Blair, deram um ultimato para que Saddam Hussein deixasse o Iraque em 48 horas. Como Saddam não atendeu, o que era de se esperar, em 20 de março de 2003, as forças da coalizão, que já estavam preparadas há muito tempo, atacaram o Iraque começando a III Guerra do Golfo.

Icarabe
http://www.icarabe.org/

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‘A humanidade caminha para a era da penúria’, afirma Bruno Parmentier, economista

“A humanidade caminha para a era da penúria”, afirma o economista Bruno Parmentier em entrevista publicada pelo jornal Le Monde. Em entrevista concedida a Laura Greenhalgh e publicada no jornal O Estado de S. Paulo, 21-10-2007, ele explica:

“A população deverá se estabilizar entre 9 e 10 bilhões de pessoas. Significa que acolheremos no planeta um bilhão de novos asiáticos, cerca de 800 milhões de novos africanos, 400 milhões de novos latino-americanos. Então temos de nos colocar a questão: haverá alimento para todos? Se admitirmos que todos almejamos comer segundo padrões ocidentais, com dietas fortemente baseadas em produtos de origem animal, teremos então de dobrar a produção agrícola do mundo, já que os animais comem como nós, humanos - consomem cereais e vegetais. E dobrar levando em conta as disparidades existentes. Será preciso multiplicar por 5 a produção agrícola africana e por 1,9 a produção agrícola latino-americana, ao passo que será inútil aumentar a produção européia, já que estamos comendo bem há um bom tempo e não fazemos mais tantos filhos. Por isso nossa população é declinante”.

O economista é diretor da École Supérieure d’Agriculture d’Angers (ESA), a mais importante do setor na França.

Segundo ele, “as soluções aplicadas para aumentar a produção de alimentos no século 20 certamente não funcionarão no século 21. É imperativo encontrar alternativas. Em escala global, nossas reservas de terras disponíveis para agricultura são cada vez menores, em parte por conta da urbanização. Continuamos a destruir as florestas a uma velocidade inaceitável para o equilíbrio ecológico, ou seja, à razão de 140 mil km² por ano. A equação que resulta disso é simples: em 1960, havia algo como um hectare para nutrir dois seres humanos. Hoje, tem-se em média um hectare para quatro, em 2050, um hectare para seis, e assim vai. A China hoje já lida com a razão de um hectare para oito indivíduos”.

E continua:

“Tecnologias agrícolas inventadas no século passado são muito gulosas de energia porque foram desenvolvidas numa época de petróleo barato. A mecanização da agricultura, a fabricação de fertilizantes e outros modos de produção dependem basicamente de energia. Hoje o preço mundial do petróleo atinge US$ 90 por barril. A tendência de alta deve continuar e o impacto psicológico da cotação rompendo o patamar dos US$ 100, já iminente, será bastante sensível. Gente mais jovem que eu verá o petróleo a US$ 150 o barril. Isso tudo complica a vida dos 28 milhões de agricultores do mundo que dependem da mecanização do setor. Em contrapartida, cerca de 250 milhões de produtores rurais trabalham com energia animal e 1 bilhão não têm nem animais nem tratores. Um bilhão de produtores estão completamente à margem! Diante desse cenário, devemos nos perguntar: a agricultura, daqui para frente, deve servir à produção de alimentos ou de energia? Veja que coincidência: 800 milhões de pessoas sentem fome no planeta. E temos uma frota global de 600 milhões de automóveis e 200 milhões de caminhões. O número é o mesmo: 800 milhões querem comida, 800 milhões querem combustível. E agora?”

Para o economista francês, “quando falta comida, nenhum problema é maior do que “ter o que comer”. Mas, quando há comida, então aparecem 50 novos problemas na vida da gente: o medo de engordar, de se envenenar, de envelhecer, a culpa de comer muito quando tantos têm fome… Na Europa Ocidental, a última vez que se viu a cara da fome foi na 2ª Guerra e hoje a maioria da população não lida com tais lembranças. Mas lida com esses 50 novos problemas. Certamente o declínio da religião, numa Europa secularizada, deu lugar a outros tipos de injunções coletivas. Por exemplo: assim como há o “ecologicamente correto”, há também o “corporalmente correto”. Temos de emagrecer, malhar, exibir boa forma física se quisermos merecer o respeito dos outros.”

“O desejável seria oferecer a todos os habitantes do planeta a possibilidade de comer três vezes ao dia”- afirma o economista. “Mas, comer o quê e em que quantidade? Guardamos no nosso corpo a memória de penúrias do passado, por isso tendemos a comer mais do que o necessário: mais açúcar, mais gordura, quando a nossa vida ficou mais sedentária. Daí a obesidade cresce de forma alarmante, especialmente nas classes médias. Em quase todos os países do globo, vê-se um aumento estrondoso dos gordos. É um problema em escala mundial, de certa forma tão sério quanto a fome.

E isso porque “a demanda crescente por produtos de origem animal é muito alta - isso, no conjunto da humanidade. Consumindo tais produtos, sobrecarregamos a agricultura porque, como já disse, animais comem como nós. Só que a taxa de transformação na indústria ainda deixa muito a desejar: a grosso modo, precisamos de 4 quilos de cereais para ter 1 quilo de frango. Ou 12 quilos de cereais para ter 1 quilo de carne bovina. A necessidade de fomentar culturas vegetais tornou-se prioridade. Enfim, devemos desenvolver agriculturas pelo mundo todo, e não apostar apenas nas mais produtivas, como a do Brasil ou da Austrália.”

Jornal Estado de S. Paulo
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Uma ética dos robôs

Forte expansão da robótica já provoca debate no Reino Unido, Japão e na Coréia do Sul sobre o estatuto humanos das máquinas

FRANÇOISE LAZARE
PHILIPPE MESMER

O mais novo dos robôs humanóides japoneses tem capacidades impressionantes. Desenvolvido por meio de uma parceria entre a Kawada e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Avançada (AIST) do Japão, o “HRP-3 Promet” tem tudo que o trabalhador do futuro precisa. A máquina branca e preta, de 1,60 metro e 80 quilos, consegue se movimentar nos terrenos mais acidentados, e em qualquer clima.
O robô é capaz de caminhar durante duas horas, manipular com precisão uma chave de fenda, ajudar um homem a carregar uma tábua, conduzir veículos de trabalho. Seus criadores esperam começar a comercializá-lo em 2010.
Em menos de uma década, de acordo com os pesquisadores, os robôs farão parte da vida cotidiana dos japoneses. Bill Gates, cuja Microsoft acaba de desenvolver um sistema operacional padronizado para esse tipo de máquina, acredita que a indústria da robótica, como a dos computadores pessoais 30 anos atrás, está às portas de uma forte expansão.
As novas máquinas evoluirão no contato com os seres humanos e poderão substituí-los na execução de certas tarefas; mas será que terão direitos?
A questão já está em debate no Reino Unido, em um relatório encaminhado ao governo em dezembro de 2006. O projeto Horizon Scan teve por tema cerca de 250 assuntos que estão em desenvolvimento, entre os quais as conseqüências da evolução da robótica.

Podem votar?
Sob o título “sonhos utópicos ou máquinas melhores”, os especialistas discutem aquilo que será preciso prover aos robôs à medida que sua inteligência artificial se desenvolva. Será que terão direito de voto? Serão forçados a pagar impostos, a prestar serviço militar?
De acordo com o estudo, caso os robôs participem da força de trabalho e, portanto, do crescimento da economia, será necessário fornecer a eles, por exemplo, uma cobertura de seguro social que garanta o bom funcionamento de seus equipamentos. Como aponta o texto, um computador, que legalmente não é considerado uma pessoa, não poderia ser responsabilizado judicialmente por qualquer delito.
Seu fabricante, no entanto, poderia proteger seus direitos de propriedade intelectual.
No Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), uma das organizações líderes na pesquisa em robótica nos EUA, Aaron Edsinger está envolvido há três anos no desenvolvimento do robô Domo.
Trata-se de uma fusão entre o Kismet, robô criado para o estudo dos contatos entre máquinas e humanos e da aprendizagem que eles propiciam, e do Cog, muito eficiente na manipulação de objetos.
“A questão dos direitos dos robôs será importante no futuro não apenas para os estudiosos da robótica mas para a sociedade em geral”, diz ele.
“Não estou certo de que ela venha a ser tão diferente da questão dos direitos animais. A probabilidade é que venhamos a nos comportar assim também em relação às diferentes categorias de robôs. Uma lavadora de louças deve continuar a ser uma lavadora de louças. Já os robôs mais infantilizados talvez venham a ocupar o lugar de um cão ou gato. E creio que dentro de 50 anos parecerá natural que concedamos direitos semelhantes aos dos animais a essas duas categorias de companheiros”, diz.

Isaac Asimov
No Japão, a questão vai se apresentar mais cedo, dada a posição importante que a robótica já ocupa na vida cotidiana do país. O envelhecimento da população apresenta problemas de mão-de-obra para as empresas, e também no que tange a encontrar assistência para os idosos. Por isso, laboratórios e parcerias, sob forte pressão do governo, estão investindo pesadamente nesse ramo de atividade.
Os robôs humanóides vêm sendo desenvolvidos pouco a pouco pelos laboratórios, como por exemplo o Wakamaru, que já está à venda para trabalhar como recepcionista em empresas. Já a Alsok, uma fabricante de produtos de segurança, está oferecendo aos clientes os robôs de vigilância C4 e C5, para operar em centros comerciais.
Com uma abordagem bastante pragmática, o Ministério da Economia japonês está trabalhando na redação de normas de segurança para o uso de robôs. A comissão criada para essa finalidade em dezembro de 2006 não deve se pronunciar em favor do estabelecimento de uma distinção entre robôs e outras máquinas.
O fabricante será sempre considerado responsável pelos problemas criados por seu produto, a não ser que as instruções de uso tenham sido desrespeitadas. As normas do governo exigirão que os fabricantes garantam fiscalização séria dos robôs que prestarão serviços pessoais.
Na Coréia do Sul, país igualmente avançado em termos de robótica e grande rival do Japão nessa área, uma “carta ética dos robôs” deve ser redigida neste ano. O texto se inspira nos princípios propostos pelo escritor de ficção científica Isaac Asimov.
Os robôs não deverão fazer mal aos seres humanos ou permitir que estes os façam sofrer. Deverão obedecer aos seres humanos, a menos que isso contradiga a primeira lei. E deverão garantir sua própria proteção, caso isso não contradiga as duas primeiras leis.

Tradução de Paulo Migliacci.

Jornal Le Monde
http://diplo.uol.com.br/

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A acumulação de picos insustentáveis

Estamos numa situação difícil

Mathew Maavak

Isto é um planeta em negação. Enquanto a questão da própria existência pisca um ponto vermelho de “apocalipse já” a exigir uma resposta, os nossos mercados de acções parecem ter recuperado o paraíso perdido.

Estamos a testemunhar nada menos do que a primeira confluência da história de “picos” insustentáveis.

Talvez sejamos incapazes de juntar todas as partes, pois quando em 20 de Setembro o petróleo atingiu a mais alta cotação de todos os tempos — US$84,10 — o direito de isto ser uma manchete na primeira página foi concedido a uma reportagem acerca de uns poucos milhares de lares [hipotecados] americanos, vazios ou esvaziados.

Era como o Efeito Borboleta, mas com uma diferença. O bater de asas das habitações confiscadas estava agora a estimular um tsunami económico à escala mundial.

Aqui está como isto funciona.

Prestamistas hipotecários americanos, sempre vorazes por “mais”, concederam empréstimos ao grupo com fracos rendimentos, os quais, por sua vez, foram atingidos pela má administração económica. Emissores de cartões de crédito fizeram o mesmo para inchar as fantasias dos consumidores, e os bancos endureceram o laço com empréstimos adicionais para carros, ensino e negócios.

No mundo das finanças, ironicamente a dívida é encarada como um “activo”. Pense nas casas com fundações sólidas que podem ser retomadas no caso de um incumprimento.

Os débitos, com a promessa explícita de um firme fluxo de caixa, são regularmente reunidos, “titularizados” e convertidos num confuso conjunto de produtos financeiros juntamente com uma cadeia montante, onde são apregoados para o mercado global por administradores de fundos.

Este dinheiro compra outras mercadorias, acções e, sim, mais “títulos e derivativos”, tanto de títulos lixo como de blue chips.

Era fácil ir e fácil vir, a todo lugar em que o dinheiro o levasse… um casino electrónico 24 horas por dia e 7 dias por semana… uma Las Vegas sem fronteiras.

Banqueiros em Londres estavam a brindar a aurora “dos riscos e dos proprietários de iates” em festas e cocktails onde o salve-se quem puder era a grande bebida.

Um dos maiores esquema fraudulentos de memória recente estava a desdobrar-se, a expor um esquema de pirâmide de proporções gigantescas.

Quando este atingiu o ponto da metástase, os mercados de acções começaram a entrar em colapso.

Os que o alimentavam na base já não podiam pagar mais. Mesmo a classe média estava a achar difícil transferir a responsabilidade para outros.

Isto se chama uma crise de liquidez, e ela acontece quando as leis da gravidade finalmente dão um puxão no fluxo de caixa.

Ainda assim, o champanhe jorrava. Anúncios maravilhosos continuavam a brotar acerca de “títulos”, “derivativos”, e “acompanhamento financeiro abrangente”, instalados num Jacuzzi a cantar alegremente a versão de Ponzi do “dinheiro em troca de nada e garotas gratuitas”.

As pirâmides podem vir a ruir, mas as pedras mais elevadas são livre para perambular, investir em ouro aqui, produtos financeiros ali e títulos lixo por toda a parte.

Para impedir uma corrida de pânico, bancos centrais por todo o mundo bombearam US$400 mil milhões a fim de manter o equilíbrio de liquidez.

Os mercados de acções já não estavam ursinos ou taurinos [NT1] , ao invés disso estavam cancerosos, permitindo que administradores de fundos saltassem de um mercado para outro à procura de lucros, de idiotas, e de uma retirada subtil antes do big bang.

Era o amanhecer do caranguejo, do cancro na terminologia do mercado de acções, como se alguma fosse necessária. As suspeitas cresciam. Bancos europeus estavam a enfrentar a insolvência.

Durante três dias, a começar em 14 de Setembro, poupadores por todo o Reino Unidos retiraram £2 mil milhões (US$4 mil milhões) do Northern Rock, o quinto maior prestamista da Grã-Bretanha. O Banco da Inglaterra teve de intrometer-se a fim de garantir todos os depósitos em todos os bancos — um movimento com pouco ou nenhum precedente.

Contudo, os próprios bancos não estavam convencidos uns em relação aos outros. Os empréstimos inter-bancários, o quais lucrativamente faziam circular dinheiro de um banco para outro conforme ditasse a procura, eram agora considerados como armadilha da dívida inter-bancária. O cash disponível era entesourado.

O leilão de £10 mil milhões de cash do Banco da Inglaterra – a uma taxa de 6,75% por três meses – tem sido evitado pela terceira semana consecutiva.

Ou os que “têm iates” navegaram para longe, ou os bancos podem realmente achar difícil repagar o Banco da Inglaterra.

À escala mundial, o peso total dos “activos apoiados” por collateralized debt obligations (CDOs) e structured investment vehicles (SIVs) pode ser superior aos US$400 mil milhões que os bancos centrais expectoraram a fim de manter o sistema a flutuar.

CDOs e SIVs são expressões suaves para designar picos da ordem do milhão de milhões (trillion) de dólares efectuados a partir de simples proprietários de casas.

Os bancos ainda estão a calcular o que é real e resgatável, e o que foi criado e movimentado a partir do ar. A sua melhor aposta agora é por um deus ex machina.

Touro na loja da China

O maior caso de êxito económico dos nossos tempos foi o produto do consumismo ocidental. Ele criou uma oferta real e situação de procura, o que forçou a relocalização de fábricas para a obtenção do trabalho barato do Terceiro Mundo.

A China foi a campeã entre os receptores. A procura por brinquedos, parafusos, maquinaria, computadores e telemóveis nunca poderia declinar, fosse ela pesada ou não. Os decisores políticos em Pequim decidiram que o fluxo perene de notas verdes exigia uma revolução infraestrutural interna ditada pelo mercado de exportação – a primeira na história, se já houve alguma.

Fábricas, centrais termo-eléctricas, arranha-céus foram brotando em alta velocidade a fim de atender a loucura exportadora. A poluição excessiva e os apertos dos trabalhadores “não registados” migrados da China rural importavam pouco.

O que importava era prestígio, subornos e US$1,2 milhão de milhões (trillion) em reservas com base em divisas duras. Não importava que o consumo interno da China em relação ao seu PIB estivesse realmente a diminuir, era mais uma questão de anestesiar os consumidores, cujo patrão estava no centro do universo.

Não importava que as cidades chinesas estivessem amortalhadas em cinzas tóxicas, onde “apenas 1 por cento dos 560 milhões de habitantes em cidades do país respirasse ar considerado seguro pela União Europeia” [1] .

Os chineses podiam tossir mas “os dias em que mundo apanhava uma pneumonia sempre que o Tio Sam espirrava estavam ultrapassados”. Ou assim parecia.

O Tio Sam espirrou

As finanças globais começaram a ter hemorragias, e tinham de ser ressuscitadas através de um fluxo intravenoso de dinheiro do contribuinte.

Os consumidores ocidentais finalmente perceberam que os cintos tinham de ser apertados, e que caminho melhor senão reduzir os gastos e permitir que uma correcção do mercado se verificasse no sector importador.

Toda uma cadeia de oferta conduzindo a fábricas da China está em perigo de se encolher. Recursos minerais da África, fábricas de semicondutores na Malásia, matéria-prima têxtil por toda a parte enfrentam agora aguda incerteza de mercado.

A China está numa situação difícil. Contudo, isto não está a dissuadir fábricas de serem completadas no próximo ano para atender a projectada “procura global”. Se os consumidores ocidentais estão a reduzir as suas compras, os africanos não estão em posição de serem os compradores substitutos, e sem um mercado eles não poderão vender mais os seus produtos primários.

Em tais circunstâncias, o ambiente pode mudar. Quando “Pequim desenrolou o tapete vermelho para mais de 40 chefes de Estado africanos em Novembro último, cartazes a mostrar africanos vestidos com peles de leopardo, e um indígena de Papua-Nova Guiné, cobriram a cidade”. [2]

Não é de admirar que a lista de “aliados” da China esteja a ficar mais curta a cada dia que passa.

Os acontecimentos na Birmânia (Myanmar) não ajudam. A China desfruta de uma quase monopólio sobre os estimados 2,46 milhões de milhões de metros cúbicos de gás e os 3,2 mil milhões de barris de petróleo bruto de Myanmar. Pequim tem planos para desenvolver dois pipelines paralelos de petróleo e gás com 2.380 km a ligar o porto de águas profundas de Sittwe a Kunming, na província chinesa de Yunnan. Uma vez prontos, uma boa parte do petróleo e gás do Médio Oriente poderá contornar os Estreitos de Málaca.

A compensação era oferta de armas e apoio na ONU à junta militar de Myanmar. Qualquer novo governo pode negar todos os acordos existentes, e empurrar Yangon para a órbita americana. Isto é uma revolução num momento muito conveniente, na perspectiva de Washington.

A Coreia do Norte está a procurar aproximação. Agora há bastante espaço operacional obstruir Teerão, Damasco e o Hezbollah.

A China pode naturalmente desempenhar o papel de sabotador (spoiler) fornecendo armas a estes regimes através de um intermediário. Ainda assim é uma ideia má quando os israelenses estão ansiosos pela guerra.

A Força Aérea de Israel recentemente destruiu uma instalação síria que aparentemente era uma instalação nuclear em embrião, mas poderia ser um sistema de radar passivo tipo Kolchuga, ideal para derrubar bombardeiros B2. Por coincidência, os russos comprometeram-se a melhorar as defesas de radar sírias após o ataque.

Se uma conflagração mais vasta estalar no Médio Oriente, não haverá mais petróleo a escoar-se do Estreito de Ormuz até a China, nem através de Sitte, nem através dos Estreitos de Málaca.

A melhor opção para Pequim será atar a sua rede de petróleo e gás à Rússia do Extremo Oriente a uma altíssima velocidade, e limpar um pouco da poluição do ar a tempo para as Olimpíadas de 2008.

Se uma guerra geral no Médio Oriente é o nosso pior pesadelo, pense nos seguintes desdobramentos da crise…

As crises de pico e o seu plural

Pico petrolífero: Os combustíveis fósseis, comprimidos e formados ao longo de eternidades em camadas geológicas subterrâneas, estão agora libertando os intrigantes assobios de um reservatório de gás furado – baixo pois o petróleo está em primeiro lugar. Com o petróleo bruto a pairar acima dos US$80 por barril, os vários subsídios construídos no interior das economias nacionais são obrigados a arrebentar pelas costuras, e a precipitar aumentos de preços para as necessidades básicas.

Entretanto, há uma solução única – a queda da procura dos consumidores à escala mundial. Isto reduziria a procura industrial por combustíveis fósseis. Não é de admirar que as grandes companhias de petróleo (majors) estivessem relutantes em construir novas refinarias quando os lucros pareciam garantidos na era do “pico petrolífero”. Este dia certamente chegou!

O pico petrolífero também está ligado à actual crise do dólar. Com o dólar americano a mergulhar contra outras divisas importantes, o petróleo bruto deveria ficar mais barato para Washington.

Petróleo e outras commodities são comerciados em dólares, e activos denominados em dólares ultrapassam activos em outras divisas. Pequim pode despejar suas centenas de milhares de milhões em dólares em troca de euros, só para comercia-los outra vez em dólares para comprar petróleo bruto, ouro e outros activos.

A chantagem do dólar não funcionará, especialmente com o US Army entrincheirado no Médio Oriente rico em petróleo.

Contudo, os teóricos do juízo final estão a prever uma outra Grande Depressão, em que o valor do dólar pode pouco significar no caso de um colapso financeiro global.

Se isto ocorrer, uma depressão global terá de tratar dos seguintes fenómenos que não existiam na década de 1930.

Pico da urbanização: Mais da metade da população mundial viverá em áreas urbanas dentro de apenas uns poucos meses, segundo um relatório do United Nations Population Fund. Isto traduz-se por 3,3 mil milhões de pessoas num campo de concentração urbano de favelas e “pombais” de grande altura.

As crianças estão a crescer num ambiente estranhamente compartimentado, afastadas do solo que deu origem à sua identidade. Elas não acordam ao som de um galo a cacarejar, o que é o caminho da natureza de disseminar a contrição e uma mudança de atitude para além do pensamento convencional.

Elas acordam, ao invés, com um clangor brutal. Pode ser tanto o relógio despertador como o ladrar do cão, instalado como “animal de estimação” a fim de rosnar diante de algum intruso durante a madrugada. A selva urbana é um zigurate industrializado, o qual estabelece uma hierarquia desde a infância. Aqueles na base serão os que suportarão mais peso, ou maior carga de dívida.

A estreita proximidade humana também leva à pequena competitividade e ao conflito. Eis porque a “civilização” é mantida a ponta de armas, pela polícia, pelo exército e pelos “tratados”.

A vida urbana é delicada e vulnerável a toda espécie de azares, desde pragas a rupturas nos serviços públicos, comunicações e transportes. E a levantamentos políticos. Um desastre resultará num engarrafamento do tráfego, longe das fugas permitidas pelo mundo rural.

O que acontece se estala uma guerra pela energia? Ou se uma depressão global nos atingir? Podem três mil milhões de pessoas plantar verduras nas suas varandas?

Quando se trata de verduras, a perspectiva não é de modo algum verdejante…

Pico dos cereais: Os stocks globais de cereais estão nos mais baixos níveis de três décadas, após dois anos de padrões atmosféricos inabituais. Ondas de calor diminuíram a ensilagem do mundo enquanto inundações e outros flagelos ambientais devastaram algumas das regiões mais pobres “auto-sustentadas”.

Os stocks globais de trigo em Junho de 2008 cairão ao nível mais baixo de 34 anos, segundo o International Grains Council. Os stocks americanos cairão ao nível mais baixo desde 1951-52. Os futuros de trigo em Chicago atingiram US$9,3925 por bushel [1 bushel = 35,2 litros] em fins de Setembro, quando um grande fornecedor ucraniano cortou as suas exportações.

O preço de um bushel mais do que duplicou no ano passado. Isto inclui também arroz, cevada, soja, sorgo, aveia e lentilhas, e todos eles sucumbiram sob preços record. As vinhas da ira seguiram-se, com ovos, queijo, leite, carne e menu a la carte.

Pode chegar um ponto em que a cadeia de comida industrial terá pouca escolha além de passar o aumento de custos aos consumidores de um modo dramático.

Pequenos aumentos rastejantes nos preço do leite e da manteiga estão a preocupar os europeus. O leite é agora alcunhado de “o novo ouro branco”.

Não se pode culpar apenas o mau tempo. A procura ascendente da China está a pressionar os preços para a alta, apesar do facto de que apenas a metade da sua população urbana tem seguro de saúde básico. Tragicamente, a comida processada reexportada através da cadeia alimentar de Pequim está a provocar um pesadelo de saúde global.

Mas porque criticar duramente a China? A actual loucura do biodiesel está a induzir agricultores a plantar para a lucrativa indústria da bioenergia, segundo o Oil World com sede em Hamburgo.

“É tempo de perceber que a comunidade mundial está a aproximar-se de uma crise alimentar em 2008 a menos que a utilização de produtos agrícolas para biocombustíveis seja reduzida ou condições de tempo ideais e rendimentos de colheitas muito mais elevados sejam alcançados em 2008″, acrescentava.

As más notícias pioram

Pico da água: Não há suficiente água potável para sustentar o ecosistema do planeta e a sua população humana. Os rios que fornecem água de beber estão carregados de resíduos tóxicos industriais. O crescimento da população já está a comprometer as capacidades das estações de tratamento de água por todo o mundo enquanto as unidades de dessalinização permanecem uma prerrogativa dos países ricos.

Segundo o Pacific Institute, “Mais de mil milhões de pessoas não têm acesso a água potável limpa, a mais de dois mil milhões falta acesso a saneamento adequado, e milhões a cada ano morrem devido a doenças evitáveis relacionadas com a água. Os recursos aquíferos por todo o globo estão ameaçados por alteração climática, mau uso e poluição”. Ele estima que “mais de 34 milhões de pessoas podem perecer nos próximos 20 anos devido a doenças relacionadas com a água – mesmo que sejam cumpridos os “Objectivos de Desenvolvimento para o Milénio” das Nações Unidas, os quais pretendem cortar a proporção dos que não têm acesso à metade” [3] .

Muita água será desviada para a indústria e a agricultura, ou para os lances para altos em privatizações do abastecimento de água pagas em divisas. Em algumas regiões, a situação é tão aguda que o desvio de água em um país pode precipitar o conflito com um vizinho. Em 1974 o Iraque confirmadamente mobilizou o seu exército para alvejar a barragem al-Thawra da Síria, sobre o Eufrates. Israel tem os seus olhos fixados sobre o Rio Litani do Líbano.

Segundo o antigo secretário-geral da ONU Boutros Boutros-Ghali, “A próxima guerra no Oriente Próximo não será acerca de política, mas sobre a água”.

Se esta sepultura aquática não for suficiente, pense na seguinte…

Pico nas pescas: Há alguns negócios suspeitos (fishy) [NT2] sobre os nossos oceanos. Tal como o petróleo e a água, estamos a pescar por arrastão a cada vez maior profundidade os nossos abastecimentos de peixe. Tais aventuras piscatórias levaram a um declínio global nos stocks de peixe. “Ecologistas preocupam-se por áreas de pesca inteira poderem entrar em colapso quando”. A aquacultura, que substitui capturas marítimas em certa medida, tem os seus próprios problemas ambientais. [4]

O Times de Londres também pinta um cenário sombrio. Segundo alguns peritos, 90% do peixe nas águas em torno da Grã-Bretanha “desaparecerá dentro de 20 anos” na ausência de uma intervenção imediata.

Com 75% dos stocks de peixe já plenamente explorados, os números declinantes em todas as espécies do mundo apontam para um colapso em 2048, para além do qual o repovoamento (replenishment) já não é possível.

O pico do peixe “chega num momento em que o seu valor nutricional é mais reconhecido do que nunca”.

“A Organização Mundial de Saúde recomenda uma ingestão semanal de 200 a 300 gramas de peixe por semana mas as capturas de hoje mal podem cumprir este objectivo. Desde 1950 uns 60 por cento dos stocks nas águas britânicas entraram em colapso…”

O Times recorda o paradoxo de que “medidas propostas para limitar a pesca a um nível sustentável somente terão êxito para o fluxo nutricional durante as próximas décadas”. [5]

Fecha-se o círculo

Aquilo que começou como o desastre dos sub-primes no sector habitacional americano pode reflectir-se em algo que ainda não podemos imaginar. Haverá uma severa recessão global, ou pior? Se estas guerras ainda forem contidas, ainda emergirão oportunidades de outras guerras sobre trigo, água, peixe, remédios e petróleo. O que será o futuro nesta ecologia de crises?

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[1] As China Roars, Pollution Reaches Deadly Extremes, NYT, Aug 26, 2007

[2] Beijing police round up and beat African expats Guardian, September 26, 2007

[3] Global Water Crisis Pacific Institute.

[4] Water shortages will leave world in dire straits USA Today, 26th Jan 2003

[5] Fish will vanish from British waters in 20 years, says author Times Online, Sept 15, 2007

[NT1] Ursinos: mercados que tendem para a baixa de preços; taurinos: que tendem para a alta.

[NT2] Fishy tem um duplo sentido que é intraduzível: pode ser “suspeito” ou referir-se a “peixe”.

Resistir.Info
http://resistir.info/peak_oil/bad_fix_p.html

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Bancada ruralista cresce 58% e barra combate à escravidão

Grupo impediu que emenda que expropriava fazendas fosse votada em 2º turno. O ex-secretário de Direitos Humanos Nilmário diz que setores do governo, como o Ministério da Agricultura, não ajudaram na aprovação.

RUBENS VALENTE
DA REPORTAGEM LOCAL

A bancada ruralista cresceu 58% na atual legislatura da Câmara dos Deputados, e 59% de seus integrantes estão nos partidos da base aliada ao governo Lula, segundo levantamento feito neste mês pela ONG Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos). São 116 deputados (22,6% do total) contra 73 na legislatura 2003-2007. Os 68 ruralistas que apóiam Lula somam 18% da base governista.
Entidades não-governamentais, setores do governo e parlamentares da situação atribuem à bancada ruralista parte da responsabilidade pelo andamento arrastado de 11 projetos que têm algum tipo de punição a fazendeiros acusados de fomentar o trabalho escravo.
O principal deles é a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 438/2001, que prevê a expropriação de propriedades rurais com incidência de trabalho escravo. Ela chegou a ser aprovada no Senado, em dois turnos, e foi votada em primeiro turno na Câmara, em 2004, mas não entrou mais na pauta para a segunda votação. Uma das líderes da bancada no Congresso, a senadora Kátia Abreu (DEM-TO), disse que o grupo decidiu não votar a emenda enquanto não seja redefinido o conceito de trabalho escravo.
O presidente da Câmara na época da primeira votação, Aldo Rebelo (PC do B-SP), 51, descreveu o papel dos ruralistas na discussão: “A bancada ruralista atuava sempre pelos líderes partidários, apresentava os pontos de vista e participava dos debates no plenário”.
Indagado se a bancada pediu que a PEC não fosse votada, Aldo disse: “Não era diretamente para que não fosse a segundo turno, mas um esforço grande para que ela não fosse aprovada. E daí outro esforço para que houvesse uma redação que permitisse a votação e, portanto, a aprovação”. Aldo disse que o governo “se empenhou na aprovação da PEC”, mas “não transformou isso numa guerra, porque o governo trabalha em várias frentes, em atividades para as quais [escolhe] distribuir esforço e energia”.
O ex-secretário dos Direitos Humanos do governo Lula (2003-2005), Nilmário Miranda (PT-MG), 60, disse que os ruralistas articularam um movimento contrário à PEC por meio dos líderes partidários: “A senadora Kátia Abreu era deputada na época, ela foi uma das próceres para impedir aquilo de qualquer maneira”. Segundo ele, “há uma grande mobilização dentro da Câmara para impedir qualquer chance de aprovação da PEC”.
O ex-secretário alegou que o governo “não abandonou a idéia” de aprovar a PEC, mas reconheceu que “sempre houve dificuldades, dentro da própria base do governo há contradições”. Além disso, “não é segredo que há áreas do governo que não concordam [com a PEC]. O próprio Ministério da Agricultura na época não tinha nenhum entusiasmo por isso. Não trabalhava contra, mas não ajudava. Acho que ele não fez exatamente porque uma reação expressiva de um setor”.

Resistência
Segundo Nilmário Miranda, o ex-ministro Roberto Rodrigues “não usou todo o potencial” para ajudar na aprovação da matéria. “Acho que ele não fez exatamente porque houve uma reação expressiva de um setor que votava com o governo na maioria dos casos”, afirmou.
Segundo Nilmário, Aldo Rebelo “tinha um compromisso” de colocar a matéria para votar, mas isso ocorreu apenas em primeiro turno. “Entre o primeiro e o segundo turnos, aconteceu alguma coisa, eu não sei o que foi”. Indagado, Aldo afirmou: “Havia receio de não obter os votos para aprovação e a matéria ir para arquivo, e os líderes tentaram encontrar uma redação que permitisse uma apreciação da matéria. E isso não foi alcançado”.
Um deputado ruralista assim definiu a bancada, sob condição de não ter seu nome divulgado: “Eles estão presentes em quase todas as bancadas. Tinham uma referência importante no Ministério da Agricultura [ex-ministro Roberto Rodrigues], não tinham uma relação boa com o governo, [tinham] uma desconfiança grande do Lula. Eles têm uma pauta de reivindicação muito ampla, que vai da questão dos juros e do crédito dos recursos para safra, passa pelo preço dos insumos (…) e vai até as questões mais sensíveis e polêmicas, como reforma agrária e trabalho escravo”.
Uma tese de doutorado defendida na USP (Universidade de São Paulo) neste mês pelo cientista político Leonardo Sakamotto vê uma relação entre a morosidade na apreciação dos projetos anti-escravagistas e as doações de campanha eleitoral.
Segundo ele, empresas agropecuárias acusadas de trabalho escravo, seus donos e parentes fizeram doações nas eleições de 2002 e 2004 que ajudaram a eleger dois governadores, cinco deputados federais, três deputados estaduais, três prefeitos e um vereador. Ele apontou ainda três deputados federais, um estadual e três prefeitos entre proprietários ou parentes de donos de fazendas autuadas por suposto trabalho escravo.

Jornal Folha de S. Paulo
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A paz, o poder e a bomba

A história da conferência que armou o cenário para a Guerra Fria

Igor Fuser

A paisagem devastada de Berlim após a derrota nazista foi o cenário da Conferência de Potsdam, histórico encontro que reuniu os chefes das três potências vitoriosas da Segunda Guerra Mundial – o presidente americano Harry Truman, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill e o líder soviético Josef Stálin. Paz em Berlim, de Charles L. Mee, Jr., relata as duas semanas em que os três se dedicaram a uma sucessão de blefes e bravatas para, ao final, se limitarem a ratificar a divisão da Europa em dois campos de influência, o americano e o soviético. Sacramentaram, assim, as linhas de demarcação da Guerra Fria.

O lance mais importante em Postdam, no entanto, não ocorreu na mesa de negociações, e sim em um dos muitos momentos de descontração entre os três dirigentes. Às 19h30 do dia 24 de julho, ao final de uma sessão plenária sem novidades, Truman se dirigiu a Stálin, como quem não quer nada, travando com ele um rápido diálogo. O assunto: a bomba atômica que os Estados Unidos haviam explodido oito dias antes, em segredo, em um deserto do Novo México.

A conversa nada tinha de casual – vinha sendo cuidadosamente preparada por Truman. O presidente discutira com Churchill um meio de informar o ditador soviético sobre a existência da bomba de tal modo que Stálin não percebesse as implicações da nova arma para o panorama estratégico e, ao mesmo tempo, não pudesse mais tarde acusar os americanos de terem sido desleais com seus aliados. Nem Truman nem Churchill sabiam, na ocasião, que Stálin já tinha conhecimento do Projeto Manhattan, por intermédio de seu espião Klaus Fuchs, presente à explosão inaugural em Alamogordo.

Na avaliação de Charles Mee, o breve diálogo em Potsdam assinala o momento exato em que começou a corrida armamentista nuclear. A liderança norte-americana tinha plena consciência de que, àquela altura da guerra no Pacífico, a derrota japonesa já estava consumada. O autor do livro endossa a tese de que a intenção de Truman de jogar a bomba foi, mesmo, intimidar os soviéticos. Em nome desse objetivo, o presidente ignorou as ponderações do seu secretário da Guerra, Henry Stimson, que tentou inutilmente convencê-lo a facilitar a rendição japonesa. A insistência de Truman em exigir do Japão a rendição incondicional em termos humilhantes, visava prolongar os combates até que houvesse condições técnicas de lançar a bomba.

Paz em Berlim é um retrato da frieza e cinismo que constituem a essência da Realpolitik. Lendo o livro é impossível não compartilhar o desconforto que o médico pessoal de Churchill, lorde Charles Moran, manifestou após ser informado sobre a existência da bomba atômica. “Certa vez” escreveu no seu diário, ao sair de uma conversa com o primeiro-ministro em Potsdam, “dormi numa casa em que houvera um assassinato. Sinto-me assim, aqui”.

História Viva
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Os frutos do “livre” comércio

Graças às regras da OMC, o Equador atende 25% do mercado mundial da fruta. Transnacionais e oligarcas controlam a produção, humilham trabalhadores e envenenam a natureza.

Phillippe Revelli

Entre Santo Domingo e Machala, sobre as terras férteis situadas ao pé dos Andes equatorianos, os bananais se estendem ao longo dos dois lados da estrada. À entrada de cada plantação, há um cartaz com o nome da hacienda – “Maria Elisa”, “La Julia”, “Norma Gisela” – e uma guarita, onde se encontra um guarda armado. De quando em quando, um aviãozinho rasante solta uma nuvem branca de pesticidas…

O Equador vem exportando, nos últimos cinco anos, uma média anual de 4,3 milhões de toneladas de bananas, o que faz do país um dos primeiros exportadores da fruta, responsável por 25% do mercado mundial. A bananicultura equatoriana ocupa 180 mil hectares e gera 250 mil empregos (os quais, levando-se em conta os empregos indiretos, representam 14% da população ativa). A situação equatoriana difere da que predomina em outros países produtores de bananas-dólar [1]: nestes outros, as três grandes multinacionais líeres do setor, a Dole, a Chiquita Brands e a Del Monte, possuem suas próprias culturas, enquanto no Equador a produção bananeira é provida por cerca de 6 mil produtores nacionais.

A Dole, líder mundial da agroindústria, contratou grande número destes produtores, e assegura cerca de um quarto das exportações de bananas do país [2]. Bem menos todavia que a companhia Bananera Noboa, que, sob a marca Bonita, é responsável por quase metade das exportações equatorianas de bananas. A companhia, cujo proprietário éAlvaro Noboa - uma das maiores fortunas da América Latina e candidato à presidêcia do Equador -, é o terror dos pequenos e médios produtores: “São bandidos!”, afirma Gustavo Pesantez, presidente da Associação dos Produtores de Bananas de Los Rios (Aproban). “Para nos forçar a vender-lhes nossa produção, moveram processos contra 900 produtores, ameaçando tomar suas terras”.

Precariedade e exploração

Com a palavra, Enrique Feijoo, proprietário de uma plantação de trinta hectares, também sofrendo um processo por parte da Bananera Noboa: “O contrato assinado com Noboa estipulava que eu vendesse a caixa de bananas pelo preço oficial, 3,20 dólares. Na prática, o pagamento era efetuado em espécie, numa agência do Banco del Litoral [de propriedade do grupo Noboa]. Exigia-se então, sem qualquer justificativa, que eu revertesse U$ 0,8 por caixa vendida ao banco, podendo Noboa romper o contrato a qualquer momento. Todavia, quem não quer mais o contrato de venda sou eu… E é por isso que Noboa está me processando!” Além de ter sido condenada inúmeras vezes por evasão fiscal e por infrações à legislação comercial, a Bananera Noboa se destaca dos demais exportadores pela brutalidade com que procede. É verdade que a grande maioria destes se opõe à regulação do setor, assim como impõem preços ridiculamente baixos aos produtores, deixando-lhes a tarefa de gerir os conflitos sociais decorrentes dos salários miseráveis, e das péssimas condições de trabalho vigentes nas plantações.

É quase meio-dia, hora de almoço dos colhedores de banana, na Hacienda Ipanema, em Los Rios. Faz um calor causticante. “As jornadas de trabalho se prolongam até que o carregamento tenha partido, explica um dos trabalhadores, ou seja, para além das doze horas. Os salários variam de 30 a 70 dólares por semana segundo o cargo ocupado [3]. Roupas e ferramentas de trabalho não são fornecidos pela empresa. Além disso, os trabalhadores têm de arcar com as despesas de transporte. É nesta situação que se encontra a maior parte das plantações. Horas extras raramente são pagas. Ademais, segundo a Federação Nacional dos Trabalhadores Agroindustriais, Camponeses e Indígenas Livres do Equador (Fenacle), única organização sindical presente no setor, 90% das empresas não inscrevem seus trabalhadores na Previdêcia Social. As contribuições à Previdêcia são descontadas dos salários para nunca serem revertidas aos trabalhadores.

Sanções arbitrárias, multas e demissões injustificadas são freqüentes. O recurso à terceirização agrava ainda mais a situação dos trabalhadores. “A cada mês, um agricultor pode ser provisoriamente contratado por uma prestadora de serviço diferente, ainda que seja mantido numa única hacienda. Esta medida visa impedir a aquisição de direitos por tempo de serviço”, explica um operário que passou por diversos empregadores.

Trabalho infantil

A exposição dos agricultores aos produtos químicos massivamente empregados é também objeto de denúncia recorrente: “Substâncias tóxicas são utilizadas sem proteção adequada. Além disso, durante toda a minha carreira, conheci apenas uma empresa que retira os trabalhadores da plantação durante as fumigações aéreas”, relata Alfredo Rosalbal, da El Zapote, companhia bananeira de pequeno porte.

Em 2002, reagindo a um relatório da ONG humanitária Human Rights Watch (HRW) [4], o congresso norte-americano pretendia, a partir da erradicação do trabalho infantil nas plantações de bananeiras, abrir negociações sobre o Tratado de Livre Comércio (TLC) —cuja assinatura, sem outra forma de processo, provoca fortes mobilizações populares. Todavia, enquanto a HRW estima que pouco mudou, Eduardo Ledesma, diretor da Associação dos Exportadores de Bananas do Equador (AEBE) protesta: afinal, não é a própria lei equatoriana que permite o trabalho de menores de idade a partir dos 15 anos?

A AEBE reuniu no Hotel Sheraton de Guayaquil, em 22 e 23 de janeiro deste ano, a nata dos exportadores e produtores de bananas, para debater os “novos desafios do mercado bananeiro”. Entre duas mesas redondas dedicadas à análise dos mercados e à produtividade do setor, uma manhã foi dedicada às “conquistas sociais da agroindústria bananeira”. Os resultados são celebrados pelos representantes dos principais produtores: “Três postos de saúde e uma unidade médica móvel atendem gratuitamente os empregados da companhia”, anuncia a assessora de imprensa da Dole. “Criamos dez escolas, e nossa fundação mantém outras vinte, apesar da oposição do sindicato dos professores, que denunciava uma privatização da educação”, vangloria-se o porta-voz da Reybanpac. Alexandra Moncada, por sua vez, representante do Projet Soy [5], louva com entusiasmo os avanços em prol da erradicação do trabalho infantil.

Degradação ambiental

Destoando dos demais, Joaquin Orrantia, representante dos produtores locais, reconhece com uma franqueza brutal o impacto negativo da monocultura bananeira sobre o meio-ambiente, que acelera a erosão e degradação dos solos, assim como a poluição gerada pelos produtos químicos utilizados. Todavia, defende os produtores, responsabilizando os exportadores pelos preços que impõem, insuficientes para a implementação das medidas ambientais necessárias. Mesmo assim, a mesa redonda é concluída num tom otimista, com Eduardo Ledesma apresentando os projetos sociais da AEBE. E anuncia que a organização patronal pretende criar um campeonato de futebol das empresas bananeiras! Quanto aos salários, sublinha-se que qualquer aumento prejudicaria a competitividade. É óbvio que a palavra não foi cedida a nenhum representante dos trabalhadores. De todo modo, a AEBE tem como certo de que as “reivindicações extremistas” por parte dos sindicatos levariam à “desaparição da empresa”.

Na hacienda Josefa, os “extremistas” da Fenacle se mostram todavia bastante moderados, limitando-se a exigir a aplicação do código trabalhista: pagamento dos encargos sociais e o direito assegurado de organizar-se sindicalmente. O que, no entender de seu proprietário, é conceder demais. Subordinado à Dole, segue a orientação de um de seus técnicos, demitindo em janeiro dez operários, dentre os quais quatro são dirigentes sindicais. Uma vez votada a greve, 85 assalariados ocupam o depósito de condicionamento de bananas durante quase um mês. Em 11 de fevereiro de 2006, a polícia intervém para expulsar os grevistas. Os grevistas pedem então para ver a ordem de expulsão, o que foi recusado. Na verdade, a intervenção policial não foi determinada pela Justiça. Ao contrário, tratava-se de uma medida ilegal. A decisão foi tomada para agradar a um proprietário que saberá, no momento oportuno, expressar sua gratidão [6].

Não houve confronto e os trabalhadores aceitaram retirar-se calmamente. Não é sempre assim. “Em 2002, durante o conflito de Los Alamos”, recorda Guillermo Touma, presidente da Fenacle, “a intervenção policial, apoiada por 200 pistoleiros contratados por Noboa, foi de extrema violência, resultando em uma morte e vários feridos, dentre os quais um trabalhador que teve que amputar uma perna”. Este conflito sangrento, que marcou a ressurreição do movimento sindical nos bananeirais, gerou alguns frutos. As principais companhias (Noboa, Dole, Reybanpac) tiveram que regularizar a situação trabalhista de seus empregados permanentes. “Nós estamos hoje organizados em 22 plantações, dentre as quais sete dispõem de uma seção sindical legalmente registrada”, ressalta Touma.

Choques disseminados

Mesmo assim, há meios de se evitar a concessão dos direitos trabalhistas e a constituição de frentes sindicais. O recurso a contratações temporárias por empresas de prestação de serviços é mais e mais comum. O código de trabalho equatoriano estipula um mínimo de 30 afiliados para o estabelecimento de um sindicato de empresa. A contratação intermediada por inúmeras prestadoras de serviços evita que se atinja esta cota. “Trata-se, na maioria das vezes, de empresas-fantasma, reunidas num mesmo escritório, com o mesmo número de telefone. Se você telefonar para qualquer uma delas, a resposta será: Bananera Noboa, bom dia [7].

Apesar da adoção de estratégias de combate ao sindicalismo por parte do patronato, os conflitos se multiplicam nas plantações. Ocorreram em diversas haciendas. Porém, estes conflitos acontecem isoladamente uns dos outros. A Fenacle, por sua vez, opta por negociar cada convulsão em particular, evitando assim que o movimento se alastre e radicalize. A Fenacle não aposta nas forças locais, mas espera muitos resultados decorrentes de apoios internacionais: “Quando dos acontecimentos de Los Alamos, as denúncias de organizações como a Coordenação dos Sindicatos Bananeiros da América Latina [Colsiba], a Organização Regional Interamericana dos Trabalhadores [CIOSL/ORIT], a US-LEAP ou a Banana Link [8] deram a este conflito uma repercussão internacional” Estima Touma que as campanhas de informação sobre as atividades de multinacionais como a Chiquita ou a Dole “constituem um apoio inestimável a nossas lutas”.

Na Europa, uma taxa única de 176 dólares por tonelada substitui, desde janeiro, o antigo sistema de cotas e certificados que visava regular o acesso das bananas ao mercado comum europeu. “O mais provável é que a nova regulamentação européia acabe prejudicando ainda mais os salários praticados na indústria bananeira. Dever-se-ia, outrossim, pressionar as grandes multinacionais agroindustriais e supermercados europeus e norte-americanos: em última instância, são estes que determinam as condições de trabalho impostas aos assalariados da indústria bananeira”, explica Maude Feral, da organização não-governamental Povo Solidário.

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[1] Nome dado às bananas exportadas pelos países da América do Sul e América Central.

[2] Depois de 2002, a Dole adquiriu vinte plantações no Equador.

[3] Os salários correspondem de 1,5% a 2% do preço da banana-dólar vendida em um supermercado europeu; a parte do produtor representa 10% a 15%; e o supermercado embolsa 40% do preço da fruta

[4] www.hrw.org/reports/2002/ecuador

[5] O projeto Soy, “de apoio à nossa juventude”, é sustentado pelas organizações não-governamentais Care, Save the Children, Children’s Relief Services, bem como pela Conferência Episcopal Equatoriana e a sociedade Reybanpac. É também generosamente financiado pelo Departamento de Trabalho dos Estados Unidos (United States Department of Labor). Buscando apresentar um perfil aceitável para o Congresso dos Estados Unidos, os exportadores de banana adotaram, depois de 2002, um certo número de medidas essenciais.

[6] O autor deste artigo estava presente no local no momento da intervenção da polícia. Testemunha incômoda, sem dúvida, é interrogado e detido durante 48 horas.

[7] Um relatório recente do Ministério do Trabalho estima em 4.264 as empresas de prestação de serviços, dos quais apenas 920 são registrados legalmente.

[8] www.colsiba.org ; www.usleap.org ; www.bananalink.org.uk

Jornal Le Monde
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Com idade suficiente para saber como o pai morreu na guerra

Lisa W. Foderaro
Em Lancaster, Nova York

CamerynLee tinha apenas 3 anos quando seu pai, o cabo Eric J. Orlowski, um reservista do Corpo dos Marines, foi morto em um disparo acidental durante os primeiros dias da guerra no Iraque. Agora com 8 anos, ela está repentinamente ávida por informação sobre o homem que lembra apenas vagamente: ele gostava de asa de frango tanto quanto ela? E de hóquei? Ele era engraçado?

“Quando aconteceu, eu não acho que ela entendeu plenamente”, disse sua mãe, Nicole Kross, 29 anos. “Naquela idade ela não fez muitas perguntas. Tudo está vindo agora.”

Em um sombrio lembrete da longevidade da guerra, as crianças, que eram pequenas ou bebês quando perderam um dos pais em ação, estão crescendo. No processo, elas precisam lidar com a morte de uma forma nova, mais madura, às vezes até mais dolorosa -meditando sobre um pai que mal conheceram, fazendo perguntas incisivas sobre as circunstâncias da morte e experimentando uma espécie de pesar tardio.

Família e conselheiros de luto dizem que a cobertura da guerra pela mídia, as cerimônias dedicadas e até mesmo eventos escolares -nos quais a maioria dos colegas de classe conta com a presença de ambos os pais- podem ampliar o anseio pelo pai perdido.

Para as crianças mais novas, a enxurrada de perguntas e sentimentos espinhosos freqüentemente surge no momento em que o cônjuge sobrevivente está conseguindo superar seu próprio pesar intenso, às vezes com novos namorados ou maridos em cena.

“Com 3 anos, elas têm um conceito pragmático, concreto”, disse Joanne M. Steen, co-autora de “Military Widow: A Survival Guide” (viúva militar: um guia de sobrevivência). “Elas dizem diretamente: ‘Meu pai morreu’. Mas, em momentos significativos de suas vidas, elas voltarão e revisitarão isto, o que é realmente difícil para o cônjuge sobrevivente. Em cada etapa elas acabam recontando inúmeras vezes a história de como o pai morreu.’

Todavia, muitos pais se esforçam para manter viva a memória do pai morto para seus filhos. CamerynLee e sua mãe, sentadas recentemente em sua cozinha ensolarada em Lancaster, cidade de classe média, nos arredores de Buffalo, olhavam para fotos de Orlowski, juntamente com cartas de condolências do presidente Bush e do ex-secretário de Defesa, Donald H. Rumsfeld. Do lado de fora, uma bandeira do Corpo dos Marines estava hasteada ao lado de um espantalho de Dia das Bruxas.

Kross também mostrou para sua filha uma carta que o marido escreveu de Al Kuait, que começava: “Como vão as coisas, garotas?”. Ele a encerrou dizendo a CamerynLee para que fosse “uma boa garota para a mamãe” e pedindo a Nicole, uma ex-reservista da Força Aérea, que “se cuide”.

Tradução: George El Khouri Andolfato.

The New York Times
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Reino Unido expande sua rede de ensino público

Criação de escolas gratuitas é resposta a falta de vagas nas instituições privadas. Modelos de “estatização” incluem estabelecimentos de ensino administrados por pais de alunos e os que são fundados por igrejas.

CLARA FAGUNDES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

A expansão da escola pública, promessa política tão típica dos países em desenvolvimento, está roubando a cena em um lugar improvável, o Reino Unido.
No distrito londrino de Lambeth -onde apenas 17% dos alunos do ensino básico são de origem britânica e o português é a segunda língua mais falada -, a falta crônica de vagas no ensino secundário levou a uma solução pioneira: a criação e o gerenciamento de uma escola pública pelos próprios pais.
Aberto no mês passado, o colégio Elmgreen, especializado em ciências humanas, sintetiza as propostas de expansão e de diversificação, que tentam acalmar a insatisfação generalizada com o ensino público.
É, também, uma vitrine para o governo trabalhista. Primeira escola do país a ser inaugurada já com o status de “especializada”, Elmgreen, com 180 alunos iniciais, já estampou páginas dos maiores jornais britânicos.
Veterana em entrevistas, Kate Scrase, que gerencia a fundação de pais responsável por Elmgreen, disse à Folha que a opção por humanidades é parte do esforço para formar “cidadãos conscientes e capazes de se expressar”.
“Os alunos saem das escolas públicas com uma boa formação, mas sem o nível de autoconfiança dos que freqüentaram escolas particulares”, comenta. O status de “especializada” tem significados além da retórica: são 100 mil libras extras no orçamento -ou cerca de R$ 370 mil.

Religião
A principal proposta para expandir rapidamente o ensino gratuito -atrair para o setor público as escolas independentes, muitas delas religiosas- está longe do consenso alcançado por Elmgreen.
A idéia não é nova. Uma em cada três escolas mantidas pelo governo no Reino Unido surgiu por iniciativa de igrejas. No centro do debate está, porém, a demanda reprimida por uma educação pública islâmica.
Quando, em setembro, o secretário de Escolas Ed Ball prometeu fundos para a adesão de colégios islâmicos ao sistema gratuito, a polêmica ganhou as ruas. À Folha, o DCSF (Departamento de Crianças, Escolas e Famílias) disse que está aberto a ouvir “com interesse” a proposta de qualquer colégio que deseje aderir ao sistema público, religioso ou não.
A simpatia pelas religiosas é, porém, visível: no topo das lista de melhores escolas públicas, elas passaram a receber um subsídio maior, que pode chegar a 100% dos custos de manutenção.
Mas, mesmo no departamento, há quem acredite, e diga, que as escolas religiosas “ameaçam a coesão” do país -como declarou no ano passado o secretário David Bell, irritando os muçulmanos.
“Qualquer escola que não ensine valores como o respeito pela diferença, religiosa ou não, vai passar essa mensagem [segregacionista]”, afirma o presidente do comitê de educação do Conselho Muçulmano do Reino Unido, Tahir Alam.

Guetos
À Folha, Alam ressaltou que tampouco na escola pública há, necessariamente, integração de diferentes etnias. Britânicos brancos são minoria em 20% dos distritos educacionais, quase todos em grandes cidades, e passam de 95% no interior. Na região do conjunto Tower Hamlets, em Londres, 67% dos alunos são oriundos de Bangladesh.
Alam duvida que possa haver uma corrida das escolas islâmicas para o sistema público, como especulam conservadores e militantes laicos, mas diz que a adesão seria muito bem-vinda.
“A maioria das crianças cristãs e quase 40% das judias freqüentam escolas públicas com um etos de sua religião. Menos de 1% dos 500 mil alunos muçulmanos tem essa oportunidade”, diz.
Segundo ele, o bom desempenho acadêmico das escolas religiosas é um apelo particularmente tocante para os imigrantes muçulmanos, cujos filhos costumam enfrentar maiores dificuldades no sistema educacional britânico.

Jornal Folha de S. Paulo
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A Las Vegas da antigüidade

CONSIDERADA A 2ª MARAVILHA DO MUNDO MODERNO, EM SEGUIDA À MURALHA DA CHINA, A CIDADE DE PETRA FUNDE ESTILOS QUE VÃO DO GREGO, ROMANO E EGÍPCIO AO MESOPOTÂMICO E INDIANO

ANDREW LAWLER

Burro, cavalo ou camelo?”, me pergunta o guia. Opto pelo modelo econômico, e conduzimos nossos burricos num trote tranquilo pelos vales íngremes que cercam Petra, na Jordânia, entre rochas que mudam de cor, do vermelho para o ocre e o laranja, voltando ao vermelho.
Dois mil anos atrás, a trilha hoje deserta que percorremos era uma rota de caravanas construída com habilidade e repleta de mercadores itinerantes que a percorriam a pé, soldados romanos a cavalo e comerciantes ricos que viajavam sobre camelos.
Diretamente à nossa frente há um penhasco perpendicular recoberto de entalhes elegantes que lembram os templos gregos e romanos -uma visão surreal neste vale montanhoso distante, cercado pelo deserto.
Estamos diante da porta dos fundos de Petra, cujo próprio nome significa “pedra”, em grego. Em sua época áurea, que começou no primeiro século a.C. e durou 400 anos, Petra era uma das cidades mais ricas, ecléticas e notáveis. Foi nessa época que o povo nabateu talhou as mais impressionantes de suas estruturas monumentais diretamente na pedra vermelha macia. As fachadas eram só o que restava quando viajantes chegaram aqui no século 19 e concluíram que Petra era uma cidade estranha e enigmática, feita de túmulos.
Hoje, porém, arqueólogos estão descobrindo que Petra, na Antigüidade, era uma grande cidade com jardins férteis e fontes agradáveis, templos enormes e residências luxuosas em estilo romano.
Um habilidoso sistema de fornecimento de água permitia que os moradores de Petra não apenas tivessem água para beber e se banhar mas também para cultivar trigo e frutas, produzir vinho e passear à sombra de árvores altas. Durante os séculos pouco antes e depois de Cristo, Petra era o maior centro comercial do Oriente Médio, um ímã para as caravanas que percorriam os caminhos entre Egito, Arábia e o Levante.
E hoje os estudiosos já sabem que Petra floresceu por quase mil anos -muito mais tempo do que se imaginava.
Nossos burricos retardam o passo quando nos aproximamos da maior construção de Petra não escavada na rocha, o Grande Templo. Diferentemente das cavernas escavadas nos penhascos que cercam a cidade, esse complexo foi erguido sobre o chão firme e cobria uma área maior que dois campos de futebol.

“Doutora Marta”
Meu guia, Suleiman Mohammad, aponta para uma nuvem de poeira em um lado do templo, onde encontro Martha Sharp Joukowsky numa cova, com uma dúzia de trabalhadores. Conhecida como “Doutora Marta” por três gerações de trabalhadores beduínos, a arqueóloga da Universidade Brown passou os últimos 15 anos escavando e restaurando parcialmente o complexo do Grande Templo.
Erguido durante os séculos 1º a.C. e 1º d.C., ele incluía um teatro com 600 lugares, uma colunata tripla, um enorme pátio pavimentado e, abaixo dele, salas abobadadas. Centenas de milhares de artefatos foram encontrados no sítio, desde pequenas moedas dos nabateus até pedaços de estátuas.
Quando desço para a trincheira, me sinto como se estivesse entrando num campo de batalha. Em meio ao calor e à poeira, Joukowsky comanda os escavadores como se fosse uma general -impressão reforçada por suas roupas cáqui e as insígnias douradas em seu boné de beisebol.
Esta será a última temporada de Joukowsky -aos 70 anos, ela se prepara para se aposentar-, e ela não tem tempo a perder. Eles acabam de encontrar uma área de banhos construída nos séculos 2 e 3 d.C., e a descoberta está complicando seus planos de encerrar as pesquisas dessa temporada.
Um trabalhador entrega a Joukowsky um pedaço de vidro romano e uma minúscula roseta de cerâmica. Ela pára para admirá-los, coloca-os de lado para serem catalogados e então continua a gritar ordens aos escavadores, que passam de mão em mão baldes de plástico contendo terra retirada da trincheira. A tarde chega ao meio, o sol é abrasador, a poeira, sufocante, e o dia de trabalho está quase chegando ao fim.
“Pretendia ter terminado esta parte há dois dias, mas ainda estou presa no meio desta sujeira”, diz Joukowsky, fingindo irritação e apontando para pilhas escuras de cinzas de lenha e outros combustíveis usados para aquecer a água dos banhos da elite de Petra. “Estou encerrando minha carreira num monte de cinzas.”
Apesar de toda a publicidade e do afluxo de turistas, boa parte de Petra permanece intocada pelos arqueólogos

Quando Joukowsky iniciou seu trabalho, Petra não passava de um destino turístico exótico situado num país sem recursos para financiar escavações. Os arqueólogos, de modo geral, tinham passado ao largo do sítio -localizado na periferia do Império Romano-, e apenas 2% da cidade antiga tinha sido descoberta.
Desde então, a equipe de Joukowsky, uma equipe suíça e outra americana trouxeram à tona o que foi no passado o centro político, religioso e social da metrópole, jogando por terra a idéia de que Petra não passava de uma cidade de túmulos. Ninguém sabe de onde vieram os nabateus, mas eles desenvolveram um sistema de escrita que acabou se tornando a base do árabe escrito.
Nas décadas que se seguiram à morte de Alexandre, o Grande, em 323 a.C., os gregos reclamavam dos nabateus que saqueavam navios e caravanas de camelos. Os estudiosos acreditam que essas investidas acabaram por aguçar o apetite dos nabateus pela riqueza.
Com o tempo, ao invés de atacar as caravanas, começaram a protegê-las -cobrando um preço por isso. No século 2º a.C., os nabateus já dominavam o comércio de incenso saindo do sul da Arábia.
Em 100 a.C. a tribo tinha um rei, riqueza imensa e uma capital em rápido processo de expansão. Camelos chegavam a Petra carregando caixas de olíbano e mirra de Omã, sacos de especiarias da Índia e tecidos da Síria. Tanta riqueza teria atraído saqueadores, não fosse pelo fato de que as montanhas e os muros altos de Petra protegiam os mercadores quando chegavam à cidade.
Os nabateus eram incomuns no mundo antigo por seu repúdio à escravidão, pelo papel de destaque exercido pelas mulheres na vida política e pela abordagem igualitária ao governo. Joukowsky sugere que o grande teatro do Grande Templo, que ela restaurou parcialmente, pode ter sido usado para reuniões de conselho, com espaço para receber centenas de cidadãos.

Cidade liberal
Tanta riqueza acabou atraindo a atenção de Roma, grande consumidora de incenso para uso em rituais religiosos e de especiarias usadas para fins medicinais e no preparo de alimentos. Roma anexou a Nabatéia em 106 d.C., aparentemente sem combates. Em sua época áurea, Petra era uma das cidades mais liberais da história -mais Las Vegas do que Atenas. Acostumados a viver em tendas, os nabateus primitivos não tinham tradição significativa de construção, de modo que